Ao ouvirem isso, ficaram admirados; e, deixando-o, foram embora.
1. Introdução
O episódio do tributo termina em nove palavras gregas e quatro ações, todas de saída: ouviram, admiraram-se, soltaram-no, foram. Ninguém discute, ninguém concorda, ninguém pergunta o que significava a segunda metade da sentença — a admiração não produz nenhuma pergunta e a cena simplesmente esvazia. Os comentaristas se dividem sobre o que esse espanto era: reconhecimento da sabedoria para uns, derrota envergonhada para outros, e o grego não decide. Marcos conta o mesmo fim com um verbo reforçado e no tempo da duração; Lucas não fala de admiração nenhuma, e sim de silêncio. E os homens que vieram para apanhá-lo acabam, no grego, soltando-o.
2. Contexto Histórico e Cultural
A plateia era o tribunal
No mundo mediterrâneo daquele século, uma disputa pública não era troca de informação: era contestação de posição social, e a decisão não ficava com os debatedores.
O mecanismo é simples e implacável. Alguém desafia outro em público; o desafiado precisa devolver o desafio com algo de peso igual ou maior; os presentes avaliam e distribuem o resultado. Quem não consegue devolver perde de modo visível, porque a avaliação não é privada — traduz-se em como as pessoas o tratam depois. Isso explica por que o versículo precisa registrar a saída: numa cultura assim, o encerramento de uma contenda diz quem ficou com o terreno, e a multidão viu o grupo chegar com uma pergunta e sair sem resposta.
Lucas é o mais explícito dos três quanto a esse ponto, e deixa a razão escrita: eles não conseguiram apanhá-lo em palavra alguma diante do povo. A presença das testemunhas é o que torna a tentativa irreversível.
A anedota que termina numa sentença
O trecho inteiro, do versículo 15 ao 22, tem uma forma literária que os gregos conheciam e ensinavam na escola.
Chamavam-na chreia ("coisa útil", em grego — a anedota breve que termina num dito atribuído a alguém). Os manuais de exercícios retóricos, usados na formação de jovens em todo o Mediterrâneo de língua grega, mandavam que o aluno aprendesse a reconhecer essas pequenas histórias, a recontá-las, a encurtá-las e a desenvolvê-las. A estrutura padrão é exatamente a desta cena: situação, desafio, pergunta, resposta memorável — e, muitas vezes, a reação dos presentes como fecho.
Esse último elemento é o que explica a existência deste versículo. A sentença sobre César seria completa sem ele; a forma da anedota, não. O público precisa saber como a sentença caiu.
Uma ressalva importante, e das que não se devem omitir: reconhecer a forma literária não diz nada sobre se a cena aconteceu. Uma conversa real contada por quem sabia contar assume a forma que o contador aprendeu. A observação é sobre o molde do relato, não sobre a historicidade dele.
O adversário que se retira
Há uma convenção literária antiga por trás desse fecho, e ela atravessa gêneros. No diálogo filosófico grego, o interlocutor derrotado tipicamente se cala ou se afasta — a retirada marca o fim de uma linha de argumento sem que o autor precise declarar vencedor. Nos relatos de debates entre mestres da Lei, conservados em literatura judaica posterior, aparece o mesmo recurso. E Mateus o usa de modo sistemático no dia das disputas no templo: cada confronto termina com uma reação registrada, e a sequência se fecha quando o texto diz que ninguém mais ousou fazer perguntas.
O que significava voltar sem resposta
Um detalhe de organização que o texto deixa implícito: os homens que vão embora não eram donos da pergunta.
Eram enviados, segundo o versículo 16 — discípulos dos fariseus, acompanhados dos herodianos. Delegações desse tipo existiam para levar e trazer; o que elas trouxessem de volta seria relatado a quem as mandou. Sair dali significava, na prática, voltar a quem combinou o plano e dizer que ele não funcionou.
O texto não conta essa conversa. Conta só que, três versículos depois, outro grupo se aproxima com outra pergunta — o que indica que o relatório foi entregue e que a estratégia mudou de mãos, não de objetivo.
