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Mateus 22:35

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✍️ Por Alberto Adriano·21 de outubro de 2026·⏱️ 25 min de leitura·👁 3 acessos
Um deles, especialista na lei, para testá-lo, perguntou:
Homem de barba e manto escuro, com rolo de pergaminho sob o braço, destacando-se de um grupo para dirigir-se a um mestre sentado no pátio do Templo.

Estudo


Um deles, especialista na lei, para testá-lo, perguntou:

1. Introdução

Da reunião sai um homem, e Mateus não diz o nome dele — diz a profissão e a intenção.

A profissão é a de quem trabalha com a Lei: o título que o versículo usa aparece uma única vez em todo o evangelho de Mateus, e é palavra de Lucas, não dele.

A intenção vem dita antes da pergunta: ele veio testar. O verbo é o mesmo com que o Evangelho descreve o que o diabo faz no deserto.

E o estranho é que a pergunta que ele vai fazer não tem armadilha nenhuma. Nos dois debates anteriores havia um alçapão montado; aqui, o que se pergunta é o que qualquer judeu piedoso gostaria de saber.

2. Contexto Histórico e Cultural

O que era um especialista na Lei. No judaísmo do primeiro século, a Lei não era um assunto entre outros: era o direito civil, o direito de família, o calendário, as regras de pureza, o regime de impostos religiosos e a liturgia, tudo junto. Quem dominava esse material exercia, ao mesmo tempo, funções que hoje se repartem entre advogado, juiz, professor, tabelião e teólogo. Não havia diploma nem ordem profissional. A formação se dava por aprendizado ao lado de um mestre reconhecido, durante anos, e a autoridade vinha do reconhecimento dos pares e do povo.

Como se vivia disso. A regra que a tradição rabínica consolidou depois foi a de não cobrar pelo ensino da Torá, e muitos mestres tinham ofício manual. Mas o estudo exigia tempo livre, e o ponto foi dito com franqueza já no século II a.C. por Ben Sira (Jesus ben Sira, mestre de Jerusalém, autor do livro que as Bíblias católicas chamam Eclesiástico e as protestantes deixam fora do canônico). O capítulo 38 do livro dele compara ofícios: o lavrador, o ferreiro, o oleiro — todos indispensáveis, diz ele, "mas não serão procurados no conselho do povo, nem se sentarão na assembleia". E então o capítulo 39 abre com o retrato do escriba: aquele que "se dedica à lei do Altíssimo", que "procura a sabedoria de todos os antigos", que "serve entre os grandes e aparece diante dos governantes". O texto é o documento mais antigo que descreve a carreira do homem que faz a pergunta deste versículo, e descreve-a como posição de prestígio.

Dois nomes para o mesmo ofício. Mateus chama essa gente de escribas vinte e duas vezes. Aqui, uma única vez, usa outra palavra, que o grego comum empregava para o jurista — o perito em leis, inclusive em contextos sem relação com Israel. A palavra reaparece no Novo Testamento aplicada a um cristão chamado Zenas, em Tito 3:13, e é frequente em Lucas. Os comentaristas se dividem. Meyer não vê diferença de substância entre as duas palavras. Ellicott admite que a distinção é incerta e levanta a possibilidade de o jurista ser o especialista concentrado na Lei, enquanto o escriba trabalhava também com os Profetas. A Bíblia de Cambridge propõe outra linha: o jurista seria o intérprete da Lei escrita, por oposição à tradição transmitida oralmente. Nenhuma das três se impõe, e o próprio uso antigo não ajuda a decidir.

Ser enviado como representante. O versículo diz "um deles". O homem não age por conta própria: vem do grupo que acabou de se reunir, e o modo como Mateus o apresenta supõe a prática de delegar a um membro a tarefa de falar pelos outros. Essa prática era normal e tinha nome próprio no direito judaico — o enviado agia com a autoridade de quem o enviava. A consequência para a cena é que a pergunta, por mais pessoal que soe, é institucional: quem responde responde ao grupo inteiro.

Pôr um mestre à prova era procedimento aceito. Submeter alguém a exame público não era, por si, hostilidade. Um mestre que recebia discípulos e emitia pareceres estava sujeito a ser sondado, e as narrativas rabínicas estão cheias de episódios em que um sábio é testado por outro, às vezes com perguntas armadas, às vezes com perguntas honestas. O que distingue um caso do outro é o fim, e Mateus informa o fim antes de informar a pergunta — procedimento que ele usa também no versículo 18 deste mesmo capítulo e em Mateus 19:3.

