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Mateus 22:7

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✍️ Por Alberto Adriano·21 de outubro de 2026·⏱️ 20 min de leitura·👁 3 acessos
Ao saber disso, o rei ficou furioso. Enviou os seus exércitos, destruiu aqueles assassinos e incendiou a cidade deles.
Tropas incendiando uma cidade amuralhada à distância, com colunas de fumaça subindo sobre os telhados

Estudo


Ao saber disso, o rei ficou furioso. Enviou os seus exércitos, destruiu aqueles assassinos e incendiou a cidade deles.

1. Introdução

Um exército entra numa parábola sobre um casamento.

É a ruptura mais discutida do Evangelho de Mateus. Até aqui a história tinha a escala de uma casa: convites, servos, um salão posto. De repente há tropas, uma cidade em chamas e assassinos destruídos — e, três versículos adiante, a comida ainda estará quente e os convidados novos serão trazidos da rua.

O rei "ficou furioso", diz o texto, e a palavra grega é a da ira que se instala. Mas o versículo não descreve um acesso: descreve uma operação militar, com envio de tropas, eliminação dos culpados e destruição do lugar onde moravam.

São três perguntas numa linha só. Por que um exército numa festa? Por que a cidade inteira? E o que se faz com esse rei, se ele é figura de Deus?

2. Contexto Histórico e Cultural

A represália era o procedimento, não a exceção. Josefo descreve repetidamente o ciclo que a Judeia conheceu no primeiro século: um ultraje local, uma guarnição enviada, a aldeia queimada, os responsáveis crucificados. Sob Varo, depois da morte de Herodes, Sêforis foi incendiada e a população vendida como escrava; sob Félix e Floro, operações semelhantes atingiram povoados inteiros. Quem ouvia a parábola em Jerusalém não precisava imaginar o versículo 7 — tinha visto.

A destruição da cidade do ofensor tinha nome e doutrina. A prática romana da punição coletiva baseava-se na ideia de que a comunidade responde pelos seus. Cidades que acolhiam rebeldes, ou que não os entregavam, eram tratadas como cúmplices. O incêndio não era excesso de fúria: era o instrumento previsto, e o seu efeito pretendido era pedagógico, dirigido às outras cidades que assistiam.

O que "exércitos" significa no plural. O grego traz o substantivo no plural, o que no uso militar do período designa destacamentos, corpos de tropa — não a convocação do reino inteiro. Trata-se de uma operação de polícia em escala, não de uma guerra. A distinção importa para medir a cena: é a resposta padrão de um Estado a uma revolta localizada.

O incêndio de Jerusalém em 70 d.C. Quando a cidade caiu diante de Tito, o templo foi queimado e a cidade, arrasada. Para leitores que conheciam esse desfecho, a frase deste versículo soava de um modo que não soava antes dele. A relação entre o texto e aquele acontecimento é um dos pontos mais debatidos do estudo de Mateus, e o argumento de datação construído a partir desta linha está desenvolvido em Mateus 21:43.

Sêforis, a quatro horas de Nazaré. O caso mais próximo geograficamente é também o mais documentado. Depois da morte de Herodes, em 4 a.C., um levante tomou o arsenal de Sêforis; Varo, governador da Síria, desceu com duas legiões, incendiou a cidade e vendeu os habitantes como escravos. Josefo registra, no mesmo contexto, a crucificação de dois mil homens. Nazaré fica a poucos quilômetros dali, e Jesus nasceu pouco antes desses acontecimentos. A geração que ouvia a parábola tinha crescido com essa memória viva.

O que custava uma cidade queimada. As escavações em sítios destruídos do período mostram camadas de incêndio com cerâmica fundida e vigas carbonizadas, e reocupação apenas décadas depois, quando há. A destruição por fogo não era gesto simbólico: eliminava o estoque de grão, os arquivos de dívida, as prensas e as cisternas. Uma cidade queimada deixava de existir economicamente mesmo que parte da população sobrevivesse.

