Na ressurreição, então, de qual dos sete ela será esposa? Pois todos foram casados com ela.”
1. Introdução
A pergunta chega com um "então": tudo o que veio antes eram premissas, e agora vem a conclusão que se extrai delas.
O que se pergunta não é o que será dela, e sim de quem ela será. O verbo está no futuro, e é esse futuro que carrega a suposição de que os vínculos desta vida continuam valendo na próxima.
A segunda frase não é um reforço: é uma trava. A tradição judaica tinha uma saída disponível — dar preferência ao primeiro marido —, e "todos foram casados com ela" existe para fechá-la.
Bengel notou o essencial: qualquer resposta falha, porque nenhum dos sete tem título melhor. E a resposta que vem no versículo seguinte não escolhe nenhum dos lados oferecidos.
2. Contexto Histórico e Cultural
O que se imaginava que fosse a vida ressuscitada
A pergunta só tem força se o ouvinte supuser que a ressurreição devolve as pessoas ao mundo como ele é. E era mais ou menos isso que se supunha.
Os textos judaicos daquele período que descrevem a vida futura a descrevem em termos concretos. O primeiro livro de Enoque, de tradição anterior a Cristo, imagina para os justos uma terra restaurada, com colheitas abundantes e descendência numerosa — em 10:17, promete que cada um gerará mil filhos e viverá mil anos. Não há ali nada de incorpóreo: há mais vida, mais tempo, mais filhos.
Essa expectativa tem lógica própria dentro daquela religião. Se o que se perdeu com a morte foi a terra, a casa, os filhos e os anos, a reparação consiste em devolvê-los. Uma vida futura sem casamento e sem descendência não pareceria uma promessa — pareceria uma perda a mais.
A pergunta "em que forma eles viverão?"
Um texto judaico de poucas décadas depois desta cena faz, com todas as letras, a pergunta que os saduceus estão fazendo.
É o livro conhecido como segundo Baruque, conservado em siríaco e escrito provavelmente no fim do primeiro século, pouco depois da destruição do templo. Nos capítulos 49 a 51, o autor interroga Deus sobre a ressurreição e quer saber em que forma viverão os que viverem naquele dia — se com a aparência que tinham, se transformados.
A resposta vem em duas etapas. Primeiro, a terra devolve os mortos como os recebeu, sem mudança de forma, para que possam ser reconhecidos. Depois vem a transformação: os justos ficam mais esplêndidos, o corpo deles é descrito como incorruptível e deixa de ser visível aos olhos mortais, enquanto os ímpios se tornam piores do que eram.
O valor desse paralelo é de contexto, não de dependência: o livro é posterior, ninguém sustenta que os saduceus o conhecessem, e a ABC não o toma como autoridade. O que ele mostra é que a pergunta sobre a forma da vida ressuscitada era corrente, e formulada de modo semelhante por quem acreditava na ressurreição e por quem a negava. Os saduceus não inventaram a dúvida: levaram ao extremo uma que estava no ar.
A discussão rabínica sobre o que haverá no mundo vindouro
Séculos depois, os rabinos trataram do mesmo problema e chegaram a uma resposta próxima da de Jesus.
O Talmude Babilônico, no tratado Berakhot, folha 17a, traz uma afirmação atribuída a Rav: no mundo vindouro não há comer, nem beber, nem geração de filhos, nem negócio, nem inveja, nem ódio, nem competição — os justos sentam-se com coroas, gozando do resplendor divino.
Essa frase foi objeto de longa disputa interpretativa. Maimônides a leu como descrição do mundo das almas, sem corpo; a maioria das autoridades posteriores entendeu que, mesmo depois da ressurreição, quando as almas voltarem a ter corpo, não haverá comer nem beber.
A data pede a cautela de sempre. O Talmude é muitos séculos posterior a esta conversa, e não se pode usá-lo para reconstituir o que se pensava no pátio do templo. O que ele documenta é que a questão levantada pelos saduceus continuou viva dentro do judaísmo, e que a solução encontrada ali — retirar da vida futura as funções desta vida — é da mesma família da que Jesus dá no versículo 30.
A resposta que já existia, e que a segunda frase fecha
Havia, na tradição, uma saída para o enigma: dar preferência ao primeiro marido.
