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Mateus 19:18

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✍️ Por Alberto Adriano·20 de setembro de 2026·⏱️ 21 min de leitura·👁 23 acessos
Ele perguntou: “Quais?” Jesus respondeu: “Não matarás, não adulterarás, não furtarás, não darás falso testemunho;
Jesus enumera mandamentos diante de um homem que escuta, num caminho da Judeia.

Estudo


Ele perguntou: “Quais?” Jesus respondeu: “Não matarás, não adulterarás, não furtarás, não darás falso testemunho;

1. Introdução

O homem não aceita a resposta anterior como fim da conversa: pergunta quais mandamentos. Jesus recita quatro, todos proibições, todos sobre o modo de tratar outras pessoas. Nenhum dos mandamentos que falam de Deus entra na lista, e o que proíbe a cobiça também fica de fora. O versículo é curto e o que ele diz está sobretudo no que deixa de dizer.

2. Contexto Histórico e Cultural

Os Dez Mandamentos tinham, no primeiro século, um lugar que nenhum outro trecho da Lei ocupava. A Mishná registra, no tratado Tamid (5:1), a rotina diária dos sacerdotes no Templo: antes do sacrifício da manhã, na Sala das Pedras Lavradas, eles recitavam uma bênção, os Dez Mandamentos, e em seguida os três trechos que compõem a confissão de Israel — Deuteronômio 6:4-9, Deuteronômio 11:13-21 e Números 15:37-41. O Decálogo vinha antes do "Ouve, Israel", todos os dias, no coração do culto.

Fora do Templo, a mesma prática foi tentada e depois abandonada. O Talmude, no tratado Berakhot (12a), explica por quê: quiseram recitar os Dez Mandamentos também nas sinagogas, "mas já haviam abolido a recitação por causa da alegação dos hereges" — gente que sustentava que só aqueles dez tinham vindo de Deus, e o resto da Torá, não. O Decálogo foi tirado da liturgia diária para que ninguém pudesse usá-lo contra o restante da Lei. A datação exata dessa decisão é discutida, mas o motivo declarado é claro nas fontes.

Há um documento que mostra a prática antes da proibição. O Papiro Nash, achado no Egito e datado por volta do século II antes de Cristo, traz numa folha só os Dez Mandamentos seguidos do "Ouve, Israel" — exatamente a combinação que a Mishná descreve no Templo. Por muito tempo foi o manuscrito hebraico mais antigo conhecido, até os achados do deserto da Judeia. E ele traz uma surpresa de ordem.

No Papiro Nash, a sequência é adultério, homicídio, furto. Essa também é a ordem da maior parte dos manuscritos da Septuaginta — a tradução grega do Antigo Testamento —, e é a ordem que Fílon de Alexandria usa. E é a ordem que aparece no Novo Testamento em Marcos 10:19, Lucas 18:20, Romanos 13:9 e Tiago 2:11. Como o papiro veio do Egito, como a Septuaginta foi feita no Egito e como Fílon era de Alexandria, é razoável supor que circulasse por ali um texto hebraico do Decálogo com essa ordem; a hipótese é aceita por muitos estudiosos, sem ser demonstrável a partir de um só documento.

O ponto que interessa a este versículo é que Mateus 19:18 não segue essa ordem. Aqui vem primeiro "não matarás", depois "não adulterarás" — a sequência do texto hebraico tal como foi transmitido, e não a do Egito grego. Entre os quatro lugares do Novo Testamento em que a lista aparece, este é o que se afasta dos outros.

Também é útil saber que a divisão dos dez em números não é a mesma em todas as tradições. Para a contagem judaica, a primeira das "dez palavras" é "eu sou o SENHOR, teu Deus, que te tirei do Egito"; para a contagem cristã mais comum, a primeira é "não terás outros deuses". Os mandamentos citados neste versículo caem, na contagem cristã corrente, nas posições sexta, sétima, oitava e nona. Falar em "sexto mandamento" é, portanto, falar dentro de um sistema de numeração, e não de um dado do texto bíblico.

3. Análise Teológica do Versículo

"Ele perguntou: 'Quais?'"

A resposta anterior tinha sido "guarde os mandamentos", e o assunto poderia ter terminado ali. O homem não deixa. Ele quer que a lista seja reduzida.

