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Mateus 22:26

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✍️ Por Alberto Adriano·21 de outubro de 2026·⏱️ 28 min de leitura·👁 0 acessos
O mesmo aconteceu com o segundo, com o terceiro, até o sétimo.
Sete túmulos escavados na rocha, lado a lado, num cemitério de família na Judeia antiga.

Estudo


O mesmo aconteceu com o segundo, com o terceiro, até o sétimo.

1. Introdução

É o versículo mais curto do episódio e o único sem verbo nenhum em grego.

"O mesmo aconteceu com o segundo, com o terceiro, até o sétimo" traduz quatro palavras gregas que, ao pé da letra, dizem apenas: do mesmo modo também o segundo, e o terceiro, até os sete. Quem morreu, quem casou e quem não teve filhos tem de ser lido do versículo anterior.

A compressão é escolha de Mateus. Marcos conta a mesma série repetindo os verbos a cada irmão, e Lucas também; só Mateus a reduz a uma lista.

E a forma dessa lista — sete irmãos que morrem um após o outro — é a de uma história que todo judeu do primeiro século conhecia, e que é justamente a história em que a ressurreição dos mortos é confessada sete vezes.

2. Contexto Histórico e Cultural

A lei tinha ordem para o caso de vários irmãos

A série de sete não é invenção retórica sem apoio: o direito judaico previa exatamente essa situação e sabia como resolvê-la.

Deuteronômio 25:5 fala de "irmãos" no plural e não diz qual deles deve cumprir o dever. A tradição posterior preencheu a lacuna, e o tratado Yevamot, da Mishná (primeira coleção escrita da tradição oral judaica, de cerca de 200 d.C.), fixa a ordem: a obrigação recai sobre o irmão mais velho entre os sobreviventes.

Se ele não quiser, passa-se aos demais, por idade. Se nenhum quiser, volta-se ao mais velho e exige-se dele uma das duas coisas — que cumpra o dever ou que se submeta ao rito público de liberação. A discussão rabínica deriva essa ordem de uma palavra do próprio texto de Deuteronômio, que fala do primogênito.

Há ainda uma regra que fecha a saída pela demora. Yevamot 4:6 recusa ao cunhado o direito de adiar: ele não pode alegar que está esperando um irmão menor crescer, nem que outro irmão está ausente e vai voltar. A resposta prevista é que não se lhe dá ouvidos — ou cumpre, ou libera.

E há a delimitação de quem conta como irmão. A Mishná o define como irmão em todos os aspectos, com exclusões específicas, e a discussão sobre os casos de fronteira ocupa páginas. Tudo isso importa para o caso dos saduceus porque mostra que a sucessão de irmãos, um após o outro, era matéria juridicamente mapeada. Eles não estão descrevendo algo que a lei não imaginava.

A data pede cautela. A Mishná é posterior a esta conversa em mais de um século e meio, e não se pode supor que as suas regras estivessem todas em vigor no primeiro século. O que ela permite afirmar é que a questão da ordem entre vários irmãos era tratada como problema técnico pelos especialistas, e não como absurdo.

Morrer em série era verossímil

Sete mortes sucessivas numa família soam inacreditáveis hoje, e não soavam tanto então.

A mortalidade de adultos jovens no mundo antigo era alta e vinha de muitas direções: doenças infecciosas sem tratamento, ferimentos que infeccionavam, surtos que atravessavam aldeias, acidentes de trabalho agrícola, fome em anos ruins, violência política. Famílias que perdiam vários filhos adultos num intervalo curto não eram raridade.

O que torna o caso improvável não é, portanto, o número de mortes. É a combinação de sete mortes com sete casamentos consumados e nenhum filho em nenhum deles — e, além disso, com nenhum dos seis cunhados recorrendo ao direito de recusa que a lei lhes dava.

Crisóstomo (João Crisóstomo, pregador de Antioquia e Constantinopla no século IV) apontou o ponto frágil com humor: depois da segunda morte, os irmãos restantes teriam fugido daquela mulher como de um mau presságio. É piada e é argumento. A crença de que uma mulher podia trazer a morte a maridos sucessivos circulava naquele mundo, e o estudo de Gênesis 38:11 a documenta; numa família real, ela teria interrompido a série.

