📖 Navegar na Bíblia:
‹

Mateus 22:23

›
✍️ Por Alberto Adriano·21 de outubro de 2026·⏱️ 29 min de leitura·👁 4 acessos
Naquele mesmo dia, aproximaram-se dele os saduceus, que dizem não haver ressurreição, e lhe perguntaram:
Grupo de homens de vestes sacerdotais aproximando-se de Jesus no pátio do templo de Jerusalém, com peregrinos ao fundo.

Estudo


Naquele mesmo dia, aproximaram-se dele os saduceus, que dizem não haver ressurreição, e lhe perguntaram:

1. Introdução

Pela primeira vez em Mateus, um partido religioso aparece com a sua doutrina escrita ao lado do nome: os saduceus, "que dizem não haver ressurreição".

O versículo é curto e carrega três coisas. Fixa o dia — o mesmo dia da moeda e do tributo, o terceiro de uma fila de delegações. Identifica o grupo que, em todo o Novo Testamento, é o único a negar expressamente aquilo que se tornaria o centro da pregação cristã. E registra que eles vieram perguntar, o que em Mateus nunca é pedido de informação.

Há também uma questão de texto na frase: os manuscritos divergem sobre uma palavra de três letras, e dela depende saber se a negação é de todos os saduceus ou apenas dos que falaram ali. O que vem a seguir é a única discussão sobre a vida depois da morte que Mateus põe na boca de adversários declarados.

2. Contexto Histórico e Cultural

Um grupo que só conhecemos pela voz de quem não gostava dele

Os saduceus não deixaram um único escrito.

Não há tratado saduceu, carta saduceia, nem fragmento que um saduceu tenha assinado. Tudo o que se sabe do grupo vem de três conjuntos de textos, e os três são de adversários: o Novo Testamento; Flávio Josefo (historiador judeu do primeiro século, que escreveu para leitores romanos depois da guerra), que se declarava simpático aos fariseus; e a literatura rabínica, herdeira direta dos fariseus e redigida quando o grupo já havia desaparecido.

Daí a cautela que acompanha tudo o que vem adiante: quando se diz "os saduceus criam que", a frase significa, com rigor, "os inimigos dos saduceus diziam que eles criam que".

O que Josefo escreveu, em detalhe

Josefo volta ao assunto quatro vezes, e os quatro trechos não dizem a mesma coisa.

Em Guerra dos Judeus 2.164-166, descreve três doutrinas. A negação do destino: o homem é a causa do próprio bem e do próprio mal. A negação da permanência da alma depois do corpo. E a negação de prêmios e castigos depois da morte. Josefo acrescenta um comentário de temperamento — eram áridos no trato, inclusive entre si.

Em Antiguidades Judaicas 18.16-17, duas informações mudam a escala do grupo. Os saduceus persuadiam poucos, e esses poucos eram os homens de primeira posição. E, ao assumirem cargos públicos, submetiam-se na prática às regras farisaicas, porque a multidão não toleraria outra coisa. É a descrição de uma elite doutrinariamente isolada, que administrava o culto segundo a religião dos governados.

Em Antiguidades 13.297 aparece o ponto que mais pesa nesta cena. Os fariseus transmitiam observâncias recebidas dos antepassados que não estão nas leis de Moisés; os saduceus as rejeitavam, e sustentavam que obriga apenas o que está escrito. Não é desprezo por tradição em geral — é uma tese sobre o que vincula: o texto, e não o acúmulo de decisões posteriores.

Em Antiguidades 20.199, Josefo apresenta Ananus, o jovem, sumo sacerdote, e explica que ele pertencia ao partido dos saduceus, "que são severos em julgar os transgressores mais do que todos os judeus". A frase desfaz uma suposição moderna automática. Quem nega o julgamento depois da morte não se torna, por isso, brando no julgamento antes dela — se não há tribunal adiante, o tribunal de agora é o único que existe.

A história que os rabinos contavam sobre a origem do grupo

Há uma narrativa rabínica sobre como o partido nasceu, e ela precisa ser lida com a data na mão.

Antígono de Soco, mestre do período helenístico, ensinava que não se deve servir a Deus como um escravo que espera salário. Segundo a narrativa, dois de seus discípulos, Sadoc e Boeto, entenderam que isso significava que não há salário nenhum — nem prêmio nem castigo — e fundaram as duas correntes que levam os seus nomes. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) reproduz essa tradição ao comentar este versículo, e menciona os "baitusitas", seguidores de Boeto.

