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Mateus 22:34

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✍️ Por Alberto Adriano·21 de outubro de 2026·⏱️ 26 min de leitura·👁 5 acessos
Ao ouvirem que ele havia feito os saduceus calarem-se, os fariseus se reuniram.
Grupo de homens de túnica reunido em círculo à sombra de um pórtico do Templo, falando baixo, enquanto ao fundo uma multidão escuta um mestre.

Estudo


Ao ouvirem que ele havia feito os saduceus calarem-se, os fariseus se reuniram.

1. Introdução

Os fariseus acabam de receber a melhor notícia do dia, e a reação deles é se juntar contra quem a deu.

Jesus tinha sustentado, contra os saduceus, que há ressurreição dos mortos. Essa era a posição dos fariseus, e não a dos adversários que ele calou. Mateus registra o que eles fizeram ao saber: se reuniram.

As duas palavras gregas com que o versículo descreve essa reunião são as mesmas de um salmo em que os governantes se juntam contra o rei ungido de Deus. A coincidência de vocabulário é discutível como intenção, mas é verificável como fato.

E a reunião não termina aqui. Ela continua aberta no versículo 41 de Mateus 22, quando Jesus se vira para o grupo ainda reunido e passa a fazer as perguntas.

2. Contexto Histórico e Cultural

Dois partidos que não se suportavam. Fariseus e saduceus não eram duas alas de um mesmo grupo: eram correntes com bases sociais, doutrinas e interesses diferentes. Os saduceus concentravam-se na aristocracia sacerdotal de Jerusalém e no entorno do Templo; os fariseus eram em boa parte gente de fora do sacerdócio, mestres e artesãos com influência sobre as sinagogas e sobre a população comum. Josefo (historiador judeu do século I, que escreveu em grego para leitores romanos) descreve as duas correntes em dois lugares, nas Antiguidades Judaicas (livro 18) e na Guerra dos Judeus (livro 2), e anota a diferença de público: os fariseus tinham a multidão do seu lado, os saduceus tinham os ricos. Isso importa para a cena, porque o que acabara de acontecer foi uma derrota pública do grupo dominante no Templo dentro do Templo.

O ponto exato em que discordavam. O livro de Atos resume a divergência numa linha: "porque os saduceus dizem que não há ressurreição, nem anjo, nem espírito; mas os fariseus reconhecem uma e outra coisa" (Atos 23:8). Era o pomo de discórdia mais conhecido entre os dois grupos, e foi justamente sobre ele que Jesus respondeu antes deste versículo. A consequência para a cena é direta: do ponto de vista doutrinário, quem ganhou a discussão defendeu a tese farisaica. Quem lê o versículo esperando encontrar gratidão encontra, em vez disso, uma reunião.

A derrota pública de uma escola. Nas disputas religiosas do período, ficar sem resposta tinha consequências que iam além do incômodo. O prestígio de um mestre e da sua escola se construía diante de público, e a capacidade de responder era parte do capital do grupo. Por isso a notícia circulou: o versículo pressupõe que alguém contou aos fariseus o que havia ocorrido, e os comentaristas discutem se eles estavam presentes ou se souberam por terceiros. Meyer (Heinrich August Wilhelm Meyer, exegeta alemão do século XIX) considera a questão indecidível pelo texto, e tem razão — Mateus não diz.

Quatro perguntas, quatro tipos. Este versículo abre a terceira de quatro rodadas de perguntas seguidas: o tributo a César, a mulher dos sete irmãos, o maior mandamento e, por fim, a pergunta que Jesus faz sobre o filho de Davi. David Daube (romanista e estudioso do direito judaico, professor em Cambridge, Oxford e Berkeley) observou, num artigo curto publicado no Journal of Theological Studies em 1951, que essa sequência corresponde a um esquema conhecido na tradição rabínica, que classificava as perguntas em quatro espécies: uma de direito, uma feita por zombaria, uma sobre conduta e uma sobre a interpretação de textos que parecem se contradizer. O mesmo esquema está por trás dos quatro filhos da Hagadá de Pessach (o roteiro da ceia judaica da Páscoa), cuja forma mais antiga aparece na Mekhilta, comentário a Êxodo do século III. A observação é interessante e é debatida: os textos rabínicos que trazem o esquema são posteriores ao Evangelho, e por isso ela não demonstra dependência — mostra, com bom grau de certeza, que a sucessão de perguntas obedece a uma forma reconhecível, e não ao acaso.

