“Mestre, Moisés disse: ‘Se alguém morrer sem ter filhos, seu irmão deverá casar-se com a viúva e dar descendência a ele.’
1. Introdução
Os saduceus abrem com uma citação, e a citação não é exata.
Eles dizem "Moisés disse" e enunciam uma lei que, nas palavras em que a enunciam, não está em lugar nenhum: é Deuteronômio 25:5-6 combinado com a cena de Gênesis 38, e o verbo grego que usam vem da segunda, não da primeira.
O versículo traz ainda o tratamento que eles escolhem, "Mestre", que em Mateus é sempre palavra de quem está de fora; e uma ironia que o português esconde, porque a lei invocada manda "levantar descendência" com o verbo de que se forma a palavra "ressurreição".
E traz o essencial: o levirato é a resposta da Torá à morte. Quem morre sem filhos é apagado; a lei providencia um filho que continue o nome. Não é por acaso que um grupo que nega a ressurreição escolhe justamente esta lei.
2. Contexto Histórico e Cultural
Como se citava a Bíblia num debate público
Não havia capítulo nem versículo, e isso muda tudo o que se pode esperar de uma citação.
A divisão em capítulos é medieval; a numeração dos versículos, do século XVI. No primeiro século o texto existia em rolos, sem espaço entre palavras, sem pontuação e sem vogais no hebraico, e localizar uma passagem exigia desenrolar o material até achá-la. Ninguém fazia isso no meio de uma discussão: citava-se de memória.
Daí decorrem duas práticas que o leitor moderno estranha. A primeira é a paráfrase: reproduzia-se o sentido da lei, não a sua letra, e isso era considerado citação legítima. A segunda é a atribuição pelo nome do legislador em vez da referência ao livro — "Moisés disse", e não "está escrito em Deuteronômio". O nome fazia o serviço que hoje a referência faz.
Paráfrase não era licença para dizer qualquer coisa: a citação tinha de ser reconhecível pelos presentes, que conheciam a lei de ouvir a leitura na sinagoga. O que os saduceus fazem está dentro do que a prática admitia, e é por isso que a diferença entre o que eles dizem e o que a lei diz deve ser examinada, e não denunciada.
O levirato no primeiro século: lei viva ou letra morta?
A pergunta importa, porque um caso construído sobre um costume extinto teria peso diferente.
O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) sustenta que a obrigação já era raramente aplicada, e que o caso dos sete irmãos é "extremamente improvável". A conclusão talvez seja apressada.
A Mishná (primeira coleção escrita da tradição oral judaica, de cerca de 200 d.C.) dedica um tratado inteiro ao assunto, chamado Yevamot — o nome vem da palavra hebraica para a cunhada sujeita ao dever. São dezesseis capítulos de casos: quem está obrigado, quem está isento, o que acontece quando há vários irmãos, quando um deles é menor de idade, quando a viúva é parente proibida de outro. Ninguém escreve dezesseis capítulos sobre um costume que ninguém pratica.
O que as fontes rabínicas mostram, em compensação, é uma preferência crescente pela saída alternativa: em vez do casamento, o rito de liberação, que desobriga o cunhado e solta a viúva. Em Bekhorot 1:7 a Mishná registra que a ordem de precedência entre as duas opções foi invertida em algum momento, e a razão discutida nos textos posteriores é de intenção — quem casa com a cunhada por outro motivo que não o de cumprir o dever está perto de uma união proibida.
O quadro mais provável, no primeiro século, é de um instituto juridicamente vigente, discutido pelos especialistas e cada vez menos aplicado na forma do casamento — o suficiente para que uma pergunta construída sobre ele soasse séria. A frequência real da prática não é possível medir: faltam registros.
Por que esta lei, e não outra
Dos mais de seiscentos preceitos que a tradição judaica conta na Torá, os saduceus escolheram este. A escolha é boa, e por três razões.
A primeira é que o levirato está em Deuteronômio, livro que eles aceitavam como autoridade plena. Não estavam citando um texto alheio para apertar o adversário: estavam dentro do próprio terreno.
A segunda é que esta é uma das pouquíssimas leis da Torá que vêm com o motivo escrito ao lado. Deuteronômio 25:6 explica para que serve: para que o nome do morto não seja apagado de Israel. Numa discussão sobre o que acontece aos mortos, uma lei que declara o seu próprio objetivo em termos de sobrevivência do nome é um achado retórico.