O cenário continua sendo o pátio. O homem pergunta no mesmo lugar em que os saduceus perderam, e com a mesma plateia. Isso explica por que Gill supõe que o objetivo era expor Jesus diante do povo: numa cultura em que a reputação se construía e se perdia em público, não havia pergunta privada ali.

3. Análise Teológica do Versículo

"Um deles"

O homem fica anônimo e fica pertencendo. Mateus não lhe dá nome, nem idade, nem escola, e o identifica apenas pelo grupo de onde saiu. Isso é coerente com a composição do capítulo: nos quatro debates, nenhum adversário individual é nomeado. Quem fala são partidos.

A fórmula tem, porém, um efeito que vai além do estilo. Se ele é "um deles", o que ele perguntar é a pergunta dos fariseus reunidos, e a resposta que receber é resposta a todos. O versículo 41 de Mateus 22 confirma esse desenho: o grupo continua ali quando a conversa acaba.

"especialista na lei"

Esta é a única vez em que o evangelho de Mateus usa esse título. Nas outras vinte e duas ocasiões em que se refere a esse ofício, ele escreve "escribas". A palavra deste versículo é característica de Lucas, que a emprega seis vezes, inclusive num episódio de estrutura muito parecida com este.

Há duas maneiras de ler a escolha. A primeira é que Mateus a usou porque ela era mais precisa: o homem não era um copista nem um erudito genérico, era um perito em norma, e a palavra grega designava exatamente isso no uso civil comum. A segunda é que a palavra entrou aqui por contaminação com o episódio de Lucas 10:25, onde um perito em lei se levanta "para testá-lo" — e note que as duas marcas, o título e a intenção, são as mesmas. Essa segunda possibilidade é defendida com argumento linguístico por alguns estudiosos, e é tratada no item 10.

Em qualquer das leituras, um dado permanece: Mateus está dizendo que quem perguntou pelo maior mandamento era alguém profissionalmente capaz de responder à própria pergunta. Não foi um leigo curioso. Foi o especialista.

"para testá-lo"

Mateus avisa o leitor da intenção antes de deixá-lo ouvir a pergunta, e o verbo que ele usa tem uma história dentro deste evangelho.

Ele aparece em Mateus 4:1, onde Jesus é levado ao deserto "para ser tentado pelo diabo", e em Mateus 4:3, onde o tentador fala. Reaparece em Mateus 16:1, quando fariseus e saduceus pedem um sinal "para testá-lo". Em Mateus 19:3, quando os fariseus perguntam sobre o divórcio, "para testá-lo". E em Mateus 22:18, quando Jesus devolve a palavra aos que trouxeram a questão do tributo: "Por que vocês me testam, hipócritas?". Em Mateus, quem submete Jesus a esse verbo é o diabo ou são os líderes religiosos. Não há exceção.

Isso não significa que o verbo seja sempre malicioso no grego do Novo Testamento. Ellicott lembra que ele serve para "experimentar", "examinar", sem carga negativa — em João 6:6 Jesus faz uma pergunta a Filipe para o experimentar, e em 2 Coríntios 13:5 Paulo manda os leitores se examinarem a si mesmos. O Pulpit Commentary chega a defender que, neste versículo, o teste não foi inteiramente malicioso, e que havia nele curiosidade real sobre o que Jesus pensava, embora os que o enviaram tivessem motivos piores.

A decisão entre as duas leituras não se tira do verbo: tira-se do contexto. E o contexto, em Mateus, é o versículo anterior — uma reunião convocada depois de uma derrota — e o versículo 15 deste capítulo, em que os fariseus combinam um plano para apanhá-lo em alguma palavra. O peso cai para o lado hostil, sem que isso exclua curiosidade genuína no indivíduo enviado.

Um teste sem armadilha

Aqui está o problema mais interessante do versículo. Os dois testes anteriores eram alçapões bem construídos. A pergunta sobre o tributo tinha duas saídas e as duas comprometiam quem respondesse. A pergunta sobre a mulher dos sete irmãos era uma redução ao absurdo, montada para tornar ridícula a crença na ressurreição. Já perguntar qual é o maior mandamento da Lei não compromete quem responde com César nem com o Templo. Em que sentido, então, isso é um teste?