Aparece em coleções rabínicas muito posteriores ao primeiro século, e o seu valor histórico é discutido; tratá-la como informação sobre a fundação do partido não é defensável. O que ela registra com segurança é como os herdeiros dos fariseus explicavam, séculos depois, por que havia judeus que negavam a retribuição.

Os boetusianos, aliás, aparecem na Mishná (primeira coleção escrita da tradição oral judaica, de cerca de 200 d.C.) discutindo calendário em Menahot 10:3: liam "no dia seguinte ao sábado", de Levítico 23:11, como sábado semanal e não como dia de festa, e com isso a contagem até Pentecostes caía em outras datas. É o tipo de disputa que nasce de um princípio — se vale só o escrito, vale ao pé da letra.

Dias antes desta conversa, Jesus havia expulsado do pátio os vendedores e os cambistas, isto é, havia mexido na economia de que esse grupo vivia: a disputa sobre a ressurreição chega depois de uma disputa sobre o funcionamento do templo, e não antes. O perfil social dos dois partidos e o fim do grupo em 70 d.C. foram tratados no estudo de Mateus 16:1.

3. Análise Teológica do Versículo

"Naquele mesmo dia"

Mateus amarra a cena a uma data que ele já havia aberto.

Marcos e Lucas passam dos fariseus aos saduceus sem marcar tempo. Mateus marca, e o efeito é de acúmulo: a moeda do tributo, os saduceus e o especialista na lei de Mateus 22:35 ocupam o mesmo dia. Três delegações, uma tarde. Quem avança por esse capítulo não vê uma série de debates avulsos — vê um cerco.

O texto não diz que dia da semana era. A conta tradicional, que põe a entrada em Jerusalém no domingo, faz deste a terça-feira, e o Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) adota essa datação — razoável, e reconstrução: depende de harmonizar os quatro evangelhos, que não se encaixam sem ajuste.

"aproximaram-se dele os saduceus"

A iniciativa é deles, como foi dos fariseus no versículo 15 — e o verbo da aproximação já foi examinado no estudo de Mateus 16:1. O que muda é quem se aproxima: até aqui discutia com Jesus o partido dos mestres leigos, com os seus aliados políticos; agora vem a aristocracia do templo, o grupo que decidia no tribunal e detinha o sumo sacerdócio. Em poder efetivo, a delegação mais pesada das três, e a única que traz uma tese doutrinária em vez de uma armadilha política.

"que dizem não haver ressurreição"

Esta é a única vez em Mateus que um partido religioso recebe a sua doutrina ao lado do nome.

Nas sete aparições anteriores — de Mateus 3:7 a Mateus 16:12 — eles vêm sempre em par com os fariseus e sempre sem doutrina. Aqui, e só aqui, Mateus para a narrativa para informar ao leitor em que eles não acreditavam. A informação é necessária: quem não sabe que o grupo negava a ressurreição lê o caso dos sete irmãos como curiosidade jurídica, e não como provocação.

O tempo do verbo faz trabalho. Não é "disseram" nem "haviam dito": é "dizem", no presente. A negação não é uma frase pronunciada naquele dia — é a posição que eles sustentam, a bandeira do partido. Meyer (Heinrich August Wilhelm Meyer, comentarista alemão do século XIX) observa justamente isso.

Há uma divergência de manuscritos nesta frase, e ela muda o alcance do que se afirma. Numa das leituras, a oração é uma definição do partido: os saduceus são aqueles que dizem não haver ressurreição. Na outra, é uma descrição dos que falaram: aproximaram-se saduceus, dizendo não haver ressurreição. A primeira atribui a negação ao grupo todo; a segunda, apenas aos presentes. A ABC segue o Textus Receptus e traz a oração definidora; o detalhe gramatical fica no item 10.

Resta saber o que estava sendo negado, e os comentaristas divergem: Benson (Joseph Benson, comentarista metodista inglês dos séculos XVIII e XIX) entende que eles negavam a sobrevivência da alma; Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX) soma corpo ressurreto, estado futuro, almas separadas, anjos e espíritos; Bengel (Johann Albrecht Bengel, comentarista alemão do século XVIII) admite variação dentro do próprio grupo. Não é possível decidir: o grupo não deixou texto próprio.

Por que a negação não era leviana

Aqui está o ponto que a pregação corrente quase sempre omite, e sem ele toda esta cena fica torta.

