Enviaram-lhe seus discípulos, junto com os herodianos, que disseram: “Mestre, sabemos que és verdadeiro e que ensinas o caminho de Deus conforme a verdade. Tu não te deixas influenciar por ninguém, porque não olhas para a aparência das pessoas.
1. Introdução
Os fariseus não vêm. Mandam os alunos, e mandam acompanhados de um grupo que não tem nada a ver com eles: partidários da casa de Herodes, cuja existência o Novo Testamento registra em três lugares e cujos contornos ninguém conseguiu reconstruir com segurança. Essa é a primeira metade do versículo. A segunda é um elogio de quatro afirmações — e o que faz dele uma coisa temível não é que seja falso. É que cada uma das quatro é verdadeira, e o leitor de Mateus pode conferir todas. Elas também não são enfeite: cada uma fecha uma saída que Jesus poderia usar na pergunta do versículo seguinte.
2. Contexto Histórico e Cultural
Quem eram os herodianos, e por que a resposta é insegura
O nome é o dado mais informativo que temos sobre eles, e não é um nome judaico. A terminação é latina, a mesma que produzia no vocabulário político romano designações como "cesarianos" e "pompeianos": partidários de um homem, reunidos em torno de uma pessoa e não de uma doutrina. Um grupo chamado assim é uma facção, não uma escola. Herodes Antipas, aliás, estava em Jerusalém naquela semana, como Lucas 23:7 registra, e governante em viagem levava comitiva.
A documentação é curta. O Novo Testamento os menciona três vezes: em Marcos 3:6, em Marcos 12:13 e neste versículo. Nenhum outro autor antigo usa a palavra. Josefo (historiador judeu do primeiro século) descreve o judaísmo do período com cuidado, lista fariseus, saduceus e essênios, e nunca escreve "herodianos" — fala, em outro vocabulário, dos que eram "do partido de Herodes". O grupo existia como realidade política e não existia como escola reconhecida.
Daí as três reconstruções que circulam, e nenhuma é demonstrável. A primeira, e mais econômica: eram funcionários, cortesãos e dependentes da casa herodiana — gente com cargo, renda ou proteção vinda daquela família, de modo que "herodianos" descreve interesse, não convicção. A segunda é propriamente política: eram os que defendiam a restauração de um rei herodiano sobre a Judeia, que havia deixado de ter rei da família de Herodes no ano 6 e passara a província sob governador romano. A terceira os identifica com uma família sacerdotal ligada a Herodes, os boetusianos, que ocuparam o sumo sacerdócio por indicação dele; é proposta antiga e minoritária, e nada no Novo Testamento sugere caráter sacerdotal nesse grupo.
Não é possível decidir, e as três concordam no que importa: qualquer que fosse a composição do grupo, a posição dele dependia de um arranjo com o poder. Um grupo assim tem acesso — e acesso era o que faltava aos fariseus.
Por que a aliança é improvável, e por que não é inédita
O desconforto entre os dois grupos não era de opinião: era de identidade. Os fariseus se definiam pela aplicação rigorosa da Lei à vida cotidiana. A casa de Herodes tinha origem edomita, isto é, não era de linhagem israelita plena; construiu teatro e anfiteatro em Jerusalém; manteve na família casamentos que a Lei proibia — a questão que custou a cabeça de João Batista; e devia a sua existência política inteiramente a Roma. Um fariseu sério não tinha nada a tratar com os partidários dessa família.
E, no entanto, a aliança já havia acontecido antes. Marcos 3:6 a registra no começo da história: depois da cura no sábado, na Galileia, os fariseus saem e deliberam com os herodianos sobre como destruir Jesus. Entre aquela cena e esta há a largura do evangelho inteiro, e a dupla é a mesma — a inimizade comum funcionava, para os dois lados, melhor que a incompatibilidade. A divisão de vantagens é visível: os fariseus ganham uma testemunha com acesso a quem tem competência para processar, e os herodianos ganham cobertura religiosa, porque a pergunta chega como consulta de estudiosos da Lei e não como denúncia de partidários do rei.
O elogio de abertura era uma técnica ensinada
A fala dos enviados começa com quatro afirmações favoráveis antes de chegar à pergunta, e isso não é espontaneidade. Os manuais de oratória do mundo antigo ensinavam que o começo de um discurso tem função definida: conquistar o ouvinte. O manual latino mais antigo que se conservou, a Retórica a Herênio ("Retórica dirigida a Herênio", obra anônima do século I antes de Cristo, por muito tempo atribuída a Cícero), prescreve que a abertura torne o ouvinte benevolente, atento e disposto; e Quintiliano (professor de retórica em Roma no século I) dedica ao assunto um livro inteiro, com instruções sobre como elogiar sem parecer que se está elogiando.
