Na ressurreição, as pessoas não se casam nem são dadas em casamento; são como os anjos no céu.
1. Introdução
Esta é a resposta de Jesus à primeira das duas ignorâncias que ele acabou de apontar: a do poder de Deus. Ele não resolve o caso dos sete maridos — retira a premissa que o tornava um caso, dizendo que na ressurreição não há casamento.
A frase contraria o que muita gente espera ouvir sobre o reencontro depois da morte, e ela tem duas metades que precisam ser lidas separadamente: a negação do casamento e a comparação com os anjos. A segunda não diz em que aspecto a semelhança vale, e Lucas, ao contar o mesmo episódio, fornece uma razão que Mateus não dá. O versículo também invoca, diante de quem negava a existência de anjos, justamente os anjos.
2. Contexto Histórico e Cultural
Para que a pergunta dos saduceus parecesse devastadora, o casamento tinha de ser entendido como aquele mundo o entendia. E ele o entendia, antes de tudo, como instituição voltada à descendência.
Para que servia casar
Um casamento judaico do primeiro século não se reduzia ao afeto entre duas pessoas: era um arranjo entre famílias, com contrato, dote e cláusulas de garantia. A finalidade declarada desse arranjo é o que importa para esta cena.
Essa finalidade estava fixada num mandamento. A ordem de Gênesis 1:28 — crescer e multiplicar — era contada entre os preceitos obrigatórios, e as escolas discutiam quantos filhos bastavam para cumpri-la. A Mishná, coleção de decisões rabínicas compilada por volta do ano 200, registra a divergência: para a escola de Shammai, dois filhos homens; para a de Hillel, um filho e uma filha, porque o relato da criação diz “homem e mulher os criou” (Yevamot 6:6). A discussão é antiga e mostra o terreno: casar era, entre outras coisas, obedecer.
Daí decorre a segunda finalidade, que é a mais relevante aqui: o nome. Num mundo sem registro civil e sem seguro, a continuidade de uma pessoa dependia dos filhos que levassem o nome dela e mantivessem a posse da terra. Morrer sem filhos era desaparecer duas vezes. O levirato — a obrigação de o irmão casar com a viúva e dar descendência ao morto, com estudo próprio em Gênesis 38:8 — é o caso-limite dessa lógica: um casamento cuja razão declarada é fornecer um nome a quem já morreu.
Essa é a instituição que o versículo diz não existir na ressurreição. E é a instituição que os próprios saduceus escolheram para montar o problema.
“Como os anjos” não era imagem nova
A comparação chegou aos ouvintes com história. A literatura judaica dos dois séculos anteriores já ligava os seres celestes à ausência de casamento, e por um caminho curioso: a história dos anjos que desceram e tomaram mulheres.
O livro de 1 Enoque, obra judaica em várias partes, a mais antiga das quais é anterior ao segundo século antes de Cristo, trata disso diretamente. Na repreensão aos anjos que se uniram a mulheres, Deus diz: “E por isso não designei esposas para vós; porque os espirituais do céu, no céu é a sua habitação” (1 Enoque 15:7). O raciocínio é o inverso do deste versículo e chega ao mesmo lugar: o casamento pertence a quem morre e precisa de filhos; os habitantes do céu não precisam, e por isso nenhuma esposa lhes foi designada.
Outro texto, 2 Baruque, escrito provavelmente entre 70 e 100 d.C. e conservado em siríaco, descreve os justos ressuscitados “transformados no esplendor dos anjos” (2 Baruque 51:5), e mais adiante os identifica com as estrelas. A obra é posterior ao episódio, ou contemporânea dele, e por isso não serve como fonte do que Jesus disse; serve como prova de que a imagem circulava.
Entre os manuscritos achados junto ao Mar Morto, a comunidade que os guardava falava da própria assembleia como compartilhando a sorte dos seres celestes, e descrevia o culto dela como feito ao lado deles. E Flávio Josefo, historiador judeu do primeiro século, relata que o grupo dos essênios desprezava o casamento e vivia em celibato (Guerra dos Judeus 2.120) — isto é, havia judeus que já tentavam, nesta vida, a condição que este versículo atribui à seguinte.
