Enquanto eles andavam pela Galileia, Jesus lhes disse: “O Filho do homem está para ser entregue nas mãos dos homens.
1. Introdução
O segundo anúncio da morte é mais curto que o primeiro, e mais seco.
Em Mateus 16:21 havia um trajeto inteiro: Jerusalém, os anciãos, os chefes dos sacerdotes, os escribas, os muitos sofrimentos. Aqui quase tudo isso some. Não há cidade, não há tribunal, não há lista de adversários. Sobra uma frase, e ela traz uma palavra que o primeiro anúncio não tinha.
Três pontos organizam a leitura.
O primeiro é o lugar e o momento. O grupo está de volta à Galileia, logo depois do monte e do vale. O anúncio não vem num momento de crise: vem na volta para casa.
O segundo é a palavra nova, "entregue". Ela diz que alguém vai passar Jesus adiante, de mão em mão, e não diz quem. É a palavra que o evangelho vai usar para Judas, para os sacerdotes e para Pilatos — e também para Deus.
O terceiro é o destino da entrega: "as mãos dos homens". O Filho do homem é entregue aos homens. O jogo das duas palavras está no texto, e o que ele significa é discutido.
O versículo termina no meio da frase. A morte e o terceiro dia, e a reação dos discípulos, estão no versículo 23.
2. Contexto Histórico e Cultural
"Entregar nas mãos": uma fórmula que Israel conhecia de cor
A expressão não foi inventada para a paixão. Ela vinha de longe, e vinha carregada.
Na memória das guerras de Israel, "entregar nas mãos de" era a fórmula do oráculo de vitória. Antes da batalha, a palavra de Deus garantia o resultado dizendo que o inimigo já estava entregue. Josué 6:2 abre a tomada de Jericó assim: "entreguei nas suas mãos Jericó, o seu rei e os seus guerreiros". Melquisedeque usa a mesma fórmula ao abençoar Abrão, em Gênesis 14:20: "bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os seus inimigos nas suas mãos".
O dado que muda tudo é que a fórmula funcionava nos dois sentidos.
O mesmo verbo que entregava os inimigos a Israel entregava Israel aos inimigos. O livro dos Juízes repete isso como refrão: "o SENHOR os entregou nas mãos de Midiã por sete anos", em Juízes 6:1, e antes, em Juízes 2:14, "entregou-os nas mãos dos saqueadores". Nos profetas, a fórmula vira sentença sobre a própria Jerusalém. Jeremias 32:28 diz: "Eis que entrego esta cidade nas mãos dos caldeus". E Daniel 1:2 abre o livro dizendo que o Senhor entregou nas mãos de Nabucodonosor o rei de Judá.
Quem ouvia a expressão, portanto, não ouvia só "ser preso". Ouvia a linguagem com que a Escritura descrevia Deus decidindo o lado de uma derrota.
Grau de certeza: a fórmula e os seus dois sentidos são dados do texto hebraico, fáceis de conferir. Que Jesus ou Mateus tivessem essa ressonância em mente ao escolher a palavra é leitura plausível, não demonstrável. A análise do verbo grego está no item 10.
Como um preso mudava de mãos na Judeia romana
A palavra também descreve um procedimento, e o procedimento tinha etapas.
Um acusado não ia de uma vez do lugar da prisão ao lugar da execução. Passava por várias custódias. A guarda do templo prendia; o conselho de Jerusalém interrogava; o conselho encaminhava ao governador romano, que era quem podia executar na cruz; e o governador entregava o condenado aos soldados. A composição do conselho e a discussão sobre o seu poder de matar estão no estudo de Mateus 16:21, item 4.
O relato da paixão em Mateus segue esse circuito, e a palavra do versículo marca cada passagem. Em Mateus 26:15, Judas pergunta quanto lhe dão para entregar. Em Mateus 27:2, o conselho entrega Jesus a Pilatos. Em Mateus 27:26, Pilatos o entrega para ser crucificado.
O segundo anúncio não descreve nenhuma dessas etapas. Usa a palavra que serve para todas.
A volta para a Galileia
O grupo volta ao território de Herodes Antipas, que tinha mandado matar João Batista, como já se registrou no estudo de Mateus 16:20.