Aqui, porém, a técnica está invertida. Nos manuais, o elogio de abertura é dirigido ao juiz, por quem fala, e serve para dispor quem vai decidir. Neste versículo quem elogia são os acusadores, e o elogiado é o alvo: não se está conquistando um julgador, está-se construindo a posição em que o réu não poderá se mover.
"Não olhar a aparência das pessoas" era fórmula de tribunal
A última frase do versículo soa, em português, como elogio de caráter. No vocabulário bíblico é linguagem técnica de direito, e a imagem por trás dela é concreta: quem pede algo se inclina com o rosto para o chão, e quem o recebe com favor "levanta o rosto" dele. Aplicada ao juiz, a expressão passou a significar julgar por consideração à pessoa e não pela causa — o que a Lei proíbe em Levítico 19:15, em Deuteronômio 16:19 e em Deuteronômio 1:17, onde a ordem aos juízes é não distinguir entre o pequeno e o grande, e que o rei Josafá repete aos juízes que nomeia em 2 Crônicas 19:7. A mesma exigência é dita a respeito de Deus, ponto examinado no estudo de Gênesis 18:25.
Eles não estão dizendo, portanto, que Jesus é corajoso. Estão dizendo que ele julga como um juiz deve julgar — e o próximo versículo vai pedir uma sentença.
3. Análise Teológica do Versículo
"Enviaram-lhe seus discípulos"
Os que planejaram não aparecem. Mandam os seus alunos, e a escolha tem três efeitos, todos úteis a quem armou o laço.
O primeiro é de aparência: um aluno que pergunta a um mestre está fazendo a coisa mais normal do mundo religioso judaico, porque a consulta é a forma corrente do aprendizado e a pergunta difícil é o instrumento padrão dela. Enviar estudantes faz a armadilha chegar vestida de aula. O segundo é de responsabilidade: quem fala não é quem decidiu, e portanto o risco é dos emissários e o resultado é de quem os mandou.
O terceiro é de palavra. Mateus chama esses rapazes de "discípulos", e este é o único lugar do evangelho em que o termo designa alunos de outro grupo que não o de Jesus ou o de João Batista. A palavra que o livro usa cerca de setenta vezes para os doze é aplicada, uma vez só, a quem vem armar laço. O evangelho não comenta.
"junto com os herodianos"
A composição da delegação é a parte técnica do plano, e ela é mais importante do que a pergunta. Um grupo religioso e um grupo ligado à casa reinante chegam juntos, e cada um serve a uma das duas respostas possíveis.
Se a resposta for favorável ao tributo, quem se escandaliza são os estudiosos da Lei, e eles saem dali com uma frase para levar ao povo. Se for contrária, quem se escandaliza são os partidários da casa de Herodes, e eles saem com uma frase para levar a quem tem poder de processar. A delegação não foi montada para argumentar: foi montada para que haja, em qualquer cenário, um ouvinte interessado em usar o que se ouviu.
E Mateus não comenta a estranheza de ver os dois lados juntos: põe os dois nomes lado a lado numa frase e segue. O leitor do primeiro século não precisava de explicação; o de hoje precisa, e não a encontra no texto.
"Mestre"
O título é respeitoso e tem, em Mateus, uma distribuição curiosa: quem o usa são quase sempre os de fora, enquanto os discípulos dizem "Senhor", como Mateus 17:24 já mostrava. Aqui o que importa é a função dele neste lugar.
O título define o papel que eles querem que ele ocupe. Um mestre, naquele mundo, é alguém a quem se pede decisão sobre o que a Lei permite; chamá-lo assim e em seguida perguntar o que é lícito é pedir sentença de quem tem autoridade reconhecida para dá-la. Se o tivessem chamado de profeta, ou pelo nome, a pergunta seguinte não teria o mesmo cabimento.
"sabemos que és verdadeiro"
A fala abre com uma afirmação de conhecimento. Não "parece-nos", não "dizem que": sabemos. E o adjetivo grego não descreve alguém que fala verdades ocasionais: descreve a pessoa que é verídica, de quem se pode depender, cujo testemunho vale.
