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Mateus 21:41

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✍️ Por Alberto Adriano·4 de outubro de 2026·⏱️ 24 min de leitura·👁 31 acessos
Responderam-lhe: “Destruirá miseravelmente esses miseráveis e arrendará a vinha a outros lavradores, que lhe entreguem os frutos nas épocas de colheita.”
No pátio do templo, um grupo de sacerdotes e anciãos responde com gestos enfáticos e expressão severa, enquanto Jesus os observa em silêncio; ao fundo, a multidão escuta.

Estudo


Responderam-lhe: “Destruirá miseravelmente esses miseráveis e arrendará a vinha a outros lavradores, que lhe entreguem os frutos nas épocas de colheita.”

1. Introdução

Os ouvintes dão a sentença, e ela é duríssima: o dono vai destruir os lavradores e arrendar a vinha a outros, que paguem o que devem. Só Mateus põe essa resposta na boca dos chefes dos sacerdotes e dos anciãos; em Marcos e em Lucas quem a diz é Jesus. A frase começa com um jogo de palavras do grego, “destruirá miseravelmente esses miseráveis”, uma fórmula de imprecação que o teatro grego já usava. A vinha não é destruída: mudam só os que trabalham nela, e a obrigação de entregar os frutos continua, agora “nas épocas de colheita”, uma após outra. Por séculos, o versículo foi lido como a sentença que os judeus teriam pronunciado contra si mesmos, e essa leitura precisa ser exposta junto com o que o texto de fato diz.

2. Contexto Histórico e Cultural

O que a lei permitia contra lavradores que não pagavam

A sentença dos ouvintes vai muito além do que um proprietário podia fazer. O arrendamento de terras era coisa corriqueira na Galileia e na Judeia, e a lei judaica o regulava em detalhe. A Mishná (a primeira compilação escrita da lei oral judaica, fechada por volta do ano 200) dedica a ele o começo do capítulo 9 do tratado Bava Metzia; os tipos de arrendatário que ela distingue estão no estudo de Mateus 21:34.

O caso mais próximo da parábola é o do arrendatário que não cumpre. Se ele deixa a terra sem cultivo, o tribunal estima quanto ela teria produzido, e ele paga ao dono essa parte. A Mishná explica por quê: é o que o lavrador escreve no contrato padrão — “se eu deixar a terra parada e não a cultivar, pagarei com o melhor da produção” (Mishná Bava Metzia 9:3).

O remédio previsto, portanto, é a cobrança, a estimativa, o fim do contrato. Nenhuma lei dava ao dono o direito de matar arrendatários, nem mesmo os que tivessem matado os seus agentes; para isso havia tribunal. Quando os ouvintes dizem que o dono “destruirá” os lavradores, estão pensando num dono que tem o poder de um rei, que faz justiça por si. Sem perceber, já saíram do direito agrário e entraram no terreno do juízo de Deus.

Uma parábola judaica com o mesmo enredo

A imagem do rei que arrenda um campo a lavradores desonestos e o passa a outros também circulava no ensino rabínico, com o sentido virado ao contrário. O Sifre ao Deuteronômio (comentário rabínico antigo ao livro, compilado provavelmente no século III), ao comentar Deuteronômio 32:9 — “a porção do SENHOR é o seu povo” —, conta esta parábola (Sifre Deuteronômio 312):

Um rei tinha um campo e o arrendou a lavradores. Os lavradores começaram a roubar dele. O rei tomou o campo e o arrendou aos filhos deles, que roubaram mais que os primeiros. Tomou de novo e o deu aos netos, que foram piores ainda. Então nasceu um filho ao rei, e o filho disse aos lavradores: “Saiam do meu campo; devolvam a minha porção”.

A explicação vem a seguir: os maus arrendatários são Ismael e os filhos de Quetura, que saíram de Abraão, e Esaú e os chefes de Edom, que saíram de Isaque. Com Jacó, nenhum rebento mau saiu, e por isso Jacó é a porção de Deus. Na parábola rabínica, quem recupera o campo como herdeiro é Israel.

O texto é posterior a Mateus e não depende dele, nem Mateus dele. O que mostra é que o enredo — campo arrendado, lavradores desonestos, troca de arrendatários, herdeiro que reclama a terra — era um repertório comum. Os dois lados o usaram, e cada um pôs o seu povo no lugar do herdeiro.

