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Mateus 22:17

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✍️ Por Alberto Adriano·21 de outubro de 2026·⏱️ 30 min de leitura·👁 4 acessos
Dize-nos, pois: o que achas? É lícito pagar tributo a César, ou não?”
Emissários dos fariseus e herodianos diante de Jesus no pátio do templo, formulando a pergunta sobre o tributo enquanto peregrinos observam

Estudo


Dize-nos, pois: o que achas? É lícito pagar tributo a César, ou não?”

1. Introdução

A pergunta vem em três movimentos curtos, e cada um deles aperta mais. Primeiro uma ordem: diga. Depois um pedido de opinião, não de doutrina: o que achas. Depois a questão, posta na forma jurídica — é lícito —, e fechada com dois monossílabos que não deixam saída: ou não. O imposto em causa não era o do templo nem a taxa de estrada: era a cobrança por cabeça que Roma fazia na Judeia, e o homem a quem se pergunta é galileu, isto é, não a pagava. O que se exige dele, portanto, não é que declare o que vai fazer. É que julgue a obrigação de outros, em público, com uma palavra.

2. Contexto Histórico e Cultural

Um galileu perguntado sobre um imposto da Judeia

Este é o dado que falta em quase toda leitura do versículo, e ele muda a natureza da pergunta. O imposto por cabeça que Roma cobrava diretamente existia na Judeia porque a Judeia era província sob governador romano desde o ano 6. A Galileia não era. Ela era governada por Herodes Antipas, e os galileus pagavam a ele; era Antipas que acertava as suas contas com Roma. A administração desse tributo direto é assunto do versículo 19.

Jesus é da Galileia, e isso é dito desde o começo do evangelho. A pergunta que lhe fazem não é, portanto, sobre uma obrigação dele: é sobre a obrigação dos judeus da Judeia, entre os quais ele está hospedado naquela semana. Duas consequências saem disso.

A primeira é que não há saída pessoal. Não cabe dizer "eu pago" ou "eu não pago": qualquer resposta aqui é regra para terceiros. A segunda é que a pergunta tem forma de consulta a uma autoridade, e não de debate entre iguais — pergunta-se a um estranho sobre o dever dos locais, no templo deles, diante deles. É o que se pede a um juiz, e é por isso que o elogio do versículo anterior o declarou juiz antes de a pergunta ser feita.

O que era, no judaísmo do período, perguntar "é lícito?"

A fórmula é a forma técnica da consulta religiosa. Um mestre reconhecido era procurado para dizer se determinada coisa era permitida ou proibida, e a resposta não tinha força de lei — não havia polícia para executá-la nem pena para quem a ignorasse. Tinha força social, que às vezes é maior: decisão de mestre respeitado mudava comportamento e podia virar precedente.

Dois elementos agravam a situação da cena. O primeiro é o público: consulta feita em casa, entre alunos, é discussão; feita no pátio do templo diante de peregrinos vindos de todo o país, é declaração. O segundo é o verbo do pedido — eles não pedem decisão, pedem opinião, e opinião é atribuível a uma pessoa, sem a proteção que uma decisão técnica teria.

O argumento das Escrituras contra pagar, e o argumento a favor

A pergunta era séria porque as Escrituras podiam ser lidas nos dois sentidos, e eram.

Contra o pagamento havia Deuteronômio 17:15, que manda pôr sobre Israel um rei escolhido pelo SENHOR, dentre os irmãos, e proíbe pôr sobre si um estrangeiro. Quem lesse o imposto por cabeça como reconhecimento de senhorio encontrava ali base para recusar — e foi essa a leitura que levou gente a pegar em armas no primeiro recenseamento da Judeia, episódio registrado no estudo de Mateus 16:20.

A favor do pagamento havia uma tradição igualmente bíblica, nascida do exílio. Jeremias 27:8-12 manda, em nome de Deus, que Judá ponha o pescoço debaixo do jugo do rei da Babilônia e sirva a ele, e trata a resistência como rebelião contra Deus, não contra o rei. Jeremias 29:7 vai além e manda orar pela paz da cidade estrangeira em que o povo foi posto, "porque na paz dela vocês terão paz". Esdras 6:10 registra a ordem persa de oferecer orações pela vida do rei, e a comunidade a cumpriu. Nessa linha, obedecer ao poder estrangeiro não é traição: é a forma concreta de obedecer a Deus em tempo de submissão.

