“Senhor, tem misericórdia do meu filho. Ele é epilético e sofre muito, pois cai muitas vezes no fogo e muitas vezes na água.
1. Introdução
O pai fala, e descreve o filho.
O versículo é o retrato de uma doença feito por quem convive com ela. Três pontos centrais aparecem.
O primeiro é o pedido: "tem misericórdia do meu filho". A fórmula é a dos salmos, e o pedido é por outro.
O segundo é o nome da doença. A tradução ABC diz "epilético". A palavra grega diz, literalmente, "atingido pela lua" — e carrega uma teoria inteira sobre a origem do mal, que a medicina grega já discutia quatro séculos antes.
O terceiro é o sintoma: o menino cai muitas vezes no fogo e muitas vezes na água. É a descrição de um perigo de morte que se repete.
E há um ponto que só se vê lendo o episódio inteiro: nesta fala o pai não menciona demônio nenhum. É o texto, três versículos adiante, que vai chamar de demônio o que o pai chama de doença. As duas descrições estão no evangelho, e este estudo não escolhe entre elas.
2. Contexto Histórico e Cultural
A doença que caía sobre as pessoas
O quadro que o pai descreve — quedas súbitas, repetidas, sem aviso — era conhecido de todas as culturas antigas, e todas procuraram dizer de onde vinha. As respostas se dividiam em duas grandes famílias: a doença mandada por um ser invisível e a doença com causa natural. O grego do Novo Testamento herdou uma palavra que fica no meio das duas.
"A doença sagrada" e o médico que discordou
Os gregos chamavam o mal de "doença sagrada". O nome dizia a teoria: quem cai de repente, se debate e perde a consciência parecia tomado por uma divindade.
Por volta de 400 a.C., um médico da escola de Hipócrates (médico grego do século V a.C., a quem se atribui um conjunto de tratados de medicina) escreveu um tratado inteiro contra esse nome. O título é Da doença sagrada, e a primeira frase é uma declaração de guerra: a doença, diz o autor, não lhe parece nem mais divina nem mais sagrada que as outras; tem natureza e causa próprias, e os homens a julgaram divina por inexperiência e pelo espanto diante de algo que não se parecia com as outras doenças.
O tratado é valioso por outro motivo: ele descreve, com desprezo, o que os curandeiros da época faziam. Chama-os de magos, purificadores e charlatães. Esses curandeiros atribuíam cada tipo de ataque a um deus diferente, conforme o sintoma. Se o doente berrava como um cavalo, era Posêidon. Se imitava uma cabra ou se debatia do lado direito, era a Mãe dos Deuses. Se tinha terrores noturnos e pulava da cama, eram ataques de Hécate (deusa grega ligada à noite e às encruzilhadas) e dos heróis mortos. O tratamento vinha em seguida: purificações, proibição de banho, de certos alimentos, de roupas pretas.
Contra tudo isso, o médico propõe uma causa no próprio corpo. Para ele, o mal nasce no cérebro, quando um humor frio e úmido, a fleuma, bloqueia a passagem do ar. Observa que a doença costuma começar na infância e que passa de pais para filhos. A explicação fisiológica está errada pelos padrões modernos, mas o gesto é o que importa aqui: separar o sintoma de qualquer agente invisível.
E a lua?
A palavra do versículo não vem desse tratado. Vem de uma crença popular mais difusa, a de que a lua influía nos ataques — que eles vinham ou pioravam em certas fases do ciclo lunar. O verbo grego registra essa ideia no próprio nome: o doente é "atingido pela lua".
A crença era antiga e não era só grega. O Salmo 121:6 promete a quem confia no SENHOR que "o sol não o ferirá de dia, nem a lua de noite". Ser "ferido pela lua" era perigo que um israelita conhecia, ao lado da insolação.
O latim herdou a mesma teoria. A Vulgata (a tradução latina da Bíblia feita por Jerônimo no fim do século IV) traduziu o versículo com lunaticus. Daí vem o "lunático" das Bíblias portuguesas antigas — e o sentido de "louco" que a palavra ganhou depois, que nada tem a ver com o menino.