Primeira leitura: o teste está no ranqueamento. Quem elege um mandamento como o maior rebaixa os outros, e esse rebaixamento era visto com desconfiança real no judaísmo — a mesma desconfiança que levou os mestres a tirar o Decálogo da oração diária, para que ninguém pensasse que só aquela parte da Torá vinha de Deus, episódio contado no estudo de Êxodo 20:1. Um mestre que escolhesse um mandamento ficaria exposto à acusação de dispensar os demais, e o próprio Mateus registra Jesus prevenindo essa acusação em Mateus 5:19, ao falar dos mandamentos "dos menores".

Segunda leitura: o teste está na novidade. Se Jesus respondesse com algo que não estivesse na Torá, estaria se pondo acima dela, e isso bastaria como acusação. A pergunta funcionaria então como convite a um passo em falso, não como alçapão fechado.

Terceira leitura: o teste é de competência, não de doutrina. Um jurista examinando um mestre sem formação conhecida — Jesus não tinha escola nem credencial que os registros mencionem — é cena perfeitamente verossímil, e explicaria por que a pergunta é limpa. Não se arma alçapão para medir conhecimento; faz-se a pergunta que separa quem estudou de quem não estudou.

As três são possíveis e nenhuma é demonstrável pelo versículo. A primeira tem mais apoio no contexto judaico; a terceira explica melhor por que a pergunta é tão direta. O texto não permite decidir, e é honesto registrar que Mateus informa a intenção sem explicar a mecânica dela.

O mesmo episódio nos outros evangelhos

As três versões não se encaixam sem forçar. Marcos 12:28 diz que o escriba se aproximou porque tinha ouvido a discussão e visto que Jesus respondera bem — e termina, em Marcos 12:34, com Jesus dizendo que ele não estava longe do Reino de Deus. Não há teste nenhum em Marcos: há aproximação respeitosa e aprovação mútua.

Lucas 10:25 tem um perito em lei que se levanta "para testá-lo", exatamente como aqui, mas em outro lugar da narrativa, com outra pergunta — "que devo fazer para herdar a vida eterna?" — e com outro desfecho: Jesus devolve a pergunta, o homem recita ele mesmo os dois mandamentos, e a conversa leva à parábola do samaritano.

Três saídas foram propostas para essa diferença. Que são dois episódios distintos, e Mateus e Marcos contam um enquanto Lucas conta outro. Que é um só episódio, e os evangelhos divergem no juízo sobre a intenção do perguntador. Que é um só episódio, e Lucas o deslocou de lugar para usá-lo como porta de entrada da parábola. Não há consenso. O dado que interessa é mais simples: a cena de Mateus é a mais fria das três, e a diferença não está nos fatos narrados, está na intenção atribuída.

O que o homem já sabia

Em Lucas, o perito em lei responde à própria pergunta sem hesitar, citando Deuteronômio e Levítico. Isso ilumina a cena de Mateus por um ângulo desconfortável: a pergunta do versículo 35 provavelmente não era uma pergunta. Era um exame — e quem examina já tem o gabarito na mão.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

O especialista na lei. Homem sem nome, membro do grupo dos fariseus reunido no versículo anterior, apresentado por Mateus pela sua competência técnica e pela sua intenção. É o único personagem de Mateus a receber esse título. Marcos, contando a mesma cena, chama-o de escriba; Lucas usa o mesmo título de Mateus em outro episódio. Depois da resposta de Jesus, ele desaparece do evangelho de Mateus sem dizer mais nada — o que é outra diferença em relação a Marcos, onde ele responde e é elogiado.

Os fariseus. O grupo que o envia. Eles permanecem em cena durante todo o trecho e ainda estão reunidos no versículo 41 de Mateus 22, quando Jesus se dirige a eles.

Ben Sira. Mestre de Jerusalém do começo do século II a.C., autor do livro de sabedoria que descreve, em primeira mão, a carreira e o prestígio do homem dedicado ao estudo da Lei. Não é personagem da cena; é a testemunha mais antiga do ofício que o versículo nomeia.

Zenas. Cristão mencionado em Tito 3:13 com o mesmo título grego deste versículo. Aparece aqui apenas como prova de que a palavra designava uma profissão reconhecível e não um partido religioso.

