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Mateus 17:3

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✍️ Por Alberto Adriano·14 de setembro de 2026·⏱️ 19 min de leitura·👁 39 acessos
Nisso apareceram a eles Moisés e Elias, conversando com Jesus.
Dois homens de aparência antiga, envoltos em luz, conversando com Jesus no alto de um monte, enquanto três discípulos observam a alguns passos de distância.

Estudo


Nisso apareceram a eles Moisés e Elias, conversando com Jesus.

1. Introdução

O versículo põe mais duas pessoas no monte, e as duas vêm de muito longe no tempo.

O primeiro ponto é o modo como chegam. O texto não diz que os discípulos as viram chegar, nem de onde vieram. Diz que "apareceram a eles", com um verbo que a Bíblia grega reserva para aparições de Deus, de anjos e, mais tarde, do ressuscitado.

O segundo é quem são. Moisés e Elias. A pergunta "por que esses dois?" tem várias respostas antigas, e nenhuma dá conta de tudo.

O terceiro é o que fazem: conversam com Jesus. Não com os discípulos. E Mateus não diz o assunto — ao contrário de Lucas, que diz.

Há ainda o problema de fundo, que outros estudos já trataram: Moisés morreu, segundo o Deuteronômio, e aparece falando. O versículo não comenta.

2. Contexto Histórico e Cultural

Dois homens de fim incomum

O leitor judeu do século I não recebia Moisés e Elias como dois mortos quaisquer. Os dois tinham, na memória de Israel, um fim fora do comum.

O de Elias é conhecido: ele não morreu, subiu num redemoinho, e a expectativa da sua volta foi tratada no estudo de Mateus 16:14.

O de Moisés é menos lembrado hoje, e era muito discutido naquela época.

O túmulo que ninguém conhece

Deuteronômio 34:5-6 diz que Moisés morreu na terra de Moabe e que Deus o sepultou num vale, "e ninguém sabe, até hoje, onde fica o seu túmulo". A frase é estranha para um povo que guardava com cuidado os túmulos dos patriarcas. O maior dos profetas é o único grande antepassado sem lugar de sepultura.

Esse silêncio alimentou tradições.

Flávio Josefo (historiador judeu do século I, que escreveu para leitores romanos) conta a despedida de Moisés nas Antiguidades Judaicas, no livro 4. Enquanto ele abraçava Eleazar e Josué, uma nuvem parou de repente sobre ele, e ele desapareceu num vale. E Josefo acrescenta um comentário notável: Moisés teria escrito nos livros sagrados que morreu, com medo de que dissessem que, por causa da sua virtude extraordinária, ele tinha ido para junto de Deus.

O comentário diz mais sobre o tempo de Josefo do que sobre Moisés. Mostra que, no século I, havia gente dizendo exatamente isso — que Moisés não morrera como os outros —, e que um historiador judeu sentia necessidade de responder.

Fílon de Alexandria (filósofo judeu contemporâneo de Jesus) vai em outra direção, na Vida de Moisés. No fim da vida, diz ele, Moisés foi chamado a sair do corpo, e Deus transformou a sua natureza dupla, de corpo e alma, numa unidade só, mudando-o inteiramente em mente, pura como a luz do sol. É linguagem de filósofo platônico, e não descreve uma aparição. Mas mostra que a passagem de Moisés era narrada, no judaísmo de língua grega, como transformação em luz.

O corpo disputado

A carta de Judas, no versículo 9, menciona uma disputa entre o arcanjo Miguel e o diabo "a respeito do corpo de Moisés". Nenhum texto do Antigo Testamento conta essa história. Autores cristãos antigos, como Orígenes, dizem que ela vinha de um livro chamado Assunção de Moisés. Existe um texto judaico do século I conhecido por esse nome (ou por Testamento de Moisés), mas o manuscrito que sobreviveu está incompleto, e o final, onde estaria a disputa, se perdeu.

O que se pode afirmar é pouco: circulava uma tradição sobre o destino do corpo de Moisés, e o Novo Testamento a conhecia.

