Quando chegaram a Cafarnaum, os que recolhiam o imposto de duas dracmas aproximaram-se de Pedro e perguntaram: “O mestre de vocês não paga o imposto das duas dracmas?”
1. Introdução
O versículo muda de assunto sem aviso. Do anúncio da morte, o texto passa para uma cobrança de imposto na porta de casa.
O episódio que começa aqui só existe em Mateus. Vai do versículo 24 ao 27 e fecha o capítulo.
Três pontos organizam a leitura.
O primeiro é o imposto. Não é tributo romano. É a contribuição anual para o templo de Jerusalém, que todo homem judeu adulto devia pagar, e que tinha uma história longa — e, depois do ano 70, um destino amargo que os primeiros leitores de Mateus conheceram.
O segundo é a quem a pergunta é feita. Os cobradores não se dirigem a Jesus. Procuram Pedro e perguntam sobre "o mestre de vocês".
O terceiro é a forma da pergunta. Ela é construída para receber um "sim", e pode ser lida como simples verificação ou como sondagem. O texto não decide.
2. Contexto Histórico e Cultural
De onde vinha o imposto das duas dracmas
O nome grego do imposto é o nome de uma moeda, e a moeda é só a tradução de uma obrigação muito mais antiga.
A raiz está em Êxodo 30:11-16. Numa passagem sobre o recenseamento, a lei manda que cada homem contado, de vinte anos para cima, entregue meio siclo como "resgate pela sua vida", para que não venha praga sobre o povo quando for contado. O rico não dá mais, o pobre não dá menos. O dinheiro vai para o serviço da tenda do encontro. Em português moderno, Êxodo 30:13 diz: "Cada um que passar para o grupo dos recenseados dará meio siclo, segundo o siclo do santuário". O que era esse "siclo do santuário" está no estudo de Gênesis 23:16.
No texto do Êxodo, a contribuição está ligada a um recenseamento, e não se diz que seja anual.
Séculos depois, o livro das Crônicas mostra a obrigação sendo cobrada para a manutenção do templo. Em 2 Crônicas 24:6 e 2 Crônicas 24:9, o rei Joás manda recolher em Judá e em Jerusalém "a contribuição que Moisés, servo de Deus, impôs a Israel no deserto".
Depois do exílio, o valor muda. Em Neemias 10:32, a comunidade que volta da Babilônia se compromete por escrito: "impusemos a nós mesmos a obrigação de dar, a cada ano, a terça parte de um siclo para o serviço da casa do nosso Deus". Aqui aparece, pela primeira vez, a contribuição anual — e com um terço, não com a metade.
Não há consenso sobre por que o valor mudou. A hipótese mais comum é que o siclo usado na época de Neemias era mais pesado, e um terço dele equivalia, na prática, ao antigo meio siclo. Outra é que a comunidade pobre do pós-exílio não podia pagar mais. Não é possível decidir.
O imposto no tempo de Jesus
No primeiro século, a contribuição de meio siclo por ano estava estabelecida, e as fontes de fora da Bíblia a descrevem com clareza.
Filo de Alexandria (filósofo judeu do Egito, contemporâneo de Jesus), na obra Leis Especiais, conta que em quase todas as cidades havia um cofre para o dinheiro sagrado, onde os judeus depositavam as suas contribuições, e que em datas fixadas homens de confiança levavam o total a Jerusalém. Flávio Josefo (historiador judeu do século I) descreve, nas Antiguidades Judaicas, as cidades de Nisibis e Neardeia, na Mesopotâmia, onde os judeus da região guardavam as duas dracmas até o momento de enviá-las, com escolta de milhares de pessoas, por medo dos saques no caminho.
O volume era grande o bastante para virar assunto político. O orador romano Cícero defendeu em 59 a.C., no discurso Em Defesa de Flaco, um governador da província da Ásia que havia proibido a saída desse ouro para Jerusalém e confiscado as quantias reunidas em várias cidades. E Josefo transcreve decretos de Augusto e de seus representantes garantindo aos judeus da Ásia e de Cirene o direito de enviar o dinheiro sagrado sem interferência.
Grau de certeza: a existência de uma contribuição anual, paga por judeus de toda parte e enviada ao templo, é das coisas mais bem documentadas da vida judaica do período.