Nada disso significa que Jesus esteja citando 1 Enoque. A semelhança é de pensamento, não de palavras, e não é possível decidir se há dependência. O que esses textos mostram é que a pergunta dos saduceus ignorava uma literatura inteira, e que a resposta dada a eles não era invenção do momento.
3. Análise Teológica do Versículo
“Na ressurreição”
A frase começa aceitando a palavra do adversário. Os saduceus disseram “na ressurreição, de qual dos sete ela será esposa”, e a resposta usa o mesmo termo — o que significa que Jesus não discute, por ora, se a ressurreição existe. Ele descreve como ela é.
E a expressão designa um estado, não um instante. Não se trata do momento em que os mortos se levantam, e sim da condição em que passam a viver. Lucas torna isso explícito ao contar o mesmo episódio, opondo “os filhos deste mundo” aos que são considerados dignos de “alcançar aquele mundo” (Lucas 20:34-35): duas ordens, com regras próprias.
“as pessoas não se casam nem são dadas em casamento”
Dois verbos, e não um. O primeiro é o do homem que toma esposa; o segundo, o da mulher entregue em casamento pelo pai. Juntos, cobrem as duas pontas da transação, e esse é o alcance da negação: não é que ninguém mais tome a iniciativa, é que o arranjo inteiro não se realiza. Bengel, comentarista alemão do século XVIII, foi quem fixou a leitura de que um verbo olha para os homens e o outro para as mulheres.
Aqui está o ponto em que o versículo contraria a expectativa corrente, e ele não deve ser amaciado. A esperança popular de reencontrar o cônjuge como cônjuge, de retomar do outro lado o casamento interrompido pela morte, não está nesta frase. A frase diz o contrário a respeito da instituição: ela não existe lá.
Três leituras foram propostas para delimitar o que exatamente está sendo negado. A pergunta que as separa é: o versículo acaba com o casamento ou apenas com a celebração de novos casamentos?
Primeira leitura: acaba com o casamento. É a dos comentaristas clássicos em maioria. Poole, teólogo inglês do século XVII, diz que o casamento foi instituição deste mundo, destinada a repor os que morrem e à ajuda mútua nesta vida; cumprida a função, cessa o arranjo. O Pulpit Commentary (“Comentário do Púlpito”, obra coletiva inglesa do século XIX) acrescenta que Jesus nada afirma sobre reconhecimento entre os que foram casados — o silêncio é notado, não preenchido.
Segunda leitura: cessa a celebração, o vínculo permanece sob outra forma. Ellicott, bispo anglicano do século XIX, sustenta que as relações concretas em que o casamento se apoia estão ausentes da vida ressuscitada, mas que os laços da terra “podem subsistir em novas condições”. A distinção é útil e precisa ser marcada com honestidade: a primeira metade da frase dele é leitura do texto; a segunda é acréscimo. Mateus não escreve isso.
Terceira leitura: a frase responde ao caso, não legisla sobre o céu. Nesta, Jesus está apenas retirando a premissa do problema dos sete maridos, sem pretender descrever a vida futura. É a mais fraca das três, porque a forma da sentença é geral e porque a comparação com os anjos vai além do caso.
O que se pode afirmar, no limite do texto: a instituição está negada, e sobre o afeto, a memória e o reconhecimento entre pessoas que se amaram o versículo não diz nada — nem que continuam, nem que acabam. Quem promete ao viúvo o casamento de volta está dizendo mais do que o texto; quem lhe diz que os mortos se esquecem uns dos outros também. O versículo fecha uma porta e não entra nos outros quartos.
Por que não haveria casamento
Mateus não dá a razão. Lucas dá, e ela é decisiva: os que alcançam aquele mundo “nem podem mais morrer” (Lucas 20:36).
Se essa é a razão, o casamento está amarrado à mortalidade. A instituição que existe para gerar quem substitua os que morrem não tem função onde ninguém morre. E a demonstração mais clara disso está no próprio exemplo dos saduceus: o levirato é um casamento cujo objetivo declarado é dar nome e descendência a um homem morto. Eles escolheram, para refutar a ressurreição, a prática que mais depende da morte para fazer sentido. A réplica de Jesus aproveita exatamente isso.