O paralelo de Marcos 9:30 acrescenta que eles atravessavam a Galileia e que Jesus não queria que ninguém soubesse. Mateus não diz isso. A informação de Marcos combina com o que o versículo faz: o anúncio é dito ao grupo, e só a ele, enquanto andam discretamente pela região de onde vieram.
3. Análise Teológica do Versículo
"Enquanto eles andavam pela Galileia"
A cena não tem data nem endereço. Tem só uma região e um grupo.
O dado que interessa é o contraste com o primeiro anúncio. Aquele foi feito em Cesareia de Filipe, no ponto mais ao norte a que Jesus chega no evangelho. Este é feito em casa, na Galileia, onde tudo começou. A mudança de lugar não mudou o assunto.
E o momento é o de logo depois do vale. Os discípulos acabaram de falhar numa cura e de ouvir sobre a fé que move montes. Não há nenhuma pergunta deles sobre a morte; o anúncio vem sem que ninguém o peça.
Há uma pequena diferença de manuscritos por trás do verbo "andavam", tratada no item 10. Ela não altera o sentido da cena.
"Jesus lhes disse"
No primeiro anúncio, Mateus escreveu que Jesus "começou a mostrar". Aqui escreve só "disse".
A diferença é pequena e tem peso. O que em Mateus 16:21 era começo virou assunto conhecido. Não se trata mais de abrir um tema: trata-se de repeti-lo. Quem começou a mostrar agora volta ao mesmo ponto, e a repetição já é, ela mesma, uma informação — o assunto não saiu da pauta depois da transfiguração.
"O Filho do homem"
O título está analisado no estudo de Mateus 16:13, item 10. Aqui basta registrar como ele funciona na frase.
No primeiro anúncio, o sujeito era o próprio Jesus, sem título. Neste, é "o Filho do homem". E o evangelho vem usando esse título, no mesmo capítulo, sempre ligado a sofrimento: em Mateus 17:9, "até que o Filho do homem ressuscite dentre os mortos"; em Mateus 17:12, "o Filho do homem há de sofrer nas mãos deles". O versículo 22 é a terceira vez em poucas linhas.
Isso importa porque o título carrega a figura de Daniel 7:13, que recebe domínio e reino. Mateus o coloca, repetidas vezes, em frases que falam de morte e não de domínio: ressuscitar dentre os mortos, sofrer, ser entregue.
"está para ser"
A expressão diz duas coisas ao mesmo tempo, e o português consegue carregar as duas.
A primeira é proximidade: vai acontecer em breve. A segunda é certeza: vai acontecer. O primeiro anúncio falava em necessidade — "precisava" —, e o sentido dessa palavra é do estudo de Mateus 16:21. O segundo não repete a necessidade. Fala de algo que já está a caminho.
O mesmo modo de dizer aparece nas duas outras frases do Filho do homem ao redor deste trecho. Em Mateus 16:27, ele "virá" na glória do seu Pai; em Mateus 17:12, "há de sofrer". O item 10 mostra que as três frases usam o mesmo verbo auxiliar. A glória futura e a entrega próxima são ditas com a mesma certeza.
"entregue"
Esta é a palavra do versículo.
O primeiro anúncio dizia o que ia acontecer com ele: sofrer, ser morto, ressuscitar. Este acrescenta como aquilo começa: alguém vai entregá-lo. Entre estar livre e ser morto há um ato intermediário, e o versículo o nomeia.
E não diz quem entrega.
O primeiro anúncio já deixava de fora quem impunha a necessidade, como o estudo de Mateus 16:21 mostrou. O segundo acrescenta uma segunda ausência: quem faz a entrega. A forma passiva guarda o segredo, e o resto do Novo Testamento preenche o espaço com várias respostas, todas usando a mesma palavra.
A primeira é Judas. Mateus o apresenta, já na lista dos doze, em Mateus 10:4, como "aquele que o traiu" — e o verbo traduzido por "traiu" é este mesmo.
A segunda são as autoridades de Jerusalém, que o entregam ao governador, em Mateus 27:2.
A terceira é Pilatos, que o entrega aos soldados, em Mateus 27:26.
A quarta é Deus. Paulo escreve, em Romanos 8:32, que Deus "não poupou o próprio Filho, mas o entregou por todos nós". E há uma quinta, que Mateus não formula: Paulo diz em Gálatas 2:20 que o Filho de Deus "se entregou" a si mesmo.