O Expositor's Greek Testament ("Testamento Grego do Expositor", comentário inglês do início do século XX) registra que leituras talmúdicas de teor materialista atribuíam prioridade ao primeiro. O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) menciona a mesma posição e acrescenta que ela não era largamente aceita.
A razão para preferir o primeiro é compreensível. Só ele casou por escolha; os outros seis entraram por obrigação legal, cumprindo um dever. Se se pudesse distinguir o casamento voluntário dos casamentos por dever, a pergunta teria resposta imediata.
É exatamente essa distinção que a última frase do versículo apaga. "Todos foram casados com ela" põe os sete no mesmo plano, e a saída se fecha. Quem construiu o caso conhecia a objeção que ia receber.
3. Análise Teológica do Versículo
"Na ressurreição, então"
O "então" é a palavra que transforma quatro versículos de história em um argumento.
Até aqui havia uma lei citada, sete irmãos, sete mortes e um enterro. Nenhuma tese. Com esta partícula, tudo o que foi dito passa a funcionar como premissa, e o que vem em seguida é apresentado como consequência necessária: dado isto, pergunta-se aquilo. Quem monta um caso com cuidado deixa a conclusão para o fim, e marca a passagem.
A expressão "na ressurreição" é a mesma que o versículo 23 usou para nomear o que eles negam, e eles a empregam sem reserva. Não dizem "nessa suposta ressurreição em que vocês creem": dizem "na ressurreição", como se a aceitassem por um momento. É procedimento de debate — concede-se a tese do adversário para mostrar que ela produz absurdo. A resposta, no versículo 30, vai usar a mesma expressão de volta, e aí sem concessão nenhuma.
No grego, a ordem das palavras desta frase é incomum no Textus Receptus, que separa o artigo do substantivo com a partícula no meio. O detalhe fica no item 10.
"de qual dos sete"
A pergunta é sobre os sete, e não sobre ela.
Note a construção: pede-se que se identifique, entre sete homens, o titular de um vínculo. A mulher aparece como o objeto desse vínculo, exatamente como aparecera nos versículos anteriores. Em cinco versículos, a única frase em que ela é sujeito de um verbo é a do versículo 27, em que morre.
E a pergunta que não se faz é a que qualquer pessoa faria no lugar dela. Não se pergunta se ela se levantará, nem o que será dela, nem se ela escolheria algum. Pergunta-se de quem ela será — questão de titularidade, do tipo que se faz a respeito de um bem com vários pretendentes.
O limite precisa ficar marcado: isso é o modo como aqueles homens formularam o caso, e não uma tese de Mateus nem de Jesus. Mateus registra a pergunta sem comentar. O dado do texto, e não do comentarista, é este: a resposta do versículo 30 não escolhe nenhum dos sete, e com isso retira a mulher da posição de objeto disputado.
"ela será esposa"
O verbo está no futuro, e é nele que a armadilha está montada.
"Será" dá por certo que, depois da ressurreição, há estados civis em vigor. Não se pergunta de quem ela foi esposa, o que teria resposta fácil e sete partes; pergunta-se de quem ela será. E essa afirmação, de que o argumento inteiro depende, não é enunciada em momento nenhum — a lógica desse tipo de pergunta está tratada no estudo de Mateus 22:17.
Há um detalhe de construção que reforça isso. Em grego, a palavra "esposa" aparece aqui sem artigo, funcionando como predicado: não "a esposa de qual dos sete", mas "esposa de qual dos sete". A diferença é de gramática e tem efeito de sentido — o que se atribui é uma posição, um papel, e não a identificação de uma pessoa determinada. Pergunta-se qual dos sete ocupará a função de marido dela.
"Pois todos foram casados com ela"
A última frase não repete o que já se sabia: ela fecha a porta que a tradição mantinha aberta.
Como o item 2 descreve, havia quem sustentasse que o primeiro marido tinha preferência, por ter sido o único a casar por escolha. A frase apaga essa diferença e põe os sete no mesmo plano — todos casaram, todos legitimamente, todos sem filhos. Nenhum tem título melhor que outro.
O verbo grego, aqui, é o de ter, e a construção é dura. "Todos a tiveram" é a tradução ao pé da letra, e é a mesma expressão que Mateus põe na boca de João Batista a respeito de Herodes e Herodias, em Mateus 14:4: "não é permitido que você a tenha". São as duas únicas vezes em que o evangelho usa esse verbo com uma mulher como objeto, e na outra o que se discute é um casamento ilícito.
