“Mestre, qual é o maior mandamento da lei?”
1. Introdução
A pergunta tem seis palavras em grego e abre um problema que o judaísmo do período discutia a sério: a Lei admite graus?
O modo como ela está construída é mais aberto do que a tradução deixa ver. O pronome usado não pergunta "qual deles", e sim "de que tipo" — o que faz da frase um pedido de critério, e não de escolha dentro de uma lista.
O adjetivo também não está no grau máximo: o grego diz "grande", e é o sentido da frase, não a forma dela, que autoriza traduzir por "maior".
E o campo fica delimitado por duas palavras finais: "na lei". Não se pergunta pelo maior dever humano em geral, nem pelo que mais agrada a Deus. Pergunta-se dentro de um texto.
2. Contexto Histórico e Cultural
A pergunta era de escola, e tinha história. Procurar na Torá um princípio que resumisse tudo era exercício reconhecido entre os mestres judeus, com cadeia de precedentes nos profetas e com candidatos rivais — a cadeia das reduções sucessivas, a disputa entre Rabi Akiva e Ben Azai sobre qual versículo carrega tudo e a objeção de que mandamento leve e mandamento pesado merecem o mesmo cuidado estão reunidas no estudo de Mateus 19:16. O que vale acrescentar aqui é o outro lado da mesma prática: não só a busca de um resumo, mas a multiplicação de mandamentos que, cada um por sua vez, foram declarados equivalentes a todos os demais.
"Equivalente a toda a Torá" — dito de vários mandamentos diferentes. O Talmude Babilônico, no tratado Nedarim ("Votos"), guarda duas dessas declarações. Em Nedarim 32a, uma tradição atribuída a Rabi Judá, o compilador da Mishná, diz que a circuncisão é grande "porque equivale a todos os mandamentos da Torá". E em Nedarim 25a a frase aparece aplicada às franjas da veste: "o mandamento das franjas equivale a todos os mandamentos da Torá".
Esse segundo trecho é precioso porque mostra a frase causando um problema jurídico concreto. A discussão ali é sobre como Moisés poderia ter feito o povo jurar de modo inequívoco. Jurar "que cumprireis os mandamentos" não serve, diz o texto, porque "mandamentos" pode significar as ordens de um rei. Jurar "que cumprireis todos os mandamentos" também não serve — e a razão dada é exatamente esta: porque quem ouvisse poderia entender "todos os mandamentos" como referência só às franjas, já que delas se dizia que equivaliam a todos. A cadeia continua: jurar "que cumprireis a Torá" pode significar só a Torá escrita; jurar "as Torás" pode significar a instrução sobre a oferta de cereal; e assim por diante. É a prova mais clara de que o vocabulário da equivalência circulava e atrapalhava.
Uma hierarquia que funcionava de fato. Ao lado dessas declarações de ênfase, o direito judaico tinha uma graduação com efeito prático, e é ela que mostra que a pergunta do versículo não era abstrata. O Talmude, no tratado Sanhedrin 74a, registra a decisão tomada "no andar superior da casa de Nitza, na cidade de Lod": diante de todas as proibições da Torá, se alguém for obrigado a transgredir sob ameaça de morte, deve transgredir e viver — exceto em três casos, a idolatria, as relações sexuais proibidas e o derramamento de sangue. Nesses três, deve deixar-se matar.
A consequência é importante para ler o versículo. Os mestres judeus não recusavam, na prática, toda ordenação entre mandamentos: eles tinham uma, e ela era operacional, aplicada em situação de perseguição. O que eles resistiam a fazer era eleger um mandamento como o maior em dignidade, porque isso parecia dispensar os outros. A pergunta do especialista pede exatamente o que a tradição evitava dar.
"Mestre" como tratamento. A palavra grega do versículo é a que servia de equivalente a "rabi", título que no primeiro século ainda não era um grau formal: designava o professor reconhecido, a quem se dirigiam perguntas de direito e de conduta. Usar o tratamento era, ao mesmo tempo, cortesia e enquadramento — quem chama alguém de mestre o põe na posição de quem deve responder.
