E a sua fama correu por toda a Síria, e traziam-lhe todos os que padeciam, oprimidos por várias enfermidades e tormentos, os endemoninhados, os lunáticos, e os paralíticos, e ele os curava.
1. Introdução
Mateus 4:24 detalha o efeito do ministério resumido no versículo anterior: a fama de Jesus se espalha, e as pessoas começam a trazer-lhe toda sorte de doentes. O versículo funciona como um zoom sobre a palavra "curando" do versículo 23. Se ali estava a legenda, aqui está a cena: uma multidão de sofredores chegando de longe, com males variados, e Jesus curando a todos.
Há um dado que merece atenção crítica: a fama corre primeiro, e é a cura que atrai as multidões. As pessoas vinham, em grande parte, atrás de alívio para o corpo. Isso não é criticado aqui, mas o Evangelho, mais adiante, mostrará a ambiguidade dessa atração — buscar Jesus pelo milagre pode não ser ainda buscá-lo pelo que ele é. Por ora, o texto registra a compaixão que acolhe a todos, sem exigir pureza de motivos.
2. Contexto Histórico e Cultural
A Síria era, no tempo de Jesus, uma província romana ao norte da Galileia, com população mista e forte presença não judaica. Dizer que a fama de Jesus chegou "por toda a Síria" indica um alcance que já ultrapassava as fronteiras estritamente judaicas — um prenúncio da abertura aos gentios que marcaria a igreja depois. Sem meios de comunicação, a fama se espalhava boca a boca, pelo relato de quem fora curado ou testemunhara curas.
As categorias de doença que o versículo lista refletem a compreensão da época. "Endemoninhados" eram vistos como pessoas sob influência de espíritos malignos. Os "epiléticos" aparecem no grego como selēniazomenous, literalmente "lunáticos", pois se atribuía a doença à influência da lua. Os "paralíticos" eram os que perdiam o movimento. É importante ler essas categorias com honestidade histórica: elas misturam o que hoje distinguiríamos como doenças neurológicas, transtornos mentais e males físicos, sob um vocabulário antigo. Reconhecer isso não nega a realidade das curas; apenas situa a linguagem no seu tempo.
3. Análise Teológica
“Sua fama corria por toda a Síria”
A Síria era, no tempo de Jesus, uma província romana ao norte da Galileia. A propagação da sua fama indica uma rápida difusão para além dos territórios judaicos, prenunciando as missões posteriores entre os gentios e cumprindo Isaías 9:1-2 sobre a luz que brilharia na Galileia dos gentios.
“E traziam-lhe todos que sofriam de algum mal, tendo diversas enfermidades e tormentos”
O ato de trazer os doentes revela fé e o desespero por cura. A doença era, culturalmente, ligada ao pecado ou a uma aflição espiritual; a cura sinalizava autoridade divina e cumpria a expectativa messiânica daquele que tomaria sobre si as nossas enfermidades, como anuncia Isaías 53:4.
“Os endemoninhados, epiléticos, e paralíticos”
A lista abrange males que a época compreendia de modos distintos. A possessão demoníaca era associada a aflições físicas e mentais; a autoridade de Jesus sobre os demônios testemunhava o seu poder divino e a irrupção do Reino. Os "epiléticos" (no grego, "lunáticos") eram muitas vezes ligados à influência da lua ou de espíritos, e os "paralíticos" ficavam dependentes de outros. Sobre todos, Jesus manifesta poder.
“E ele os curava”
A afirmação final resume o ministério de cura de Jesus, que confirma a sua identidade messiânica e cumpre as profecias sobre um redentor que também cura. As curas oferecem esperança e restauração, como antecipação da cura plena do Reino.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Pessoas
Jesus Cristo — figura central, que cura e liberta os que lhe são trazidos.
Os doentes e aflitos — pessoas com males físicos e espirituais diversos, levadas a Jesus para serem curadas.
Os endemoninhados — tidos como sob influência de espíritos malignos, libertados por Jesus.
Os paralíticos — pessoas sem movimento, restauradas por ele.
Lugares
Síria — província ao norte de Israel, sinal do alcance amplo da fama de Jesus, além das fronteiras judaicas.
Eventos
As curas em massa — o acorrer das multidões e a cura de todo tipo de doente, manifestando a autoridade e a compaixão de Jesus.
5. Pontos de Ensino
A compaixão de Cristo
Jesus se dispõe a curar todos os que se aproximam, modelo de compaixão diante do sofrimento humano.
A autoridade de Jesus
O poder de curar e libertar revela a sua autoridade divina sobre as aflições da vida, físicas e espirituais.
Fé e ação
Trazer os doentes a Jesus foi um ato de fé concreta; interceder e agir pelos que sofrem faz parte da resposta de fé.
