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Mateus 17:10

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✍️ Por Alberto Adriano·14 de setembro de 2026·⏱️ 20 min de leitura·👁 27 acessos
Os seus discípulos lhe perguntaram: “Por que, então, os mestres da lei dizem que Elias precisa vir primeiro?”
Três discípulos caminhando atrás de Jesus numa trilha de montanha, um deles apressando o passo e estendendo a mão como quem faz uma pergunta, com vale e aldeia ao longe.

Estudo


Os seus discípulos lhe perguntaram: “Por que, então, os mestres da lei dizem que Elias precisa vir primeiro?”

1. Introdução

Mal saem da ordem de silêncio, os três fazem uma pergunta. E a pergunta não é sobre a luz, nem sobre a voz, nem sobre a ressurreição que Jesus acabou de mencionar. É sobre Elias.

Isso já diz muito. De tudo o que viram, o que ficou atravessado foi a presença de Elias no monte — e a dificuldade de encaixá-la no que tinham aprendido.

O versículo tem três pontos que o estudo desenvolve.

O primeiro é o "então". A pergunta começa tirando uma consequência de alguma coisa, e o texto não diz de quê. Há mais de uma possibilidade, e cada uma muda o sentido da pergunta.

O segundo é a autoridade citada. Os discípulos não dizem "a Escritura diz"; dizem "os mestres da lei dizem". Trazem a Jesus o ensino da escola, e não o texto de Malaquias.

O terceiro é o "primeiro". Elias precisa vir antes — mas antes de quê? A frase não completa, e as fontes judaicas completam de modos diferentes.

A expectativa da volta de Elias, com a promessa de Malaquias e o arrebatamento de 2 Reis 2:11, está exposta no estudo de Mateus 16:14 e não se repete aqui. O item 2 examina outra questão: o que se pode provar, pelas fontes, sobre o que os mestres da lei de fato diziam.

2. Contexto Histórico e Cultural

Quem eram os mestres da lei

A expressão traduz o termo que outras versões vertem por "escribas": os especialistas na interpretação das Escrituras, que ensinavam, decidiam casos e formavam alunos. Não eram um partido como os fariseus, e sim uma profissão — havia escribas entre os fariseus e fora deles. Para este versículo basta um dado: quando os discípulos citam "os mestres da lei", citam o ensino corrente das escolas, a opinião de quem tinha autoridade para dizer o que a Escritura significava.

O que as fontes realmente mostram

A pergunta dos discípulos pressupõe uma doutrina conhecida: Elias vem antes. A promessa de Malaquias 4:5 e o comentário de Eclesiástico 48:10 são a base dela, já apresentada no estudo de Mateus 16:14.

O problema histórico é outro, e é mais fino do que parece. Malaquias diz que Elias virá antes do "dia do SENHOR". Não diz que virá antes do Messias. O Messias não aparece em Malaquias 4.

Em 1981, o estudioso judeu norte-americano Morris Faierstein publicou um artigo que tomou exatamente essa pergunta e concluiu que quase não há texto judaico anterior aos evangelhos em que Elias apareça como precursor do Messias. A ideia de Elias antes do dia do juízo está documentada; a ideia de Elias antes do Messias, segundo ele, praticamente não. A hipótese de Faierstein era que a combinação "Elias, depois o Messias" talvez fosse, em boa parte, formulação cristã.

Três anos depois, Dale Allison (estudioso norte-americano do Novo Testamento, autor de um grande comentário a Mateus) respondeu na mesma revista. Admitiu que as provas são escassas, mas argumentou que não são nulas, e que a própria pergunta dos discípulos — posta na boca deles como coisa sabida, sem explicação ao leitor — é indício de que a ideia circulava.

O debate não foi encerrado. Registrá-lo importa porque mostra que o versículo não é só eco de uma crença bem documentada: é, ele mesmo, um dos documentos da crença.

As peças que existem

Um fragmento aramaico encontrado nas cavernas de Qumran, catalogado como 4Q558, conserva uma frase interrompida: "por isso enviarei Elias antes de...". O texto se perde aí. Sabe-se que ecoa Malaquias; não se sabe o que vinha depois da palavra "antes".