A pergunta não é "qual dos dez", no sentido de escolher um item numerado. O grego usa a forma que significa "de que espécie", "de que tipo" — ele pergunta por uma categoria. Ellicott entende que ele estava treinado nas discussões de escola sobre a hierarquia da Lei e queria saber a qual classe Jesus se referia. O Pulpit Commentary lê de outro modo: ele esperava algum preceito especial e difícil, e não as obrigações comuns. As duas leituras são possíveis e o versículo não escolhe entre elas.

Em todo caso, a pergunta repete o movimento do versículo 16 de Mateus 19. Lá ele pedia uma coisa boa entre as coisas boas; aqui pede uma espécie de mandamento entre os mandamentos. É a mesma procura por um recorte que torne a exigência administrável.

"Não matarás, não adulterarás, não furtarás, não darás falso testemunho"

Jesus atende — e a lista que dá é a mais óbvia possível. São quatro mandamentos do Decálogo, na sequência em que estão em Êxodo 20 e Deuteronômio 5, e todos pertencem à parte que trata da relação entre pessoas. Nenhuma novidade, nenhum preceito escondido, nada que exigisse um mestre para ser sabido.

Os quatro são negativos. Cada um deles se cumpre por não fazer: quem nunca matou cumpriu o primeiro, quem nunca furtou cumpriu o terceiro. Essa é uma característica da lista, e ela vai importar quando o versículo 19 acrescentar duas ordens de outro tipo.

O que fica de fora

Falta a primeira metade do Decálogo inteira — os mandamentos sobre Deus. Não ter outros deuses, não fazer imagem, não tomar o nome em vão, guardar o sábado: nada disso é mencionado. O homem tinha perguntado como ter a vida eterna, que é assunto de relação com Deus, e recebe uma lista que não fala de Deus nenhuma vez.

Por que só a segunda parte? Não há resposta no texto, e as propostas são antigas. Gill sustenta que esses mandamentos eram os mais conhecidos e de uso comum, e que quem falha no trato com as pessoas falha ainda mais no culto a Deus. O Expositor's Greek Testament ("Testamento Grego do Expositor", comentário inglês do início do século XX) diz que Jesus estava afirmando a primazia do ético. O Pulpit Commentary sugere que a limitação servia para que o homem sentisse a própria falta nas coisas ordinárias, ou para fazer aparecer a confiança que ele tinha na própria justiça. São três leituras, todas plausíveis, nenhuma no texto.

E falta o mandamento sobre a cobiça — "não cobiçarás a casa do teu próximo", o último da série. Essa ausência é de outra natureza, porque é o único dos dez que trata de um movimento interior e não de um ato. Os quatro citados podem ser cumpridos por quem nunca fez nada; o décimo, não.

O Pulpit Commentary propõe que Jesus tenha deixado esse fora de propósito, já que a cobiça era justamente o ponto fraco daquele homem. É uma leitura que depende de saber o desfecho — ela só funciona para quem já leu o versículo 22 de Mateus 19. O texto não diz nada sobre intenção, e a omissão pode ser simplesmente o modo abreviado de citar uma lista que todos conheciam. Não é possível decidir.

A lista em Marcos, com um item a mais

Marcos 10:19 traz os mesmos mandamentos e acrescenta um que não existe no Decálogo: "não defraudarás". A palavra grega descreve reter o que pertence a outro — o salário do trabalhador, o penhor do devedor, o depósito confiado. É provável que venha de Levítico 19:13, "não oprimirás o teu próximo nem o roubarás; o salário do assalariado não ficará contigo até de manhã", ou de Deuteronômio 24:14. Alguns estudiosos veem nesse acréscimo uma forma prática de dizer o décimo mandamento, transformando a cobiça no ato que ela produz. É hipótese razoável e não verificável.

A diferença entre os dois evangelhos merece registro: Marcos põe na lista um mandamento que toca diretamente o modo de acumular bens, e Mateus não põe. Em Mateus, o assunto do dinheiro só aparece no versículo 21, e aparece como convite, não como acusação.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Pessoas

O homem. Fala duas palavras no versículo — uma pergunta de uma só palavra no grego. É a segunda vez que ele intervém, e as duas vezes são para estreitar a exigência: primeiro pedindo uma obra, agora pedindo uma categoria.