Aqui está o nervo do versículo, e ele costuma passar batido porque o leitor, avisado da armadilha no versículo 15, trata o elogio como mentira. Não é mentira: é verdade conferível no próprio evangelho, e Jesus não corrige nada dela no versículo 18 — chama os autores de hipócritas e segue. A afirmação é correta e o uso dela é hostil, e as duas coisas convivem sem contradição. O que isso faz com as categorias morais correntes é assunto do item 6.
"e que ensinas o caminho de Deus conforme a verdade"
"O caminho de Deus" é linguagem bíblica de instrução: o caminho é a conduta ensinada, e os salmos pedem repetidamente que ele seja ensinado. O uso de "caminho" como nome de um movimento religioso do período está examinado no estudo de Mateus 21:32; aqui o que faz trabalho é o acréscimo "conforme a verdade", que não qualifica o conteúdo do ensino e sim o modo. Diz que ele ensina sem adaptar, sem aparar arestas, sem calcular o efeito — e fecha uma saída específica, porque depois disso responder com uma generalidade prudente seria desmentir em ato o que acabou de ser dito dele em público.
Há ainda uma ironia que o evangelho não assina: os enviados entregam a Jesus, sem saber, o vocabulário com que o movimento dos seus seguidores vai se autodesignar. Nos Atos dos Apóstolos, os cristãos são chamados várias vezes simplesmente de "o Caminho".
"Tu não te deixas influenciar por ninguém"
A tradução é correta e discreta. O grego diz, literalmente, "não te importa a respeito de ninguém", e a frase tem dois gumes — o que não pode ser acidente numa fala preparada em reunião. Lida como elogio, significa que ele não se dobra a pressão e não deve favor a ninguém. Lida ao pé da letra, significa que ele não se importa com pessoa alguma; e um homem que não se importa com ninguém é, para um ouvinte do primeiro século, um homem sem lealdade — sem compromisso com a sua gente, sem obrigação com a nação. Dito em público, a poucos passos de uma pergunta sobre o imposto do ocupante, é a primeira pedra de uma acusação.
Não é possível provar que a ambiguidade seja intencional. O que se pode afirmar é que ela está na frase, que a fala foi combinada antes, e que a frase seguinte empurra o sentido para o lado do elogio ao explicá-la com a fórmula do juiz imparcial.
"porque não olhas para a aparência das pessoas"
Esta é a explicação da anterior, e é jurídica: ele não se importa com ninguém porque não julga pela pessoa. O grego escolhe aqui uma expressão que não é a fórmula bíblica da parcialidade, e o item 10 mostra qual é a diferença e de onde ela vem. O que importa para a leitura da cena é a consequência: o elogio diz que ele não mede o interlocutor antes de responder, não avalia quem pergunta para calibrar a resposta.
E é essa, exatamente, a conduta que a pergunta seguinte vai exigir dele. Diante de uma delegação de duas metades, com uma multidão em volta, a prudência consistiria em olhar para quem pergunta antes de responder. Acabaram de declarar, diante de todos, que ele não faz isso.
Como as quatro afirmações fecham as quatro saídas
Juntas, elas não são enfeite: são uma construção. Se ele é verídico, não pode se esquivar — recusar resposta seria desmentir o que foi dito dele. Se ele ensina o caminho de Deus, a questão é da competência dele: não cabe responder "isso é assunto do governador". Se ensina conforme a verdade, não pode dar uma resposta vaga. Se não se importa com ninguém e não olha o rosto de quem pergunta, não pode calcular a resposta pelo público presente.
Fechadas as quatro, resta um "sim" ou um "não" — e o versículo seguinte vai pedir precisamente um dos dois. O elogio é a gaiola, e a pergunta é a porta.
O limite a marcar é honesto: Mateus não diz nada disso. Não afirma que os emissários soubessem estar dizendo a verdade, não chama o elogio de mentira e não explica a função de cada frase. Diz que houve plano e que Jesus os chamou de hipócritas. O desenho das quatro saídas é leitura do comentarista.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Os discípulos dos fariseus — Alunos enviados em lugar dos mestres. É a única vez, em todo o Evangelho de Mateus, em que a palavra "discípulos" designa os seguidores dos fariseus. Eles falam e não são nomeados; não se diz quantos eram nem se voltaram a aparecer.
