Mas eu digo a vocês: Elias já veio, e não o reconheceram; ao contrário, fizeram com ele tudo o que quiseram. Da mesma forma, o Filho do homem há de sofrer nas mãos deles.”
1. Introdução
Aqui chega o "mas" que o versículo 11 preparou. Os mestres da lei estavam certos: Elias vem. O que eles não sabiam é que ele já tinha vindo.
A frase de Jesus tem duas metades, e é a ligação entre elas que dá peso ao versículo.
A primeira metade é sobre Elias: veio, não foi reconhecido e foi tratado como quiseram. O nome de João Batista não é dito — só o versículo 13 o traz —, e a identificação de João com Elias, que é de Mateus 11:14, não se reabre aqui. O que este versículo tem de próprio é o "não o reconheceram": a falha não foi de não ver, foi de não identificar.
A segunda metade é sobre o Filho do homem: da mesma forma, vai sofrer nas mãos deles. O destino do precursor e o destino de quem vem depois dele são postos numa mesma frase, ligados por "da mesma forma".
O resultado é uma inversão da doutrina que os discípulos trouxeram. Os mestres usavam "Elias vem primeiro" como calendário de triunfo. Jesus mantém o calendário e troca o conteúdo: Elias veio primeiro, sim — e o que aconteceu com ele é o que vai acontecer depois.
A morte de João está contada em Mateus 14:3-12 e não se reconta. O item 2 examina outra coisa: de onde vem a ideia de um Elias que sofre, que não está em nenhum texto do Antigo Testamento.
2. Contexto Histórico e Cultural
Um Elias que sofre não estava no roteiro
Nenhum texto do Antigo Testamento diz que o Elias prometido seria rejeitado ou morto. Malaquias fala da vinda e da tarefa; Eclesiástico, da restauração das tribos. O Elias esperado era figura de sucesso.
O Elias histórico, é verdade, foi perseguido: Jezabel quis matá-lo, e ele fugiu para o deserto. Esse fundo, e o paralelo entre Jezabel e Herodias, foram examinados nos estudos de Mateus 14:8 e 14:10. Mas perseguição do Elias antigo não é o mesmo que sofrimento do Elias que havia de voltar.
Marcos sente a dificuldade. Em Marcos 9:13, diz que fizeram com Elias o que quiseram "como está escrito a respeito dele" — e não há texto conhecido que diga isso. Os comentaristas propõem que Marcos pense na perseguição de Jezabel, lida como anúncio do que o Elias futuro sofreria. É hipótese. Mateus, na frase paralela, não traz o "como está escrito".
Onde a ideia foi parar depois
Se o sofrimento do Elias que volta não tinha precedente, ele teve continuação. Nos séculos seguintes, a tradição cristã desenvolveu a imagem de um Elias que viria antes do fim e seria morto.
O primeiro passo está no próprio Novo Testamento. Apocalipse 11:3-12 descreve duas testemunhas que profetizam, têm poder de fechar o céu para que não chova — o sinal de Elias — e de transformar as águas em sangue — o sinal de Moisés. Terminado o testemunho, a besta as mata, e os corpos ficam expostos na praça por três dias e meio, até que Deus as levanta. O texto não dá nomes. A identificação com Elias e Moisés, ou com Elias e Enoque, é leitura posterior — mas antiga.
Tertuliano (escritor cristão de Cartago, que viveu por volta de 160 a 220 d.C.), no tratado Sobre a alma, capítulo 50, trata Enoque e Elias como homens que não morreram mas cuja morte foi apenas adiada: estão reservados para sofrê-la no fim, e com o próprio sangue extinguirão o Anticristo.
O chamado Apocalipse de Elias — texto cristão preservado em copta, a língua do Egito cristão, com redação provável entre os séculos III e IV — narra a descida de Elias e Enoque para enfrentar o "sem-vergonha", figura do inimigo final. Eles o denunciam, são mortos, ficam expostos na praça e ressuscitam.