Orígenes lê este versículo
O documento que mais ilumina a questão é um comentário sobre este mesmo versículo. Orígenes (teólogo cristão de Alexandria, do século III) escreveu um Comentário a Mateus, e no livro XIII, capítulo 6, enfrenta o problema de frente.
Ele registra, primeiro, a opinião dos médicos do tempo dele: não haveria espírito impuro nenhum no caso, só uma desordem do corpo. Os humores úmidos da cabeça se moveriam por simpatia com a luz da lua, que teria natureza úmida.
Em seguida dá a própria posição. Como crê no evangelho, que atribui a doença a um espírito impuro, propõe que o espírito observa as fases da lua e ataca nos momentos certos, justamente para que os homens culpem a lua — e, com ela, a criação de Deus — pelo mal que ele mesmo causa.
A solução de Orígenes pode parecer engenhosa demais para o leitor moderno. Mas o texto dele prova uma coisa importante para este estudo: no século III, as duas leituras do caso do menino — a médica e a espiritual — já estavam em discussão aberta, e um comentarista cristão sentia obrigação de responder aos médicos, não de ignorá-los.
Fogo e água dentro de casa
O perigo que o pai descreve era concreto. Nas casas simples da Galileia, o fogo de cozinhar ficava no chão ou num forno de barro baixo, no pátio ou no cômodo principal, aceso todo dia. Água havia em cisternas abertas, poços, tanques e, na região do lago, na própria margem.
Uma criança que caía sem aviso, várias vezes, vivia cercada de lugares onde uma queda podia matar. O pai não está exagerando o drama. Está descrevendo a rotina de vigilância de uma casa inteira.
3. Análise Teológica do Versículo
"Senhor, tem misericórdia do meu filho"
O pedido usa a fórmula de súplica cuja origem nos salmos foi examinada no estudo de Mateus 15:22, com a mulher cananeia. Aqui interessa a diferença.
A mulher pediu misericórdia "de mim", embora a doente fosse a filha. O pai pede "do meu filho". Os dois casos são de quem cuida pedindo por quem sofre, e cada um põe o peso num lugar. O texto não comenta a diferença. Mas ela impede qualquer regra sobre a maneira certa de pedir: a súplica em nome próprio foi atendida, e a súplica em nome do outro também será.
"Senhor" pode ser tratamento respeitoso, como "senhor" em português, ou título de fé. Na boca de um homem de joelhos, os dois sentidos cabem, e o texto não permite decidir qual ele queria dizer.
"Ele é epilético"
Aqui está a palavra que decide o versículo, e a tradução precisa ser explicada.
O pai não usa um termo neutro de diagnóstico. Usa uma palavra que quer dizer "atingido pela lua" — que traz embutida a explicação popular de onde o mal vinha. A ABC traduz "epilético" porque é o quadro que os sintomas descrevem e o termo que o leitor de hoje reconhece. As Bíblias antigas diziam "lunático", que conserva a lua e perdeu o sentido. Nenhuma das duas soluções é perfeita, e o item 10 mostra a palavra por inteiro.
Isso tem consequência, e é preciso dizê-la com cuidado.
A palavra do pai descreve o que ele vê e dá uma causa natural — ou, pelo menos, uma causa que não é um demônio. A lua é astro, não espírito. Mas não é possível concluir daí que o pai pensasse como os médicos hipocráticos. Para muita gente do mundo antigo, a lua também era poder, e a fronteira entre influência dos astros e ação de seres invisíveis não era nítida. O que se pode afirmar é o que está na frase: ele não fala de demônio.
O pai não diagnostica demônio; o texto, depois, sim
Esse é o dado central, e ele fica mais claro na comparação com os outros evangelhos.
Em Marcos 9:17-18, o pai diz logo de início que o filho "tem um espírito mudo", e que o espírito o agarra e o joga no chão. Em Lucas 9:39, o pai diz que "um espírito o toma". Nos dois, é o próprio pai quem fala de espírito.