Os herodianos — Partidários da casa de Herodes. O nome é formado à maneira latina, como "cesarianos", e designa uma facção reunida em torno de uma família, não uma escola religiosa. O Novo Testamento os menciona três vezes — aqui, em Marcos 3:6 e em Marcos 12:13 — e nenhuma outra fonte antiga usa a palavra. Quem exatamente eram não é possível determinar.
Os fariseus — Não estão presentes. Decidiram no versículo anterior e não comparecem. Voltam a ser mencionados no versículo 34, depois que os saduceus também falham.
Herodes Antipas — Não aparece no versículo e é a referência do nome do grupo. Tetrarca da Galileia e da Pereia, filho de Herodes, o Grande, e o homem que mandou executar João Batista.
Jesus — Recebe a delegação e não diz nada neste versículo. Continua no pátio do templo, cercado pelas multidões que o capítulo anterior descreveu.
A fórmula do juiz imparcial — "Não olhar a aparência das pessoas" é linguagem técnica de direito, imagem do rosto levantado ou abaixado. A Lei a usa para proibir a parcialidade dos juízes em Levítico 19:15, em Deuteronômio 1:17 e em Deuteronômio 16:19, e o rei Josafá a repete aos juízes que nomeia em 2 Crônicas 19:7.
O que aconteceu antes e o que vem depois — No versículo 15, os fariseus se retiraram e tomaram a decisão de apanhá-lo numa palavra. Aqui a delegação chega e fala. No versículo 17 vem a pergunta, e no 18 Jesus a interrompe antes de responder, chamando-os de hipócritas.
5. Pontos de Ensino
Elogio verdadeiro pode ser arma. As quatro afirmações do versículo são corretas, e o leitor de Mateus pode conferir todas. É isso que torna a cena difícil de ler com as categorias comuns: não houve mentira, e houve ataque. Quem só sabe reconhecer má-fé onde há falsidade de conteúdo está desarmado diante deste tipo de abordagem.
O elogio diz o que vem depois dele. Cada frase fecha uma saída: a honestidade fecha a esquiva, a competência fecha o "não é assunto meu", a franqueza fecha a resposta vaga, a imparcialidade fecha o cálculo pelo público. Quando um elogio enumera virtudes que a pergunta seguinte vai exigir, ele é um mapa do pedido.
Quem planeja não é quem fala. Os fariseus mandam alunos e vêm acompanhados de um grupo de outra natureza. A delegação não serve para argumentar — serve para garantir que, qualquer que seja a resposta, haja ali alguém interessado em usá-la. A composição de quem pergunta diz mais sobre a intenção do que o teor da pergunta.
A fórmula da imparcialidade não é elogio de coragem. "Não olhar a aparência das pessoas" é linguagem de tribunal, usada na Lei para proibir que um juiz favoreça uma das partes, e usada a respeito de Deus. Dizer isso de um homem e logo depois pedir-lhe uma sentença é um procedimento, não uma gentileza.
Inimizades comuns unem o que a convicção separa. Fariseus e herodianos não tinham nada em comum, e Marcos 3:6 mostra os dois grupos já aliados no começo da história, pela mesma razão. Alianças construídas sobre um adversário comum duram o tempo do adversário.
6. Aspectos Filosóficos
É possível enganar alguém dizendo apenas coisas verdadeiras?
O versículo força essa pergunta, porque nada do que os emissários dizem é falso: quatro proposições, quatro acertos. E a cena é, ainda assim, um ataque — tanto que a resposta de Jesus, dois versículos adiante, não corrige nenhuma das quatro e nomeia os autores.
A filósofa que trabalhou esse problema com mais precisão foi Jennifer Saul (filósofa britânica, nascida nos Estados Unidos, professora em Sheffield e depois em Waterloo, no Canadá), no livro Lying, Misleading, and What Is Said ("Mentir, Induzir ao Erro, e Aquilo que Se Diz", 2012).
A distinção que ela trabalha
Mentir, na definição corrente, é afirmar o que se acredita ser falso. Induzir ao erro é algo diferente: é fazer com que o outro acredite em algo falso sem afirmar nada falso. Usa-se, para isso, o que a frase sugere e não diz — a parte do sentido que o ouvinte completa sozinho e que, por isso, não fica registrada na conta de quem falou.
A distinção é real e tem consequência prática grande: quem induz ao erro sem mentir conserva, se cobrado, uma defesa completa — "eu não disse isso" —, porque todas as suas afirmações resistem à verificação. E daí decorre a pergunta moral que é a parte mais discutida do livro: há diferença moral entre as duas coisas? A resposta de Saul é cautelosa: na maior parte dos casos não há diferença relevante, porque o dano e a intenção são os mesmos; o que muda é a possibilidade de o autor se defender depois.