É inferência, e deve ser marcada como tal: o raciocínio está completo em Lucas e implícito em Mateus. Mateus apresenta o fato sem a causa.
“são como os anjos no céu”
A comparação é a parte mais usada e a mais extrapolada do versículo. Ela diz “como”, e não “iguais a” — Lucas é que usa um adjetivo de igualdade, dizendo que os ressuscitados são iguais aos anjos.
Em que aspecto vale a semelhança? O assunto em discussão é um só: casamento. A comparação, lida dentro do seu assunto, afirma que os ressuscitados estão, nesse ponto, na situação dos anjos. Levá-la adiante — ausência de corpo, de sexo, de apetite, de individualidade — é estender a figura para além do que ela compara. Meyer e o Expositor’s Greek Testament (“Testamento Grego do Expositor”, série inglesa de comentários sobre o original) dizem isso expressamente, contra a leitura dos pais da igreja, que tiraram da frase uma doutrina sobre a ausência de sexo nos ressuscitados e construíram sobre ela boa parte da defesa do celibato.
A nota da Bíblia de Genebra, versão inglesa do século XVI, registra o limite com precisão: Cristo não diz que os ressuscitados ficarão sem corpo. O texto também não diz que eles se tornam anjos, nem que passam a habitar o mesmo lugar que eles. A frase compara uma condição, e nada mais.
E a escolha do termo de comparação tem uma ironia que o contexto garante. Segundo Atos 23:8, os saduceus negavam a existência de anjos tanto quanto negavam a ressurreição. A resposta, portanto, usa como medida um ser que os interlocutores não aceitavam. Isso dá a entender que a resposta não está formulada para convencê-los: ela está formulada para quem está em volta ouvindo, e o fim da cena confirma quem ouviu.
Que os anjos sejam a medida
A comparação não explica coisa alguma. Diz que a vida depois da ressurreição se parece com a dos anjos, e os anjos são justamente aquilo sobre o que ninguém tem informação — menos ainda os saduceus, que não os aceitavam.
É esse o modo da resposta, e ele precisa ser notado. A pergunta era jurídica e pedia uma solução jurídica: de qual dos sete ela será esposa? A resposta não entra no direito. Desloca a questão para uma ordem de vida em que a pergunta deixa de se formular, e aponta para seres como exemplo de que essa ordem existe.
Há uma ligação com a acusação do versículo anterior que o texto deixa montada sem explicitar. Lá, o erro apontado foi não conhecer o poder de Deus. Aqui, o que se oferece não é uma demonstração desse poder, e sim um lugar onde ele já se manifesta numa forma de existência diferente da humana. A resposta não argumenta pelo poder: mostra onde olhar.
O que o versículo não resolve
Ele não diz o que acontece com a diferença entre homem e mulher, nem com os filhos nascidos nesta vida, nem com a relação entre pais e filhos. Não diz se há memória do que se viveu. Não diz se há afeto particular por alguém, ou se todos são iguais entre si. Cada uma dessas perguntas foi respondida, ao longo da história da interpretação, por acréscimo — e nenhuma das respostas tem base nesta frase.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
A ressurreição
No vocabulário judaico do período, o levantar-se dos mortos no fim dos tempos. A crença não era unânime: os fariseus a sustentavam, os saduceus a negavam, e os textos do Antigo Testamento que a afirmam de modo explícito são poucos e tardios. Neste versículo a palavra designa menos o evento do que a ordem de vida que ele inaugura.
Os anjos
Seres celestes que servem a Deus e às vezes são enviados aos homens. Em Mateus eles aparecem no nascimento, no deserto, nas parábolas do juízo, no Getsêmani e junto ao sepulcro aberto. O que este versículo supõe deles é apenas isto: que não se casam. Nada no texto descreve a natureza deles, e a questão de que relação eles têm com cada pessoa foi tratada no estudo de Mateus 18:10.
O céu
Aqui, o lugar onde os anjos estão — e a palavra está no singular, diferente do plural que Mateus usa na expressão “reino dos céus”. O versículo situa os anjos no céu; não situa ali os ressuscitados.