Admirar-se, no vocabulário da época
O verbo que o texto usa para o espanto não era elogio. No grego corrente, admirar-se é a reação diante do inesperado, e aparece tanto em quem reconhece algo de grande quanto em quem foi surpreendido e não entendeu: em documentos administrativos e em cartas particulares, a mesma palavra serve para dizer "estranhei", "fiquei perplexo", até "não compreendo por que você fez isso". Em registros de debate, o espanto do adversário é ambíguo por natureza — mostra que o golpe acertou, e não diz se o atingido concordou com ele.
3. Análise Teológica do Versículo
“Ao ouvirem isso”
O particípio põe a audição antes de tudo o que vem depois: ouviram, e então se admiraram, e então saíram. A sequência é estrita.
O que exatamente ouviram? A sentença inteira, as duas metades — inclusive "e a Deus o que é de Deus", a parte sem definição. É a essa frase completa que o espanto responde. E o texto não diz que entenderam: diz que ouviram.
“ficaram admirados”
Aqui está o problema interpretativo do versículo, e ele não tem solução pelo grego.
O verbo é o do espanto diante do inesperado, sem carga positiva nem negativa por si. O campo semântico dele e as ocorrências em Mateus estão examinados no estudo de Mateus 21:20. O que interessa a este versículo é que os comentaristas se dividem exatamente ao meio sobre o que esse espanto era.
De um lado, a leitura da derrota. Ellicott (Charles Ellicott, bispo inglês do século XIX) diz que os conspiradores ficaram desconcertados onde esperavam êxito. Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX) escreve que foram frustrados e saíram cobertos de vergonha. O Expositor's Greek Testament ("Comentário Grego do Expositor", série inglesa do fim do século XIX) observa que eles não esperavam que ele escapasse de modo tão completo. O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) é o mais duro: ficaram desconcertados, mas não convencidos, e se retiraram de mau humor.
De outro, a leitura do reconhecimento. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) diz que se espantaram com a prudência e a sabedoria dele, e Matthew Henry (pastor inglês do século XVIII, autor do comentário devocional mais lido em língua inglesa) formula a coisa com precisão desconfortável: admiraram a sabedoria dele e não se deixaram guiar por ela. Bengel (Johann Albrecht Bengel, estudioso luterano alemão do século XVIII) fica com as duas — o espanto foi diante da segurança e da verdade da resposta.
Não é possível decidir, e é importante registrar por quê: o verbo é neutro e o texto não acrescenta adjetivo, não descreve rosto, não informa o que disseram entre si. Quem afirma que saíram humilhados está completando; quem afirma que saíram impressionados, também.
A admiração que não gera pergunta
Há, porém, uma coisa que o próprio Mateus permite afirmar, e ela é mais útil do que a disputa acima.
No evangelho, a admiração costuma produzir alguma coisa. No barco, os homens se admiram e perguntam quem é aquele a quem o vento obedece; diante do mudo que fala, as multidões dizem que nunca se viu coisa assim em Israel; diante das curas, glorificam o Deus de Israel. Aqui, não: a admiração é seguida de duas ações, soltá-lo e ir embora. É o único lugar em Mateus em que o espanto desemboca em saída.
E a consequência é precisa: ninguém pergunta o que é de Deus. A sentença abriu uma metade indefinida, com verbo de devolução e nenhum objeto, diante de homens treinados em discutir exatamente esse tipo de questão — e nenhum deles perguntou.
“e, deixando-o”
O verbo grego aqui é o de soltar, largar, deixar ir. É o mesmo verbo com que Mateus diz que os pescadores deixaram as redes para seguir Jesus, e o mesmo com que ele fala de perdoar dívidas — o verbo da remissão.
Há uma ironia que a construção permite e que não se deve carregar demais. Os homens vieram para apanhá-lo em alguma palavra, segundo o versículo 15; o verbo com que saem é o de soltar. Quem veio prender, solta.
Dito isso, o limite: o par de palavras "deixando-o, foram embora" é expressão corrente do grego para "foram-se dali", sem nenhuma carga jurídica. Mateus usa o mesmo verbo em contextos sem ironia nenhuma, inclusive quando Jesus deixa os discípulos para ir orar. A observação vale como camada, não como argumento.
“foram embora”
A última palavra do episódio é de afastamento, e não é a primeira vez que ela encerra um confronto neste evangelho.