A história de sete irmãos que todos conheciam

Um judeu do primeiro século que ouvisse "sete irmãos morreram um após o outro" pensava num livro específico.

O segundo livro dos Macabeus, escrito em grego por volta do século II antes de Cristo, dedica um capítulo inteiro — o sétimo — ao martírio de sete irmãos sob o rei selêucida Antíoco IV. São presos com a mãe, obrigados a comer carne de porco, recusam-se, e morrem um depois do outro, do primeiro ao sétimo, cada um falando antes de morrer.

Era um dos relatos mais conhecidos do judaísmo daquele tempo, e ainda hoje é citado como o texto fundador da ideia judaica de martírio. A estrutura é inconfundível: sete irmãos, uma sequência de mortes, do primeiro ao último, com a enumeração marcando cada etapa.

E o conteúdo das falas é o que dá a este versículo a sua ironia. O que cada irmão diz, no momento de morrer, é que Deus o levantará dos mortos. Em 2 Macabeus 7:9, o segundo declara ao carrasco que o Rei do mundo os ressuscitará para uma vida eterna. Em 7:11, o terceiro estende as mãos e diz que as recebeu do céu e espera recebê-las de novo. Em 7:14, o quarto diz ao rei que para ele não haverá ressurreição para a vida. Em 7:23, a mãe fala do Criador que devolverá o espírito e a vida.

Dos saduceus, portanto, sai uma história com a forma do texto que mais fortemente afirma a ressurreição na literatura judaica do período — e sai para negá-la. Em 2 Macabeus a sucessão de sete mortes é o que sustenta a esperança; aqui, a mesma sucessão serve para ridicularizá-la.

Não é possível decidir se houve intenção. O livro não era autoridade para os saduceus, que o rejeitariam como rejeitavam tudo o que não estivesse na Torá, e a forma "sete irmãos em série" podia circular por conta própria. O que se pode afirmar é que a coincidência de estrutura existe e que ela é visível para quem conhece os dois textos.

3. Análise Teológica do Versículo

"O mesmo aconteceu"

Em grego não há nada que corresponda a "aconteceu". Há um advérbio: do mesmo modo.

A frase inteira não tem verbo. O leitor tem de ir buscar no versículo anterior tudo o que está subentendido — casou-se, morreu, não teve filhos, deixou a mulher ao irmão seguinte — e aplicar isso seis vezes. A tradução portuguesa precisa inventar um verbo para que a frase se sustente; o grego dispensa.

Essa economia é a marca deste versículo, e vale ver que ela é escolha, e não necessidade da língua. Marcos 12:21 escreve: "E o segundo tomou-a, e morreu, nem este deixou descendência; e o terceiro da mesma maneira." Marcos repete os verbos, nomeia a ausência de filhos outra vez e só então usa o advérbio para o terceiro. Lucas 20:31 fica no meio do caminho: "E o terceiro tomou-a, e assim também os sete; e não deixaram filhos, e morreram."

Mateus é o mais seco dos três. Em quatro palavras, ele dá a série inteira e segue adiante. Quem acompanha o evangelho inteiro reconhece o procedimento: Mateus corta narrativa onde Marcos demora, e a diferença é visível em muitos episódios comuns aos dois.

"com o segundo, com o terceiro"

Dois ordinais e para. O quarto, o quinto e o sexto não aparecem.

É um modo antigo de indicar série: nomeiam-se dois elementos, o suficiente para que o padrão fique claro, e salta-se para o último. A lógica é a mesma de "um, dois, três… e assim por diante" — dois casos estabelecem a regra de formação, e o resto se deduz.

O efeito sobre quem ouve é curioso, e é o oposto do que a brevidade sugeriria. Uma lista completa, com os sete nomeados, seria monótona e perderia força a cada repetição. Interrompida no terceiro, ela obriga o ouvinte a completar mentalmente o percurso — e quem completa o percurso participa da construção. É retórica eficiente, e não descuido.

"até o sétimo"

O grego diz, ao pé da letra, "até os sete", no plural.