Daí decorre o essencial: não havia resposta oficial. O próprio texto sagrado alimentava as duas posições, e a pergunta formulada no pátio era a pergunta mais viva da província. Quem a faz não está inventando um caso de escola.

A semana escolhida

Há uma ironia de calendário que o evangelho não comenta. A festa daqueles dias é a Páscoa, memorial da saída do Egito — o fim de uma servidão a poder estrangeiro —, e a cidade está cheia de gente que atravessou o país para comemorar isso. É nessa semana que se pergunta em voz alta se é lícito pagar a cobrança por cabeça do poder estrangeiro que ocupa o país. Quem escolheu a pergunta escolheu também a plateia e a data.

Quem era César, naquele momento

O nome não designa uma pessoa em particular: "César" já era título. O imperador em exercício era Tibério, que governou de 14 a 37 e naquela altura vivia retirado em Capri, administrando o império por correspondência. O que ele era para um judeu da Judeia não dependia da sua biografia — dependia do cadastro, da alíquota e do governador. E o valor em jogo era pequeno: a estimativa corrente é de um denário por pessoa por ano, cerca de um dia de trabalho no campo, segundo o salário que Mateus 20:2 registra. A pergunta não era sobre dinheiro: era sobre o que o pagamento declara.

3. Análise Teológica do Versículo

"Dize-nos, pois"

Depois de quatro elogios, uma ordem. O verbo está no imperativo, e a partícula que o acompanha é a de conclusão: portanto. Isso amarra a exigência à lista de virtudes que acabou de ser recitada — já que és verdadeiro, já que ensinas o caminho de Deus, já que não calculas pela plateia, então diga. O elogio não era preâmbulo educado: era a premissa de um silogismo cuja conclusão é "fale".

E repare no "nos": eles não dizem "quero saber", dizem "diga-nos". A pergunta é apresentada como de um grupo, o que dá à consulta aparência de demanda coletiva e, ao mesmo tempo, dilui a responsabilidade de cada um dos presentes, porque ninguém assinou nada.

"o que achas?"

A fórmula é de pedido de juízo, e em Mateus ela tem uma distribuição estreita. No singular — dirigida a uma pessoa só — aparece duas vezes no evangelho: em Mateus 17:25, quando Jesus a usa com Pedro para abrir o raciocínio sobre reis e impostos, e aqui, quando a usam com ele sobre o imposto de César. A mesma fórmula, o mesmo assunto, as posições invertidas. Mateus não comenta a simetria.

O que ela pede, porém, é menos do que parece — e é aí que está a armadilha de forma. Eles não pedem uma decisão sobre a Lei, que seria "o que está escrito?" ou "o que se deve fazer?". Pedem o que lhe parece. E o que parece a alguém é opinião pessoal: não tem a cobertura de uma escola, não se apoia em precedente, não se discute em termos técnicos. É atribuível a um homem, e um homem pode ser denunciado.

"É lícito"

A palavra grega é a das discussões sobre a Lei — é a que aparece quando se pergunta se é lícito curar no sábado, em Mateus 12:10, ou repudiar a mulher, em Mateus 19:3. É palavra de permissão, e não de bondade: não pergunta se uma coisa é boa, pergunta se está autorizada. O que importa aqui é o que a forma da pergunta pressupõe.

Ela não pergunta se pagar é bom, prudente, inevitável ou tolerável. Pergunta se é permitido, e permitido tem exatamente dois valores: sim e não. A pergunta foi posta na única forma em que não há resposta intermediária possível. Não se pode responder "depende", porque licitude não admite grau; nem "em parte", porque um ato é permitido ou é proibido.

E o pedido de uma declaração de licitude pressupõe outra coisa, que ninguém enuncia: que exista uma autoridade competente para fazer essa declaração, e que o perguntado seja ela. Foi isso que o versículo anterior construiu. Chamaram-no de mestre, atribuíram-lhe o modo de ver de um juiz, e agora pedem a sentença.

"pagar tributo a César"

A tradução portuguesa usa "pagar", e o grego não. O verbo que eles escolhem é o de dar, entregar, pôr na mão de alguém. A diferença não é de estilo.