Os dois juntos no fim do Antigo Testamento

Há um lugar em que Moisés e Elias aparecem lado a lado, e ele é bem conhecido de qualquer leitor da Bíblia cristã: as últimas linhas de Malaquias. Malaquias 4:4 manda lembrar "a Lei do meu servo Moisés", e Malaquias 4:5, na frase seguinte, promete enviar "o profeta Elias" antes do dia do SENHOR.

Na ordem cristã dos livros, são as duas últimas figuras nomeadas antes do Novo Testamento. Na Bíblia hebraica a ordem é outra, e Malaquias não fecha o conjunto, mas o par está lá do mesmo jeito.

3. Análise Teológica do Versículo

"Nisso apareceram a eles"

O verbo diz como os dois entram na cena, e ele não é neutro.

O português "apareceram" corresponde, no grego, a uma forma passiva de "ver": literalmente, "foram vistos". É o verbo que a Bíblia grega usa quando Deus aparece a Abraão, quando o anjo aparece a Moisés na sarça — Êxodo 3:2, "Ali o anjo do SENHOR lhe apareceu numa chama de fogo" — e, no Novo Testamento, quando o ressuscitado aparece a Pedro e aos outros, na lista de 1 Coríntios 15:5-8.

O que esse uso tem em comum é a iniciativa. Quem aparece é quem se deixa ver. Os três discípulos não procuraram, não invocaram, não "tiveram uma visão" por esforço próprio. Os dois foram vistos por eles.

E "a eles". O texto não diz "apareceram a Jesus". A aparição é registrada do ponto de vista das testemunhas, como o versículo anterior registrou a transfiguração "diante deles".

O problema que o versículo não trata

Moisés morreu, e Deuteronômio 34:5 o diz com todas as letras. Aqui ele aparece e fala. A tensão entre esta cena e os textos que negam aos mortos qualquer atividade foi exposta no estudo de Mateus 16:14, e a contraprova está lá. O item 2 mostrou por que, no século I, Moisés não era lembrado como um morto qualquer. Mateus não comenta nada disso: apresenta os dois e segue.

"Moisés e Elias"

A pergunta que os leitores fazem há dezenove séculos é: por que esses dois? O texto não responde, e as leituras propostas são quatro.

A primeira, e a mais popular, diz que os dois representam a Lei e os Profetas — as duas grandes partes da Escritura de Israel, que Mateus nomeia juntas em Mateus 5:17, 7:12 e 11:13. Jesus apareceria entre elas como quem as cumpre. A objeção é concreta: Elias não deixou nenhum livro. Se o ponto fosse representar os escritos proféticos, o nome esperado seria Isaías ou Jeremias. A leitura funciona se "os Profetas" for entendido como o conjunto dos homens, e não dos livros — o que é possível, mas enfraquece a simetria.

A segunda diz que os dois são os homens que tiveram um encontro com Deus num monte. Moisés, no Sinai, pediu para ver a glória de Deus e viu-o passar, em Êxodo 33:18-23. Elias, no Horebe — o mesmo monte, com outro nome —, esperou numa caverna e ouviu a voz depois do vento, do terremoto e do fogo, em 1 Reis 19:9-13. Os dois têm quarenta dias ligados a esse monte — Moisés dentro da nuvem, em Êxodo 24:18; Elias a caminho dele, em 1 Reis 19:8 —, e agora estão num monte de novo. Essa leitura tem a vantagem de explicar a cena por ela mesma.

A terceira diz que os dois são as figuras esperadas para o fim: o profeta como Moisés prometido em Deuteronômio 18:15, e Elias, prometido em Malaquias. O fundo dessa expectativa está no estudo de Mateus 16:14. Nessa leitura, a presença dos dois diria que o tempo esperado chegou. O versículo 10, logo adiante, mostra que os discípulos saíram do monte pensando justamente em Elias.