Em Mateus, não. O pai descreve uma doença com nome de doença. É só no versículo 18 que o texto dirá que Jesus repreendeu o demônio e que o demônio saiu. Mateus é o único dos três em que a palavra do pai e a palavra do texto divergem.
O que isso significa é discutido, e a análise pertence ao estudo de Mateus 17:18, onde as duas descrições se encontram. Aqui basta registrar que o evangelho as mantém lado a lado. Não diagnostica epilepsia por cima do versículo 18, e não apaga a descrição do pai por causa dele.
"e sofre muito"
A expressão é forte: descreve padecimento, não só estado de saúde. Há manuscritos que trazem uma forma mais branda, "está mal"; a que o Textus Receptus conserva, e a ABC traduz, fala de sofrimento ativo.
O pai não fala só dos riscos. Fala do que o filho passa. Antes de dizer que ele cai no fogo, diz que ele sofre.
"pois cai muitas vezes no fogo e muitas vezes na água"
A frase tem estrutura de repetição: "muitas vezes" duas vezes, "no" duas vezes. É a fala de quem já contou o caso outras vezes e já não precisa procurar as palavras.
Dois pontos merecem atenção.
O primeiro é o verbo. Em Mateus, o menino "cai". Em Marcos 9:22, o pai diz que o espírito "o lançou" no fogo e na água "para matá-lo". Marcos atribui uma intenção e um agente; Mateus descreve só o acontecimento. A diferença acompanha a do ponto anterior: no Mateus, a fala do pai não tem ninguém agindo contra o filho.
O segundo é o que a frase implica sobre a família. Se o menino cai muitas vezes e ainda está vivo, alguém o tirou do fogo e da água muitas vezes. A frase não fala do pai, mas o pressupõe: por trás dela há anos de vigilância e de socorro no último instante.
Há leitores antigos que viram no fogo e na água um sentido simbólico — as paixões que queimam e as que afogam. Orígenes fez essa leitura em paralelo à literal. É leitura espiritual legítima como aplicação, mas o texto não a sugere: fogo e água, aqui, são os perigos reais de uma casa.
O que o versículo não diz
Não diz a idade do menino — o versículo 18 o chamará de "menino", e Marcos 9:21 informa que o mal vinha "desde a infância". Não diz há quanto tempo o pai procura cura, nem o que já tentou além dos discípulos. Não diz se o menino estava presente nesse momento; o versículo 17 manda trazê-lo, o que sugere que não estava ao lado do pai.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
O pai
O homem que se ajoelhou no versículo 14. Mateus não dá nome, cidade nem condição social. Lucas 9:38 informa que ele grita do meio da multidão e que o menino é filho único.
O filho
Chamado aqui de "filho" e, no versículo 18, de "menino" — a palavra grega pode indicar criança ou rapaz jovem. Marcos 9:21 diz que o mal começou na infância, e Marcos 9:17 acrescenta que ele não falava. Mateus não traz esses dados.
A doença
Descrita pelo pai com a palavra que significa "atingido pela lua" e traduzida por "epilético". O quadro — quedas repetidas, perigo de morte — é o que a medicina antiga chamava de "doença sagrada". O texto, no versículo 18, dirá que havia um demônio. O estudo não decide entre as duas descrições.
A outra ocorrência da palavra
A mesma palavra grega aparece em Mateus 4:24, na lista dos que eram levados a Jesus na Síria e na Galileia. Ali a ABC traduz "lunáticos", e eles aparecem numa categoria separada da dos endemoninhados. As duas ocorrências do Novo Testamento estão em Mateus.
Os documentos antigos citados
Da doença sagrada — tratado da escola de Hipócrates, de por volta de 400 a.C., que nega a origem divina do mal.
Comentário a Mateus, de Orígenes, livro XIII — comentário do século III que discute este versículo e registra a opinião dos médicos sobre a lua.
5. Pontos de Ensino
Descrever com precisão o sofrimento de quem se ama
O pai não pede genericamente. Diz o que acontece, com que frequência e com que risco. A oração que o evangelho registra aqui é concreta.