O versículo não escolhe entre essas respostas, e é essa a sua força. A mesma palavra cobre o gesto de um traidor, o de um tribunal, o de um governador e o de Deus. Não é possível decidir, a partir desta frase, qual deles Jesus tinha em vista. É possível que a frase tenha sido dita justamente para caber em todos.
Há um limite a registrar. Dizer que Deus "entrega" não significa, no texto, que Judas, o conselho e Pilatos fiquem sem responsabilidade. Mateus 26:24 diz, sobre aquele por meio de quem o Filho do homem é traído — e "traído" traduz a mesma palavra —, que "melhor seria para esse homem não haver nascido". O evangelho segura as duas coisas e não explica como elas se combinam.
"nas mãos dos homens"
O Filho do homem será entregue aos homens. A repetição da palavra é visível em grego e em português, e é difícil que seja acidente.
Três leituras se apresentam.
A primeira é de contraste com Daniel. Na visão de Daniel 7, a figura "como filho de homem" recebe poder sobre os povos. Aqui, o Filho do homem é posto sob o poder dos homens. O título que prometia domínio aparece na posição de quem é dominado. É leitura plausível e bem apoiada pelo uso do título no capítulo.
A segunda é de generalidade. No versículo 12, Jesus disse que o Filho do homem sofreria "nas mãos deles", e "deles" apontava para quem fez com João o que quis. Aqui o alvo se alarga: não "nas mãos deles", mas "nas mãos dos homens". Não se trata mais de um grupo culpado; trata-se da humanidade como tal. O primeiro anúncio nomeava o conselho de Jerusalém; o segundo não nomeia ninguém porque cabe todo mundo.
A terceira é de oposição entre Deus e os homens. Em Mateus 16:23, Pedro ouviu que pensava "nas coisas dos homens" e não nas de Deus. Ser entregue "nas mãos dos homens" seria cair do lado que ali foi chamado de humano. A ligação é possível, mas o texto não a faz, e ela depende de ler as duas frases juntas.
As três leituras não se excluem. O que o versículo afirma com segurança é mais simples: o sofrimento virá de mãos humanas. Não de demônios, não de acaso, não da natureza. Um evangelho que acabou de mostrar um menino atormentado por um demônio, no versículo 18, põe agora a ameaça maior em pessoas.
O que o segundo anúncio deixa de fora
Vale a comparação direta com Mateus 16:21, porque as ausências falam.
Não aparece Jerusalém. Não aparece a lista dos anciãos, chefes dos sacerdotes e escribas. Não aparece "sofrer muitas coisas". O anúncio perdeu a geografia e perdeu os nomes, e ganhou um verbo.
Uma explicação razoável é que os três anúncios de Mateus não se repetem: cada um põe uma peça. O primeiro dá o lugar e os responsáveis; o segundo dá o modo — a entrega; o terceiro, em Mateus 20:18-19, dará os estrangeiros e a cruz. É leitura de conjunto, apoiada na comparação, e não algo que o texto declare.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Jesus
Fala de si mesmo na terceira pessoa, com o título "Filho do homem". É a terceira vez, no trecho que vai do monte até aqui, que o título aparece ligado a morte ou a sofrimento: Mateus 17:9, Mateus 17:12 e agora Mateus 17:22.
Os discípulos
O texto diz "lhes" e não especifica. Pela sequência, são os doze, de novo reunidos: os três que desceram do monte e os nove que ficaram no vale e não conseguiram curar o menino.
O grupo que ouve este anúncio é, portanto, um grupo que acabou de passar por duas experiências opostas. Três viram a glória; nove viveram um fracasso público. Todos ouvem a mesma frase.
Judas Iscariotes
Não é nomeado, mas está presente. É o único dos doze que o evangelho já identificou, desde Mateus 10:4, pela palavra deste versículo. O leitor de Mateus sabe o que os discípulos na cena ainda não sabem: um dos que ouvem a frase "será entregue" é quem vai entregar.
O texto não comenta a presença dele e não registra reação nenhuma.
A Galileia
A região do norte da terra de Israel, a oeste do lago, governada por Herodes Antipas. Foi ali que Jesus começou a pregar, em Mateus 4:12-17, e é ali que a maior parte do evangelho se passa até este ponto.