A quarta diz que os dois são profetas rejeitados. Moisés passou quarenta anos ouvindo o povo murmurar contra ele, e Elias fugiu da rainha que queria matá-lo. Postos ao lado de Jesus seis dias depois do anúncio da morte, eles seriam companhia de quem sabe o que é ser recusado pelos seus. É a leitura mais sugestiva e a de menos apoio no texto.

As quatro não se excluem, e é provável que mais de uma estivesse na cabeça de quem ouviu a história pela primeira vez. Nenhuma pode ser dada como a intenção de Mateus.

A ordem dos nomes

Um detalhe que só aparece na comparação. Marcos 9:4 escreve "Elias com Moisés" — Elias primeiro, Moisés como acompanhante. Mateus e Lucas invertem: "Moisés e Elias". A ordem de Mateus é a da cronologia e a da importância na tradição judaica. É plausível que a correção seja dele; não se sabe por que Marcos pôs Elias na frente.

Como os discípulos souberam quem eram?

O texto não diz, e a pergunta não é tola. Não havia retratos. A tradição judaica não fazia imagens de pessoas, e ninguém ali tinha visto Moisés ou Elias.

Mas no versículo seguinte Pedro os chama pelo nome, e ninguém lhe explicou nada que o texto registre. As hipóteses — que a conversa revelou os nomes, que o reconhecimento foi dado junto com a visão, que o evangelho usa os nomes que os discípulos souberam depois — são todas plausíveis e nenhuma é demonstrável. O dado é que o texto trata a identificação como óbvia.

"conversando com Jesus"

A conversa é com ele. Os discípulos estão presentes e excluídos. Três homens do passado e do futuro de Israel falam entre si, e os três do presente olham.

O verbo indica conversa de verdade, em andamento — não um oráculo, não um discurso. Os dois não aparecem para anunciar nada aos discípulos, não dirigem a eles nenhuma palavra, e vão desaparecer sem ter falado com eles.

Mateus não diz o assunto. Lucas 9:31 diz: falavam da "partida" que Jesus ia cumprir em Jerusalém, e a palavra grega de Lucas é "êxodo". É uma informação preciosa, e é de Lucas. Quem a coloca na leitura de Mateus está harmonizando os evangelhos, o que é legítimo desde que se diga. Em Mateus, a conversa é um silêncio com três participantes.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Moisés

O libertador do Egito e o mediador da Lei no Sinai. Segundo Deuteronômio 34, morreu aos cento e vinte anos no monte Nebo, em Moabe, depois de ver de longe a terra em que não entraria, e foi sepultado por Deus num lugar que ninguém conhece.

No Sinai, teve dois encontros de monte que interessam a esta cena: os quarenta dias dentro da nuvem, em Êxodo 24:18, e o pedido de ver a glória, em Êxodo 33:18-23. Ao descer, o seu rosto brilhava — o assunto está no estudo do versículo 2.

Elias

Profeta do reino do norte, de Tisbé, em Gileade, no século IX a.C. A história dele está em 1 Reis 17 a 2 Reis 2: a seca anunciada a Acabe, o desafio aos profetas de Baal no Carmelo, a fuga da rainha Jezabel, a caminhada de quarenta dias até o Horebe, a voz na caverna e o arrebatamento num carro de fogo.

O que os dois têm em comum

Ambos têm quarenta dias ligados ao monte de Deus: Moisés passou-os lá em cima, Elias caminhou-os até lá. Ambos ouviram Deus falar ali. Nenhum dos dois tem túmulo conhecido. E ambos, nos últimos versículos de Malaquias, são nomeados juntos. Jesus, que em Mateus 4:2 passou quarenta dias no deserto, completa um trio que os comentaristas notam há muito tempo.

Jesus

Aqui ele é interlocutor. Não é apresentado como superior aos dois nem como igual — isso fica para os versículos 4 e 5, onde Pedro põe os três no mesmo nível e a voz desfaz a igualdade.

Os três discípulos

Testemunhas mudas. Veem, e não participam da conversa.

