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Mateus 22:29

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✍️ Por Alberto Adriano·21 de outubro de 2026·⏱️ 28 min de leitura·👁 5 acessos
Jesus respondeu: “Vocês estão enganados porque não conhecem as Escrituras nem o poder de Deus.
Jesus, de pé num pátio do templo de Jerusalém, responde a um grupo de homens de vestes sacerdotais enquanto a multidão observa ao redor.

Estudo


Jesus respondeu: “Vocês estão enganados porque não conhecem as Escrituras nem o poder de Deus.

1. Introdução

A resposta de Jesus aos saduceus começa por um veredito, e não por um argumento. Antes de tocar no caso da mulher com sete maridos, ele diz que a pergunta nasceu de dois desconhecimentos — o das Escrituras e o do poder de Deus —, e os dois não são o mesmo erro. A ordem em que ele os nomeia não é a ordem em que vai responder: o poder vem tratado primeiro, no versículo seguinte, e as Escrituras depois, em Mateus 22:31-32. O tom também chama atenção, porque aos fariseus, catorze versículos antes, ele havia chamado de hipócritas, e a estes não chama de nada.

Este é o diagnóstico que organiza tudo o que vem depois, até o espanto das multidões.

2. Contexto Histórico e Cultural

A cena acontece num pátio aberto do templo, na semana da Páscoa, diante de gente que ia e vinha. Ensinar ali não era dar aula numa sala: era falar em praça pública, com adversários podendo intervir e com uma plateia que ficava para ver quem levava a melhor.

O formato da pergunta dos saduceus é o formato padrão da disputa entre escolas. Alguém monta um caso extremo, pede a aplicação da regra e espera que o adversário se enrosque. O caso dos sete irmãos é um exemplar perfeito desse gênero: construção retórica, não história de família.

O que o gênero exigia da resposta é o que explica a forma deste versículo. Numa disputa assim, não bastava refutar a conclusão do adversário: era preciso dizer onde o raciocínio dele tinha torcido. A réplica que apenas nega soa como teimosia; a réplica que nomeia a causa do engano vence a plateia. Jesus nomeia duas causas antes de apresentar uma só prova.

A quem ele diz que não conhece as Escrituras

Os saduceus vinham da aristocracia sacerdotal de Jerusalém, e o templo era a base deles — o perfil dos dois partidos está no estudo de Mateus 16:1. O detalhe que pesa aqui é material: os rolos da Lei ficavam sob a guarda do templo, a leitura pública era função sacerdotal, e os sacerdotes eram os profissionais do texto. Dizer a esse grupo que ele não conhece as Escrituras é dizer ao bibliotecário que ele não leu os livros da sua estante.

E conhecer as Escrituras, no primeiro século, significava uma coisa diferente do que significa hoje. Não havia índice, não havia numeração de versículos, e os rolos eram caros e pesados. O texto era conhecido de memória, por audição repetida, e um argumento se fazia puxando pela lembrança a passagem certa. Quem dominava esse arquivo tinha poder real na discussão. A acusação de Jesus, nesse ambiente, não é de analfabetismo: é de ter o arquivo inteiro na cabeça e não saber o que ele diz.

Errar tem lugar na Lei

A palavra que Jesus usa cai dentro de uma categoria jurídica conhecida. A Torá distingue o pecado cometido por engano daquele cometido de propósito. Para o primeiro, Levítico 4 prevê sacrifício, e Números 15:22-28 estende a provisão a toda a comunidade quando ela erra sem perceber. Para o segundo — o pecado praticado, na imagem do texto hebraico, com a mão levantada —, Números 15:30-31 não oferece reparação nenhuma.

Essa distinção estava no vocabulário de quem ouvia. Em hebraico o erro de inadvertência se chama shegagah (“engano”, “desvio por descuido” — o ato de quem errou sem querer). Colocar os saduceus do lado do engano, e não do lado da má-fé, é colocá-los do lado que a Lei considera remediável. Não é elogio, e também não é condenação: é a diferença entre estar perdido e estar mentindo.

Aos fariseus, no episódio do tributo, Jesus havia atribuído maldade e hipocrisia (Mateus 22:18). Aos saduceus, aqui, atribui desconhecimento. Ellicott observou essa diferença de tom e a ligou ao fato de que os saduceus diziam abertamente o que pensavam, em vez de fingir concordância. É leitura dele, não dado do texto — Mateus não explica a diferença.