Reunir-se para deliberar. O verbo que Mateus usa serve tanto para a ideia de convergir ao mesmo lugar quanto para a de se concertar com um fim. O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) observa que a expressão pode ser lida como "ao mesmo lugar", na linha de Atos 2:1, e prefere essa leitura; Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) imagina os fariseus recolhidos a uma casa para consultar-se. Nenhuma das duas é provável a ponto de excluir a outra. O que se sabe do período é que havia prática formal de deliberação em grupo entre mestres, com consulta e voto, e que uma decisão tomada assim ganhava autoridade que a opinião de um só não tinha.

Onde isso se passava. A cena corre no recinto do Templo, nos dias que antecedem a Páscoa, com a cidade cheia de peregrinos. O ensino acontecia nos pátios e nos pórticos, ao ar livre, e qualquer pessoa podia parar para ouvir. Essa é a razão pela qual as perguntas vêm em público e as derrotas também: não havia sala fechada, nem ata, nem forma de limitar o alcance do que fosse dito. Quem perdia uma discussão ali perdia diante de estranhos.

3. Análise Teológica do Versículo

"Ao ouvirem"

O versículo começa com informação de segunda mão. Os fariseus não aparecem na cena anterior: eles souberam. Mateus não diz por quem, nem quanto tempo depois, nem se a notícia chegou completa ou resumida — e a diferença não é pequena, porque o que motiva a reunião é o relato, não a conversa.

Isso cria um efeito que o capítulo inteiro aproveita. Quem lê o Evangelho acompanhou a discussão com os saduceus do começo ao fim e sabe exatamente o que foi dito. Os fariseus do versículo 34 sabem apenas o resultado. Eles se movem a partir de um placar.

E o placar é a única coisa que o texto registra que eles levaram em conta. Não há no versículo uma palavra sobre o argumento, sobre o texto de Êxodo que Jesus havia citado, sobre a conclusão de que Deus não é Deus de mortos. A reunião responde ao fato de alguém ter vencido, não ao conteúdo da vitória.

"que ele havia feito os saduceus calarem-se"

O verbo é o de amordaçar, e é o mesmo que descreveu o homem sem roupa de casamento em Mateus 22:12, onde o seu campo de sentido está analisado. A diferença entre as duas ocorrências está em quem aparece como autor da ação: ali o homem foi calado e o texto não nomeia quem o calou; aqui quem cala é Jesus, dito com todas as letras.

Vincent (Marvin Vincent, comentarista norte-americano do século XIX, autor de estudos sobre as palavras do Novo Testamento) percebe no verbo um humor severo: aplicado a animais, ele descreve o açaime que se põe no boi para que não coma enquanto trabalha. Ellicott (Charles John Ellicott, bispo anglicano do século XIX) acrescenta que, mesmo no uso figurado, o verbo guarda a ideia de silêncio imposto, e não de silêncio escolhido. Quem cala assim cala porque não pode falar.

Há aqui uma pergunta que o versículo levanta e não responde: calar alguém é o mesmo que convencê-lo? O texto registra que os saduceus pararam de falar. Não registra que mudaram de opinião, e o livro de Atos mostra, décadas depois, saduceus continuando a negar a ressurreição — o que indica, com bom grau de certeza, que a derrota no Templo não os converteu.

"os fariseus se reuniram"

A pergunta é por que eles se reuniriam. Jesus acabara de defender em público a doutrina que eles sustentavam contra os saduceus, e que era a divergência mais conhecida entre os dois grupos. Três leituras foram propostas.