Justino Mártir (escritor cristão de origem samaritana, morto em Roma por volta de 165 d.C.) compôs o Diálogo com Trifão, conversa com um judeu instruído. Em dois pontos, é Trifão quem expõe a expectativa judaica. No capítulo 8, diz que o Cristo, se já nasceu, é desconhecido, nem sequer sabe quem é e não tem poder nenhum até que Elias venha, o unja e o manifeste a todos. No capítulo 49, repete que todos esperam que Elias, ao vir, unja o Cristo.

O testemunho tem limites: é do século II, escrito por um cristão, e é discutido se Trifão foi pessoa real ou personagem. Mas a posição atribuída a ele não favorece o cristianismo — é justamente a objeção que Justino precisa responder —, o que torna menos provável que tenha sido inventada.

E há uma terceira linha, que liga Elias não ao Messias, mas à ressurreição. No fim do tratado Sotá da Mishná (9:15), numa passagem que muitos consideram acréscimo posterior, uma escada de virtudes termina assim: a ressurreição dos mortos virá por meio de Elias.

O que se pode concluir

Elias antes do dia do juízo: documentado com segurança. Elias antes do Messias: documentado de modo esparso, sobretudo em fontes posteriores. Elias ligado à ressurreição: documentado na tradição rabínica. As três ideias circularam em algum momento, e o item 3 mostra que a frase dos discípulos pode estar apontando para qualquer uma delas.

3. Análise Teológica do Versículo

"Os seus discípulos lhe perguntaram"

Quem pergunta são os três que desceram — o versículo 9 acabou de separá-los dos demais, e a conversa continua entre eles.

O primeiro dado é que a ordem de silêncio não calou a curiosidade. Eles não podem contar a ninguém, mas podem perguntar a quem estava lá. A dúvida nasceu da visão e é levada direto a Jesus.

O segundo é o que eles escolhem perguntar. Havia muito a entender: por que o rosto brilhou, o que Moisés e Elias conversavam com ele, o que significava ressuscitar dos mortos. A pergunta é sobre um só ponto, e é um ponto de doutrina. Os três saem de uma experiência que não tem explicação e tentam encaixá-la no que já sabiam.

"Por que, então"

Aqui está o nó do versículo. "Então" tira uma consequência. De quê?

O texto não diz, e há pelo menos três ligações possíveis, cada uma com apoio no contexto.

A primeira liga a pergunta à aparição de Elias. Eles acabaram de ver Elias. Se Elias devia vir antes, então veio agora? Mas veio para três pessoas, num monte, por alguns instantes, e foi embora sem fazer nada visível. Não é o Elias que os mestres anunciavam. A pergunta, nesta leitura, é: se era para ser assim, por que os mestres dizem outra coisa?

A segunda liga a pergunta à ordem de silêncio. Se Elias apareceu e isso não pode ser contado, a vinda de Elias fica escondida. Como pode ser precursor alguém cuja vinda ninguém fica sabendo?

A terceira liga a pergunta à identidade de Jesus. Pedro confessou em Mateus 16:16 que Jesus é o Cristo, e a voz do monte acabou de confirmar. Mas, se Elias precisa vir antes do Cristo, e Elias não veio publicamente, o que os mestres ensinam serve de objeção: o Cristo não pode estar aqui ainda. Nesta leitura, os discípulos estão repetindo um argumento que talvez ouvissem contra o próprio mestre. É exatamente a objeção que, no século II, Justino põe na boca do judeu Trifão (item 2).

As três leituras não se excluem, e não é possível decidir entre elas. A terceira é a mais forte, porque explica por que a pergunta incomoda. A primeira é a mais próxima da cena, porque a visão está a um passo de distância.

"os mestres da lei dizem"

Os discípulos não citam Malaquias. Citam os mestres.

O detalhe mostra como a Escritura chegava a eles: pela boca de quem ensinava. A promessa de Malaquias não era, para aqueles pescadores, um texto consultado; era uma doutrina ouvida, já com a interpretação dentro.