A terceira é a que faz o argumento funcionar. O levirato é a solução da Torá para o problema da morte — e é uma solução que dispensa a ressurreição. O homem que morre sem filhos é apagado; a lei providencia que outro gere para ele um herdeiro, e por esse herdeiro o nome, a terra e a linha continuam. É sobrevivência por descendência, não por levantamento. Quem tem essa resposta na mão não precisa de outra.
O mecanismo do dever de cunhado, as suas finalidades e o texto de Deuteronômio 25:5-10 estão desenvolvidos no estudo de Gênesis 38:8, onde a ordem de Judá a Onã é a primeira aparição do costume na Bíblia.
3. Análise Teológica do Versículo
"Mestre"
A palavra é cortês, e em Mateus ela é marca de quem está de fora.
Acompanhe quem a usa: um escriba, em Mateus 8:19; escribas e fariseus, em Mateus 12:38; o jovem rico, em Mateus 19:16; os enviados dos fariseus, no versículo 16 deste capítulo; os saduceus, aqui; o especialista na lei, no versículo 36. Em nenhuma dessas cenas quem fala é discípulo — e os discípulos, quando se dirigem a ele, dizem "Senhor".
A regularidade é grande demais para ser acidente. Em Mateus, "Mestre" é o tratamento de quem reconhece a competência e não reconhece a autoridade. A exceção aparente é Judas, que diz "Rabi" em Mateus 26:25 e 26:49, e nenhum dos outros onze o chama assim.
Não se trata de insulto disfarçado nem de ironia: trata-se de uma distinção que Mateus mantém ao longo do evangelho inteiro, e que posiciona o falante antes de ele dizer qualquer coisa.
"Moisés disse"
Eles não dizem "está escrito". Dizem que alguém disse.
"Está escrito" aponta para um texto verificável, com palavras fixas. "Moisés disse" aponta para uma pessoa, e com ela para o que ela quis, para o sentido da lei. A segunda fórmula dá margem; a primeira não.
Há um padrão em Mateus. Quando um adversário invoca Moisés neste evangelho, é para construir uma dificuldade a respeito de casamento. Em Mateus 19:7 os fariseus dizem: "Por que, então, Moisés mandou dar carta de divórcio e repudiar a mulher?" Aqui os saduceus dizem: "Moisés disse: se alguém morrer sem ter filhos…" Dois grupos diferentes, dois assuntos diferentes, a mesma manobra — citar Moisés contra Jesus numa questão matrimonial.
"Se alguém morrer sem ter filhos"
A condição parece simples e é a parte mais técnica do versículo.
A palavra usada significa filhos em geral, sem marca de sexo, enquanto a lei de Deuteronômio 25:5, no hebraico, fala de não haver filho — singular e masculino. A diferença abre uma questão de direito que os comentaristas antigos conhecem bem: e se o morto deixou apenas filhas?
A anotação da Bíblia de Genebra (tradução inglesa do século XVI, com notas marginais dos reformadores) resolve pela interpretação restrita: quem tinha só filhas estava na mesma posição de quem não tinha filho nenhum. O Pulpit Commentary registra a posição contrária, apoiada em Números 27:8, onde as filhas de um homem sem filhos recebem a herança do pai — se a herança está resolvida, o dever de cunhado perde a razão de ser.
A questão não se decide aqui. O que ela mostra é o cuidado da construção: para que o caso dos sete irmãos funcione, é preciso que não haja filho nenhum em nenhum dos sete casamentos, e o versículo fecha essa porta desde o começo.
"seu irmão deverá casar-se com a viúva"
O verbo grego é o ponto em que a citação se denuncia.
Ele aparece uma única vez em todo o Novo Testamento, e significa precisamente "casar-se como cunhado", tomar a mulher na condição de irmão do marido. Na versão grega do Antigo Testamento, essa palavra traduz o hebraico em Gênesis 38:8 — na ordem de Judá a Onã. Em Deuteronômio 25:5, a mesma versão grega usa outra palavra.
Ou seja: a lei que os saduceus atribuem a Moisés vem enunciada com o vocabulário da narrativa de Gênesis, não com o da legislação de Deuteronômio. O Expositor's Greek Testament ("Testamento Grego do Expositor", comentário inglês do início do século XX) chama o resultado de combinação livre das duas passagens. Meyer fala de citação livre. Gill reconhece que não está nas mesmas palavras, mas sustenta que é o sentido da passagem.
