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Mateus 17:23

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✍️ Por Alberto Adriano·14 de setembro de 2026·⏱️ 20 min de leitura·👁 29 acessos
Eles o matarão, e no terceiro dia ele será ressuscitado.” E os discípulos ficaram muito tristes.
Grupo de homens sentados em silêncio numa encosta ao entardecer, alguns de cabeça baixa, enquanto um deles olha para o homem que acabou de falar.

Estudo


Eles o matarão, e no terceiro dia ele será ressuscitado.” E os discípulos ficaram muito tristes.

1. Introdução

O versículo termina o segundo anúncio e registra a reação a ele. A reação é o que ele tem de novo.

Três pontos organizam a leitura.

O primeiro é a sequência dos verbos. Alguém entrega, homens matam, e alguém ressuscita. Os homens aparecem como autores de uma só dessas três ações, a do meio.

O segundo é o terceiro dia, dito de novo. A frase sobre a ressurreição é a mesma do primeiro anúncio, e de novo não aparece nenhum sinal de que alguém a tenha registrado.

O terceiro é "ficaram muito tristes". Em Mateus 16:22, Pedro reagiu ao primeiro anúncio com uma repreensão. Agora ninguém repreende, ninguém discute, ninguém pergunta. Eles se entristecem. E Mateus escreve isso onde Marcos e Lucas escrevem que não entenderam.

A diferença entre as duas reações — a repreensão e a tristeza — é o assunto do versículo.

2. Contexto Histórico e Cultural

O mestre acima do pai

A tristeza dos discípulos tem uma dimensão que o leitor moderno tende a ler só como afeto pessoal. Na cultura deles, era também uma questão de hierarquia de lealdades.

A Mishná (a coletânea de tradições legais judaicas redigida por volta do ano 200) guarda uma regra que mostra onde o mestre ficava. No tratado Bava Metzia 2:11, ao discutir de quem se deve devolver primeiro um objeto perdido, se do pai ou do mestre, a resposta é: o do mestre. A razão dada é esta — o pai trouxe a pessoa a este mundo; o mestre que lhe ensinou a sabedoria a traz à vida do mundo que vem. A mesma passagem aplica a ordem ao resgate de cativos: o mestre é resgatado antes do pai.

A regra é posterior ao evangelho na forma escrita, e não se pode transferir para Jesus e os doze um código rabínico do século II. Mas ela registra uma percepção antiga: o mestre ocupava, na vida do discípulo, um lugar comparável ou superior ao do pai.

Ouvir que esse homem seria morto era ouvir, nesse quadro, uma notícia de orfandade.

Quando um mestre morria, algo acabava

A mesma coletânea tem um trecho que mostra como a morte de um mestre era sentida por quem vinha depois. No tratado Sotá 9:15, a Mishná faz uma lista: quando morreu Rabi Meir, acabaram os que contavam parábolas; quando morreu Ben Azai, acabaram os estudiosos incansáveis; quando morreu Rabã Gamaliel, o Velho, acabou a honra da Torá.

O gênero é de lamento, e a lista é exagerada de propósito. O que ela deixa ver é a forma como se pensava a morte de um mestre: não como perda de uma pessoa só, mas como fim de uma coisa que só existia por meio dele.

Grau de certeza: os textos são posteriores ao evangelho, e usá-los para descrever o que sentiram os doze é aproximação, não prova. Servem para mostrar que a relação mestre-discípulo, no mundo judaico, era das mais fortes que existiam.

O outro lado da notícia — o que costumava acontecer aos seguidores quando um líder era morto pelas autoridades — está nos estudos de Mateus 16:1 e Mateus 16:20, com os casos que Josefo e o livro de Atos registram. O resumo cabe numa linha: quando o chefe caía, o grupo se dispersava ou caía junto.

Por que o terceiro dia, e não o quarto

A contagem inclusiva dos dias está no estudo de Mateus 16:21, item 2. Há um outro dado cultural, menos conhecido, que ajuda a ouvir a expressão.