Há um espelho a registrar, com cuidado. Em Mateus 16:4, depois de negar o sinal pedido pelos fariseus, o texto diz: "Então os deixou e foi embora." O verbo final é o mesmo deste versículo; o particípio é outro, mais forte — abandonar, deixar atrás. Em Mateus 16 é Jesus quem deixa e vai; em Mateus 22 são eles. O evangelho não comenta a inversão, e a semelhança está no verbo principal, não na frase inteira.
O que o versículo não diz
A lista é longa para um versículo tão curto. Não diz que se envergonharam, não diz que se convenceram, não diz que mudaram de opinião sobre o imposto, não diz que desistiram de atacá-lo, não diz o que relataram a quem os enviou, e não registra reação da multidão, embora ela esteja presente e vá reagir ao confronto seguinte. Essa economia é o estilo de Mateus nas cenas de conflito, e tem efeito: o leitor recebe o fato e não o julgamento.
O fim de um round, não de uma guerra
O versículo encerra a disputa sobre o tributo e não encerra o dia. Mateus está contando uma sequência de confrontos, cada um com um grupo diferente: este termina em admiração e retirada; o seguinte, com os saduceus, terminará em admiração da multidão, não dos adversários; e a sequência se fechará quando o texto disser que ninguém mais ousou perguntar. Ler este versículo como vitória final é erro — ele é o fim de uma tentativa entre várias, e a seguinte já estava a caminho.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Os que vão embora
Os enviados do versículo 16: discípulos dos fariseus e herodianos. Entraram na cena com três elogios e uma pergunta, disseram uma palavra no meio dela — "de César" — e saem sem dizer nada.
Continuam anônimos do começo ao fim. O evangelho não nomeia nenhum deles, não distingue quem era farisaico e quem era herodiano, e não registra se saíram juntos.
Quem fica
Jesus. O texto não o menciona neste versículo — ele é apenas o "o" de "deixando-o" —, mas é quem permanece no lugar, e por isso está disponível para o grupo seguinte, que chega no versículo 23.
A multidão, que o texto não menciona aqui
Estava presente: o episódio todo se passa no pátio público, e Lucas diz expressamente que a tentativa falhou "diante do povo". Mateus não registra reação dela neste versículo.
O silêncio tem contraste imediato. Onze versículos adiante, no fecho da disputa com os saduceus, Mateus escreve que as multidões ficaram admiradas com o ensino dele — usando o mesmo verbo deste versículo, mas com outro sujeito. Aqui quem se admira são os adversários; lá, o público.
Os que mandaram, e não aparecem
Os fariseus que combinaram o plano no versículo 15 continuam fora de cena, e o relatório que a delegação lhes levou não é contado. O que o evangelho mostra é o passo seguinte da pressão: no versículo 23 aproximam-se os saduceus, e no versículo 34 os fariseus se reúnem de novo.
O que aconteceu antes
Sete versículos de confronto: o plano, a delegação com elogios, a pergunta sobre o tributo, a acusação de hipocrisia, o pedido de moeda, a pergunta sobre a imagem e a inscrição, a resposta deles e a sentença sobre César e Deus. Este versículo é só o resultado.
5. Pontos de Ensino
Admiração não é adesão
O ponto de ensino principal está na frase de Matthew Henry, e ela é incômoda porque descreve uma possibilidade real: admirar a sabedoria de alguém e não se deixar guiar por ela.
O versículo mostra as duas coisas acontecendo juntas, no mesmo grupo, no mesmo instante. Houve espanto genuíno — nada no texto sugere espanto fingido — e houve retirada. O espanto não produziu adesão, não produziu pergunta, não produziu nada.
Isso desmonta um pressuposto comum na pregação, o de que uma boa resposta convence. Pode apenas encerrar a conversa.
Ganhar o argumento não é ganhar a pessoa
Jesus venceu de modo completo. Os dois lados da armadilha foram neutralizados, a multidão assistiu, e os adversários não tiveram réplica.
E o resultado prático foi que eles saíram do mesmo jeito que entraram, menos a pergunta. Três versículos depois chega outro grupo; doze versículos depois os fariseus se reúnem de novo. A derrota argumentativa não mudou nada no propósito deles.
Há aqui um ensino de expectativa, e ele vale para quem discute religião, política ou qualquer coisa: a demonstração correta encerra um round. Não transforma ninguém.