A diferença parece trivial e os comentaristas antigos pararam nela. O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) glosa a expressão como "até os sete — até o fim dos sete". O Expositor's Greek Testament ("Testamento Grego do Expositor", comentário inglês do início do século XX) entende "até que o número se esgotasse pela morte", e cita a formulação latina de Fritzsche (Karl Friedrich August Fritzsche, filólogo alemão do século XIX): até que aqueles sete estivessem extintos.

O plural, portanto, não aponta para o sétimo irmão como indivíduo: aponta para o conjunto. Não é "chegou-se ao sétimo", é "esgotou-se o grupo". A frase descreve o fim de um estoque, e é essa a razão pela qual a pergunta final pode ser feita — não sobram candidatos.

Há uma consequência de leitura que decorre disso. Se o que acaba é o conjunto, e não a fila, então a mulher não termina casada com o sétimo: ela termina sem nenhum. O versículo seguinte vai dizer que ela também morreu, e a pergunta do versículo 28 não perguntará de quem ela era, mas de quem ela será — porque, no momento em que se fala, ela não é de ninguém.

O que a compressão esconde

Seis mortes em quatro palavras. É aqui que a forma do texto trabalha a favor de quem o diz.

Cada um desses seis casamentos foi um acontecimento: houve contrato, houve festa, houve noite de núpcias, houve convivência numa casa, houve um enterro. Houve a espera de três meses antes de cada nova união, para saber se havia gravidez. Houve, seis vezes, uma mulher que esperou e enterrou.

Nada disso cabe num advérbio. A frase "o mesmo aconteceu" apaga seis histórias e as reduz a uma repetição, e é exatamente o que o argumento precisa: se cada casamento tivesse espessura, o ouvinte começaria a pensar nas pessoas em vez de pensar no enigma. A pergunta do versículo 28 funciona porque este versículo esvaziou os seis casos intermediários.

O limite da observação precisa ficar marcado: nada no texto indica que Mateus tenha escrito assim para produzir esse efeito, e a brevidade é um hábito dele em todo o evangelho. O que se pode afirmar é que a compressão serve ao argumento dos saduceus, independentemente de quem a tenha feito.

A forma da narrativa

A estrutura "sete irmãos, um após o outro, até o sétimo" não é neutra no ambiente em que foi dita.

Ela repete o desenho do capítulo 7 do segundo livro dos Macabeus, onde os sete irmãos morrem em sequência confessando que Deus os levantará — material tratado no item 2. Aqui a mesma sequência serve ao avesso, e é o que torna este versículo mais do que um conector: ele é o que dá à pergunta a forma de uma história conhecida.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

O segundo

É o único dos seis que teria, na lei, posição definida: pela ordem que a tradição fixou, o dever recai primeiro sobre o irmão mais velho entre os sobreviventes.

Isso faz do segundo irmão do caso o irmão imediatamente mais velho entre os que restaram, e não um qualquer. A numeração dos saduceus — primeiro, segundo, terceiro — coincide, portanto, com a ordem jurídica de chamamento, e isso é mais uma peça de verossimilhança do relato. Eles conhecem o direito que estão invocando.

O segundo é também o ponto em que, numa família real, a série se interromperia. Uma morte é desgraça; duas, na mesma mulher, começam a produzir a suspeita que Crisóstomo registrou e que o item 2 descreve.

O terceiro

É o último nomeado, e com ele o padrão fica estabelecido.

Três casos é o mínimo para que uma série pareça série: com dois, ainda é coincidência; com três, é regra. Depois do terceiro, os saduceus não precisam mais narrar, e passam direto ao fecho.

Os que não são nomeados

O quarto, o quinto e o sexto existem apenas dentro da expressão "até os sete".

Eles casaram com a mesma mulher, morreram sem filhos e foram enterrados, e o texto não lhes dá nem o número de ordem. É a condição mais apagada de todo o episódio — abaixo da mulher, que pelo menos tem uma frase inteira no versículo 27.

O sétimo

O grego não o individualiza: fala do conjunto esgotado, não do último da fila.

Ainda assim, a posição dele é especial pelo que vem depois. Com a morte do sétimo, a obrigação legal termina — não há mais cunhado a quem recorrer, e a viúva fica livre para casar fora da família, se quiser e se puder. O caso dos saduceus a mata antes que isso aconteça.