3. Análise Teológica do Versículo

“Responderam-lhe”

Nos três evangelhos, a parábola termina com a mesma pergunta e a mesma sentença. O que muda é quem a pronuncia.

Em Marcos 12:9, Jesus pergunta e ele mesmo responde: “Virá, destruirá os lavradores e dará a vinha a outros”. Em Lucas 20:16 também é Jesus quem responde, e os ouvintes reagem com espanto: “Que isso nunca aconteça!”. Em Mateus, a resposta sai da boca dos ouvintes, e ninguém protesta.

As três versões dizem coisas diferentes sobre os ouvintes. Em Lucas, eles percebem o perigo e o recusam. Em Marcos, ficam calados. Em Mateus, eles mesmos o anunciam. A forma de Mateus é a única que completa a parábola jurídica (Mateus 21:40): a pergunta pede um veredito, e o veredito vem de quem será julgado.

Os comentaristas antigos tentaram conciliar as versões. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) supõe que os ouvintes disseram a frase primeiro e Jesus a repetiu depois, confirmando-a. É uma harmonização possível, mas o texto não a sugere. Mais simples é reconhecer que os evangelistas contaram a mesma cena com ênfases diferentes, e que a de Mateus é a mais dura com os ouvintes.

“Destruirá miseravelmente esses miseráveis”

O grego repete a mesma raiz duas vezes, em dois papéis: um adjetivo que descreve os lavradores e um advérbio que descreve o modo como serão destruídos. A tradução da ABC conserva o jogo: “miseravelmente esses miseráveis”. O efeito é o de uma rima entre o crime e o castigo. Quem fez mal sofrerá mal; a palavra que define a pessoa define também o seu fim.

A frase não é fórmula de tribunal. É linguagem de imprecação, de quem amaldiçoa, e o grego a conhecia muito antes de Mateus: no teatro de Sófocles, o desejo de que os maus acabem mal aparece com essas mesmas duas palavras, e numa delas até com o mesmo verbo “destruir” (a análise está no item 10). Os ouvintes não respondem com a frieza de juristas. Respondem com indignação, como Davi diante da cordeira do pobre, que jurou a morte do rico quando a Lei só pedia indenização.

Bengel (Johann Albrecht Bengel, comentarista luterano alemão do século XVIII) chama a frase de retaliação: o castigo devolve aos lavradores o que eles fizeram. Foram eles que “mataram” os servos e o filho; serão eles os “destruídos”. A sentença é proporcional ao crime contado — e, justamente por isso, terá de valer quando o crime for reconhecido como de quem a pronunciou.

Há ainda uma camada que os ouvintes não percebem. O verbo grego de “destruir” é o mesmo que, na paixão, vai descrever o que eles próprios querem fazer com Jesus (Mateus 27:20). A sentença que pronunciam contra os lavradores usa a palavra do seu próprio projeto contra o filho.

“e arrendará a vinha a outros lavradores”

A vinha continua. Ela não é arrancada, nem queimada, nem abandonada: troca de mãos. Essa é a diferença decisiva em relação ao cântico de Isaías, que o versículo anterior evoca. Em Isaías 5:5-6, o castigo cai sobre a própria vinha: a cerca é tirada, o muro derrubado, a terra vira mato. Em Mateus 21:41, a vinha fica de pé, e só os lavradores mudam.

Se a vinha é Israel, como em Isaías, a parábola não anuncia o fim de Israel; anuncia a troca dos que o administravam.

Quem são os “outros lavradores”? O texto não diz. O versículo 43 falará de “um povo que produza os seus frutos”, e o que esse povo é tem dono naquele versículo. Aqui, as leituras se dividem. O Pulpit Commentary (“Comentário do Púlpito”, obra coletiva inglesa do século XIX) entende que os novos lavradores são os ministros da igreja cristã, que tomaram o lugar dos sacerdotes e mestres judeus — uma classe de administradores, e não o mundo dos gentios como um todo. Ellicott (Charles John Ellicott, bispo anglicano do século XIX) vê na frase a transferência dos privilégios de Israel para a igreja dos gentios. Outros, lendo dentro do evangelho, pensam nos apóstolos, que em Mateus 19:28 recebem a promessa de julgar as doze tribos. As três são leituras; o versículo só fala de outros arrendatários para a mesma vinha.