A pergunta que ninguém fez
Eles acabaram de ouvir "e a Deus o que é de Deus" — uma frase com um verbo de devolução e nenhum objeto, dita a especialistas em determinar o que se deve a Deus.
Nenhum deles perguntou o que era. Admiraram-se e foram.
Esse é o ponto de ensino mais severo do versículo, e ele se dirige a quem lê. A pergunta mais importante de uma conversa é frequentemente a que ninguém faz — e a razão de não fazê-la raramente é falta de inteligência. É que a resposta custaria algo.
Ir embora é uma resposta
O texto registra a saída como ação, com verbo próprio. Não é ausência de reação: é a reação.
Em qualquer conversa difícil, sair é tomar posição. Quem se retira sem responder comunica, aos que ficaram, que não tinha o que dizer — e comunica, a si mesmo, que preferiu não saber. O evangelho não condena os homens que saem; apenas registra que saíram, e isso é mais eficaz do que condenação.
6. Aspectos Filosóficos
Quanto tempo dura o espanto?
O versículo registra uma admiração que não leva a nada. Isso parece defeito moral daqueles homens, e talvez seja — mas é também uma informação sobre o espanto em si. Será que ele poderia ter durado? Admirar-se é um estado em que se pode permanecer, ou é um instante que necessariamente passa, e que só deixa rastro se virar outra coisa?
A pergunta tem uma história filosófica, e um estudo moderno a organizou melhor do que ninguém.
Philip Fisher e a forma do espanto
Philip Fisher (1941-2021, professor de literatura em Harvard) escreveu sobre isso em O espanto, o arco-íris e a estética das experiências raras (livro de 1998). O objeto dele é o espanto como experiência — o que acontece quando se vê um arco-íris, quando se entende de repente uma demonstração de geometria, quando se encontra algo que não se esperava.
Três teses dele interessam a este versículo.
A primeira: o espanto é instantâneo e não tem duração. Não se admira durante meia hora. O espanto é o momento em que algo se apresenta como novo, e ele se esgota nesse momento — o que vem depois já é outra coisa.
A segunda: o espanto está ligado ao súbito e ao visual — acontece quando algo aparece de uma vez, inteiro, diante dos olhos.
A terceira, e a decisiva: o espanto é o começo do conhecimento, e por isso ele pede ser convertido em pergunta. Quem se admira com o arco-íris quer saber por que o arco-íris é assim. O espanto é a experiência que inaugura a explicação — e, se a explicação não vem, ele simplesmente desaparece sem deixar nada.
Fisher distingue ainda o espanto de outra experiência com que ele se confunde: o sublime, que envolve medo, grandeza e a pequenez de quem olha. O espanto não tem medo dentro — é experiência de prazer e de abertura, não de ameaça.
O que isso ilumina no versículo
Lido com essas três teses, o fecho do episódio fica mais inteligível e mais duro.
O espanto daqueles homens tem a forma típica: foi súbito, veio de algo apresentado de uma vez — uma sentença de duas metades, com a prova na mão — e durou um instante. Nada nisso é anormal.
O que é anormal, pela terceira tese, é o que não aconteceu. O espanto deveria ter virado pergunta. Eles estavam diante de uma frase que mal começava a ser compreendida, feita por um homem que acabara de responder ao impossível, com testemunhas disponíveis e tempo de sobra. A conversão natural do espanto em curiosidade era o passo seguinte. Em vez dele, veio a saída.
E há a distinção do sublime, que aqui esclarece a disputa dos comentaristas. Se o que eles sentiram foi espanto no sentido de Fisher, não havia medo nem humilhação dentro — era reconhecimento de algo novo, e a leitura de Gill e de Matthew Henry fica mais plausível. Se o que havia era constrangimento diante de uma derrota pública, então não foi espanto no sentido técnico, e sim outra coisa com o mesmo nome. O grego de Mateus usa um verbo que cobre as duas, e por isso a disputa não se resolve.
O limite desta leitura
Fisher escreve sobre estética, sobre Descartes e o arco-íris, sobre poesia e sobre museus. Não trata de evangelhos, não trata de disputas religiosas e não trata deste versículo; a aproximação é feita por este comentário.
E Mateus, por sua vez, não oferece nenhuma teoria do espanto. Oferece um verbo, um particípio e duas ações. A filosofia não acrescenta conteúdo ao texto — ela nomeia com precisão o que está estranho nele, que é a ausência da pergunta que todo espanto normalmente produz.
