De novo enviou outros servos, em maior número que os primeiros; e os lavradores os trataram da mesma forma.
1. Introdução
Depois de ter um servo espancado, outro morto e outro apedrejado, o dono não manda soldados. Manda mais servos, e mais numerosos que os primeiros. Os lavradores fazem com eles exatamente o que fizeram antes. O versículo levanta uma pergunta que qualquer ouvinte do campo faria: que proprietário agiria assim? E a resposta muda conforme se lê a parábola como história de fazenda ou como retrato de Deus.
2. Contexto Histórico e Cultural
Enviar de novo: a forma como Israel contava a própria história
O segundo envio não é invenção da parábola. Ele reproduz um modo de narrar que os livros de Israel repetem com as mesmas palavras. Quando o reino do Norte caiu, o livro dos Reis explicou a queda assim: o SENHOR advertiu Israel e Judá “por meio de todos os seus profetas e videntes”, dizendo “voltem dos seus maus caminhos”, “mas eles não quiseram ouvir” (2 Reis 17:13-14). O resumo não fala de um profeta. Fala de envios sucessivos, ao longo de gerações.
Jeremias dá a esse padrão uma medida de tempo. No ano em que Nabucodonosor subiu ao trono, ele diz ao povo: “há vinte e três anos a palavra do SENHOR vem a mim, e eu a tenho anunciado a vocês, insistentemente, e vocês não ouviram” — e acrescenta que, além dele, o SENHOR mandou “todos os seus servos, os profetas”, também sem resultado (Jeremias 25:3-4). Em outro discurso, a mesma insistência vem com um agravante: cada geração “fez pior do que os seus pais” (Jeremias 7:25-26). Do lado de quem envia, a insistência; do lado de quem recebe, a recusa que se agrava.
Os “primeiros profetas”
Depois do exílio, a expressão ganhou um nome. O profeta Zacarias, falando por volta de 520 antes de Cristo, abre o seu livro lembrando aos ouvintes “os primeiros profetas”, que tinham gritado aos pais deles “voltem dos seus maus caminhos”, e os pais não ouviram (Zacarias 1:4; também 7:7 e 7:12). Para a comunidade que voltava da Babilônia, havia duas levas de mensageiros: os de antes da destruição de Jerusalém e os do retorno. Os “primeiros” de Mateus 21:36 ecoam, provavelmente sem intenção técnica, esse vocabulário.
A paciência posta em números
A mesma oração de Neemias que confessa a morte dos profetas diz, quatro versículos depois, como Deus reagiu: “por muitos anos tiveste paciência com eles e os advertiste pelo teu Espírito, por meio dos teus profetas; mas eles não deram ouvidos” (Neemias 9:30). E o último livro da Bíblia hebraica, na ordem judaica, encerra a história do reino de Judá com o envio repetido e o seu limite: Deus mandou mensageiros “insistentemente, porque tinha compaixão do seu povo”, mas eles zombaram dos mensageiros, desprezaram as suas palavras e riram dos profetas, “até que o furor do SENHOR subiu contra o seu povo, e não houve mais remédio” (2 Crônicas 36:15-16).
Esse é o arco que a parábola percorre: envio, mais envio, recusa crescente, e um ponto em que não há mais o que mandar. A palavra hebraica que as traduções antigas verteram por “madrugando e enviando” — a imagem de quem se levanta cedo para mandar o recado — já foi explicada no estudo de Gênesis 22:3. Para o versículo, conta a ordem dos acontecimentos: nas Escrituras de Israel, a paciência de Deus aparece sempre como envio repetido, nunca como silêncio.
O que um proprietário de verdade faria
Do ponto de vista da vida rural, mandar um grupo maior depois de uma morte tem lógica limitada. Um grupo grande intimida mais, testemunha melhor e é mais difícil de matar inteiro. É a tentativa natural de quem está longe e não dispõe de força armada. Mas os servos continuam desarmados, e o dono continua ausente. Nenhum proprietário que tivesse meios de coerção ficaria nisso, e a parábola gêmea de Mateus mostra o que se esperava de um senhor poderoso: o rei do banquete, depois que matam os seus servos, “enviou os seus exércitos” (Mateus 22:7). O dono da vinha, ao contrário, insiste em mandar gente que só leva a palavra.