E repare que eles não põem os mestres sob suspeita. A pergunta não é "os mestres estão errados?". É "por que dizem isso?" — um pedido para reconciliar duas autoridades, a da escola e a do que viram. Jesus, no versículo seguinte, começa dando razão aos mestres antes de corrigi-los. Os discípulos esperavam uma explicação, não uma demolição, e é isso que recebem.

O verbo está no presente: dizem. Não "disseram uma vez", mas "costumam dizer", "é o que se ensina". A doutrina era corrente.

"que Elias precisa vir"

O "precisa" traduz a palavra grega da necessidade — a mesma do anúncio da paixão em Mateus 16:21, analisada naquele estudo.

O paralelo não parece casual. Na boca de Jesus, "é necessário" que o Filho do homem sofra. Na boca dos mestres, "é necessário" que Elias venha antes. Duas necessidades, dois roteiros para o fim — e os discípulos, entre um e outro, sem saber como juntar.

"primeiro"

A palavra final é a mais aberta da frase. Primeiro em relação a quê?

Se a referência é o dia do SENHOR, a frase repete Malaquias e o sentido é: antes do juízo, Elias.

Se é o Messias, a frase é a objeção descrita acima.

Se é a ressurreição, a ligação é com a última palavra que Jesus disse, no versículo 9: "até que o Filho do homem ressuscite dentre os mortos". Jesus falou de ressurreição, e a tradição que o item 2 mostra na Mishná associava a ressurreição dos mortos à vinda de Elias. A pergunta seria: como pode haver ressurreição, se Elias ainda não veio para prepará-la?

Esta terceira leitura tem a vantagem da proximidade — responde à frase imediatamente anterior. Tem a desvantagem de depender de uma tradição documentada só depois. É uma hipótese, e das boas.

O que falta na pergunta

Um nome não aparece: João Batista.

Em Mateus 11:14, Jesus já tinha dito, a respeito de João, "ele é o Elias que havia de vir", com a condição "se vocês quiserem aceitar". Os discípulos ouviram isso, ou pelo menos estavam por perto. E, diante da questão de Elias, não se lembram. A identificação que Jesus propôs não entrou no modo como eles pensavam o assunto.

O versículo 13 vai registrar o momento em que ela entra. Aqui, o dado é a ausência: a pergunta é feita como se Mateus 11:14 não tivesse existido.

E há um segundo silêncio. No monte apareceram dois, Moisés e Elias. A pergunta é só sobre Elias. Moisés não gera dúvida nenhuma. Havia a promessa de um profeta "como Moisés", mas não havia, que se saiba, ensino de escola que pusesse a volta do próprio Moisés como condição para alguma coisa. O que perturba não é ter visto um morto ilustre; é ter visto justamente aquele sobre quem havia um calendário.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Os discípulos — Pedro, Tiago e João, os três que desceram do monte. O texto diz apenas "os discípulos", sem nomear quem falou; a pergunta vem como do grupo.

Jesus — Destinatário da pergunta. Não responde neste versículo; a resposta ocupa os versículos 11 e 12.

Os mestres da lei — Os especialistas nas Escrituras, citados como fonte da doutrina (ver o item 2). Não estão presentes na cena. Mateus os mostra em Mateus 2:4-5 sabendo dizer onde o Cristo nasceria — são, no evangelho, gente que conhece o texto das promessas.

Elias — O profeta do século IX a.C., de Tisbé, cuja saída de cena sem morte e cuja volta prometida foram tratadas no estudo de Mateus 16:14. Aqui ele é duas coisas ao mesmo tempo: o homem que os discípulos acabaram de ver no monte, no versículo 3, e a figura do calendário dos mestres. A pergunta nasce da distância entre os dois.

Moisés — Apareceu com Elias no monte, mas não entra na pergunta. A ausência dele é informativa (ver o item 3).

João Batista — Não é mencionado. Jesus já o tinha identificado com Elias em Mateus 11:14, e a pergunta é feita como se isso não tivesse sido dito. O nome dele aparecerá no versículo 13.