Fontes rabínicas registram a crença de que a alma do morto permanecia perto do corpo por três dias, esperando voltar, e se afastava de vez no quarto dia, quando o rosto começava a se desfigurar. A tradição aparece no Talmude de Jerusalém, no tratado Moed Qatan, e em coletâneas de comentários como o Gênesis Rabbá e o Levítico Rabbá. A mesma percepção tinha consequência jurídica, e esta está na Mishná, no tratado Yevamot 16:3: o testemunho que identifica um morto pelo rosto só vale até o terceiro dia depois da morte.

O Evangelho de João parece conhecer essa percepção. Em João 11:39, Marta objeta que Lázaro está morto "há quatro dias" e já cheira mal — quatro, e não três, como quem diz que já não há volta.

O cuidado aqui precisa ser grande. Esses textos rabínicos foram redigidos entre os séculos IV e V, e não é possível afirmar que a crença circulasse na Galileia do primeiro século com essa forma. A ligação com a fórmula "no terceiro dia" dos anúncios é hipótese de alguns estudiosos; as explicações mais comuns partem de Oseias 6:2 e do sinal de Jonas, e são tratadas nos estudos de Mateus 16:21 e Mateus 12:40. O que a crença sugere, se estiver por trás, é que a ressurreição anunciada não seria a volta de alguém que mal tinha morrido, mas uma vitória no último dia antes do irreversível.

3. Análise Teológica do Versículo

"Eles o matarão"

No primeiro anúncio, a morte veio numa forma sem sujeito: "ser morto". Aqui tem sujeito, e o sujeito é "eles".

Quem são "eles"? A frase anterior acabou de dizer: "os homens" em cujas mãos o Filho do homem será entregue. A gramática liga uma coisa à outra. Não aparece o conselho de Jerusalém, não aparecem os romanos — aparece a humanidade genérica do versículo 22, agora como autora da morte.

O peso do verbo, a linguagem crua de homicídio, já foi examinado no estudo de Mateus 16:21. O que muda aqui é a posição: em Mateus 16:21 o homicídio era um fato; aqui é um ato de alguém.

A sequência dos três verbos

Lidos em conjunto, o versículo 22 e o começo do 23 formam uma escada de três degraus, e ela é mais precisa do que parece.

Primeiro degrau: "será entregue". Quem entrega não é dito.

Segundo: "eles o matarão". Quem mata é dito: os homens.

Terceiro: "será ressuscitado". Quem ressuscita não é dito.

Os homens aparecem como agentes só no meio. A entrega e a ressurreição ficam com o agente oculto. Uma leitura possível vê nisso uma moldura: a ação humana está cercada, antes e depois, por uma ação que não é humana. O texto não afirma isso com palavras; é o arranjo das vozes verbais que permite a leitura.

Há um limite a registrar. A forma passiva de "será ressuscitado" é constante nos três anúncios, como mostra o estudo de Mateus 16:21, item 10, e pode ser apenas o modo corrente de falar da ressurreição. A simetria com "será entregue" é observação de leitura, não construção demonstrável de Mateus.

"e no terceiro dia ele será ressuscitado"

A frase é idêntica, no conteúdo, à do primeiro anúncio. Por que o que foi ignorado da primeira vez é repetido sem nenhuma mudança?

Porque, do lado de quem fala, a frase não era apêndice. A morte e o terceiro dia são ditos nas duas vezes juntos, na mesma respiração. Quem separa as duas metades é quem ouve.

E há um contraste que o evangelho vai fazer mais adiante e que não pode ser ignorado. Em Mateus 27:63, depois da crucificação, são os chefes dos sacerdotes e os fariseus que se lembram da frase — "depois de três dias ressuscitarei" — e pedem guarda para o túmulo. Os adversários guardaram a segunda metade. Os discípulos, no mesmo momento, estavam dispersos, como diz Mateus 26:56.

As razões pelas quais os discípulos não ouviram a ressurreição — descrença ou falta de categoria para uma ressurreição individual antes do fim dos tempos — estão discutidas no estudo de Mateus 16:21, item 3, e não se reabrem aqui.

"E os discípulos ficaram muito tristes"

Esta é a frase que só o segundo anúncio tem, e ela diz mais do que parece.