O versículo não diz em que cidade estão. O versículo 24 os levará a Cafarnaum.
O que aconteceu antes
Em sequência: o primeiro anúncio da morte e a reação de Pedro, em Mateus 16:21-23; a transfiguração no monte; a descida, com a ordem de silêncio e a conversa sobre Elias; a cura do menino que os discípulos não conseguiram curar.
Entre o primeiro e o segundo anúncio passou um capítulo inteiro, e nele o assunto da morte voltou duas vezes, de passagem: no "até que o Filho do homem ressuscite dentre os mortos", do versículo 9, e no "há de sofrer", do versículo 12. O versículo 22 retoma o tema de frente.
Os paralelos
Marcos 9:30-31 e Lucas 9:43-44 trazem o mesmo anúncio. Marcos acrescenta que Jesus atravessava a Galileia sem querer ser reconhecido, porque estava ensinando os discípulos. Lucas o coloca no meio da admiração geral pelo milagre do menino, e o introduz com uma ordem: "ponham nos seus ouvidos estas palavras".
5. Pontos de Ensino
O anúncio da morte não foi dito uma vez só
O evangelho registra que Jesus voltou ao assunto. Não foi uma frase solta em Cesareia de Filipe, que se pudesse atribuir a um momento de desânimo. Foi dito de novo, em outro lugar, em outra circunstância, com uma palavra a mais.
Isso impede uma leitura comum: a de que a morte foi um desfecho que surpreendeu o projeto. No texto de Mateus, ela é o assunto que se repete depois de cada ponto alto.
O anúncio vem depois da glória, não antes
A ordem é deliberada. Primeiro o monte, depois o anúncio. Os três que viram o rosto brilhar como o sol ouvem, dias depois, que o mesmo homem será entregue.
A transfiguração não cancelou a morte anunciada. Estavam lado a lado no mesmo roteiro.
"Entregue" é uma palavra de muitas mãos
O versículo ensina a olhar a paixão como uma cadeia. Ninguém a produz sozinho. Um discípulo entrega às autoridades, as autoridades entregam ao governador, o governador entrega aos soldados.
O efeito prático é que não há como pôr a culpa num único grupo. A leitura que fez da morte de Jesus uma acusação contra "os judeus" passa por cima exatamente disso: o versículo põe a entrega nas mãos "dos homens", sem sobrenome.
A passividade não é ausência de sentido
O versículo põe Jesus como objeto de um verbo que outros executam. Mas é ele quem anuncia. Quem prevê o que vai sofrer e continua no caminho não é, no texto, uma vítima surpreendida.
Isso não resolve a tensão entre sofrer e escolher — ela é real e o texto não a desfaz. Mas impede tratar a entrega como simples acidente.
Mateus não suaviza com o nome do traidor
O evangelho poderia ter escrito "Judas me entregará". Não escreve. A frase fica aberta, e o leitor, que já sabe quem é Judas, é obrigado a sustentar a ambiguidade junto com os discípulos: todos estão ali, e a frase vale para mais de um.
6. Aspectos Filosóficos
Alguém pode ser o centro de uma história em que é só objeto?
A pergunta nasce da gramática do versículo. O Filho do homem é o sujeito da frase e não faz nada: é entregue. Quem age são outros, sem nome.
A filosofia moral costuma medir a pessoa pelo que ela faz — pelas escolhas, pelas ações, pelas responsabilidades. O versículo propõe outra medida, mais incômoda: o que alguém é pode aparecer com mais nitidez no que se deixa fazer com ele, quando sabe o que vem.
O limite precisa ser dito. O texto não formula nenhuma teoria sobre isso. Registra uma frase em que a pessoa mais importante do relato aparece na posição passiva, e a questão de saber se ali há derrota ou algum tipo de ação é do leitor, não de Mateus.
7. Aplicações Práticas
Voltar ao assunto difícil
Jesus repete o anúncio sem que ninguém peça, e depois de uma semana em que o assunto parecia ter ficado para trás.
Há uma aplicação direta para quem precisa comunicar uma notícia dura a pessoas próximas — um diagnóstico, uma mudança, uma perda que se aproxima. Dizer uma vez raramente basta. A primeira reação costuma bloquear a informação, como mostrou Pedro em Mateus 16:22. A notícia precisa ser dita de novo, em outro momento, com calma, e às vezes com uma palavra a mais.
