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Mateus 22:27

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✍️ Por Alberto Adriano·21 de outubro de 2026·⏱️ 28 min de leitura·👁 1 acesso
Por fim, depois de todos, morreu também a mulher.
Interior de uma câmara funerária escavada na rocha, com nichos nas paredes e um ossuário de pedra.

Estudo


Por fim, depois de todos, morreu também a mulher.

1. Introdução

É a única frase do caso em que a mulher é o sujeito, e o verbo é morrer.

Nos três versículos anteriores ela foi "a mulher dele", foi deixada, foi passada de irmão em irmão. Aqui, pela primeira e última vez, ela age — e a ação é falecer.

A palavra "também" é o ponto em que os manuscritos divergem, e dela depende saber se ela encerra a série ou entra nela como a oitava morte.

Sem este versículo não haveria pergunta: a questão sobre a ressurreição exige que todos os oito estejam mortos. A morte dela não é desfecho da história — é requisito do argumento.

2. Contexto Histórico e Cultural

Em que túmulo ela seria sepultada

A pergunta não é retórica. Na Judeia do primeiro século, ela tinha resposta física, e a arqueologia a conhece bem.

As famílias com alguma posse não enterravam os seus mortos em covas individuais. Escavavam, na rocha calcária dos arredores de Jerusalém e de Jericó, câmaras funerárias de família, com nichos abertos nas paredes — cada nicho um túnel estreito, de cerca de dois metros de profundidade e meio metro de largura e altura, onde o corpo era depositado. Passado o tempo necessário para que a carne se consumisse, recolhiam-se os ossos e guardavam-se numa caixa de pedra, o ossuário, que ficava na mesma câmara, muitas vezes com o nome do morto riscado na tampa.

O resultado é que uma câmara dessas reunia gerações. Pais, filhos, noras, netos, todos no mesmo recinto, com os ossuários empilhados. As câmaras de Akeldama, em Jerusalém, e a sepultura atribuída à família de Caifás dão a medida do arranjo: duas ou três salas, nichos nas paredes, ossuários nomeados.

Onde entrava a esposa? Pelo que se entende dessas sepulturas, na família do marido. Um estudo recente da arquitetura funerária do período sustenta que as filhas não eram sepultadas na sepultura de origem, porque se esperava que fossem para a do marido, e que as noras tinham direito pleno de repousar junto dele. É leitura de um autor, e não consenso estabelecido; mas é coerente com o que os ossuários mostram, pois muitos identificam a mulher pelo nome do marido ou do pai.

Aplique isso ao caso dos sete irmãos. Os sete eram da mesma casa, logo repousavam na mesma câmara. E a mulher — viúva de todos, nora daquela família, sem filhos e sem outra casa a que pertencer — seria sepultada ali, entre os sete. A pergunta que vem no versículo seguinte tinha, portanto, uma forma material: naquela câmara havia sete nichos de maridos e um de esposa.

A ligação não está no texto, e não se pode atribuí-la aos saduceus. O que ela acrescenta é a lembrança de que o enigma deles não era só um exercício de escola: qualquer ouvinte que tivesse descido a uma sepultura de família sabia exatamente como ficavam dispostos os corpos de que se falava. A sepultura dos patriarcas, em Gênesis 49:31, com os casais enumerados dois a dois, é a versão mais antiga desse mesmo quadro.

O que uma viúva sem filhos deixava

Ela morre sem herdeiros, e isso tem consequências que a cena não menciona.

No direito daquela sociedade, a propriedade seguia a linha masculina, e a mulher chegava ao casamento com um dote, cujo destino em caso de morte era objeto de regra. Havia também o compromisso escrito que o marido assumia em favor da esposa, com valor fixado, do qual ela era credora em caso de viuvez. A tradição judaica tratou dessas matérias em detalhe, nos tratados sobre o contrato de casamento e sobre heranças.