A primeira coisa que ela diz é o que não aconteceu. Ninguém repreendeu. Em Mateus 16:22, Pedro puxou Jesus à parte e disse "isso jamais te acontecerá". Em Mateus 16:23, ouviu a resposta mais dura do evangelho. Agora, diante da mesma notícia, ninguém abre a boca. É razoável supor que a resposta de Mateus 16:23 tenha ensinado algo ao grupo — ao menos a não contradizer. O texto não faz essa ligação, mas a sequência a sugere.

A segunda é o que a tristeza pressupõe. Não se fica triste com o que não se entendeu. Quem se entristece aceitou que a notícia é real e que é má. A objeção de Pedro era uma recusa; a tristeza é uma aceitação sem consolo.

Mateus e os outros dois evangelhos

Aqui a comparação é indispensável, porque os três evangelhos não contam a mesma reação.

Marcos 9:32 diz: "eles não entendiam essa palavra e tinham medo de perguntar". Lucas 9:45 é ainda mais enfático: a palavra estava encoberta para eles, de modo que não a percebiam, e tinham medo de perguntar.

Mateus não diz nada disso. Diz que ficaram muito tristes.

A diferença é real, e a explicação mais discutida é que Mateus tende a apresentar os discípulos como gente que entende, ainda que devagar. É um traço reconhecível no próprio evangelho: em Mateus 13:51 eles respondem "sim" à pergunta "vocês entenderam?"; em Mateus 16:12 e em Mateus 17:13 o texto registra "então entenderam". Onde Marcos fala de incompreensão, Mateus costuma falar de pouca fé ou de reação emocional.

É hipótese bem apoiada pela comparação, mas não é demonstrável como intenção. E ela não obriga a escolher: é possível que os discípulos tenham entendido a morte e não a ressurreição — o que explica a tristeza de Mateus e o "não entendiam" de Marcos ao mesmo tempo. Nesse caso, cada evangelho registra uma metade da mesma reação.

"muito"

O advérbio não é enfeite. Mateus o reserva para os afetos extremos, e o mesmo capítulo o usa duas vezes.

No monte, os três "caíram com o rosto em terra, tomados de grande medo", em Mateus 17:6. Na Galileia, os doze "ficaram muito tristes". O capítulo tem assim dois pontos de intensidade emocional, e eles são opostos na causa: o medo diante da glória, a tristeza diante da morte. O item 10 mostra que as duas frases usam a mesma palavra de intensidade.

O que a tristeza não é

A leitura corrente costuma tratar essa tristeza como falha — sinal de que não creram na ressurreição. O texto não permite tanto.

O mesmo verbo vai aparecer em Mateus 26:37, aplicado ao próprio Jesus no Getsêmani: "começou a entristecer-se e a angustiar-se profundamente". Se entristecer-se diante da morte fosse sinal de falta de fé, a frase do Getsêmani seria impossível. A tristeza dos discípulos, portanto, não é condenada em si. O que o evangelho critica em outros lugares é a pouca fé, e ele não usa essa palavra aqui.

O que se pode afirmar é mais modesto: eles ouviram a notícia como perda, e o texto registra isso sem comentário.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Os discípulos

O grupo inteiro, sem nomes. Nenhum deles fala. Pedro, que no primeiro anúncio tomou a frente, está calado — e o texto não o destaca do grupo.

O versículo seguinte vai separá-lo de novo, quando os cobradores o procurarem em Cafarnaum.

"Eles"

Os autores da morte anunciada não são nomeados. Gramaticalmente, são "os homens" do versículo 22. No desenrolar do evangelho, a execução será feita pelos soldados romanos, a mando de Pilatos, depois da condenação pelo conselho de Jerusalém, como descrevem Mateus 27:26-35.

O terceiro dia

No relato de Mateus, corresponde à manhã descrita em Mateus 28:1: "no fim do sábado, quando já amanhecia para o primeiro dia da semana". A contagem que faz desse dia o terceiro está no estudo de Mateus 16:21, item 2.

O que vem depois

O versículo fecha a última cena de ensino sobre a morte neste capítulo. Logo em seguida, o grupo chega a Cafarnaum, e o assunto muda para dinheiro, templo e impostos — uma passagem brusca, sem transição, que o texto não explica.