Se vale apenas o que está escrito nos cinco livros de Moisés, a ressurreição não é obrigatória. Procure em Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio uma frase que afirme que os mortos se levantarão: ela não está lá. Há promessas de terra, de descendência, de vida longa, de bênção sobre os filhos; há a morte descrita como reunir-se aos seus; não há a volta dos mortos como esperança anunciada.

Os textos que afirmam a ressurreição em termos claros estão fora da Torá e são tardios. Daniel 12:2 fala dos que dormem no pó e despertam; Isaías 26:19, dos mortos que vivem; Ezequiel 37 trabalha com ossos secos que se levantam, numa visão que o próprio capítulo explica como figura do povo exilado. Nenhum desses livros era, para os saduceus, fonte de obrigação.

A posição deles era, portanto, coerente com o princípio que eles próprios defendiam. Não é ignorância do texto; é uma leitura restritiva do que o texto obriga a crer. É possível achar essa leitura errada — Jesus a trata como erro quatro versículos adiante — sem supor que ela fosse estúpida. E é isso que explica a estratégia da resposta: em Mateus 22:31-32, Jesus não cita Daniel, que decidiria a questão numa frase, e vai a Êxodo, argumentando dentro do cânone que o adversário aceita.

A posição deles, aliás, está mais perto do Antigo Testamento do que se costuma supor. A imagem dominante da morte nos textos hebraicos antigos não é a da ressurreição: é a da descida a um lugar de silêncio, de onde não se louva nem se age — e Gênesis 25:8, ao dizer que Abraão "foi reunido ao seu povo", já trata do assunto. A esperança da ressurreição é desenvolvimento posterior e, dentro da Bíblia hebraica, minoritário. Quem negava, no primeiro século, estava mais perto da letra dos livros antigos do que quem afirmava. É um dado desconfortável, e é um dado.

"e lhe perguntaram"

Mateus usa para esta delegação o mesmo verbo que usa para a seguinte, em Mateus 22:35, e isso nivela as três abordagens do capítulo numa só série de interrogatórios.

O que ele não faz é qualificar a intenção. Dos fariseus, no versículo 15, diz que combinaram um plano para apanhá-lo; do especialista na lei, no versículo 35, diz que perguntou "para testá-lo"; e Jesus chama os primeiros de hipócritas no versículo 18. Dos saduceus, Mateus não diz nada parecido. Não há "para tentá-lo", não há plano, não há acusação de hipocrisia — e, quando Jesus responde, no versículo 29, a palavra é "enganados".

Essa diferença de tratamento é consistente dentro do capítulo e é escolha, não descuido. Os comentaristas vão na direção oposta — o Pulpit Commentary fala de "leveza" e "grosseria" na pergunta, Gill diz que a intenção era prender Jesus numa cilada —, e podem estar certos quanto à intenção. Mas quem escreve isso é o comentarista; Mateus deixou em branco, e Jesus respondeu a um erro, não a uma má-fé.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Os saduceus

Aparecem em Mateus como personagem coletivo e nunca como indivíduo.

Em todo o Novo Testamento não há um único saduceu com nome. Eles entram em grupo, falam em grupo e saem em grupo — ao contrário dos fariseus, de quem se conhecem nomes, como Nicodemos, em João 3:1, e Paulo, que se declara fariseu em Atos 23:6. Para alguém da aristocracia do templo, o Novo Testamento usa o cargo e a família: Anás e Caifás, em Lucas 3:2 e em Atos 4:6. Nenhum recebe a etiqueta partidária.

O único saduceu nomeado em qualquer fonte antiga é Ananus, o jovem, filho de Anás, que Josefo apresenta como membro do partido. Como Caifás era genro de Anás, isso torna plausível que a casa inteira fosse saduceia — plausível, não demonstrado.

O lugar

A cena está no recinto do templo, em Jerusalém, e não numa sala de estudo.

Mateus 21:23 põe Jesus ensinando no templo quando a primeira delegação chega, e nada no capítulo 22 indica mudança de lugar. O recinto não era espaço fechado para doutores: era um pátio enorme, de circulação intensa, e nos dias que antecediam a Páscoa estava cheio de peregrinos. O versículo 33 confirma a plateia ao registrar que "as multidões ficaram admiradas".

Isso muda o que a pergunta é. Um debate técnico sobre casamento e ressurreição, feito diante de peregrinos que não eram especialistas, não serve para esclarecer dúvida — serve para desacreditar alguém diante de testemunhas.