A família inteira

Ao fim deste versículo, oito pessoas da mesma casa estão mortas, se contarmos o primeiro irmão, e nenhuma deixou descendência.

Em termos daquele mundo, é a extinção completa de uma linhagem. A casa acabou: não há herdeiro, não há quem leve o nome, não há quem fique com a terra. E a lei que existia precisamente para impedir esse resultado foi cumprida sete vezes, sem efeito nenhum.

Essa é a situação que os saduceus montam para fazer a pergunta, e ela tem um efeito dentro da teologia deles. Se a sobrevivência é pela descendência, aquela família desapareceu por inteiro — e a única esperança que sobraria para aqueles sete homens é justamente a que o grupo nega.

5. Pontos de Ensino

Resumir é tomar partido

Seis casamentos, seis mortes e seis lutos caberem em quatro palavras não é neutralidade: é escolha.

Todo resumo decide o que merece espessura e o que vira "e assim por diante". Quem lê um relato condensado está recebendo, junto com os fatos, o juízo de quem os condensou sobre o que importa. Isso não é defeito de narração — é a natureza dela. O que se pode fazer é perceber quando acontece e perguntar o que ficou dentro do advérbio.

A repetição convence sem argumentar

A série de sete não acrescenta nada à lógica do problema, que já existia com dois irmãos, e acrescenta muito à impressão de que o problema é insolúvel.

É um recurso antigo e continua eficaz: empilhar casos semelhantes até que a conclusão pareça inevitável. O teste é simples e desmonta o efeito — reduza a série ao menor número de casos em que a questão ainda se põe. Se um caso basta, trate de um.

A mesma estrutura serve a teses opostas

Sete irmãos que morrem em sequência é a forma da narrativa judaica mais célebre em favor da ressurreição, e aqui é a forma do argumento contra ela.

Formas narrativas não têm conteúdo próprio. A mesma estrutura — a série, a escalada, o último da fila — pode sustentar um testemunho de fé ou uma caçoada. Quem reconhece a forma e conclui daí o conteúdo erra; e quem monta um argumento confiando na força da forma está confiando em algo que o adversário pode usar igualmente.

A lei cumprida até o fim e sem resultado

Sete irmãos cumpriram o dever de cunhado, e a família acabou extinta.

O caso é imaginário, e o ponto que ele toca não é. Uma norma pode ser obedecida à risca e falhar no seu propósito, porque o propósito depende de algo que a norma não controla — aqui, o nascimento de um filho. Confundir obediência com resultado é erro comum em religião, em gestão e em política, e este versículo oferece o exemplo extremo: sete cumprimentos perfeitos, efeito nenhum.

6. Aspectos Filosóficos

Uma relação que vale um a um não vale um a muitos

Este versículo faz uma coisa que parece inocente: transforma uma sequência numa coleção.

Enquanto a história corre no tempo, não há problema algum. Em cada momento, aquela mulher é esposa de exatamente um homem — do primeiro, enquanto ele vive; do segundo, depois; e assim até o sétimo. A relação é sempre de um para um, e o fato de ela se repetir sete vezes não a multiplica, porque as sete ocorrências não coexistem.

O que o caso dos saduceus faz, ao enfileirar os sete e guardá-los para a pergunta final, é tirar o tempo da conta. Reunidos todos ao mesmo instante na ressurreição, os sete maridos deixam de ser uma série e passam a ser um conjunto simultâneo — e a relação que funcionava um a um aparece pedindo para funcionar um a sete. É aí que nasce o escândalo, e não no número de casamentos.

Wiggins e a regra de que só contam os dois

O filósofo que formulou com mais rigor por que isso não funciona foi David Wiggins, inglês, em Identidade e Continuidade Espaço-Temporal (1967) e em Mesmidade e Substância (1980).

Wiggins parte de uma exigência que parece óbvia e tem consequências grandes: a identidade é uma relação de um para um. Se A é o mesmo que B, não pode haver um terceiro, C, também o mesmo que A e distinto de B. Duas coisas não podem ser uma só, e uma coisa não pode ser duas.