O caminho da descida — Continua o cenário. A conversa acontece em movimento, antes da chegada à multidão.

5. Pontos de Ensino

A experiência gera perguntas de doutrina. Os três não perguntam sobre o que sentiram. Perguntam como o que viram se encaixa no que aprenderam. A visão não substituiu o ensino recebido; entrou em conflito com ele e pediu explicação.

A Escritura chegava pela boca dos mestres. Os discípulos citam "os mestres da lei", não o profeta. O texto bíblico já vinha interpretado, e é a interpretação que eles trazem.

Perguntar não é desautorizar. A pergunta não acusa os mestres de erro. Pede para reconciliar duas fontes de autoridade. É esse o tom que a resposta de Jesus vai respeitar.

O que se ouviu não é o mesmo que o que se assimilou. Jesus já tinha dito, em Mateus 11:14, que João era o Elias esperado. Diante da questão, os discípulos não se lembram. Uma afirmação ouvida pode ficar sem uso por muito tempo.

Duas necessidades em choque. Os mestres diziam que era necessário Elias vir antes; Jesus dizia que era necessário o Filho do homem sofrer. Os discípulos estão entre dois roteiros e não sabem juntá-los.

A pergunta é, ela mesma, documento. Uma frase dita como coisa sabida mostra que a doutrina circulava — e o item 2 mostra que, para parte dela, este versículo é uma das poucas provas que existem.

6. Aspectos Filosóficos

Quando o que se viu contradiz o que se aprendeu

O versículo põe em cena um conflito comum no conhecimento humano: de um lado, o que se sabe por ter ouvido de quem tem autoridade; de outro, o que se sabe por ter visto.

Há duas saídas rápidas, e os discípulos não tomam nenhuma. A primeira seria descartar o ensino: "vimos, logo os mestres estão errados". A segunda seria descartar a experiência: "os mestres dizem outra coisa, logo não vimos o que pensamos ter visto". Eles fazem a terceira coisa, a mais trabalhosa: mantêm as duas e perguntam como se ligam.

A questão filosófica por trás é a do valor do testemunho alheio. Quase tudo o que qualquer pessoa sabe foi recebido de outros, e não verificado por conta própria. A experiência direta, quando surge, não tem automaticamente mais peso: pode estar mal interpretada. E o ensino recebido não tem automaticamente mais peso: pode estar incompleto.

O versículo não resolve a questão em geral. Mostra um caso em que a solução não é escolher uma fonte contra a outra, e sim encontrar a leitura que dá conta das duas — o que o versículo 11 vai fazer.

7. Aplicações Práticas

Levar a contradição para uma pergunta.

Quem vive uma experiência que não combina com o que aprendeu costuma resolver sozinho, em silêncio, escolhendo um lado. Os discípulos fazem outra coisa: formulam a dificuldade com clareza e a levam a quem pode ajudar. A pergunta é precisa — cita a fonte, diz qual é o ponto — e isso a torna respondível.

Citar a fonte com honestidade.

Eles não disfarçam de onde vem a ideia. Dizem "os mestres da lei dizem", mesmo falando com alguém que tinha conflito aberto com esses mestres. Numa discussão, dizer de onde se tirou uma opinião, sem vergonha e sem esconder, é o que permite examiná-la.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

1. O Elias que apareceu no monte era "a vinda de Elias" anunciada?

O texto não trata a aparição dessa forma. Jesus, nos versículos seguintes, não diz "Elias acabou de vir"; diz que Elias "já veio" e aponta para outra pessoa. A aparição no monte e a vinda prometida ficam, no evangelho, como coisas distintas. Por que o mesmo Elias aparece e, ao mesmo tempo, sua vinda é atribuída a outro, o texto não explica.

2. Os discípulos tinham ouvido Mateus 11:14?

O texto de Mateus 11 não diz que eles estavam presentes; a fala é dirigida às multidões. É plausível que estivessem, porque acompanhavam Jesus. Mas não é possível afirmar que ouviram — e isso tornaria o esquecimento menos estranho.