Jesus. Recita mandamentos de cor, como qualquer judeu faria. Não explica nenhum deles, não os comenta, não acrescenta interpretação — coisa que ele faz em outros lugares do evangelho, como no Sermão do Monte.

Moisés. Não é nomeado aqui, mas está em toda a lista: os quatro mandamentos citados vêm das tábuas de Êxodo 20 e da repetição de Deuteronômio 5. No mesmo capítulo, nos versículos 7 e 8 de Mateus 19, Moisés tinha sido nomeado três vezes na discussão sobre o divórcio.

Eventos e textos

A entrega da Lei no Sinai. É o acontecimento que está por trás da lista. Os Dez Mandamentos aparecem duas vezes no Antigo Testamento, em Êxodo 20:1-17 e em Deuteronômio 5:6-21, com pequenas diferenças entre as duas versões — a mais conhecida delas é a razão dada para o sábado: em Êxodo, a criação; em Deuteronômio, a saída do Egito.

A recitação diária no Templo. Segundo a Mishná, os sacerdotes recitavam os Dez Mandamentos todas as manhãs. O Templo ainda estava de pé quando esta conversa aconteceu, e cairia cerca de quarenta anos depois.

O Papiro Nash. Folha de papiro achada no Egito, com o Decálogo e o "Ouve, Israel" copiados juntos, datada em torno do século II antes de Cristo. Mostra que a combinação das duas peças é antiga e que circulava fora da Judeia.

Lugares

O caminho na Judeia, do outro lado do Jordão. A conversa continua onde começou, em movimento, sem nenhuma mudança de cena entre o versículo 16 e o 22 de Mateus 19.

5. Pontos de Ensino

Uma pergunta que pede recorte quase sempre pede desconto

"Quais?" é uma palavra inocente e uma operação conhecida: reduzir o campo da exigência antes de assumi-la. O homem faz isso duas vezes em três versículos, e nas duas o que ele recebe é maior do que o que pediu.

A resposta mais alta costuma ser a mais conhecida

Não há nada de esotérico na lista. São os mandamentos que qualquer pessoa do povo sabia de cor. Quando alguém pede um caminho avançado e recebe o básico, a mensagem pode não ser sobre o conteúdo, e sim sobre a distância entre saber e fazer.

Proibições se cumprem sem sair do lugar

Os quatro mandamentos citados são negativos: para obedecê-los, basta não agir. Isso os torna administráveis e verificáveis — e é exatamente por isso que uma vida construída só sobre eles pode ser irrepreensível e vazia. O versículo seguinte acrescenta o que não se cumpre parado.

O que não foi dito faz parte do que foi dito

Faltam os mandamentos sobre Deus e falta o que proíbe cobiçar. A lista cobre o trato com as pessoas e deixa fora tanto o culto quanto o desejo. Reparar na forma do recorte é parte de ler a frase.

Cada evangelho traz a sua lista, e as listas não coincidem

Marcos 10:19 acrescenta "não defraudarás", que não é um dos dez; Lucas 18:20 põe o adultério antes do homicídio. As diferenças são pequenas e reais, e não há por que escondê-las: elas mostram que a lista está sendo citada de memória e de modo resumido, como se fazia.

6. Aspectos Filosóficos

Os quatro mandamentos citados pertencem a uma classe de normas que a filosofia moral costuma chamar de deveres negativos: eles proíbem, e para cumpri-los basta não fazer o que proíbem. Essa classe tem três vantagens práticas enormes. Ela é cumprível por todos ao mesmo tempo — toda a humanidade pode, em princípio, não matar. Ela é verificável — a ausência do ato é constatável. E ela é conclusiva: no fim do dia, quem não matou está quite com o mandamento.

Os deveres positivos não têm nenhuma das três vantagens. "Socorra o necessitado" não pode ser cumprido por todos diante de todos, porque os recursos e o tempo acabam. Não é verificável, porque sempre haverá mais alguém a socorrer. E não é conclusivo: nunca chega o momento em que a pessoa terminou de socorrer. Foi por isso que boa parte da tradição jurídica construiu seus códigos com proibições, e não com ordens de fazer — proibições dão para escrever, julgar e aplicar; ordens de fazer, muito menos.