O que se pode afirmar com segurança, sem entrar em regras cuja vigência no primeiro século é discutida, é o essencial: uma viúva sem filho não transmitia nada à casa do marido. Não havia descendente dela que herdasse; não havia linha a continuar. A sua morte fecha o caso dos sete irmãos em todos os sentidos — fecha a família, fecha a obrigação legal e fecha a possibilidade jurídica de que alguma coisa daqueles sete homens sobrevivesse neste mundo.

Quantos anos passaram

O versículo diz "por fim, depois de todos", e esse "depois" é longo.

Entre um casamento e o seguinte havia o prazo de espera para estabelecer se havia gravidez, e cada união precisava durar o suficiente para que a ausência de filhos ficasse clara. Somadas as sete uniões e os seis intervalos, a história ocupa anos — detalhe desenvolvido no estudo de Mateus 22:25.

Ela morre, portanto, como mulher que atravessou a vida adulta dentro da mesma casa, enterrando um marido depois do outro. Se a sequência começou quando ela era jovem, como era a regra, ela não era jovem no fim. Nada disso é dito. Está na aritmética do caso que os saduceus montaram e que eles próprios, provavelmente, não calcularam.

3. Análise Teológica do Versículo

"Por fim, depois de todos"

São duas marcas de tempo onde uma bastaria, e o grego constrói a segunda com um caso de comparação: mais tarde do que todos eles.

O advérbio é o que Mateus emprega para fechar séries em todo o evangelho, e o seu campo de uso está examinado no estudo de Mateus 21:29. O que ele faz aqui é pôr a mulher fora da enumeração: os sete foram contados um a um, ela vem depois da contagem.

Essa posição é significativa e é ambígua. Pode marcar que ela não pertence à série — os irmãos são sete, ela é outra coisa. Pode marcar o contrário, que ela é o último item de uma lista de oito. A palavra seguinte decide, e é justamente a palavra em que os manuscritos divergem.

"morreu também a mulher"

O "também" existe no Textus Receptus e falta nas edições críticas. O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) registra que Alford, Tischendorf, Westcott e Hort o omitem, e acrescenta que o fazem, ao que parece, com boa razão. A ABC segue o Textus Receptus e traz "também".

A diferença de sentido é pequena na superfície e grande no efeito.

Com "também", a mulher entra na série. A frase soa como continuação da contagem: morreram os sete, e morreu também ela. São oito mortes, e a oitava é do mesmo tipo das outras — o caso inteiro passa a ser a história de uma família que se extinguiu por completo, mulher incluída.

Sem "também", a frase apenas encerra. Morreram os sete; depois de todos, morreu a mulher. Ela não se soma à lista: fecha-a de fora. A história é a dos sete irmãos, e a morte dela é o que permite fazer a pergunta.

Qual das duas é o texto original não é possível decidir com certeza, e o peso dos manuscritos favorece a omissão — a palavra pode ter entrado por influência de Marcos 12:22, que a traz. O que se pode afirmar é que a leitura adotada muda o lugar da mulher no relato, e que o português da ABC a inclui.

A única vez em que ela é o sujeito

Repasse os quatro versículos e conte os verbos de que ela é o agente.

No versículo 24, ela aparece como "a viúva" com quem o irmão deve casar-se: objeto. No versículo 25, é deixada ao irmão seguinte: objeto do verbo "deixar". No versículo 26, não aparece — está subentendida nos seis casamentos comprimidos. No versículo 28, será o tema de uma pergunta sobre a quem ela pertence: objeto outra vez, e o verbo da frase é "será esposa".

Aqui, e só aqui, ela é o sujeito de um verbo. E o verbo é morrer.

Essa é a estrutura gramatical do relato, e ela não exige interpretação para ser constatada: basta ler. O que exige cautela é o que se conclui disso. Não se trata de uma afirmação da Bíblia sobre mulheres, nem de uma tese de Mateus — é o modo como aqueles homens narraram aquele caso, num gênero de fala, o do caso jurídico, em que todos os personagens são tipos sem vontade. Os sete irmãos também não escolhem nada: cumprem o dever e morrem.