O pátio do Templo, nos dias antes da Páscoa. Mesmo lugar e mesmo dia dos debates anteriores. A pergunta é feita em voz alta, diante de peregrinos que vieram para a festa.

5. Pontos de Ensino

1. A melhor pergunta do capítulo nasce da pior intenção. Mateus avisa que o homem veio testar, e o que ele pergunta é o que há de mais central na fé de Israel. A qualidade de uma pergunta não depende de quem a faz nem do motivo que a move — e a resposta que ela puxa pode valer para sempre, independentemente disso.

2. Saber muito não protege de usar o saber mal. Quem se aproxima é o perito, não o leigo. O versículo não acusa a competência: mostra que ela pode ser posta a serviço de um exame armado, e que o especialista tem exatamente as ferramentas para armá-lo bem.

3. Perguntar sem querer aprender é um hábito, não um acidente. Em Lucas, um homem com este mesmo título faz uma pergunta cuja resposta ele sabe de cor, e a recita quando é devolvida a ele. Pergunta que já tem resposta na cabeça de quem a fez serve para medir o outro, não para saber.

4. A intenção declarada pelo texto não encerra o caso do indivíduo. Mateus diz que o homem veio testar; Marcos diz que o escriba veio porque gostou do que ouviu, e sai elogiado. Os dois relatos descrevem a mesma cena, e a diferença está no juízo sobre o coração de alguém. É prudência ler as duas versões antes de condenar o homem.

5. Quem fala por um grupo carrega o grupo. O versículo o apresenta como "um deles". A pergunta é pessoal na forma e coletiva no conteúdo, e é por isso que a resposta de Jesus não é dada a um homem apenas.

6. O mesmo verbo da tentação no deserto está aqui. Em Mateus, quem testa Jesus é o diabo ou são os líderes religiosos. A coincidência de vocabulário não transforma o especialista em diabo; marca que, neste evangelho, pôr Jesus à prova é sempre uma posição, e nunca uma posição boa.

6. Aspectos Filosóficos

Existe diferença lógica entre perguntar para saber e perguntar para apanhar o outro?

O filósofo finlandês Jaakko Hintikka passou décadas tentando descrever a pergunta com o mesmo rigor com que a lógica descreve a afirmação. O resultado é o que ele chamou de modelo interrogativo da investigação: conhecer não é deduzir a partir de premissas, é fazer perguntas certas na ordem certa a uma fonte de informação, e deduzir nos intervalos. Numa reconstrução assim, a pergunta deixa de ser um acessório da linguagem e passa a ser o motor do método.

Para fazer isso, Hintikka precisou separar duas coisas que a fala corrente mistura. Toda pergunta tem uma pressuposição — o que ela já dá por verdadeiro, e que quem responde aceita no instante em que responde. E tem um desiderato, que é o estado de informação em que quem perguntou quer ficar depois da resposta. "Quando você parou de bater na sua esposa?" tem pressuposição falsa e nenhum desiderato honesto: responder qualquer coisa é conceder o que ainda não foi estabelecido.

Essa aparelhagem serve diretamente ao versículo. A pergunta do especialista pressupõe que existe um mandamento maior, isto é, que a Lei admite hierarquia interna. Quem responde escolhendo um mandamento aceita a pressuposição antes de falar do mandamento, e essa é a parte do exame que não aparece. Não é preciso armadilha nenhuma no conteúdo: a armadilha, se houver, está no pressuposto que vem embutido na forma.

Mas Hintikka também permite dizer o que não aconteceu. No modelo dele, o que caracteriza a pergunta de má-fé não é a emoção de quem pergunta — é a ausência de desiderato. Quem já sabe a resposta e pergunta de todo modo não está buscando informação; está executando outra operação, que a lógica das perguntas não cobre, porque ela pertence ao campo da estratégia e não ao da investigação. E é precisamente isso que Mateus registra: o homem é perito, logo conhece a resposta, e o texto diz que ele veio testar. Há pergunta na forma e não há busca no fundo.

O desdobramento interessante é o que acontece com a resposta. Numa pergunta sem desiderato, quem responde tem duas opções: aceitar o jogo e responder dentro dos termos dados, ou atacar a pressuposição. Jesus faz o primeiro — responde com um versículo, dentro da pressuposição de que há um mandamento maior — e depois faz algo que o modelo não previa: acrescenta um segundo mandamento que ninguém pediu, e com isso altera a pressuposição depois de tê-la aceitado. A hierarquia fica de pé e deixa de servir para separar, porque no topo dela passa a haver dois.