O dia

A sequência começa com a pergunta sobre a autoridade, em Mateus 21:23, feita pelos chefes dos sacerdotes e pelos anciãos; seguem três parábolas aos mesmos interlocutores; depois a delegação dos fariseus com os herodianos, a respeito do tributo; depois os saduceus, aqui; depois um especialista na lei; então Jesus inverte a direção e pergunta, em Mateus 22:41-45; e tudo termina em Mateus 22:46, quando ninguém mais ousa perguntar. A cena dos saduceus é o terceiro de cinco rounds, e o único em que a disputa é sobre doutrina, e não sobre autoridade, política ou interpretação da lei.

Os que estão fora de cena

Os fariseus saíram no versículo 22 e voltam no versículo 34, e o texto diz o que os fez voltar: ouviram que ele havia feito os saduceus calarem-se.

Ou seja: estavam por perto, acompanhando. E o que os traz de volta é o resultado de um debate em que a posição defendida por Jesus era a posição deles — os fariseus criam na ressurreição. Em vez de aproveitarem a vitória, enviam o próximo interrogador. Esse detalhe é facilmente perdido, e é dos mais reveladores do capítulo a respeito de qual era o verdadeiro assunto. Não era a ressurreição.

5. Pontos de Ensino

Dá-se para negar uma doutrina com a Bíblia na mão

O erro dos saduceus não foi desprezar a Escritura; foi restringir o que nela obriga. O problema não está no rigor, está no tamanho da régua: quem lê a Bíblia por um pedaço dela chega a conclusões firmes e incompletas, e firmeza não é sinal de acerto.

Argumentar dentro das fontes que o outro aceita

Quatro versículos adiante, Jesus terá à disposição Daniel 12:2, que resolveria o debate numa frase, e não o usará.

Ele vai a Êxodo, que o adversário aceita. É método, e é método exigente: obriga a conhecer a posição do outro bem o bastante para saber o que ele admite como prova. Ganhar uma discussão citando uma autoridade que o interlocutor não reconhece não é ganhar — é encerrar a conversa.

Doutrina produz consequência, mas não a que se supõe

Pela descrição de Josefo, os saduceus negavam o julgamento depois da morte e eram os mais severos dos judeus no julgamento durante a vida.

Cai por terra a equação automática entre negar a retribuição futura e ser indulgente. A conclusão prática pode ser inversa: sem tribunal adiante, o tribunal daqui carrega todo o peso. Crenças sobre o fim das coisas se convertem em conduta de maneiras menos previsíveis do que se imagina.

Erro e má-fé não são a mesma acusação

Aos fariseus do versículo 18, Jesus chama hipócritas. Aos saduceus, no versículo 29, diz que estão enganados.

A distinção é de diagnóstico. Hipocrisia é saber e fingir; engano é não saber. As duas coisas exigem resposta, e as respostas não são iguais — a uma se opõe denúncia, à outra, ensino. Confundir as duas transforma toda divergência em desonestidade, e é o atalho mais comum do debate religioso.

6. Aspectos Filosóficos

Antes de perguntar se os mortos voltam, é preciso saber o que voltaria

Toda negação carrega uma pergunta anterior: nega-se a volta de quê?

A tradução portuguesa sugere uma resposta pronta — volta o corpo. Mas o que Josefo atribui aos saduceus é a negação de que a alma permaneça depois da morte, e são duas teses diferentes: uma diz que nada sobrevive, a outra diz que o que sobrevive não se reveste de corpo outra vez. Quem separou essas teses com mais insistência na filosofia contemporânea foi Eric Olson, filósofo norte-americano que trabalha com a questão da identidade pessoal.

A tese de Olson: nós somos animais

Olson defende o que chama de animalismo, exposto em O Animal Humano (1997) e em O Que Somos Nós? (2007).

A tese é simples de enunciar e difícil de aceitar: cada um de nós é um organismo biológico, um animal da espécie humana. Não é que eu tenha um corpo — eu sou esse corpo vivo. E, se é assim, as condições para que eu continue existindo são as condições para que esse organismo continue existindo.

O argumento central é de contagem. Se, além do animal sentado nesta cadeira, houvesse também uma pessoa — uma coisa distinta do animal, feita de consciência ou de memória —, haveria dois pensadores aqui, pensando exatamente os mesmos pensamentos. Olson considera esse resultado inaceitável e conclui que há um só: o animal. Disso decorre o que ele chama de tese do término: quando o organismo morre, ele deixa de existir, e o cadáver não é eu em outro estado — é outra coisa, que começou a existir quando eu deixei de existir.

O que isso faz com a pergunta dos saduceus

O animalismo retira dos saduceus o seu melhor argumento, e ao mesmo tempo o reforça.