Os saduceus
Os interlocutores silenciosos desta frase, e a única parte desta conversa de quem Mateus não registra uma palavra depois da pergunta inicial. O que eles rejeitavam, incluindo o próprio termo de comparação deste versículo, está no item 3.
A mulher dos sete maridos
Personagem construída para a disputa. O versículo a dissolve: sem casamento na ressurreição, ela não é esposa de nenhum dos sete, e a pergunta deixa de ter objeto. Mateus não registra qualquer comentário sobre o que acontece com ela, nem com os sete.
5. Pontos de Ensino
A vida ressuscitada não é a continuação desta
O erro dos saduceus não estava em imaginar demais, e sim em imaginar de menos: eles projetaram sobre a vida futura as regras da presente. O versículo corta essa projeção num ponto concreto, e o método importa tanto quanto o conteúdo. A resposta não é “você não pode saber”: é uma afirmação determinada sobre o que não há lá.
Instituições têm prazo
O casamento é apresentado como arranjo com função — e o que tem função termina quando a função termina. Isso não o diminui nesta vida; situa-o. Uma coisa pode ser boa, mandada por Deus e temporária ao mesmo tempo.
O que o silêncio do texto ensina
A frase nega o casamento e não diz nada sobre reconhecimento, afeto ou memória. Respeitar esse silêncio é parte do ensino. A tentação de preencher — para consolar ou para assustar — produz afirmações que não têm apoio, e acaba desgastando a confiança de quem depois descobre que a promessa não estava escrita.
Uma comparação tem limites
“Como os anjos” comparou um ponto determinado. A história da interpretação mostra o que acontece quando uma comparação é tratada como definição: dela se extraiu uma doutrina sobre corpo e sexo que o texto não formula. Toda figura tem um raio de alcance, e lê-la bem é saber onde ele acaba.
A resposta não foi dada a quem perguntou
Jesus responde com um termo que os perguntadores rejeitavam. Quem fala em público fala para mais gente do que o interlocutor imediato, e a cena termina com a reação de quem estava em volta, não com a dos que perguntaram.
Negar uma premissa é uma forma de responder
Perguntas aparentemente insolúveis costumam depender de uma suposição não declarada. Retirá-la não é fugir da pergunta: é mostrar que ela não tinha o objeto que parecia ter.
6. Aspectos Filosóficos
Se a vida ressuscitada não tem casamento, o que sobra do corpo que foi casado? A pergunta não é retórica, e foi uma das mais trabalhadas da história do pensamento cristão.
O problema: identidade através da mudança
Dizer que alguém ressuscita é dizer que a pessoa que morreu é a mesma que volta. Isso exige um critério: o que faz de duas aparições, separadas por séculos de decomposição, uma só pessoa. Se a resposta for a matéria, há o problema do corpo desfeito, disperso, devorado, reciclado em outros corpos. Se a resposta for a alma, o corpo fica sendo acessório — e então não se vê por que falar de ressurreição em vez de sobrevivência.
Caroline Walker Bynum (nascida em 1941), historiadora norte-americana do pensamento medieval, dedicou um livro inteiro a esse debate no Ocidente cristão, entre o segundo século e o décimo quarto. O que ela mostrou é que a questão dominante não era a imortalidade da alma, e sim a continuidade material: os autores discutiam, com seriedade desconcertante, o que acontece com a carne comida por animais, com os corpos queimados, com as unhas e os cabelos cortados. As imagens que eles usavam são de remontagem — a estátua derretida e fundida de novo, o mosaico recomposto, os fragmentos de vaso reunidos.
A tese dela, e é o que interessa a este versículo, é que essa insistência teimosa na matéria não era grosseria de quem não sabia pensar em abstrato. Era uma recusa: a recusa de dizer que a pessoa é uma alma que usou um corpo por algum tempo. Quem afirma a ressurreição do corpo está afirmando que o que você é inclui o que você come, envelhece, dói e morre.
A solução escolástica, e o seu custo
Dentro desse quadro, a pergunta deste versículo ficou assim: o corpo ressuscitado conserva o que o tornava capaz de casar? A resposta que se firmou, e que Bynum documenta, foi estranha e deliberada: conserva a estrutura e perde a função. Homem e mulher continuam homem e mulher, com o corpo que tinham, inclusive nos órgãos que serviam à geração — mas esses órgãos não servem mais a nada. Eles permanecem como marcas de identidade, não como instrumentos.