A aproximação não deve ser forçada. O verbo era o modo corrente de dizer "ter por mulher", e não carrega, por si, nenhuma conotação de posse abusiva — em 1 Coríntios 7:2, Paulo o usa para o casamento normal. O que se pode afirmar é que a expressão, em português, soa mais crua do que o grego exige, e que a frase põe sete homens como sujeitos do verbo e uma mulher como objeto, sete vezes.
Por que a pergunta não tem resposta dentro dos termos dela
Olhe as respostas disponíveis e veja como todas falham.
Dizer "ela será esposa do primeiro" exige um critério de preferência, e a última frase do versículo acabou de retirá-lo. Dizer "de todos os sete" produz justamente o escândalo que os saduceus querem, porque a lei de Moisés não admitia pluralidade de maridos. Dizer "de nenhum" parece negar a ressurreição, já que uma vida em que o que havia se perdeu não é restauração.
Bengel (Johann Albrecht Bengel, comentarista alemão do século XVIII) resume a situação com precisão: qualquer resposta falha, seja a de que ela pertence a todos, seja a de que pertence a um, porque nenhum tem direito superior. E observa o que Jesus faz: responde que ela não é de nenhum.
A resposta de Mateus 22:30 não é nenhuma das três, e o que ela faz com o enunciado está tratado no estudo daquele versículo. Para este, basta o que decorre da simetria: havendo sete títulos iguais, qualquer escolha seria arbitrária, e o caso foi escrito para que fosse.
Permanece em aberto se os saduceus previam uma saída fora da lista. O texto não diz, e os comentaristas antigos presumem que não: o Pulpit Commentary e Gill descrevem o caso como armado para que toda resposta fosse ridícula, o que supõe que eles contavam com três saídas apenas.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Os sete, agora como pretendentes
Nos versículos anteriores, os sete irmãos eram cumpridores de um dever. Nesta frase, viram candidatos a um título.
A mudança de papel é produzida pela própria pergunta. "De qual dos sete" põe os sete em concorrência, como partes de uma disputa — e é uma concorrência que, em vida, nunca existiu: cada um casou depois que o anterior morreu, sem rivalidade possível. A competição entre eles é criada pela ressurreição imaginada, em que todos reaparecem ao mesmo tempo.
Nenhum deles tem nome, e nenhum ganhou nada com o cumprimento da lei.
A mulher, como objeto da pergunta
Ela está morta desde o versículo anterior, e é sobre o seu estado civil futuro que se discute.
A frase não lhe atribui vontade, não cogita preferência, não pergunta o que ela diria. Isso é próprio do gênero do caso jurídico, em que todos os personagens são tipos; o efeito, porém, é que a única pessoa que atravessou os sete casamentos chega ao fim do relato como o item sobre o qual sete homens têm pretensão igual.
O que a resposta de Jesus faz com essa posição aparece no versículo 30 e não precisa ser antecipado aqui: basta registrar que a frase "não se casam nem são dados em casamento" é a única do episódio que a retira de onde o caso a colocou.
Quem está sendo interrogado
A pergunta é dirigida a um mestre galileu, em público, por membros da aristocracia do templo, no terreno deles.
Isso define o tipo de resposta que seria aceitável. Numa sala de estudo, caberia dizer "a questão é difícil e os mestres divergem". No pátio do templo, diante de peregrinos, uma resposta assim seria derrota. Quem pergunta conta com isso: o cenário público é parte do dispositivo.
Quem está ouvindo
A multidão, que o versículo 33 mencionará, e os fariseus, que estão por perto e voltarão no versículo 34.
A plateia importa para entender a cena. Os fariseus criam na ressurreição e sustentavam, como mostra o item 2, respostas do tipo que a última frase do versículo acabou de inviabilizar. Quando a pergunta é feita, portanto, ela atinge dois alvos ao mesmo tempo: o mestre que está sendo interrogado e o partido rival que escuta.
O versículo 33 registra o efeito: as multidões ficaram admiradas com o ensino. O público percebeu que havia recebido algo mais do que um desempate.
5. Pontos de Ensino
Uma estipulação pode fabricar o enigma
"Todos foram casados com ela" não é um fato observado: é uma cláusula acrescentada para que nenhuma resposta seja possível.