Nem todos concordavam que fosse anual
Um detalhe mostra que a obrigação era discutida dentro do próprio judaísmo.
Entre os manuscritos achados em Qumran (as grutas junto ao mar Morto onde se guardou a biblioteca de um grupo judeu dissidente), há um fragmento de regras conhecido como 4Q159. Ali se lê que o meio siclo de Êxodo 30 deve ser dado uma única vez na vida. O grupo lia o texto do Êxodo ao pé da letra — uma contribuição ligada ao recenseamento, não um imposto anual.
O dado importa para o versículo. A pergunta "o mestre de vocês não paga?" era feita num ambiente em que o dever de pagar todo ano não era unânime.
Como e quando se cobrava
A Mishná (a coletânea de tradições legais judaicas redigida por volta do ano 200) dedica um tratado inteiro ao assunto, chamado Shekalim, "Siclos". O que ele descreve é o funcionamento no fim do período do templo, e é provável que conserve prática antiga, embora a redação seja posterior.
Segundo o tratado, no primeiro dia do mês de Adar, que corresponde mais ou menos a fevereiro ou março, anunciava-se a cobrança. No dia 15, os cambistas montavam as suas mesas nas cidades do interior; no dia 25, dentro do templo. A partir daí, de quem não tinha pago se tomava um objeto como garantia.
O prazo servia ao calendário: o dinheiro precisava estar em Jerusalém no mês seguinte, o de Nisã, em que começava o novo ano das ofertas públicas e caía a Páscoa.
O versículo não dá data à cena. Se o calendário da Mishná valia na Galileia, a cobrança em Cafarnaum aconteceria perto da primavera, antes da Páscoa — o que combina com a subida a Jerusalém que o evangelho vai narrar. Mas também é possível que se tratasse de cobrança atrasada, fora da época. O texto não permite decidir.
Quanto valia: duas dracmas equivaliam, na prática, a dois denários, e Mateus 20:2 mostra o denário como o pagamento de um dia de trabalho no campo. O imposto custava, portanto, cerca de dois dias de salário de um trabalhador. Não era pesado, e também não era desprezível para um pescador.
Quem eram os cobradores
Os homens do versículo não eram publicanos. Os publicanos cobravam impostos e taxas para os governantes — Roma ou Herodes Antipas — e eram malvistos por isso. Estes recolhiam para o templo, eram judeus da própria comunidade e não tinham força policial por trás. A pressão era a da reputação: quem não pagava ficava marcado entre os seus.
O que aconteceu com o imposto depois do ano 70
Aqui está o dado que muda o modo como os primeiros leitores de Mateus ouviam este episódio.
Em agosto do ano 70, as tropas romanas destruíram o templo de Jerusalém. O imposto não acabou. Mudou de destino.
Josefo registra, na Guerra Judaica, que o imperador Vespasiano impôs a todos os judeus, onde quer que vivessem, o pagamento anual de duas dracmas ao Capitólio, em Roma — "como antes pagavam ao templo de Jerusalém". O historiador Dião Cássio (senador romano do século III, que escreveu uma história de Roma em grego) confirma: os judeus que mantinham os costumes dos antepassados passaram a pagar as duas dracmas a Júpiter Capitolino. O dinheiro servia à reconstrução do templo de Júpiter em Roma, que tinha sido incendiado em 69. A administração criada para a cobrança recebeu o nome de fiscus Iudaicus ("tesouro judaico", o caixa romano do imposto dos judeus).
E a base de cobrança ficou maior que a antiga. Um papiro de Arsínoe, no Egito, com lista de contribuintes datada de por volta de 73, registra o imposto judaico cobrado de homens, mulheres e crianças a partir dos três anos. Recibos escritos em cacos de cerâmica, achados em Edfu, no sul do Egito, mostram judeus pagando o "imposto judaico" ano após ano, a partir do início da década de 70.
Sob o imperador Domiciano, que governou de 81 a 96, a cobrança ficou ainda mais dura. Suetônio (biógrafo romano do início do século II), na Vida de Domiciano, conta ter visto, quando jovem, um homem de noventa anos ser examinado diante de um funcionário e de um tribunal lotado para verificar se era circuncidado. O sucessor, Nerva, cunhou moedas em 96 e 97 com a inscrição fisci Iudaici calumnia sublata ("abolida a acusação abusiva do tesouro judaico") — sinal de que a cobrança tinha virado instrumento de denúncia. O imposto em si continuou existindo por muito tempo depois.