Não procurar um único culpado
A palavra "entregue" cobre muitas mãos. Em situações de injustiça concreta — uma demissão armada, um processo que destrói alguém, uma família que abandona um dos seus —, a tentação é achar a pessoa que decidiu tudo.
O versículo sugere olhar a cadeia. Quase sempre há quem informa, quem decide, quem assina e quem executa, e cada um acha que o gesto dele é pequeno. Reconhecer o próprio elo, quando se está numa dessas cadeias, é a aplicação mais honesta que o texto oferece.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Por que o segundo anúncio não fala de Jerusalém?
Não se sabe. Uma hipótese é que Mateus reproduz a forma breve que recebeu, a mesma de Marcos 9:31, que também não nomeia a cidade. Outra é que a informação já tinha sido dada e não precisava ser repetida. As duas são plausíveis e nenhuma é demonstrável.
Judas já tinha decidido entregar Jesus quando ouviu esta frase?
O texto não diz. A primeira indicação de decisão está em Mateus 26:14-16, quando ele procura os chefes dos sacerdotes. Tudo o que se afirma sobre as intenções de Judas antes disso é reconstrução.
O anúncio foi feito uma vez ou várias?
Mateus registra três anúncios formais. Mas o verbo "começou a mostrar", em Mateus 16:21, sugere um ensino repetido, e é possível que os três sejam amostras de algo dito com mais frequência. É leitura razoável; o texto não informa.
Por que Lucas diz que a frase estava "encoberta" para eles?
Lucas 9:45 afirma que os discípulos não entendiam, que o sentido lhes estava oculto e que tinham medo de perguntar. Mateus não diz nada parecido, e o versículo 23 dará uma informação diferente. A comparação das duas reações pertence àquele versículo.
9. Conexão com Outros Textos
Os outros anúncios
Mateus 16:21 — "Daquele momento em diante, Jesus começou a mostrar aos seus discípulos que precisava ir a Jerusalém e sofrer muitas coisas por parte dos anciãos, dos chefes dos sacerdotes e dos escribas, ser morto e ressuscitar no terceiro dia."
O primeiro tem lugar e responsáveis e não tem a palavra "entregue".
Mateus 20:18-19 — "Estamos subindo para Jerusalém, e o Filho do homem será entregue aos chefes dos sacerdotes e aos mestres da lei. Eles o condenarão à morte e o entregarão aos gentios para que zombem dele, o açoitem e o crucifiquem; mas no terceiro dia ele ressuscitará."
O terceiro usa a palavra duas vezes: uma entrega aos sacerdotes, outra aos estrangeiros.
Os paralelos
Marcos 9:31 — "Pois ele ensinava os seus discípulos e lhes dizia: O Filho do homem é entregue nas mãos dos homens, e eles o matarão; e, depois de morto, ressuscitará três dias depois."
Marcos usa o presente, "é entregue", como se a entrega já estivesse em andamento.
Lucas 9:44 — "Ponham nos seus ouvidos estas palavras: o Filho do homem está para ser entregue nas mãos dos homens."
Lucas guarda só a entrega e corta a morte e a ressurreição.
O Filho do homem e o sofrimento no mesmo capítulo
Mateus 17:12 — "Mas eu digo a vocês: Elias já veio, e não o reconheceram; ao contrário, fizeram com ele tudo o que quiseram. Da mesma forma, o Filho do homem há de sofrer nas mãos deles."
"Nas mãos deles" dez versículos antes; "nas mãos dos homens" aqui.
A mesma palavra em outras mãos
Mateus 10:4 — "Simão, o Cananeu, e Judas Iscariotes, aquele que o traiu."
"Traiu" traduz o mesmo verbo: Judas é apresentado como "aquele que o entregou".
Mateus 4:12 — "Quando Jesus ouviu que João havia sido preso, retirou-se para a Galileia."
"Preso" também é o mesmo verbo. O destino de João já tinha sido descrito como entrega.
Mateus 11:27 — "Todas as coisas me foram entregues por meu Pai."
O verbo com sinal invertido: o Pai entrega tudo ao Filho.
Romanos 8:32 — "Aquele que não poupou o próprio Filho, mas o entregou por todos nós, como não nos dará também com ele todas as coisas?"