"Pagar" pressupõe dívida: quem paga quita algo que devia, e o ato é o reconhecimento de uma obrigação anterior. "Dar" não pressupõe nada. Um dom é transferência sem título prévio — e o que se dá a um estrangeiro sem lhe dever nada é tributo no sentido mais humilhante da palavra. Ao escolher o verbo de dar, os emissários descrevem o imposto como entrega, não como quitação. A frase deles já carrega, no vocabulário, a leitura de que aquele dinheiro não é de César.

Guarde o verbo. Na resposta do versículo 21, ele volta com um prefixo que o transforma — e é nessa transformação que a sentença sobre César e Deus se apoia.

Sobre o imposto em si, duas precisões. Não é a contribuição do templo, que é outro assunto e outra moeda. E o nome grego dele é uma palavra latina transcrita, o que diz de onde vinha a cobrança; o detalhe está analisado no estudo de Mateus 17:25.

"a César"

O nome é usado como título, e não como nome de pessoa. César era, na origem, o nome de família de Júlio César; com Augusto passou a integrar o nome dos imperadores, e no uso corrente das províncias virou simplesmente a palavra para "o imperador". Nos evangelhos é quase sempre assim que ele aparece: não há interesse biográfico nenhum no homem.

Isso tem um efeito sobre a pergunta. Ela não é sobre Tibério, com os seus defeitos e as suas decisões. É sobre o poder de Roma como instituição, personificado num nome que vale para qualquer ocupante do cargo. A resposta, qualquer que fosse, não ficaria restrita a um imperador.

"ou não?"

Os dois monossílabos finais são o fecho do instrumento, e não são enfeite retórico: o grego os traz explicitamente. A pergunta poderia ter terminado em "é lícito pagar tributo a César?", e admitiria uma resposta lateral. Com o "ou não" acrescentado, as alternativas ficam enunciadas e esgotadas pelo próprio enunciado — o perguntado está sendo convidado a escolher entre duas peças que já estão na mesa.

Os outros dois evangelhos conservam o mesmo fecho, o que mostra que ele pertencia à tradição e não é estilo de Mateus. Marcos 12:14 traz a forma mais insistente de todas, com o verbo repetido nas duas pontas — "devemos dar, ou não devemos dar?" —, e Lucas 20:22 acrescenta "a nós", transformando a consulta sobre o dever em geral em consulta sobre o dever dos próprios perguntadores.

O que a pergunta pressupõe, e que ninguém diz

Debaixo do "sim ou não" há uma suposição não enunciada, e sem ela a pergunta não funciona: a de que o devido a César e o devido a Deus estão na mesma balança, de modo que dar a um seja tirar do outro. É por isso que um "sim" seria traição e um "não" seria sedição; se as duas obrigações não estivessem na mesma escala, as duas respostas seriam compatíveis e não haveria armadilha. Essa suposição é a parte que a resposta do versículo 21 vai atacar, e o que cabe registrar aqui é que a armadilha depende de uma premissa silenciosa que ninguém no pátio enuncia.

Dois limites honestos

O primeiro: o texto não diz qual resposta eles queriam. Mateus informa que houve plano, no versículo 15, e que havia maldade, no versículo 18; não escreve que esperavam um "não" nem que esperavam um "sim". As duas respostas serviam a alguém da delegação, e é por isso que ela tinha duas metades — mas atribuir a um dos grupos uma preferência é leitura, não informação.

O segundo: a pergunta é boa. Não é uma pegadinha de lógica nem um absurdo montado. É a questão religiosa mais séria que um habitante da Judeia podia formular naquele ano, com apoio bíblico dos dois lados e sem resposta oficial. O que o evangelho condena não é o conteúdo da pergunta: é o fato de ela ter sido escolhida numa reunião, não numa dúvida.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Quem fala — Os discípulos dos fariseus e os herodianos, apresentados no versículo anterior. Falam como grupo — "dize-nos" — e nenhum deles é nomeado. Esta é a última fala deles: no versículo 18 Jesus os interrompe, e no 19 passa a dar ordens.

César — Título, não nome próprio. Na origem o nome de família de Júlio César, incorporado ao nome dos imperadores a partir de Augusto e usado nas províncias como sinônimo de "o imperador". O ocupante do cargo era Tibério, que governou de 14 a 37 e naquela altura vivia retirado em Capri.