Primeira leitura: eles se juntaram para comemorar. Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX) e o Pulpit Commentary admitem que a reunião pode ter sido de triunfo sobre os rivais derrotados. A leitura explica o movimento, mas não explica o que vem em seguida: quem comemora não envia alguém para testar quem lhe deu a vitória.

Segunda leitura: eles se juntaram para planejar. Meyer sustenta que a reunião foi deliberativa, e que dela saiu o homem do versículo 35, adiantado para a tarefa. Essa leitura tem a favor o verbo do versículo seguinte, que diz que o perguntador agiu para testar Jesus, e tem a favor a moldura do capítulo: no versículo 15 de Mateus 22 os fariseus já haviam combinado um plano para apanhá-lo em alguma palavra.

Terceira leitura: as duas coisas ao mesmo tempo. Barnes também a admite, e ela é a mais econômica. A derrota dos saduceus abriu espaço e criou urgência na mesma hora: o mestre que calou o partido do Templo não podia ser deixado solto diante do povo.

O que o texto não traz é qualquer palavra de concordância. E a comparação com os outros evangelhos mostra que essa ausência é escolha de Mateus, não lacuna da memória antiga. Lucas 20:39 põe na boca de escribas presentes a frase "Mestre, disseste bem", logo depois da mesma discussão. Marcos 12:28 diz que o escriba se aproximou porque tinha ouvido os dois lados discutirem e vira que Jesus havia respondido bem. Os três evangelhos contam a mesma sequência; dois registram aprovação, e Mateus substitui a aprovação por uma reunião.

As palavras do salmo

O grego do fim do versículo é synēchthēsan epi to auto ("reuniram-se no mesmo lugar", ou "reuniram-se para o mesmo fim"). A mesma sequência de palavras está no Salmo 2:2 na Septuaginta (a tradução grega da Bíblia hebraica, feita no Egito nos séculos III e II a.C.): "os governantes se reuniram no mesmo lugar contra o SENHOR e contra o seu Cristo".

Esse salmo não é um texto qualquer no cristianismo do primeiro século. Em Atos 4:25-28 ele é citado por inteiro e aplicado à coalizão que levou Jesus à morte — Herodes, Pilatos, os gentios e o povo de Israel reunidos contra o ungido. A frase grega que Atos cita do salmo é a frase que Mateus usa aqui.

Quanto vale essa coincidência? Menos do que uma citação e mais do que nada. A expressão é comum na Septuaginta, aparece em contextos sem nenhuma carga e também em Atos 2:1, onde descreve os discípulos juntos no mesmo lugar no dia de Pentecostes. Não é possível decidir se Mateus a escolheu para evocar o salmo. O que se pode afirmar é que o leitor de língua grega, familiarizado com o Salmo 2, tinha as palavras para fazer a ligação — e que o próprio Mateus, no mesmo evangelho, repete o verbo nos três momentos decisivos da conspiração.

A reunião que não se desfaz

Os fariseus se reúnem no versículo 34 e continuam reunidos no versículo 41, onde Mateus escreve "enquanto os fariseus estavam reunidos". O verbo é o mesmo, agora na forma que indica estado mantido. A reunião convocada para testar Jesus permanece de pé quando ele deixa de responder e começa a perguntar — e é diante dela que ninguém consegue dizer uma palavra, no versículo 46.

Depois disso, o mesmo verbo volta duas vezes em Mateus, e nas duas com os mesmos personagens e o mesmo propósito: em Mateus 26:3, quando os chefes dos sacerdotes e os anciãos se reúnem no palácio de Caifás, e em Mateus 27:62, quando os chefes dos sacerdotes e os fariseus se reúnem diante de Pilatos para pedir guarda ao túmulo. O verbo da reunião, neste evangelho, quase nunca descreve gente que se junta para o bem.