Retirada ela, o caso tem saída — a tradição dava preferência ao primeiro marido, o único que casou por escolha. O difícil não estava no mundo; estava na redação do enunciado. É o tipo de coisa que se aprende a procurar: diante de um problema que parece insolúvel, verificar quais das suas condições foram observadas e quais foram postas ali.
A pergunta errada esconde a pergunta certa
Pergunta-se de quem ela será; não se pergunta o que será dela.
A troca é sutil e muda tudo. Questões de titularidade são mais fáceis de formular do que questões sobre pessoas, e por isso costumam ocupar o lugar delas. Preste atenção nisso em velórios, em inventários, em disputas de família e em debates públicos: quando a conversa inteira gira em volta de "a quem pertence", convém verificar se alguém ainda está perguntando pela pessoa.
Expectativas sobre o céu dizem mais sobre aqui
O caso dos sete irmãos supõe que a vida ressuscitada é esta vida continuada — com casamentos, posse e títulos.
Essa é a suposição natural, e é a que os textos judaicos do período em geral fazem, como o item 2 mostra. Reconhecê-la ajuda a ler o próprio desejo: quando alguém imagina a vida eterna, costuma imaginar o que lhe falta ou o que teme perder. A resposta que vem no versículo seguinte frustra essa expectativa de propósito, e a ABC não ameniza isso.
Quem monta uma armadilha estuda as saídas
A frase "todos foram casados com ela" existe para fechar uma resposta que já circulava.
Isso diz algo sobre o adversário: ele conhecia a posição contrária bem o bastante para prever a defesa e bloqueá-la antes. Em qualquer disputa séria, é o sinal de que não se está diante de improviso. E a lição vale nos dois sentidos — quem vai defender uma tese faz bem em descobrir qual das suas saídas o outro já previu.
6. Aspectos Filosóficos
Um caso inventado prova alguma coisa?
Os saduceus não trouxeram um fato: trouxeram uma construção. Sete irmãos, todos sem filhos, na ordem, todos casados com a mesma mulher, todos mortos, ela morta por último. E a partir dessa construção pedem um veredito sobre a ressurreição.
A pergunta que isso levanta não é se o caso é verossímil — é se ele tem força de prova. Um cenário imaginado pode refutar uma doutrina? A anatomia desse instrumento está examinada no estudo de Mateus 22:25; aqui o assunto é outro, e mais severo: o que ele é capaz de demonstrar.
Quem levou essa objeção mais longe foi Kathleen Wilkes, filósofa inglesa que trabalhou em Oxford, no livro Pessoas Reais (1988), cujo subtítulo anuncia o programa: identidade pessoal sem experimentos de pensamento.
A acusação de Wilkes
Ela escrevia contra uma prática estabelecida na filosofia da mente, que discutia o que somos por meio de histórias inventadas — transplantes de cérebro, duplicações, trocas de corpo, divisões de pessoas ao meio. A tese dela é que essas histórias não provam nada, e por três razões.
A primeira é a descrição insuficiente. Um cenário imaginado nunca é especificado o bastante para ser avaliado, e os buracos são preenchidos pelo leitor — com aquilo que ele já estava inclinado a pensar. Quando se pergunta "o que diríamos nesse caso?", a resposta vem do que já se dizia antes, e não do caso.
A segunda é a falta de teoria que governe a situação. Um experimento de pensamento funciona em física porque existe uma teoria que diz o que aconteceria: imagine-se o que se imaginar, as equações restringem o resultado. Para pessoas, não há teoria assim. Sem ela, nada limita o cenário, e a intuição que ele produz é efeito da narração, não descoberta sobre o assunto.
A terceira é um contraste. Para Wilkes, os casos reais são mais estranhos do que os inventados e vêm com fatos: pacientes com o corpo caloso seccionado, amnésias profundas, demências, estados de personalidade alternada. O programa dela é fazer filosofia da identidade pessoal com gente real.
O caso dos sete irmãos medido por essa régua
As três objeções se aplicam, e a segunda é devastadora.
Sobre a descrição insuficiente: o caso não diz nada sobre o que é a ressurreição. Não informa se os ressurretos têm corpo, se há terra, se há lei, se há tempo, se há posse. Pede um veredito sobre um estado de coisas cuja natureza ninguém especificou — e o ouvinte preenche o vazio com a única imagem que tem, que é a desta vida.