O conjunto mostra um movimento curioso. A frase de Mateus e de Marcos foi, ao que se sabe, o primeiro lugar em que o Elias da promessa aparece sofrendo. Para o evangelho, esse sofrimento já tinha acontecido, em João. A tradição posterior, que esperava uma segunda vinda de Elias, projetou o mesmo destino para o futuro.
Quem eram "eles"
Há ainda um dado histórico que o versículo não resolve e que precisa ser registrado.
João foi preso e executado por Herodes Antipas, que governava a Galileia e a Pereia em nome de Roma — o relato de Mateus 14 e o de Josefo (historiador judeu do século I), comparados naqueles estudos, concordam no executor. Jesus será condenado em Jerusalém, por iniciativa das autoridades do templo e por sentença do governador romano. Não são as mesmas pessoas, nem o mesmo tribunal, nem a mesma região.
Quando a frase diz que o Filho do homem vai sofrer "nas mãos deles", portanto, o "deles" não pode designar, no sentido estrito, os mesmos agentes da morte de João. O item 3 examina o que ele designa.
3. Análise Teológica do Versículo
"Mas eu digo a vocês"
A frase responde, palavra por palavra, à pergunta do versículo 10.
Os discípulos disseram: "os mestres da lei dizem". Jesus diz: "mas eu digo". De um lado, o ensino corrente; do outro, a palavra dele. Não é uma negação do que os mestres dizem — o versículo 11 acabou de confirmá-lo —, e sim um acréscimo que eles não tinham: o que já aconteceu.
"Elias já veio"
O "já" é a palavra que desloca tudo.
A doutrina dos mestres olhava para a frente: Elias virá. Jesus não discute a vinda; muda a sua posição no tempo. O que os mestres esperavam está atrás deles. Eles continuam aguardando um acontecimento que já passou.
E ele não diz quem. A frase deixa o nome em aberto, e a identificação fica a cargo de quem ouve — o versículo 13 registra que os discípulos a fizeram. Há nisso um eco da condição de Mateus 11:14, "se vocês quiserem aceitar": a identificação de João com Elias, no evangelho, nunca é imposta; é oferecida para ser reconhecida.
"e não o reconheceram"
Este é o centro do versículo.
O verbo não é "não o viram". João foi o homem mais visível da sua geração. Em Mateus 3:5, Jerusalém e toda a Judeia saíam a ele; em Mateus 14:5, Herodes tinha medo de matá-lo porque o povo o considerava profeta. Viram-no, ouviram-no, foram batizados por ele.
O que faltou foi identificar. O item 10 mostra que o verbo é o do reconhecimento pleno, o de dar-se conta de quem alguém é. A falha não foi de informação; foi de categoria. Mesmo quem o tinha por profeta não o tinha por Elias. Profeta era pouco. Ou era outra coisa.
E houve quem o pusesse na categoria oposta. Em Mateus 11:18, Jesus lembra o que se dizia de João: "ele tem demônio". O Elias da promessa, aquele que viria restaurar, foi classificado como possesso. Não reconhecer, aqui, não é ficar em dúvida. É identificar errado.
O sujeito do verbo não é nomeado. "Não o reconheceram" — quem? A frase está conectada à pergunta sobre os mestres da lei, e eles são os candidatos mais próximos. Mas o alcance parece maior: a multidão que saía ao Jordão também não o reconheceu como Elias, e os próprios discípulos, no versículo 10, fizeram a pergunta sem pensar nele. O plural sem sujeito abraça todo mundo.
"ao contrário, fizeram com ele tudo o que quiseram"
"Ao contrário" traduz uma conjunção forte, de oposição. A frase não diz "não o reconheceram e também o mataram". Diz que, no lugar do reconhecimento, veio o seu oposto.