Dessa exigência ele deriva o que chamou de regra de que só contam os dois. A pergunta "A é o mesmo que B?" tem de ser respondida por fatos a respeito de A e de B, e por nada mais. Se a resposta depender do que acontece com C — se eu precisar saber se existe um terceiro candidato, ou o que ele fez, para decidir sobre os dois primeiros —, então o que estou usando não é uma relação de identidade. É outra coisa, que empresta o nome.

Wiggins acrescenta uma segunda exigência, e ela também vem a propósito: toda pergunta de identidade precisa dizer "o mesmo quê". Não existe ser o mesmo em geral; existe ser o mesmo homem, o mesmo rio, a mesma casa — e é o tipo de coisa que fornece as condições pelas quais ela continua existindo. Pergunta sem esse complemento não tem como ser respondida, porque não se sabe o que se está perguntando.

O caso dos sete irmãos lido com essa régua

Aplique a regra de que só contam os dois à pergunta que os saduceus estão montando.

"Esta mulher é esposa deste homem?" — para responder, seria preciso saber o que os outros seis fizeram. Se nenhum deles tivesse casado com ela, a resposta sairia na hora. Como todos casaram, a resposta passa a depender de fatos sobre terceiros. A relação invocada deixa de ser a que a lei estabelecia entre duas pessoas e vira uma disputa de prioridade entre sete.

Era o casamento, naquele direito, uma relação exatamente com o perfil que Wiggins descreve: repetível ao longo do tempo, não multiplicável no mesmo instante. A unicidade não era um detalhe acrescentado à relação; fazia parte dela, como o "um para um" faz parte da identidade. E o que este versículo faz, ao somar os sete, é retirá-la sem anunciar.

Repare que Jesus não tenta restaurar a unicidade. Não diz que vale o primeiro, nem o último, nem que haverá alguma regra de desempate. Em Mateus 22:30, ele retira a própria relação: na ressurreição não se casam nem são dados em casamento. Sem a relação, não há o que ser único nem o que ser múltiplo, e a pergunta se dissolve em vez de ser respondida.

A advertência de método vale aqui como sempre: Wiggins escreve sobre metafísica no século XX, não comenta este versículo e não tem tese nenhuma sobre o levirato. A aproximação é leitura do comentarista, e a questão sobre o que faz do ressurreto a mesma pessoa está tratada no estudo de Mateus 22:30. O que esta lente oferece é um diagnóstico do argumento — o defeito não está no número sete, e sim na supressão silenciosa de uma condição que fazia parte da relação invocada.

7. Aplicações Práticas

Pergunte o que está dentro do "e assim por diante"

Seis mortes cabem num advérbio, e é dentro de advérbios como esse que as pessoas desaparecem.

Vale para relatórios, para processos e para conversas de família: quando alguém diz "e o resto foi igual", convém abrir. Às vezes foi igual; às vezes o resumo está escondendo justamente o caso que mudaria a conclusão. A pergunta é curta — "igual como?" — e muda discussões.

O exercício inverso também serve. Quando você é quem resume, note o que está pondo no "e assim por diante" e verifique se é por economia ou por conveniência.

Reduza a série ao mínimo antes de responder

Se um argumento se apoia numa pilha de casos, tire os casos um a um e veja em que ponto ele deixa de funcionar.

Se continua de pé com um exemplo, o resto era volume. Se desaba, o que o sustentava era a repetição, e não a questão. Esse teste custa trinta segundos e dispensa erudição nenhuma.

Cumprir a regra não garante o resultado

Sete irmãos cumpriram o dever e a família acabou extinta.

Há obrigações cujo propósito depende de algo que não está nas mãos de quem obedece. Reconhecer isso evita dois erros frequentes: cobrar de si mesmo um resultado que a obediência não produz, e julgar quem cumpriu tudo e não obteve nada.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que o texto não narra o quarto, o quinto e o sexto?

Porque dois exemplos bastam para estabelecer o padrão, e o grego tem uma fórmula para fechar a série.