“O Poder”, modo de dizer Deus

Falar do “poder de Deus” tinha, naquele meio, um peso que a tradução perde. Entre judeus do período, era hábito evitar o nome divino substituindo-o por um atributo, e “o Poder” chegou a funcionar como nome: no julgamento diante do sumo sacerdote, Jesus diz que o Filho do homem será visto “à direita do Poder” (Marcos 14:62), e ali a palavra está no lugar de “Deus”. Dizer que alguém não conhece o poder de Deus, portanto, beira dizer que ele não conhece Deus — e é a um grupo de sacerdotes que isso está sendo dito, dentro do próprio templo.

3. Análise Teológica do Versículo

“Jesus respondeu”

A resposta não começa pela pergunta. Os saduceus terminaram com uma questão prática — de qual dos sete ela será esposa —, e a primeira frase que recebem não trata da mulher, nem dos sete, nem da ressurreição. Trata deles.

A ordem importa. O veredito vem antes da prova: primeiro a sentença de que estão enganados, depois, em dois movimentos, o que sustenta a sentença. Uma resposta que começasse pelo argumento daria à pergunta o estatuto de questão legítima, à espera de solução. Começando pelo diagnóstico, a pergunta deixa de ser um problema a resolver e passa a ser um sintoma a explicar.

“Vocês estão enganados”

A forma do verbo descreve um estado, não um ato. Não é “vocês erraram”, como quem cometeu um equívoco num ponto; é “vocês estão em erro”, como quem anda fora do caminho e continua andando. A imagem de fundo é de deslocamento: o desgarrado não está parado no lugar errado, está se afastando.

E há uma ambiguidade real na forma grega, que a tradução precisa resolver e que o original deixa aberta. Ela pode significar “vocês se enganam” ou “vocês estão sendo enganados”. Se for a segunda, o texto não diz por quem — não nomeia mestre, escola nem adversário. A análise da forma está no item 10; o que decorre dela para a leitura é que a frase não distribui culpa, e quem quiser achar um culpado terá de trazê-lo de fora.

Marcos registra a mesma fala como pergunta: “Não é por isto que vocês se enganam?” (Marcos 12:24). Em Mateus é afirmação. A diferença é pequena e muda o gesto: a pergunta convida o adversário a reconhecer; a afirmação não espera concordância.

“porque não conhecem as Escrituras”

O “porque” transforma a frase inteira num raciocínio. A posição dos saduceus não é tratada como uma opinião entre outras, com a qual se pode discordar, e sim como um efeito, com causa identificável. Discutir a causa é mais radical do que discutir a conclusão.

“As Escrituras”, no plural, designa o conjunto dos livros sagrados. A palavra aparece em Mateus quatro vezes, e as outras três estão ligadas à morte de Jesus: “a pedra que os construtores rejeitaram” (Mateus 21:42), e depois, duas vezes na noite da prisão, o cumprimento do que estava escrito (Mateus 26:54, 56). Esta é a única ocorrência em que o assunto é o destino dos mortos em geral, e não o dele.

Gill entendeu que “as Escrituras” aqui cobre todo o Antigo Testamento, e o Pulpit Commentary (“Comentário do Púlpito”, obra coletiva inglesa do século XIX) entendeu que a autoridade em jogo é a Lei de Moisés, porque é dela que a resposta vai tirar a prova. A escolha entre as duas leituras depende de uma questão histórica em aberto, tratada no estudo de Mateus 22:31: até onde ia o conjunto de livros que os saduceus aceitavam.

“nem o poder de Deus”

Esta é a metade mais difícil da acusação, porque não é óbvio o que os saduceus negaram a respeito do poder de Deus. Eles não disseram que Deus é fraco. Não há registro de que tenham disputado a criação, o Mar Vermelho ou o maná. O que eles fizeram foi montar um caso em que a ressurreição produz um absurdo social — uma mulher com sete maridos ao mesmo tempo — e concluir que a ressurreição não existe.