Resta a observação que Hintikka faz sobre o custo de perguntar. No modelo interrogativo, cada pergunta tem um preço: ela compromete quem a faz com a sua própria pressuposição. Quem pergunta qual é o maior mandamento declarou, publicamente, que acredita haver um. O especialista do versículo 35 sai da cena sem ter dito nada, mas não sai sem ter se comprometido — e o compromisso que ele assumiu é o que torna a resposta de Jesus difícil de recusar.

Um limite deve ser marcado. Hintikka descreve estruturas, não corações, e nada na lógica das perguntas permite concluir que um perguntador específico agia de má-fé. Essa informação, no versículo, vem de Mateus — e Marcos, contando a mesma cena, não a dá.

7. Aplicações Práticas

Repare no que a sua pergunta já afirma. Toda pergunta carrega um pressuposto, e quem responde o aceita sem perceber. "Por que você está sempre atrasado?" não pergunta nada: afirma. Em discussão de casal, em reunião de trabalho, em conversa com filho adolescente, o jeito mais rápido de sair de uma armadilha é não responder ao conteúdo e sim ao pressuposto — "não estou sempre atrasado; hoje estou".

Pergunta cuja resposta você já tem não é pergunta. O especialista do versículo sabia o que ia ouvir. Fazer isso com alguém — perguntar o que já se sabe, para ver se ele erra — é um gesto de poder disfarçado de curiosidade, e quase sempre é percebido. Se a intenção é ensinar, vale dizer que é exame; se é constranger, vale saber que é constrangimento.

Responda à boa pergunta, mesmo vinda de quem não merece. O que Jesus faz na sequência é o oposto de retrucar. Ele recebe uma pergunta feita para testá-lo e devolve a resposta mais completa do capítulo. Há casos em que recusar o jogo é desperdiçar a chance de dizer algo que precisava ser dito, para a plateia inteira, não para quem perguntou.

Competência técnica não é garantia moral. Quem conhece melhor as regras é quem melhor sabe usá-las contra alguém. Isso vale para advogados, contadores, médicos, pastores e professores. Saber mais que o outro cria uma assimetria, e a pergunta deste versículo mostra para onde a assimetria pode ser levada quando ninguém a vigia.

Quando você fala por um grupo, diga que fala por um grupo. O homem veio como "um deles" e perguntou como se fosse ele. Essa ambiguidade é útil para quem a usa e injusta com quem responde — a pessoa diante de você não sabe se está conversando com um indivíduo ou negociando com uma comissão.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

1. Por que Mateus usa aqui uma palavra que não usa em nenhum outro lugar?

Não se sabe. A hipótese mais simples é que a palavra era a mais exata para o ofício do homem, e Mateus a escolheu por isso. A hipótese concorrente é que ela entrou no texto por influência do episódio de Lucas 10:25, onde o mesmo título e a mesma intenção aparecem juntos. A segunda explicaria também por que alguns poucos manuscritos não trazem a palavra. A questão é discutida e o item 10 traz o estado dela.

2. O homem era advogado?

Não no sentido de hoje. Barnes é explícito: a palavra designa quem era instruído na Lei de Moisés, não quem exercia a advocacia como profissão liberal. Mas também não era só um erudito: a Lei de Moisés era o direito vigente para os judeus em matéria civil, familiar e religiosa, e quem a dominava dava pareceres com efeito prático na vida das pessoas.

3. "Testar" significa necessariamente má intenção?

No grego, não. O verbo serve para experimentar e examinar, e o Novo Testamento o usa sem carga negativa em João 6:6 e em 2 Coríntios 13:5. Em Mateus, porém, quando o objeto do verbo é Jesus, quem testa é sempre o diabo ou são os líderes religiosos. O contexto deste capítulo empurra para o lado hostil, e o Pulpit Commentary é voz dissonante ao defender que havia também curiosidade real.

4. Se a intenção era hostil, onde estava a armadilha?

A pergunta não a tem no conteúdo, e isso é o que há de mais curioso no versículo. As explicações possíveis são três: que o risco estava em rebaixar os demais mandamentos ao eleger um; que o risco estava em responder com algo fora da Torá; ou que não havia armadilha e o teste era de competência. Nenhuma se demonstra pelo texto, e o item 3 as examina.