Há um limite a marcar. Contar ocorrências de um verbo comum não prova intenção literária, e o verbo também aparece em Mateus para multidões que se juntam para ouvir. A observação que resiste é mais modesta e mais útil: em Mateus, a oposição a Jesus nunca age sozinha. Ela se articula, e o versículo 34 é o lugar em que se vê a articulação sendo montada.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Os fariseus. Corrente judaica que sustentava a autoridade da Lei escrita junto com a tradição transmitida pelos mestres, e que defendia a ressurreição dos mortos, a existência de anjos e a retribuição futura. Não eram sacerdotes; a sua influência vinha do ensino e do prestígio entre a população. Em Mateus eles aparecem desde o capítulo 3 e atravessam o livro como os principais interlocutores e adversários de Jesus. Neste capítulo já tinham armado a pergunta sobre o tributo (Mateus 22:15), e é deles que parte a pergunta deste trecho.

Os saduceus. Grupo ligado à aristocracia sacerdotal e à administração do Templo, que rejeitava a ressurreição e não aceitava como vinculante a tradição oral dos mestres. Entram em Mateus 22 no versículo 23 e saem no versículo 33, derrotados. O conteúdo do debate que tiveram com Jesus pertence àquele trecho; aqui eles aparecem apenas como o grupo cuja derrota põe os fariseus em movimento. Depois da destruição do Templo, em 70 d.C., a corrente desaparece da história — perdeu com o Templo a sua base institucional.

O recinto do Templo. Lugar de toda esta sequência de perguntas. Jesus está ensinando nos pátios, não numa sinagoga nem numa casa, e por isso cada pergunta e cada resposta acontecem diante de desconhecidos. O espaço é administrado pelo sacerdócio, isto é, pelo meio de onde vinham os saduceus.

A semana. A cena está nos dias entre a entrada de Jesus em Jerusalém (Mateus 21:1-11) e a prisão. O capítulo 22 inteiro se passa, pela sequência do evangelho, num mesmo dia de debates — o versículo 23 diz "naquele mesmo dia", e nada indica mudança de data até o fim do capítulo.

O homem que vai perguntar. Sai desta reunião e aparece no versículo seguinte, identificado por Mateus como especialista na lei. Quem ele era e o que significa esse título pertencem ao estudo de Mateus 22:35.

5. Pontos de Ensino

1. Vencer uma discussão não é o mesmo que ser aceito. Jesus defendeu com êxito a tese que os fariseus sustentavam, e o resultado registrado não foi adesão: foi reunião. Concordar com alguém no conteúdo e querer vê-lo derrubado são coisas que convivem bem.

2. Quem é calado não é necessariamente convencido. O verbo do versículo descreve silêncio imposto, não persuasão. Os saduceus param de falar e continuam saduceus — o próprio Novo Testamento os mostra, décadas depois, com a mesma doutrina.

3. A notícia que chega é o resultado, não o argumento. Os fariseus agem a partir de um relato que lhes diz quem venceu. O texto não registra nenhuma reação deles ao raciocínio de Jesus, e isso descreve um comportamento muito reconhecível: discute-se o escore, não a razão.

4. Adversários entre si se aliam contra um terceiro. Fariseus e saduceus brigavam em público pela questão mais sensível da fé judaica do período. Diante de Jesus, a divergência deixa de operar. No capítulo anterior do evangelho o padrão já tinha aparecido com fariseus e herodianos, que também não se misturavam.

5. O grupo dá cobertura ao que o indivíduo não faria. Nenhum fariseu aparece sozinho neste versículo. O que o texto mostra é um corpo se formando antes de agir, e é desse corpo que sai o perguntador do versículo seguinte. A deliberação em conjunto transfere a responsabilidade e dilui o constrangimento.

6. O Evangelho não embeleza os seus personagens religiosos. Mateus poderia ter registrado a aprovação que Lucas e Marcos registram. Ele escolheu registrar a reunião. Um texto que quisesse apenas edificar não guardaria essa aspereza.

6. Aspectos Filosóficos

Quando um adversário fica sem resposta, o que exatamente ficou provado?