O erro que Jesus lhes atribui está nesse passo. Para que o caso dos sete irmãos seja um problema, é preciso que a vida ressuscitada funcione com as mesmas regras desta: casamentos que continuam valendo, posse que continua disputada, parentesco que continua em vigor. O raciocínio deles supõe, sem dizer, que o poder de Deus pode devolver corpos e não pode mudar a ordem em que esses corpos vivem. Devolver mortos à vida é o maior dos prodígios; e eles imaginaram esse prodígio acontecendo dentro de um mundo em que nada mais mudou.

A palavra grega aqui é a mesma que, em Mateus, costuma nomear os atos de poder — os prodígios atribuídos a Jesus, e a vinda do Filho do homem com grande poder. No item 10 estão as ocorrências. Para a leitura do versículo, o ponto é que o termo não designa uma qualidade abstrata de Deus, mas a capacidade dele de fazer coisas que não estavam previstas.

Os dois erros não são um só

A segunda negação, “nem”, separa as causas em vez de somá-las. São duas ignorâncias distintas, e cada uma teria produzido a conclusão dos saduceus por caminho próprio.

Primeira ignorância: a do texto. Se o Antigo Testamento não disser nada sobre os mortos voltando, a ressurreição é invenção posterior. Essa é a metade que Mateus 22:31-32 vai responder, com uma citação.

Segunda ignorância: a do poder. Mesmo quem admita que o texto fala de ressurreição pode achar a coisa impossível, por não conseguir imaginar como seria. Essa é a metade que Mateus 22:30 vai responder, descrevendo a condição dos ressuscitados.

Meyer, comentarista alemão do século XIX, foi quem notou que as respostas vêm na ordem inversa da acusação: primeiro o poder, depois o texto. A frase monta um espelho — Escrituras e poder, poder e Escrituras —, e quem lê de corrido perde a correspondência. Não é possível decidir se a inversão é deliberada ou acidental, mas ela existe no texto.

Há ainda uma consequência que o versículo deixa implícita. Conhecer as Escrituras e conhecer o poder de Deus são apresentados como duas competências diferentes, e nenhuma das duas garante a outra. Pode-se ter o texto decorado e a imaginação fechada; pode-se admirar o poder divino e não saber onde ele está prometido. A posição dos saduceus, na descrição de Jesus, é o resultado de faltarem as duas ao mesmo tempo.

O que o versículo não diz

Mateus não escreve que os saduceus eram ímpios, nem que agiam de má-fé, nem que sabiam a verdade e a esconderam. Também não diz que eles nunca tinham lido a passagem que Jesus vai citar. A acusação é de não conhecer, e conhecer, nesta frase, é alguma coisa que sobrevive à leitura — o texto lido e não compreendido continua desconhecido.

E Mateus não registra resposta nenhuma dos saduceus, nem aqui nem depois. Quem se pronuncia, no fim da cena, são as multidões.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Os saduceus

Grupo ligado à aristocracia sacerdotal de Jerusalém, com base econômica e política no templo, e com um traço decisivo para esta cena: negavam a ressurreição dos mortos. Eram poucos, influentes, e desapareceram com a destruição do templo em 70 d.C.

Em Mateus eles aparecem poucas vezes: no aviso contra o fermento dos fariseus e dos saduceus, na exigência de um sinal, e aqui. Esta é a única passagem do evangelho em que há diálogo direto entre Jesus e eles.

Jesus, no papel de respondente

Na estrutura da semana no templo, Jesus está sendo interrogado em série: os chefes dos sacerdotes sobre a autoridade dele, os fariseus e herodianos sobre o tributo, os saduceus sobre a ressurreição, um especialista na lei sobre o maior mandamento. Em todas ele responde; na última ele é que pergunta. Este versículo abre a terceira dessas rodadas.

As Escrituras

No contexto, os livros sagrados de Israel: a Lei, os Profetas e os demais escritos, em rolos guardados no templo e nas sinagogas. Não existia ainda um volume único, nem uma lista fechada aceita por todos os grupos judaicos, e por isso a palavra, na boca de personagens do primeiro século, não tem contorno preciso.

O templo de Jerusalém

Palco de todo o capítulo. A construção de Herodes tinha pátios sucessivos, e o mais externo era aberto a qualquer pessoa, incluindo não judeus. Era nesses pátios que mestres ensinavam e eram interpelados, com público em volta — o que explica a presença das multidões no fim desta cena.