O versículo põe as duas classes em contato sem discuti-las. A lista que Jesus recita é inteiramente da primeira classe, e o versículo 19 de Mateus 19 acrescentará uma ordem da segunda, "amarás o teu próximo como a ti mesmo", que não tem ponto de chegada nenhum. A passagem de uma classe para a outra acontece no meio de uma frase, sem aviso, e é ela que vai tornar possível a pergunta do versículo 20 — "o que ainda me falta?". Quem só cumpre deveres negativos pode estar em dia e sentir que falta algo, porque estar em dia é tudo o que esse tipo de dever oferece.

Há ainda a questão da inocência. Uma vida que se define pelo que não fez é uma vida descrita por ausências. Ela pode ser irreprochável e, ao mesmo tempo, não ter produzido nada. A suspeita de que a inocência assim entendida é insuficiente é antiga, e o Novo Testamento a formula em outros lugares sem os termos técnicos — Tiago 4:17 diz que peca quem sabe fazer o bem e não o faz, o que transforma a omissão em falta. O texto de Mateus não desenvolve esse argumento; ele apenas coloca, lado a lado, uma lista de proibições e um mandamento de amor, e deixa o contraste trabalhar.

Uma ressalva final, para não transformar a observação em regra. Nada disso torna os deveres negativos inferiores. Uma sociedade em que se mata, se rouba e se mente não é resgatada por boas intenções, e a estabilidade que as proibições produzem é a condição para que qualquer coisa positiva seja possível. A crítica que o episódio permite não é à lista; é à ideia de que a lista esgota o assunto.

7. Aplicações Práticas

Reparar em quando a pergunta serve para limitar. "O que exatamente eu preciso fazer?" pode ser pedido de clareza e pode ser tentativa de fixar o teto. As duas intenções produzem a mesma frase, e às vezes quem pergunta não sabe qual das duas está usando.

Não confundir ficha limpa com vida cheia. Não ter feito mal a ninguém é uma conquista real e não é um projeto de vida. Quem chega aos cinquenta anos com uma lista de coisas que não fez pode ter, ao mesmo tempo, razão para sossego e razão para a pergunta que o homem faz dois versículos adiante.

Desconfiar do recorte feito por quem vai ser avaliado. O homem pergunta quais mandamentos valem, e a resposta escolhe por ele. Em qualquer avaliação — de trabalho, de conduta, de compromisso —, deixar que o avaliado defina o critério esvazia a avaliação.

Citar de memória, com honestidade. Os três evangelhos trazem a lista com pequenas diferenças de ordem e de conteúdo. Isso é o que acontece quando se cita de cor, e é normal. O cuidado prático é não construir um argumento pesado sobre um detalhe de citação resumida.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

1. Por que Jesus não citou os mandamentos sobre Deus?

O texto não diz. As propostas mais antigas vão em duas direções: a de que os mandamentos sobre o próximo eram o terreno em que a falha ficaria visível, e a de que quem falha com as pessoas já falhou com Deus. Há ainda a possibilidade mais simples: citar a segunda metade era a forma corrente de resumir o Decálogo quando o assunto era conduta. As três são leituras, e o versículo não permite escolher.

2. A ausência do mandamento sobre a cobiça é proposital?

É a pergunta que os comentários mais fazem, e a resposta honesta é que não se sabe. Quem lê a cena inteira vê a coincidência: o único mandamento deixado de fora é justamente o que teria tocado o ponto que o versículo 22 de Mateus 19 revela. Mas coincidência não é prova de intenção, e listas citadas de memória costumam ser incompletas por economia.

3. Existe um "sexto mandamento" fixo?

A numeração depende da tradição. A contagem judaica começa por "eu sou o SENHOR, teu Deus"; a contagem cristã corrente começa por "não terás outros deuses"; e há ainda a divisão usada por católicos e luteranos, que junta os dois primeiros e desdobra o último em dois. O conteúdo dos mandamentos é o mesmo em todas; os números, não. Por isso é mais seguro citar pelo texto do que pelo número.

4. A ordem diferente entre os evangelhos indica erro?

Não há razão para ver erro. Lucas 18:20 e Marcos 10:19 põem o adultério antes do homicídio, que é a ordem da maior parte dos manuscritos da Septuaginta e a do Papiro Nash; Mateus 19:18 põe o homicídio antes, que é a ordem do texto hebraico transmitido. Duas ordens circulavam, e os evangelhos refletem as duas. O dado é de história do texto, e não de contradição de conteúdo.