O filósofo americano Nicholas Rescher dedicou um livro a essa pergunta, Dialectics ("Dialética", 1977), em que trata o conhecimento pelo lado da controvérsia: não como um sistema construído do zero, mas como o que sobra depois de uma disputa regrada. O ponto de partida dele é que toda discussão tem uma distribuição inicial de encargos. Alguém precisa sustentar a tese; o outro apenas precisa objetar. Quem tem o encargo de provar perde se nada diz; quem só objeta não perde por não ter tese própria.

Disso Rescher extrai uma distinção que o versículo ilustra bem. Uma coisa é a posição dialética de quem sai vencedor de uma disputa — ele cumpriu o seu encargo e o adversário não cumpriu o dele. Outra coisa, bem diferente, é a verdade da tese defendida. O resultado de uma controvérsia depende de quem falou, de como estava distribuído o ônus da prova e de quais objeções ocorreram aos presentes. A verdade não depende de nada disso.

Os saduceus ficaram sem resposta. Pela régua de Rescher, isso diz algo de real: a objeção deles à ressurreição, montada sobre o caso dos sete irmãos, não resistiu. Mas não diz que a tese contrária tenha sido estabelecida para eles. Um argumento pode ser vencido por falta de recursos de quem o defende, e não por falsidade. Quem calou pode estar calado e certo; quem calou o outro pode estar falante e errado.

O versículo é interessante porque mostra isso em três camadas ao mesmo tempo. Os saduceus foram calados e permaneceram na sua posição. Os fariseus, que estavam certos na questão em disputa, usaram a derrota alheia como oportunidade de ataque. E Jesus, que venceu, não ganhou com a vitória nem um aliado — ganhou uma reunião montada contra ele.

Rescher insiste num segundo ponto que vale para a cena: a disputa é um método de distribuição de encargos, e quem controla o encargo controla o resultado provável. É por isso que a iniciativa da pergunta vale tanto. Quem pergunta escolhe o terreno, define o que precisa ser defendido e se reserva o papel confortável de objetar. A reunião do versículo 34 existe para recuperar essa iniciativa: nos dois debates anteriores, Jesus já havia transformado o papel de interrogado em papel de quem conduz, e o grupo que se reúne está tentando devolvê-lo ao lugar de quem responde.

Há um desdobramento que a filosofia da argumentação chama de assimetria entre refutar e convencer. Refutar é um trabalho sobre a proposição: mostra-se que ela não se sustenta. Convencer é um trabalho sobre a pessoa: ela passa a sustentar outra coisa. Os dois raramente andam juntos, e o segundo não decorre do primeiro. O silêncio é o melhor sinal de que o primeiro aconteceu e o pior indício sobre o segundo — porque quem se cala por não ter o que dizer tende a sair da sala com a convicção intacta e o ressentimento aumentado.

O que a cena não autoriza é a conclusão oposta, de que vencer discussões não serve para nada. Serve, e o próprio Mateus mostra para quê: o versículo 33 registra que as multidões ficaram admiradas com o ensino. O efeito do debate não recaiu sobre os derrotados, e sim sobre quem assistia. É uma distinção que a vida prática confirma — argumento público raramente converte o adversário e com frequência move o espectador.

7. Aplicações Práticas

Desconfie da vitória que não convenceu ninguém. Quando uma discussão termina com o outro lado calado, a tentação é tratar o assunto como encerrado. Na prática, o que se encerrou foi a fala. Se a relação continua — família, trabalho, igreja —, a posição que o outro não conseguiu defender vai voltar, e vai voltar pior, porque agora carrega a lembrança de ter sido humilhada em público. Vencer é o começo do problema, não o fim.

Note quem é o seu público. O que mudou de fato no capítulo não foi a cabeça dos saduceus: foi a admiração das multidões. Quem discute em público discute, quase sempre, para terceiros. Isso tem consequência prática no tom: argumentar para humilhar o adversário costuma funcionar contra quem argumenta, porque o espectador se identifica com o que está sendo esmagado.