Por que isso importa para o versículo
O Evangelho de Mateus foi escrito, segundo a opinião mais difundida, entre os anos 80 e 90. É discutido, e há quem proponha data anterior a 70. Se a data mais comum estiver certa, os primeiros leitores já não pagavam as duas dracmas ao templo de Deus: pagavam o mesmo valor, com o mesmo nome, a um templo de Júpiter.
Isso não altera o que a cena descreve — os cobradores de Cafarnaum recolhem para Jerusalém, e o templo ainda está de pé. Mas explica por que Mateus teria interesse em guardar um episódio sobre pagar ou não pagar as duas dracmas. A pergunta "o mestre de vocês não paga?" era, para os seus leitores, uma pergunta atual. O que o episódio responde a eles é assunto dos versículos 26 e 27.
3. Análise Teológica do Versículo
"Quando chegaram a Cafarnaum"
A frase fecha uma viagem. O grupo esteve no norte, em Cesareia de Filipe; subiu o monte; desceu ao vale; atravessou a Galileia. Agora está em Cafarnaum, a cidade que Mateus 4:13 apresentou como a casa de Jesus depois de deixar Nazaré.
O corte com o versículo anterior é brusco, e parece deliberado. Os discípulos acabaram de ficar muito tristes com o anúncio da morte. A primeira coisa que os espera em casa é uma cobrança. O texto não comenta o contraste. Apenas passa da morte anunciada para a vida administrativa comum, sem transição.
E há ironia de lugar, que o leitor de Mateus pode perceber. Cafarnaum é a cidade que ouviu, em Mateus 11:23, que seria rebaixada até o Hades por não ter se convertido com os milagres. É ali que alguém pergunta se Jesus está em dia com as contribuições religiosas.
"os que recolhiam o imposto de duas dracmas"
A identificação é pelo ofício, não pelo nome. O texto não diz quantos eram, nem se eram conhecidos de Pedro.
O dado teológico está no destinatário do dinheiro. O imposto era do templo — e o evangelho vem construindo, há capítulos, uma relação tensa entre Jesus e o templo. Em Mateus 12:6, ele disse aos fariseus: "aqui está algo maior do que o templo". Em Mateus 21:12-13, vai derrubar as mesas dos cambistas, os mesmos que trocavam moeda para esse imposto. Em Mateus 24:2, vai anunciar que não ficará pedra sobre pedra.
A pergunta dos cobradores, portanto, cai sobre um ponto sensível. Pagar a contribuição do templo era reconhecer a instituição. O leitor sabe que a relação de Jesus com ela não é simples.
Há um limite a marcar. Nada no texto indica que os cobradores soubessem de Mateus 12:6 ou tivessem intenção de armar uma questão. A tensão é visível para o leitor do evangelho; para os personagens da cena, pode ter sido só cobrança.
"aproximaram-se de Pedro"
Aqui está o dado principal do versículo: a pergunta é feita a Pedro, e não a Jesus.
Três explicações se apresentam, e elas não se excluem.
A primeira é prática. Mateus 8:14 mostrou que Pedro tinha casa em Cafarnaum. É provável que a casa em que Jesus entra no versículo seguinte seja essa, e que Pedro fosse, para os cobradores, o morador conhecido, o responsável pelo grupo hospedado ali.
A segunda é de posição. Pedro já aparece em Mateus como quem fala pelos doze — o traço está examinado nos estudos de Mateus 14:28 e de Mateus 16:22. Quem quisesse saber algo do grupo iria a ele.
A terceira é de etiqueta. Perguntar diretamente a um mestre se ele deixou de cumprir uma obrigação seria constrangê-lo em público. Perguntar ao discípulo preserva a face do mestre e, ao mesmo tempo, faz a pergunta chegar a ele. É leitura plausível, e o evangelho tem um paralelo exato: em Mateus 9:11, os fariseus não perguntam a Jesus por que ele come com pecadores — perguntam aos discípulos: "Por que o seu Mestre come com os publicanos e pecadores?".