A doutrina romana da responsabilidade da comunidade. O princípio que sustentava essas operações era o de que a cidade responde pelos atos cometidos em seu território e pelos culpados que abriga. Não era arbítrio do comandante: era a regra, e os governados a conheciam. Por isso, nas crises da Judeia, as autoridades locais costumavam entregar os responsáveis depressa — entregar um era o modo de salvar todos. Na parábola, ninguém entrega ninguém.

3. Análise Teológica do Versículo

"Ao saber disso"

O rei não estava lá. A informação chega até ele, e o texto marca isso com um particípio que indica audição: ele ouviu. Entre o crime e a reação há um intervalo, e nesse intervalo alguém contou.

O detalhe é pequeno e tem consequência. Afasta a leitura de um rei onisciente que vê tudo em tempo real — dentro da história, ele é um soberano comum, que depende de relato. E insere um espaço entre o ato e a resposta: a reação não é reflexo, é decisão tomada depois de informado.

"o rei ficou furioso"

O verbo grego descreve a entrada no estado de ira, e o seu uso em Mateus está analisado em Mateus 18:34, onde outro rei se enfurece e entrega um devedor aos carrascos.

O que cabe observar aqui é a posição da palavra na frase. A ira vem antes do envio das tropas, e o texto a nomeia explicitamente. Não se trata de um soberano que aplica a lei com frieza: trata-se de um que se encoleriza e age. Quem quiser ler o rei como figura de Deus terá de decidir o que fazer com esse dado, e a tradição se dividiu exatamente aí.

"Enviou os seus exércitos"

O verbo é o mesmo com que ele enviara os servos, nos versículos 3 e 4. A repetição é deliberada e devastadora: a terceira remessa do rei não leva convite, leva tropa. O que mudou não foi a disposição de enviar — foi o que é enviado.

E os exércitos são "seus". O possessivo, que nos versículos anteriores marcava os servos e o banquete, marca agora as forças armadas. O mesmo rei que expôs o próprio gasto dispõe de poder militar, e dispôs dele desde o começo. A parábola informara isso na segunda palavra da história, ao chamá-lo de rei, e o leitor não deu importância — exatamente como os convidados.

"destruiu aqueles assassinos"

O verbo de destruição e a sua ocorrência em Mateus estão tratados em Mateus 21:41. Aqui interessa o substantivo: assassinos. É a primeira vez que o texto qualifica os convidados, e a qualificação se aplica a um grupo — os do versículo 6, que mataram. Não se diz "os convidados": diz-se "aqueles assassinos", com um demonstrativo que isola.

Há, portanto, uma precisão no alvo que a frase seguinte vai desfazer.

"e incendiou a cidade deles"

Aqui está o problema do versículo, e ele não se resolve com boa vontade.

A destruição dos assassinos é punição dirigida. O incêndio da cidade é punição coletiva: atinge quem não matou, quem não foi convidado, quem nada soube. A frase passa, em cinco palavras, da justiça individual à destruição indiscriminada, e o texto não comenta a passagem.

Três leituras disputam esse espaço desde a Antiguidade, e convém expô-las sem escolher antes da hora.

A primeira trata a cena como verossimilhança do gênero. Parábolas usam o repertório do mundo que descrevem, e naquele mundo era isso que um rei fazia. O incêndio não ensina nada sobre o rei: apenas mantém a história plausível. O problema dessa leitura é que o detalhe é longo demais para ser cenário — ocupa metade do versículo.

A segunda lê o incêndio como consequência, não como vingança. A cidade arde porque se pôs em guerra com o rei, do modo como quem desafia o mar se afoga. Nessa leitura o verbo ativo é uma convenção de linguagem, e o que o texto descreve é o resultado natural de uma recusa levada às últimas. O problema é que o texto escreve "enviou" e "incendiou" com o rei como sujeito, e não cabe ao leitor passar a frase para a voz passiva.

A terceira aceita a dureza do retrato e a lê como deliberada. A parábola estaria dizendo que a recusa ao convite não é um assunto privado com consequências privadas: ela destrói a cidade, isto é, a vida comum de todos. Nessa leitura o incêndio não é castigo imposto de fora, mas descrição do que acontece a uma comunidade que mata quem lhe traz um chamado. É a leitura mais difícil e a que menos força o texto.