3. Os mestres da lei usavam essa doutrina contra Jesus?

Mateus não registra nenhuma discussão desse tipo. O argumento aparece, no século II, na boca de Trifão (item 2). Que já circulasse contra Jesus em vida é hipótese, não fato documentado.

4. Por que a pergunta vem logo depois de uma ordem de silêncio?

Porque o silêncio era para fora, e a dúvida era de dentro. Mas pode haver ligação mais direta, examinada no item 3: se a vinda de Elias fica escondida, como ele pode ser o precursor que todos veriam? A pergunta pode ser uma reação à própria ordem.

9. Conexão com Outros Textos

A mesma pergunta em Marcos

Marcos 9:11 — "E perguntaram a ele: 'Por que os escribas dizem que Elias tem de vir primeiro?'"

Praticamente igual. A diferença é que, em Marcos, a pergunta vem depois da discussão sobre o que seria ressuscitar dos mortos, o que reforça a ligação entre Elias e a ressurreição examinada no item 3.

O que os discípulos acabaram de ver

Mateus 17:3 — "Nisso apareceram a eles Moisés e Elias, conversando com Jesus."

A origem da pergunta. Elias foi visto; resta saber se isso é a vinda anunciada.

O que já tinha sido dito

Mateus 11:14 — "E, se vocês quiserem aceitar, ele é o Elias que havia de vir."

A resposta estava dada antes da pergunta, e não foi usada.

A sequência esperada, na boca de outros

João 1:25 — "Então por que você batiza, se não é o Cristo, nem Elias, nem o Profeta?"

Os enviados de Jerusalém a João Batista trabalham com uma lista de figuras esperadas, e Elias está nela como figura própria, distinta do Cristo.

João 7:27 — "Mas nós sabemos de onde este homem é; quando o Cristo vier, ninguém saberá de onde ele é."

Outra peça da expectativa popular: um Cristo escondido até ser revelado. É parente da ideia que Trifão expõe no século II, a de um Cristo desconhecido até que Elias o manifeste.

A competência dos mestres

Mateus 2:4-5 — "E, reunindo todos os chefes dos sacerdotes e os escribas do povo, perguntava-lhes onde o Cristo haveria de nascer. E eles lhe disseram: Em Belém da Judeia, porque assim está escrito pelo profeta."

Os mesmos especialistas, no início do evangelho, acertando sobre a promessa. Mateus não os apresenta como ignorantes do texto.

Mateus 23:2-3 — "Os escribas e os fariseus se assentam na cadeira de Moisés. Portanto, tudo o que eles disserem a vocês, façam e observem. Mas não imitem as obras deles, porque dizem e não fazem."

A autoridade de ensino dos mestres é reconhecida por Jesus no próprio evangelho. Ajuda a entender por que ele, no versículo seguinte, começa concordando com eles.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Os seus discípulos lhe perguntaram: “Por que, então, os mestres da lei dizem que Elias precisa vir primeiro?”

Texto grego

καὶ ἐπηρώτησαν αὐτὸν οἱ μαθηταὶ αὐτοῦ λέγοντες, Τί οὖν οἱ γραμματεῖς λέγουσιν ὅτι Ἠλίαν δεῖ ἐλθεῖν πρῶτον;

Transliteração

kai epērōtēsan auton hoi mathētai autou legontes, Ti oun hoi grammateis legousin hoti Ēlian dei elthein prōton?

Análise palavra por palavra

ἐπηρώτησαν — epērōtēsan, "perguntaram". Aoristo de eperōtaō.

O verbo é formado de epi, "sobre", mais erōtaō, "perguntar". O prefixo às vezes dá à pergunta um tom de insistência, de interrogação dirigida; na língua comum do século I, porém, o composto já era muitas vezes usado como simples "perguntar". Não é possível decidir se aqui há ênfase.

Mateus usa o mesmo verbo para perguntas de adversários que querem testar Jesus, como em Mateus 12:10 e 16:1. Aqui a pergunta vem de discípulos e não tem hostilidade — o que mostra que o verbo, sozinho, não carrega tom de disputa.