A linguagem de cada época carrega a sua explicação
"Atingido pela lua" era o nome disponível para o mal. Ler a Bíblia com honestidade exige perceber que as palavras do texto trazem teorias do mundo antigo — e que isso não diminui o que ele registra.
O texto não precisa ser harmonizado à força
O pai fala de doença; o versículo 18 fala de demônio. Mateus conserva as duas descrições sem forçar uma a engolir a outra. O leitor honesto faz o mesmo.
Pedir por outro
O pedido é "tem misericórdia do meu filho". A intercessão por quem não pode pedir por si é um dos modos de oração que os evangelhos mais registram — e é atendida.
O cuidado prolongado é invisível
"Cai muitas vezes" pressupõe muitos resgates. O versículo mostra, sem dizer, o peso que uma doença crônica põe sobre a família inteira.
6. Aspectos Filosóficos
O nome da doença e a teoria escondida nele
O versículo expõe um problema que atravessa toda a história do conhecimento: as palavras com que se nomeia uma coisa já trazem uma explicação dela. "Atingido pela lua" não é só descrição; é hipótese sobre a causa. "Doença sagrada" também. Quem usa a palavra aceita a teoria sem perceber.
Isso vale nos dois sentidos. Chamar o menino apenas de "epilético" também é escolher uma explicação — a moderna — e aplicá-la a um texto que registra outra. A pergunta filosófica é se existe descrição sem teoria, um relato puro do que se vê. O pai tentou: fogo, água, quedas. Mas até ele precisou de um nome, e o nome veio carregado.
O cuidado que isso pede ao leitor é modesto e difícil: reconhecer que a tradução, qualquer que seja, já é uma leitura.
7. Aplicações Práticas
Orar com o caso concreto
O pai não diz "abençoa a minha família". Diz o que o filho tem, o que sofre, onde cai. Quem ora por alguém doente pode fazer o mesmo: nomear o sofrimento com os detalhes que conhece. A oração genérica protege quem ora de encarar o problema; a concreta obriga a olhar.
Não usar a palavra antiga como arma
O versículo foi usado, ao longo dos séculos, para tratar pessoas com epilepsia como possuídas. Isso é ler o texto pela metade. O próprio pai, em Mateus, descreve uma doença, e o evangelho não autoriza ninguém a olhar para uma criança que convulsiona e ver nela um demônio. Quem convive com essa condição hoje precisa de médico, e procurar médico não contradiz nada do que o versículo registra.
Reconhecer o cansaço de quem cuida
"Muitas vezes no fogo, muitas vezes na água" é a vida de quem cuida de alguém com doença crônica: vigilância sem folga. Famílias nessa situação raramente são vistas, porque o doente ocupa o centro. O versículo dá voz ao pai. Uma comunidade atenta faz o mesmo e pergunta também por quem cuida.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
O menino tinha epilepsia ou estava possuído?
O texto traz as duas descrições: o pai fala em doença com sintomas de epilepsia; o versículo 18 diz que Jesus repreendeu o demônio. Não é possível decidir a partir do texto, e este estudo não diagnostica. O que se pode afirmar é que Mateus conservou as duas.
Por que a ABC não traduz "lunático"?
Porque, em português atual, "lunático" quer dizer louco ou excêntrico, sentido que a palavra grega não tem. "Epilético" corresponde ao quadro descrito. A perda é a referência à lua, e por isso o item 10 mostra a palavra original.
A crença na influência da lua era só grega?
Não. O Salmo 121:6 fala da lua que "fere" de noite, ao lado do sol que fere de dia, o que mostra a ideia também no mundo israelita. A Vulgata latina conservou a mesma teoria ao traduzir por lunaticus.
O menino estava junto do pai?
O texto não diz. No versículo 17 Jesus manda trazê-lo, o que indica que não estava ao alcance naquele instante.
Mateus tinha algum interesse médico no caso?
Não há indício disso. Mateus reduz os sintomas em relação a Marcos, que fala de espuma, ranger de dentes e rigidez. O que ele conserva é o essencial para o pedido: o nome do mal e o perigo de morte.