Sobre a falta de teoria: aqui está o ponto. Os saduceus não têm doutrina da ressurreição, porque a negam. Logo, não fornecem nenhuma descrição do estado em que o casamento supostamente valeria. Eles tomam de empréstimo a expectativa popular — aquela que o item 2 documenta, de uma vida futura que devolve a terra, a casa e os filhos — e mostram que ela produz absurdo. O que o caso refuta, portanto, é a imagem que o próprio caso importou.
Sobre a construção que fabrica a perplexidade: a frase "todos foram casados com ela" é o exemplo mais limpo do que Wilkes critica. Não é um dado observado; é uma estipulação acrescentada para que nenhuma resposta seja possível. Retirada ela, a tradição tinha saída — a prioridade do primeiro marido. O enigma não foi encontrado no mundo: foi produzido pela escrita do enunciado.
O que isso ilumina na resposta
Repare na forma do diagnóstico, no versículo 29: "vocês não conhecem as Escrituras nem o poder de Deus". Não é acusação de má-fé nem de erro de cálculo — é a acusação de não saber do que se está falando. Na linguagem de Wilkes, é a segunda objeção dela: falta ao caso a teoria do assunto sobre o qual ele pronuncia sentença.
E a resposta que vem a seguir não oferece critério de desempate entre os sete: fornece a descrição que faltava, dizendo como é o estado em questão, em Mateus 22:30, e de onde se sabe disso, em Mateus 22:31-32. Há aí um eco do programa de Wilkes — contra um cenário inventado, o argumento não é outro cenário inventado, é um texto a respeito de três homens que existiram, lido pelo tempo do verbo.
Os limites, como sempre. Wilkes escreve filosofia da mente no fim do século XX, é crítica de um método dentro da sua disciplina e não comenta este versículo; a aproximação é leitura do comentarista. E a objeção dela tem adversários sérios — há quem sustente que experimentos de pensamento bem construídos provam, sim, e a discussão permanece em aberto. O que ela oferece aqui é um critério aplicável: antes de aceitar que um caso imaginado refutou algo, perguntar quem forneceu a descrição do que está sendo imaginado.
7. Aplicações Práticas
Pergunte quem descreveu o cenário
Quando alguém refuta uma ideia com um caso imaginado, procure de onde vieram os detalhes do caso.
Os saduceus pedem um veredito sobre a ressurreição e não dizem o que entendem por ela: tomam a imagem popular, mostram que ela produz absurdo e apresentam isso como refutação. O procedimento é comum fora da teologia. "Imagine que a empresa faça X e aconteça Y" — e Y vem das suposições de quem está falando, não do assunto.
O teste é devolver a descrição: peça que a pessoa especifique o cenário até o ponto em que a conclusão apareça. Se a conclusão aparece junto com os detalhes, foram os detalhes que a produziram.
Pergunte pela pessoa, não pela titularidade
"De quem ela será" é mais fácil de perguntar do que "o que será dela".
Em qualquer situação de perda — morte, separação, falência —, as questões de pertencimento ocupam o espaço inteiro se ninguém as contiver. Elas são legítimas e precisam ser resolvidas; o que não se pode é deixar que substituam a outra. Quem está ao lado de uma família nessas horas presta um serviço grande só com perguntar pela pessoa.
Olhe o que você espera da vida futura
O caso supõe que a ressurreição devolve esta vida com os seus vínculos e as suas posses.
Essa expectativa é natural e aparece em quase todas as representações populares do céu — o reencontro, a casa, a família reunida. A resposta que vem no versículo seguinte não a confirma, e a ABC não contorna isso. O que cabe a quem lê é notar que uma esperança construída sobre a continuação do que se tem aqui corre o risco de ser desmentida por aquilo mesmo em que diz crer.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Os saduceus esperavam uma resposta?
Esperavam três, e todas ruins para quem respondesse.
Se Jesus dissesse "do primeiro", teria de justificar o critério que a última frase do versículo acabara de eliminar. Se dissesse "de todos", a ressurreição ficaria associada a um arranjo que a lei de Moisés não admitia. Se dissesse "de nenhum", pareceria conceder que a vida ressuscitada é menos do que esta. Gill e o Pulpit Commentary descrevem o caso nesses termos: montado para que qualquer saída fosse ridícula.