“que lhe entreguem os frutos nas épocas de colheita”

Os novos lavradores não recebem a vinha de presente. Recebem-na nas mesmas condições dos antigos: arrendamento, com a obrigação de pagar. A parábola não muda o contrato; muda só quem o assina. Isso vale como advertência aos próprios sucessores. O evangelho que conta esta história também conta a do servo que, posto à frente da casa, começa a maltratar os companheiros enquanto o senhor demora — e acaba “com o mesmo destino dos hipócritas” (Mateus 24:48-51).

Em Mateus 21:34, o dono mandou os servos quando se aproximou “a época da colheita”, no singular. Aqui a palavra está no plural: “as épocas”. Bengel explica que se trata de estações diferentes e sucessivas, a cada ano, com regularidade. O dono não espera uma entrega única, como quem cobra uma dívida antiga; espera uma relação que dure.

A expressão tem um eco no começo do Saltério. O justo do Salmo 1:3 é a árvore plantada junto às águas, “que dá o seu fruto no seu tempo”. Os novos lavradores devem ser como essa árvore: produzir quando é hora.

Como o versículo foi lido contra os judeus

Desde muito cedo, a resposta dos ouvintes foi lida como a sentença que os judeus, como povo, teriam pronunciado contra si mesmos. Orígenes (teólogo de Alexandria, do século III) compara os ouvintes a Caifás: como o sumo sacerdote de João 11:49-51, eles teriam profetizado sem saber, contra si mesmos, que as palavras de Deus seriam tiradas deles e dadas aos gentios. Gill, no século XVIII, afirma que a matança no cerco de Jerusalém, no ano 70, cumpriu a previsão “ao pé da letra”. Ellicott diz que a resposta continha, de uma vez, a destruição da cidade santa e a passagem dos privilégios de Israel para a igreja.

Dessa leitura saiu uma ideia que pesou séculos: a de que a destruição de Jerusalém foi o “miseravelmente” cumprido, castigo merecido de um povo inteiro, sentenciado pela própria boca. Ela alimentou a pregação contra os judeus e ajudou a fazer da tragédia do ano 70 uma prova de rejeição divina.

O que o texto não sustenta dessa leitura

Três dados do próprio Mateus pesam contra ela.

Primeiro: quem responde não é “o povo”. São os chefes dos sacerdotes e os anciãos (Mateus 21:23), e o evangelista nomeia os ouvintes de novo, com os fariseus, em Mateus 21:45. O povo, no mesmo trecho, está do outro lado: é a multidão que tem Jesus por profeta e cujo medo impede a prisão (Mateus 21:46).

Segundo: a vinha permanece. O castigo da parábola cai sobre os arrendatários, e não sobre a terra arrendada.

Terceiro: a sentença é uma resposta dentro de uma história, dada por pessoas que ainda não sabiam que falavam de si. Transformá-la em autocondenação consciente de um povo é ler nela mais do que ela diz.

A leitura antijudaica não nasce do nada: Mateus é duro com as lideranças de Jerusalém, e o versículo 43 falará em tirar o Reino. Mas a ponte entre “estes lavradores” e “os judeus”, e entre a sentença da parábola e a destruição de 70, foi construída pelos leitores, não pelo versículo. Não é possível saber com segurança se Mateus, escrevendo provavelmente depois do ano 70, via no “miseravelmente” uma alusão à guerra; muitos estudiosos pensam que sim. Mesmo que visse, o alvo que ele nomeia são os que governavam o templo.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Os que respondem

Os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo, que tinham interrogado Jesus sobre a sua autoridade (Mateus 21:23). O versículo não os nomeia — diz só “responderam-lhe” —, mas são eles os interlocutores desde o começo do debate, e Mateus 21:45 acrescenta os fariseus entre os que ouviram as parábolas. É a única fala deles em toda a parábola dos lavradores.

O dono da vinha

O sujeito dos dois verbos da sentença: é ele quem destruirá e quem arrendará. Os ouvintes lhe atribuem um poder que nenhum proprietário comum tinha — o de executar os lavradores —, o que aproxima a figura de um rei ou de Deus.

Os lavradores maus

Os arrendatários da história, que espancaram, apedrejaram e mataram os servos e por fim o filho. Recebem aqui o seu adjetivo: “miseráveis”, isto é, maus, perversos. É a primeira vez que a parábola os qualifica moralmente; até aqui, só os seus atos tinham sido narrados.

Os outros lavradores

Personagens que ainda não existem: são uma previsão, sem número, origem nem nome. Só se diz deles o que se espera que façam.