Fica, do exame, um problema que o versículo não resolve: se o espanto é o começo do conhecimento, uma admiração que não gera pergunta é um começo abortado — e o que impede alguém de perguntar, quando a pergunta está ali, visível, e o custo de fazê-la é só a possibilidade de ter de mudar? O evangelho não responde.
7. Aplicações Práticas
Converter a admiração em pergunta
A aplicação direta do versículo é um hábito pequeno e de efeito grande: quando alguma coisa o impressiona, pergunte.
Isso acontece com frequência e quase sempre se perde. Você ouve uma explicação que reorganiza um assunto, lê uma frase que encaixa, recebe um conselho que faz sentido — e o espanto dura o tempo do semáforo. Depois não resta nada, porque não virou pergunta, anotação, conversa ou mudança.
O versículo mostra o custo disso no caso extremo: homens que ouviram a melhor resposta da vida deles e saíram do mesmo jeito que entraram.
Identificar a pergunta que você está evitando
Numa conversa difícil, há normalmente uma pergunta que seria a próxima e que ninguém faz. Ela não é difícil de encontrar: é aquela cuja resposta obrigaria a mudar de posição.
Aqui ela estava formulada no ar: o que é de Deus? Nenhum dos presentes a fez, e eram homens cuja profissão era exatamente determinar o que se deve a Deus.
Vale fazer o exercício em causa própria, em qualquer assunto em que você esteja parado há tempo — dinheiro, saúde, uma relação, uma decisão de trabalho. Qual é a pergunta óbvia que você não faz? E a quem você evita fazê-la?
Não medir a sua razão pelo efeito que ela produz
Quem discute esperando que o bom argumento convença vai se frustrar, e o versículo é o aviso.
A resposta foi perfeita e os adversários foram embora. Isso significa que vencer uma discussão e persuadir alguém são coisas diferentes, com causas diferentes. A primeira depende do argumento; a segunda depende do que o outro está disposto a perder.
A aplicação prática é de paciência: continuar dizendo o que é verdadeiro sem fazer da conversão do outro a medida do próprio sucesso. E a aplicação inversa também vale: quando você sai de uma conversa admirado e inalterado, o problema não foi o argumento.
Reparar em quem sai sem dizer nada
Numa reunião, numa discussão familiar, num grupo de trabalho, a pessoa que se cala e se retira comunicou algo — e o versículo trata esse movimento como informação, com verbo próprio. Sair não é neutralidade: quem fica na conversa pode discordar, e quem sai retirou o assunto do alcance.
O limite
Este versículo não dá orientação sobre como vencer discussões, e usá-lo como manual de retórica é desvio. Também não autoriza julgar a sinceridade de quem se admira e vai embora — os comentaristas se dividiram sobre isso por falta de elementos. O que ele oferece é um espelho pequeno: pessoas que reconheceram algo e não fizeram nada com o reconhecimento. O versículo não condena a cena, só a mostra.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Eles admiraram a sabedoria dele ou saíram humilhados?
Não é possível decidir, e a divisão entre os comentaristas — exposta no item 3 — é a prova de que o texto não decide.
O que se pode dizer é o que depende do grego: o verbo é neutro, cobre o espanto de quem reconhece algo grande e o de quem foi pego de surpresa, e Mateus não acrescenta nenhum adjetivo, nenhuma descrição de rosto e nenhuma fala. Qualquer leitura que escolha um dos dois lados está completando o texto, e o leitor tem o direito de saber que está.
Por que Marcos e Lucas terminam de outro jeito?
Os três fins são diferentes, e a diferença é verificável no grego.
Marcos usa um verbo reforçado por prefixo e no tempo da ação continuada: eles ficavam se admirando muito dele. O espanto, em Marcos, se prolonga.
Mateus usa o verbo simples no tempo pontual: admiraram-se, e pronto. E acrescenta a saída, que Marcos não tem.
Lucas não fala de admiração nenhuma no lugar correspondente. Diz que não conseguiram apanhá-lo em palavra alguma diante do povo e que, maravilhados da resposta, se calaram — o resultado, nele, é silêncio.