O problema de enredo que ninguém resolve

Resta a incoerência que os comentaristas notam desde cedo e que nenhum harmoniza bem: uma campanha militar leva semanas, e no versículo 10 o salão está cheio e a comida, servida. Os bois foram abatidos naquela manhã.

As explicações disponíveis são três, e todas custam algo. A de que o versículo é acréscimo posterior, costurado depois de 70 d.C., resolve o enredo e cria um problema de crítica textual — não há testemunho manuscrito sem ele. A de que parábolas não respondem a perguntas de verossimilhança é verdadeira em geral e preguiçosa aqui, porque a quebra é grande demais para passar despercebida a quem escreveu. A terceira, mais sóbria, observa que o evangelista está contando duas coisas ao mesmo tempo — uma história e um padrão histórico — e que, no ponto em que elas se cruzam, a história cede.

Essa última não é uma solução, é um diagnóstico. E talvez seja tudo o que o texto permite.

A leitura que faz do incêndio um dado sobre o leitor

Há uma quarta posição, menos citada e que merece registro porque desloca a pergunta. Ela observa que a parábola foi contada a um público específico — os principais sacerdotes e os fariseus, que acabavam de procurar um modo de prender Jesus — e que o versículo 7 não descreve o destino de uma cidade genérica, mas o daquela em que os ouvintes estavam parados naquele instante.

Nessa leitura, o incêndio não é informação sobre o caráter do rei; é um aviso endereçado. E o seu efeito pretendido não é fazer o ouvinte concordar com a justiça da pena, e sim fazê-lo perceber que está dentro da história. É a mesma técnica da parábola dos lavradores, em que os ouvintes pronunciaram a própria sentença sem notar.

A vantagem dessa posição é não ter de explicar a moralidade do incêndio, porque ela não trata o incêndio como norma. A desvantagem é que depende inteiramente do contexto de enunciação — e quem lê o Evangelho dezenove séculos depois não está naquele pátio.

O que o texto não diz, e convém não acrescentar

Três coisas costumam ser lidas aqui e não estão escritas. Não se diz que a cidade era Jerusalém. Não se diz que os habitantes não envolvidos morreram — diz-se que a cidade foi incendiada. E não se diz que o rei ficou satisfeito, nem que considerou a conta encerrada: no versículo seguinte ele volta ao banquete, que continua sem convidados.

Essa última omissão é a mais interessante. A operação militar não resolveu o problema do rei. Ele tem tropas, tem a cidade em ruínas e continua com o salão vazio e a comida esfriando. A violência foi eficaz contra os ofensores e inútil contra a ausência — e a parábola segue adiante justamente para mostrar o que de fato enche um salão.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

O rei — Ausente das cenas anteriores, entra em ação pela primeira vez. Soube do crime por relato, não por presença. Age com ira nomeada pelo texto.

Os exércitos — No grego, plural: destacamentos de tropa, não a convocação do reino. Designa uma operação de repressão em escala, procedimento conhecido na Judeia do primeiro século.

Aqueles assassinos — Primeira qualificação dada aos convidados, e aplica-se ao terceiro grupo, o do versículo 6. O demonstrativo isola: não são "os convidados", são aqueles.

A cidade deles — Não é a cidade do rei nem o lugar da festa. É onde moravam os ofensores, e arde inteira. A punição coletiva da comunidade do ofensor era prática reconhecida no direito e na guerra antigos.

O incêndio de Jerusalém — Em 70 d.C., sob Tito, o templo foi queimado e a cidade arrasada. Leitores posteriores a esse evento ouviam este versículo de modo diferente dos que o ouviram no pátio do templo.

5. Pontos de Ensino

Há recusas que não ficam privadas. A parábola mostra uma rejeição que começa individual — cada um para o seu lado — e termina destruindo a cidade inteira. O ensino não é sobre castigo: é sobre a escala real de certas escolhas, que parecem pessoais e não são.