O caso dos sete irmãos

O exemplo que gerou a pergunta: uma mulher casada sucessivamente com sete irmãos, todos mortos sem filhos, e a dúvida sobre de quem ela seria esposa na ressurreição. A regra invocada é a do levirato, cuja origem e função têm estudo próprio em Gênesis 38:8. Nada no texto indica que o caso tenha acontecido: ele tem a forma de um problema de escola, feito para ser insolúvel.

5. Pontos de Ensino

Erro pode ser diagnosticado, e não só contestado

Quem discorda de uma conclusão tem duas opções: atacar a conclusão ou mostrar de onde ela veio. A primeira produz discussão sem fim, porque cada lado repete a sua tese. A segunda é mais arriscada, porque exige entender o adversário melhor do que ele se entende. Jesus toma a segunda.

Dominar o texto não é conhecê-lo

A acusação cai sobre especialistas, dentro da instituição que guardava os rolos. Isso desmonta de saída a ideia de que familiaridade com a Escritura e compreensão dela andam juntas. É possível citar com precisão e concluir ao contrário.

Há um erro que vem de imaginação curta

A segunda metade da acusação não é sobre informação, e sim sobre o que a pessoa consegue conceber. Os saduceus projetaram o mundo que conheciam sobre o mundo que negavam, acharam o resultado ridículo e concluíram contra o mundo que negavam. Esse movimento é frequente, e não exige má-fé nenhuma: basta tomar a própria experiência como medida do possível.

O engano não é tratado como crime

A palavra escolhida põe os saduceus na categoria de quem errou, não na de quem mentiu. Numa semana em que Jesus chama outros de hipócritas e de cegos, a escolha é notável. Reconhecer a diferença entre adversário equivocado e adversário desonesto é parte do ensino desta cena, e a diferença não é retórica: ela muda o que se pode esperar da conversa.

A pergunta errada não tem resposta certa

Se Jesus tivesse dito “ela será esposa do primeiro”, teria concedido tudo o que a pergunta supunha. A resposta útil, nesse caso, não é escolher entre as alternativas oferecidas: é mostrar que a lista de alternativas foi montada sobre um engano.

6. Aspectos Filosóficos

O versículo põe em cima da mesa um problema que a filosofia trata com nome próprio: de onde vem a certeza de que uma coisa é impossível.

Os saduceus não fizeram uma afirmação sobre textos apenas. Eles fizeram uma afirmação sobre o que pode e o que não pode ser o caso. O caminho do raciocínio foi este: se houvesse ressurreição, haveria uma mulher com sete maridos; isso é absurdo; logo não há ressurreição. O passo frágil está no meio. O absurdo apontado só existe se as regras do casamento continuarem valendo depois da morte, e essa continuidade é exatamente o que eles supuseram sem examinar.

A distinção escolástica entre dois poderes

A teologia medieval construiu um instrumento para tratar disso. Ela distinguiu o poder divino absoluto — tudo o que Deus poderia fazer, limitado apenas pela contradição — do poder divino ordenado, isto é, a ordem que ele de fato estabeleceu e dentro da qual o mundo funciona. A distinção servia para impedir dois excessos: o de dizer que Deus pode fazer qualquer coisa, inclusive o contraditório, e o de dizer que o mundo como é esgota o que ele pode.

O teste que ela oferece separa duas situações que os saduceus trataram como uma. “A mesma mulher é e não é esposa do mesmo homem” seria contradição, e nada a torna verdadeira. “Na ressurreição não há casamento, e por isso a pergunta não tem objeto” é apenas uma ordem diferente da conhecida. A resposta de Jesus, no versículo seguinte, vai pelo segundo caminho: ela não resolve o problema dos sete maridos, ela retira a premissa que o criava.

Amos Funkenstein e o que a onipotência autorizou pensar

Amos Funkenstein (1937-1995), historiador israelense das ideias e da ciência, dedicou um livro de 1986 — Teologia e imaginação científica — a rastrear o que essa distinção produziu nos séculos seguintes. A conclusão dele é inesperada: a doutrina do poder absoluto de Deus, que parece pura especulação de teólogo, foi um dos motores do pensamento moderno.

O raciocínio é este. Se a ordem do mundo é uma entre as que Deus poderia ter estabelecido, então perguntar “e se as coisas fossem de outro modo?” deixa de ser irreverência e passa a ser exercício legítimo. Os escolásticos começaram a construir situações imaginárias — e se não houvesse resistência do ar, e se o vazio existisse, e se a terra se movesse — justamente para testar o que era necessário e o que era apenas habitual. Funkenstein mostra que esse hábito de imaginar ordens alternativas, nascido de uma discussão sobre Deus, é o mesmo que a física moderna adotaria como método.