Por que as três versões divergem é discutido e não se resolve. Marcos é o mais vívido; Mateus, o mais seco; Lucas, o que explicita o cálculo político. Cada um conserva um aspecto do mesmo fim.
Por que ninguém perguntou o que era "de Deus"?
O texto não explica, e esta é a pergunta que o versículo mais provoca.
Uma leitura sustenta que eles não perceberam a segunda metade como problema: ouviram-na como fórmula piedosa de fecho, do tipo que não se discute. Outra sustenta que perceberam muito bem e não quiseram abrir o assunto num pátio cheio de gente, porque qualquer discussão sobre o que se deve a Deus terminaria apontando para eles. Uma terceira observa que a missão deles era outra — vieram buscar uma frase sobre o imposto, não uma aula — e que, falhada a missão, não havia razão para ficar.
As três são plausíveis. O texto registra o silêncio e não o explica.
A retirada significa que desistiram?
Não, e o próprio capítulo prova. Três versículos adiante os saduceus chegam com outra pergunta; doze versículos adiante os fariseus se reúnem de novo, agora reagindo ao fato de os saduceus também terem sido calados.
A sequência só se encerra no fim do capítulo, quando o texto diz que ninguém mais ousou fazer perguntas. Este versículo é o fim de uma tentativa, não da hostilidade.
O "deixando-o" tem sentido de soltar, ou é só "foram-se dali"?
As duas coisas, e nessa ordem de probabilidade. O par de verbos é expressão corrente do grego para ir-se embora, sem carga nenhuma, e Mateus o usa em contextos neutros.
Mas o verbo é, por si, o de largar e soltar — o mesmo das redes deixadas pelos pescadores e o mesmo do perdão de dívidas. Que ele apareça aplicado a homens que vieram apanhar alguém é uma camada que a língua permite notar e que o texto não desenvolve. Tratá-la como achado principal seria forçar.
Por que Mateus não registra a reação da multidão?
Não se sabe, e o contraste é visível: onze versículos adiante, no fecho da disputa com os saduceus, ele registra que as multidões ficaram admiradas com o ensino — com o mesmo verbo, aplicado ao público.
Uma explicação possível é de economia: Mateus distribui as reações ao longo da sequência de confrontos, e não repete a mesma em cada um. Outra é que o foco deste episódio é o fracasso dos adversários, e o espanto deles é o dado que interessa. As duas são hipóteses.
9. Conexão com Outros Textos
O mesmo fim, com o espanto prolongado
Marcos 12:17 — "Então Jesus, lhes respondeu: Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus. E admiram-se dele."
Marcos usa um verbo reforçado por prefixo e no tempo da ação continuada — eles ficavam se admirando muito dele — e não registra a saída. O fim, nele, é um espanto que se prolonga; em Mateus, um espanto que acaba e vira retirada.
O mesmo fim, com silêncio em vez de espanto
Lucas 20:26 — "E não puderam lhe pegar em algo que ele tenha dito diante do povo; e maravilhados de sua resposta, calaram-se."
Lucas é o único que explicita o cálculo — a tentativa falhou porque havia testemunhas — e o resultado, nele, é calar-se, não ir embora.
O espanto que vira pergunta
Mateus 8:27 — "Os homens ficaram admirados e diziam: 'Quem é este, que até os ventos e o mar lhe obedecem?'"
Mesmo verbo, e aqui ele produz exatamente o que se espera do espanto: uma pergunta sobre a identidade de quem causou o espanto. É o contraste mais direto com o versículo 22.
O espanto que vira louvor
Mateus 15:31 — "De modo que a multidão se admirava, ao ver os mudos falando, os aleijados curados, os mancos andando e os cegos vendo; e glorificaram o Deus de Israel."
Mesmo verbo, outro destino: o espanto desemboca em glorificação. A palavra é idêntica nos dois casos; o que muda é o verbo que vem depois dela.
O espanto que não vira nada, em casa
Mateus 13:54 — "Chegando à sua terra, ensinava o povo na sinagoga deles, de tal modo que ficavam admirados e diziam: 'De onde lhe vêm essa sabedoria e esses milagres?'"
Em Nazaré o espanto chega a produzir pergunta e, quatro versículos depois, termina em incredulidade. É o caso mais próximo deste: reconheceram a sabedoria, formularam a questão e não concluíram nada.