Alianças de conveniência se desfazem, e o padrão se repete. Fariseus e saduceus se uniram contra Jesus sem resolver nada entre si. É um comportamento visível em qualquer ambiente com disputas internas: grupos que brigam diariamente se compõem na hora em que aparece alguém de fora capaz de desorganizar os dois. Quem é esse alguém de fora faz bem em saber que a trégua dos outros não é trégua para ele.

Quando o relato chega sem o argumento, peça o argumento. Os fariseus deste versículo decidiram com base em um resumo: Jesus calou os saduceus. Nenhuma linha sobre o que foi dito. É a maneira mais comum de errar em reuniões reais — decidir sobre o resultado de uma discussão que ninguém da sala acompanhou. A pergunta útil é sempre a mesma: o que ele respondeu, exatamente?

Reconheça a razão de quem você não gosta. O caso extremo está aqui: os fariseus tinham diante deles alguém defendendo a sua doutrina mais caracterizadora, e não houve registro de uma palavra de reconhecimento. Separar o mérito do argumento da identidade de quem o faz é um exercício difícil e raro, e a sua ausência quase sempre custa mais a quem se recusa a fazê-lo.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

1. Se Jesus defendeu a ressurreição, por que os fariseus não ficaram do lado dele?

Mateus não explica, e qualquer resposta é reconstrução. A mais razoável parte do que o capítulo já mostrou: no versículo 15 de Mateus 22 os fariseus tinham combinado apanhá-lo em alguma palavra, e no capítulo 21 os chefes dos sacerdotes e os fariseus já tinham entendido que a parábola dos lavradores falava deles. A disputa com Jesus, nesse ponto do evangelho, não era mais sobre doutrina — era sobre autoridade. Concordar com a tese não muda nada quando o incômodo é com quem a enuncia.

2. Os fariseus estavam presentes no debate com os saduceus?

O texto não diz. A forma como o versículo se abre — "ao ouvirem" — sugere notícia recebida, e os comentaristas se dividem entre as duas possibilidades. A questão permanece em aberto, e tem pouca consequência: em ambos os casos, o que os move é o resultado.

3. "Fazer calar" significa que Jesus os humilhou?

O verbo é duro e descreve silêncio imposto, não escolhido. Mas a cena anterior não tem insulto: Jesus respondeu com um texto da Torá e com um argumento sobre o tempo do verbo. O silêncio veio do argumento, não de deboche. Vale distinguir o efeito, que foi humilhante em público, da intenção, que o texto não descreve.

4. A semelhança com o Salmo 2 é proposital?

Não é possível decidir. A expressão grega é frequente na Septuaginta e aparece em contexto neutro no próprio Novo Testamento. O que se pode afirmar é que o Salmo 2 era lido pelos primeiros cristãos como profecia da coalizão contra o Messias — Atos 4:25-28 faz isso de modo explícito — e que o vocabulário da reunião em Mateus coincide com o do salmo.

5. Por que Mateus não registra o elogio que Lucas e Marcos registram?

Essa é uma pergunta sobre como o evangelho foi composto, e as respostas são hipóteses. Uma é que Mateus organizou o bloco inteiro como uma série de ataques, e um elogio no meio quebraria a sequência. Outra é que o elogio e a hostilidade conviviam na cena real, e cada evangelista guardou um lado. Nenhuma das duas é demonstrável, e a diferença entre os textos é o dado seguro.

6. Reunir-se para discutir como responder a alguém é errado?

Não, e o versículo não diz isso. Deliberar em grupo era prática normal entre mestres judeus, e continua sendo prática razoável. O que o capítulo mostra de problemático é o propósito declarado no versículo seguinte: o enviado vem "para testá-lo". A diferença entre consultar-se para entender e consultar-se para armar está no fim, não no ato de se reunir.

9. Conexão com Outros Textos

O salmo com as mesmas palavras

Salmo 2:1-2 — "Por que se amotinam as nações e os povos imaginam coisas vãs? Os reis da terra se levantam e os governantes se reúnem no mesmo lugar contra o SENHOR e contra o seu ungido."