A leitura de Paulo: quem entrega é Deus.
A fórmula no Antigo Testamento
Juízes 6:1 — "Os israelitas fizeram o que era mau aos olhos do SENHOR, e o SENHOR os entregou nas mãos de Midiã por sete anos."
A mesma fórmula, aplicada ao próprio povo de Deus.
Isaías 53:12 — "Porque derramou a sua vida até a morte e foi contado com os transgressores; carregou o pecado de muitos e intercedeu pelos transgressores."
Na versão grega do Antigo Testamento, este versículo usa duas vezes o verbo de "entregue", como mostra o item 10.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Enquanto eles andavam pela Galileia, Jesus lhes disse: “O Filho do homem está para ser entregue nas mãos dos homens.
Texto grego
Ἀναστρεφομένων δὲ αὐτῶν ἐν τῇ Γαλιλαίᾳ, εἶπεν αὐτοῖς ὁ Ἰησοῦς, Μέλλει ὁ υἱὸς τοῦ ἀνθρώπου παραδίδοσθαι εἰς χεῖρας ἀνθρώπων,
Transliteração
Anastrephomenōn de autōn en tē Galilaia, eipen autois ho Iēsous, Mellei ho huios tou anthrōpou paradidosthai eis cheiras anthrōpōn,
Uma diferença entre manuscritos
O Textus Receptus (a edição grega impressa no século XVI que a ABC segue) traz anastrephomenōn, "enquanto andavam, enquanto permaneciam". Os manuscritos mais antigos, como o Sinaítico e o Vaticano, trazem systrephomenōn, "enquanto se juntavam, enquanto se reuniam".
As duas palavras diferem por poucas letras, e a troca por um copista é fácil de imaginar nas duas direções. A ABC segue a primeira: "enquanto eles andavam pela Galileia"; as traduções que seguem as edições críticas escrevem "enquanto se reuniam". A diferença de sentido é pequena: de um lado, o grupo circulando pela região; de outro, o grupo se juntando nela. Nenhuma consequência para o anúncio depende da escolha.
Análise palavra por palavra
Ἀναστρεφομένων δὲ αὐτῶν — anastrephomenōn de autōn, "e estando eles".
Particípio presente médio de anastrephō, composto de ana, "de novo, para cima", mais strephō, "virar". O sentido original é "voltar-se, dar a volta"; na voz média, passou a significar "passar o tempo em algum lugar", "viver", "conduzir-se". É o verbo que dá o substantivo anastrophē, "modo de vida", frequente nas cartas.
A construção inteira é um genitivo absoluto: um particípio e um pronome no genitivo que marcam a circunstância em que a fala acontece, sem ligação gramatical com o resto da frase. O português resolve com "enquanto".
ἐν τῇ Γαλιλαίᾳ — en tē Galilaia, "na Galileia".
O nome vem do hebraico galil, "círculo, distrito". Isaías 8:23 fala na "Galileia das nações", o distrito cercado de povos estrangeiros, e Mateus 4:15 cita essa passagem.
εἶπεν αὐτοῖς ὁ Ἰησοῦς — eipen autois ho Iēsous, "disse-lhes Jesus".
Aoristo de legō, o verbo comum de dizer. Em Mateus 16:21 o verbo principal era ērxato deiknyein, "começou a mostrar"; aqui é o simples "disse".
Μέλλει — mellei, "está para, há de".
Presente de mellō. O verbo tem dois usos que se sobrepõem. Seguido de infinitivo, pode indicar ação iminente ("está a ponto de") ou ação certa, destinada ("é certo que vai"). Muitas vezes os dois sentidos andam juntos, e os léxicos registram a dificuldade de separá-los.
O dado mais útil é a sua distribuição no trecho. Em Mateus 16:27, mellei ho huios tou anthrōpou erchesthai, "o Filho do homem há de vir" na glória. Em Mateus 17:12, mellei paschein, "há de sofrer". E aqui, mellei paradidosthai, "há de ser entregue". O mesmo auxiliar serve à glória futura e à entrega próxima.
ὁ υἱὸς τοῦ ἀνθρώπου — ho huios tou anthrōpou, "o Filho do homem".
A expressão foi analisada no estudo de Mateus 16:13, item 10, e não se repete aqui.
παραδίδοσθαι — paradidosthai, "ser entregue".