O verbo de soltar, deixando as redes
Mateus 4:20 — "E eles, imediatamente, deixaram as redes e o seguiram."
É o verbo de "deixando-o" deste versículo. Ali, deixar alguma coisa é o primeiro ato do discipulado; aqui, o que se deixa é ele, e o segundo verbo não é "seguiram", é "foram embora".
A saída invertida
Mateus 16:4 — "'Uma geração má e adúltera pede um sinal, mas nenhum sinal lhe será dado, exceto o sinal de Jonas.' Então os deixou e foi embora."
Mesmo verbo final de afastamento, com os papéis trocados: ali Jesus deixa os fariseus e vai; aqui são eles que o deixam e vão. O particípio é outro — mais forte, de abandonar —, e a semelhança está no verbo principal.
A reação da multidão ao confronto seguinte
Mateus 22:33 — "Ao ouvirem isso, as multidões ficaram admiradas com o seu ensino."
Onze versículos adiante, a frase começa exatamente como esta — "ao ouvirem isso" — e usa o mesmo verbo do espanto. O sujeito é que muda: ali são as multidões, e aqui os adversários. Mateus escreve as duas reações com as mesmas palavras e não diz que uma vale mais que a outra.
O fecho de toda a sequência
Mateus 22:46 — "Ninguém conseguia responder-lhe uma só palavra, e daquele dia em diante ninguém mais ousou fazer-lhe perguntas."
Este versículo encerra um round; aquele encerra o dia. A diferença mostra que a retirada do versículo 22 não era rendição — faltavam ainda três confrontos.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Ao ouvirem isso, ficaram admirados; e, deixando-o, foram embora.
Texto grego (Textus Receptus)
καὶ ἀκούσαντες ἐθαύμασαν· καὶ ἀφέντες αὐτὸν ἀπῆλθον.
Transliteração
kai akousantes ethaumasan; kai aphentes auton apēlthon.
A variante, que é mais interessante do que parece
Há uma divergência real entre as edições, e ela recai no último verbo.
O Textus Receptus (“texto recebido”, a edição grega impressa no século XVI que a ABC segue), o Texto Majoritário bizantino e o texto da Igreja Ortodoxa grega trazem apēlthon. As edições críticas modernas trazem apēlthan.
A diferença é de uma letra e de época. Apēlthon é a terminação clássica do aoristo de segunda forma; apēlthan é a terminação que o grego popular dos séculos seguintes foi generalizando, por influência de outro tipo de aoristo. Nos papiros do Egito greco-romano — recibos, cartas, petições de gente comum — a forma em -an aparece cada vez mais, e os manuscritos mais antigos do Novo Testamento a trazem com frequência.
O caso é instrutivo para quem quer entender como se decide entre leituras. Aqui a forma “errada” do ponto de vista da gramática clássica é provavelmente a mais antiga, e a forma “correta” é o resultado de copistas posteriores corrigindo o grego do texto que tinham diante de si. Nenhuma das duas muda o sentido: as duas dizem “foram embora”.
Análise palavra por palavra
καὶ ἀκούσαντες — kai akousantes, “e, tendo ouvido”. Particípio aoristo de akouō, “ouvir”, no plural masculino.
O aoristo põe a ação antes do verbo principal: primeiro ouviram, depois se admiraram. O objeto do particípio não está escrito — o grego o dispensa, e o português o supre com “isso”.
Akouō é o verbo de ouvir e, em muitos contextos, o de obedecer: “ouvir” alguém, em grego como em hebraico, pode significar atendê-lo. Aqui o sentido é o físico, e a sequência prova: quem ouve e vai embora não atendeu.
ἐθαύμασαν — ethaumasan, “admiraram-se”. Aoristo do indicativo, terceira pessoa do plural, de thaumazō.
O verbo pertence à família de thauma, “coisa espantosa”, e o campo de sentido dele, com as ocorrências em Mateus, está examinado no estudo de Mateus 21:20.
O que é próprio deste versículo é o tempo verbal, e ele só aparece na comparação. Marcos, no lugar correspondente, escreve exethaumazon: o mesmo verbo com o prefixo ek, que intensifica, e no imperfeito, que indica ação em andamento. Em Marcos, portanto, eles iam se admirando muito — o espanto é grande e tem duração. Em Mateus é aoristo simples: um ponto no tempo, sem intensificador, concluído.