3. Análise Teológica do Versículo
“De novo enviou outros servos”
O versículo começa com “de novo”, e a palavra tem peso: diz que o dono repete o gesto, como se nada tivesse acontecido. O mesmo início, palavra por palavra, abre a segunda chamada do banquete de casamento: “De novo enviou outros servos” (Mateus 22:4).
A decisão vem depois de um assassinato. Na sequência de Marcos, o dono manda um servo por vez e só depois do terceiro, já morto, vêm “muitos outros” (Marcos 12:5). Em Lucas, o dono manda um segundo e um terceiro servo, e nenhum morre (Lucas 20:11-12). Mateus organiza tudo em dois blocos: uma leva já sofreu as três violências, e o dono responde com uma leva maior. O tamanho da paciência é desenhado pelo tamanho do crime que ela atravessa.
Por que um proprietário faria isso? É aqui que a parábola deixa de ser verossímil, e a história da interpretação dividiu-se diante disso. Primeira leitura: a falta de verossimilhança mostra que a história é alegoria e não deve ser lida como relato rural. Adolf Jülicher (exegeta alemão, autor de uma obra sobre as parábolas publicada entre 1886 e 1899) foi mais longe: como as parábolas autênticas de Jesus seriam comparações simples, com um ponto só, uma história tão carregada de alegoria seria criação da igreja. Segunda leitura: o relato é realista. C. H. Dodd (Charles Harold Dodd, biblista britânico, no livro As parábolas do Reino, de 1935) argumentou que a Galileia do primeiro século conhecia bem proprietários ausentes e arrendatários revoltados, e que a sequência de envios é o que um dono sem força faria. Terceira leitura: há uma camada de cada coisa. Joachim Jeremias (exegeta alemão do século XX, no estudo clássico As parábolas de Jesus) aceitava um núcleo realista, mas via nos dois grupos de Mateus um retoque alegórico: as duas levas corresponderiam às duas séries de profetas, os anteriores e os posteriores. Não há consenso; o que as três leituras admitem é que, como conduta de fazendeiro, o segundo envio é no mínimo excessivo. O excesso maior — mandar o filho depois disso — é tratado no estudo de Mateus 21:37.
“em maior número que os primeiros”
A palavra grega que a ABC traduz por “em maior número” pode significar duas coisas: “mais numerosos” ou “maiores”, de mais valor. O mesmo comparativo aparece em Mateus para “alguém maior do que Jonas” (Mateus 12:41). As duas leituras têm defensores.
Primeira leitura: mais numerosos. É a do Expositor's Greek Testament (comentário inglês ao texto grego, publicado entre 1897 e 1910) e a do Pulpit Commentary (“Comentário do Púlpito”, obra coletiva inglesa do século XIX). O Expositor's admite que “maiores” é tradução legítima, mas a julga improvável. É também a leitura da ABC.
Segunda leitura: maiores em dignidade. Bengel (Johann Albrecht Bengel, comentarista luterano alemão do século XVIII) entende “superiores — certamente em número, e sem dúvida também em valor”. Para ele, os primeiros servos seriam os profetas do tempo dos reis, e os segundos, os que floresceram perto do exílio na Babilônia.
Quem lê os servos como profetas teve de decidir quem seriam os “segundos”. Bengel fica com os profetas do exílio. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) inclui os que sofreram no tempo dos Macabeus. Ellicott (Charles John Ellicott, bispo anglicano e comentarista do século XIX) fala dos profetas posteriores, com mensagem mais plena, até João Batista — o último a ser morto antes do filho, e o nome que acabou de aparecer neste capítulo (Mateus 21:25-32). Nenhuma dessas identificações está no texto. São tentativas de fazer a parábola coincidir com uma cronologia, e cada uma escolhe a sua.
“e os lavradores os trataram da mesma forma”
Mateus não descreve de novo o que aconteceu. Diz só “da mesma forma”. A economia é eloquente: do lado do dono houve mudança — mais servos, talvez melhores; do lado dos lavradores, nenhuma. A nova chance recebe a resposta velha.