9. Conexão com Outros Textos
A mesma fala nos outros evangelhos
Marcos 9:17-18 — "Mestre, eu trouxe o meu filho, que tem um espírito mudo. Onde quer que o agarre, ele o joga no chão; ele espuma, range os dentes e fica rígido."
Em Marcos, o pai fala de espírito desde a primeira frase.
Marcos 9:22 — "Muitas vezes o espírito o lançou no fogo e na água para matá-lo."
O mesmo par fogo e água, com agente e intenção.
Lucas 9:38-39 — "Mestre, peço que olhe para o meu filho, porque é o único que eu tenho. Um espírito o toma, e de repente ele grita."
O filho único, dado exclusivo de Lucas.
A outra ocorrência da palavra
Mateus 4:24 — "E a sua fama se espalhou por toda a Síria; e traziam-lhe todos os que sofriam, acometidos de diversas enfermidades e tormentos: os endemoninhados, os lunáticos e os paralíticos; e ele os curava."
Os "lunáticos" numa categoria à parte dos endemoninhados.
A lua que fere
Salmo 121:6 — "O sol não o ferirá de dia, nem a lua de noite."
A crença na influência nociva da lua, no próprio saltério.
O mesmo pedido
Mateus 15:22 — E eis que uma mulher cananeia, vinda daquela região, começou a gritar: “Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de mim! A minha filha está gravemente endemoninhada.”
A súplica pela filha feita em nome próprio, contraponto do pedido deste pai.
Mateus 20:30 — Dois cegos estavam sentados à beira do caminho e, ao ouvirem que Jesus passava, gritaram: “Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de nós!”
A fórmula, de novo, na boca de quem sofre.
Um pai que pede por um filho
João 4:47, 49 — "Foi até ele e pediu que descesse e curasse o seu filho, que estava à morte. [...] O oficial disse: Senhor, desça antes que o meu filho morra."
Outro pai que procura Jesus por um filho em perigo de morte.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
“Senhor, tem misericórdia do meu filho. Ele é epilético e sofre muito, pois cai muitas vezes no fogo e muitas vezes na água.
Texto grego
Κύριε, ἐλέησόν μου τὸν υἱόν, ὅτι σεληνιάζεται καὶ κακῶς πάσχει· πολλάκις γὰρ πίπτει εἰς τὸ πῦρ, καὶ πολλάκις εἰς τὸ ὕδωρ.
Transliteração
Kyrie, eleēson mou ton huion, hoti selēniazetai kai kakōs paschei; pollakis gar piptei eis to pyr, kai pollakis eis to hydōr.
Uma nota textual
Onde o Textus Receptus ("texto recebido", a edição grega do século XVI que a tradução ABC segue) e a maioria dos manuscritos leem kakōs paschei, "sofre muito", uma parte dos manuscritos antigos lê kakōs echei, "está mal". A forma com "sofre" é a mais expressiva; a outra é a expressão comum para doente, a mesma de Mateus 4:24. A diferença não muda o sentido, só a intensidade.
Análise palavra por palavra
Κύριε, ἐλέησόν — Kyrie, eleēson, "Senhor, tem misericórdia". Vocativo de kyrios e imperativo aoristo de eleeō.
A fórmula e a sua história na oração dos salmos estão no estudo de Mateus 15:22. Vale só o registro de que ela sobreviveu em grego dentro da liturgia cristã de língua latina, como Kyrie eleison.
μου τὸν υἱόν — mou ton huion, "o meu filho".
O pronome mou, "meu", vem antes do substantivo, fora da posição normal. Em grego, antecipar o possessivo dá ênfase: "de mim, o filho". A frase aproxima o pai do filho na própria ordem das palavras.
ὅτι — hoti, "porque". Introduz a razão do pedido.
σεληνιάζεται — selēniazetai, "é atingido pela lua". Presente do indicativo, voz média ou passiva, de selēniazomai.
É a palavra do versículo. Vem de selēnē, "lua" — a mesma raiz do nome do elemento químico selênio e da deusa grega Selene. O sufixo verbal -iazō forma verbos que indicam estar sob um estado ou uma influência. O sentido literal é "estar sob o efeito da lua", "ser tomado pela lua".