E Lucas não usa o verbo no mesmo lugar da narrativa: diz que, maravilhados da resposta, se calaram, pondo o espanto em particípio e o silêncio como verbo principal.
Três escritores, três gramáticas do mesmo instante: duração em Marcos, ponto em Mateus, pano de fundo para o silêncio em Lucas.
O verbo, por si, não carrega juízo. Em grego comum ele serve para o espanto do reconhecimento e para o da perplexidade, e é por isso que a disputa dos comentaristas sobre o que eles sentiram não tem solução pela língua.
καὶ ἀφέντες αὐτὸν — kai aphentes auton, “e, tendo-o deixado”. Particípio aoristo de aphiēmi, com o pronome no acusativo.
Aphiēmi é composto de apo (“de, para longe de”) mais hiēmi (“enviar, lançar”). O sentido de base é soltar, mandar para longe, largar — e dele saem os três usos que a palavra tem no Novo Testamento: deixar algo ou alguém, permitir, e perdoar. É o verbo de “perdoa-nos as nossas dívidas”, e também o das redes que os pescadores deixaram na praia.
Em Mateus, o verbo aparece com frequência e em contextos muito diferentes: as redes abandonadas em Mateus 4:20, a dívida perdoada em Mateus 18:27, os discípulos deixados no jardim em Mateus 26:44.
Aqui o sentido é o de deixar, afastar-se de alguém — e o par “deixando-o, foram embora” é construção corrente do grego, sem nenhuma carga técnica. A coincidência com o verbo do perdão e da libertação está na língua, não no argumento de Mateus, e não se deve extrair dela mais do que uma camada de leitura.
ἀπῆλθον — apēlthon, “foram embora”. Aoristo do indicativo de aperchomai, composto de apo (“para longe”) mais erchomai (“ir, vir”).
É verbo comum, de uso banal, e Mateus o emprega também em contextos de conflito: é com ele que Jesus deixa os fariseus em Mateus 16:4, depois de negar o sinal pedido.
A economia da frase
Um último dado de forma. O versículo tem, em grego, nove palavras e quatro ações — duas em particípio e duas em verbo principal. Nenhum adjetivo, nenhum advérbio, nenhuma oração subordinada, nenhum comentário.
Comparado com o resto do episódio, que gastou sete versículos para armar a cena, o fecho é de uma secura deliberada. O texto não diz como foi a saída, não descreve a expressão de ninguém e não avalia nada — e é dessa recusa que nasce o impasse interpretativo que atravessa quinze séculos de comentário.
11. Conclusão
Três conclusões decorrem do que foi examinado.
A primeira é que o texto se recusa a dizer o que aquele espanto era, e que essa recusa é deliberada. O verbo grego cobre o reconhecimento de algo grande e a perplexidade de quem foi surpreendido; Mateus não acrescenta adjetivo, não descreve rosto e não registra fala. Daí os comentaristas se dividirem ao meio — Ellicott, Barnes e o Pulpit vendo derrota envergonhada; Gill e Matthew Henry vendo admiração pela sabedoria — e daí a impossibilidade de decidir sem completar o texto.
A segunda é que o comportamento do espanto neste evangelho torna a cena legível mesmo sem essa decisão. Em Mateus, admirar-se costuma produzir uma pergunta, um louvor ou um seguimento. Aqui produz uma saída, e é o único lugar do livro em que isso acontece. A informação está no verbo seguinte, não no do espanto — e o verbo seguinte é de retirada.
A terceira é sobre o silêncio mais eloquente do episódio. Aqueles homens acabaram de ouvir uma frase cuja segunda metade não tinha objeto nenhum, dita por quem respondera ao impossível, com tempo e testemunhas disponíveis. Eram especialistas em determinar o que se deve a Deus. Nenhum deles perguntou o que era. A pergunta que a sentença abriu ficou aberta, e o capítulo segue sem que ninguém a faça.
Resta corrigir uma leitura comum. Isto não é o fim da disputa: três versículos adiante outro grupo chega, e a sequência só se fecha no fim do capítulo, quando ninguém mais ousa perguntar. A retirada do versículo 22 não é rendição — é o encerramento de uma tentativa entre várias, e o evangelho não dá a entender que alguém tenha mudado de propósito.