5. Pontos de Ensino

Aprender a não contradizer não é o mesmo que entender

A reação dos discípulos mudou entre o primeiro e o segundo anúncio. Da recusa passaram ao silêncio triste.

Isso mostra um progresso real e um limite real. Eles não tentam mais corrigir o mestre. Mas também não perguntam o que significa ressuscitar. O silêncio pode ser respeito e pode ser medo, e Marcos 9:32 diz que era medo.

Quem ouve pode cortar a frase ao meio

Pela segunda vez, uma frase que termina em ressurreição é recebida como se terminasse em morte.

O ensino não está em acusar os discípulos, e sim em reconhecer o mecanismo: a notícia má ocupa todo o espaço, e a boa, dita logo em seguida, não é registrada. O evangelho mostra isso duas vezes, com a mesma gente, em lugares diferentes.

A tristeza diante da morte não é condenada

Mateus registra a tristeza e não a repreende. Jesus não diz "por que estão tristes?", não diz "homens de pouca fé". E o mesmo verbo será usado para ele no Getsêmani.

Isso impede a leitura que exige alegria diante da perda como prova de fé.

Os adversários lembraram o que os discípulos esqueceram

Mateus 27:63 mostra os chefes dos sacerdotes repetindo a promessa dos três dias para pedir guarda no túmulo. Quem temia a ressurreição a levou a sério; quem a esperava, não a ouviu. O contraste é do próprio evangelho, e não precisa de comentário para funcionar.

6. Aspectos Filosóficos

Aceitar uma notícia e entendê-la são a mesma coisa?

O versículo separa as duas operações. Os discípulos aceitaram que o mestre ia morrer — a tristeza mostra isso. E não entenderam, ou não guardaram, a outra metade da frase.

Há uma questão antiga da filosofia do conhecimento aqui: pode-se dar assentimento a uma afirmação e não compreender o que ela contém? A experiência comum diz que sim. Aceita-se um diagnóstico sem saber o que ele implica; aceita-se uma promessa sem saber como ela se cumprirá.

O texto não formula a pergunta. Mostra um grupo que tem a primeira coisa e não tem a segunda, e registra o custo: a tristeza.

7. Aplicações Práticas

Ficar triste sem precisar se justificar

Há ambientes religiosos em que a tristeza diante de uma perda anunciada é tratada como falta de fé, e a pessoa se sente obrigada a mostrar serenidade.

O versículo registra a tristeza dos discípulos sem nenhuma correção, e o evangelho vai registrar a do próprio Jesus poucos capítulos depois. Quem acompanha alguém que está perdendo um pai, um filho, a saúde, pode deixar essa pessoa triste — sem citar promessas para abreviar a dor.

Ouvir a frase inteira

Quando uma notícia difícil vem acompanhada de algo que a limita — um prazo, um tratamento, uma saída —, a tendência é reter só a parte ruim. Vale, depois do primeiro impacto, voltar e perguntar o que foi dito depois. Os discípulos tinham medo de perguntar, diz Marcos. É exatamente a pergunta que faltou.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que ninguém perguntou o que era "ser ressuscitado"?

Marcos 9:32 dá a razão: tinham medo. Mateus não a registra. O medo de perguntar pode vir da lembrança do que aconteceu com Pedro depois do primeiro anúncio; é hipótese razoável, e nenhum evangelho a formula.

Os discípulos acreditaram na ressurreição depois de ouvi-la duas vezes?

O comportamento posterior sugere que não a esperavam. Em Mateus 26:56, todos fogem; em Mateus 28:17, mesmo diante do ressuscitado, "alguns duvidaram". O texto de Mateus não traz nenhuma cena em que um discípulo mencione a promessa antes de ela se cumprir.

A tristeza era só pelo mestre ou também por eles mesmos?

O texto não diz. A morte do líder punha o grupo inteiro em risco, como mostram os casos de outros movimentos da época. É plausível que as duas coisas estivessem misturadas, e é impossível separá-las a partir de uma frase de quatro palavras.

Por que Mateus corta a transição para a cena do imposto?