A difusão da mensagem
A fama se espalhou pelo testemunho de quem experimentou o poder de Jesus; o relato pessoal alcança outros.
Cura integral
Jesus atendia necessidades físicas e espirituais, cuidando da pessoa por inteiro.
6. Aspectos Filosóficos
O versículo levanta a questão da relação entre motivo e busca. As multidões vinham atrás de cura — um motivo legítimo, humano, ligado ao sofrimento. Jesus não as repele por isso. Mas o fenômeno abre uma pergunta que atravessa os Evangelhos: buscar Deus pelo benefício é o mesmo que buscá-lo por ele mesmo? O texto de Mateus, neste ponto, apenas acolhe; será preciso o restante da narrativa para mostrar que a atração pelo milagre, sozinha, é frágil.
Há também a questão da linguagem sobre a doença. O vocabulário antigo — "endemoninhados", "lunáticos" — mistura categorias que hoje separaríamos. A honestidade crítica pede que não se leia esse texto como um manual de diagnóstico, nem se use para atribuir toda doença a causas espirituais. O que o versículo afirma, com clareza, é a compaixão e a autoridade de Jesus diante do sofrimento real das pessoas; o modo antigo de nomear as doenças é o invólucro cultural dessa afirmação, não o seu cerne. Distinguir uma coisa da outra é ler com respeito ao texto e à realidade.
7. Aplicações Práticas
Levar a Jesus quem sofre. As pessoas traziam os doentes. Interceder e cuidar concretamente de quem sofre é uma forma viva de fé.
Acolher antes de exigir. Jesus curou os que vieram, sem cobrar motivos perfeitos. O acolhimento do sofrimento não espera que a pessoa chegue "pronta".
Testemunhar pela própria história. A fama correu pelo relato de quem foi tocado. Contar o que Deus fez alcança outros mais do que argumentos.
Não espiritualizar toda dor. O vocabulário antigo misturava doenças. Hoje, cuidar bem inclui reconhecer causas físicas e mentais, sem reduzir tudo ao espiritual.
Buscar a Jesus por ele, não só pelo benefício. A atração pelo milagre é humana, mas frágil. Vale amadurecer de buscar o dom para buscar quem dá.
Cuidar da pessoa inteira. Jesus atendeu corpo e espírito. O cuidado cristão não escolhe entre um e outro.
8. Perguntas e Respostas
1. Qual é o significado de Mateus 4:24?
É o registro do efeito do ministério de Jesus: a fama se espalha, e trazem-lhe toda sorte de doentes, a quem ele cura. Mostra a compaixão e a autoridade de Jesus e o alcance crescente da sua obra.
2. Como "trazer todos os doentes" a Jesus na nossa comunidade hoje?
Interceder pelos que sofrem e agir por eles concretamente — pelo cuidado, pelo acompanhamento, pela oração — levando-os, de fato, à presença de Deus.
3. O que o versículo revela sobre o poder e a autoridade de Jesus?
Revela uma autoridade que alcança todo tipo de mal, físico e espiritual, e uma compaixão que não recusa ninguém que se aproxima.
4. Como o versículo se conecta a outros relatos de cura nos Evangelhos?
Ele resume o que episódios como os de Marcos 1:32-34 e Mateus 8:16 narram em detalhe: multidões de doentes e endemoninhados trazidos a Jesus, e curados.
5. Como imitar a compaixão de Jesus pelos "endemoninhados" hoje?
Aproximando-se dos mais marginalizados e sofridos sem medo nem juízo, oferecendo presença, cuidado e a esperança do evangelho.
6. Que passos aumentam a nossa fé no poder de Jesus?
Recordar e testemunhar o que ele já fez, permanecer na oração e na Palavra, e agir com confiança, mesmo diante do que não controlamos.
7. Como o versículo mostra a autoridade de Jesus sobre a doença e a possessão?
Ao apresentá-lo curando males tão diversos — enfermidades, tormentos, possessão, paralisia — sem exceção, o texto exibe uma autoridade abrangente.
8. Que evidência histórica apoia a ampla fama de Jesus?
O próprio fato de o movimento cristão ter nascido e crescido a partir da Galileia, e de as fontes o descreverem como curador e mestre, indica um impacto real, ainda que a mensuração histórica seja limitada.
9. Como o versículo reflete o cumprimento de profecias messiânicas?
Ao mostrar Jesus tomando sobre si as enfermidades do povo, ecoa Isaías 53:4 e a expectativa de um Messias que traria cura e restauração.
9. Conexão com Outros Textos
"Verdadeiramente ele tomou sobre si nossas enfermidades, e nossas dores levou sobre si." (Isaías 53:4) — Mateus lê o ministério de cura de Jesus à luz desta profecia; de fato, em 8:17 ele cita este versículo para interpretar as curas.