O cenário

O pátio do templo, onde Jesus ensinava, diante de uma multidão. A resposta é dada em público. Isso tem peso: os ouvintes sentenciaram diante de testemunhas, e a multidão que ouviu a sentença é a mesma que, no versículo 46, os impede de prender Jesus.

O evento por trás da leitura posterior

A guerra dos judeus contra Roma terminou com a tomada de Jerusalém e o incêndio do templo no ano 70, pelas legiões de Tito. Muitos estudiosos pensam que Mateus escreveu depois disso, e a tradição cristã leu o “destruirá miseravelmente” como previsão desse desastre. O versículo, em si, não menciona Jerusalém, nem Roma, nem o templo.

5. Pontos de Ensino

1. O senso de justiça dos ouvintes estava certo

A sentença é dura, mas não é absurda. Quem mata os enviados e o filho para ficar com a herança perde o direito de continuar. Os ouvintes não erram no juízo; erram em não se reconhecer nele.

2. O castigo é feito da mesma matéria do crime

“Miseravelmente esses miseráveis”: o jogo de palavras diz que o fim corresponde à conduta. A ideia atravessa Mateus — a medida com que se mede é a medida com que se é medido. Não é vingança arbitrária; é consequência.

3. O que muda são os administradores, não a vinha

A obra continua. O dono não desiste do que plantou por causa dos que a exploraram mal. Lida assim, a parábola é mais uma crítica a lideranças que traíram o encargo do que uma condenação da vinha.

4. Quem recebe o encargo recebe também a cobrança

Os novos lavradores são escolhidos “que lhe entreguem os frutos”. Não há privilégio sem obrigação. Os sucessores estão sob o mesmo contrato e podem cair sob a mesma sentença.

5. Os frutos são esperados em todas as estações

O plural “épocas” indica regularidade. A fidelidade que o dono quer não é um gesto heroico isolado, mas o pagamento de cada ano.

6. Aspectos Filosóficos

Excluir ou deixar ficar

A sentença dos ouvintes tem duas partes. A primeira é castigo: os maus serão destruídos de modo mau. A segunda é exclusão: o contrato com eles termina, e a vinha passa a outros. São duas respostas diferentes a quem quebrou um acordo — punir e retirar do acordo —, e a filosofia do direito discute há séculos a relação entre elas.

Um dos que pensaram isso de modo mais original foi Johann Gottlieb Fichte (1762-1814), filósofo alemão, discípulo independente de Kant e um dos fundadores do idealismo alemão.

O contrato e a exclusão

No Fundamento do direito natural (1796-1797), Fichte descreve o Estado como um contrato entre cidadãos que se reconhecem mutuamente como livres. Quem viola esse contrato, raciocina ele, rompe a condição que lhe dava direitos. A consequência lógica de qualquer violação seria a exclusão: o infrator deixaria de ser parte do contrato e perderia, com isso, todos os direitos que ele garantia.

Fichte percebeu que essa consequência era dura demais para servir de regra. Se cada falta levasse à exclusão, o Estado logo ficaria sem cidadãos. Por isso propôs o que chamou de “contrato de expiação”: os cidadãos combinam de antemão que, em vez de serem excluídos, aceitarão uma pena proporcional à falta, desde que isso seja compatível com a segurança de todos. A pena, para ele, não é um fim em si; é um meio de garantir a segurança e de dar ao condenado a chance de se emendar e voltar a ser parte plena do contrato. Só nos casos mais graves, quando nem isso é possível, a exclusão volta a valer.

A posição se afastava da do seu mestre. Kant defendia que a pena deve devolver ao culpado o mal que ele fez, por pura justiça, independentemente de qualquer utilidade. Fichte desconfiava dessa retribuição sem finalidade.

A sentença da vinha nos termos de Fichte

Lida com essas categorias, a resposta dos ouvintes junta as duas coisas que Fichte separava. O “destruirá miseravelmente esses miseráveis” é retribuição no sentido mais estrito, a do mal que devolve o mal. O “arrendará a vinha a outros” é exclusão: o fim do contrato e a entrada de outros no lugar.

E a parábola tem algo que lembra o contrato de expiação. Antes da sentença, o dono mandou servos, depois mais servos, depois o filho. Cada envio era uma nova chance de cumprir o acordo sem perder a vinha. Os lavradores não aproveitaram nenhuma. Quando a exclusão chega, chega depois de esgotadas as alternativas — o que, nos termos de Fichte, é a situação em que ela se torna legítima.