"Até os sete" indica o esgotamento do conjunto, e não a chegada ao último da fila. Nomeados o segundo e o terceiro, o ouvinte já sabe o que acontece com cada um, e completa sozinho. Marcos 12:21-22 faz diferente: repete os verbos no segundo irmão e só depois salta. Lucas 20:31 fica no meio. Mateus é o mais econômico dos três, como em muitos outros episódios que ele compartilha com Marcos.

A lei dizia qual irmão devia cumprir o dever?

O texto de Deuteronômio não diz; a tradição posterior diz.

O tratado Yevamot fixa que a obrigação recai sobre o mais velho entre os sobreviventes, e que, se ele recusar, passa-se aos demais por idade, voltando ao mais velho se nenhum aceitar. Yevamot 4:6 nega ainda ao cunhado o direito de adiar o cumprimento alegando que espera um irmão menor crescer ou um irmão ausente voltar.

A ordem dos saduceus — primeiro, segundo, terceiro — coincide com essa regra. A Mishná, porém, é mais de um século posterior à cena, e não se pode supor que todas as suas regras já valessem.

Esses sete casamentos eram válidos?

Pela lei de Deuteronômio, sim; e é o que o caso precisa.

Se algum deles fosse irregular, haveria resposta fácil para a pergunta final: a mulher seria esposa apenas dos maridos legítimos. Os saduceus fecham essa saída ao fazer de todos irmãos de sangue e de todos cumpridores do dever. É um dos muitos pontos em que o cenário é construído para não deixar brecha.

A tensão com Levítico 18:16, que proíbe tomar a mulher do irmão, continua existindo e não é mencionada — ela só atrapalharia o argumento. O assunto está tratado no estudo de Gênesis 38:8.

Uma família assim poderia existir?

As sete mortes, isoladamente, não são inverossímeis.

Adultos jovens morriam com frequência naquele mundo, por doença, ferimento, surto ou violência, e perder vários filhos adultos num intervalo curto não era raro. O que torna o caso improvável é a soma: sete casamentos consumados, nenhum filho em nenhum deles, nenhum dos seis cunhados usando o direito de recusa que a lei lhe dava, e nenhuma das famílias envolvidas interrompendo a série depois da segunda morte.

O número sete tem significado aqui?

Tem função, e o significado é discutido.

Na narrativa hebraica, sete é o número da totalidade, e uma série de sete soa completa. Isso explica por que ele produz mais efeito do que dois ou três. Nenhum dos comentários clássicos consultados atribui ao número um sentido simbólico neste versículo, e não há base no texto para fazê-lo: o trabalho que o sete executa é de esgotar as alternativas e de impressionar quem ouve.

O que se pode acrescentar é de ordem literária. A história mais conhecida de sete irmãos que morrem em sequência, na literatura judaica daquele tempo, está no capítulo 7 do segundo livro dos Macabeus — e ali cada irmão morre afirmando que será ressuscitado. A coincidência de estrutura é tratada no item 2.

O que acontece com a viúva depois da morte do sétimo?

Ela fica livre, e é a primeira vez em toda a história que isso ocorre.

Enquanto houvesse cunhado vivo, ela estava proibida de casar fora da família. Esgotados os sete, não há mais a quem o dever obrigue, e ela pode casar com quem quiser — sem filhos, sem posição e provavelmente sem juventude, depois dos anos que a sequência consumiu. O versículo seguinte a mata antes disso.

9. Conexão com Outros Textos

A mesma série nos outros dois evangelhos

Marcos 12:21-22 — "E o segundo tomou-a, e morreu, nem este deixou descendência; e o terceiro da mesma maneira. E os sete tomaram-na e não deixaram descendência."

Lucas 20:31 — "E o terceiro tomou-a, e assim também os sete; e não deixaram filhos, e morreram."

Três graus de economia. Marcos repete os verbos no segundo irmão e nomeia outra vez a ausência de filhos; Lucas abrevia pela metade; Mateus escreve a série sem um único verbo. Os três chegam ao mesmo lugar, e o de Mateus é o mais rápido.

A história de sete irmãos que o judaísmo daquele tempo conhecia

2 Macabeus 7:1-2 — "Sucedeu também que sete irmãos foram presos com a sua mãe, e o rei queria forçá-los a comer carne de porco, contra a lei, torturando-os com açoites e correias. Um deles, falando em nome de todos, disse: Que pretendes perguntar e saber de nós? Estamos prontos a morrer antes que transgredir as leis de nossos pais."