Reforça porque torna a sobrevivência muito mais difícil do que a filosofia grega a fazia parecer. Se não há uma alma que seja eu e que apenas se desacompanhe do corpo, não existe nenhum candidato natural à continuidade. A morte não é a separação de duas peças: é o fim do único item que havia.

E retira porque mostra que a negação saduceia, tal como Josefo a descreve, mira num alvo que o texto cristão não defende. Negar que a alma persista não é negar a ressurreição: pode-se sustentar que nada de nós dura entre a morte e o fim, e ainda assim sustentar que haverá levantamento — porque o levantamento, nesse caso, não é a continuação de um fio, é um ato novo sobre um ser que havia cessado. Olson observa que a doutrina da ressurreição corporal combina melhor com o animalismo do que com a alma imortal, justamente porque o que ela promete é um corpo, e não um espírito liberto. O preço é uma dificuldade conhecida, que ele leva a sério e não resolve com facilidade: se eu deixei de existir, o que se levanta é a mesma pessoa ou uma cópia?

Onde a doutrina bíblica se encaixa

O Novo Testamento não argumenta a favor da ressurreição a partir da imortalidade da alma. Em 1 Coríntios 15, o argumento é um acontecimento — alguém se levantou, e por isso outros se levantarão —, não uma propriedade da natureza humana. E a resposta de Jesus, neste capítulo, não dirá que os patriarcas têm almas imortais; dirá que Deus é Deus deles, e que ele não é Deus de mortos. O fundamento é a relação com Deus, não uma peça indestrutível dentro da pessoa — e a imortalidade da alma como doutrina já foi tratada no estudo de Gênesis 25:8.

Cabe a advertência de método: Olson escreve no século XXI, não comenta este versículo e não pretende dizer o que Mateus quis dizer. O que a aproximação permite afirmar é modesto e útil — a pergunta "quem ressuscita?" não é a mesma que "o que sobrevive?", e boa parte da confusão que cerca este capítulo nasce de tomá-las por uma só. Qualquer doutrina de vida futura precisa dizer o que torna o ressurreto aquele mesmo e não outro parecido; o texto bíblico não escolhe entre as respostas possíveis, e quem afirmar que escolhe está acrescentando.

7. Aplicações Práticas

Diga a posição do outro antes de responder a ela

Mateus informa ao leitor o que os saduceus negavam, e informa sem adjetivo.

Em qualquer discussão séria — numa reunião de trabalho, numa conversa de família, num debate público — esse é o passo que quase todo mundo pula. Expor a tese do outro em uma frase, sem caricatura, antes de dizer por que ela não serve. Quem consegue fazer isso descobre duas coisas: às vezes a tese caricaturada não era a tese, e às vezes a resposta que estava pronta não responde.

O teste é prático: se você não consegue enunciar a posição que combate de modo que o adversário a reconheça como sua, ainda não está discutindo com ela.

Use as fontes que o seu interlocutor aceita

De nada adianta citar o que o outro não reconhece como autoridade.

O cristão que discute com quem não lê a Bíblia e responde com versículo não está convencendo — está encerrando. Jesus, neste capítulo, tinha Daniel disponível e foi a Êxodo, porque Êxodo era o que o adversário aceitava. Encontrar o terreno comum dá trabalho e às vezes significa descobrir que ele é pequeno. Mas argumentar fora dele é falar sozinho em voz alta.

Distinga quem erra de quem mente

No mesmo capítulo, Jesus chama uns de hipócritas e diz de outros que estão enganados.

A diferença não é de educação, é de diagnóstico, e ela muda a resposta. A quem engana, cabe denúncia; a quem se engana, cabe explicação. Tratar todo discordante como desonesto é cômodo — dispensa o trabalho de responder — e costuma estar errado. Vale inverter o teste: quando alguém discorda de você, a primeira hipótese é que ele seja mal-intencionado, ou que esteja vendo outra coisa?

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Se a Torá não ensina a ressurreição, de onde ela veio?

De uma crise concreta, e a datação é razoavelmente firme.

No século II antes de Cristo, sob a perseguição do rei selêucida Antíoco IV, judeus foram mortos por recusarem abandonar a lei. Isso criou um problema que os textos antigos não tinham enfrentado: pessoas fiéis morriam exatamente por causa da fidelidade, e a promessa de vida longa e prosperidade sobre a terra, que a Torá oferece ao justo, falhava diante dos olhos. Daniel 12:2, escrito nesse ambiente, fala dos que dormem no pó e despertam, uns para a vida eterna, outros para o opróbrio. A esperança da ressurreição aparece, nos textos que chegaram até nós, como resposta a mortes que a teologia da retribuição em vida não conseguia explicar.