Os próprios autores sentiam o quanto isso soava arbitrário, e mantiveram a posição porque a alternativa lhes parecia pior. Dizer que a diferença entre homem e mulher desaparece seria dizer que o ressuscitado não é quem morreu. A identidade, nesse raciocínio, está na forma, não no uso dela.
O versículo colabora com essa saída e não a autoriza. Ele retira uma função — o casamento — e não diz nada sobre estrutura, corpo ou diferença sexual. A leitura medieval é um modo coerente de ocupar o silêncio; não é o conteúdo da frase.
Por que isso não é curiosidade de antiquário
A discussão medieval formulou um problema que continua de pé, e em termos laicos: uma pessoa é a sua matéria, a sua forma, a sua história, ou a continuidade da sua consciência? Cada resposta tem preço. Pela matéria, não sobrevivemos nem a esta vida, porque as células trocam. Pela consciência, o corpo passa a ser roupa. Pela forma, é preciso explicar por que a forma sem função ainda é a mesma forma.
Bynum observa que o cristianismo ocidental preferiu, durante mil anos, a resposta que dava mais trabalho — a que insiste no corpo e aceita o embaraço de explicar o pó. E o embaraço aparece neste versículo pelo lado contrário: o texto afirma uma continuidade de pessoas, porque alguém é reconhecido como ressuscitado, e ao mesmo tempo uma descontinuidade de ordem, porque a instituição mais básica da vida entre as pessoas não está lá. Manter as duas coisas juntas é o que a doutrina da ressurreição custa, e é por isso que ela nunca foi simples.
7. Aplicações Práticas
O que se pode dizer a quem perdeu o cônjuge
É a aplicação mais direta e a mais delicada. O versículo não autoriza prometer a retomada do casamento depois da morte, e muita pregação promete. Também não autoriza o oposto: não há aqui nenhuma afirmação de que as pessoas se tornem estranhas umas às outras.
O que é honesto dizer é o que está escrito: a ordem de vida é outra, o casamento pertence a esta, e sobre o que acontece com o vínculo afetivo o texto se cala. Um consolo construído sobre uma promessa que não existe funciona por um tempo e depois cobra caro — porque a pessoa, mais adiante, vai ler o versículo.
Não medir o futuro pelo presente
O movimento que Jesus corrige é tão comum que quase não se percebe: montar o cenário do desconhecido com as peças do conhecido, achar o resultado impossível e concluir contra o desconhecido. O exercício útil é o inverso — perguntar quais das regras que você está aplicando valem de fato no caso de que se fala.
O casamento tem o seu lugar, e é este
Dizer que uma instituição é temporária não é desvalorizá-la. É situá-la. A consequência prática é dupla: viver o casamento como coisa desta vida, com o cuidado que se dá ao que é finito, e não transformá-lo no sentido último da existência de ninguém. Quem espera do cônjuge o que só a eternidade daria sobrecarrega um vínculo que não foi feito para isso.
Para quem não casou
A frase tem um efeito colateral que o episódio não explora e que a história do cristianismo explorou muito: se o casamento não pertence à ordem definitiva, não casar deixa de ser falta. O celibato assumido, nessa leitura, é antecipação, e não privação. A leitura é antiga e defensável; o versículo, por si, não a exige nem a recomenda.
Falar em público é falar para quem escuta
A resposta foi dada a quem não aceitava os termos dela, e o efeito registrado foi sobre terceiros. Quem discute em público — numa reunião, numa rede social, numa família — faz bem em lembrar que a plateia existe e que ela é, muitas vezes, a única parte disposta a mudar de ideia.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
O versículo diz que os casados deixam de se conhecer na ressurreição?
Não. Ele diz que não há casamento, o que é diferente. Reconhecimento, memória e afeto não são mencionados, nem para afirmar nem para negar. O Pulpit Commentary chama atenção para esse silêncio, e preenchê-lo em qualquer direção é acrescentar ao texto.
Então a esperança de reencontrar quem morreu é falsa?