2 Macabeus 7:14 — "Estando já para morrer, assim falou: É melhor morrer nas mãos dos homens, esperando de Deus a esperança de que ele nos ressuscitará; para ti, porém, não haverá ressurreição para a vida."

2 Macabeus 7:23 — "Por isso o Criador do mundo, que formou o homem no seu nascimento e descobriu a origem de todas as coisas, vos devolverá por misericórdia o espírito e a vida, porque agora vos desprezais a vós mesmos por amor das suas leis."

Sete irmãos, mortes em sequência, do primeiro ao último, e a ressurreição confessada em cada etapa. É o texto mais forte da literatura judaica do período em favor da doutrina que os saduceus negam — e a forma da narrativa é a mesma que eles usam aqui.

A fórmula da repetição em Mateus

Mateus 20:5 — "Saindo de novo por volta da hora sexta e da nona, fez o mesmo."

Mateus 21:36 — "De novo enviou outros servos, em maior número que os primeiros; e os lavradores os trataram da mesma forma."

O mesmo advérbio, e nos dois casos com a mesma função: dispensar a narração de uma etapa repetida. Mateus usa esse recurso em parábolas do próprio capítulo anterior, o que mostra que a compressão deste versículo é hábito dele, e não efeito da fala dos saduceus.

A saída que nenhum dos seis usou

Deuteronômio 25:9 — "Então a cunhada se aproximará dele, na presença dos anciãos, e lhe descalçará o sapato do pé, e lhe cuspirá no rosto, e dirá: Assim se fará ao homem que não edificar a casa de seu irmão."

A lei oferecia a cada cunhado a possibilidade de recusar, ao preço de uma humilhação pública. Seis irmãos tinham essa porta aberta e nenhum a usou — num caso real, depois da terceira morte, é o resultado que se esperaria.

O que a extinção de uma linha significava

Eclesiastes 6:3 — "Se alguém gerar cem filhos, e viver muitos anos, e os dias dos seus anos forem muitos, e se a sua alma não se saciar do bem, e também não tiver sepultura, digo que um aborto é melhor do que ele."

O valor que aquele mundo atribuía à descendência e ao sepulcro mede o tamanho da catástrofe que este versículo descreve: uma casa de sete irmãos acabada sem um único herdeiro, com a lei cumprida sete vezes.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

O mesmo aconteceu com o segundo, com o terceiro, até o sétimo.

Texto grego (Textus Receptus)

Ὁμοίως καὶ ὁ δεύτερος, καὶ ὁ τρίτος, ἕως τῶν ἑπτά.

Transliteração

Homoiōs kai ho deuteros, kai ho tritos, heōs tōn hepta.

Análise palavra por palavra

O primeiro dado deste versículo é o que ele não tem: verbo. São seis palavras gregas, todas do grupo nominal e adverbial, sem nenhuma forma verbal. A frase vive inteiramente do versículo anterior, de onde o leitor tem de trazer "casou-se", "morreu", "não teve filhos" e "deixou a mulher ao irmão". O português não suporta isso e precisa acrescentar "aconteceu".

Ὁμοίως — homoiōs, "do mesmo modo", "igualmente". Advérbio formado de homoios, "semelhante", que por sua vez vem de homos, "o mesmo".

Na família dessa palavra está homoiōma, "semelhança", e o verbo homoioō, "comparar" — o verbo com que Jesus abre as parábolas: "o reino dos céus é semelhante a". Aqui, porém, o advérbio não compara nada: ele substitui uma narração. Mateus o usa com essa função em Mateus 20:5, na parábola dos trabalhadores, e em Mateus 21:36, na dos lavradores, nos dois casos para dispensar a repetição de uma etapa.

καὶ ὁ δεύτερος, καὶ ὁ τρίτος — kai ho deuteros, kai ho tritos, "também o segundo, e o terceiro". Dois ordinais substantivados pelo artigo: não "o segundo irmão", mas "o segundo", como item de lista. A repetição da conjunção kai antes de cada um marca a cadência da enumeração.