O versículo 11 prometia que Elias restauraria todas as coisas. Aqui, o sujeito vira objeto: aquele que vinha fazer passa a ser alguém com quem se faz. É a mesma inversão que o estudo de Mateus 16:21 mostrou no verbo "sofrer", e que esta frase exibe inteira — eles fazem, ele sofre.
"Tudo o que quiseram" descreve poder sem limite sobre alguém indefeso. Quem leu Mateus 14 conhece o que isso foi: uma prisão por ter criticado um casamento, um juramento feito numa festa, um pedido e uma cabeça num prato. A vontade de algumas pessoas foi a única lei. O versículo não reconta; basta a expressão.
Há ainda um detalhe que o item 10 desenvolve. O verbo "quiseram" é o mesmo de Mateus 11:14, "se vocês quiserem aceitar". A vontade que não quis aceitar João como Elias fez com ele o que quis.
"Da mesma forma, o Filho do homem há de sofrer nas mãos deles"
Aqui está o achado maior do versículo, e ele está na ligação.
"Da mesma forma" põe os dois destinos em série. Não é só semelhança, como quem diz "vai acontecer algo parecido". É consequência: a sorte do precursor antecipa a sorte de quem vem depois dele.
E isso vira do avesso a doutrina dos mestres. "Elias vem primeiro" era, para eles, a garantia de uma sequência: primeiro o precursor, depois o tempo glorioso. Jesus mantém a sequência inteira — Elias veio primeiro, o Filho do homem vem depois — e mostra o que ela contém. Se o primeiro foi rejeitado e morto, o segundo seguirá o mesmo caminho. O argumento dos mestres, levado a sério, prova a paixão.
A frase também responde, sem dizer, à objeção do versículo 10. Se Elias precisa vir antes do Cristo, e Elias já veio, o Cristo pode estar presente. A prova de que o tempo chegou não é o triunfo do precursor. É o que fizeram com ele.
"nas mãos deles"
O item 2 mostrou que João e Jesus não foram mortos pelas mesmas pessoas. O "deles", então, não aponta para um grupo definido de executores.
A leitura mais sustentável é que "eles" são os mesmos do "não o reconheceram": a geração, os que tinham poder e o usaram, o conjunto de quem não identificou o que estava diante de si. Herodes, os mestres, as autoridades do templo, o governador — cada um num momento, todos na mesma posição.
Poucos versículos adiante, em Mateus 17:22, o anúncio dirá "nas mãos dos homens", e o que há de novo nessa formulação pertence àquele versículo. Aqui, o "deles" amarra o Filho do homem aos que acabaram de ser descritos fazendo o que quiseram.
O que Mateus mudou
Marcos 9:12-13 tem o mesmo material em outra ordem. Primeiro Elias restaura; depois, uma pergunta: como então está escrito que o Filho do homem deve sofrer? Por fim: Elias já veio e fizeram com ele o que quiseram, "como está escrito a respeito dele".
Mateus faz duas coisas. Tira o "como está escrito" da frase sobre Elias, talvez porque não houvesse texto a apontar (item 2). E junta o destino de Elias e o do Filho do homem numa só frase, com "da mesma forma" no meio. O paralelo, que em Marcos está espalhado, em Mateus fica explícito.
É uma diferença de arranjo, verificável. A intenção por trás dela é hipótese, e não é possível afirmar mais que isso.
O limite
O versículo não diz que Jesus deduziu a própria morte da morte de João, nem que a morte de João foi a causa de alguma coisa. Diz que as duas seguem o mesmo padrão. Também não diz nada sobre a identidade de João além do que Mateus 11:14 já disse — a questão de identidade e função, com a contraprova de João 1:21, está no estudo daquele versículo e no de Mateus 16:14.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Jesus — Completa a resposta começada no versículo 11 e fala de si mesmo, outra vez, como Filho do homem.
Os discípulos — Os três que ouvem a resposta. A frase lhes dá o dado e deixa a eles a identificação, que o versículo 13 registra.