O texto não escolhe entre as três. O que ele registra é que, a partir daqui, Pedro fica no meio: responde por Jesus sem ter consultado Jesus.
"O mestre de vocês"
A palavra "mestre" tem um uso muito marcado em Mateus, e ele é revelador.
No evangelho, quem chama Jesus de "Mestre" são quase sempre os de fora: um escriba em Mateus 8:19, escribas e fariseus em Mateus 12:38, o jovem rico em Mateus 19:16, os enviados dos fariseus e os herodianos em Mateus 22:16, os saduceus em Mateus 22:24, um especialista na lei em Mateus 22:36. Os discípulos, em Mateus, o chamam de "Senhor". O único do grupo que usa outro tratamento de mestre é Judas, com "Rabi", em Mateus 26:25.
Os cobradores falam, portanto, a língua de quem está do lado de fora. Para eles, Jesus é um mestre — um professor de religião, com discípulos. Não é mais do que isso, e o título é respeitoso.
E o possessivo "de vocês" marca o vínculo: Jesus é o mestre deles, não dos cobradores. A pergunta põe Pedro na posição de quem responde pela conduta do seu mestre.
"não paga o imposto das duas dracmas?"
A forma da pergunta, em grego, espera a resposta "sim", como o item 10 mostra. Em português, seria algo como "o mestre de vocês paga as duas dracmas, não paga?".
Isso afasta a leitura mais agressiva — a de uma acusação direta de sonegação. Os cobradores não dizem "ele não pagou". Mas a pergunta existe, e a pergunta mostra que havia motivo para fazê-la.
Duas leituras disputam o motivo.
A primeira é de rotina. Chegou a época da cobrança, o grupo acabou de voltar de viagem, e alguém confere se o hóspede da casa de Pedro está em dia. Nada mais.
A segunda é de sondagem. A obrigação era discutida, como o item 2 mostra. Havia grupos que não pagavam todo ano, e sacerdotes que se diziam isentos. Um mestre que falava do templo como Jesus falava podia muito bem ser um desses. Perguntar se ele paga era perguntar, de modo educado, de que lado ele estava.
As duas leituras são plausíveis. A resposta rápida de Pedro no versículo seguinte combina melhor com a primeira; a conversa que Jesus abre em seguida combina melhor com a segunda. Não é possível decidir.
O que o episódio não é
Vale uma advertência contra uma confusão frequente. Este versículo não trata do tributo a César, que é o assunto de Mateus 22:17-21. Lá a moeda é o denário com a imagem do imperador, e a questão é política. Aqui a moeda é a do templo, e a questão é religiosa.
A confusão tem uma desculpa histórica: depois do ano 70, como o item 2 mostra, as duas questões se fundiram, e o imposto do templo passou a ser pago a Roma. Mas na cena de Cafarnaum as duas coisas ainda estão separadas.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Pedro
Chamado à conversa pelos cobradores, e não por Jesus. Morava em Cafarnaum, onde tinha casa e família, como mostra Mateus 8:14. O seu papel de porta-voz dos doze está nos estudos de Mateus 14:28 e Mateus 16:22.
Nos quatro versículos do episódio, ele é o único discípulo que aparece.
Os cobradores das duas dracmas
Encarregados locais de recolher a contribuição anual para o templo de Jerusalém. Não eram funcionários de Roma nem de Herodes Antipas, e não se confundem com os publicanos. O texto não os descreve e não lhes atribui intenção nenhuma.
Jesus
Mencionado na terceira pessoa, como "o mestre de vocês". Não está presente na conversa: entra em cena no versículo seguinte, dentro de casa.
Cafarnaum
Aldeia de pescadores na margem norte do lago da Galileia, onde Jesus passou a morar, segundo Mateus 4:13. A cidade e as suas casas estão descritas nos estudos de Mateus 8:14 e Mateus 13:36, e a região de Genesaré, no estudo de Mateus 14:34.
Um dado útil aqui: Cafarnaum ficava perto da fronteira entre o território de Herodes Antipas e o de seu irmão Filipe, e tinha posto de cobrança de taxas. É ali, pela leitura mais comum de Mateus 9:1-9, que Mateus, o publicano, é chamado da mesa de coleta. A cidade conhecia bem a figura do cobrador — de vários tipos.