Posto ao lado deste versículo, o resultado é claro. A posição que os saduceus tomaram é a oposta: eles trataram a ordem existente como medida do possível, e por isso acharam que tinham refutado uma doutrina quando apenas tinham constatado que ela não cabe nas regras conhecidas. A acusação de não conhecer o poder de Deus descreve essa confusão com exatidão.

O limite da aproximação deve ser dito. Funkenstein é historiador e descreve um desenvolvimento medieval e moderno, séculos posteriores a esta cena; a distinção entre os dois poderes não está no texto, nem Jesus a formula. O que o versículo contém é o erro que a distinção, muito depois, serviria para diagnosticar.

O limite da conceptibilidade como limite do real

Há aqui uma tese filosófica de alcance largo, e ela se enuncia assim: do fato de eu não conseguir imaginar como algo seria não se segue que ele não possa ser. A inferência contrária é tentadora porque a imaginação se apresenta como se fosse o mapa do possível, quando é apenas o mapa do que já foi visto.

Marcar o limite oposto é igualmente necessário, para que o argumento não se torne uma licença. Dizer “Deus pode tudo” não é resposta a nenhuma pergunta determinada, e serve com a mesma facilidade para afirmar e para negar qualquer coisa. O que Jesus faz no versículo seguinte não é invocar a onipotência em abstrato: é dizer, em termos concretos, qual é a ordem da vida ressuscitada. A referência ao poder de Deus, neste versículo, abre o espaço; o conteúdo vem depois, e sem o conteúdo seria retórica.

Conhecer um texto e conhecer uma capacidade

A frase junta dois objetos de conhecimento muito diferentes. Um texto se conhece lendo, comparando, lembrando — é conhecimento de algo dado, que está ali e pode ser conferido. Uma capacidade não se conhece assim: ninguém verifica o que uma potência pode fazer examinando o que ela já fez, porque o que ela já fez é apenas uma amostra. A segunda metade da acusação, portanto, cobra um tipo de saber que não se obtém por acumulação de dados — e é por isso que a ignorância dela pode conviver com erudição perfeita.

7. Aplicações Práticas

Antes de responder, examine a pergunta

Boa parte das perguntas que chegam prontas trazem embutida uma suposição que ninguém declarou. “Se Deus é bom, por que isto?”, “se há vida depois da morte, então quem é de quem?” — em casos assim, escolher entre as respostas oferecidas é aceitar a suposição. Vale perguntar antes: o que esta pergunta precisa que seja verdade para fazer sentido? Às vezes a dificuldade inteira está ali, e não na resposta.

Desconfie do absurdo construído com peças daqui

O método dos saduceus é fácil de repetir. Pega-se uma afirmação sobre o que não se conhece, aplicam-se a ela as regras do que se conhece, obtém-se um resultado ridículo e conclui-se contra a afirmação. O ridículo, nesses casos, costuma vir das regras importadas, e não da afirmação testada. Isso vale para discussões sobre o que vem depois da morte e vale também, em escala menor, para qualquer plano, lugar ou pessoa que a gente ainda não conhece: o cenário que imaginamos é feito do material que temos.

Saber de cor não é entender

Quem tem o hábito de ler a Bíblia está exposto a um risco específico: a familiaridade produz a sensação de compreensão. O texto decorado deixa de ser lido, porque a lembrança responde antes da leitura. A acusação deste versículo foi feita a profissionais do texto, e é a eles que ela continua servindo de aviso — não aos que leem pouco.

Separe o adversário equivocado do desonesto

Há uma diferença prática entre as duas coisas. Com quem está enganado, vale argumentar, mostrar, apresentar o que ele não leu. Com quem não quer saber, o mesmo esforço é desperdiçado. Jesus trata os dois grupos desta semana de modos diferentes, e o leitor que trata todo discordante como inimigo perde essa distinção. Não se trata de ingenuidade: trata-se de identificar com que tipo de interlocutor se está falando antes de escolher o modo de falar.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Se os saduceus negavam a ressurreição, por que fizeram uma pergunta sobre ela?