O versículo não trata disso. Ele trata do casamento como instituição. Outros textos do Novo Testamento falam de reunião dos que morreram em Cristo, e nenhum deles descreve essa reunião em termos conjugais. O que esta frase proíbe é uma coisa só: imaginar a vida futura como a continuação do arranjo doméstico desta.
“Como os anjos” significa que os ressuscitados não têm corpo?
O texto não diz isso, e vários comentaristas marcaram o limite. A comparação está feita dentro de um assunto — casamento — e não se estende por conta própria a corpo, sexo ou aparência. Os pais da igreja a estenderam; Meyer e outros objetaram. Permanece em aberto, e a frase isolada não decide.
Por que Jesus compara com anjos, se os saduceus não criam em anjos?
Porque a resposta não parece destinada a convencê-los. Quem reage, no fim da cena, são as multidões. Usar como medida algo que o adversário rejeita só faz sentido se o adversário não for o único ouvinte.
Por que o casamento não existiria lá?
Mateus não explica. Lucas sim: porque os ressuscitados não podem mais morrer. Se essa é a razão, o casamento está ligado à reposição dos que morrem, e o exemplo escolhido pelos saduceus — o levirato — é a forma mais pura dessa ligação. A inferência é razoável e vem de Lucas, não deste versículo.
Quem é o sujeito da frase?
O grego não traz um substantivo: traz apenas os verbos na terceira pessoa do plural, e o sujeito tem de ser inferido — são os ressuscitados. A ABC resolve com “as pessoas”. A consequência é que o versículo não distingue grupos: não diz “os justos”, não diz “os eleitos”. Lucas, no relato paralelo, restringe aos que forem considerados dignos; Mateus não.
Isso significa que o casamento não importa?
Significa o contrário do que a pergunta sugere. Uma instituição com prazo não é uma instituição sem valor — é uma instituição com lugar. No mesmo evangelho, poucos capítulos antes, Jesus trata o casamento como obra de Deus que não se desfaz por conveniência. As duas coisas convivem: valer nesta vida e não atravessar para a outra.
9. Conexão com Outros Textos
O mesmo episódio nos outros evangelhos
Marcos 12:25 — “Porque, quando ressuscitarem dos mortos, nem casarão nem serão dados em casamento, mas serão como os anjos que estão nos céus.”
Quase idêntico, com uma diferença: Marcos fala do momento de ressuscitar; Mateus, da ressurreição como estado.
Lucas 20:34-36 — “Os filhos deste mundo casam-se e dão-se em casamento; mas os que forem considerados dignos de alcançar aquele mundo, e a ressurreição dos mortos, nem casam nem se dão em casamento; porque nem podem mais morrer, pois são iguais aos anjos e são filhos de Deus, sendo filhos da ressurreição.”
A versão mais longa e a mais explicativa. Ela fornece a razão que Mateus omite, usa um adjetivo de igualdade em vez da comparação, e acrescenta um título — filhos de Deus — que Mateus não traz.
A finalidade do casamento no Antigo Testamento
Gênesis 1:28 — “Deus os abençoou e lhes disse: Sejam férteis e multipliquem-se, encham a terra e a subjuguem.”
A ordem de onde as escolas tiravam o dever de gerar filhos, e o fundamento da instituição que este versículo diz não existir na ressurreição.
Deuteronômio 25:5-6 — “Se irmãos morarem juntos e um deles morrer sem filhos, a mulher do falecido não se casará fora, com homem estranho; seu cunhado a tomará, e o primogênito que ela der à luz será tido pelo nome do irmão falecido.”
A regra que os saduceus invocaram, e a que mais depende da morte para fazer sentido.
Os anjos e a condição celeste
Salmo 103:20 — “Bendigam ao SENHOR todos os seus anjos, valentes em poder, que executam a sua palavra, obedecendo à voz da sua ordem.”
Os anjos definidos pela execução da ordem divina — a única função que o Antigo Testamento lhes atribui com constância.
Mateus 18:10 — “Cuidado para não desprezarem nenhum destes pequeninos, porque eu digo a vocês: os anjos deles nos céus veem sempre a face do meu Pai, que está nos céus.”
A outra passagem de Mateus em que a condição dos anjos é posta em relação com pessoas humanas.