O versículo termina na tristeza e o seguinte começa com a chegada a Cafarnaum. Não há resposta de Jesus à tristeza. Marcos 9:33 passa para outra cena também, a discussão sobre quem é o maior. Não se sabe se Mateus quis deixar a tristeza sem resposta ou se apenas seguiu a ordem de episódios que recebeu.

9. Conexão com Outros Textos

As outras reações ao mesmo anúncio

Mateus 16:22 — "Pedro o tomou à parte e começou a repreendê-lo: 'Longe disso, Senhor! Isso jamais te acontecerá!'"

A primeira reação: recusa.

Marcos 9:32 — "Mas eles não entendiam essa palavra e tinham medo de perguntar-lhe."

No lugar da tristeza de Mateus, a incompreensão e o medo.

Lucas 9:45 — "Mas eles não entendiam essa palavra; ela lhes estava encoberta, para que não a percebessem; e tinham medo de perguntar-lhe a respeito dela."

Lucas acrescenta que o sentido lhes estava oculto.

O mesmo "muito" no capítulo

Mateus 17:6 — "Ao ouvirem isso, os discípulos caíram com o rosto em terra, tomados de grande medo."

Medo intenso diante da voz no monte; tristeza intensa diante do anúncio.

A mesma tristeza em outras cenas

Mateus 26:22 — "Muito entristecidos, começaram a perguntar-lhe, um após outro: 'Por acaso sou eu, Senhor?'"

Na última ceia, a mesma reação dos mesmos homens — e agora eles perguntam.

Mateus 26:37-38 — "Levando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se profundamente. Então lhes disse: 'A minha alma está profundamente triste, até a morte. Fiquem aqui e vigiem comigo.'"

O verbo aplicado ao próprio Jesus.

Mateus 18:31 — "Quando os outros companheiros de escravidão viram o que tinha acontecido, ficaram muito tristes e foram contar ao seu senhor tudo o que havia acontecido."

A mesma expressão, na parábola seguinte, para quem assiste a uma injustiça.

Quem lembrou o terceiro dia

Mateus 27:63 — "e disseram: 'Senhor, lembramos que aquele impostor, quando ainda vivia, afirmou: Depois de três dias ressuscitarei.'"

A promessa guardada pelos adversários.

Mateus 28:6 — "Ele não está aqui, porque ressuscitou, como havia dito. Venham ver o lugar onde ele estava deitado."

"Como havia dito": o anjo remete aos anúncios.

A tristeza que muda de sinal

João 16:20 — "Em verdade, em verdade digo a vocês que vocês vão chorar e se lamentar, e o mundo vai se alegrar; vocês ficarão tristes, mas a tristeza de vocês se transformará em alegria."

O Evangelho de João põe a tristeza dos discípulos dentro da própria promessa.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Eles o matarão, e no terceiro dia ele será ressuscitado.” E os discípulos ficaram muito tristes.

Texto grego

καὶ ἀποκτενοῦσιν αὐτόν, καὶ τῇ τρίτῃ ἡμέρᾳ ἐγερθήσεται. καὶ ἐλυπήθησαν σφόδρα.

Transliteração

kai apoktenousin auton, kai tē tritē hēmera egerthēsetai. kai elypēthēsan sphodra.

Análise palavra por palavra

καὶ ἀποκτενοῦσιν αὐτόν — kai apoktenousin auton, "e o matarão".

Futuro ativo, terceira pessoa do plural, de apokteinō, "matar". O sentido do verbo está no estudo de Mateus 16:21, item 10.

O que interessa aqui é a forma. Em Mateus 16:21, o verbo estava no infinitivo aoristo passivo, apoktanthēnai, "ser morto", sem agente. Aqui está no futuro ativo, com sujeito plural. O sujeito não é expresso por um pronome separado — está contido na terminação verbal — e só pode ser recuperado do versículo anterior: os anthrōpoi, os homens.

A mudança de voz é a mesma que aparece no paralelo de Marcos 9:31, "e o matarão", o que sugere que Mateus conserva uma forma que recebeu.

καὶ τῇ τρίτῃ ἡμέρᾳ — kai tē tritē hēmera, "e no terceiro dia".