O tributo da pergunta — O imposto direto por pessoa que Roma cobrava das províncias, calculado a partir de um registro de pessoas e bens; não é a contribuição do templo. Na Judeia existia desde o ano 6, quando o território passou a província sob governador romano.

A Galileia e a Judeia — Dois regimes fiscais distintos. A Galileia era governada por Herodes Antipas, e os galileus pagavam a ele. A Judeia estava sob governador romano, e os judeus da Judeia pagavam a Roma. Jesus é galileu: a pergunta é sobre a obrigação dos outros.

Deuteronômio 17:15 — O texto invocado por quem lia a recusa do tributo como dever religioso: manda pôr sobre Israel um rei dentre os irmãos e proíbe pôr sobre si um estrangeiro.

Jeremias e a tradição contrária — Jeremias 27 manda Judá servir ao rei da Babilônia e chama a resistência de rebelião contra Deus; Jeremias 29:7 manda orar pela paz da cidade estrangeira. As Escrituras sustentavam as duas posições.

O lugar e a data — O pátio do templo de Jerusalém, na semana da Páscoa, com a cidade cheia de peregrinos vindos para celebrar o fim de uma servidão a poder estrangeiro.

O que vem depois — No versículo 18, Jesus nomeia a intenção dos perguntadores antes de responder; no 19 pede a moeda; no 20 pergunta de quem é a imagem; no 21 dá a resposta. A pergunta deste versículo leva quatro versículos para ser respondida.

5. Pontos de Ensino

O "pois" liga o elogio à exigência. A partícula que abre a frase é de conclusão: já que ele é tudo o que acabaram de dizer, então que fale. O elogio do versículo anterior não era cortesia — era a premissa de um raciocínio cuja conclusão é uma ordem. Quando alguém encadeia virtudes e em seguida diz "portanto", o que vem é cobrança.

Pedem opinião, não doutrina. "O que achas" é fórmula de juízo pessoal, e juízo pessoal é atribuível a uma pessoa. Não pedem o que está escrito, nem o que a Lei decide: pedem o que ele acha. É a forma de pergunta que produz uma frase com dono.

A forma "é lícito" só admite duas respostas. A pergunta não é se pagar é bom, prudente ou tolerável — é se está permitido, e permissão não tem meio-termo. A armadilha está na forma antes de estar no conteúdo: foi escolhida a única formulação em que não cabe resposta intermediária.

O verbo é "dar", não "pagar". Pagar pressupõe dívida; dar não pressupõe nada. Ao dizer "dar tributo", eles já descrevem o imposto como entrega a quem não tem título — e é esse verbo que a resposta do versículo 21 vai retomar transformado.

Perguntam a um galileu sobre o dever dos judeus da Judeia. Ele não pagava aquele imposto, e por isso a pergunta não pede declaração de conduta própria: pede regra para terceiros, que é o que se pede a um juiz — a função que o elogio do versículo anterior lhe atribuiu.

A pergunta era legítima e tinha apoio bíblico dos dois lados. Deuteronômio 17:15 sustentava a recusa; Jeremias 27 e 29:7 sustentavam a submissão. Não havia resposta oficial, e isso é o que faz da questão uma armadilha utilizável. Pergunta sem resposta pacificada é a melhor pergunta para quem quer apanhar alguém.

A armadilha depende de uma suposição não dita. Ela só funciona se o que se deve a César e o que se deve a Deus estiverem na mesma balança, de modo que dar a um seja tirar do outro. Ninguém enuncia isso, e é justamente essa peça silenciosa que a resposta vai desmontar.

6. Aspectos Filosóficos

Existe pergunta que não pode ser respondida corretamente?

A intuição comum diz que não: toda pergunta bem formada tem resposta certa, e quem não a dá está fugindo. O versículo mostra um caso em que isso falha, e o instrumento que descreve esse tipo de pergunta com precisão não vem da teologia nem da retórica — vem da lógica.

Belnap: toda pergunta carrega uma afirmação escondida

Nuel Belnap (1930-2024, lógico norte-americano, professor na Universidade de Pittsburgh) construiu, com Thomas Steel, a primeira análise formal completa de perguntas e respostas, publicada em The Logic of Questions and Answers ("A Lógica das Perguntas e das Respostas", 1976) e antecipada num artigo de 1966 sobre pressuposições.