Atos 23:8 — “Porque os saduceus dizem que não há ressurreição, nem anjo, nem espírito; mas os fariseus creem em ambas as coisas.”
O dado que torna a comparação deste versículo um argumento endereçado a terceiros.
O corpo ressuscitado, em Paulo
1 Coríntios 15:42-44 — “Assim também a ressurreição dos mortos. Semeia-se o corpo em corrupção; ressuscitará em incorrupção. Semeia-se em fraqueza; ressuscitará com vigor. Semeia-se corpo natural; ressuscitará corpo espiritual.”
O desenvolvimento mais extenso do Novo Testamento sobre o assunto. Ele mantém a palavra “corpo” nas duas pontas, e é por isso que a leitura da frase “como os anjos” como ausência de corpo encontra resistência.
Filipenses 3:21 — “Que transformará o nosso corpo abatido, para ser conforme o seu corpo glorioso, segundo o seu eficaz poder.”
Transformação, e não substituição: o mesmo corpo em outra condição.
Textos judaicos do período
1 Enoque 15:7 — “E por isso não designei esposas para vós; porque os espirituais do céu, no céu é a sua habitação.”
A ligação entre habitação celeste e ausência de casamento, anterior aos evangelhos.
2 Baruque 51:5 — “E eles serão transformados, estes no esplendor dos anjos.”
A mesma comparação, aplicada aos ressuscitados, num texto da mesma época dos evangelhos.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Na ressurreição, as pessoas não se casam nem são dadas em casamento; são como os anjos no céu.
Texto grego (Textus Receptus)
ἐν γὰρ τῇ ἀναστάσει οὔτε γαμοῦσιν οὔτε ἐκγαμίζονται, ἀλλ’ ὡς ἄγγελοι τοῦ Θεοῦ ἐν οὐρανῷ εἰσιν.
Transliteração
en gar tē anastasei oute gamousin oute ekgamizontai, all’ hōs angeloi tou Theou en ouranō eisin.
Análise palavra por palavra
ἐν γὰρ — en gar, “porque na”. A partícula gar liga esta frase à anterior como explicação: o que vem agora justifica a acusação de desconhecer o poder de Deus. As traduções portuguesas em geral deixam a partícula de fora, e com ela se perde o encadeamento.
τῇ ἀναστάσει — tē anastasei, dativo com artigo: “na ressurreição”.
O substantivo anastasis vem de anistēmi, “levantar-se, pôr-se de pé”, e significa ao pé da letra “o levantar-se”. Não é palavra religiosa por natureza: no grego comum serve para alguém que se ergue de uma cadeira ou para uma população que se põe em marcha. O sentido técnico vem do uso.
Em Mateus a palavra aparece quatro vezes, e todas as quatro estão nesta única discussão: na apresentação dos saduceus, na pergunta deles, aqui e no versículo seguinte. O evangelho inteiro não a usa em nenhum outro lugar — para a ressurreição de Jesus, Mateus emprega outro termo.
οὔτε … οὔτε — oute … oute, “nem … nem”. Par correlativo que nega as duas coisas com igual força, sem subordinar uma à outra.
γαμοῦσιν — gamousin, presente do indicativo ativo, terceira pessoa do plural: “casam”, “tomam esposa”. O verbo é gameō, de gamos, “casamento, festa de casamento” — a mesma palavra que abre este capítulo, nas bodas do filho do rei. Na voz ativa e com sujeito masculino, o verbo designa o ato de quem toma a esposa.
ἐκγαμίζονται — ekgamizontai, presente do indicativo médio-passivo, terceira pessoa do plural: “são dadas em casamento”.
Há uma variante textual neste verbo. O Textus Receptus traz ἐκγαμίζονται, com o prefixo ek (“para fora”) — a imagem é a da filha dada para fora da casa do pai. As edições críticas, seguindo os manuscritos mais antigos, trazem γαμίζονται, sem o prefixo. O sentido é o mesmo; o prefixo apenas torna visível o movimento de saída. A ABC segue o Textus Receptus.
A voz passiva é o dado gramatical importante do versículo. O primeiro verbo é ativo, o segundo passivo, e essa assimetria reproduz a assimetria social: um toma, a outra é dada. Não se trata de descuido de estilo — Mateus poderia ter usado dois verbos ativos.