A aplicação é nossa; Fichte não comentou esta parábola nesses termos.

O mesmo filósofo, aplicando a exclusão a um povo

Fichte também serve de advertência, e o versículo exige que ela seja dita. Em 1793, no livro em que defendia a Revolução Francesa (Contribuição para retificar o juízo do público sobre a Revolução Francesa), ele escreveu uma nota sobre os judeus que ficou entre as mais infames da história da filosofia. Chamou-os de “Estado dentro do Estado” e disse não ver outro meio de lhes dar direitos de cidadão senão cortar, numa noite, a cabeça de todos e pôr no lugar outras em que não houvesse uma só ideia judaica. Na mesma nota, afirmava que direitos humanos eles deviam ter.

O raciocínio é o da exclusão aplicada a um grupo inteiro: não a quem quebrou um contrato, mas a quem pertence a um povo. É o mesmo passo que a leitura antijudaica de Mateus 21:41 deu durante séculos, quando estendeu a sentença sobre “estes lavradores” a todos os judeus. A obra madura de Fichte sobre direito oferece o critério para recusar esse passo: a exclusão, quando legítima, atinge quem violou o acordo, e não quem nasceu num grupo. O filósofo não aplicou a si mesmo o critério que formulou. Os estudiosos discutem quanto dessa hostilidade permaneceu na obra posterior; o texto de 1793 está aí, e é ele que mostra como é fácil passar de uma sentença justa a uma injustiça coletiva.

7. Aplicações Práticas

Cuidado com a sentença dada no calor da indignação

Os ouvintes responderam com uma fórmula de maldição, não com uma decisão ponderada. Quando você se pega exigindo o castigo mais duro para alguém, pergunte a si mesmo se a dureza vem da gravidade do caso ou da segurança de não estar nele.

Quem herda um encargo herda a cobrança

Assumir o lugar de alguém que falhou — num trabalho, numa família, numa comunidade — não é prêmio. Os “outros lavradores” recebem a mesma vinha com a mesma obrigação. A falha dos antecessores não diminui a exigência sobre os sucessores; aumenta a atenção sobre eles.

Fidelidade é regularidade

O dono quer os frutos “nas épocas de colheita”, todas elas. Na vida prática, isso significa que constância vale mais que gestos grandes e esporádicos: pagar o que se deve no tempo certo, cumprir o combinado ano após ano.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Os ouvintes sabiam que estavam falando de si mesmos?

Provavelmente não, no momento da resposta. A franqueza da sentença, e o fato de que só no versículo 45 Mateus diz que “entenderam”, sugerem que a percepção veio depois. Há quem pense que perceberam e responderam assim mesmo, por orgulho ou por não ter saída. O texto não permite decidir, mas a ordem da narrativa favorece a primeira leitura.

Jesus concorda com a sentença?

Ele não a comenta. A frase seguinte não diz “vocês julgaram bem”, como Jesus diz em Lucas 7:43 a Simão; vai direto ao salmo e, no versículo 43, à aplicação. O silêncio sobre a sentença pode ser lido como aceitação: Jesus a usa como base para o que vem depois. Mas a forma do castigo — a destruição “miserável” — fica por conta dos ouvintes; o que Jesus anuncia em seguida é a perda do Reino, não a morte.

Os novos lavradores podem perder a vinha também?

O versículo não diz, mas dá a condição: eles a recebem para entregar os frutos. Mateus conta outras parábolas em que servos postos à frente da casa do senhor são castigados por não cumprir (Mateus 24:45-51; 25:24-30). A lógica da história vale para quem vier depois.

9. Conexão com Outros Textos

A sentença nos outros evangelhos

Marcos 12:9 — “Que fará, então, o dono da vinha? Virá, destruirá os lavradores e dará a vinha a outros.”

Lucas 20:16 — “Virá, destruirá esses lavradores e dará a vinha a outros. Ao ouvirem isso, disseram: ‘Que isso nunca aconteça!’”

A mesma sentença, nos dois casos dita por Jesus. Em Lucas, os ouvintes a recusam; em Mateus, eles a pronunciam.

O rei que destrói os assassinos

Mateus 22:7 — “Ao saber disso, o rei ficou furioso. Enviou os seus exércitos, destruiu aqueles assassinos e incendiou a cidade deles.”