A paciência tem fim, e o texto não disfarça. Duas remessas de convite, três reações, e então tropas. Quem lê a Bíblia procurando apenas o Deus que espera vai tropeçar aqui, e é melhor tropeçar do que fingir que a linha não está escrita.

O poder esteve lá o tempo todo. A história chamou o anfitrião de rei na segunda palavra, e o leitor tratou isso como detalhe de cenário — como os convidados trataram. Quando o exército aparece, não aparece nada de novo: aparece o que já havia sido informado e não foi levado a sério.

Punição coletiva é um problema, e nomeá-lo é honesto. A cidade que arde não é feita só de assassinos. O texto não suaviza isso e não oferece explicação. Reconhecer a dificuldade vale mais do que resolvê-la com uma frase piedosa.

A força resolve o que é dirigido e não resolve o que é ausência. Depois da campanha, o rei continua com o salão vazio. O exército eliminou os ofensores e não trouxe um convidado sequer. É a observação mais prática do versículo, e a parábola a desenvolve nos versículos seguintes, quando a festa finalmente se enche — sem tropa nenhuma.

Entregar o culpado teria salvado a cidade. Pelas convenções da época, era o que se fazia: identificar os responsáveis e entregá-los. Na parábola, ninguém o faz. O silêncio da cidade diante do crime dos seus é o que a transforma, no código do tempo, em cúmplice.

6. Aspectos Filosóficos

O que acontece quando uma história passa a ser lida à luz do que veio depois dela?

O crítico Frank Kermode chamou isso de leitura a partir do fim: uma narrativa cujo desfecho se conhece deixa de ser a mesma narrativa. Os detalhes que antes eram neutros passam a ser prenúncios; o que parecia acaso vira necessidade. E o leitor não consegue desfazer a operação — depois de saber o fim, não há como voltar a ler o meio com inocência.

Este versículo é um caso exemplar, e por isso incômodo. Dito no pátio do templo, por volta do ano 30, "incendiou a cidade deles" é um elemento de enredo entre outros: um rei antigo faz o que reis antigos faziam. Lido depois de 70, quando Jerusalém ardeu de fato, a mesma frase torna-se outra coisa — e a pergunta sobre o que o evangelista sabia, e quando, deixa de ser evitável.

Kermode insistia, porém, num ponto que costuma se perder nessas discussões: a leitura retrospectiva não prova que o texto foi escrito depois. Ela prova apenas que o leitor está depois. São coisas diferentes, e confundi-las é o erro mais comum nesse tipo de debate.

Daí a pergunta que o versículo deixa aberta e que não é só técnica. Se não há como ler esta linha sem o incêndio de 70 na memória, então o sentido que ela tem para nós é inseparável de um acontecimento que não está no texto. A honestidade manda reconhecer isso — e manda também não transformar o reconhecimento em conclusão sobre a data, que é o que a leitura apressada faz dos dois lados.

7. Aplicações Práticas

Este é um versículo difícil de aplicar, e desconfie de quem o aplicar depressa.

Ele não serve para anunciar castigo a ninguém. Quem o usa assim está fazendo com a parábola o que os convidados fizeram com o convite: transformando em arma o que foi dito a ele.

O que ele oferece é mais incômodo e mais útil: a medida real do que está em jogo quando se recusa alguma coisa importante. A recusa começou pequena — gente que preferiu o próprio campo — e terminou com uma cidade em chamas. Entre uma coisa e outra não houve salto; houve sequência.

E oferece uma segunda coisa, para quem lê a Bíblia a sério. Há páginas que não se deixam amaciar. Esta é uma delas, e tentar explicá-la até que fique confortável é desonestidade com o texto. A premissa deste site é mostrar o que está escrito, inclusive quando o que está escrito custa.

A aplicação honesta, portanto, é de método antes de ser de conduta: diante de um texto assim, a tarefa é entender, não absolver nem condenar. E guardar a pergunta de pé, que é melhor do que uma resposta falsa.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

O rei é Deus? E se for, o que fazer com o incêndio?