E “a mesma forma”, aplicada a um grupo maior, significa mais vítimas. Se a primeira leva teve espancados, mortos e apedrejados, a segunda teve mais de cada um. A paciência do dono não diminui a violência; multiplica os que a sofrem. É o lado da parábola que a pregação costuma pular: quem paga o preço da insistência do dono são os servos.
O que a paciência significa — e o que não significa
A leitura mais comum do versículo é a da paciência divina. O Pulpit Commentary diz que a bondade do dono “não se cansou” e que cada passo da maldade foi respondido com novo apelo. A leitura tem apoio nas orações e nos profetas de Israel e no próprio Mateus, que manda perdoar “setenta vezes sete” (Mateus 18:22).
Mas a paciência da parábola tem forma determinada: ela envia gente, não deixa de enviar. E tem fim. O versículo 37 é o último envio, e o versículo 41 é o juízo. Ler o versículo 36 como prova de que a paciência de Deus não tem limite é ler só metade da história. Lê-lo, ao contrário, como prova de que a paciência acabou para um povo inteiro é saltar para uma conclusão que o versículo não tira e que a história da recepção transformou em doutrina contra os judeus. O versículo diz só isto: houve uma segunda chance maior que a primeira, e ela foi recusada do mesmo jeito.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
O dono
É o único personagem que muda de conduta neste versículo. Recebeu a notícia das violências e decidiu enviar de novo, com mais gente. O texto não diz que ele ficou irado, nem que hesitou. Diz só que enviou.
Os outros servos
Não são os mesmos: o grego diz “outros”, palavra que indica novos indivíduos da mesma espécie. São mais numerosos — ou, numa leitura possível, de mais peso — que a primeira leva. Como os primeiros, não falam e não reagem.
Os lavradores
Repetem a conduta. A parábola não mostra entre eles nem arrependimento, nem divisão, nem medo. O grupo que agiu em bloco no versículo 35 age em bloco de novo.
As figuras históricas propostas para a segunda leva
Os profetas do exílio e do retorno, como Ezequiel, Ageu e Zacarias — este último, o que cunhou a expressão “os primeiros profetas”. Os mártires do tempo dos Macabeus, no século II antes de Cristo, mortos por recusar a religião imposta por Antíoco IV. E João Batista, profeta que o povo reconhecia como tal, preso e decapitado por Herodes Antipas (Mateus 14:3-12) e lembrado por Jesus poucos versículos antes desta parábola. Todas são identificações de comentaristas, não do texto.
O evento
É o segundo dos três envios da parábola. O primeiro foi a cobrança normal (versículo 34); este é a insistência depois do crime; o terceiro será o filho (versículo 37). O versículo é a ponte entre a violência contra os servos e a decisão extrema do dono.
5. Pontos de Ensino
A segunda chance é maior que a primeira. O dono não reduz a oferta depois da recusa; aumenta-a. A parábola descreve uma paciência que cresce justamente quando teria motivo para acabar.
A paciência tem forma: envio. O dono não espera em silêncio que os lavradores mudem. Manda gente. Nas Escrituras de Israel, a paciência de Deus aparece sempre como palavra insistente.
Responder do mesmo jeito é a forma da recusa. Os lavradores não precisam inventar nada de novo. Basta repetir. O endurecimento do versículo é a ausência de qualquer mudança diante de uma situação nova.
A insistência do dono tem custo para os enviados. Mais servos enviados, mais servos feridos e mortos. O texto não romantiza a missão: quem leva a palavra a quem não quer ouvi-la corre o risco que os primeiros correram.
A paciência não é aprovação, e não é infinita. O versículo 36 vem entre a violência do 35 e o juízo do 41. Ele mostra o tempo de espera, não a anulação do julgamento.
6. Aspectos Filosóficos
Desafio repetido, resposta repetida
O versículo põe frente a frente duas condutas. O dono muda: manda mais gente, talvez melhor gente. Os lavradores não mudam: “da mesma forma”. A pergunta filosófica que daí nasce é a de como grupos humanos respondem a desafios que se repetem — e por que tantas vezes respondem a uma situação nova com a resposta velha.