Na parábola seguinte, a do banquete, o castigo que aqui os ouvintes anunciam é narrado como fato, com o mesmo verbo e com um elemento novo: a cidade incendiada.

Testemunhar contra si

Mateus 23:31 — “Assim vocês testemunham contra si mesmos que são filhos dos que assassinaram os profetas.”

Mateus 12:37 — “Porque por suas palavras você será justificado, e por suas palavras você será condenado.”

A ideia de que a própria fala serve de prova contra quem fala, em dois momentos do evangelho.

O servo que maltrata e o senhor que chega

Mateus 24:50-51 — “o senhor daquele servo vai chegar num dia em que ele não espera e numa hora que ele não sabe; vai cortá-lo em pedaços e lhe dar o mesmo destino dos hipócritas. Ali haverá choro e ranger de dentes.”

A mesma estrutura de senhor ausente, servo infiel e castigo, aplicada a quem foi posto à frente da casa.

A vinha devastada em Isaías

Isaías 5:6 — “Farei dela um terreno abandonado; não será podada nem capinada, e nela crescerão espinhos e ervas daninhas. Darei ordem às nuvens para que não derramem chuva sobre ela.”

No cântico, o castigo cai sobre a própria vinha. Na parábola, a vinha é preservada.

O fruto no seu tempo

Salmo 1:3 — “Ele é como árvore plantada junto a ribeiros de águas, que dá o seu fruto no seu tempo, e cujas folhas não murcham.”

A imagem do justo como quem produz quando é a hora, a mesma regularidade exigida dos novos lavradores.

Davi sentenciando o rico

2 Samuel 12:5 — “Davi ficou furioso contra aquele homem e disse a Natã: ‘Tão certo como vive o SENHOR, o homem que fez isso merece a morte!’”

A mesma veemência de quem sentencia um caso alheio: a pena pedida passa da que a lei previa.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Responderam-lhe: “Destruirá miseravelmente esses miseráveis e arrendará a vinha a outros lavradores, que lhe entreguem os frutos nas épocas de colheita.”

Texto grego (Textus Receptus)

Λέγουσιν αὐτῷ, Κακοὺς κακῶς ἀπολέσει αὐτούς, καὶ τὸν ἀμπελῶνα ἐκδόσεται ἄλλοις γεωργοῖς, οἵτινες ἀποδώσουσιν αὐτῷ τοὺς καρποὺς ἐν τοῖς καιροῖς αὐτῶν.

Transliteração

Legousin autō, Kakous kakōs apolesei autous, kai ton ampelōna ekdosetai allois geōrgois, hoitines apodōsousin autō tous karpous en tois kairois autōn.

Análise palavra por palavra

Λέγουσιν αὐτῷ — legousin autō, “dizem-lhe”. Presente do indicativo de legō, “dizer”, terceira pessoa do plural. Presente usado para narrar o passado, que a ABC traduz por “responderam-lhe”.

Κακοὺς — kakous, “miseráveis”, “maus”. Acusativo masculino plural do adjetivo kakos, a palavra mais comum do grego para “mau”, em todos os sentidos: de má qualidade, nocivo, moralmente perverso, desgraçado. Usado aqui como substantivo e posto no começo da frase, antes do verbo e do próprio pronome “eles”, que só aparece depois. A ordem dá ênfase: a primeira palavra da sentença é o julgamento moral.

κακῶς — kakōs, “miseravelmente”, “de modo mau”. Advérbio formado do mesmo adjetivo. Juntos, kakous kakōs formam um jogo de palavras: a mesma raiz duas vezes seguidas, uma para dizer quem são, outra para dizer como acabarão. A ABC o reproduz com “miseravelmente esses miseráveis”, invertendo a ordem para soar natural em português.

A fórmula não foi criada pelos evangelhos. O teatro grego clássico a usava em imprecações. No Filoctetes de Sófocles (dramaturgo ateniense do século V a.C.), o herói pede a Neoptólemo que o leve para casa e deixe os chefes gregos “perecerem miseravelmente, os miseráveis” (verso 1369), com as mesmas duas palavras e o mesmo verbo deste versículo. No Ájax do mesmo autor, Teucro amaldiçoa quem tentar arrastar o corpo do irmão: que seja lançado fora da terra “mau, malmente, sem sepultura” (verso 1177). Era, portanto, linguagem conhecida, e linguagem de maldição.