Lei escrita ou tradição recebida. A pergunta diz "na lei", e Gill observa que a expressão aponta para a Lei de Moisés escrita, e não para a tradição transmitida oralmente. Se a leitura estiver certa, o detalhe tem peso: os fariseus sustentavam que a tradição dos mestres obrigava, e a pergunta que eles enviam restringe o terreno ao texto. Pode ser recorte técnico — pergunta-se sobre o que está escrito porque é o que todos aceitam — e pode ser apenas o uso corrente da palavra. Não é possível decidir, e Mateus não comenta.
O público e o momento. Esta é a terceira pergunta do dia e a única que não tem consequência política. As anteriores envolviam Roma e o Templo; esta envolve apenas a Torá. Quem ouvia nos pátios acompanhava, portanto, uma mudança de assunto: saía-se do terreno onde uma resposta errada podia custar a liberdade e entrava-se no terreno onde uma resposta errada custava a reputação de mestre.
3. Análise Teológica do Versículo
"Mestre"
O tratamento é o mesmo que o jovem rico usa em Mateus 19:16 e o mesmo que os fariseus usaram no começo do capítulo, no versículo 16, antes da pergunta sobre o tributo — ali acompanhado de três elogios, aqui seco. A diferença de temperatura entre as duas aberturas é visível: na primeira pergunta do dia houve bajulação ("sabemos que és verdadeiro"); nesta, não há nenhuma.
O tratamento também delimita o tipo de resposta esperada. Não se pede a opinião de um profeta nem a decisão de um juiz: pede-se o parecer de um professor sobre um texto. E o parecer de um professor, naquela cultura, se dava citando a Escritura.
"qual é o maior mandamento"
Aqui está o ponto em que a tradução perde o que o grego faz. O pronome interrogativo usado não é o que seleciona um item de uma lista conhecida, e sim o que pergunta pela espécie, pela qualidade de uma coisa. Vincent é categórico ao apontar que as traduções inglesas erram nisso; Meyer, o Expositor's Greek Testament e Ellicott leem do mesmo modo. A pergunta é, ao pé da letra, "que tipo de mandamento é grande na lei?".
Isso muda a natureza do que se pede. Perguntar "qual deles?" é pedir que o mestre aponte um entre centenas. Perguntar "de que tipo?" é pedir o critério que torna um mandamento grande — e, com o critério na mão, o perguntador poderia ordenar a Lei inteira por conta própria.
Também o adjetivo não é superlativo. O grego diz "grande", não "o maior". O uso do grau normal onde o português pede o superlativo é marca conhecida da influência do hebraico e do aramaico sobre o grego dos evangelhos, e a ABC traduz pelo sentido, como fazem praticamente todas as versões. O leitor precisa saber, mesmo assim, que o texto não cravou um superlativo: ele perguntou o que é grande.
E a resposta que vem no versículo 38 de Mateus 22 cita o adjetivo do perguntador e acrescenta outro, que não foi pedido. Jesus responde "grande", como lhe foi perguntado, e diz também "primeiro". A palavra nova é dele.
"mandamento"
A palavra grega designa um preceito concreto, uma ordem individual — não a Lei como instituição, nem a vontade de Deus em geral. É a mesma palavra que aparece em Mateus 5:19, falando "destes mandamentos, ainda que dos menores", e em Mateus 15:3, sobre transgredir "o mandamento de Deus" por causa da tradição.
Juntando os três lugares, aparece uma escala dentro do próprio evangelho de Mateus. Há mandamentos "dos menores" (Mateus 5:19). Há mandamento "grande" (aqui e no versículo 38). E há o que é "mais importante na Lei", em Mateus 23:23, onde Jesus nomeia a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Quem lê Mateus não pode dizer que Jesus rejeitava a ideia de graus: ele a usa três vezes.
O que Mateus 5:19 acrescenta, e que torna a questão delicada, é a advertência contra dissolver os menores. Ter uma escala e dispensar o que está embaixo dela são coisas que o evangelho separa com cuidado, e é precisamente nessa junta que a pergunta do especialista aperta.
"da lei"
A expressão grega é "na lei", com a preposição de lugar: o mandamento grande é procurado dentro de um corpo de textos. Isso exclui, pela própria forma da pergunta, respostas que viessem de fora da Escritura.