"Ao entardecer, quando o sol já se punha, trouxeram-lhe todos os doentes e endemoninhados." (Marcos 1:32) — Marcos narra em cena o que Mateus 4:24 resume: o acorrer dos doentes e endemoninhados a Jesus.
"Quando chegou o anoitecer, trouxeram-lhe muitos endemoninhados. Ele expulsou-lhes os espíritos com a palavra, e curou todos os que estavam doentes." (Mateus 8:16) — O próprio Mateus retoma o tema mais adiante, mostrando a cura pela palavra e ligando-a explicitamente a Isaías 53.
"Quando o sol estava se pondo, trouxeram-lhe todos os que estavam enfermos de várias doenças. Ele punha as mãos sobre cada um deles e os curava." (Lucas 4:40) — Lucas acrescenta o gesto da imposição das mãos, sublinhando o toque pessoal de Jesus sobre cada doente.
"E logo sua fama se espalhou por toda a região da Galileia." (Marcos 1:28) — O paralelo de Marcos confirma o tema da fama que corre, motor que atrai as multidões a Jesus.
10. Original Grego e Análise
Texto em português: E a sua fama se espalhou por toda a Síria; e traziam-lhe todos os que sofriam, acometidos de diversas enfermidades e tormentos: os endemoninhados, os lunáticos e os paralíticos; e ele os curava.
Texto grego: Καὶ ἀπῆλθεν ἡ ἀκοὴ αὐτοῦ εἰς ὅλην τὴν Συρίαν· καὶ προσήνεγκαν αὐτῷ πάντας τοὺς κακῶς ἔχοντας, ποικίλαις νόσοις καὶ βασάνοις συνεχομένους, καὶ δαιμονιζομένους, καὶ σεληνιαζομένους, καὶ παραλυτικούς· καὶ ἐθεράπευσεν αὐτούς.
Transliteração: Kai apēlthen hē akoē autou eis holēn tēn Syrian; kai prosēnenkan autō pantas tous kakōs echontas, poikilais nosois kai basanois synechomenous, kai daimonizomenous, kai selēniazomenous, kai paralytikous; kai etherapeusen autous.
Análise palavra por palavra:
- hē akoē autou (a fama, a notícia dele): literalmente "o ouvir dele", aquilo que se ouvia a seu respeito; a notícia que corria de boca em boca.
- kakōs echontas (os que estavam mal, os doentes): expressão idiomática, "os que iam mal" de saúde; o termo geral para os enfermos.
- poikilais nosois (variadas doenças): poikilos significa "de vários tipos, diversificado"; a variedade sublinha o alcance das curas.
- daimonizomenous (endemoninhados): particípio de daimonizomai, os tidos como possuídos por espíritos; categoria cultural para diversas aflições.
- selēniazomenous (lunáticos): de selēnē, "lua"; literalmente "atingidos pela lua", termo antigo para o que se traduz por "epiléticos", refletindo a ideia de influência lunar.
- etherapeusen (curou): aoristo de therapeuō; a ação de cura resumida num verbo que abrange todos os casos anteriores.
Nota teológica: O vocabulário grego expõe com clareza o caráter cultural das categorias: selēniazomenous ("lunáticos") revela a crença antiga na influência da lua sobre certas doenças, hoje identificadas como epilepsia ou convulsões. A honestidade crítica pede reconhecer esse invólucro de linguagem sem, por isso, negar a realidade das curas. O cerne teológico do versículo — a compaixão e a autoridade de Jesus sobre todo tipo de sofrimento — não depende do sistema médico antigo; atravessa-o. E a palavra "Síria", logo de saída, insinua que essa autoridade não se deixaria conter pelas fronteiras de Israel.
11. Conclusão
Mateus 4:24 mostra o ministério de Jesus em plena expansão: a fama corre, as multidões chegam de longe, e ele cura todo tipo de doente. É a palavra "curando" do versículo anterior desdobrada em imagens concretas de sofrimento acolhido e desfeito.
O versículo revela a compaixão de Jesus, que não recusa ninguém, e a sua autoridade sobre todo mal. Ao mesmo tempo, lido com honestidade, ensina a distinguir o cerne da mensagem — o poder e a misericórdia diante do sofrimento — do invólucro cultural em que ela vem, com o seu vocabulário antigo de "lunáticos" e possessão. As multidões vinham atrás da cura; o Evangelho as acolhe assim, mas aponta, mais adiante, para algo maior do que o alívio do corpo: aquele que cura é também aquele a quem vale a pena seguir por si mesmo.