5. "Não matarás" proíbe toda morte?

O verbo hebraico do mandamento não é o termo geral para tirar a vida: ele se aplica ao homicídio, e a mesma Lei que o traz prevê pena de morte judicial e guerra. A discussão sobre até onde vai a proibição é antiga e continua aberta, e o dono dela não é este versículo, que cita o mandamento sem comentá-lo. Aqui ele entra como item de uma lista.

9. Conexão com Outros Textos

Os mandamentos citados, na fonte

Êxodo 20:13-16 — "Não matarás. Não adulterarás. Não furtarás. Não darás falso testemunho contra o teu próximo."

Deuteronômio 5:17-20 — "Não matarás. Não adulterarás. Não furtarás. Não darás falso testemunho contra o teu próximo."

Os quatro estão na mesma ordem nos dois lugares do Antigo Testamento, e é essa a ordem que Mateus segue.

A mesma lista nos outros evangelhos

Marcos 10:19 — "Sabes os mandamentos: Não matarás, não adulterarás, não furtarás, não dirás falso testemunho, não defraudarás, honra a teu pai e a tua mãe."

Lucas 18:20 — "Sabes os mandamentos: Não adulterarás, não matarás, não furtarás, não dirás falso testemunho, honra a teu pai e a tua mãe."

Marcos acrescenta um mandamento que não é do Decálogo; Lucas troca a ordem dos dois primeiros.

A lista resumida por Paulo

Romanos 13:9 — "Pois isto: não adulterarás, não matarás, não furtarás, não cobiçarás, e, se algum outro mandamento há, nestas palavras se resume: amarás o teu próximo como a ti mesmo."

Paulo mantém a cobiça na lista e termina com o mesmo mandamento que Mateus acrescenta no versículo seguinte.

O mandamento que Marcos acrescenta

Levítico 19:13 — "Não oprimirás o teu próximo nem o roubarás; o salário do assalariado não ficará contigo até de manhã."

É a provável origem do "não defraudarás" de Marcos 10:19, que não existe no Decálogo.

A mesma lista, aprofundada

Mateus 5:21-22 — "Vocês ouviram o que foi dito aos antigos: ‘Não matarás; e quem matar estará sujeito a julgamento’. Eu, porém, digo a vocês que qualquer um que se irar contra seu irmão sem motivo estará sujeito a julgamento. E quem disser a seu irmão: ‘Racá!’ estará sujeito ao tribunal. E quem lhe disser: ‘Insensato!’ estará sujeito ao fogo do inferno."

Mateus 5:27-28 — "Vocês ouviram o que foi dito aos antigos: ‘Não adulterarás’. Eu, porém, digo a vocês que qualquer um que olhar para uma mulher para cobiçá-la já cometeu adultério com ela no seu coração."

Dois dos quatro mandamentos citados aqui já tinham sido tratados no Sermão do Monte, e ali Jesus os estendeu ao que se passa por dentro. Neste versículo ele os recita sem nenhum comentário.

Quebrar um é quebrar tudo

Tiago 2:10-11 — "Pois quem guardar toda a Lei, mas tropeçar em um só ponto, tornou-se culpado de todos. Porque aquele que disse 'não adulterarás' também disse 'não matarás'."

A carta usa os dois primeiros mandamentos da lista para argumentar que a Lei não se cumpre por partes.

10. Original Grego e Análise

Texto em português (ABC)

Ele perguntou: “Quais?” Jesus respondeu: “Não matarás, não adulterarás, não furtarás, não darás falso testemunho;

Texto grego (Textus Receptus, Scrivener 1894)

λέγει αὐτῷ, Ποίας; ὁ δὲ Ἰησοῦς εἶπε, Τὸ οὐ φονεύσεις· οὐ μοιχεύσεις· οὐ κλέψεις· οὐ ψευδομαρτυρήσεις·

Transliteração

Legei autō, Poias? ho de Iēsous eipe, To ou phoneuseis; ou moicheuseis; ou klepseis; ou pseudomartyrēseis;

Análise palavra por palavra

λέγει αὐτῷ (legei autō) — "diz a ele", presente do indicativo. O grego dos evangelhos usa com frequência o presente para narrar ações passadas, num efeito de aproximação que o português costuma desfazer traduzindo por "perguntou".