A diferença é que dos irmãos se diz que casaram, e dela não se diz nada além de que morreu. Mateus não comenta, e Jesus tampouco. O efeito, porém, aparece na resposta: em Mateus 22:30, a frase "não se casam nem são dados em casamento" desfaz exatamente a cadeia de pertencimento em que ela estava presa, e é a única coisa dita no episódio inteiro que muda a situação dela.

O verbo da morte dela

Em grego, ela não morre com o mesmo verbo do primeiro irmão.

No versículo 25, o primeiro marido "chegou ao fim", num verbo que funciona como o nosso "faleceu". Aqui, o verbo é o comum e direto, o mesmo que a citação da lei usou no versículo 24 para o caso abstrato — morrer, sem atenuação.

Duas leituras são possíveis e nenhuma se demonstra. Primeira leitura: é variação de estilo, e o grego narrativo alterna verbos de sentido próximo sem intenção nenhuma. Segunda leitura: o verbo polido acompanha os maridos e o verbo cru acompanha a mulher, no mesmo movimento que lhe nega qualquer outra ação. A primeira é mais prudente; a segunda é coerente com todo o resto da construção. O texto não permite escolher.

Por que ela tinha de morrer

Se a mulher estivesse viva, não haveria pergunta.

A questão do versículo 28 é sobre a ressurreição, isto é, sobre o que acontece quando os mortos se levantam. Para que ela alcance a mulher, a mulher precisa estar entre os mortos. Viva, ela ficaria de fora do cenário, e a pergunta se reduziria a "de quem serão os sete irmãos", que não tem sentido nenhum.

A morte dela é, portanto, a última peça do mecanismo. Depois dela, o cenário está completo: oito pessoas mortas, nenhum filho, nenhum vínculo desfeito por recusa, nenhum critério de preferência entre os sete. A pergunta pode ser feita, e não há saída preparada.

Há um detalhe que isso ilumina. Com a morte do sétimo irmão, a mulher ficou juridicamente livre pela primeira vez em anos — não havia mais cunhado a quem o dever obrigasse, e ela podia casar fora da família. O caso a mata sem usar essa liberdade. Não é possível saber se os saduceus pensaram nisso; o que se pode afirmar é que a história a leva da sujeição direto ao sepulcro.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

A mulher

Ela atravessa cinco versículos e o texto não lhe dá nome, idade, família de origem, nem uma palavra de fala.

É a única pessoa presente em todos os episódios do caso. Os sete irmãos entram e saem um a um; ela fica. Entra como a mulher do primeiro, passa por seis cunhados, enterra sete maridos e morre. O relato a identifica sempre pelo vínculo com um homem — "a mulher dele" — até este versículo, em que aparece apenas como "a mulher", com artigo, porque já não há a quem pertença.

O grego, aqui, usa a mesma palavra que significa tanto mulher quanto esposa, e por isso a frase é mais nua do que o português consegue ser: morreu também a mulher, e o leitor não sabe se está sendo chamada de esposa ou de pessoa do sexo feminino. Depois de sete casamentos, a diferença deixou de existir.

Os sete, já sepultados

No momento desta frase, os sete irmãos estão todos mortos, e provavelmente todos na mesma câmara funerária de família.

Isso significa que a mulher viveu os últimos anos como última sobrevivente daquela casa. Não havia marido, não havia cunhado, não havia filho. A família em que ela entrara jovem tinha acabado, e ela era o que restava dela — sem ser dela por sangue.

O arranjo dessas sepulturas e o lugar que a nora ocupava nelas estão descritos no item 2.

O caso, agora fechado

Com este versículo o cenário está completo e nenhuma peça pode mais ser acrescentada.

Oito pessoas mortas. Nenhum filho em nenhum dos sete casamentos. Nenhuma recusa formal do dever, embora a lei a previsse. Nenhum sobrevivente que tivesse preferência óbvia. Nenhum nome, nenhum lugar, nenhuma data que permitisse verificar o relato. E nenhuma vontade registrada da única pessoa que atravessou tudo.

É a esse cenário que a pergunta do versículo seguinte se dirige — e ele foi construído de trás para frente, a partir da pergunta.

O que não há na cena

Falta, em todo o episódio, aquilo que qualquer história de família traria: luto.