Porque a pergunta não busca informação. Ela é um instrumento: se a ressurreição produz um caso sem solução, a doutrina fica desacreditada, e com ela o grupo que a defendia. O alvo imediato é Jesus; o alvo de fundo é a posição dos fariseus, que criam na ressurreição. Montar o problema não exige acreditar nele.

Em que sentido eles “não conheciam” as Escrituras, se eram sacerdotes?

Conhecer, nesta frase, não é ter lido nem ter memorizado. Os dois versículos seguintes mostram o tipo de desconhecimento em causa: eles não tiraram do texto o que o texto permitia tirar. A acusação é de leitura que não chega à consequência, e esse tipo de desconhecimento é compatível com qualquer grau de erudição.

Jesus responde às duas acusações ou só a uma?

Às duas, em movimentos separados e na ordem inversa da que anuncia. A ignorância do poder é tratada em Mateus 22:30, pela descrição da vida ressuscitada; a ignorância das Escrituras, em Mateus 22:31-32, pela citação. Quem lê o versículo isolado não percebe que ele é o índice de uma resposta em duas partes.

Por que Jesus não chama os saduceus de hipócritas, como chamou os fariseus?

Mateus não explica. O que o texto permite observar é que a palavra escolhida aqui descreve engano, e não simulação, e que no mesmo capítulo a outra palavra é usada contra outro grupo. Alguns comentaristas, Ellicott entre eles, atribuem a diferença ao fato de que os saduceus sustentavam as suas posições abertamente. É uma leitura razoável e não é demonstrável pelo texto.

Se o engano é involuntário, os saduceus são culpados de algo?

A categoria em que a palavra os coloca é a do erro, que na Lei admite reparação. Isso não os absolve: a Lei prevê sacrifício para o pecado por engano justamente porque o considera pecado. O que a escolha de palavras faz é indicar que a conversa ainda estava aberta — e o evangelho não registra que eles tenham aproveitado a abertura.

Esta frase serve para qualquer discussão religiosa?

A tentação de usá-la como arma genérica é grande, e o resultado é ruim. Quem diz “você não conhece as Escrituras nem o poder de Deus” a qualquer discordante está apenas chamando o outro de ignorante com palavras bíblicas. No episódio, a acusação vem seguida de duas demonstrações concretas, e é isso que a torna argumento em vez de insulto.

O que exatamente eles supunham sobre o poder de Deus?

Nada que tenham dito. A suposição é inferida do caso que montaram: um mundo ressuscitado com as mesmas regras deste. Jesus lhes atribui essa premissa, e o texto não registra que eles a tenham reconhecido como sua. Permanece em aberto se eles a sustentariam, caso lhes fosse apresentada desse modo.

9. Conexão com Outros Textos

A mesma fórmula de reprovação, contra outros alvos

Mateus 22:18 — “Mas Jesus, percebendo a maldade deles, disse: ‘Por que vocês me testam, hipócritas?’”

Catorze versículos antes, no mesmo pátio e no mesmo dia, a réplica a outro grupo. Ali a acusação é de má intenção; aqui, de desconhecimento.

Marcos 12:24 — “Jesus, respondendo, disse-lhes: Porventura não errais nisto, por não conhecerdes as Escrituras nem o poder de Deus?”

A mesma fala em forma de pergunta. A diferença de gesto entre as duas versões está comentada no item 3.

O que Mateus chama de “as Escrituras”

Mateus 21:42 — “Disse-lhes Jesus: ‘Vocês nunca leram nas Escrituras: A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular; isto foi feito pelo SENHOR, e é maravilhoso aos nossos olhos?’”

Mateus 26:54 — “Como, então, se cumpririam as Escrituras que dizem que assim é necessário acontecer?”

Mateus 26:56 — “Mas tudo isto aconteceu para que se cumprissem as Escrituras dos profetas.”

As outras três ocorrências do plural no evangelho. Nas três o assunto é o destino de Jesus; nesta, o destino dos mortos.

O poder de Deus em ação, no mesmo evangelho

Mateus 19:26 — “Jesus olhou para eles e disse: ‘Para os homens isto é impossível, mas para Deus tudo é possível.’”

A formulação mais direta do que falta aos saduceus. A frase aparece ali a propósito de salvação, não de ressurreição, e o princípio é o mesmo.