Três leituras disputam o que fazer com isso, e a pergunta é: por que a citação mistura duas fontes?
Primeira leitura: não há nada a explicar, porque assim se citava. A memória guarda a lei pela história que a ilustra, e a do dever de cunhado era a de Gênesis 38. É a leitura mais econômica.
Segunda leitura: Mateus escreve em grego para leitores que liam o Antigo Testamento em grego, e a escolha da palavra é dele, não dos saduceus. Nesse caso o dado diz respeito ao evangelista, e não aos personagens.
Terceira leitura: a escolha é dos saduceus e é deliberada. Trazer Gênesis 38 para dentro da citação acrescenta ao caso um precedente narrativo, e não apenas uma regra — a lei já funcionou assim uma vez, com nomes e desfecho. Essa leitura é possível e não é demonstrável; o texto não diz nada sobre a intenção deles.
"e dar descendência a ele"
Aqui está a ironia que a tradução portuguesa apaga.
O grego diz, ao pé da letra, "levantará semente ao seu irmão". O verbo é aquele de que se forma o substantivo que o versículo anterior traduziu por "ressurreição": a mesma raiz, o mesmo ato de pôr de pé algo que estava deitado. Os homens que acabaram de ser apresentados como "os que dizem não haver levantamento" citam uma lei sobre levantar.
Não há como saber se eles perceberam. O português não deixa ver, e por isso o leitor brasileiro perde o eco inteiro; em grego, ele está na superfície.
E o conteúdo da expressão é o que mais pesa. O que se levanta não é o morto: é a semente dele, a descendência. A lei oferece ao homem sem filhos uma continuidade que não exige que ele volte — basta que exista um filho registrado em seu nome, herdando o que era seu. É a sobrevivência que a Torá de fato promete, e ela é genealógica, não corporal.
Disso decorre o alcance real do argumento saduceu, maior do que a piada sobre a mulher dos sete maridos. A lei de Moisés resolve o problema da morte de outro modo, e esse modo supõe que não haja volta: se os mortos ressuscitassem, para que levantar semente a eles?
O limite da leitura precisa ficar claro. O texto não põe esse raciocínio na boca deles — quem o reconstrói é o comentarista. O que está no texto é a escolha da lei, e a escolha é coerente com a doutrina que o versículo anterior lhes atribuiu.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Moisés
Ele é citado, não mencionado — e a diferença decide o que vem a seguir.
Para os saduceus, Moisés não era um personagem antigo entre outros: era o único legislador cuja palavra obrigava. Os livros atribuídos a ele formavam o inteiro da autoridade normativa, e tudo o que veio depois — profetas, salmos, escritos — tinha, para esse grupo, estatuto menor. Invocar Moisés era invocar a totalidade do direito disponível.
É por isso que a resposta de Jesus, em Mateus 22:31-32, vai a Êxodo: ele aceita a autoridade escolhida pelo adversário e discute dentro dela. E o contraste é instrutivo — eles citam Moisés de memória, misturando duas passagens; ele cita uma frase exata e discute o tempo do verbo.
As pessoas sem nome
O versículo tem quatro personagens e nenhum deles tem nome: alguém que morre, o irmão desse alguém, a viúva e o filho a nascer.
É o jeito de falar do direito: Deuteronômio 25:5 fala de irmãos que moram juntos, de um que morre, da mulher do falecido — tipos, não indivíduos. Os saduceus repetem essa linguagem e, no versículo seguinte, vão preenchê-la com números, e não com nomes.
Isso tem efeito sobre a leitura do episódio inteiro. Quando a pergunta chegar — "de qual dos sete ela será esposa?" —, a mulher será um dado do problema, e não uma pessoa de quem se cogite a vontade. O texto não comenta isso, e Jesus tampouco; o leitor é que percebe.
O caso que estava por trás
Qualquer judeu que ouvisse esta citação pensava em uma família concreta.
Judá tinha três filhos: Er, Onã e Selá. Er casou-se com Tamar e morreu sem filhos. Judá mandou Onã cumprir o dever, Onã recusou-se na prática e morreu também. Selá foi retido pelo pai, e Tamar ficou presa numa condição sem saída até forçar o desfecho. Gênesis 38 é a única narrativa bíblica em que o dever de cunhado é posto em ação e falha — e o episódio termina com Judá reconhecendo, em Gênesis 38:26, que a culpa era dele.