Sete velórios, sete períodos de choro, sete sepultamentos, e nenhuma linha sobre nada disso. A lei judaica prescrevia ritos de luto detalhados, e uma família que enterrasse sete filhos adultos em poucos anos seria assunto da região inteira. Os saduceus contam sete mortes e um enterro final como quem lê um inventário.

A ausência é informação sobre o gênero do relato, e não sobre a frieza de quem o conta: casos jurídicos não narram sentimentos. O que ela produz, de passagem, é a redução de oito pessoas a posições num problema — e é contra essa redução, e não contra a aritmética, que a resposta de Jesus vai ser dirigida.

5. Pontos de Ensino

Uma palavra de três letras pode mudar o lugar de uma pessoa

Com "também", a mulher é a oitava morte de uma família extinta. Sem "também", ela é quem fecha a história dos sete.

Os manuscritos divergem, e a divergência é dessas que não alteram doutrina nenhuma e alteram a leitura. Serve de medida para o cuidado que a Bíblia pede: as variantes importantes do Novo Testamento são poucas, e as pequenas são muitas — e algumas das pequenas mexem no sentido mais do que se imagina.

Quem só aparece para viabilizar o argumento

A morte da mulher não é desfecho: é requisito. Sem ela, a pergunta sobre a ressurreição não alcança ninguém.

Há um hábito mental que este versículo expõe. Quando se monta um caso para provar um ponto, as pessoas dentro do caso passam a existir em função dele — entram quando o argumento precisa, saem quando ele não precisa mais. Acontece em debate religioso, em discussão política e em qualquer conversa em que alguém diz "imagine uma pessoa que...". Fora do argumento, essa pessoa teria tido uma vida.

A lei cumprida não impediu o desaparecimento

O dever de cunhado existia para que uma casa não se apagasse, e aqui a casa se apagou com o dever cumprido sete vezes.

Com a morte da viúva, acaba qualquer possibilidade de que algo daqueles sete homens continuasse neste mundo. É o fracasso completo do mecanismo — e é o ponto em que a única esperança restante para eles seria justamente a que o grupo que conta a história nega. O caso dos saduceus, levado até o fim, trabalha contra eles.

O gênero do relato explica o que falta nele

Não há luto, não há nomes, não há lugar nem data.

Isso não revela crueldade de quem fala: revela que se está contando um caso jurídico, e casos jurídicos não narram sentimentos. Saber distinguir gêneros de texto evita dois erros contrários — tirar de um inventário conclusões sobre o coração de quem o escreveu, e esperar de uma peça técnica a espessura de uma história.

6. Aspectos Filosóficos

A mulher morre, e ninguém pergunta por ela

Repare na pergunta que vem a seguir. Não é "o que será dela", é "de quem ela será".

A morte da única pessoa que atravessou os sete casamentos serve para abrir uma questão sobre o estado civil dela na ressurreição. Não sobre se ela se levantará, não sobre quem ela será, não sobre o que lhe aconteceu — sobre a quem ela pertencerá. É a inversão exata da pergunta que uma pessoa que está morrendo faria.

E existe um texto filosófico construído justamente sobre essa pergunta, feita por uma mulher que está morrendo: o Diálogo sobre a Identidade Pessoal e a Imortalidade (1978), de John Perry, filósofo norte-americano.

Três noites ao lado de uma cama de hospital

O livro é curto e tem forma de conversa. Gretchen Weirob, professora de filosofia, está internada depois de um acidente de automóvel e sabe que vai morrer em poucos dias. Dois amigos a visitam em três noites seguidas. Ela faz a eles uma única exigência: que a convençam de que é possível que ela sobreviva à própria morte — não que isso seja consolador, não que outros acreditem, mas que a ideia seja coerente.

Os amigos tentam três caminhos, e ela desmonta os três.

O primeiro é a alma: existe em mim algo imaterial que é o verdadeiro eu e que continuará quando o corpo acabar. Weirob pergunta como se saberia disso. Nunca ninguém observou uma alma; tudo o que se observa são corpos que se comportam de certas maneiras. Se a alma é por definição inobservável, não há como verificar se é a mesma de ontem — e um critério de identidade que não se pode aplicar não é critério.