Em Mateus, a palavra "lei" aparece com três alcances diferentes, e todos os três importam aqui. Em Mateus 5:17 ela nomeia uma parte do cânon ao lado dos Profetas. Em Mateus 12:5 ela se refere a uma prescrição específica do Pentateuco. E em Mateus 22:40, dois versículos à frente, ela volta ao primeiro sentido, emparelhada com os Profetas. Quem pergunta usa a palavra no sentido do conjunto normativo; quem responde devolve a resposta e em seguida alarga o conjunto, incluindo os Profetas, que ninguém tinha mencionado.
O que o perguntador esperava ouvir
O texto não diz, e as reconstruções dependem do que se sabe das discussões da época. Gill reúne os candidatos que a literatura rabínica declarou grandes em algum lugar: o sábado, a circuncisão, as franjas da veste, os filactérios, as três refeições do sábado. Barnes observa que os judeus dividiam a Lei em mandamentos maiores e menores sem ter fechado a questão de qual era o maior, e cita entre os concorrentes o sacrifício, a circuncisão e as lavagens rituais.
Essa lista levanta uma suspeita razoável, e ela é só isso: se a expectativa era ouvir o nome de uma prática — circuncisão, sábado, pureza —, então a resposta de Jesus desloca o terreno inteiro. Ele não nomeia nenhum rito. Nomeia uma disposição, e a nomeia citando um texto que todo judeu recitava duas vezes por dia.
Há um limite a registrar. Nada no versículo autoriza dizer que o especialista queria uma resposta ritual, nem que ficaria satisfeito com ela. Quem preenche a expectativa do perguntador está interpretando, não lendo — e o Pulpit Commentary, por exemplo, lê a pergunta como sincera, movida pelo desejo de conhecer o princípio por trás da ideia de mandamento "primeiro". O versículo em si não permite decidir.
O que a pergunta pressupõe
Ela pressupõe que a Lei é ordenável. Quem responde dentro dos termos dados concede isso antes de dizer qualquer coisa — e Jesus responde dentro dos termos dados.
Esse é um dado teológico, não só retórico. Um corpo de mandamentos todos igualmente grandes não tem como ser aplicado quando dois deles entram em conflito, e conflitos aconteciam: o sacerdote que trabalha no sábado, a circuncisão feita no oitavo dia que cai em sábado, o resgate de uma vida contra a guarda do descanso. A pergunta do especialista tem, por trás, o problema prático de qualquer sistema de normas — o que fazer quando duas obrigações não cabem juntas. Jesus não responde a isso aqui. Responde dando o princípio, e deixando a aplicação por fora.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
O especialista na lei. Quem faz a pergunta. Enviado pelo grupo reunido, identificado por Mateus pelo ofício e pela intenção, descritos no estudo de Mateus 22:35. Nesta cena ele fala uma única vez, e não volta a falar.
Jesus, tratado como mestre. O título com que a pergunta se abre o coloca no papel de professor de Torá, que é o papel em que ele já havia sido posto no mesmo capítulo, no versículo 16, e no capítulo 19, no versículo 16. Em Mateus, quem o chama de "Mestre" quase sempre é um adversário ou um interlocutor que está medindo o terreno; os discípulos o chamam de "Senhor".
Rabi Judá e os mestres citados. Nenhum deles está na cena. Aparecem porque as declarações que eles e os seus colegas preservaram — a circuncisão equivalente a toda a Torá, as franjas equivalentes a toda a Torá, os três casos em que é preciso morrer antes de transgredir — documentam o tipo de discussão em que a pergunta deste versículo se encaixa. São testemunhos de época, registrados em textos posteriores ao Evangelho.
A Lei. No vocabulário da pergunta, o corpo de textos atribuídos a Moisés. É o lugar em que o mandamento grande deve ser procurado, e o limite que o perguntador impõe ao terreno.
O pátio do Templo. Mesmo cenário dos debates anteriores, com a reunião dos fariseus ainda em curso e a multidão por perto.
5. Pontos de Ensino
1. A pergunta é por um critério, não por um item. O grego pergunta que tipo de mandamento é grande. Quem procura na Escritura o item que vale mais está fazendo outra pergunta — e vai ficar com uma lista, não com um princípio.