O que isso faz com este versículo
A fala dos emissários é um caso de livro. Nenhuma das quatro afirmações é falsa; o falso está no que elas sugerem e não dizem — que ali há um grupo de alunos com dúvida real, que vieram ouvir, que a resposta lhes servirá para aprender. Essa é a parte que o ouvinte completa sozinho, e é a única parte mentirosa da cena.
Isso explica o desenho do episódio. Se eles tivessem mentido, haveria o que refutar, e o capítulo seria uma discussão sobre fatos. Como não mentiram, não há nada a refutar, e a resposta só pode ser de outro tipo: nomear o que não foi dito. É o que acontece no versículo 18, e é por isso que a réplica não discute nenhuma palavra da fala — qualifica os falantes.
Daí sai um critério prático que o texto sustenta: a honestidade de uma fala não se mede frase por frase, e sim perguntando o que o ouvinte vai concluir e se o falante quer que ele conclua aquilo. Uma fala em que cada item é verdadeiro e o conjunto induz ao engano é desonesta, e a desonestidade está na montagem, fora das frases.
Os limites
O primeiro: Saul está discutindo filosofia da linguagem contemporânea, em debate com teorias sobre o que uma frase diz e o que ela apenas sugere, e política e publicidade são os exemplos dela. Mateus não está no horizonte.
O segundo é mais sério. O mundo deste versículo não tinha a "sinceridade" como virtude central, e o diagnóstico dele vem por outra porta: o vocabulário antigo para isso era o do adulador, figura discutida nos tratados morais do período como quem diz coisas agradáveis e exatas para obter algo, e considerada pior que o inimigo declarado justamente porque não se expõe. A palavra que Jesus usa no versículo 18 pertence a essa família de censuras. A estrutura que Saul descreve está na cena; a linguagem com que a cena a julga é outra.
O terceiro: a análise não decide nada sobre o que os emissários criam. Mateus não diz se cada enviado sabia o que estava fazendo, nem se algum acreditava no elogio que repetiu. Qualquer afirmação sobre a convicção individual deles é acréscimo do leitor.
7. Aplicações Práticas
Ler o elogio como aviso do que vem
A aplicação mais útil deste versículo é prática e imediata. Quando alguém abre uma conversa elogiando qualidades suas, repare em quais qualidades foram escolhidas — porque elas quase sempre descrevem o que a pessoa vai pedir em seguida. "Você é tão organizado" costuma vir antes de um pedido de trabalho. "Você é o único aqui que fala a verdade" vem antes de um pedido para que você diga, em público, algo que ninguém mais quer dizer. "Você não tem medo de ninguém" vem antes de um convite para comprar uma briga alheia.
Isso não significa que todo elogio seja interesseiro, e o versículo não transforma este caso em lei sobre todos os elogios que você vai receber. Significa que o elogio que enumera virtudes específicas está, sem perceber ou de propósito, anunciando a demanda. Ouvir a lista e esperar a pergunta é um hábito barato e que protege bastante.
Não aceitar o papel que o elogio oferece
O mecanismo deste versículo funciona porque o elogiado, para continuar sendo o que acabaram de dizer que ele é, tem de agir como pediram. É uma armadilha de vaidade, e ela não precisa de mentira nenhuma para funcionar — funciona melhor com verdade. A saída não é negar as próprias qualidades, que seria falsa modéstia, nem recusar o elogio, que seria grosseria. A saída é a de Jesus nos versículos seguintes: não tratar a lista como contrato. Ser honesto não obriga ninguém a responder toda pergunta, e não olhar a aparência de quem pergunta não obriga a aceitar o formato da pergunta.
Desconfiar das alianças montadas contra alguém
Fariseus e herodianos chegam juntos a uma conversa, e não há no mundo deles um único assunto em que concordem. Quando pessoas que nunca estão do mesmo lado aparecem juntas falando com você, a pauta é você. Serve para reuniões de trabalho, para conselhos de condomínio, para igrejas e para famílias: a composição inesperada de um grupo é informação, e em geral mais confiável do que a cordialidade dele.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Quem eram os herodianos?