O templo de Jerusalém
O destinatário invisível da cena. Era o templo reconstruído e ampliado por Herodes, o Grande, a partir de cerca de 20 a.C., e ainda em obras no tempo de Jesus. O imposto financiava os sacrifícios públicos diários e a manutenção do culto.
Os paralelos
Não há. Marcos 9:33 também leva o grupo a Cafarnaum e o faz entrar numa casa, mas ali a conversa é sobre quem é o maior. O episódio do imposto é exclusivo de Mateus.
5. Pontos de Ensino
A religião também tem conta a pagar
O versículo põe, logo depois do anúncio da morte, uma questão de dinheiro. O evangelho não separa as duas coisas em compartimentos. A vida de fé de um grupo inclui cobranças, obrigações, instituições que precisam ser mantidas.
A pergunta sobre o mestre chega pelo discípulo
Quem está de fora mede Jesus pelo que os seus fazem e respondem. Os cobradores não perguntam a ele: perguntam a Pedro. A reputação do mestre passa pela resposta do discípulo, e o discípulo responde, como o versículo seguinte mostra, sem consultar.
Ser leal a um mestre não dispensa as obrigações comuns
Os cobradores tratam Jesus como um homem sujeito à contribuição de todos. A pergunta pressupõe que um mestre religioso não está, por ser mestre, acima das obrigações da comunidade. A resposta de Jesus nos versículos seguintes vai discutir exatamente isso, e o que ele concluir não pode ser antecipado aqui.
O mesmo nome pode esconder destinos diferentes
As duas dracmas pagas em Cafarnaum iam para o templo de Deus. As duas dracmas pagas pelos leitores de Mateus iam para o templo de Júpiter. O episódio foi guardado por uma comunidade que pagava um imposto religioso a um deus estrangeiro, e isso é um ponto de ensino por si: a mesma obrigação, com o mesmo nome e o mesmo valor, pode mudar inteiramente de sentido quando muda quem recebe.
6. Aspectos Filosóficos
Pagar uma contribuição é reconhecer quem a recebe?
A pergunta dos cobradores parece administrativa, e toca numa questão que a filosofia política trata há muito tempo: a relação entre a obrigação e a legitimidade.
Quem paga um imposto reconhece, pelo gesto, a autoridade que o cobra. Quem se recusa pode estar dizendo que essa autoridade não o representa. Por isso as recusas de pagar costumam ter peso simbólico muito maior que o valor recusado — duas dracmas eram dois dias de trabalho, e a pergunta sobre elas era a pergunta sobre um vínculo.
O versículo não desenvolve isso. Registra a pergunta e a entrega a Pedro. Os versículos seguintes mostram que Jesus a tratou exatamente nesse nível — o do vínculo, não o do valor.
7. Aplicações Práticas
Responder pelo outro exige cuidado
Pedro vai responder, no versículo seguinte, antes de falar com Jesus. O versículo 24 prepara isso: a pergunta é feita a quem não é o interessado.
Situações assim são comuns. Um funcionário é perguntado sobre a posição do chefe; um filho, sobre a decisão dos pais; um membro de igreja, sobre o que o pastor pensa. A tentação é responder de pronto, para proteger a imagem de quem se representa. Às vezes a resposta está certa; às vezes ela compromete o outro com algo que ele não disse.
As obrigações comuns também contam
O versículo mostra que até um grupo que acabou de ouvir sobre a morte do mestre e sobre a glória do monte tinha de lidar com uma cobrança na porta de casa. A vida religiosa não dispensa as contas do dia. Quem sustenta uma comunidade, uma instituição, uma causa, sabe que ela depende de contribuições pequenas e regulares, e que a pergunta "fulano não paga?" sempre acaba chegando.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Jesus tinha deixado de pagar o imposto antes?
O texto não diz. A pergunta espera um "sim", o que sugere que pagar era o esperado. Se a cobrança era atrasada, ou se Jesus tinha pago em anos anteriores, não é possível saber.
Os cobradores estavam tentando apanhar Jesus em alguma falha?
Nada no texto os apresenta como adversários. Mateus costuma marcar quando uma pergunta é armadilha — em Mateus 22:15, por exemplo, diz que os fariseus "combinaram um plano para apanhá-lo em alguma palavra". Aqui não diz nada disso. A leitura de sondagem é possível, mas não é sugerida pelo texto.