Elias — Aqui não é o profeta antigo, nem a figura do calendário, e sim aquele em quem a promessa se cumpriu. A frase não diz o nome.
João Batista — A pessoa de quem se fala, sem ser nomeada. Pregou no deserto da Judeia, batizou no Jordão, foi preso e decapitado por Herodes Antipas (Mateus 14:3-12). Mateus 11:18 guarda o que se dizia dele: que tinha demônio.
"Eles" — O sujeito sem nome de "não o reconheceram" e "fizeram com ele". O item 3 mostra que não é um grupo definido: abrange quem tinha poder e o usou, e quem viu João sem identificar quem ele era.
Herodes Antipas e Herodias — Não são mencionados, mas foram eles, no relato de Mateus 14, os que "fizeram o que quiseram". O versículo os inclui no plural sem destacá-los.
O Filho do homem — Jesus falando de si. O destino anunciado — sofrer nas mãos deles — é o mesmo de Mateus 16:21, agora posto em série com o de João.
A paixão — Evento futuro, que aparece pela terceira vez nestes capítulos: em Mateus 16:21 abertamente, no versículo 9 escondido numa ordem de silêncio, e aqui por comparação.
5. Pontos de Ensino
O esperado pode já ter passado. Os mestres aguardavam Elias. Ele tinha vindo e ido. Esperar corretamente um acontecimento não impede de perdê-lo quando ele chega.
Ver não é reconhecer. João foi visto por multidões. Poucos identificaram quem ele era. A falha descrita não é de informação, é de categoria: tinham o homem diante dos olhos e o puseram na prateleira errada.
A identificação errada pode ser o oposto da certa. O Elias prometido foi chamado de endemoninhado (Mateus 11:18). Não reconhecer, no evangelho, não é ficar neutro.
Quem vinha agir foi tratado como objeto. Aquele que "restauraria todas as coisas" foi alguém com quem "fizeram tudo o que quiseram". A inversão ativa-passiva está inteira na frase.
O destino do precursor antecipa o de quem vem depois. "Da mesma forma" põe João e Jesus em série. A doutrina do "Elias primeiro", levada a sério, não anuncia triunfo; anuncia paixão.
"Eles" é plural sem rosto. Os executores de João e os de Jesus não foram os mesmos. O versículo fala de uma posição — a de quem não reconhece e usa o poder —, e não de um grupo.
Mateus arrumou o material de Marcos. Juntou as duas sortes numa frase e retirou o "como está escrito" sobre Elias. A comparação dos dois evangelhos mostra o que cada um quis deixar claro.
6. Aspectos Filosóficos
Saber a descrição e não reconhecer a pessoa
O versículo toca um problema clássico do conhecimento: a distância entre conhecer uma descrição e identificar quem a satisfaz.
Os mestres sabiam tudo o que se podia saber sobre Elias: que viria, quando viria, o que faria. Tinham a descrição completa. O que não tinham era a capacidade de apontar para um homem concreto e dizer "é este". Uma coisa não leva automaticamente à outra.
A razão é que toda descrição carrega expectativas que não estão escritas nela. "Elias vem primeiro e restaurará" não diz que ele virá vestido de pelos de camelo, pregando arrependimento num rio, e que acabará numa prisão. Quem completou a descrição com um Elias de fogo e poder não o encontrou, porque procurava o que tinha acrescentado, e não o que estava prometido.
O versículo não oferece método para evitar o erro. Registra apenas que ele é possível mesmo para quem conhece bem o texto — e sugere, com "da mesma forma", que se repete.
7. Aplicações Práticas
Desconfiar da forma que se espera.
João não foi reconhecido porque não tinha a aparência de quem se esperava. O mesmo mecanismo funciona na vida comum: a pessoa certa, a ajuda certa, o aviso certo chegam com outra roupa e são descartados. Não se trata de aceitar tudo, e sim de perguntar se aquilo que se rejeita está sendo rejeitado pelo conteúdo ou pela embalagem.