Isso é descrição histórica, e não juízo sobre a verdade da doutrina. Dizer quando uma crença se formulou não é dizer que ela é falsa.

Os saduceus eram ateus?

Não, e a confusão é frequente.

Eram sacerdotes. Dirigiam os sacrifícios, mantinham o culto e sustentavam a autoridade dos livros de Moisés. O que negavam era a sobrevivência depois da morte e, com ela, prêmios e castigos futuros. A combinação soa estranha hoje porque a religião moderna costuma ter o além como centro; naquele mundo, uma religião podia girar inteira em torno do culto, da terra e da descendência, sem precisar do depois.

Todo judeu que cria em vida futura cria em ressurreição?

Não. Havia mais de uma posição em circulação.

O livro da Sabedoria de Salomão, escrito em grego em Alexandria, fala das almas dos justos na mão de Deus, numa linguagem que se aproxima da imortalidade grega e não da volta do corpo. Fílon de Alexandria, judeu contemporâneo de Jesus e formado na filosofia grega, pensa a vida futura em termos de alma, não de carne. Os textos achados junto ao mar Morto apresentam ainda outro quadro, e os especialistas discutem o quanto há ali de ressurreição propriamente dita.

A disputa deste capítulo, portanto, não é entre os que creem e os que não creem. É entre posições judaicas distintas, e os saduceus ocupavam a mais restritiva delas.

Jesus está adotando a posição farisaica?

Nesse ponto, sim — e só nesse ponto.

Na ressurreição dos mortos, Jesus está do lado dos fariseus contra os saduceus, e Paulo explorará isso em Atos 23:6 ao dividir o tribunal com uma frase. Isso não faz dele fariseu: o mesmo evangelho traz disputas duras com eles sobre pureza, sábado e tradição oral, e a concordância não impediu que voltassem a interrogá-lo poucos minutos depois.

Se o grupo acabou há quase dois mil anos, por que isto importa?

Porque a posição sobreviveu ao partido. A tese de que a morte é o fim, e de que a religião deve ocupar-se desta vida, não precisou dos saduceus para continuar existindo — e o que o episódio oferece não é a refutação de um grupo extinto, mas o registro de como uma objeção desse tipo foi formulada por quem tinha o texto na mão.

9. Conexão com Outros Textos

As outras aparições dos saduceus em Mateus

Mateus 3:7 — "Mas, ao ver muitos dos fariseus e saduceus que vinham ao seu batismo, disse-lhes: Raça de víboras! Quem ensinou vocês a fugir da ira que está para vir?"

Mateus 16:1 — "Então os fariseus e os saduceus se aproximaram e, para testá-lo, pediram que lhes mostrasse um sinal vindo do céu."

Nas duas vezes anteriores eles vêm acompanhados dos fariseus, e nas duas nada se diz sobre a doutrina deles. Aqui, no capítulo 22, vêm sozinhos e com a tese declarada.

Como Marcos e Lucas dizem a mesma coisa

Marcos 12:18 — "Então vieram a ele os saduceus, os quais dizem que não há ressurreição, e perguntaram-lhe."

Lucas 20:27 — "E chegaram alguns dos saduceus, os quais dizem que não há ressurreição."

Dois detalhes separam as versões. Nenhum dos dois marca o dia, enquanto Mateus abre com "naquele mesmo dia". E Lucas escreve "alguns dos saduceus", o que limita o grupo presente e deixa a doutrina atribuída ao partido inteiro.

O registro mais completo, e por que a pregação cristã bateu neles

Atos 23:8 — "Porque os saduceus dizem que não há ressurreição, nem anjo, nem espírito; mas os fariseus afirmam ambas as coisas."

Atos 4:1-2 — "E, falando eles ao povo, sobrevieram os sacerdotes, e o capitão do templo, e os saduceus, doendo-se muito de que ensinassem o povo e anunciassem em Jesus a ressurreição dos mortos."

Lucas, em Atos, dá a lista que Mateus não dá, no único lugar do Novo Testamento em que a diferença entre os dois partidos é formulada como informação direta ao leitor. E registra a consequência: a primeira oposição institucional contra a igreja de Jerusalém não é sobre a identidade de Jesus nem sobre a lei — é sobre a ressurreição. O grupo deste versículo é o primeiro a prender apóstolos, e prende por causa da doutrina que Mateus associou ao nome deles.