Dois irmãos mortos, nenhum filho, uma viúva em suspenso. É o esqueleto do caso que os saduceus vão montar com sete. O estudo de Gênesis 38:8 trata dessa cena e das suas consequências jurídicas.
O que o episódio deixa de fora
A citação não menciona a possibilidade de recusa, que a própria lei prevê.
Deuteronômio 25:7-10 abre uma saída para o cunhado que não quer cumprir: há um procedimento público, uma declaração diante dos anciãos e um rito que o desobriga com vergonha. A lei, portanto, não trata o dever como automático.
Nos sete casamentos que os saduceus vão narrar, essa porta nunca é usada: todos cumprem, um após o outro, sem hesitar. O caso precisa disso para funcionar, e o fato de precisar é o primeiro sinal de que ele foi construído, não observado.
5. Pontos de Ensino
Citar corretamente é mais difícil do que parece
A citação deste versículo mistura duas passagens e atribui o resultado a uma só fonte.
Não há má-fé nisso: era o modo normal de citar antes da numeração dos versículos. O que o caso ensina é que a lembrança de um texto não é o texto — quem repete de cor o que leu há anos está repetindo a sua leitura, com a ênfase que lhe ficou e com as pontas de outras passagens que vieram junto.
Uma lei pode ser invocada corretamente e usada para o fim errado
O conteúdo da citação está certo, e serve a um propósito que a lei não tinha.
O dever de cunhado existia para impedir que uma casa se apagasse. Nas mãos dos saduceus, ele se torna o insumo de um enigma destinado a desacreditar uma doutrina. Nada no texto da lei autoriza esse uso, e nada nela o impede. É a diferença entre o que uma norma diz e o que se pode fazer com ela — e quem discute religião, direito ou política vive essa diferença todos os dias.
A Torá promete sobrevivência pela descendência
A lei invocada aqui é a resposta antiga ao problema da morte: um filho que leva o nome do morto, herda o que era dele e mantém a linha.
É uma promessa real e é uma promessa limitada. Serve ao nome, à terra e à família; não serve à pessoa. O homem que teve o nome preservado continua morto. Reconhecer isso evita duas simplificações opostas: a de que o Antigo Testamento ensina a ressurreição em toda parte, e a de que ele não tem nada a dizer sobre a morte.
Aceitar a premissa do outro e discutir dentro dela
Jesus não contesta a citação. Não diz que a lei não é de Moisés, não aponta a mistura das duas passagens, não discute se o costume ainda vigorava.
Isso é escolha, e é escolha forte. Quem desvia a discussão para a legitimidade da fonte está trocando de assunto; quem aceita a fonte e mostra que a conclusão não decorre dela está respondendo. O segundo caminho é mais trabalhoso e é o único que convence quem ouve.
6. Aspectos Filosóficos
Raciocinar por casos
O que começa neste versículo tem nome técnico: é casuística, o método de pensar a partir de casos em vez de partir de princípios.
A palavra hoje soa a defeito. Chamar um argumento de casuístico é acusá-lo de sofisma, de rebuscamento usado para escapar de uma regra. Essa carga negativa é recente e tem história conhecida, e a melhor reconstrução dela está em O Abuso da Casuística (1988), de Albert Jonsen, especialista em ética médica, e Stephen Toulmin, filósofo inglês que trabalhou com a lógica dos argumentos.
A tese dos dois é que o raciocínio moral do Ocidente funcionou por casos durante quase dois mil anos, e funcionou bem: comparava-se a situação nova com um caso já resolvido, media-se a distância entre os dois e decidia-se por semelhança. Direito e medicina ainda trabalham assim. O desprestígio do método vem do século XVII, quando a polêmica contra a moral dos jesuítas transformou a palavra em insulto — e, para Jonsen e Toulmin, o que se atacava era o abuso, não o instrumento.
O caso difícil como teste de uma regra
O uso legítimo da casuística é levar a norma ao limite para descobrir onde ela deixa de valer.
A pergunta tem a forma: a regra diz X; e se acontecer isto? Quem a faz está procurando a fronteira da regra, e o resultado costuma ser uma regra melhor, com as exceções explicitadas. O tratado Yevamot é casuística nesse sentido — dezesseis capítulos de "e se" sobre o dever de cunhado.
O abuso tem outra forma: o caso é montado não para encontrar a fronteira, mas para que qualquer resposta comprometa quem responde. A diferença não está na estrutura do argumento, que é a mesma nas duas situações, e sim no que se pretende com ele — por isso ela não se detecta pela lógica.