Quem confronta o poder costuma pagar.
João foi preso por dizer a um governante que o casamento dele era ilícito. "Fizeram com ele tudo o que quiseram" é a descrição de sempre do que acontece a quem fala sem ter proteção. O versículo não transforma isso em regra de conduta, mas não deixa ilusão: dizer a verdade a quem manda tem preço, e o evangelho não esconde que o preço foi pago inteiro.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
1. Os discípulos também estão entre os que "não o reconheceram"?
Em certo sentido, sim. No versículo 10 eles perguntam sobre Elias sem pensar em João, embora Mateus 11:14 já tivesse feito a ligação. Mas o texto não os inclui expressamente, e o versículo 13 os separa: eles entendem. A diferença é que, para eles, o reconhecimento chegou antes do fim da conversa.
2. Jesus tirou da morte de João a certeza da própria morte?
O texto não diz. O anúncio da paixão em Mateus 16:21 não menciona João, e aqui a ligação é de padrão, não de causa. Ler a morte de João como o momento em que Jesus percebeu o que o esperava é hipótese psicológica, e o evangelho não entra nesse terreno.
3. Herodes reconheceu João de algum modo?
Reconheceu que ele era alguém fora do comum. Em Mateus 14:2, diz que Jesus é João ressuscitado e que por isso os poderes agem nele. Herodes atribui a João força depois da morte — e o executou em vida. Reconheceu o poder; não reconheceu a função.
4. Por que Jesus não diz o nome de João?
O texto não explica. É plausível que tenha a ver com o padrão de Mateus 11:14, em que a identificação é oferecida a quem quiser aceitar, e não imposta. Também é possível que o nome fosse óbvio para quem ouvia e não precisasse ser dito. O versículo 13 mostra que os discípulos chegaram lá.
9. Conexão com Outros Textos
A mesma frase em Marcos
Marcos 9:13 — "Mas eu digo a vocês que Elias já veio, e fizeram com ele tudo o que quiseram, como está escrito a respeito dele."
Sem o "não o reconheceram" e com o "como está escrito", que Mateus não traz. O item 3 compara os dois arranjos.
O que se disse e o que se fez com João
Mateus 11:18 — "Pois veio João, que não comia nem bebia, e dizem: 'Ele tem demônio.'"
A identificação errada, levada ao extremo oposto.
Mateus 14:10 — "E mandou decapitar João na prisão."
O "tudo o que quiseram" em uma linha.
Mateus 21:32 — "Pois João veio a vocês pelo caminho da justiça, e vocês não creram nele; mas os cobradores de impostos e as prostitutas creram. Vocês, porém, vendo isso, não se arrependeram depois para nele crer."
Mais adiante no evangelho, Jesus diz às autoridades do templo o mesmo que diz aqui: João veio, e não o receberam. E acrescenta quem o reconheceu.
O mesmo verbo de reconhecer
Lucas 24:16 — "Mas os olhos deles estavam impedidos de reconhecê-lo."
Os dois discípulos a caminho de Emaús andam ao lado de Jesus ressuscitado sem identificá-lo. É o verbo deste versículo, e a mesma situação: a pessoa presente, o reconhecimento ausente.
João 1:10-11 — "Ele estava no mundo, e o mundo foi feito por meio dele, mas o mundo não o reconheceu. Veio para o que era seu, e os seus não o receberam."
O quarto evangelho aplica a Jesus o padrão que aqui se aplica a João — e que "da mesma forma" transfere de um para o outro.
O Filho do homem nas mãos de outros
Mateus 17:22-23 — "Enquanto eles andavam pela Galileia, Jesus lhes disse: 'O Filho do homem está para ser entregue nas mãos dos homens. Eles o matarão, e no terceiro dia ele será ressuscitado.' E os discípulos ficaram muito tristes."
O anúncio que vem dez versículos depois, agora direto.