O que eles não previram, pelo que o texto permite supor, foi a eliminação da categoria. A resposta do versículo 30 não está entre as três e não pertence ao mesmo tipo.
Havia resposta judaica para essa pergunta?
Havia, e era a do primeiro marido.
Leituras rabínicas de teor materialista atribuíam prioridade a ele, pelo motivo óbvio de que só ele casara por escolha. O Pulpit Commentary observa que a posição existia e não era largamente aceita. A frase final deste versículo foi construída para fechá-la, o que indica que os saduceus conheciam a objeção antes de recebê-la.
Por que não responder simplesmente "de nenhum"?
Porque "de nenhum", dito assim, ainda aceita que o casamento existe na ressurreição e apenas afirma que, neste caso, nenhum dos sete o tem.
A diferença parece de palavra e é de estrutura. Dizer "de nenhum" é dar uma resposta dentro do alcance da pergunta, e exigiria um motivo — algum impedimento, alguma anulação. Dizer que na ressurreição não se casam nem são dados em casamento é retirar a pergunta do tabuleiro. Bengel notou a primeira metade disso, ao escrever que Jesus responde que ela não é de nenhum; o texto do versículo 30 faz mais do que isso.
A pergunta era sincera em alguma medida?
Não é possível decidir, e os indícios são de duas direções.
Contra a sinceridade: o caso é construído, cada detalhe fecha uma saída, o cenário é público e Mateus registra, no versículo 34, que o resultado foi fazer os saduceus calarem-se. A favor: a questão sobre a forma da vida ressuscitada era uma pergunta judaica corrente, formulada também por quem acreditava na ressurreição — o livro conhecido como segundo Baruque a faz com todas as letras, como o item 2 mostra. E Jesus, no versículo 29, chama-os de enganados, não de hipócritas.
O mais provável é que as duas coisas coexistissem: uma dificuldade real, usada como arma.
O que o verbo "foram casados com ela" diz sobre o casamento judaico?
Em grego, o verbo é o de ter, e a expressão era o modo corrente de dizer "ter por mulher".
Não se deve carregar demais o dado: Paulo usa o mesmo verbo para o casamento normal em 1 Coríntios 7:2. O que se pode afirmar é que a construção põe o homem como sujeito e a mulher como objeto, e que esse era o padrão da linguagem jurídica daquele mundo.
Esta pergunta ainda é feita hoje?
Com outras palavras, e com frequência.
Quem perdeu o cônjuge e casou de novo pergunta com quem estará depois. Quem se divorciou pergunta se o primeiro casamento ainda vale. Pais perguntam se reconhecerão os filhos. São versões da mesma questão: a de saber se os vínculos desta vida persistem na próxima.
A resposta que o capítulo dá não é confortável e não deve ser amaciada: na ressurreição não se casam nem são dados em casamento. O que o texto não diz — e aqui o silêncio importa — é que os vínculos se apagam. Ele retira a instituição do casamento, e não afirma nada sobre o reconhecimento ou o afeto entre as pessoas. Quem conclui qualquer das duas coisas, que tudo continua ou que tudo se perde, está acrescentando ao texto.
9. Conexão com Outros Textos
A mesma pergunta nos outros dois evangelhos
Marcos 12:23 — "Na ressurreição, pois, quando ressuscitarem, de qual destes será a mulher? Porque os sete a tiveram por mulher."
Lucas 20:33 — "Portanto, na ressurreição, de qual deles será a mulher? Pois os sete a tiveram por mulher."
Marcos acrescenta "quando ressuscitarem", explicitando o momento; Lucas é o mais enxuto. Nos três, a frase final é a trava: todos a tiveram, e por isso nenhum tem preferência.
O verbo "ter", com uma mulher como objeto
Mateus 14:4 — "porque João lhe dizia: 'Não é permitido que você a tenha.'"
É a outra ocorrência do mesmo verbo com esse objeto em Mateus, e ali o casamento é ilícito. A construção era o modo corrente de dizer "ter por mulher", e não implica, por si, nada de abusivo — mas o eco existe, e o português da ABC o suaviza nos dois lugares.
A resposta que não está entre as alternativas
Mateus 22:29 — "Jesus respondeu: 'Vocês estão enganados porque não conhecem as Escrituras nem o poder de Deus.'"