5. Por que em Marcos o mesmo homem é elogiado?

Porque Marcos conta a cena de outro jeito: lá o escriba se aproxima por ter gostado da resposta anterior, e sai com a palavra "você não está longe do Reino de Deus". Mateus corta a aproximação e corta o elogio. Não há como decidir qual relato está mais perto da cena, e a divergência é informação sobre os evangelhos, não sobre o homem.

6. Vale fazer perguntas a Deus para testá-lo?

O próprio Jesus respondeu a isso em outro lugar, citando Deuteronômio: "Não tentarás o Senhor teu Deus" (Mateus 4:7). A distinção que os textos sustentam é entre perguntar por não entender — o que os salmos fazem o tempo todo, inclusive com queixa aberta — e armar uma prova para ver se Deus falha. O primeiro aparece na Bíblia sem reprovação; o segundo é o verbo deste versículo.

9. Conexão com Outros Textos

O mesmo verbo, no deserto

Mateus 4:1 — "Então Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo."

O mesmo verbo, com os dois partidos juntos

Mateus 16:1 — "Então os fariseus e os saduceus se aproximaram e, para testá-lo, pediram que lhes mostrasse um sinal vindo do céu."

O mesmo verbo, três capítulos antes, sobre o divórcio

Mateus 19:3 — "Então vieram a ele os fariseus e, para testá-lo, perguntaram: É lícito a alguém divorciar-se da sua mulher por qualquer motivo?"

O mesmo verbo, neste capítulo, devolvido aos que perguntam

Mateus 22:18 — "Mas Jesus, percebendo a maldade deles, disse: Por que vocês me testam, hipócritas?"

Quatro perguntas de teste em Mateus, todas de líderes religiosos, duas delas neste capítulo.

O título deste versículo, no outro episódio

Lucas 10:25 — "Levantando-se um doutor da lei, para pô-lo à prova, disse: Mestre, que devo fazer para herdar a vida eterna?"

Lucas 10:27 — "Ele, respondendo, disse: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento; e o teu próximo como a ti mesmo."

Ali o próprio perito recita a resposta que aqui ele vem buscar.

A mesma cena, sem teste e com elogio

Marcos 12:28 — "Aproximando-se um dos escribas que os tinha ouvido discutir, e vendo que lhes havia respondido bem, perguntou-lhe: Qual é o primeiro de todos os mandamentos?"

Marcos 12:34 — "Jesus, vendo que ele havia respondido com entendimento, disse-lhe: Você não está longe do Reino de Deus."

O mesmo título grego, aplicado a um cristão

Tito 3:13 — "Acompanha com cuidado Zenas, o jurista, e Apolo, para que nada lhes falte."

O que Jesus responde a quem põe Deus à prova

Mateus 4:7 — "Jesus lhe disse: Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus."

A regra que torna perigoso eleger um mandamento

Mateus 5:19 — "Portanto, qualquer um que desobedecer a um destes mandamentos, ainda que dos menores, e assim ensinar às pessoas, será chamado o menor no Reino dos céus; mas aquele que os cumprir e ensinar, esse será chamado grande no Reino dos céus."

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Um deles, especialista na lei, para testá-lo, perguntou:

Texto grego (Textus Receptus)

καὶ ἐπηρώτησεν εἷς ἐξ αὐτῶν νομικός, πειράζων αὐτόν, καὶ λέγων,

Transliteração

kai epērōtēsen heis ex autōn nomikos, peirazōn auton, kai legōn,

Análise palavra por palavra

ἐπηρώτησεν (epērōtēsen) — "perguntou". Aoristo de eperōtaō, forma reforçada do verbo comum de perguntar. O prefixo epi acrescenta a ideia de direcionar a pergunta a alguém, e no grego da Septuaginta o verbo serve também para consultar um oráculo ou interrogar formalmente. É o verbo usado em Mateus 16:1, quando fariseus e saduceus pedem um sinal, e em Mateus 22:23, na pergunta dos saduceus.

εἷς ἐξ αὐτῶν (heis ex autōn) — "um deles". Construção partitiva: um retirado do conjunto. A fórmula aparece em Mateus também na última ceia, em Mateus 26:21, "um de vocês me trairá". Ela identifica pelo pertencimento e não pelo nome.