2. Reconhecer graus não é dispensar o que está embaixo. O evangelho de Mateus usa a ideia de mandamento maior e menor três vezes, e numa delas (Mateus 5:19) adverte contra desfazer os menores. A escala serve para ordenar, não para descartar.
3. Quem pergunta define o terreno. As duas palavras finais, "na lei", fecham o campo da resposta dentro de um texto. Toda pergunta faz isso, e quem responde aceita o cercado antes de falar — vale saber que o aceitou.
4. A tradição judaica tinha escala onde a vida obrigava. Diante de ameaça de morte, a decisão registrada em Sanhedrin 74a manda transgredir e viver, com três exceções. Essa é a resposta judaica à pergunta "o que vale mais" quando ela deixa de ser teórica, e mostra que o incômodo dos mestres não era com ordenar: era com eleger um mandamento como o maior em dignidade.
5. "Equivalente a toda a Torá" era elogio, não cálculo. A mesma frase foi dita da circuncisão e das franjas, o que seria contradição se fosse medida. Era ênfase — e a discussão de Nedarim 25a mostra os próprios mestres percebendo que a ênfase, repetida, atrapalhava.
6. O tratamento escolhido já diz o que se espera. Chamar alguém de mestre é pedir parecer sobre um texto. Não se pediu a Jesus que mandasse, nem que profetizasse: pediu-se que lesse. A resposta dele atende ao pedido — é uma citação.
6. Aspectos Filosóficos
Existe um dever que vale mais que todos os outros?
A filosofia moral moderna passou boa parte do século XX dividida sobre isso, e o nome central da posição que o versículo torna interessante é o do escocês W. D. Ross (William David Ross, estudioso de Aristóteles e professor em Oxford), no livro The Right and the Good ("O Certo e o Bem", 1930).
Ross escrevia contra duas ambições opostas. De um lado, o utilitarismo, que reduzia toda a moral a um só princípio: produzir o maior bem. De outro, a tentativa de deduzir todos os deveres de uma única fórmula racional. Contra as duas, ele sustentou que os deveres são vários, irredutíveis uns aos outros, e que não existe fórmula capaz de ordená-los de antemão.
A ferramenta que ele criou para isso é a noção de dever prima facie (expressão latina que quer dizer "à primeira vista"; em português se diz melhor "dever aparente" ou "dever que vale enquanto nada o contrarie"). Manter a palavra dada é um dever desses. Não causar dano é outro. Reparar o mal que se fez, retribuir o bem recebido, distribuir com justiça, melhorar o que é bom — Ross lista sete, sem pretender que a lista seja completa. Cada um é um dever real; nenhum é absoluto. Quando dois deles apontam para lados opostos, não há cálculo: há julgamento, e o julgamento é falível.
Posta diante do versículo, essa posição ilumina o que a pergunta pede e o que a tradição judaica resistia a dar. O especialista quer saber o que torna um mandamento grande — quer o critério, isto é, exatamente o que Ross nega existir. E a resistência dos mestres a eleger um mandamento como o maior em dignidade tem a mesma forma do argumento de Ross: a objeção da Mishná, "não sabes a recompensa dos mandamentos", é a objeção de quem desconfia de qualquer ordenação feita antes do caso concreto.
Só que a resposta que Jesus dá não é a de Ross. Ele não diz que a Lei é um feixe de deveres sem hierarquia. Ele nomeia um mandamento como grande e primeiro, acrescenta um segundo semelhante e afirma, no versículo 40, que a Lei inteira e os Profetas pendem dos dois. Isso é uma posição monista no essencial — tudo deriva de um princípio, aqui desdobrado em dois rostos —, e é o oposto do pluralismo de Ross.
A diferença fica mais interessante quando se nota o que os dois têm em comum. Nenhum dos dois produz um procedimento de decisão. Ross diz que não há fórmula e que resta o juízo. Jesus dá o princípio e não dá a aplicação: amar Deus e amar o próximo não informa, por si, o que fazer quando honrar o pai e seguir um chamado se excluem, caso que o próprio evangelho registra em Mateus 8:22. O princípio orienta, e a decisão continua tendo de ser tomada sem garantia.