Arnold Toynbee (historiador e filósofo da história britânico, morto em 1975) construiu uma obra de doze volumes em torno dessa pergunta. Um estudo da história (1934-1961) compara cerca de vinte civilizações e propõe que elas crescem respondendo a desafios: um ambiente difícil, uma invasão, uma crise interna. Quando uma minoria criativa encontra a resposta certa, a sociedade avança; quando não encontra, o mesmo desafio volta, até ser respondido ou até a sociedade se desfazer.
A tese mais citada de Toynbee é que as civilizações não morrem assassinadas, mas por suicídio. O colapso, para ele, raramente vem de um golpe externo. Vem de dentro, quando os que dirigem a sociedade passam a idolatrar uma vitória, uma instituição ou uma técnica que deu certo uma vez, e a aplicam de novo a problemas que já são outros. Toynbee chamou isso de “nêmesis da criatividade”: o sucesso de ontem vira a prisão de hoje.
O que o esquema mostra na parábola
Lida com essa lente, a cena tem a estrutura que Toynbee descreve. O primeiro envio era um desafio; os lavradores responderam com violência e, aparentemente, “resolveram” o problema — os servos foram embora ou morreram, e a uva ficou com eles. Quando o desafio volta, maior, eles aplicam a mesma solução. Não há criatividade nenhuma, só repetição. E o fim que virá no versículo 41 não é, propriamente, um golpe externo que os pega de surpresa: eles mesmos o prepararam, envio após envio. É o suicídio de que fala Toynbee, narrado em três versículos.
O próprio Toynbee como advertência
A comparação traz um aviso que vale para este versículo mais do que para qualquer outro. Toynbee aplicou o seu esquema ao povo judeu e chamou o judaísmo posterior à Bíblia de “fóssil” de uma civilização já morta. A expressão provocou reações duras. O escritor Maurice Samuel respondeu com um livro inteiro, The Professor and the Fossil (“O professor e o fóssil”, 1956), e em 1961, em Montreal, Toynbee foi confrontado publicamente pelo diplomata israelense Yaakov Herzog, num debate que ficou célebre. No volume de revisões da obra, publicado no mesmo ano, o próprio Toynbee voltou ao termo e recuou dele em parte.
O episódio mostra o risco de transformar um esquema de história — ou uma parábola — em veredito sobre um povo. A parábola fala de lavradores que repetem a violência; a leitura que a transformou em diagnóstico de “um povo que sempre recusa” fez com ela o que Toynbee fez com a sua teoria. A crítica a essa leitura, no campo da teologia, é desenvolvida no estudo de Mateus 21:43.
Onde a comparação para
Toynbee fala de civilizações inteiras e de séculos; a parábola fala de um pequeno grupo e de uma vinha. E Toynbee não tem, no seu esquema, ninguém que envie os desafios com intenção: para ele, os desafios vêm do ambiente e da história. Na parábola, o desafio é uma pessoa que quer ser reconhecida. O que os lavradores recusam não é um problema; é alguém.
7. Aplicações Práticas
A pergunta que o versículo faz a você é a da repetição. Diante de um aviso que volta — o mesmo conselho de várias pessoas, a mesma crítica em ocasiões diferentes — a reação mais fácil é responder como da última vez. Se o aviso voltou maior, talvez o problema não seja de quem avisa.
A paciência que você recebe não prova que você está certo. Os lavradores podiam ter lido a insistência do dono como fraqueza. Era o contrário: era o tempo que lhes restava. Quem é tolerado por muito tempo tende a confundir tolerância com aprovação.
Quem insiste em levar uma palavra difícil precisa contar com o custo. A segunda leva de servos sabia o que tinha acontecido à primeira. A parábola não promete que os enviados serão poupados. Promete só que o dono não esquecerá o que foi feito a eles.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
O dono foi irresponsável com os servos?
Como conduta de fazendeiro, mandar mais gente desarmada a quem já matou é expor vidas sem necessidade. A parábola não esconde o problema e não o resolve. Quem a lê como imagem de Deus encontra aqui uma questão real: os mensageiros pagam com o corpo o preço da paciência divina. As Escrituras não respondem com uma explicação; respondem com a promessa de que o sangue dos enviados será cobrado (Mateus 23:35) e com a afirmação de que os perseguidos estão na linha dos profetas (Mateus 5:12). É resposta de fé, não de lógica.