νομικός (nomikos) — "jurista, perito em lei". Adjetivo derivado de nomos, "lei", usado substantivamente. No grego comum designava o conhecedor do direito, sem relação com Israel; em contexto judaico, o conhecedor da Torá. É a única ocorrência da palavra em Mateus. Lucas a usa seis vezes (Lucas 7:30; 10:25; 11:45, 46, 52; 14:3) e ela reaparece em Tito 3:13. Nos outros vinte e dois lugares em que Mateus fala desse ofício, ele escreve grammateus, "escriba", literalmente "o das letras". Meyer considera que não há diferença de substância entre as duas, sendo nomikos a mais específica; Bengel (Johann Albrecht Bengel, estudioso alemão do século XVIII, pioneiro da crítica textual do Novo Testamento) iguala as duas sem reservas. O Pulpit Commentary nota que a Vulgata (a tradução latina de Jerônimo, do fim do século IV) verte por legis doctor ("doutor da lei"), o que capta bem o sentido.

πειράζων (peirazōn) — "testando, pondo à prova". Particípio presente de peirazō, da mesma raiz de peira, "tentativa, experiência". O campo de sentido vai de "experimentar" a "tentar ao mal", e o presente marca ação em curso, simultânea à pergunta: ele perguntava testando. O substantivo da mesma família, peirasmos, é o da sexta petição do Pai Nosso em Mateus 6:13.

καὶ λέγων (kai legōn) — "e dizendo". O Textus Receptus traz esse particípio, que os textos críticos não têm, por estar ausente dos manuscritos gregos mais antigos. É fórmula de introdução de fala muito comum nos evangelhos, de modo que a sua presença ou ausência não muda nada no sentido. A ABC resolve o conjunto com um só verbo, "perguntou", seguido de dois-pontos.

Variantes

Há uma questão real neste versículo, e ela é sobre a palavra nomikos. Alguns poucos testemunhos não a trazem, entre eles um grupo de manuscritos gregos minúsculos e versões antigas, e sem ela o versículo diria apenas "um deles perguntou". A grande maioria dos manuscritos a conserva, e tanto o Textus Receptus quanto os textos críticos modernos a imprimem.

O argumento a favor da omissão foi retomado em 2009 por Ulrich Victor, num estudo sobre variantes de Mateus: ele sustenta que a construção grega "um deles" não é seguida, na literatura antiga, por designação de ofício, mas por nome próprio, e conclui que a palavra entrou aqui vinda de Lucas 10:25 — onde o mesmo título aparece junto da mesma intenção de testar. O argumento é linguístico e é discutido; o apoio manuscrito da omissão é pequeno. A ABC segue o Textus Receptus e mantém a palavra.

A segunda diferença, menor, é o kai legōn do fim, presente no Textus Receptus e no texto bizantino e ausente nos textos críticos.

11. Conclusão

Três conclusões saem deste versículo.

A primeira é sobre quem pergunta. Mateus escolheu dizer que era o perito, e com uma palavra que ele não usa em nenhum outro lugar do evangelho. O efeito é duplo: dá autoridade técnica à pergunta e tira dela a inocência. Quem veio não foi alguém com dúvida, foi alguém com gabarito.

A segunda é sobre a natureza do teste. O versículo informa a intenção e não informa o mecanismo, e nenhuma das explicações possíveis se impõe. Isso tem uma consequência que vale guardar: a hostilidade da cena não está na pergunta, está na moldura. A mesma pergunta, feita por outro, seria piedade; feita aqui, é exame.

A terceira é sobre o que o Evangelho faz com isso. Mateus não suaviza a intenção do perguntador e também não deixa a resposta à altura dela. O que vem nos versículos seguintes não é uma esquiva, nem uma devolução irônica, nem uma humilhação: é a síntese mais ampla da Lei inteira, dada por inteiro, a um homem que não a tinha pedido para aprender. A generosidade dessa resposta só aparece quando se leva a sério a má-fé registrada aqui.

Há ainda uma lição de método, e ela é sobre leitura. Marcos conta esta mesma cena sem teste e com elogio final. Quem lê só Mateus conhece um especialista hostil; quem lê só Marcos conhece um escriba sincero elogiado por Jesus. Os dois textos estão no cânon, nenhum apaga o outro, e não é possível decidir qual descreve melhor o que se passou na cabeça daquele homem. O estudo honesto do versículo termina com essa indecisão declarada, e não com a escolha disfarçada de uma das versões.

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