Na Septuaginta, o verbo e a expressão do segundo versículo são os mesmos de Mateus 22:34.

O salmo aplicado à coalizão contra Jesus

Atos 4:26-27 — "Levantaram-se os reis da terra, e os governantes se reuniram contra o Senhor e contra o seu Cristo. Porque verdadeiramente contra o teu santo Filho Jesus, que ungiste, se reuniram Herodes e Pôncio Pilatos, com os gentios e os povos de Israel."

A reunião que ainda está de pé sete versículos depois

Mateus 22:41 — "Enquanto os fariseus estavam reunidos, Jesus lhes perguntou:"

O verbo da reunião, nas duas vezes seguintes em que Mateus o usa contra Jesus

Mateus 26:3-4 — "Então os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo se reuniram no palácio do sumo sacerdote, chamado Caifás, e juntos planejaram prender Jesus à traição e matá-lo."

Mateus 27:62 — "No dia seguinte, isto é, o dia depois da preparação, os chefes dos sacerdotes e os fariseus reuniram-se diante de Pilatos"

O elogio que os outros evangelhos registram no mesmo ponto

Lucas 20:39 — "E alguns dos escribas, respondendo, disseram: Mestre, disseste bem."

Marcos 12:28 — "Aproximando-se um dos escribas que os tinha ouvido discutir, e vendo que lhes havia respondido bem, perguntou-lhe: Qual é o primeiro de todos os mandamentos?"

Nos dois, o que puxa a cena seguinte é aprovação; em Mateus, é uma reunião.

O ponto doutrinário que separava os dois grupos

Atos 23:8 — "Porque os saduceus dizem que não há ressurreição, nem anjo, nem espírito; mas os fariseus reconhecem uma e outra coisa."

A outra aliança improvável do mesmo capítulo

Mateus 22:15-16 — "Então os fariseus se retiraram e combinaram um plano para apanhá-lo em alguma palavra. Enviaram-lhe seus discípulos, junto com os herodianos…"

O fim da linha, com todos sem resposta

Mateus 22:46 — "Ninguém conseguia responder-lhe uma só palavra, e daquele dia em diante ninguém mais ousou fazer-lhe perguntas."

O verbo de silenciar, que neste versículo descreve os saduceus, acaba descrevendo todos os que entraram na roda.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Ao ouvirem que ele havia feito os saduceus calarem-se, os fariseus se reuniram.

Texto grego (Textus Receptus)

Οἱ δὲ Φαρισαῖοι, ἀκούσαντες ὅτι ἐφίμωσε τοὺς Σαδδουκαίους, συνήχθησαν ἐπὶ τὸ αὐτό.

Transliteração

Hoi de Pharisaioi, akousantes hoti ephimōse tous Saddoukaious, synēchthēsan epi to auto.

Análise palavra por palavra

Οἱ δὲ Φαρισαῖοι (hoi de Pharisaioi) — "mas os fariseus". A partícula de marca mudança de cena e de personagens: o grupo anterior sai, este entra. O nome vem provavelmente do aramaico para "os separados", e a etimologia é discutida — há quem a ligue a separação por pureza e quem a ligue a interpretação, no sentido de distinguir, dividir um texto. A palavra aparece 29 vezes em Mateus, mais do que em qualquer outro evangelho.

ἀκούσαντες (akousantes) — "tendo ouvido". Particípio aoristo, que situa a ação antes do verbo principal: eles primeiro souberam, depois se reuniram. O particípio não diz de quem ouviram.

ὅτι (hoti) — "que". Introduz o conteúdo da notícia. O que eles ouviram não foi o debate: foi a frase que resume o debate.

ἐφίμωσε (ephimōse) — "fez calar". Aoristo ativo de phimoō, o verbo de pôr açaime, amordaçar, cujo campo de sentido e cujas ocorrências estão analisados em Mateus 22:12. A diferença formal entre os dois lugares é a voz: em Mateus 22:12 o verbo está na passiva, sem agente nomeado; aqui está na ativa, e o sujeito oculto é Jesus. O Textus Receptus traz a forma sem a consoante final, ephimōse; os textos críticos trazem ephimōsen. É variação ortográfica antiga diante de consoante, sem efeito no sentido.