A paciência de Deus tem limite?
Segundo o arco que a parábola percorre, tem. O livro das Crônicas fala do momento em que “não houve mais remédio” (2 Crônicas 36:16), e a própria parábola chega ao juízo no versículo 41. O versículo 36 não descreve a paciência sem fim; descreve o tempo de paciência antes do fim. Onde fica esse limite, para cada pessoa ou comunidade, o texto não diz.
“Mais numerosos” corresponde à história real dos profetas?
Não com facilidade. Depois do exílio, os profetas ficaram mais raros, e uma parte da tradição judaica chegou a dizer que a profecia tinha cessado. Se a segunda leva fosse uma contagem literal, ela deveria ser menor, não maior. É um dos argumentos de quem lê “maiores” no lugar de “mais numerosos”, e também de quem prefere não ler a parábola como cronologia.
Por que o dono não enviou logo o filho?
Dentro da história, porque o filho é o último recurso, e ninguém começa pelo último. Fora dela, a ordem tem sentido teológico: o filho vem depois de todos os servos, e a sua vinda só se entende depois que se viu o que aconteceu com eles.
9. Conexão com Outros Textos
O mesmo momento nos outros evangelhos
Marcos 12:5 — “E enviou ainda outro, e a este mataram; e muitos outros, espancando uns e matando outros.”
Tradução livre a partir do Textus Receptus. Os “muitos outros” de Marcos correspondem à segunda leva de Mateus.
Lucas 20:11-12 — “E tornou a enviar outro servo; mas também a este espancaram, insultaram e mandaram embora de mãos vazias. E tornou a enviar um terceiro; mas também a este feriram e lançaram fora.”
Tradução livre. Em Lucas, a insistência é contada servo por servo.
A parábola gêmea
Mateus 22:4 — “De novo enviou outros servos, dizendo: ‘Digam aos convidados: Já preparei o meu banquete; meus bois e meus animais engordados já foram abatidos, e tudo está pronto. Venham ao banquete de casamento.’”
O mesmo começo, palavra por palavra, no original.
Mateus 22:7 — “Ao saber disso, o rei ficou furioso. Enviou os seus exércitos, destruiu aqueles assassinos e incendiou a cidade deles.”
O rei responde com tropas. O dono da vinha, depois da mesma violência, responde com mais servos.
O envio insistente nas Escrituras de Israel
Jeremias 7:25-26 — “Desde o dia em que os pais de vocês saíram do Egito até hoje, eu enviei a vocês todos os meus servos, os profetas, dia após dia, insistentemente. Mas não me ouviram… fizeram pior do que os seus pais.”
Zacarias 1:4 — “Não sejam como os seus pais, a quem os primeiros profetas clamavam: ‘Voltem dos seus maus caminhos’; mas eles não ouviram.”
Neemias 9:30 — “Por muitos anos tiveste paciência com eles e os advertiste pelo teu Espírito, por meio dos teus profetas; mas eles não deram ouvidos.”
A paciência no Novo Testamento
Mateus 18:22 — “Jesus respondeu: ‘Eu não digo a você até sete, mas até setenta vezes sete.’”
A paciência que se pede aos discípulos tem a mesma forma: repetir a oferta.
2 Pedro 3:9 — “O Senhor não demora a cumprir a sua promessa, como alguns pensam; mas é paciente com vocês, não querendo que ninguém se perca.”
Tradução livre. A demora lida como paciência, não como ausência.
Romanos 2:4 — “Ou você despreza a riqueza da sua bondade, tolerância e paciência, sem reconhecer que a bondade de Deus o leva ao arrependimento?”
Tradução livre. O risco dos lavradores: confundir paciência com consentimento.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
De novo enviou outros servos, em maior número que os primeiros; e os lavradores os trataram da mesma forma.
Texto grego (Textus Receptus)
Πάλιν ἀπέστειλεν ἄλλους δούλους πλείονας τῶν πρώτων· καὶ ἐποίησαν αὐτοῖς ὡσαύτως.