O acontecimento em Lucas

Lucas 9:30-32 acrescenta três coisas que Mateus não tem: o assunto da conversa, a partida em Jerusalém; a informação de que os discípulos estavam pesados de sono; e o detalhe de que só "acordados" viram a glória e os dois homens.

5. Pontos de Ensino

A iniciativa é de quem aparece

O verbo apresenta os dois como vistos, e não como procurados. A cena não ensina a buscar contato com figuras do passado; registra uma aparição que ninguém pediu.

Não há resposta única para "por que Moisés e Elias"

Lei e Profetas, os homens do monte, as figuras do fim, os profetas rejeitados: as quatro leituras têm apoio, e nenhuma esgota a cena. Ensinar uma delas como a única é simplificar o texto.

Não importar Lucas para dentro de Mateus sem avisar

O assunto da conversa é informação de Lucas. Mateus a omitiu, e a omissão faz parte do que ele escreveu.

Os discípulos são testemunhas, não participantes

Ninguém fala com eles. A primeira coisa que um deles vai dizer, no versículo seguinte, é interrupção de uma conversa alheia.

6. Aspectos Filosóficos

Reconhecer alguém que nunca se viu

O versículo levanta, sem querer, uma questão sobre o que é conhecer uma pessoa.

Há duas maneiras de saber quem alguém é. Uma é pelo contato: vi, ouvi, convivi. A outra é pela descrição: sei o que se conta dele, e o reconheço quando algo corresponde ao que se conta. Quase tudo o que sabemos sobre figuras do passado é do segundo tipo.

Pedro, no versículo seguinte, chama os dois pelo nome. Ele não tinha conhecimento do primeiro tipo, e a descrição que tinha de Moisés e Elias não incluía rosto. O texto trata o reconhecimento como imediato e não explica de onde veio. Quem lê fica diante de uma identificação que não se apoia em nenhum dos dois caminhos comuns — e o texto não parece achar isso um problema.

A questão da identidade pessoal depois da morte — se é a mesma pessoa, e o que faz dela a mesma — está suposta na cena e não é discutida. O versículo não dá matéria para resolvê-la, e é melhor não fingir que dá.

7. Aplicações Práticas

Estar presente numa conversa que não é sua

Os três discípulos assistem a uma conversa de que não fazem parte, e ninguém lhes explica nada. Isso acontece em escala menor na vida de qualquer um: reuniões em que não se tem voz, decisões de família tomadas por outros, assuntos que dizem respeito a alguém e que ele só ouve de longe. O texto não tira lição disso, mas descreve a situação sem aflição — e o primeiro que tentar entrar na conversa, no versículo 4, vai ser interrompido.

Onde a aplicação não vai

O versículo não autoriza nenhuma prática de contato com mortos. A aparição é contada como iniciativa de fora, feita uma vez, e não como algo que se possa provocar ou repetir.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Moisés e Elias estavam com o corpo?

O texto não diz. Elias, segundo 2 Reis 2:11, foi levado sem morrer; Moisés morreu e foi sepultado. Se a aparição dos dois foi do mesmo tipo, algo precisa ser explicado num dos casos — e Mateus não explica nenhum. As tradições sobre o fim de Moisés, no item 2, mostram que o problema já era sentido no século I.

Por que eles não falam com os discípulos?

Não se sabe. O texto concentra a cena em Jesus, e os discípulos são o público. Qualquer motivo que se atribua ao silêncio dos dois em relação aos três é suposição.

O que conversavam, segundo Mateus?

Mateus não diz. A informação de Lucas — a partida que Jesus cumpriria em Jerusalém — é a única disponível, e combina com o contexto do anúncio da morte. Mas é de Lucas.

A presença de Elias quer dizer que Elias "já veio"?

É exatamente a pergunta que os discípulos fazem no versículo 10, e a resposta de Jesus nos versículos 11 a 13 vai por outro lado. O assunto pertence àqueles versículos.

9. Conexão com Outros Textos

Os paralelos

Marcos 9:4 — "E apareceu-lhes Elias com Moisés, e eles conversavam com Jesus."

Elias primeiro, Moisés como acompanhante.