O segundo é a memória: a pessoa que acordar no futuro será eu se lembrar da minha vida. A objeção de Weirob é de circularidade. Lembrar-se de verdade de algo que aconteceu a mim pressupõe que aquilo aconteceu a mim — isto é, pressupõe a identidade que se queria explicar. E, se bastasse ter as lembranças, nada impediria que duas pessoas as tivessem; teríamos duas candidatas e nenhuma razão para escolher.

O terceiro é o corpo: eu sou este organismo, e Deus pode reconstituí-lo. Aí Weirob levanta a objeção que fecha o diálogo. Se a reconstituição é possível uma vez, é possível duas — e, feitas duas cópias igualmente perfeitas, qual delas é ela? Nenhuma resposta se impõe, e portanto a reconstituição não garante identidade; garante semelhança.

O livro termina sem conclusão positiva. Weirob não é convencida e morre.

Por que isso ilumina este versículo

Perry faz, com a mulher que está morrendo, o oposto do que os saduceus fazem com a sua.

No diálogo, tudo gira em torno da pergunta dela sobre si mesma: serei eu? Como se saberia? No caso dos sete irmãos, a mulher morre e o que se pergunta é de quem ela será — uma questão sobre uma relação, não sobre a pessoa. O enigma dos saduceus trata a identidade dela como dado resolvido e discute o estado civil; Perry mostra que o problema difícil é justamente o que eles consideram resolvido.

E há um ponto em que os dois textos se tocam de perto. A terceira objeção de Weirob — duas cópias igualmente boas, e nenhum critério para escolher — tem a forma do próprio caso dos sete irmãos: sete candidatos igualmente legítimos, e nenhum critério para escolher. É a mesma dificuldade, aplicada a coisas diferentes. Nela, à identidade da pessoa; neles, ao vínculo matrimonial.

A resposta de Jesus, em Mateus 22:30, não enfrenta nenhuma das duas. Ela retira a relação de que o enigma depende e, com isso, torna a pergunta sem objeto. O que ela não faz é oferecer um critério de identidade — e quem procurar no episódio uma teoria sobre o que torna o ressurreto a mesma pessoa não vai encontrar.

Cabe a advertência de método: Perry escreve em 1978, não comenta este versículo e constrói um diálogo de ficção para fins didáticos. A aproximação é leitura do comentarista. O que ela permite afirmar é modesto — que a pergunta que o caso não faz é a pergunta mais difícil, e que o silêncio do texto sobre ela é silêncio, não resposta.

7. Aplicações Práticas

Pergunte o que será da pessoa, não de quem ela é

Diante de uma morte, a conversa escorrega com facilidade para questões de pertencimento: de quem era, com quem fica, a quem cabe o quê.

Essas perguntas existem e têm resposta. O que elas fazem, quando ocupam todo o espaço, é deixar de fora a única que importa para quem morreu. Observe isso em velórios, em inventários e em conversas de família — e observe em si mesmo, porque a pergunta sobre pertencimento é mais fácil de fazer do que a outra.

Quem fica depois de todos

A mulher deste versículo enterrou sete maridos e morreu sem ninguém.

A situação existe hoje com outro nome: pessoas que sobrevivem à família inteira e chegam ao fim sem rede. A regra antiga oferecia a elas um filho que as sustentasse; a nossa sociedade oferece pouco e conta com que alguém apareça. Quem conhece alguém nessa posição sabe que a presença de uma pessoa muda tudo, e que a ausência dela não tem substituto administrativo.

Não transforme pessoas em peças do seu argumento

No caso dos sete irmãos, a morte da mulher é o que torna a pergunta possível, e é só para isso que ela serve.

Em qualquer discussão em que se usem casos reais — de doentes, de desempregados, de vítimas, de criminosos —, a tentação é a mesma: trazer a pessoa quando ela ajuda e descartá-la quando não ajuda mais. O teste é perguntar se você diria aquilo na frente dela.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

O "também" está no texto original?