Mateus 26:64 — “Jesus lhe respondeu: ‘Você o disse. Mas eu lhes digo que, de agora em diante, verão o Filho do homem sentado à direita do Poderoso e vindo sobre as nuvens do céu.’”

Aqui o nome de Deus é substituído por um atributo, uso explicado no item 2.

O erro e o engano na Lei

Levítico 4:2 — “Quando alguém pecar por engano contra qualquer dos mandamentos do SENHOR, fazendo o que não se deve fazer…”

Números 15:30 — “Mas a pessoa que fizer algo com a mão levantada, seja natural ou estrangeira, essa ultraja o SENHOR; será eliminada do meio do seu povo.”

Os dois polos da distinção que a palavra de Jesus convoca: o pecado por engano, com reparação prevista, e o pecado deliberado, sem ela.

1 Coríntios 15:35-36 — “Mas alguém dirá: Como ressuscitam os mortos? E com que corpo vêm? Insensato! O que você semeia não é vivificado se primeiro não morrer.”

A mesma objeção, feita décadas depois dentro de uma igreja, e respondida também por mudança de regras: a semente não volta como semente.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Jesus respondeu: “Vocês estão enganados porque não conhecem as Escrituras nem o poder de Deus.

Texto grego (Textus Receptus)

ἀποκριθεὶς δὲ ὁ Ἰησοῦς εἶπεν αὐτοῖς, Πλανᾶσθε, μὴ εἰδότες τὰς γραφὰς μηδὲ τὴν δύναμιν τοῦ Θεοῦ.

Transliteração

apokritheis de ho Iēsous eipen autois, Planasthe, mē eidotes tas graphas mēde tēn dynamin tou Theou.

Análise palavra por palavra

ἀποκριθεὶς δὲ ὁ Ἰησοῦς εἶπεν αὐτοῖς — apokritheis de ho Iēsous eipen autois, “e Jesus, respondendo, disse-lhes”. O particípio aoristo seguido do verbo no aoristo é a fórmula narrativa padrão de Mateus para introduzir fala. O dativo autois (“a eles”) mantém os saduceus como destinatários diretos, sem repetir o nome do grupo.

Πλανᾶσθε — planasthe, segunda pessoa do plural do presente do indicativo, voz média ou passiva: “vocês estão enganados”, “vocês andam errantes”.

A forma é ambígua por natureza, porque no presente a média e a passiva do verbo grego têm a mesma terminação. Lida como média: “vocês se enganam”, com a ação partindo deles mesmos. Lida como passiva: “vocês estão sendo enganados”, com um agente que o texto não nomeia. As traduções escolhem, e o grego não obriga a escolher. A maioria das versões portuguesas adota a leitura passiva no sentido de estado — “estais enganados” —, que é a mais neutra das três possibilidades.

O tempo presente descreve situação em curso, e não ato concluído. Não é “vocês erraram ao formular a pergunta”, e sim “vocês estão em erro”, com a pergunta como sintoma.

O verbo é planaō, cujo campo de sentido — desviar-se do caminho, andar sem rumo, ser induzido ao engano — tem tratamento detalhado no item 10 do estudo de Mateus 18:12, onde ele descreve a ovelha desgarrada. Em Mateus, o uso moral reaparece nas advertências sobre os que enganarão muitos (Mateus 24:4-5, 11, 24): ali o verbo está na ativa, com agentes nomeados; aqui, sem agente.

μὴ εἰδότες — mē eidotes, particípio perfeito ativo no nominativo plural, com a negação: “não conhecendo”, “por não conhecerem”.

O particípio indica a causa do que foi dito antes, e é isso que a tradução por “porque não conhecem” torna explícito. A negação com mē, e não com ou, é a esperada em particípio desse tipo.

O verbo é oida, que existe só em formas de perfeito e significa “saber”, “ter conhecimento de”. Ele difere do outro verbo grego de conhecer, ginōskō, que indica o processo de vir a saber: oida nomeia o resultado, o saber instalado. A distinção não é rígida no grego do Novo Testamento, e aqui ela serve ao argumento: o que falta aos saduceus não é um dado que lhes passou, é um saber que eles não possuem.

τὰς γραφὰς — tas graphas, acusativo plural com artigo: “as Escrituras”.