Há uma objeção que Ross faria à resposta de Jesus, e vale enunciá-la para não deixar a conversa fácil. Se tudo deriva do amor, então o amor terá de ser tão elástico que caberá nele qualquer coisa — e um princípio que explica tudo deixa de distinguir qualquer coisa. A história da ética cristã dá razão parcial à objeção: "faça por amor" foi usado para justificar condutas contrárias entre si, e com sinceridade igual de ambos os lados.
A defesa possível é de outra ordem, e o próprio texto a sugere. O princípio aqui não é dado solto: é dado como citação, e a citação vem com um corpo de textos atrás. O amor que a resposta nomeia é o de Deuteronômio e de Levítico, com todo o conteúdo que esses livros lhe dão. Um princípio amarrado a um texto é menos elástico que um princípio enunciado em abstrato. Isso não resolve a objeção de Ross; limita o seu alcance.
7. Aplicações Práticas
Peça o critério, não a lista. A diferença entre perguntar "qual é a regra mais importante?" e "o que faz uma regra ser importante?" é a diferença entre decorar e entender. Quem recebe o critério resolve casos que ninguém previu; quem recebe a lista fica parado no primeiro caso de fora dela. Vale em contrato, em regimento interno, em criação de filho e em leitura da Bíblia.
Toda ordem de prioridades aparece no conflito, não na calma. Enquanto nada se choca, parece que tudo é igualmente importante. A hierarquia real de alguém se revela no dia em que dois compromissos não cabem juntos — e é por isso que a decisão registrada em Sanhedrin 74a, sobre o que fazer sob ameaça de morte, diz mais sobre valores que qualquer declaração de princípios.
Cuidado com o "isto é o mais importante de tudo" repetido. A tradição judaica declarou a circuncisão equivalente a toda a Torá e também as franjas da veste, e os próprios mestres acabaram percebendo o problema. O mesmo acontece em empresa, em ministério e em casa: quando a terceira prioridade é anunciada como "a prioridade", não há mais prioridade nenhuma.
Dar relevo a uma parte custa o resto. A advertência de Mateus 5:19 contra desfazer os mandamentos menores é prática: quem concentra todo o peso num único ponto da obediência tende a soltar os outros sem perceber, e com a consciência tranquila, porque está cumprindo "o principal".
Note quem delimita o terreno da conversa. As duas palavras finais da pergunta fecham a resposta dentro de um texto. Em discussões reais, o campo é delimitado com a mesma discrição — "falando só de custos", "do ponto de vista jurídico", "na minha experiência" — e quem aceita o recorte sem notar já perdeu metade da discussão.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
1. A pergunta é "qual mandamento?" ou "que tipo de mandamento?"
O grego favorece a segunda. O pronome interrogativo usado pergunta pela espécie, e Vincent, Meyer, Ellicott e o Expositor's Greek Testament leem assim. A tradução por "qual" não está errada no sentido — porque a resposta de Jesus aponta um mandamento específico —, mas apaga a nuance. Quem pergunta por um tipo está pedindo o critério.
2. Havia resposta pronta para essa pergunta no judaísmo da época?
Havia várias, e é esse o problema. A circuncisão foi declarada equivalente a toda a Torá; as franjas da veste também; o sábado, a caridade e outros mandamentos receberam elogios do mesmo tipo em outros textos. Não havia consenso, e a própria discussão de Nedarim 25a mostra os mestres tropeçando na quantidade de equivalências que circulava.
3. Se os mandamentos são todos de Deus, como um pode ser maior?
Essa é a objeção que a própria tradição judaica levantou, e ela é séria. A Mishná manda cuidar do mandamento leve como do pesado, "porque não sabes a recompensa dos mandamentos", e Maimônides, séculos depois, combateu o costume de dar relevo litúrgico ao Decálogo pelo mesmo motivo. A resposta que o Evangelho dá não nega a objeção: ela ordena sem dispensar, e o versículo 40 de Mateus 22 diz que os outros mandamentos continuam dependendo dos dois, isto é, continuam valendo.
4. Por que a pergunta diz "na lei" e não "nas Escrituras"?
Porque a Lei é o corpo de textos onde estão os mandamentos; os Profetas, no vocabulário da época, eram sobretudo anúncio e repreensão. É Jesus quem, na resposta, inclui os Profetas — ninguém havia perguntado por eles. Se a inclusão é correção da pergunta ou simples ampliação, o texto não diz.