Provavelmente não, e a ABC o traz de todo modo.

A palavra consta do Textus Receptus de Scrivener, do Texto Majoritário bizantino, do texto de Stephanus e da edição grega ortodoxa de 1904. Falta nas edições críticas — Westcott e Hort, Tischendorf, Nestle, Sociedade Bíblica. O Pulpit Commentary registra a omissão e observa que ela se faz, aparentemente, com boa razão; uma explicação plausível é que a palavra tenha entrado por influência de Marcos 12:22, que a traz.

A ABC segue o Textus Receptus em todo o Novo Testamento, e por isso aqui se lê "morreu também a mulher". A diferença de sentido está no item 3, e não afeta nada do que vem depois.

Por que a história precisa da morte dela?

Porque a pergunta é sobre a ressurreição, e a ressurreição alcança os mortos.

Se a mulher estivesse viva, ela não estaria no cenário, e a questão "de qual dos sete ela será esposa" não teria sujeito a quem se aplicar. A morte dela é a última peça do mecanismo, e é por isso que o versículo existe. Narrativamente, ele parece um fecho; argumentativamente, é uma condição.

Ela não ficou livre depois do sétimo marido?

Ficou, e é a única liberdade que a história lhe dá — e não a usa.

Enquanto houvesse cunhado vivo, a lei de Deuteronômio 25:5 proibia que ela se casasse fora da família. Esgotados os sete, não havia mais ninguém a quem o dever obrigasse, e ela podia casar com quem quisesse. O caso a mata nesse intervalo. Não é possível saber se foi cálculo ou se os saduceus simplesmente não pensaram no assunto; o texto não diz.

Onde ela seria sepultada?

Pelo que se sabe das sepulturas de família daquele período, na câmara da família do marido — a mesma dos sete.

Esses túmulos eram escavados na rocha, com nichos nas paredes e ossuários onde se recolhiam os ossos depois de alguns anos. A viúva sem filhos e sem outra casa a que pertencer seria depositada ali. O item 2 descreve o arranjo, e vale a ressalva: o direito de sepultura das noras é reconstituído a partir da arqueologia e de textos posteriores, e não há consenso fechado.

Os sete irmãos ganham mais atenção do que ela?

Em palavras, não: eles têm números de ordem e ela tem uma frase inteira.

Em tratamento, sim. Dos irmãos o texto diz que casaram e que cumpriram o dever; dela não diz nada além de que morreu. É o único verbo de que ela é sujeito em cinco versículos. Isso é estrutura do relato dos saduceus, e não afirmação de Mateus nem de Jesus — mas é o que está escrito, e apagar o dado para poupar o texto seria pior do que mostrá-lo.

Esta é a história de uma vida desperdiçada?

O caso não permite dizer, porque foi construído para não dizer.

Não há nada sobre o que ela sentiu, quis, recusou ou conseguiu. Quem lê uma tragédia aqui está acrescentando ao texto; quem lê apenas um exercício de lógica está ignorando que o exercício foi feito com uma pessoa dentro. A resposta de Jesus, nos versículos 29 e 30, não comenta a vida dela — e desfaz, numa frase, o único vínculo pelo qual o caso a definia.

9. Conexão com Outros Textos

A mesma frase nos outros dois evangelhos

Marcos 12:22 — "E os sete tomaram-na e não deixaram descendência. Finalmente, depois de todos, morreu também a mulher."

Lucas 20:32 — "E, depois de todos, morreu também a mulher."

Os três evangelhos trazem a mesma informação na mesma ordem, e Marcos é o único que repete, antes dela, que os sete não deixaram descendência. A palavra "também", que falta nas edições críticas de Mateus, está firmemente em Marcos — o que alimenta a hipótese de que, em Mateus, ela tenha sido acrescentada por influência deste.

A sepultura de família, enumerada casal por casal

Gênesis 49:31 — "Ali sepultaram Abraão e Sara, sua mulher; ali sepultaram Isaque e Rebeca, sua mulher; e ali sepultei Lia."