O caso que começa a ser enunciado aqui tem todas as marcas do segundo tipo, e os comentaristas antigos o perceberam. Meyer o trata como invenção forjada; o Pulpit Commentary observa que, se Jesus dissesse "a mulher é de um deles", teria de explicar de qual, e, se dissesse "é de todos", a ressurreição ficaria indecente.
A peça que ninguém enuncia
Em Os Usos do Argumento (1958), Toulmin separa três partes de qualquer raciocínio: a conclusão que se defende, os dados em que ela se apoia e aquilo que autoriza passar de um para o outro.
Essa terceira peça é a interessante, porque quase nunca é dita em voz alta. Como fica implícita, ela escapa ao exame: discute-se o dado, discute-se a conclusão, e aquilo que liga os dois passa sem ser olhado.
Aplique isso ao que os saduceus montam. Os dados são a lei do dever de cunhado, citada corretamente, e sete casamentos sucessivos — nada disso é contestável. A conclusão é que a ressurreição produz um absurdo. O que autoriza a passagem de um para o outro é uma peça que eles não enunciam: a suposição de que os vínculos desta vida continuam valendo na próxima.
Repare no que Jesus faz em Mateus 22:30. Não discute a lei. Não discute os sete casamentos. Não discute se o caso é verossímil. Ataca exatamente a peça não enunciada — na ressurreição não se casam nem são dados em casamento — e, retirada ela, os dados continuam verdadeiros e a conclusão desaba. É a refutação mais econômica possível, e ela só se entende quando se vê que o argumento tinha uma parte escondida.
A advertência de método vale aqui como sempre: Jonsen e Toulmin escrevem sobre teologia moral católica e sobre lógica informal, não sobre Mateus, e nenhum dos dois comenta esta passagem. A aproximação é leitura do comentarista. O que ela oferece não é uma interpretação nova do versículo, e sim um nome para o que está acontecendo nele — e a possibilidade de ver, no versículo 30, uma resposta cirúrgica onde se costuma ler apenas uma afirmação sobre o céu.
7. Aplicações Práticas
Confira a citação antes de usá-la
A citação deste versículo é de memória, mistura duas passagens e atribui tudo a uma fonte só.
Isso acontece hoje em escala industrial. Versículos que ninguém localiza, frases atribuídas a autores que nunca as escreveram, leis citadas pelo que se acredita que digam. O trabalho de ir ver leva um minuto e evita três coisas: afirmar o que o texto não diz, perder a discussão por um detalhe verificável e repetir o erro de quem lhe passou a frase.
Há um sinal fácil de reconhecer: quando alguém cita pelo nome do autor e não pela obra — "Paulo diz", "a lei diz" —, a citação costuma ser de memória. Não quer dizer que esteja errada; quer dizer que não foi conferida.
Quando a pergunta é armadilha, responda ao pressuposto
Há perguntas construídas para que toda resposta comprometa quem responde.
A reação comum é escolher o menos pior dos dois lados oferecidos, e isso é perder. A saída está em localizar a suposição que a pergunta carrega sem dizer e tratá-la como o verdadeiro assunto. Neste capítulo, a suposição é que o casamento continua depois da morte; dita em voz alta, ela deixa de ser pressuposto e passa a ser tese — e tese pode ser discutida.
Vale para muito além de teologia. "Você prefere cortar o orçamento da sua equipe ou atrasar a entrega?" só tem duas respostas ruins enquanto ninguém diz que a escolha pressupõe que o prazo é intocável.
Não troque o assunto pela legitimidade da fonte
Era possível responder aos saduceus atacando a citação, e não foi o que se fez.
Atacar a fonte é cômodo e quase sempre inútil: desloca a discussão para o terreno processual e deixa a questão intacta. Quem aceita a premissa do interlocutor e mostra que a conclusão não decorre dela está fazendo o trabalho mais difícil e o único que persuade quem assiste.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
A citação está errada?
Não está errada; está livre. E a distinção importa.
O conteúdo corresponde ao que Deuteronômio 25:5-6 determina: morte sem filhos, casamento do irmão, descendência atribuída ao morto. As palavras, não. O verbo grego escolhido é o que a versão grega do Antigo Testamento usa em Gênesis 38:8, e não o que ela usa em Deuteronômio. Gill diz que não está nas mesmas palavras, mas é o sentido da passagem; o Expositor's Greek Testament fala de combinação livre das duas fontes.