Lucas 9:30-31 — "E dois homens conversavam com ele: eram Moisés e Elias, que apareceram em glória e falavam da partida dele, que ele estava para cumprir em Jerusalém."

O assunto da conversa, que só Lucas registra.

O fim de Moisés e o de Elias

Deuteronômio 34:5-6 — "Ali morreu Moisés, servo do SENHOR, na terra de Moabe, conforme a palavra do SENHOR. Ele o sepultou num vale, na terra de Moabe, diante de Bete-Peor; e ninguém sabe, até hoje, onde fica o seu túmulo."

A morte registrada, e o túmulo desconhecido.

Judas 9 — "Mas o arcanjo Miguel, quando disputava com o diabo a respeito do corpo de Moisés, não se atreveu a pronunciar contra ele um juízo injurioso, mas disse: O Senhor o repreenda."

A única menção bíblica à tradição sobre o corpo de Moisés.

Os dois juntos

Malaquias 4:4-5 — "Lembrem-se da Lei do meu servo Moisés, dos estatutos e decretos que lhe ordenei no Horebe para todo o Israel. Eis que eu enviarei a vocês o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível dia do SENHOR."

O par, nas últimas linhas do Antigo Testamento na ordem cristã — e o Horebe nomeado ao lado de Moisés.

Apocalipse 11:6 — "Estes têm autoridade para fechar o céu, para que não chova durante os dias da sua profecia, e têm autoridade sobre as águas, para convertê-las em sangue."

As duas testemunhas do Apocalipse, com o poder de Elias sobre a chuva e o de Moisés sobre as águas do Egito. É a leitura cristã posterior do mesmo par.

Os dois no monte de Deus

Êxodo 33:22-23 — "Quando a minha glória passar, eu o porei numa fenda da rocha e o cobrirei com a minha mão até que eu tenha passado. Depois tirarei a mão, e você me verá pelas costas; mas a minha face não se verá."

1 Reis 19:11-12 — "E eis que o SENHOR passou. Um vento grande e forte fendia os montes, mas o SENHOR não estava no vento; depois do vento, um terremoto, mas o SENHOR não estava no terremoto; depois do terremoto, um fogo, mas o SENHOR não estava no fogo; e, depois do fogo, o som de um silêncio suave."

Os dois homens que, no monte, não viram a face de Deus. Agora estão num monte diante de um rosto que brilha.

O verbo das aparições

Êxodo 3:2 — "Ali o anjo do SENHOR lhe apareceu numa chama de fogo, do meio de uma sarça. Moisés olhou: a sarça ardia no fogo, e a sarça não se consumia."

1 Coríntios 15:5-6 — "E apareceu a Cefas e depois aos doze. Depois apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma só vez."

O mesmo verbo grego da aparição de Moisés e Elias, usado para a sarça e para o ressuscitado.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Nisso apareceram a eles Moisés e Elias, conversando com Jesus.

Texto grego

καὶ ἰδού, ὤφθησαν αὐτοῖς Μωσῆς καὶ Ἠλίας, μετ᾽ αὐτοῦ συλλαλοῦντες.

Transliteração

kai idou, ōphthēsan autois Mōsēs kai Ēlias, met' autou syllalountes.

Análise palavra por palavra

καὶ ἰδού — kai idou, "e eis que".

Idou é, na origem, um imperativo de "ver": "olhe!". Na prática funciona como partícula que chama a atenção para o que vem. Mateus a usa mais de sessenta vezes, muitas vezes na forma kai idou, que imita o hebraico vehinneh das narrativas do Antigo Testamento.

Ela marca surpresa e mudança de cena. A ABC a traduziu por "nisso", que dá o efeito de súbito sem o tom arcaico de "eis que". O mesmo kai idou abrirá, duas vezes, o versículo 5.

ὤφθησαν αὐτοῖς — ōphthēsan autois, "foram vistos por eles", "apareceram a eles".