Os textos que afirmam a ressurreição, e a imagem contrária

Daniel 12:2 — "E muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para vergonha e confusão perpétua."

Isaías 26:19 — "Os teus mortos viverão, os meus corpos ressuscitarão; despertai e exultai, vós que habitais no pó."

São as duas afirmações mais explícitas do Antigo Testamento, e nenhuma das duas está na Torá: quem reduz a autoridade aos cinco livros de Moisés fica sem esses versículos.

Salmos 6:5 — "Porque na morte não há lembrança de ti; no sepulcro, quem te louvará?"

Eclesiastes 9:5 — "Porque os vivos sabem que hão de morrer, mas os mortos não sabem coisa nenhuma, nem tampouco têm eles jamais recompensa."

Versículos como estes descrevem a morte como fim da consciência e da ação. Estão no mesmo cânone, são mais numerosos que os da ressurreição e explicam por que a posição saduceia tinha apoio textual. A tensão entre as duas famílias de passagens nunca foi harmonizada de modo pacífico.

O que a igreja fez dessa questão

1 Coríntios 15:12-13 — "Ora, se Cristo é pregado, que ressuscitou dos mortos, como dizem alguns entre vós que não há ressurreição de mortos? E, se não há ressurreição de mortos, também Cristo não ressuscitou."

Paulo enfrenta, numa igreja grega, a mesma negação que os saduceus sustentavam no templo — e a enfrenta por outro caminho. Não discute o cânone nem o que a Torá autoriza: liga a ressurreição dos mortos a um acontecimento. Duas estratégias diante da mesma objeção, e a diferença depende de com quem se fala.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Naquele mesmo dia, aproximaram-se dele os saduceus, que dizem não haver ressurreição, e lhe perguntaram:

Texto grego (Textus Receptus)

Ἐν ἐκείνῃ τῇ ἡμέρᾳ προσῆλθον αὐτῷ Σαδδουκαῖοι, οἵ λέγοντες μὴ εἶναι ἀνάστασιν, καὶ ἐπηρώτησαν αὐτὸν,

Transliteração

En ekeinē tē hēmera prosēlthon autō Saddoukaioi, hoi legontes mē einai anastasin, kai epērōtēsan auton.

Análise palavra por palavra

Ἐν ἐκείνῃ τῇ ἡμέρᾳ — en ekeinē tē hēmera, "naquele dia". O caso é o dativo, que em grego situa no tempo: não duração, mas um ponto. Ekeinos é o demonstrativo de distância, "aquele", em oposição a houtos, "este". A fórmula é um hábito de Mateus: abre Mateus 13:1, abre este versículo e, com a preposição trocada, fecha a sequência em Mateus 22:46 — "daquele dia em diante".

προσῆλθον αὐτῷ — prosēlthon autō, "aproximaram-se dele". Aoristo de proserchomai, com o dativo indicando a quem. O verbo e o que ele implica sobre a iniciativa dos interlocutores foram examinados no estudo de Mateus 16:1.

Σαδδουκαῖοι — Saddoukaioi, "saduceus". Vem sem artigo, o que em grego costuma apontar para um grupo indeterminado — alguns deles —, e não para o partido inteiro. A origem do nome, ligada a Zadoque, já foi tratada no estudo de Mateus 16:1.

οἵ λέγοντες — hoi legontes. É aqui que os manuscritos divergem, e a divergência é de uma palavra de três letras.

Com a palavra presente, como traz o Textus Receptus, há duas leituras gramaticais possíveis. Lida como artigo definido, hoi substantiva o particípio: "os que dizem", a designação do partido. Lida como pronome relativo — e é assim que Scrivener e Stephanus a acentuam, com acento agudo, οἵ, quando o artigo normalmente se escreve sem acento —, a oração vira "os quais dizem". O português "que dizem" cobre as duas.

Sem a palavra, como trazem Westcott e Hort, Tischendorf, Nestle e a edição da Sociedade Bíblica, sobra o particípio solto: legontes, "dizendo". A oração deixa de definir o partido e passa a descrever os presentes.

Meyer argumenta a favor da presença da palavra, e compara com Marcos 12:18, onde o grego traz hoitines legousin — pronome relativo de valor qualitativo ("os quais, como tais, dizem") seguido de verbo conjugado. O peso dos manuscritos favorece a omissão; o Texto Majoritário bizantino e a edição grega ortodoxa de 1904 conservam a palavra, e a ABC segue o Textus Receptus.