Mateus 22:30 — "Na ressurreição, as pessoas não se casam nem são dadas em casamento; são como os anjos no céu."
A réplica vem em duas partes: um diagnóstico e uma descrição. Nenhuma das duas nomeia um dos sete, e é por isso que a pergunta não é respondida, e sim corrigida. O versículo 29 diz onde está o erro; o 30 retira a categoria em que a pergunta foi formulada.
A mesma dúvida numa igreja grega
1 Coríntios 15:35 — "Mas alguém dirá: Como ressuscitarão os mortos? E com que corpo virão?"
Paulo registra a objeção em termos muito próximos, e também a trata como pergunta mal posta — a resposta dele começa com uma reprimenda e passa à imagem da semente que é semeada de um modo e brota de outro. Duas cenas distantes, a mesma dificuldade: imaginar a vida ressuscitada como esta vida continuada.
O verbo de ter por mulher, em uso neutro
1 Coríntios 7:2 — "Mas, por causa da prostituição, cada um tenha a sua própria mulher, e cada uma tenha o seu próprio marido."
Aqui o mesmo verbo aparece aplicado aos dois lados, com a mulher como sujeito na segunda metade da frase. Serve de contraprova contra uma leitura forçada do versículo dos saduceus: a expressão era corrente e não carrega, isoladamente, nenhum juízo.
O efeito sobre quem ouvia
Mateus 22:33 — "Ao ouvirem isso, as multidões ficaram admiradas com o seu ensino."
Mateus 22:34 — "Ao ouvirem que ele havia feito os saduceus calarem-se, os fariseus se reuniram."
O desfecho é registrado duas vezes e de dois ângulos: a multidão admirada e o partido rival em movimento. Uma pergunta construída para silenciar o interrogado terminou silenciando quem a fez.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Na ressurreição, então, de qual dos sete ela será esposa? Pois todos foram casados com ela.”
Texto grego (Textus Receptus)
Ἐν τῇ οὖν ἀναστάσει, τίνος τῶν ἑπτὰ ἔσται γυνή; Πάντες γὰρ ἔσχον αὐτήν.
Transliteração
En tē oun anastasei, tinos tōn hepta estai gynē? Pantes gar eschon autēn.
Análise palavra por palavra
Ἐν τῇ οὖν ἀναστάσει — en tē oun anastasei, "na ressurreição, então". A preposição com o dativo indica o estado dentro do qual a pergunta se coloca, e não um instante.
A posição da partícula é o que chama atenção, e é o ponto de variante deste versículo. O Textus Receptus a põe entre o artigo e o substantivo: ao pé da letra, "na — então — ressurreição". As edições críticas a põem depois do substantivo: "na ressurreição, então".
Nenhuma das duas ordens muda o sentido, e a razão é gramatical: oun é uma das partículas que, em grego, não podem abrir frase e por isso se encaixam no segundo lugar disponível. Encaixar-se entre artigo e substantivo é uso normal da língua, e não um descuido de copista.
οὖν — oun, "então", "portanto". É a partícula da conclusão, e é ela que converte os quatro versículos anteriores em premissas. Mateus a usa com frequência nessa função, e o seu papel neste lugar está examinado no item 3.
τίνος — tinos, "de quem". Genitivo do pronome interrogativo tis.
O caso é decisivo. O genitivo, em grego, é o caso da pertença, e a pergunta se constrói com ele: de quem, de qual, pertencente a quem. Não se pergunta "quem será o marido dela", que poria o homem no nominativo; pergunta-se "de quem ela será esposa", que põe o homem no genitivo e faz dela o termo possuído.
τῶν ἑπτά — tōn hepta, "dos sete". Genitivo plural, aqui com o valor que a gramática chama de partitivo: indica o conjunto de dentro do qual se pede que se escolha um. O numeral não se declina em grego, e é o artigo que marca o caso.
ἔσται — estai, "será". Futuro do indicativo de eimi, "ser".
O tempo verbal carrega a afirmação central que a pergunta não enuncia. Não se pergunta de quem ela foi esposa, o que teria sete respostas e nenhuma dificuldade; pergunta-se de quem ela será. O futuro supõe que, no estado sobre o qual se fala, há vínculos matrimoniais em vigor — e é essa suposição que o versículo 30 vai recusar.