Não é possível determinar. O nome é formado à maneira latina e designa partidários de uma pessoa, não uma escola com doutrina. O Novo Testamento os cita três vezes e nenhuma outra fonte antiga usa a palavra. Três reconstruções circulam: cortesãos e dependentes da casa herodiana; partidários da restauração de um rei herodiano em lugar do governo romano direto; ou uma família sacerdotal ligada a Herodes. A primeira é a mais econômica e a terceira é minoritária.
O elogio era mentira?
Não. Cada uma das quatro afirmações é verdadeira e conferível no próprio evangelho, e Jesus não corrige nenhuma delas no versículo 18. O falso está no que a fala sugere e não diz: que ali há gente com dúvida real. É por isso que a resposta não pode ser uma refutação — não há o que refutar.
"Tu não te deixas influenciar por ninguém" é só elogio?
A frase grega diz, ao pé da letra, "não te importa a respeito de ninguém", e admite as duas leituras. Como elogio, descreve independência. Ao pé da letra, descreve um homem sem compromisso com ninguém — e, dito em público a poucos passos de uma pergunta sobre o imposto do ocupante, isso é o começo de uma acusação de desinteresse pela própria nação. Não é possível provar que a ambiguidade seja intencional; ela está na frase, e a frase foi combinada antes.
Por que Mateus chama de "discípulos" os alunos dos fariseus?
É a única vez em todo o evangelho, e ele não explica. Pode ser simplesmente a palavra corrente para aluno, sem nenhuma carga. E pode ser escolha deliberada, para registrar que ter mestre e seguidores não distingue ninguém. O texto não decide, e o fato de ser caso único no livro torna a segunda leitura possível.
Mateus está exagerando a hostilidade dos adversários?
O evangelho declara a má intenção antes de mostrar a fala, e nunca permite ouvir a pergunta como consulta sincera. Esse enquadramento é dado do texto, não relato neutro, e é provável que tenha a ver com a situação da comunidade que o leu primeiro, para quem os fariseus eram o interlocutor judaico vivo depois do ano 70 — hipótese difundida e não demonstrável. O que se pode afirmar é que a fala, frase por frase, funciona exatamente como o versículo 15 anuncia, e essa coerência interna é o melhor argumento a favor do retrato.
9. Conexão com Outros Textos
A mesma aliança, no começo da história
Marcos 3:6 — "E, saindo os fariseus, imediatamente tomaram conselho com os herodianos contra ele, sobre como o matariam."
Na Galileia, depois da cura no sábado. A dupla improvável já tinha se formado uma vez, com a mesma finalidade e o mesmo verbo de deliberar.
Marcos 12:13 — "E enviaram-lhe alguns dos fariseus e dos herodianos, para o apanharem em alguma palavra."
O lugar paralelo. Marcos envia "alguns dos fariseus", e não os alunos deles: a cena de Mateus é a única em que quem fala é a geração seguinte.
A fórmula do juiz que não olha a pessoa
Levítico 19:15 — "Não cometerás injustiça no juízo; não favorecerás o pobre nem darás preferência ao grande; com justiça julgarás o teu próximo."
Deuteronômio 1:17 — "No juízo não farás distinção de pessoas; ouvirás tanto o pequeno como o grande; não temerás a face de ninguém, porque o juízo é de Deus."
Esta é a passagem que mais se aproxima da fala dos emissários: a proibição de olhar a face e a de temer alguém aparecem juntas, como aqui.
2 Crônicas 19:7 — "Agora, pois, que o temor do SENHOR esteja sobre vocês. Tenham cuidado e ajam, porque no SENHOR, nosso Deus, não há injustiça, nem parcialidade, nem aceitação de suborno."
A instrução do rei Josafá aos juízes que nomeia. A imparcialidade é exigida dos juízes porque é atributo de Deus.
A versão de Lucas, que usa a fórmula consagrada
Lucas 20:21 — "E perguntaram-lhe: 'Mestre, sabemos que falas e ensinas com retidão, e que não recebes o rosto de ninguém, mas ensinas o caminho de Deus conforme a verdade.'"
Lucas traz a expressão bíblica corrente para a parcialidade — "receber o rosto" —, e Mateus e Marcos trazem outra, "olhar para o rosto". Nenhuma tradução portuguesa conserva a diferença.
O caminho que se ensina
Atos 24:14 — "Mas confesso-te isto: que, segundo o Caminho a que eles chamam seita, assim sirvo ao Deus dos meus pais."