Transliteração
Palin apesteilen allous doulous pleionas tōn prōtōn; kai epoiēsan autois hōsautōs.
Uma nota sobre o texto
O Textus Receptus (“texto recebido”, a edição grega do século XVI que a ABC segue) e as edições críticas trazem aqui o mesmo texto. Conferido no interlinear do Bible Hub e na edição de Scrivener publicada pelo eBible. O grego não tem a palavra “lavradores” na segunda frase; diz só “e fizeram a eles”. A ABC explicita o sujeito, que é claro pelo contexto.
Análise palavra por palavra
Πάλιν — palin, advérbio, “de novo, outra vez”. Abre o versículo sem conjunção, o que lhe dá ênfase: a primeira informação é a repetição. A ABC verte “de novo enviou”, como traduz o mesmo começo em Mateus 22:4.
ἀπέστειλεν — apesteilen, aoristo de apostellō, “enviar com uma missão”, o mesmo verbo de Mateus 21:34 e de 21:37. Aqui a edição de Scrivener traz o n final, porque a palavra seguinte começa por vogal.
Lucas 20:11-12 diz a mesma coisa com outra construção: prosetheto pempsai, literalmente “acrescentou enviar”. É um decalque do hebraico, que diz “tornar a fazer” com o verbo “acrescentar” seguido de outro verbo. Lucas imita o grego da Septuaginta; Mateus usa o advérbio comum.
ἄλλους δούλους — allous doulous, “outros servos”. Allos é “outro”, em geral da mesma espécie; Lucas 20:11 usa heteros, que às vezes marca diferença maior. Os servos são novos, mas são servos como os primeiros, com a mesma função.
πλείονας τῶν πρώτων — pleionas tōn prōtōn, “mais do que os primeiros”. Pleionas é acusativo masculino plural de pleiōn, comparativo de polys, “muito”. O genitivo tōn prōtōn é o termo de comparação: “do que os primeiros”.
O comparativo serve tanto para quantidade (“mais numerosos”) quanto para qualidade (“maiores, de mais valor”). Em Mateus 6:25 (“a vida não é mais do que o alimento?”) e Mateus 12:41 (“alguém maior do que Jonas”) o sentido é de valor; em Mateus 26:53 (“mais de doze legiões”) é de número. Aqui, aplicado a pessoas e logo depois de uma contagem de três, o sentido de número é o mais natural. O de valor continua possível, e é o que Bengel defende.
Prōtōn é genitivo plural de prōtos, “primeiro”. Significa os primeiros na ordem do tempo, mas a palavra também quer dizer “os principais” — é a mesma de “os primeiros serão últimos” (Mateus 19:30; 20:16). No versículo, o sentido é só de ordem: os da primeira leva.
καὶ ἐποίησαν αὐτοῖς — kai epoiēsan autois, “e fizeram a eles”. Aoristo de poieō, “fazer”, com dativo de pessoa: fazer algo a alguém. O verbo é genérico de propósito; o conteúdo do que foi feito está no versículo anterior.
ὡσαύτως — hōsautōs, “do mesmo modo”. O advérbio evita repetir uma cena já contada, e a sua análise (formação, ocorrências em Mateus, a função de resumo) está no estudo de Mateus 20:5. Aqui ele resume três verbos de violência numa palavra só: espancaram, mataram e apedrejaram, como antes.
11. Conclusão
O dono respondeu a um assassinato com uma oferta maior, e os lavradores responderam à oferta maior com a mesma violência. Conclui-se que, na parábola, a paciência não é passividade: ela se manifesta como envio, e envio com custo para quem é enviado.
Conclui-se também que a recusa dos lavradores se define pela falta de mudança. Diante de uma situação nova, eles não deliberam, não negociam, não recuam. A palavra “da mesma forma” é o retrato deles.
E conclui-se, por fim, que o versículo prepara o que vem e não o substitui. Ele não prova que a paciência do dono não tem fim, nem que acabou para alguém. Mostra o tempo entre a primeira recusa e a última oferta — o tempo em que ainda era possível responder de outro jeito.