Jesus não aponta o problema. Isso é um dado, e admite mais de uma explicação: ou a mistura era irrelevante para o argumento, ou era tão corriqueira que não valia menção. Não é possível decidir.
O dever de cunhado ainda existia na época de Jesus?
Existia na lei e era pouco aplicado.
A Mishná dedica um tratado inteiro ao assunto, com dezesseis capítulos de casos, o que mostra matéria viva entre os especialistas. Ao mesmo tempo, a tradição registra o deslocamento da preferência: em vez do casamento, o rito que libera o cunhado e solta a viúva. O Pulpit Commentary considera o costume praticamente extinto; a quantidade de discussão rabínica sugere que ele estava mais vivo do que isso. Faltam registros para medir a frequência real.
O casamento com a cunhada não era proibido em outro lugar da Lei?
Era, e a tensão é real: Levítico 18:16 e Levítico 20:21 proíbem tomar a mulher do irmão, e Deuteronômio 25:5 manda. O assunto está desenvolvido no estudo de Gênesis 38:8. Os saduceus não o mencionam — para o caso que estão montando, a tensão só atrapalharia.
E se o morto deixasse filhas?
Os antigos discutiam, e a resposta depende de como se lê a palavra "filhos".
A anotação da Bíblia de Genebra sustenta que quem tinha apenas filhas estava na mesma situação de quem não tinha nenhum, porque o que a lei visava era o herdeiro masculino. O Pulpit Commentary lembra Números 27:8, onde as filhas de um homem sem filhos recebem a herança — se o patrimônio já está resolvido, o dever de cunhado fica sem objeto. Bengel observa que a palavra pode cobrir filho, filha ou mais de um.
A questão permanece em aberto. O que ela mostra é que o caso dos sete irmãos precisa de ausência total de descendência para funcionar, e o versículo já estabelece isso.
A Torá ensina alguma forma de vida depois da morte?
Ensina uma, e é esta: a do nome que continua.
A lei citada aqui promete ao homem sem filhos um herdeiro registrado em seu nome, que mantém a sua parcela de terra e a sua linha. Não é pouco, para aquela sociedade — era a diferença entre durar e desaparecer. Mas é continuidade da casa, não da pessoa. Quem lê o Antigo Testamento procurando a sobrevivência individual encontra pouco; quem procura a sobrevivência da linhagem encontra em toda parte.
9. Conexão com Outros Textos
A lei que está sendo citada
Deuteronômio 25:5-6 — "Quando irmãos morarem juntos e um deles morrer sem deixar filho, a mulher do falecido não se casará fora, com um estranho; o irmão do seu marido a tomará por mulher e cumprirá para com ela o dever de cunhado. E o primogênito que ela der à luz sucederá ao nome do irmão falecido, para que o seu nome não se apague de Israel."
É o texto a que "Moisés disse" se refere, e compará-lo com a citação mostra o que foi acrescentado e o que foi deixado de lado. Some a referência aos irmãos que moram juntos, some a proibição de a viúva casar fora, some o primogênito. Fica o essencial para o argumento: morreu sem filhos, o irmão casa, a descendência é do morto.
A outra fonte, de onde vem a palavra
Gênesis 38:8 — "Então Judá disse a Onã: 'Deite-se com a mulher do seu irmão, cumpra com ela o dever de cunhado e suscite descendência ao seu irmão.'"
A ordem de Judá é a primeira aparição do costume na Bíblia, séculos antes de haver lei escrita sobre ele. Na versão grega do Antigo Testamento, o verbo que traduz "cumprir o dever de cunhado" neste versículo é exatamente o que os saduceus empregam — e não o de Deuteronômio.
O mesmo pedido nos outros evangelhos
Marcos 12:19 — "Mestre, Moisés nos escreveu que, se morrer o irmão de alguém, e deixar mulher e não deixar filhos, seu irmão tome a mulher dele e suscite descendência a seu irmão."
Lucas 20:28 — "Mestre, Moisés nos escreveu que, se o irmão de alguém morrer, tendo mulher e não deixando filhos, o irmão dele tome a mulher e suscite descendência a seu irmão."
Marcos e Lucas dizem "Moisés nos escreveu"; Mateus escreve "Moisés disse" — os dois primeiros remetem ao texto, Mateus à pessoa do legislador. Os três conservam o verbo de levantar descendência.