A palavra que os emissários usam para descrever o ensino de Jesus se tornou o nome do movimento dos seguidores dele.
O que Jesus responde ao elogio
Mateus 22:18 — "Mas Jesus, percebendo a maldade deles, disse: 'Por que vocês me testam, hipócritas?"
Nenhuma das quatro afirmações é corrigida. O que a resposta qualifica são os falantes.
Elogio e laço, nos provérbios
Provérbios 29:5 — "O homem que lisonjeia o seu próximo arma-lhe um laço para os pés."
A pergunta que o elogio prepara
Mateus 22:17 — "Dize-nos, pois: o que achas? É lícito pagar tributo a César, ou não?"
A palavra "pois" liga a exigência à lista de virtudes que acabou de ser recitada.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Enviaram-lhe seus discípulos, junto com os herodianos, que disseram: “Mestre, sabemos que és verdadeiro e que ensinas o caminho de Deus conforme a verdade. Tu não te deixas influenciar por ninguém, porque não olhas para a aparência das pessoas.
Texto grego (Textus Receptus)
καὶ ἀποστέλλουσιν αὐτῷ τοὺς μαθητὰς αὐτῶν μετὰ τῶν Ἡρωδιανῶν, λέγοντες, Διδάσκαλε, οἴδαμεν ὅτι ἀληθὴς εἶ, καὶ τὴν ὁδὸν τοῦ Θεοῦ ἐν ἀληθείᾳ διδάσκεις, καὶ οὐ μέλει σοι περὶ οὐδενός· οὐ γὰρ βλέπεις εἰς πρόσωπον ἀνθρώπων.
Transliteração
kai apostellousin autō tous mathētas autōn meta tōn Hērōdianōn, legontes, Didaskale, oidamen hoti alēthēs ei, kai tēn hodon tou Theou en alētheia didaskeis, kai ou melei soi peri oudenos; ou gar blepeis eis prosōpon anthrōpōn.
Análise palavra por palavra
ἀποστέλλουσιν (apostellousin) — "enviam". Presente do indicativo dentro de narrativa passada, recurso que aproxima a cena. O verbo é apostellō, de apo, "a partir de", mais stellō, "despachar": enviar alguém com encargo, em nome de quem envia, e dele vem a palavra apostolos. É também o verbo que a parábola acabou de usar duas vezes, nos versículos 3 e 4, quando o rei "enviou" os seus servos, e o verbo com que Jesus despacha os doze em Mateus 10:5. Os adversários despacham enviados seus, com a palavra que o evangelho reserva ao envio com autoridade.
τοὺς μαθητὰς αὐτῶν (tous mathētas autōn) — "os discípulos deles". Mathētēs vem de manthanō, "aprender": o aprendiz. A palavra aparece cerca de setenta vezes em Mateus, quase sempre para os seguidores de Jesus, algumas para os de João Batista — e só aqui para alunos dos fariseus.
οἴδαμεν (oidamen) — "sabemos". Perfeito com sentido de presente. Dos dois verbos gregos de saber, ginōskō é conhecer por experiência e oida é o saber já estabelecido: eles não dizem "chegamos à conclusão de que", dizem "é sabido".
ἀληθὴς εἶ (alēthēs ei) — "és verdadeiro". Alēthēs é formado pela negação a- mais a raiz de lanthanō, "estar escondido": literalmente, "o não oculto". Aplicado a uma pessoa, significa quem não dissimula, de quem se pode depender. Descreve um caráter, não uma afirmação.
τὴν ὁδὸν τοῦ Θεοῦ ἐν ἀληθείᾳ διδάσκεις (tēn hodon tou Theou en alētheia didaskeis) — "ensinas o caminho de Deus em verdade". Hodos é a estrada e, na Bíblia grega, a conduta prescrita; o genitivo tou Theou é ambíguo em grego como em português — o caminho que Deus manda andar ou o caminho que leva a Deus —, e a construção não decide. Alētheia é o substantivo da mesma raiz do adjetivo anterior, e a repetição da raiz em duas palavras seguidas é deliberada. A expressão com preposição qualifica o modo do ensino, não o conteúdo.
οὐ μέλει σοι περὶ οὐδενός (ou melei soi peri oudenos) — "não te importa a respeito de ninguém". Melei é verbo impessoal: o grego não diz "tu não te importas", diz "não há cuidado para ti a respeito de ninguém" — o sujeito é a preocupação, e a pessoa fica no dativo.