Em Mateus, o advérbio kakōs aparece sete vezes, e em seis delas fala de doença: “os que estavam mal” trazidos a Jesus (Mateus 4:24; 8:16; 14:35), “os que estão doentes” que precisam de médico (Mateus 9:12), a filha da cananeia “gravemente endemoninhada” (Mateus 15:22), o menino que “sofre muito” (Mateus 17:15). Este é o único lugar do evangelho em que a palavra descreve um castigo.

ἀπολέσει αὐτούς — apolesei autous, “destruirá-os”. Futuro de apollymi, “destruir”, “fazer perecer”, “perder”. É o verbo de Mateus 2:13 (Herodes quer matar o menino), de Mateus 12:14 (os fariseus procuram matar Jesus), de Mateus 22:7 (o rei destrói os assassinos) e de Mateus 27:20 (os chefes dos sacerdotes e os anciãos querem matar Jesus).

καὶ τὸν ἀμπελῶνα — kai ton ampelōna, “e a vinha”. Acusativo de ampelōn. O objeto vem antes do verbo, outra vez por ênfase: a vinha, essa, continua.

ἐκδόσεται — ekdosetai, “arrendará”. Futuro na voz média de ekdidōmi, composto de ek (“para fora”) e didōmi (“dar”): dar para fora, entregar a terceiros. A voz média indica que o sujeito age no próprio interesse: arrenda para si, para receber a renda. É o verbo técnico do arrendamento, o mesmo de Mateus 21:33, quando o dono “arrendou-a a uns lavradores”.

Há aqui uma diferença de grafia entre as edições. O Textus Receptus, nas edições de Estienne (1550) e Scrivener (1894), escreve ekdosetai, com o “o” breve; as edições críticas e o texto bizantino majoritário escrevem ekdōsetai, com o “ō” longo, a forma regular do futuro. A diferença é de ortografia e não altera o sentido.

ἄλλοις γεωργοῖς — allois geōrgois, “a outros lavradores”. Allos é “outro” no sentido de “mais um, diferente deste”. Os novos são da mesma categoria dos antigos: lavradores, arrendatários.

οἵτινες — hoitines, “os quais”. Relativo que qualifica: “gente tal que”.

ἀποδώσουσιν αὐτῷ — apodōsousin autō, “entregarão a ele”. Futuro de apodidōmi, “devolver”, “pagar o que se deve”. Não é dar, é quitar. O português “que lhe entreguem” usa o subjuntivo, que exprime a finalidade da escolha; o grego usa o futuro do indicativo, que exprime a certeza do que esses lavradores farão.

τοὺς καρποὺς — tous karpous, “os frutos”. Plural de karpos, o fruto da terra e, por extensão, o resultado de uma conduta — o sentido de Mateus 3:8 e 7:16-20. A palavra volta no versículo 43, ligando a parábola à frase sobre o Reino.

ἐν τοῖς καιροῖς αὐτῶν — en tois kairois autōn, “nas épocas deles”. Kairos é o tempo oportuno, o momento certo para algo, distinto de chronos, o tempo que passa. No versículo 34 a palavra estava no singular (“a época da colheita”); aqui está no plural. O pronome autōn (“deles”) pode se referir aos frutos — “no tempo de cada fruto” — ou aos próprios lavradores; a primeira leitura é a mais natural. A Septuaginta do Salmo 1:3 diz do justo que dá o seu fruto en kairō autou, “no seu tempo”, com a mesma construção no singular.

11. Conclusão

Com base no que o versículo mostra, conclui-se primeiro que a sentença é justa e é deles. Os chefes dos sacerdotes e os anciãos julgam com acerto o que os lavradores merecem; o que lhes falta não é critério moral, é a percepção de que o caso é o seu. Mateus faz questão de pôr a frase na boca deles, e só ele faz isso.

Conclui-se também que o castigo anunciado tem alvo preciso. A vinha não é destruída; troca de administradores. A obrigação de dar frutos continua, agora para outros, e continua a cada estação. Isso faz do versículo uma palavra sobre lideranças infiéis, e uma advertência para quem vier depois delas.

Por fim, conclui-se que a longa leitura do versículo como autocondenação dos judeus estende o texto além do que ele diz. Ela juntou os lavradores a um povo inteiro e a sentença da parábola à destruição de Jerusalém. O versículo dá os nomes de quem respondeu, preserva a vinha e deixa sem identidade os novos arrendatários. Essas três coisas bastam para recusar a extensão.

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