O instituto em funcionamento
Rute 4:10 — "E também tomo para mim por mulher a Rute, a moabita, que foi mulher de Malom, para suscitar o nome do falecido sobre a sua herança, para que o nome do falecido não se apague de entre seus irmãos e da porta do seu lugar."
Boaz não é irmão do morto, e a função que exerce é a de resgatador da família. O caso de Rute mistura resgate da terra com preocupação pelo nome do falecido, e mostra o mecanismo operando numa forma que a lei de Deuteronômio não prevê exatamente.
A outra solução para o mesmo problema
Números 27:8 — "Quando um homem morrer e não tiver filho, então fareis passar a sua herança à sua filha."
Aqui o desaparecimento de uma linha recebe tratamento diferente: a herança passa às filhas, sem casamento de cunhado nenhum. O texto é invocado pelos comentaristas justamente para delimitar o alcance da lei citada pelos saduceus.
O precedente de que a citação é livre
Mateus 19:7 — "Disseram-lhe eles: Então, por que mandou Moisés dar-lhe carta de divórcio e repudiá-la?"
A outra vez em que um adversário cita Moisés em Mateus, e também a respeito de casamento. Nas duas cenas a citação é aceita como verdadeira e tratada como insuficiente: lá Jesus distingue o que Moisés permitiu do que valia desde o princípio, aqui dirá que eles não conhecem as Escrituras nem o poder de Deus.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
“Mestre, Moisés disse: ‘Se alguém morrer sem ter filhos, seu irmão deverá casar-se com a viúva e dar descendência a ele.’
Texto grego (Textus Receptus)
λέγοντες, Διδάσκαλε, Μωσῆς εἴπεν, Ἐάν τις ἀποθάνῃ μὴ ἔχων τέκνα, ἐπιγαμβρεύσει ὁ ἀδελφὸς αὐτοῦ τὴν γυναῖκα αὐτοῦ, καὶ ἀναστήσει σπέρμα τῷ ἀδελφῷ αὐτοῦ.
Transliteração
legontes, Didaskale, Mōsēs eipen, Ean tis apothanē mē echōn tekna, epigambreusei ho adelphos autou tēn gynaika autou, kai anastēsei sperma tō adelphō autou.
Análise palavra por palavra
λέγοντες, Διδάσκαλε — legontes, Didaskale, "dizendo: Mestre". O particípio retoma o verbo do versículo anterior, num jeito de falar herdado do hebraico. Didaskalos, formado do verbo didaskō, "ensinar", é a palavra grega com que se traduzia o título de rabi: designa quem ensina de ofício, não quem tem autoridade sobre o ouvinte. O padrão de uso em Mateus está examinado no item 3.
Μωσῆς εἴπεν — Mōsēs eipen, "Moisés disse". Eipen é o aoristo de legō: um ato de fala concluído no passado, e não uma norma vigente. Marcos 12:19 e Lucas 20:28, no mesmo lugar, trazem o verbo de escrever.
Ἐάν τις ἀποθάνῃ — ean tis apothanē, "se alguém morrer". A construção é ean com o verbo no subjuntivo, que em grego apresenta a situação como possível e não como ocorrida.
É a gramática própria do caso jurídico: o código formula a hipótese — "se um homem…" — e em seguida a consequência. O uso de tis, "alguém", completa o efeito.
μὴ ἔχων τέκνα — mē echōn tekna, "não tendo filhos". Particípio presente com a negação do infinitivo e do particípio. Tekna é o plural de teknon, palavra ligada ao verbo tiktō, "dar à luz": nomeia a criança pelo nascimento, e não pela posição na família, como faz huios, "filho". Por isso teknon não distingue sexo.
A mesma lei tem três palavras nas três versões. O hebraico de Deuteronômio 25:5 fala de não haver ben, "filho", singular e masculino; a versão grega do Antigo Testamento, naquele lugar, fala de não haver "semente"; os saduceus, em Mateus, dizem "filhos", plural e sem marca de sexo. É dessa diferença que nasce a discussão antiga sobre o morto que deixava apenas filhas.
ἐπιγαμβρεύσει — epigambreusei, "casará como cunhado". Futuro de epigambreuō, verbo que aparece uma única vez em todo o Novo Testamento.