Infinitivo presente passivo de paradidōmi. É a palavra do versículo.
O verbo é composto de para, "ao lado, junto de", mais didōmi, "dar". O sentido de base é "dar a outro", "passar adiante", "pôr nas mãos de alguém". A mesma raiz produz paradosis, "tradição" — o que é entregue de uma geração a outra —, como o estudo de Mateus 15:2 registrou.
O campo de uso é largo, e é esse o problema.
Há o uso neutro e até positivo: entregar bens a administradores, como na parábola de Mateus 25:14 e Mateus 25:20; transmitir um ensino, como em 1 Coríntios 11:23 e 1 Coríntios 15:3; o Pai que entrega todas as coisas ao Filho, em Mateus 11:27.
Há o uso judicial: entregar alguém ao juiz, aos guardas, à prisão. É o de Mateus 5:25, "para que o adversário não o entregue ao juiz, e o juiz ao oficial", e o de Mateus 10:17, "eles os entregarão aos tribunais".
Há o uso de traição: entregar quem confiava. É o de Judas, e aqui a língua portuguesa escolheu outro verbo, "trair", onde o grego manteve o mesmo.
E há o uso teológico: Deus entrega. Na versão grega do Antigo Testamento, paradidōmi traduz com frequência o hebraico natan be-yad, "dar na mão", a fórmula de guerra descrita no item 2. E aparece em Isaías 53:6 — "o Senhor o entregou pelos nossos pecados" — e duas vezes em Isaías 53:12 — "a sua vida foi entregue à morte" e "por causa dos pecados deles foi entregue". É provável que a linguagem cristã sobre a entrega de Jesus deva muito a essas duas frases de Isaías; não é possível provar que a ligação já estivesse na fala de Jesus.
Em Mateus o verbo aparece cerca de trinta vezes, e mais da metade delas se concentra nos capítulos 26 e 27. É a espinha verbal da paixão.
O tempo também conta. O infinitivo é presente, e não aoristo: a entrega é vista como processo, não como ato único. Encaixa-se bem numa cadeia de entregas sucessivas, embora a gramática sozinha não permita afirmar que o tempo foi escolhido por isso.
E a voz passiva deixa o agente fora da frase. Não há "por Judas", "pelos sacerdotes", "por Deus". A gramática permite todos.
εἰς χεῖρας — eis cheiras, "para as mãos, nas mãos".
Cheir, "mão", no plural e sem artigo. A mão, na linguagem bíblica, é o poder que alguém exerce: estar "nas mãos de" é estar sob o controle de alguém. A preposição eis indica movimento para dentro: ele é passado para o domínio de outros.
ἀνθρώπων — anthrōpōn, "de homens".
Genitivo plural de anthrōpos, "ser humano", e sem artigo: não "dos homens" determinados, mas "de homens", de gente. A ausência do artigo reforça o sentido geral.
E a palavra repete a que está dentro do título. Literalmente, a frase diz: "o filho do humano há de ser entregue em mãos de humanos". O eco é deliberado no grego tanto quanto no português, e a sua interpretação está no item 3.
11. Conclusão
Com base no que foi examinado, o versículo leva a três conclusões.
A primeira é que a morte de Jesus, em Mateus, não é assunto de um único momento de tensão. Ela é retomada na volta para casa, depois da glória do monte e do fracasso no vale, sem que ninguém pergunte. O que se repete assim não é desabafo: é o eixo do que o evangelho quer que os discípulos — e o leitor — tenham diante dos olhos.
A segunda é que a paixão começa por uma entrega, e a entrega tem muitos autores possíveis. A palavra escolhida serve para o traidor, para o tribunal, para o governador e para Deus, e o versículo não separa. Daí decorre que nenhuma leitura que ponha a culpa num só grupo encontra apoio nesta frase, e que nenhuma leitura que isente os agentes humanos encontra apoio no resto do evangelho.
A terceira é sobre o destino da entrega. O título que em Daniel recebia domínio sobre os povos aparece aqui entregue ao domínio de gente comum. O versículo não explica essa inversão; apenas a põe numa frase curta. O que ele permite concluir é que, para Mateus, o sofrimento maior não viria de forças invisíveis, mas de mãos humanas — e que isso foi dito com antecedência a quem estava ali.