É o retrato bíblico mais antigo do arranjo que a arqueologia encontrou na Judeia do primeiro século: uma câmara de família onde maridos e esposas repousam juntos, nomeados dois a dois. Jacó enumera três casais e termina com a mulher que ele próprio sepultou. O caso dos sete irmãos descreve a mesma câmara com uma esposa e sete maridos.

A exceção que mostra a regra

Gênesis 35:19 — "Assim morreu Raquel e foi sepultada no caminho de Efrata, que é Belém."

Raquel é enterrada à beira do caminho, longe da sepultura de família, e o texto registra isso como coisa notável. A anomalia confirma o padrão: o lugar esperado para a esposa era junto do marido, na câmara da família dele.

A viúva que o Novo Testamento mostra por inteiro

Lucas 2:36-37 — "E estava ali a profetisa Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser. Esta era já de grande idade, e tinha vivido com o marido sete anos, desde a sua virgindade. E era viúva de oitenta e quatro anos, e não se afastava do templo, servindo a Deus em jejuns e orações, de noite e de dia."

Ana é a contraprova exata. Também é viúva, também sem filhos mencionados, também atravessou décadas sozinha — e o texto lhe dá nome, pai, tribo, idade, tempo de casamento, ocupação e fala. A comparação mede, com precisão, o que a narração dos saduceus retirou da mulher dos sete maridos.

O que a lei mandava fazer por quem estava nessa posição

Deuteronômio 24:19 — "Quando no teu campo segares a tua sega e esquecer-te de um feixe no campo, não voltarás a tomá-lo; para o estrangeiro, para o órfão e para a viúva será; para que o SENHOR teu Deus te abençoe em toda a obra das tuas mãos."

A viúva aparece na lei sempre no mesmo grupo: com o órfão e o estrangeiro, isto é, com quem não tinha ninguém que respondesse por ele. A proteção legal existia justamente porque a situação era de desamparo real, e uma mulher sem filho ao fim de sete casamentos estava exatamente nela.

A resposta que desfaz o vínculo

Mateus 22:30 — "Na ressurreição, as pessoas não se casam nem são dadas em casamento; são como os anjos no céu."

É o único enunciado do episódio que altera a situação da mulher. O caso a definia por sete pertencimentos sucessivos; a frase retira a categoria inteira. A pergunta do versículo 28 não é respondida — deixa de ter objeto.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Por fim, depois de todos, morreu também a mulher.

Texto grego (Textus Receptus)

ὕστερον δὲ πάντων ἀπέθανε καὶ ἡ γυνή.

Transliteração

hysteron de pantōn apethane kai hē gynē.

Análise palavra por palavra

ὕστερον — hysteron, "depois", "por último". Advérbio formado do comparativo hysteros, "posterior". Mateus o usa sete vezes, sempre marcando o último elemento de uma sequência, e o seu percurso pelo evangelho está examinado no estudo de Mateus 21:29.

δὲ πάντων — de pantōn, "de todos". A partícula faz a transição, e pantōn é o genitivo plural de pas, "todo".

O caso é o que interessa. Em grego, o comparativo rege genitivo: "mais alto do que ele" se diz com o pronome nesse caso. Aqui, portanto, a construção é de comparação — mais tarde do que todos eles. Não é simplesmente "no fim": é "depois de todos", com os sete tomados em bloco como termo de referência.

Isso a põe fora da enumeração. Os sete foram contados; ela vem depois da contagem, medida contra o conjunto inteiro.

ἀπέθανε — apethane, "morreu". Aoristo de apothnēskō, composto da preposição apo, "para fora de, a partir de", com o verbo thnēskō, "morrer". É o verbo comum e direto, sem nenhuma atenuação.

Os dois versículos anteriores usam outros verbos. No versículo 24, a citação da lei usa este mesmo verbo, no subjuntivo: "se alguém morrer". No versículo 25, o primeiro marido morre com outro verbo, teleutaō, construído sobre telos, "fim", e equivalente ao nosso "faleceu". Aqui a narrativa volta ao verbo cru.