Atos 3:17 — "Agora, irmãos, eu sei que vocês agiram por ignorância, como também as suas autoridades."
Pedro, depois da ressurreição, descreve a morte de Jesus em termos de não reconhecimento — e inclui as autoridades.
O Elias que sofre, na tradição posterior
Apocalipse 11:7-8 — "Quando tiverem terminado o seu testemunho, a besta que sobe do abismo lhes fará guerra, as vencerá e as matará. Os seus cadáveres ficarão na praça da grande cidade, [...] onde também o Senhor delas foi crucificado."
As duas testemunhas que trazem o sinal de Elias — o estudo de Mateus 17:3 mostra esse traço — mortas no fim do testemunho, na cidade onde Jesus morreu. O item 2 mostra como essa imagem foi lida depois.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Mas eu digo a vocês: Elias já veio, e não o reconheceram; ao contrário, fizeram com ele tudo o que quiseram. Da mesma forma, o Filho do homem há de sofrer nas mãos deles.”
Texto grego
λέγω δὲ ὑμῖν ὅτι Ἠλίας ἤδη ἦλθεν, καὶ οὐκ ἐπέγνωσαν αὐτόν, ἀλλ᾽ ἐποίησαν ἐν αὐτῷ ὅσα ἠθέλησαν· οὕτως καὶ ὁ υἱὸς τοῦ ἀνθρώπου μέλλει πάσχειν ὑπ᾽ αὐτῶν.
Transliteração
legō de hymin hoti Ēlias ēdē ēlthen, kai ouk epegnōsan auton, all' epoiēsan en autō hosa ēthelēsan; houtōs kai ho huios tou anthrōpou mellei paschein hyp' autōn.
Análise palavra por palavra
λέγω δὲ ὑμῖν — legō de hymin, "mas eu digo a vocês".
O de fecha o contraste aberto pelo men do versículo 11: lá, "de fato, Elias vem"; aqui, "mas eu digo". O verbo legō responde ao legousin, "dizem", da pergunta do versículo 10. O grego deixa ver a simetria: eles dizem, eu digo.
ὅτι — hoti, "que". Introduz o conteúdo; em português, os dois-pontos cumprem a função.
Ἠλίας ἤδη ἦλθεν — Ēlias ēdē ēlthen, "Elias já veio".
Ēdē é "já", o advérbio do que está concluído antes do esperado. Ēlthen é o aoristo de erchomai, "vir": ação completa, no passado.
Vale acompanhar o mesmo verbo nos três versículos. No 10, elthein, "vir", na doutrina dos mestres. No 11, erchetai, "vem", na confirmação de Jesus. No 12, ēlthen, "veio". A conversa percorre as três posições do tempo com uma palavra só.
καὶ οὐκ ἐπέγνωσαν αὐτόν — kai ouk epegnōsan auton, "e não o reconheceram".
Epegnōsan é aoristo de epiginōskō, formado de epi, "sobre", mais ginōskō, "conhecer". O composto indica conhecimento que se aplica a alguém ou a algo em particular: identificar, reconhecer, dar-se conta de quem é.
O estudo de Mateus 14:35 registrou o mesmo verbo, no positivo, para os moradores que reconheceram Jesus. O uso mais claro do seu sentido está em Lucas 24: no versículo 16, os olhos dos discípulos de Emaús estavam impedidos de reconhecê-lo; no versículo 31, os olhos se abriram e eles o reconheceram. Nos dois casos, Jesus estava ali o tempo todo. O que muda é a identificação, não a presença.
É esse o sentido aqui. João não passou despercebido. Não foi identificado.
ἀλλ᾽ — all', forma abreviada de alla, "mas", "ao contrário".
É a conjunção de oposição forte, a que corrige: não isto, e sim aquilo. Diferente do simples de, ela sugere que o que vem depois ocupa o lugar do que foi negado.