τοὺς Σαδδουκαίους (tous Saddoukaious) — "os saduceus". O nome provavelmente deriva de Zadoque, o sacerdote do tempo de Davi e Salomão de quem a linhagem sacerdotal de Jerusalém reivindicava descendência; a derivação é a mais aceita, e não é certa.

συνήχθησαν (synēchthēsan) — "reuniram-se". Aoristo passivo de synagō, "ajuntar, recolher, reunir" — o verbo que dá o substantivo synagōgē, sinagoga, isto é, a assembleia reunida e, depois, o prédio onde ela se reúne. A passiva aqui funciona como reflexiva, uso comum no grego da Septuaginta: não foram reunidos por outro, juntaram-se. O mesmo verbo volta no versículo 41 de Mateus 22 no particípio perfeito, synēgmenōn, que indica o estado de quem permanece reunido.

ἐπὶ τὸ αὐτό (epi to auto) — literalmente "para o mesmo". A expressão admite duas leituras: "no mesmo lugar", como em Atos 2:1, e "para o mesmo fim". O Pulpit Commentary prefere a primeira; a segunda tem a favor o versículo seguinte, em que o grupo age com um propósito único. Várias traduções inglesas simplesmente a omitem, por entenderem que ela é redundante depois do verbo. A mesma sequência — synēchthēsan epi to auto — está no Salmo 2:2 da Septuaginta, e é citada em Atos 4:26.

Variantes

A tradição é estável neste versículo; a única diferença entre o Textus Receptus e os textos críticos é a forma ephimōse / ephimōsen. Gill registra que a versão etíope lê "reuniram-se a ele", em vez de "no mesmo lugar", e ele mesmo não a adota — a leitura não tem apoio grego e deve ser interpretação do tradutor. A ABC segue o Textus Receptus e traduz a expressão final pelo sentido, sem desdobrá-la.

11. Conclusão

Do que este versículo mostra decorrem algumas conclusões.

A primeira é sobre o que o silêncio de um adversário estabelece: pouco. Ele encerra a fala, não a convicção. O Evangelho registra a derrota argumentativa dos saduceus e não registra nenhuma mudança neles; e quem ganhou com a cena foram as multidões que assistiam, não os que perderam.

A segunda é sobre a natureza do conflito em que Jesus está metido neste ponto de Mateus. Ele não é um conflito de teses. Os fariseus concordavam com a doutrina que ele acabara de defender, e isso não produziu aproximação nenhuma — o que está em jogo é autoridade, e a concordância no conteúdo não resolve disputa de autoridade.

A terceira é sobre a forma do bloco. Mateus escolheu abrir o episódio do maior mandamento com uma reunião hostil, onde Marcos e Lucas abrem com um elogio. A pergunta mais bonita do capítulo — a que recebe como resposta o Shemá e o amor ao próximo — nasce, neste evangelho, dentro de uma armadilha. É dado para a leitura, não acidente: a resposta mais generosa do capítulo é dada a quem não vinha para ouvir.

A quarta é sobre o vocabulário. O verbo com que o versículo termina reaparece nas duas reuniões que decidem a morte de Jesus e no pedido de guarda ao túmulo, e as mesmas palavras gregas estão no salmo que os primeiros cristãos leram como profecia da coalizão contra o ungido. Não é possível decidir se a escolha foi deliberada. É possível afirmar que, em Mateus, a oposição a Jesus trabalha sempre em grupo, e que o versículo 34 é o momento em que esse grupo se forma.

Resta a conclusão mais incômoda, e ela é sobre o leitor. Os fariseus deste versículo decidiram com base num resumo de resultado, sem discutir o argumento. É um procedimento tão comum que passa por normal — e o texto mostra para onde ele leva: à reunião que termina, vinte e dois versículos depois, com ninguém conseguindo dizer uma palavra.

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