5. A pergunta tinha resposta errada possível?
Tinha, e de dois tipos. Nomear um mandamento ritual específico — o sábado, a circuncisão — deixaria Jesus preso a uma escola e exposto a objeção imediata. Nomear algo que não estivesse na Torá o colocaria acima dela. A resposta que ele dá escapa das duas: cita um texto da Torá que ninguém poderia contestar, e que não é um rito.
6. Jesus admite que existem mandamentos menos importantes?
Em Mateus, sim, e em três lugares: fala de mandamentos "dos menores" em Mateus 5:19, de mandamento "grande" aqui, e do "mais importante na Lei" em Mateus 23:23. O que ele não faz, em nenhum deles, é autorizar o descarte dos menores — em Mateus 23:23 a frase que fecha a acusação é "sem descuidar daquelas".
9. Conexão com Outros Textos
A escala dentro do próprio evangelho de Mateus
Mateus 5:19 — "Portanto, qualquer um que desobedecer a um destes mandamentos, ainda que dos menores, e assim ensinar às pessoas, será chamado o menor no Reino dos céus; mas aquele que os cumprir e ensinar, esse será chamado grande no Reino dos céus."
Mateus 23:23 — "Ai de vocês, escribas e fariseus, hipócritas! Porque dão o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, mas desprezam o que é mais importante na Lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Vocês deviam praticar estas coisas, sem descuidar daquelas."
Mandamentos menores, mandamento grande e o mais importante na Lei: três graus, todos em Mateus, e nenhum deles autorizando o descarte do que está embaixo.
A pergunta irmã, feita por um homem rico
Mateus 19:16 — "E eis que um homem se aproximou dele e perguntou: Mestre bom, que coisa boa devo fazer para ter a vida eterna?"
Ali se procura a obra decisiva; aqui, o mandamento grande. Duas formas do mesmo pedido de recorte.
O alcance que a resposta vai acrescentar
Mateus 5:17 — "Não pensem que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim revogar, mas cumprir."
Mateus 11:13 — "Pois todos os profetas e a Lei profetizaram até João."
Mateus já tinha emparelhado a Lei e os Profetas duas vezes antes de chegar a este capítulo; a pergunta, porém, menciona só a Lei.
Os profetas que recusaram o rito sem a justiça
Oseias 6:6 — "Porque eu quero misericórdia, e não sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais que holocaustos."
Miqueias 6:8 — "Ele te mostrou, ó homem, o que é bom; e que é o que o SENHOR pede de ti, senão que pratiques a justiça, e ames a misericórdia, e andes humildemente com o teu Deus?"
Os dois textos a que Mateus volta quando a questão é o que vale mais; o primeiro é citado por Jesus em Mateus 9:13 e em Mateus 12:7.
Um mandamento declarado equivalente a todos, na própria Lei
Deuteronômio 10:12-13 — "E agora, Israel, que é que o SENHOR teu Deus pede de ti, senão que temas o SENHOR teu Deus, que andes em todos os seus caminhos, e o ames, e sirvas ao SENHOR teu Deus de todo o teu coração e de toda a tua alma, que guardes os mandamentos do SENHOR e os seus estatutos?"
O mesmo livro de onde sairá a resposta já havia resumido tudo numa pergunta parecida com a deste versículo.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
“Mestre, qual é o maior mandamento da lei?”
Texto grego (Textus Receptus)
Διδάσκαλε, ποία ἐντολὴ μεγάλη ἐν τῷ νόμῳ;
Transliteração
Didaskale, poia entolē megalē en tō nomō?
Análise palavra por palavra
Διδάσκαλε (Didaskale) — vocativo de didaskalos, "mestre, professor". É a palavra com que o grego do Novo Testamento traduz "rabi", e João 1:38 faz essa equivalência de modo explícito. Em Mateus ela aparece doze vezes, e na maioria delas na boca de quem interroga Jesus, não de quem o segue.