Três coisas merecem registro.
A primeira é a raridade. No Novo Testamento, a palavra aparece só duas vezes, as duas em Mateus: aqui e em Mateus 4:24, onde o particípio designa os "lunáticos" levados a Jesus. Na literatura grega anterior ao Novo Testamento ela é pouco documentada, e o uso se amplia em autores posteriores.
A segunda é a teoria que carrega. A palavra não descreve o sintoma; nomeia uma causa. Pressupõe a crença, descrita no item 2, de que a lua desencadeava ou agravava os ataques.
A terceira é o destino da palavra nas traduções. A Vulgata latina traduziu por lunaticus est, "é lunático", mantendo a lua. As Bíblias portuguesas antigas seguiram o latim: a Almeida diz "é lunático". Como "lunático", em português moderno, passou a significar louco, as traduções atuais preferem "epilético", que descreve o quadro e perde a referência ao astro. É o caso da ABC. Nenhuma escolha conserva as duas coisas.
A voz do verbo também diz algo. A forma média ou passiva apresenta o menino como quem sofre a ação, não como quem age. Ele "é atingido". Mas o agente não aparece na frase.
καὶ κακῶς πάσχει — kai kakōs paschei, "e sofre muito". Advérbio kakōs, "mal", e presente de paschō, "sofrer, padecer".
Paschō é o verbo do padecimento em geral, e é o mesmo que Jesus usa para a própria paixão: em Mateus 16:21, "sofrer muitas coisas"; em Mateus 17:12, neste capítulo, "o Filho do homem há de sofrer nas mãos deles". O pai usa para o filho o verbo que o capítulo usa para o Filho do homem. Que haja intenção nisso é leitura possível; o verbo é comum, e a coincidência pode ser só de vocabulário.
πολλάκις γὰρ πίπτει — pollakis gar piptei, "pois muitas vezes cai".
Pollakis, "muitas vezes", advérbio de frequência, repetido duas vezes na frase. Gar, "pois", explica o que veio antes: o sofrimento se mostra nas quedas. Piptei é o presente de piptō, "cair", e o presente aqui é o do hábito — não uma queda, mas o que costuma acontecer.
O verbo é intransitivo e não tem agente. Em Marcos 9:22 o pai usa outro verbo, "lançou", com o espírito como sujeito.
εἰς τὸ πῦρ — eis to pyr, "no fogo". Pyr é o fogo em geral; dele vêm "pira" e "pirotecnia". O artigo definido aponta para o fogo conhecido, o da casa.
καὶ πολλάκις εἰς τὸ ὕδωρ — kai pollakis eis to hydōr, "e muitas vezes na água". Hydōr, "água", raiz de "hidratar" e "hidráulica". A construção repete a anterior termo a termo, e a simetria é a própria forma da fala do pai.
11. Conclusão
Do que se viu, o versículo leva a três conclusões.
A primeira é que o pai fala de doença. A palavra que ele usa nomeia o mal pela teoria da lua, a mesma crença que o Salmo 121 conhecia e que a medicina grega discutia. Em Mateus, diferentemente de Marcos e de Lucas, não há espírito na boca do pai. Qualquer leitura do episódio precisa começar reconhecendo isso.
A segunda é que o evangelho não resolve a tensão que ele mesmo cria. Três versículos adiante, o texto falará de demônio. Mateus não corrige o pai nem adapta a fala dele ao desfecho. Mantém as duas descrições — e já no século III um comentarista como Orígenes precisava responder aos médicos que liam o caso de outro modo. O leitor que diagnostica epilepsia apaga uma parte do texto; o que ignora a fala do pai apaga outra.
A terceira é que, antes de qualquer teoria, há um sofrimento descrito com precisão. O menino sofre, cai, está sempre perto do fogo e da água, e alguém o tira de lá. O pedido de misericórdia não depende de se saber de onde vem o mal. Depende de que ele seja visto.