ἐποίησαν ἐν αὐτῷ — epoiēsan en autō, "fizeram com ele", literalmente "fizeram nele".
Epoiēsan é aoristo de poieō, "fazer". A construção com en, "em", não é a forma mais comum no grego para "fazer algo a alguém"; ela lembra o hebraico e o aramaico, que dizem "fazer em alguém". O efeito, lido em grego, é concreto: a ação recai sobre a pessoa como sobre um lugar.
ὅσα ἠθέλησαν — hosa ēthelēsan, "tudo o que quiseram", literalmente "quantas coisas quiseram".
Hosa é "quanto", "tudo aquilo que", no plural neutro. Ēthelēsan é aoristo de thelō, "querer".
O verbo é o mesmo de Mateus 11:14: ei thelete dexasthai, "se vocês quiserem aceitar". Lá, o reconhecimento de João como Elias dependia da vontade de quem ouvia. Aqui, a vontade aparece de novo — fazendo o que quis com ele. Não se pode afirmar que Mateus pensou no eco, mas ele está nas palavras.
οὕτως καὶ — houtōs kai, "assim também", "da mesma forma".
Houtōs é "assim", "deste modo"; kai, aqui, "também". A dupla estabelece correspondência entre duas coisas: o que valeu para uma vale para a outra. É a dobradiça do versículo.
ὁ υἱὸς τοῦ ἀνθρώπου — ho huios tou anthrōpou, "o Filho do homem". Ver o estudo de Mateus 16:13.
μέλλει πάσχειν — mellei paschein, "está para sofrer", "há de sofrer".
Mellei é o presente de mellō, verbo que, com infinitivo, indica o que está prestes a acontecer ou o que está destinado a acontecer. Paschein é o infinitivo presente de paschō, cujo sentido de "receber uma ação vinda de fora" foi analisado no estudo de Mateus 16:21.
Dois dados sobre este par. O primeiro: mellō é o mesmo verbo de Mateus 11:14, em ho mellōn erchesthai, "o que havia de vir", dito de Elias. O Elias que "havia de vir" já veio; o Filho do homem "há de sofrer". O mesmo verbo do destino passa de um para o outro.
O segundo: a frase põe lado a lado epoiēsan, "fizeram", e paschein, "sofrer". Em grego, poieō e paschō formam o par clássico de agir e receber a ação. O versículo tem os dois na mesma frase: eles fazem, ele sofre.
ὑπ᾽ αὐτῶν — hyp' autōn, "por eles", "nas mãos deles".
Hypo com genitivo indica o agente de uma ação sofrida: aquele por quem algo é feito. Autōn, "deles", retoma o sujeito de "reconheceram" e "fizeram", que o texto nunca nomeia. O português "nas mãos deles" é tradução livre e adequada.
11. Conclusão
Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.
A primeira é que a doutrina dos mestres estava certa e, mesmo assim, não serviu. Eles sabiam que Elias viria e não o identificaram quando veio. O fracasso descrito não é de ignorância, e sim de reconhecimento — e o texto mostra que ele pode ir até o extremo de classificar o enviado como possesso.
A segunda é que o "Elias primeiro" deixa de ser promessa de triunfo. Mantida a sequência que os mestres ensinavam, o conteúdo muda: o precursor veio, foi tratado como quiseram, e isso é o anúncio do que acontecerá com quem vem depois. O argumento que parecia excluir a paixão é o que a antecipa.
A terceira é que o "eles" do versículo não é um grupo, é uma posição. Os agentes da morte de João não foram os mesmos que condenaram Jesus. O que os une é não ter reconhecido e ter tido poder para agir. Por isso a frase não permite atribuir a paixão a um só povo, uma só classe ou uma só autoridade.
E o versículo não diz mais do que isso sobre quem João era: a identidade de Elias em João continua sendo matéria de Mateus 11:14, e aqui se afirma apenas o que fizeram com ele.