É a pergunta central do versículo, e não tem resposta pacífica. Três leituras disputam o espaço: que o incêndio é verossimilhança do gênero, e não retrato do personagem; que descreve consequência, e não vingança; ou que é mesmo duro, e deliberadamente. A terceira é a que menos força o texto, e a que mais custa a quem lê.

Por que a cidade inteira, se os assassinos eram um grupo?

Porque a punição coletiva da comunidade do ofensor era doutrina reconhecida no mundo antigo: a cidade respondia pelos seus. Isso explica a cena sem absolvê-la. O texto passa, em cinco palavras, da justiça dirigida à destruição indiscriminada, e não comenta a passagem.

Como a comida ainda está pronta no versículo 10, se houve uma guerra?

Não está, se o relógio for levado a sério — e os comentaristas notaram isso desde cedo. As saídas são três: supor acréscimo posterior, que a crítica textual não sustenta; invocar que parábolas não respondem a perguntas de enredo, o que é verdade em geral e insuficiente aqui; ou reconhecer que o evangelista conta duas coisas ao mesmo tempo, uma história e um padrão histórico, e que no cruzamento a história cede. A terceira é diagnóstico, não solução.

Este versículo prova que Mateus foi escrito depois de 70 d.C.?

Não prova. Ele torna a hipótese atraente, e o argumento está desenvolvido em Mateus 21:43. Mas o fato de um texto soar profético depois do acontecimento diz, em rigor, onde está o leitor — não onde estava o autor. A destruição de cidades rebeldes era rotina na Judeia muito antes de 70.

O rei não sabia do crime antes?

O texto diz que ele "ouviu". Dentro da história, portanto, é um soberano comum, dependente de relato, e não uma figura onisciente. Entre o crime e a resposta há um intervalo, e a reação é decisão informada, não reflexo.

O que a violência do rei resolveu?

Nada do que ele queria. Depois da campanha, o salão continua vazio e a comida continua esfriando. A tropa foi eficaz contra os ofensores e inútil contra a ausência — e é a parábola mesma que mostra isso, ao precisar de três versículos mais, sem nenhum soldado, para encher a festa.

A cidade podia ter evitado o incêndio?

Pelas convenções do período, sim: entregando os responsáveis. Era o procedimento conhecido, e as autoridades locais da Judeia costumavam recorrer a ele depressa. Na parábola ninguém entrega ninguém, e é esse silêncio que, no código da época, faz da cidade cúmplice.

9. Conexão com Outros Textos

O rei que se enfurece na outra parábola de Mateus

Mateus 18:34 — "E, indignado, o seu senhor o entregou aos carrascos, até que lhe pagasse toda a dívida."

A sentença que os próprios ouvintes pronunciaram, minutos antes

Mateus 21:41 — "Responderam eles: 'Destruirá terrivelmente esses perversos e arrendará a vinha a outros lavradores.'"

Eles disseram isso sobre os lavradores. Agora ouvem a mesma coisa dita por Jesus sobre uma cidade.

O padrão profético completo, numa frase só

2 Crônicas 36:16 — "Mas eles zombavam dos mensageiros de Deus, desprezavam as suas palavras e escarneciam dos seus profetas, até que o furor do SENHOR subiu contra o seu povo, e não houve mais remédio."

A casa que ficará deserta, um capítulo adiante

Mateus 23:38 — "Eis que a casa de vocês ficará deserta."

O anúncio da destruição do templo, dois capítulos adiante

Mateus 24:2 — "Não ficará aqui pedra sobre pedra; tudo será derrubado."

As três frases — a cidade incendiada, a casa deserta e as pedras derrubadas — estão a poucos dias uma da outra na narrativa, e dirigidas ao mesmo lugar.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Ao saber disso, o rei ficou furioso. Enviou os seus exércitos, destruiu aqueles assassinos e incendiou a cidade deles.