Ele é formado a partir do substantivo gambros, que em grego cobre todo parente por casamento — sogro, genro, cunhado, e também o noivo. Vincent (Marvin Vincent, comentarista norte-americano do século XIX, autor de um estudo de palavras do Novo Testamento) observa que o termo é apropriado aqui justamente porque se trata de casamento entre parentes por afinidade. Com o prefixo epi, o verbo significa entrar nessa posição de parentesco: tomar a mulher na qualidade de irmão do marido.
Na versão grega do Antigo Testamento, a palavra traduz o hebraico em Gênesis 38:8 e aparece ainda em 1 Samuel 18:21-27, onde Davi é convidado a tornar-se genro do rei. Em Deuteronômio 25:5, a mesma versão grega não a usa — daí a conclusão do Expositor's Greek Testament de que a citação combina as duas passagens: o conteúdo é o da lei, o vocabulário é o da narrativa.
A forma é o futuro do indicativo, e não um imperativo — "casará", e não "case". O direito hebraico enuncia deveres assim, e a versão grega conserva o hábito; os dez mandamentos, em Êxodo 20, seguem a mesma forma. Em português a construção soa como previsão, e é obrigação.
τὴν γυναῖκα αὐτοῦ — tēn gynaika autou, "a mulher dele". Gynē significa ao mesmo tempo mulher e esposa; o grego não tem palavra separada para a segunda. O pronome é o que interessa: "dele" refere-se ao morto, não ao irmão vivo, e a mulher continua sendo chamada de mulher do falecido depois da morte dele. A lei não transfere a mulher — mantém-na ligada a quem morreu.
καὶ ἀναστήσει σπέρμα — kai anastēsei sperma, "e levantará semente". Anastēsei é o futuro de anistēmi, no uso em que o verbo tem objeto: não "levantar-se", mas "fazer levantar alguma coisa".
É a mesma raiz de que se forma anastasis, a palavra do versículo anterior. A tradução portuguesa "dar descendência" apaga o eco inteiro; em grego, o grupo que nega o levantamento dos mortos cita uma lei que manda levantar.
Sperma significa semente, e no Antigo Testamento grego é a palavra regular para descendência — é com ela que se traduzem as promessas feitas a Abraão.
τῷ ἀδελφῷ αὐτοῦ — tō adelphō autou, "ao seu irmão". O caso é o dativo, que aqui indica em favor de quem a ação se faz, e é a peça jurídica do versículo: o filho não é gerado para o irmão vivo, que o gera, mas para o morto e em nome dele. Toda a ficção legal do dever de cunhado está contida nessa terminação.
As variantes
Scrivener grafa Μωσῆς, sem o sinal de separação das vogais; as edições críticas trazem Μωϋσῆς, e Westcott e Hort, Μωυσῆς — grafias do mesmo nome. Scrivener imprime εἴπεν com acento agudo onde as outras trazem εἶπεν com circunflexo, escolha de impressão e não variante de texto. As demais diferenças são de pontuação. Neste versículo não há divergência de palavras entre as edições.
11. Conclusão
Da escolha da lei decorre a inteligência do ataque. Entre centenas de preceitos, os saduceus pegaram o único que a Torá justifica em termos de sobrevivência — para que o nome não se apague — e que resolve a morte sem precisar de ressurreição nenhuma. Quem tem essa resposta não precisa de outra, e é isso que o versículo põe em cena antes de qualquer pergunta.
Da fórmula "Moisés disse" decorre o terreno em que o debate vai correr. Não se invoca um texto, invoca-se uma pessoa, e com ela o sentido da lei — margem que a fórmula "está escrito" não daria. A resposta, quatro versículos adiante, aceitará o terreno e discutirá dentro dele, recusando-se a trocar o assunto pela legitimidade da fonte.
Da liberdade da citação decorre uma lição sobre como se lia a Bíblia antes dos capítulos e dos versículos. O conteúdo é de Deuteronômio, o vocabulário é de Gênesis, e ninguém na cena aponta o problema — porque, pelos padrões da época, não havia problema.
E do verbo escolhido decorre a ironia que o português não deixa ver. A lei que eles citam manda levantar descendência com a palavra de que se forma o nome daquilo que eles negam. Não se pode afirmar que tenham percebido, e o texto não diz. O que se pode afirmar é que o argumento deles se apoia, sem querer, no vocabulário da tese contrária — e que a promessa contida na lei é real, limitada e genealógica: continua a casa, não a pessoa.