αὐτὸν — auton, "a ele". Objeto da pergunta: Jesus.

οἱ μαθηταὶ αὐτοῦ — hoi mathētai autou, "os seus discípulos".

Mathētēs vem de manthanō, "aprender": é "o que aprende", o aluno. O pronome autou, "seus", está no Textus Receptus e falta em parte dos manuscritos antigos; a diferença não altera o sentido.

Há uma ironia na palavra que o grego deixa visível: os alunos de Jesus trazem a ele o que aprenderam com outros professores.

λέγοντες — legontes, "dizendo". Particípio presente de legō, que introduz a fala.

Τί οὖν — Ti oun, "por que, então".

Ti é o pronome interrogativo "que", "o quê"; em perguntas assim funciona como "por quê". Oun é a partícula de consequência: "portanto", "então". Liga a pergunta ao que veio antes, sem dizer a quê. O item 3 examina as ligações possíveis.

οἱ γραμματεῖς — hoi grammateis, "os escribas", "os mestres da lei".

Plural de grammateus, de gramma, "letra", "escrito". Na origem, o termo designava quem sabia escrever: o secretário, o escrivão, o funcionário que redigia documentos. No judaísmo do período, passou a nomear o especialista nas Escrituras. A tradução "mestres da lei" dá a função; "escribas" dá a origem da palavra.

λέγουσιν — legousin, "dizem". Presente de legō.

O presente aqui descreve o que se diz habitualmente: o ensino corrente, e não uma declaração isolada.

ὅτι — hoti, "que". Introduz o conteúdo do que os mestres dizem.

Ἠλίαν — Ēlian, "Elias". Forma do nome como objeto da frase.

É a forma grega do hebraico Eliyyahu, nome que traz dentro o nome divino. A análise do nome e da figura já foi feita nos estudos de Mateus 11:14 e 16:14.

δεῖ — dei, "é necessário", "precisa".

O verbo impessoal da necessidade, estudado em Mateus 16:21. Vale só marcar o paralelo: no anúncio da paixão, a necessidade é o sofrimento do Filho do homem; aqui, na boca dos mestres, a necessidade é a vinda prévia de Elias.

ἐλθεῖν — elthein, "vir". Infinitivo aoristo de erchomai.

O aoristo vê a vinda como um acontecimento único, e não como processo. É o mesmo verbo que Jesus usará no versículo 12, no passado: "Elias já veio".

πρῶτον — prōton, "primeiro", "antes".

Advérbio de ordem. Indica que algo acontece antes de outra coisa, mas a frase não diz o que é essa outra coisa. O vazio é da própria língua da pergunta, e é por isso que o item 3 pode propor três complementos — o dia do SENHOR, o Messias ou a ressurreição — sem que nenhum esteja escrito.

11. Conclusão

Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.

A primeira é que a visão do monte não foi recebida como resposta, e sim como problema. Os discípulos não descem dizendo "agora entendemos"; descem perguntando. O que viram entrou em choque com o que tinham aprendido, e o texto registra o choque sem apressar a solução.

A segunda é que a pergunta é mais aberta do que parece. O "então" e o "primeiro" deixam lacunas que a frase não preenche, e as fontes judaicas oferecem mais de um preenchimento. Por isso não se pode reduzir a pergunta à forma simples "Elias antes do Messias": ela pode estar ligada à aparição, ao silêncio ou à ressurreição recém-mencionada.

A terceira é de ordem histórica. Sendo escassa a documentação judaica anterior sobre Elias como precursor do Messias, este versículo é, ele próprio, uma das testemunhas de que a ideia era ensinada. Quem o lê como simples eco de uma crença bem conhecida inverte a relação: é a frase dos discípulos que ajuda a mostrar que a crença existia.

Fica, por fim, a ausência de João Batista na pergunta. A resposta que Jesus já tinha dado não estava disponível para eles, e o versículo marca o ponto de partida do entendimento que só o versículo 13 registra.

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