Os discípulos também deviam pagar?
Todo homem judeu adulto devia, pela regra corrente. O versículo pergunta só pelo mestre, e o versículo 27 vai resolver o caso de Jesus e de Pedro com a mesma moeda. Sobre os outros discípulos o episódio não diz nada.
Por que só Mateus conta esta história?
Não se sabe. A explicação mais comum liga o interesse de Mateus aos seus leitores: comunidades de origem judaica que conheciam o imposto — primeiro o do templo, depois o de Roma. É hipótese razoável e não demonstrável.
9. Conexão com Outros Textos
A origem da contribuição
Êxodo 30:13 — "Cada um que passar para o grupo dos recenseados dará meio siclo, segundo o siclo do santuário, que é de vinte geras. Esse meio siclo será a oferta ao SENHOR."
O texto base, citado em português moderno.
2 Crônicas 24:9 — "Proclamou-se em Judá e em Jerusalém que se trouxesse ao SENHOR a contribuição que Moisés, servo de Deus, impôs a Israel no deserto."
A obrigação atribuída a Moisés, cobrada para a manutenção do templo.
Neemias 10:32 — "Também impusemos a nós mesmos a obrigação de dar, a cada ano, a terça parte de um siclo para o serviço da casa do nosso Deus."
A primeira menção a uma contribuição anual, com valor diferente.
O templo em Mateus
Mateus 12:6 — "Pois eu digo a vocês que aqui está algo maior do que o templo."
A frase que o leitor tem na memória quando ouve a pergunta dos cobradores.
Mateus 21:12 — "Jesus entrou no templo de Deus e expulsou todos os que ali vendiam e compravam. Derrubou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas,"
As mesas derrubadas são as dos que trocavam moedas, também para o pagamento deste imposto.
A pergunta feita ao discípulo
Mateus 9:11 — "E os fariseus, vendo isto, disseram aos discípulos dele: Por que o seu Mestre come com os publicanos e pecadores?"
A mesma construção: pergunta sobre o mestre, dirigida aos discípulos.
O outro imposto
Mateus 22:17 — "Dize-nos, pois: o que achas? É lícito pagar tributo a César, ou não?"
A questão do tributo romano, com moeda e sentido diferentes.
Pedro e a casa em Cafarnaum
Mateus 8:14 — "Quando Jesus chegou à casa de Pedro, viu a sogra dele de cama, com febre."
A casa em que o episódio provavelmente continua.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Quando chegaram a Cafarnaum, os que recolhiam o imposto de duas dracmas aproximaram-se de Pedro e perguntaram: “O mestre de vocês não paga o imposto das duas dracmas?”
Texto grego
Ἐλθόντων δὲ αὐτῶν εἰς Καπερναούμ, προσῆλθον οἱ τὰ δίδραχμα λαμβάνοντες τῷ Πέτρῳ καὶ εἶπον, Ὁ διδάσκαλος ὑμῶν οὐ τελεῖ τὰ δίδραχμα;
Transliteração
Elthontōn de autōn eis Kapernaoum, prosēlthon hoi ta didrachma lambanontes tō Petrō kai eipon, Ho didaskalos hymōn ou telei ta didrachma?
Análise palavra por palavra
Ἐλθόντων δὲ αὐτῶν — elthontōn de autōn, "e tendo eles chegado".
Genitivo absoluto, com particípio aoristo de erchomai, "vir, ir". A construção marca a circunstância — a chegada — e a separa da ação principal. O aoristo indica que a chegada já tinha acontecido quando os cobradores se aproximaram.
εἰς Καπερναούμ — eis Kapernaoum, "a Cafarnaum".
A grafia com -per- é a do Textus Receptus (a edição grega impressa no século XVI que a ABC segue). Os manuscritos mais antigos escrevem Kapharnaoum, mais próxima do nome semita, Kefar Nahum, "aldeia de Naum". A diferença é só de grafia.
προσῆλθον — prosēlthon, "aproximaram-se".
Aoristo de proserchomai, "vir para junto de". É um dos verbos favoritos de Mateus, que o usa dezenas de vezes, quase sempre para alguém que se aproxima de Jesus. Aqui o verbo é o mesmo, mas quem recebe a aproximação é Pedro. O deslocamento do objeto é o dado da cena.