Deuteros está na origem do nome do livro de Deuteronômio, "segunda lei", que é como a versão grega do Antigo Testamento interpretou o livro em que a legislação é reapresentada — e é justamente o livro de onde vem a lei que os saduceus citaram.

ἕως τῶν ἑπτά — heōs tōn hepta, "até os sete". A tradução portuguesa escreve "até o sétimo", e o grego não diz isso.

Heōs é a preposição de limite, "até", que marca o ponto em que algo cessa. O que vem depois dela, porém, não é o ordinal "sétimo": é o numeral cardinal "sete", no plural e com artigo. Ao pé da letra: "até os sete".

Os comentaristas pararam nesse detalhe. O Pulpit Commentary glosa a expressão como "até os sete — até o fim dos sete". O Expositor's Greek Testament entende "até que o número se esgotasse pela morte" e cita a formulação de Fritzsche (Karl Friedrich August Fritzsche, filólogo alemão do século XIX), que em latim escreve: até que aqueles sete estivessem extintos.

A diferença de sentido é real. "Até o sétimo" descreve uma fila percorrida e sugere que no fim há alguém: o último. "Até os sete" descreve um conjunto esgotado e não sugere nada no fim — acabaram os sete. É a segunda leitura que o grego autoriza, e é dela que depende a pergunta do versículo 28: a mulher não ficou com o último, ficou sem nenhum.

O numeral hepta, aliás, não é declinado em grego, e por isso o plural quem o marca é o artigo tōn. Sem o artigo, a expressão ficaria ambígua; com ele, fica claro que se fala do grupo, tratado como unidade.

As variantes

Neste versículo não há divergência de palavras entre as edições do texto grego. É caso raro: os versículos vizinhos têm todos alguma.

As diferenças são três e todas de impressão. Scrivener inicia com maiúscula, Ὁμοίως, enquanto a edição da Sociedade Bíblica, Nestle, Westcott e Hort, Tischendorf e a edição grega ortodoxa de 1904 usam minúscula. Scrivener põe vírgula depois de δεύτερος, e as demais não. E Scrivener fecha com ponto, enquanto a maioria das edições críticas fecha com ponto alto, sinal que em grego moderno equivale ao nosso ponto e vírgula — o que liga este versículo ao seguinte em vez de separá-lo.

Essa última escolha tem efeito na leitura. Com ponto, a série dos irmãos se encerra e a morte da mulher começa frase nova. Com ponto alto, as duas coisas ficam na mesma respiração: os sete se esgotaram, e depois de todos ela também. Nenhum manuscrito antigo decide a questão, porque não tinham pontuação; a escolha é dos editores modernos.

11. Conclusão

Da ausência de verbo decorre o que este versículo é: não uma etapa da narrativa, mas uma operação sobre ela. Seis casamentos e seis mortes passam a existir por dedução, a partir do que foi dito do primeiro irmão. O português precisa inventar um verbo para traduzir a frase; o grego a escreve sem nenhum.

Da expressão "até os sete" decorre a condição que torna possível a pergunta final. O que se esgota é o conjunto, não a fila — a viúva não termina casada com o último, termina sem nenhum. Se o texto dissesse "até o sétimo", haveria um marido vivo ao fim da história, e a questão do versículo 28 não se poria nos termos em que se põe.

Da comparação com Marcos e Lucas decorre que a compressão é de Mateus, e que ela é hábito dele. O mesmo advérbio dispensa etapas repetidas em duas parábolas do capítulo anterior. Não se pode atribuir à fala dos saduceus um efeito que o evangelista produz em toda parte.

E da forma da história decorre a ironia mais funda do episódio. Sete irmãos que morrem em sequência é o desenho do relato judaico mais célebre em favor da ressurreição, onde cada um a confessa antes de morrer. Aqui, a mesma sequência é construída para que a ressurreição pareça indecente. Não é possível decidir se a coincidência foi buscada, e o que ela mostra, de qualquer modo, é que uma forma narrativa não carrega a tese de ninguém — serve igualmente a quem crê e a quem caçoa.

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Mateus 22:26

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