γυνή — gynē, "mulher", "esposa". Nominativo singular, e sem artigo.
A ausência do artigo tem função sintática. Sem ele, a palavra funciona como predicado do verbo "ser": a frase diz "ela será esposa de qual dos sete", e não "ela será a esposa de qual dos sete". O que se atribui é uma posição, um papel; não se identifica uma pessoa determinada. A edição grega ortodoxa de 1904 acrescenta o artigo e torna a frase mais específica, mas o Textus Receptus e as edições críticas concordam em deixá-lo de fora.
Em grego, como o item 10 do versículo 25 registra, esta é a mesma palavra para mulher e para esposa; aqui o contexto decide, porque a frase pergunta por um vínculo.
Πάντες γὰρ — pantes gar, "pois todos". Nominativo plural de pas, "todo", com a partícula que introduz a razão.
A partícula é importante para entender a função da segunda frase. Gar não acrescenta informação nova: justifica o que acabou de ser dito. A frase não narra mais um fato — explica por que a pergunta anterior não tem saída.
ἔσχον — eschon, "tiveram". Aoristo de echō, "ter".
Com uma mulher como objeto, o verbo era o modo corrente de dizer "ter por mulher", e nesse sentido aparece em Mateus 14:4, a respeito de Herodes e Herodias, e em 1 Coríntios 7:2, onde serve ao casamento comum e é aplicado também à mulher como sujeito. O aoristo apresenta o fato como concluído: tiveram, e acabou.
O Expositor's Greek Testament observa que "todos a tiveram" implica títulos iguais para cada marido, e é essa igualdade que fecha a porta da resposta pelo primeiro. A tradução portuguesa, "foram casados com ela", suaviza uma construção que em grego é mais seca.
αὐτήν — autēn, "a ela". Acusativo do pronome de terceira pessoa: a mulher como objeto direto do verbo, pela última vez no episódio.
As variantes
A diferença entre as edições é de ordem de palavras: Ἐν τῇ οὖν ἀναστάσει no Textus Receptus de Scrivener, ἐν τῇ ἀναστάσει οὖν nas edições críticas. Não há consequência de sentido, e a ABC segue o Textus Receptus.
As demais diferenças são de pontuação e de maiúsculas, que não existiam nos manuscritos antigos: Scrivener põe vírgula depois de ἀναστάσει e inicia a segunda frase com maiúscula, e as edições críticas fecham a primeira com sinal de interrogação depois de γυνή, como também faz Scrivener. A edição grega ortodoxa de 1904 acrescenta o artigo antes de γυνή, variante que não está no Textus Receptus.
11. Conclusão
Da partícula "então" decorre que este versículo não continua a história: encerra-a e cobra o resultado. Os quatro versículos anteriores eram a montagem das premissas, e cada peça deles — a lei citada, a ausência de filhos, a igualdade dos sete, a morte da mulher — existe para que esta pergunta não tenha saída.
Do caso em que o pronome interrogativo aparece decorre o que se está perguntando. O genitivo pede um titular, e a pergunta é sobre os sete, não sobre ela. Quem atravessou os sete casamentos chega ao fim do episódio como o objeto de uma disputa de pretensões iguais, e a pergunta que ninguém faz — o que será dela — é a única que lhe diria respeito.
Do tempo do verbo decorre a afirmação que sustenta tudo. "Será" dá por certo que há estados civis em vigor depois da ressurreição; sem isso, a pergunta não tem do que tratar. E essa afirmação nunca é enunciada.
Da última frase decorre que o caso foi montado contra uma objeção conhecida. Havia na tradição quem desse preferência ao primeiro marido, por ter sido o único a casar por escolha; "todos foram casados com ela" apaga a diferença e fecha a porta. Quem construiu isto sabia o que ia receber.
E do conjunto decorre o que o caso pode e o que não pode provar. Ele não descreve em nenhum momento o estado sobre o qual pede sentença: não diz o que é a ressurreição, nem de onde tirou a imagem que usa — e a imagem que usa é a popular, de uma vida futura que devolve o que esta tinha. O que o cenário refuta, portanto, é a expectativa que ele próprio importou. Permanece em aberto se os saduceus previam uma resposta fora das três saídas que ofereceram, e o texto não diz.