Texto grego (Textus Receptus)

ἀκούσας δὲ ὁ βασιλεὺς ὠργίσθη, καὶ πέμψας τὰ στρατεύματα αὐτοῦ ἀπώλεσεν τοὺς φονεῖς ἐκείνους, καὶ τὴν πόλιν αὐτῶν ἐνέπρησεν.

Transliteração

akousas de ho basileus ōrgisthē, kai pempsas ta strateumata autou apōlesen tous phoneis ekeinous, kai tēn polin autōn eneprēsen.

Análise palavra por palavra

ἀκούσας (akousas) — particípio aoristo de akouō, "ouvir". Marca que a informação chegou de fora. Dentro da história, o rei não presenciou nem adivinhou: foi informado.

ὠργίσθη (ōrgisthē) — aoristo passivo de orgizō, "encolerizar-se". O verbo e as suas ocorrências em Mateus estão analisados em Mateus 18:34. A forma passiva, com sentido reflexivo, é a usual.

πέμψας (pempsas) — particípio aoristo de pempō, "enviar". Note-se a troca: nos versículos 3 e 4 o verbo era apostellō, enviar com missão e autoridade delegada. Aqui é pempō, o enviar genérico. A mudança é sutil e significativa — tropas não levam mensagem, apenas executam.

τὰ στρατεύματα αὐτοῦ (ta strateumata autou) — "os seus exércitos". Strateuma designa corpo de tropa, destacamento; o plural não implica mobilização geral, e sim o envio de unidades. O possessivo repete o padrão dos versículos anteriores, onde eram "os seus servos" e "o meu banquete".

ἀπώλεσεν (apōlesen) — aoristo de apollymi, "destruir", "fazer perecer". O verbo e o seu uso em Mateus estão tratados em Mateus 21:41.

τοὺς φονεῖς ἐκείνους (tous phoneis ekeinous) — "aqueles assassinos". Phoneus é o homicida, termo jurídico. É a primeira qualificação que o texto dá aos convidados, e o demonstrativo ekeinous isola o grupo: aqueles, não todos.

τὴν πόλιν αὐτῶν (tēn polin autōn) — "a cidade deles". O possessivo plural remete aos assassinos; a cidade, porém, contém mais gente que eles. É nessa lacuna que mora o problema moral do versículo.

ἐνέπρησεν (eneprēsen) — aoristo de empiprēmi, "incendiar", "pôr fogo". Verbo raro no Novo Testamento, e técnico: designa a queima deliberada de edificações, usada nas descrições de guerra. Não é o verbo de "queimar" em sentido geral.

Variantes

A tradição manuscrita é estável, e nenhum testemunho conhecido omite o versículo — dado que pesa contra a hipótese de interpolação posterior ao ano 70. Há oscilação menor entre eneprēsen e formas compostas equivalentes em parte dos cursivos, sem efeito no sentido. O Textus Receptus, seguido pela ABC, traz a forma acima.

11. Conclusão

A história muda de escala numa linha.

Tinha convites, servos e um salão posto; passa a ter tropas, assassinos destruídos e uma cidade queimada. E volta, três versículos adiante, à comida ainda servida — uma costura que ninguém conseguiu alisar em dezoito séculos.

O que se pode dizer com segurança é pouco e vale mais do que as explicações. Que o rei foi informado, e não adivinhou. Que ficou irado, e o texto diz isso com todas as letras. Que o alvo nomeado foi o grupo que matou, e que o fogo passou disso.

E vale reconhecer o que não se resolve. O incêndio atinge quem não matou. Quem lê o rei como figura de Deus carrega esse peso, e as saídas disponíveis — verossimilhança do gênero, consequência em vez de vingança, dureza deliberada — aliviam parte dele e nenhuma o remove.

O versículo foi dito no pátio do templo, a poucos dias da Páscoa, diante de homens que tinham acabado de pronunciar, eles próprios, uma sentença parecida sobre lavradores assassinos. Quarenta anos depois a cidade arderia. Não há como ler esta linha hoje sem isso na memória — e não há como, a partir daí, concluir com segurança o que o evangelista sabia quando escreveu.

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