ἀλλ’ ὡς — all’ hōs, “mas como”. Alla é a adversativa forte, que substitui o que foi negado. Hōs é a partícula de comparação, “como, à maneira de”, e não um termo de identidade.
A diferença com Lucas está exatamente aqui. Lucas 20:36 usa o adjetivo ἰσάγγελοι — isangeloi, formado de isos (“igual”) e angelos (“anjo”): “iguais aos anjos”. É palavra raríssima, que no Novo Testamento aparece só ali. Mateus compara; Lucas iguala.
ἄγγελοι τοῦ Θεοῦ — angeloi tou Theou, “anjos de Deus”. Angelos significa “mensageiro”, e é o termo comum para o enviado humano antes de designar o ser celeste; o contexto decide qual dos dois.
O genitivo τοῦ Θεοῦ (“de Deus”) é uma das variantes conhecidas do versículo. Ele está no Textus Receptus, no texto bizantino e na tradução latina de Jerônimo; parte dos manuscritos antigos e boa parte das edições críticas o omitem, deixando apenas “anjos no céu”, como traz Marcos. A ABC, neste ponto, traduz sem o genitivo, embora siga o Textus Receptus no restante — a diferença de sentido é pequena, mas o acréscimo liga a frase à acusação do versículo anterior, onde o poder é “de Deus”.
ἐν οὐρανῷ — en ouranō, “no céu”, no singular. Mateus usa predominantemente o plural “céus”, por influência da forma hebraica; o singular aqui é a leitura do Textus Receptus, e parte dos manuscritos traz o plural.
A que a expressão se liga é uma questão aberta. Meyer a liga aos anjos — os anjos que estão no céu —, porque os ressuscitados, segundo ele, não são descritos como habitantes do céu nos mesmos termos. O Expositor’s Greek Testament a liga aos ressuscitados, que viveriam ali uma vida angélica. A ordem das palavras no grego não decide, e as duas leituras são gramaticalmente possíveis.
εἰσιν — eisin, presente do indicativo de eimi, “são”. O presente, num enunciado sobre o futuro, tem valor descritivo: enuncia uma condição, do modo como se diz “no mar não se respira”. A frase não data o acontecimento; descreve o regime.
11. Conclusão
O versículo é uma resposta que desmonta a pergunta em vez de resolvê-la, e disso decorrem quatro conclusões.
A primeira: a vida ressuscitada é descrita por diferença, não por continuidade. Quem perguntou supunha que o problema estava em distribuir a mulher entre sete maridos; a resposta diz que não há maridos a distribuir. A ordem seguinte não é esta com os defeitos corrigidos — é outra ordem.
A segunda: o que o texto nega é uma instituição, e só isso. Ele não nega corpo, não nega diferença entre as pessoas, não nega memória nem afeto, e não promete nada a respeito deles. Toda a dificuldade pastoral da frase vem de se querer ler nela, com sinal positivo ou negativo, uma resposta à pergunta sobre o reencontro — que ela não dá. Dizer isso ao leitor é mais honesto do que consolá-lo com o que não está escrito, e é também mais útil, porque o consolo falso não resiste à segunda leitura.
A terceira: a razão da ausência de casamento, quando Lucas a fornece, revela algo sobre o casamento nesta vida. Se a instituição termina porque ninguém mais morre, então ela esteve sempre amarrada à mortalidade — gerar quem substitua, dar nome a quem partiu, garantir que a família continue. Os saduceus escolheram, para atacar a ressurreição, a prática mais dependente da morte que a Lei conhecia.
A quarta: a comparação com os anjos foi feita a quem não acreditava neles, e portanto não foi feita para convencer os perguntadores. A cena tem plateia, e o versículo seguinte vai nomeá-la. Uma resposta pública raramente é um diálogo entre dois.
Resta o limite. O que se afirma aqui não é uma descrição do céu: é uma frase sobre o casamento, com uma comparação de alcance definido pelo assunto. Quem a transformou em doutrina sobre a natureza dos corpos ressuscitados fez uma extensão, e a extensão é antiga, influente e não está no texto.