μὴ εἶναι — mē einai, "não haver". Infinitivo presente do verbo "ser", precedido da negação mē.

O grego tem duas negações: ou, que nega fatos, e mē, que nega possibilidades, desejos e proibições — e um leitor avisado disso poderia concluir que os saduceus negavam a ressurreição com alguma reserva. Não é o caso: depois de verbos de dizer, quando o conteúdo vem em infinitivo, a negação regular em grego é mē, sem escolha estilística nenhuma. A construção é a forma grega do discurso indireto, equivalente ao nosso "dizem que não há".

ἀνάστασιν — anastasin, acusativo de anastasis, "ressurreição". Palavra formada de ana, "para cima", com a raiz de histēmi, "pôr-se de pé": ao pé da letra, "levantamento".

O campo de sentido é mais largo do que o do português. Em Lucas 2:34, Simeão diz que a criança está posta "para queda e anastasis de muitos em Israel", e ali a palavra não tem nada a ver com mortos — significa erguimento, ascensão de posição. No Novo Testamento ela aparece pouco mais de quarenta vezes, quase sempre no sentido técnico da volta dos mortos; o uso de Lucas mostra que esse sentido é um recorte, e não o significado natural da palavra.

Isso tem efeito sobre a reconstrução da tese saduceia. No sentido amplo, eles negavam qualquer vida depois da morte; no estrito, negavam especificamente o levantamento do corpo. A palavra, por si, não decide. Note-se, para o versículo seguinte, que o verbo da mesma raiz está dentro da citação que os saduceus fazem da lei, aplicado a "levantar descendência" ao irmão morto.

καὶ ἐπηρώτησαν αὐτὸν — kai epērōtēsan auton, "e lhe perguntaram". Aoristo de eperōtaō, composto de epi com erōtaō, "perguntar". O prefixo intensifica: é o verbo do interrogatório, do inquérito dirigido a alguém de quem se exige resposta, e não o da curiosidade. Mateus o reserva para situações de teste: a cura no sábado, em Mateus 12:10; o pedido de sinal, em Mateus 16:1; a pergunta sobre Elias, em Mateus 17:10; esta cena; a pergunta do especialista na lei, em Mateus 22:35; a pergunta que Jesus inverte, em Mateus 22:41; e o interrogatório de Pilatos, em Mateus 27:11.

As variantes

Scrivener (1894) e Stephanus (1550) trazem οἵ λέγοντες; o Texto Majoritário bizantino e a edição grega ortodoxa de 1904 trazem a mesma palavra com a acentuação do artigo; a Sociedade Bíblica, Nestle 1904, Westcott e Hort e Tischendorf a omitem. As demais diferenças são de pontuação e de acento final, sem consequência de sentido.

11. Conclusão

Mateus interrompeu a narrativa para informar uma doutrina, e não o fez por gosto de detalhe: sem a oração "que dizem não haver ressurreição", a pergunta dos sete irmãos seria um exercício de direito de família. Com ela, a pergunta é uma objeção, e o leitor sabe disso antes de ouvi-la.

Da descrição que as fontes antigas fazem do grupo decorre que o adversário aqui não é um descrente. É uma elite sacerdotal que lia com rigor um conjunto restrito de livros e tirava dele a conclusão que ele realmente autoriza. Isso obriga a abandonar o retrato do saduceu como cético frívolo: a posição era textualmente sustentável, e a resposta que vem adiante leva em conta esse fato ao escolher de onde argumentar.

Do silêncio de Mateus sobre a intenção deles decorre uma assimetria que o capítulo mantém até o fim. Aos fariseus o texto atribui plano e teste; a estes, nada. Quem lê o episódio como mais uma armadilha está acompanhando os comentaristas, e não o evangelista.

E do que a Torá não diz decorre a consequência mais desconfortável deste versículo: a esperança da ressurreição não está nos livros mais antigos da Bíblia, e quem a nega no primeiro século está mais próximo da letra deles do que quem a afirma. A resposta de Jesus não contorna esse dado — vai buscar, num versículo sobre o Deus dos patriarcas, um fundamento que o adversário não podia recusar.

Comentários

Seja o primeiro a comentar.

Deixe um comentário

Mateus 22:23

Seu comentário passa por moderação antes de aparecer.

A Bíblia Comentada
© A Bíblia Comentada 2026. Design by Top Level
📖 Versículos comentados
Bíblia2.888 / 31.102 9,29%
Antigo Testamento2.114 / 23.145 9,13%
Novo Testamento774 / 7.957 9,73%