Ποίας; (Poias?) — acusativo feminino plural de poios, pronome interrogativo que pergunta pela qualidade ou pelo tipo, e não pela identidade. "Quais, de que espécie?" — distinto de tinas, que perguntaria "quais, entre estes?". O feminino concorda com "os mandamentos" do versículo anterior, que em grego é palavra feminina. A pergunta inteira tem uma palavra só.

ὁ δὲ Ἰησοῦς εἶπε (ho de Iēsous eipe) — "e Jesus disse", aoristo do indicativo. Os manuscritos mais antigos trazem ephē, "declarou", em lugar de eipe. A diferença é de estilo.

Τὸ (To) — artigo neutro singular, usado aqui para transformar a citação inteira em substantivo: literalmente, "o: não matarás". É um recurso grego para introduzir uma frase citada, algo como abrir aspas. O português não tem equivalente direto, e por isso a construção desaparece na tradução.

οὐ φονεύσεις (ou phoneuseis) — "não matarás", futuro do indicativo com a negação ou. A construção é decalque do hebraico: no Decálogo, a proibição se faz com a partícula lo mais o verbo no imperfeito, e a Septuaginta a verteu para o futuro grego. O futuro usado assim não descreve o que vai acontecer — proíbe de modo absoluto e sem prazo, mais forte do que o imperativo. O verbo phoneuō corresponde ao hebraico ratsach, que designa o homicídio e não a morte em geral.

οὐ μοιχεύσεις (ou moicheuseis) — "não adulterarás", mesma construção. Moicheuō designa especificamente o adultério, distinto de porneuō, o verbo mais amplo para a imoralidade sexual que aparece no versículo 9 de Mateus 19.

οὐ κλέψεις (ou klepseis) — "não furtarás". Do verbo kleptō, de onde vem "cleptomania". A raiz é a mesma do substantivo que Mateus 6:19 usa para os ladrões que arrombam.

οὐ ψευδομαρτυρήσεις (ou pseudomartyrēseis) — "não darás falso testemunho". Verbo composto de pseudēs, "falso", com martyreō, "testemunhar" — a mesma raiz de "mártir", que em grego significa apenas "testemunha". O mandamento, na sua origem, é uma norma de tribunal: proíbe depor falsamente contra alguém, e não a mentira em geral.

A ordem das quatro proibições

Mateus traz homicídio, adultério, furto e falso testemunho, que é a ordem do texto hebraico de Êxodo 20 e de Deuteronômio 5. Marcos 10:19, Lucas 18:20, Romanos 13:9 e Tiago 2:11 trazem o adultério antes do homicídio, que é a ordem da maior parte dos manuscritos da Septuaginta e também a do Papiro Nash. Entre os quatro textos do Novo Testamento que citam a série, Mateus é o único que segue a ordem hebraica.

11. Conclusão

A primeira conclusão é sobre a pergunta "quais?". Ela não pede informação nova: pede um recorte. O homem já sabia os mandamentos, e o que ele busca é que alguém lhe diga quais realmente contam. A resposta não faz esse favor — devolve a lista corrente, sem hierarquia e sem desconto.

A segunda é sobre o tipo de norma que a lista contém. Quatro proibições, quatro deveres que se cumprem por omissão. Uma pessoa pode estar integralmente em dia com os quatro sem jamais ter feito coisa alguma, e é isso que prepara o acréscimo do versículo 19 de Mateus 19, onde entra um mandamento que ninguém cumpre parado.

A terceira é sobre as ausências. Não há mandamento sobre Deus na lista, e não há o que proíbe cobiçar. A primeira ausência tem várias explicações propostas e nenhuma comprovada; a segunda é a que mais chama atenção de quem já leu o fim do episódio, e também não pode ser atribuída com segurança a uma intenção.

A quarta é sobre o modo de citar. As três listas dos evangelhos não coincidem em ordem nem em conteúdo, e a de Mateus segue a sequência hebraica enquanto as outras seguem a grega. A variação não altera nada do ensino, e serve de lembrete útil: as citações do Antigo Testamento no Novo são feitas do modo como se citava na época — de memória, de forma resumida, a partir de textos que já circulavam em mais de uma forma.

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