οἱ τὰ δίδραχμα λαμβάνοντες — hoi ta didrachma lambanontes, "os que recebiam as duas dracmas".
Particípio presente de lambanō, "tomar, receber", com artigo: "os recebedores". O presente descreve uma atividade, um ofício, e não um ato isolado. Não há nome técnico para o cargo; o texto descreve a função.
Didrachmon é composto de di-, "dois", e drachmē, a dracma, moeda grega de prata. Literalmente, "a de duas dracmas". No plural com artigo, ta didrachma, a palavra deixou de designar a moeda e passou a designar o imposto: "as duas-dracmas", como se diria "o dízimo".
O termo tem uma história na Bíblia grega. Os tradutores gregos do Antigo Testamento usaram didrachmon para traduzir o hebraico sheqel, "siclo". É o que se lê, por exemplo, na versão grega de Êxodo 30:13, onde o meio siclo aparece como "a metade do didracmo". No primeiro século, porém, o meio siclo do templo era calculado como duas dracmas, e o siclo inteiro como quatro. A diferença reflete a mudança dos padrões de peso entre a época da tradução e a do evangelho; os detalhes da conversão são discutidos, e a questão da moeda usada no pagamento pertence ao versículo 27.
No Novo Testamento, didrachmon só aparece aqui, duas vezes no mesmo versículo.
τῷ Πέτρῳ — tō Petrō, "a Pedro".
Dativo, complemento de prosēlthon. O nome usado é Pedro, o nome dado a Simão. No versículo seguinte, Jesus o chamará de Simão.
καὶ εἶπον — kai eipon, "e disseram".
Aoristo de legō. A forma eipon é a do Textus Receptus; outros manuscritos trazem eipan, variante de terminação sem consequência.
Ὁ διδάσκαλος ὑμῶν — ho didaskalos hymōn, "o mestre de vocês".
Didaskalos vem de didaskō, "ensinar": é o professor, o que ensina. Nos evangelhos, traduz o tratamento aramaico rabbi, como João 1:38 explica ("Rabi, que traduzido quer dizer Mestre").
O pronome hymōn, "de vocês", está no plural: a pergunta é dirigida a Pedro, mas o trata como membro de um grupo.
οὐ τελεῖ — ou telei, "não paga?".
Presente de teleō, "completar, levar a termo, cumprir". O verbo vem de telos, "fim, término" — e, por extensão, "o que se paga ao término", a taxa. Daí os sentidos de "cumprir uma obrigação" e "pagar um imposto". A mesma família dá telōnēs, "publicano", e telē, "taxas", que aparece no versículo seguinte.
A partícula ou é o dado decisivo da frase. O grego tinha duas negações para perguntas. Com mē, a pergunta esperava a resposta "não"; com ou, esperava "sim". Os cobradores usam ou. A pergunta é, portanto, "ele paga, não paga?". O efeito na leitura da cena está no item 3.
O presente telei pode indicar costume — "ele costuma pagar?" — mais do que um pagamento determinado. É leitura possível da forma, não obrigatória.
11. Conclusão
Com base no que foi examinado, o versículo leva a três conclusões.
A primeira é que a cena, simples na superfície, toca uma obrigação discutida. A contribuição ao templo tinha raiz no Êxodo, história nas Crônicas e em Neemias, prática estabelecida no primeiro século — e discordâncias sérias, como a do grupo de Qumran. Perguntar se um mestre a pagava não era perguntar o óbvio.
A segunda é que o episódio foi guardado por leitores para quem ele era atual. Depois do ano 70, as duas dracmas continuaram a ser cobradas, mas agora para Júpiter, e com rigor crescente. Isso não muda o que aconteceu em Cafarnaum, mas explica por que só Mateus o conservou e por que a conversa seguinte, sobre quem deve e quem está isento, merecia ser lembrada.
A terceira é sobre o caminho da pergunta. Ela não chega a Jesus: chega a Pedro, com a forma de quem já espera um "sim". Daí se conclui que Pedro é posto, pela própria cena, na posição de responder pelo mestre sem o ter consultado — e que o episódio vai girar em torno do que acontece quando o discípulo fala primeiro e o mestre fala depois.