Aoristo passivo do verbo horaō, "ver". A forma passiva desse verbo, com o dativo da pessoa, é a construção grega corrente para "aparecer a alguém".

Na Septuaginta, é a forma de Gênesis 12:7 ("o SENHOR apareceu a Abrão"), de Gênesis 17:1 e de Êxodo 3:2, com o anjo na sarça. No Novo Testamento, é a forma usada para o anjo que aparece a Zacarias em Lucas 1:11, para as línguas de fogo em Atos 2:3 e, sobretudo, para as aparições do ressuscitado: a Simão em Lucas 24:34, e a Cefas, aos doze, aos quinhentos, a Tiago e a Paulo em 1 Coríntios 15:5-8.

Não é o verbo de quem vê algo por acaso. É o verbo de quem é mostrado.

Há uma variante. O Textus Receptus, que a ABC segue, traz o verbo no plural, ōphthēsan, concordando com os dois nomes. Os manuscritos mais antigos, como o Sinaítico e o Vaticano, trazem o singular ōphthē. O singular com sujeito composto é normal em grego quando o verbo vem antes dos sujeitos, e concorda com o primeiro. O sentido não muda.

Autois, "a eles", é o dativo do pronome e se refere aos três discípulos.

Μωσῆς καὶ Ἠλίας — Mōsēs kai Ēlias, "Moisés e Elias".

Mōsēs é a grafia do Textus Receptus; outras edições escrevem Mōÿsēs, com uma vogal a mais, forma mais próxima da Septuaginta. As duas representam o hebraico Mosheh.

Ēlias representa o hebraico Eliyyahu, nome formado por El (Deus) e uma forma abreviada do nome divino: "o meu Deus é o SENHOR". O nome é, ele mesmo, uma confissão — e resume a disputa de Elias com os profetas de Baal.

μετ᾽ αὐτοῦ — met' autou, "com ele".

A preposição meta com o genitivo indica companhia. O pronome se refere a Jesus. A ABC escreveu "com Jesus" para evitar a ambiguidade do português.

συλλαλοῦντες — syllalountes, "conversando", "falando juntos".

Particípio presente de syllaleō, formado de syn (junto) e laleō (falar). É o verbo da conversa entre duas ou mais pessoas, sem o peso de discurso ou de anúncio. Em Lucas 22:4, Judas "conversa" com os chefes dos sacerdotes; em Atos 25:12, Festo "conversa" com o conselho.

O particípio presente descreve a ação em curso: quando os discípulos os veem, a conversa já está acontecendo. Não se diz quando começou.

Marcos 9:4 usa o mesmo verbo numa construção mais longa, "estavam conversando". Lucas 9:30 também o usa, e é o único que acrescenta o assunto.

11. Conclusão

O versículo põe dois homens do passado de Israel no monte e não explica como nem por quê. Algumas conclusões, ainda assim, se impõem.

A primeira é sobre o modo da aparição. O verbo escolhido é o que a Bíblia grega usa para Deus, para anjos e para o ressuscitado. Disso decorre que a cena não é narrada como experiência produzida pelos discípulos, e sim como algo mostrado a eles.

A segunda é sobre a escolha dos dois. Nenhuma das explicações dá conta de tudo: a da Lei e dos Profetas esbarra em Elias sem livro; a do monte explica o lugar e não o momento; a das figuras do fim explica Elias melhor que Moisés; a dos profetas rejeitados é a de menor apoio. Por isso a pergunta "por que Moisés e Elias?" deve ser respondida com um leque, e não com uma frase.

A terceira é sobre Moisés. As tradições do século I — o túmulo desconhecido, a nuvem de Josefo, a transformação em luz de Fílon, o corpo disputado de Judas 9 — mostram que o fim dele já era matéria de discussão quando o evangelho foi escrito. A cena não nasce num vazio, e também não se explica por essas tradições: nenhuma delas prevê Moisés conversando com alguém.

A quarta é sobre o silêncio. Mateus sabe que houve conversa e não diz o assunto. Quem quer saber tem de ir a Lucas, e deve dizer que foi.

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