Marcos 12:22 e Lucas 20:32 também usam apothnēskō para a mulher, o que sugere que a escolha vem da tradição comum aos três e não de Mateus. Se a alternância tem intenção ou é apenas variação de estilo não é possível decidir; as duas leituras estão no item 3.

καὶ — kai, "também". É aqui que está a variante deste versículo.

A palavra é a conjunção grega mais frequente, "e", e em posição como esta funciona como advérbio, com o valor de "também", "igualmente", "até". Ela consta do Textus Receptus de Scrivener e de Stephanus, do Texto Majoritário bizantino e da edição grega ortodoxa de 1904. Falta em Westcott e Hort, em Tischendorf, em Nestle e na edição da Sociedade Bíblica, que leem apenas apethanen hē gynē, "morreu a mulher".

O Pulpit Commentary registra a omissão e a considera, aparentemente, bem fundada. Uma explicação plausível para a presença da palavra em parte dos manuscritos é a influência de Marcos 12:22, onde ela está firmemente atestada — o copista que conhecia os dois textos tenderia a harmonizá-los. A ABC segue o Textus Receptus.

Com a palavra, a mulher se soma à lista dos que morreram; sem ela, a frase apenas encerra a narrativa. A consequência de leitura está desenvolvida no item 3.

ἡ γυνή — hē gynē, "a mulher". Nominativo singular, com artigo definido.

Duas coisas se destacam. A primeira é o caso: é a única vez, em todo o caso dos sete irmãos, em que esta palavra aparece no nominativo, isto é, como sujeito. Nos versículos 24, 25 e 28 ela está no acusativo ou é o tema de uma pergunta — objeto, não agente.

A segunda é o artigo sem posse. Antes ela foi sempre "a mulher dele", com o pronome apontando para o marido morto. Aqui o pronome desaparece e sobra o artigo: a mulher, aquela de quem se falou, sem dono gramatical. É consequência direta da história — esgotados os sete, não há a quem o pronome se refira.

A palavra gynē, aliás, significa ao mesmo tempo mulher e esposa, e o grego não tem termo separado para a segunda. Nesta frase, sem o pronome que decidiria o sentido, as duas leituras ficam abertas.

As variantes

A divergência de palavra é a do kai, examinada acima, e é a única com efeito de sentido.

As demais são de forma: Scrivener imprime ἀπέθανε, e as edições críticas ἀπέθανεν, com o n final que o grego acrescenta antes de vogal — diferença de escrita, não de palavra. A edição grega ortodoxa de 1904 acompanha o Textus Receptus neste versículo.

11. Conclusão

Da estrutura da frase decorre o dado mais nu do episódio: em cinco versículos, a mulher é sujeito de um verbo uma única vez, e o verbo é morrer. Antes ela foi "a mulher dele" e foi deixada; depois será o tema de uma pergunta sobre a quem pertence. Isso é constatação gramatical, não interpretação, e não é afirmação de Mateus nem de Jesus — é o modo como aqueles homens narraram aquele caso.

Da divergência sobre uma palavra de três letras decorre que a posição dela no relato depende da edição que se lê. Com "também", são oito mortes e uma família extinta por completo; sem a palavra, são sete mortes e um fecho. O peso dos manuscritos favorece a omissão, a ABC segue o Textus Receptus, e nada do que vem depois se altera.

Da função desta frase no argumento decorre a sua natureza. Ela parece desfecho e é condição: sem a morte da mulher, a pergunta sobre a ressurreição não tem a quem se aplicar. O cenário se fecha aqui, e fecha-se exatamente no ponto em que ela acabara de ficar livre pela primeira vez em anos.

E do que o versículo não traz decorre o limite do que se pode dizer. Não há luto, não há nome, não há vontade, não há vida — e quem preencher esses silêncios com uma tragédia está acrescentando ao texto. O que se pode afirmar é que uma pessoa inteira foi reduzida à última peça de um mecanismo, e que a resposta que vem adiante, ao retirar o casamento da ressurreição, desfaz justamente o vínculo pelo qual o caso a definia.

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Mateus 22:27

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