O substantivo graphē significa, ao pé da letra, “escrito”, e vem do verbo graphō, “escrever”. No singular designa uma passagem determinada; no plural com artigo, como aqui, designa o conjunto dos livros sagrados. Mateus usa o plural quatro vezes — nesta e em Mateus 21:42; 26:54; 26:56 — e o singular nenhuma.

O que o termo abrangia na boca dos personagens é questão histórica, não gramatical: a palavra não traz dentro de si uma lista de livros.

μηδὲ — mēde, “nem”, “e tampouco”. A partícula encadeia uma segunda negação dentro da mesma construção negativa. Ela separa os dois objetos em vez de fundi-los: o texto não diz “não conhecem as Escrituras e o poder”, como se fosse um conhecimento só, e sim “não conhecem as Escrituras nem o poder”, como duas faltas.

τὴν δύναμιν τοῦ Θεοῦ — tēn dynamin tou Theou, “o poder de Deus”.

Dynamis é a capacidade de fazer, a força eficaz, e dela vem o adjetivo dynatos, “capaz, possível”. A palavra está na raiz do português “dínamo” e de “dinâmica”. No plural, no grego dos evangelhos, ela designa os próprios atos de poder — é o termo por trás de “prodígios” em várias passagens (Mateus 7:22; 11:20-21; 13:54; 13:58).

Em Mateus, a palavra aparece doze vezes, e três usos interessam a este versículo. Em Mateus 13:58, Jesus não realiza muitos atos de poder em Nazaré “por causa da incredulidade deles”, e o termo é o mesmo: ali a falta de fé limita a manifestação do poder; aqui a falta de conhecimento do poder produz uma conclusão errada. Em Mateus 24:30 e 26:64, a palavra qualifica a vinda do Filho do homem — e, na segunda, ela ocupa o lugar do nome de Deus.

O genitivo tou Theou (“de Deus”) é de origem: o poder é aquele que vem de Deus e lhe pertence. A construção não aparece em nenhum outro lugar de Mateus.

Uma nota textual

O versículo não tem variantes de peso entre o Textus Receptus e as edições críticas: as duas tradições trazem as mesmas palavras, na mesma ordem. O que varia é a pontuação que os editores escolhem — algumas edições fecham a frase com ponto, outras com exclamação —, e isso não altera o sentido. A diferença real está entre os evangelhos: a mesma fala, em Marcos 12:24, é construída como pergunta, com a partícula interrogativa que Mateus não tem. A ABC segue o Textus Receptus de Mateus, com a afirmação.

11. Conclusão

Da resposta que Jesus dá aos saduceus antes de qualquer argumento, três conclusões se impõem.

A primeira é sobre o lugar do erro. A posição dos saduceus não é tratada como tese a refutar, e sim como efeito a explicar. Isso desloca a discussão: enquanto se discute se há ressurreição, discute-se dentro da pergunta deles; dizendo de onde vem a pergunta, a discussão muda de terreno. Uma pergunta construída sobre premissa falsa não tem resposta certa entre as alternativas que oferece.

A segunda é sobre o que falta a quem conhece o texto por profissão. As duas ignorâncias nomeadas são de tipos diferentes, e nenhuma protege da outra. Uma se cura com leitura; a outra, não — porque nenhuma quantidade de informação diz a uma pessoa o que uma potência é capaz de fazer. Os saduceus tinham os rolos sob a própria guarda, e é a eles que a frase é dirigida. A erudição, por isso, não imuniza contra o engano que este versículo nomeia; em certos casos, ela o alimenta, porque dá à pessoa a sensação de já ter visto tudo o que havia para ver.

A terceira é sobre a medida que se usa para julgar o impossível. Quando alguém declara absurda uma afirmação sobre o que não conhece, costuma estar aplicando a ela as regras do que conhece. O absurdo resultante é produto das regras importadas. Reconhecer isso não obriga ninguém a aceitar toda afirmação extraordinária — obriga apenas a distinguir entre o que é contraditório e o que é só estranho, e a não confundir o limite da própria imaginação com o limite do que pode existir.

Resta o que o versículo não conclui. Ele não condena os saduceus, não os chama de desonestos e não encerra a conversa: anuncia duas demonstrações, e sem elas seria apenas uma acusação. É por isso que a frase não funciona como arma solta em discussão religiosa — ela vale pelo que vem depois dela.

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Mateus 22:29

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