ποία (poia) — pronome interrogativo feminino de poios. A gramática distingue poios, que pergunta pela qualidade ou pela espécie ("de que tipo?"), de tis, que pergunta pela identidade ("qual deles?"). A distinção não é sempre observada no grego comum do período, e nos evangelhos as duas formas às vezes se confundem. Mesmo assim, a maioria dos comentaristas que examinam o versículo lê aqui o sentido qualitativo. Vincent afirma que as traduções inglesas perdem a nuance; o Expositor's Greek Testament diz que a pergunta é sobre as qualidades que tornam grande um mandamento; Meyer e Ellicott concordam. O mesmo pronome aparece em Mateus 19:18, na pergunta "quais?", onde também se discute se pede o tipo ou a enumeração.
ἐντολή (entolē) — "mandamento, preceito". De entellomai, "ordenar, encarregar". Designa a ordem individual, não o sistema: a Lei como instituição é nomos, e os preceitos dentro dela são entolai. A palavra aparece seis vezes em Mateus: três fora deste capítulo (Mateus 5:19; 15:3; 19:17) e três dentro dele, neste versículo e nos versículos 38 e 40.
μεγάλη (megalē) — "grande". Adjetivo no grau normal, e não no superlativo, que seria megistē. O grego da Septuaginta e dos evangelhos usa com frequência o grau normal onde o hebraico e o aramaico colocariam um superlativo, por não haver nessas línguas forma própria de superlativo; o contexto resolve. Daí a tradução por "maior", que praticamente todas as versões adotam, inclusive a ABC, e que capta o sentido sem reproduzir a forma. O adjetivo é retomado na resposta, no versículo 38, e aparece em Mateus 5:19 na frase "será chamado grande no Reino dos céus".
ἐν τῷ νόμῳ (en tō nomō) — "na lei". A preposição en é a de lugar: o mandamento grande está dentro do corpo de textos. Nomos é a palavra com que a Septuaginta traduz torah ("instrução, ensino", em hebraico — a palavra tem campo mais largo que "lei", e a tradução grega estreitou-o). Em Mateus a palavra aparece oito vezes, ora para a divisão do cânon ao lado dos Profetas, como em Mateus 5:17, ora para uma prescrição determinada, como em Mateus 12:5. Nenhum artigo acompanha entolē nem megalē; a construção é indefinida, o que reforça a leitura qualitativa: "que mandamento é grande na lei?".
Variantes
O versículo é estável. As edições impressas diferem apenas na pontuação: a edição de Scrivener do Textus Receptus (1894) não fecha a frase com sinal de interrogação, e as demais fecham. Não há variante de palavra registrada nos aparatos de uso corrente, e o Textus Receptus coincide com os textos críticos. A única perda na passagem para o português é a do pronome qualitativo, que nenhuma tradução consegue manter sem alongar a frase.
11. Conclusão
O que se conclui deste versículo começa pela sua forma.
A pergunta não pede um item: pede uma qualidade. Quem a lê como "escolha um dos mandamentos" lê menos do que está escrito, e perde a razão pela qual a resposta de Jesus tem a forma que tem. Pedido de critério se responde com princípio, e é princípio que vem nos versículos seguintes.
Em segundo lugar, a pergunta pressupõe que a Lei é ordenável, e esse pressuposto não era pacífico. A tradição judaica tinha razões sérias para desconfiar de qualquer eleição de um mandamento como o maior, e as suas melhores vozes as expressaram. Jesus aceita o pressuposto sem discuti-lo — e isso é, por si, uma decisão teológica: ele não defende que todos os mandamentos são iguais.
Em terceiro, a aceitação não vira dispensa. O mesmo evangelho que traz esta pergunta traz a advertência contra desfazer os mandamentos menores, e traz a acusação contra quem cuida do dízimo da hortelã e despreza a justiça — com a ressalva "sem descuidar daquelas". A ordenação que Mateus admite é de peso, não de validade.
Por último, há o que a pergunta deixa de fora e a resposta inclui. O especialista limitou o terreno à Lei. A resposta devolve o mandamento da Lei, acrescenta um segundo mandamento da Lei que ninguém pediu e termina, no versículo 40 de Mateus 22, dizendo que não só a Lei, mas também os Profetas pendem dos dois. O perguntador escolheu o cercado; quem responde o alarga. É o padrão que atravessa o capítulo inteiro: em cada uma das quatro rodadas, a resposta termina em um lugar mais largo que a pergunta.