Dativo de tempo: indica o momento em que algo acontece, e não a duração. "No terceiro dia", não "durante três dias".

Mateus mantém a fórmula nos três anúncios. Marcos, no paralelo, escreve meta treis hēmeras, "depois de três dias". A diferença entre as duas expressões foi examinada no estudo de Mateus 16:21, item 2.

ἐγερθήσεται — egerthēsetai, "será levantado".

Futuro passivo de egeirō, "despertar, levantar". O sentido do verbo e o peso da voz passiva estão no estudo de Mateus 16:21, item 10.

O único dado próprio deste versículo é o tempo. No primeiro anúncio, o verbo estava no infinitivo, dependente de "precisava". Aqui é um futuro do indicativo, afirmação direta: não "precisa ser levantado", mas "será levantado".

καὶ ἐλυπήθησαν — kai elypēthēsan, "e entristeceram-se".

Aoristo passivo, terceira pessoa do plural, de lypeō, "causar dor, afligir". O significado do verbo e a sua distribuição em Mateus foram tratados no estudo de Mateus 14:9, item 10.

Duas notas sobre a forma. A primeira: a voz passiva, neste verbo, equivale na prática a um intransitivo — "ficaram tristes", "entristeceram-se" —, e não autoriza perguntar quem os entristeceu. A segunda: o aoristo marca o fato como acontecimento, de uma vez, no momento em que ouviram. Não é "andavam tristes"; é "ficaram tristes".

σφόδρα — sphodra, "muito, intensamente".

Advérbio formado de sphodros, "violento, impetuoso, veemente". No grego comum, o adjetivo servia para vento forte, correnteza, ataque. O advérbio conserva a ideia de algo que vem com força.

O Novo Testamento o usa pouco, cerca de onze vezes, e Mateus concentra a maior parte, sete. A distribuição em Mateus é quase toda de emoções: a alegria dos magos diante da estrela, em Mateus 2:10; o medo dos três no monte, em Mateus 17:6; esta tristeza; a tristeza dos servos da parábola, em Mateus 18:31, com as mesmas duas palavras deste versículo; o espanto dos discípulos diante do jovem rico, em Mateus 19:25; a tristeza na última ceia, em Mateus 26:22; e o pavor do centurião diante do terremoto, em Mateus 27:54.

A lista mostra que Mateus usa a palavra para marcar os pontos de maior abalo dos personagens. E mostra algo mais específico deste capítulo: ephobēthēsan sphodra, "temeram muito", no versículo 6, e elypēthēsan sphodra, "entristeceram-se muito", no versículo 23. As duas frases têm a mesma construção — verbo no aoristo passivo mais o advérbio — e abrem e fecham, em registros opostos, a sequência que vai do monte à Galileia.

Que Mateus tenha construído o paralelo de propósito é possível e não demonstrável; o advérbio é frequente demais nele para garantir a intenção.

11. Conclusão

Com base no que foi examinado, o versículo leva a três conclusões.

A primeira é que, no desenho dos verbos, os homens são autores apenas da morte. A entrega e a ressurreição ficam sem agente humano declarado. Não é uma doutrina enunciada, e não se deve fazer dela mais do que ela é; mas é o arranjo que Mateus conserva, e ele põe a ação humana entre duas ações que não dependem dela.

A segunda é que os discípulos avançaram e pararam no mesmo passo. Deixaram de contradizer, e isso é real: a notícia foi recebida como verdadeira. Mas a frase continuou cortada ao meio, e a metade que ficou foi a da morte. Daí se conclui que o problema dos doze, neste ponto, não era mais resistência ao que Jesus dizia, e sim incapacidade de ouvir o que ele dizia depois da parte dura.

A terceira é sobre o valor da tristeza. Mateus a registra no lugar em que Marcos e Lucas registram incompreensão, e não a repreende. Somada ao uso do mesmo verbo para Jesus no Getsêmani, essa escolha impede tratar a tristeza diante da morte anunciada como pecado ou como falta de fé. O que o texto permite concluir é que ela é a reação de quem acreditou na notícia — e que o erro, se houve, esteve no que não foi ouvido, não no que foi sentido.

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