O uso dessa construção no resto do Novo Testamento ajuda a medir a ambiguidade. Em Marcos 4:38, os discípulos no barco dizem a Jesus "não te importa que pereçamos?", e é reclamação. Em João 10:13, a mesma construção, palavra por palavra, descreve o assalariado que foge porque "não se importa com as ovelhas". Na única outra vez em que o Novo Testamento a usa em afirmativa, portanto, ela nomeia um defeito grave. A frase dos emissários pode ser elogio de independência e pode ser começo de acusação de descompromisso, e a gramática não escolhe.
οὐ γὰρ βλέπεις εἰς πρόσωπον ἀνθρώπων (ou gar blepeis eis prosōpon anthrōpōn) — "pois não olhas para rosto de homens". Blepō é o verbo de olhar, com a preposição eis, "para dentro de"; prosōpon é o rosto, literalmente aquilo que está diante dos olhos; anthrōpōn é genitivo plural e vem sem artigo — rosto de gente em geral, e não de pessoas determinadas.
Aqui está o dado mais interessante do versículo, e nenhuma tradução portuguesa o deixa ver. A expressão consagrada da Bíblia grega para a parcialidade não é esta: é "receber o rosto", lambanein prosōpon, e é dela que o Novo Testamento tira a palavra composta que o português verteu por "acepção de pessoas". Lucas, no lugar paralelo, usa exatamente essa fórmula — "não recebes o rosto". Mateus e Marcos não a usam: escrevem "olhar para o rosto", que é outra coisa.
E a expressão que Mateus escolhe tem endereço. É a que aparece na versão grega de 1 Samuel 16:7, na cena em que Samuel vai ungir o filho de Jessé e é corrigido por olhar a estatura do mais velho: ali se diz, com verbo de ver mais a mesma preposição e o mesmo substantivo, que o homem olha para o rosto, e Deus olha para o coração. "Receber o rosto" é linguagem do juiz que favorece uma das partes; "olhar para o rosto" é a marca do olhar humano, o que se detém na aparência.
Lido assim, o elogio é maior do que soa em português. Os emissários não estão dizendo que Jesus é um juiz honesto. Estão dizendo que ele não olha como os homens olham. E logo depois vão lhe pedir uma sentença.
Variantes
Há uma diferença de forma no particípio que a ABC traduz por "que disseram". O Textus Receptus traz legontes, nominativo, que concorda com o sujeito oculto de "enviam" — gramaticalmente, portanto, quem fala são os que enviaram. Parte da tradição manuscrita traz legontas, acusativo, concordando com "os discípulos deles", de modo que quem fala são os enviados. O sentido da cena não muda, porque os presentes são os enviados; a diferença é de concordância, e o acusativo é a forma mais correta. O restante do versículo é estável nas edições.
11. Conclusão
Do que foi examinado saem quatro conclusões.
A primeira é que a delegação foi montada, e não reunida. Um grupo religioso e um grupo ligado à casa reinante não tinham assunto em comum, e vieram juntos. Conclui-se que a composição serve a um propósito técnico: qualquer das duas respostas possíveis encontrará, ali presente, alguém interessado em levá-la a quem possa usá-la. Quem vem perguntar informa, pela própria formação do grupo, o que pretende fazer com a resposta.
A segunda é que o elogio não é mentira. As quatro afirmações são verdadeiras e conferíveis no evangelho, e nenhuma delas é corrigida quando Jesus responde. Daí decorre que a desonestidade da cena não está em nenhuma frase, e sim no que o conjunto delas faz o ouvinte supor — que há dúvida real, que vieram aprender. É a parte não dita que é falsa.
A terceira é que as quatro frases trabalham: fecham, uma a uma, as saídas que a pergunta seguinte poderia encontrar — a esquiva, a recusa de competência, a resposta vaga e o cálculo pelo público. A fala deste versículo não é cortesia antes do assunto; é o assunto começando.
A quarta é sobre o que o grego diz e o português não. A última frase do versículo não usa a expressão bíblica consagrada para a parcialidade de um juiz; usa a expressão com que a versão grega de 1 Samuel 16:7 descreve a diferença entre o olhar humano e o olhar de Deus. Daí se conclui que o elogio é mais alto do que soa em tradução: declara-se, em público e diante de testemunhas, que aquele homem não vê como os homens veem — e é essa declaração, não a pergunta, que o deixa sem lugar para onde recuar.