A ideia que organiza tudo é simples. Uma pergunta não é apenas um pedido: ela delimita de antemão um conjunto de respostas admissíveis — as respostas diretas. "Que horas são?" admite horas; "sim" não é resposta direta a ela. E esse recorte implica uma afirmação que a pergunta não enuncia e de que ela depende: a pressuposição, aquilo que precisa ser verdadeiro para que alguma das respostas diretas possa ser verdadeira.

Daí sai o conceito que interessa: uma pergunta é carregada quando a sua pressuposição é falsa. O exemplo clássico da literatura é "você já parou de bater na sua mulher?", que admite duas respostas diretas e condena quem escolher qualquer uma delas, porque as duas afirmam que ele batia. O ponto de Belnap é técnico e tem consequência moral: diante de uma pergunta carregada, a resposta correta não é uma resposta — é a recusa da pressuposição, e essa recusa não pertence ao conjunto das respostas diretas. Quem a dá está saindo do jogo que a pergunta montou, e não jogando mal.

O que isso faz com este versículo

A pergunta do pátio admite duas respostas diretas, "é lícito" e "não é lícito", e a sua pressuposição é a que o item 3 identificou: que a obrigação diante de César e a obrigação diante de Deus estão na mesma escala, de modo que atender a uma seja negar a outra. Sem essa afirmação escondida, nenhuma das duas respostas é condenatória.

E a resposta que vem no versículo 21 não é nenhuma das duas. Não é "sim" e não é "não": é uma repartição, que afirma simultaneamente duas obrigações em planos distintos. Na descrição de Belnap, isso tem um nome exato — é a recusa da pressuposição. Jesus não responde à pergunta; corrige-a. E é por isso que o texto registra, dois versículos adiante, que os perguntadores ficaram admirados e foram embora sem ter o que fazer com o que ouviram: eles tinham preparado o que fazer com um "sim" e o que fazer com um "não", e não receberam nem um nem outro.

A análise também explica por que a esquiva comum não funcionaria. Calar-se, dizer "não sei" ou mudar de assunto seriam modos de não responder sem tocar na pressuposição, e deixariam a afirmação escondida de pé, aceita por omissão. Recusar a pressuposição é diferente de recusar a pergunta: exige dizer onde ela erra.

Os limites

O primeiro é o de sempre: Belnap trabalha em lógica formal, em parte motivado por linguagens de consulta a bancos de dados e por semântica de línguas naturais. Evangelhos não estão no horizonte dele, e o aparelho dele não interpreta texto antigo.

O segundo é uma distinção que o aparelho não faz e o versículo exige: pergunta carregada não é o mesmo que pergunta maliciosa. Alguém pode formular pressuposição falsa de boa-fé, por estar enganado, e alguém pode fazer uma pergunta impecável com a pior das intenções. A falsidade da pressuposição é fato lógico; a má intenção é fato moral, e é esse que o versículo 18 nomeia. Os dois coincidem aqui, e não coincidem sempre.

O terceiro corta contra qualquer uso fácil disto. A lógica mostra que existem perguntas sem resposta direta correta; não mostra qual pressuposição é falsa em cada caso, nem o que pôr no lugar dela. Isso exige juízo de conteúdo, e é o juízo que a frase do versículo 21 fornece. Sem ele, a identificação formal da armadilha não salva ninguém: apenas explica, depois do fato, por que não havia saída pelas duas portas oferecidas.

7. Aplicações Práticas

Reconhecer a pergunta de duas portas

A aplicação mais útil deste versículo é defensiva e cabe em uma regra: antes de escolher entre as duas respostas que lhe oferecem, pergunte o que as duas têm em comum. "Você está do lado da empresa ou dos funcionários?" supõe que os interesses sejam opostos em tudo. "Você é a favor ou contra essa pessoa?" supõe que apoiar uma coisa dela seja aprovar todas. "Você prefere o seu pai ou a sua mãe?" supõe uma escala única onde há duas.

Em cada caso, a resposta útil não está entre as duas oferecidas: está na afirmação escondida que as sustenta. E a diferença entre recusar essa afirmação e simplesmente fugir é visível para quem assiste — quem foge muda de assunto, quem recusa diz onde a pergunta errou.

Não transformar opinião em sentença por pressão de plateia

O que eles pedem é "o que achas", em público, com testemunhas. A combinação é conhecida de quem já foi chamado a se posicionar numa reunião, num grupo de mensagens ou numa mesa de família: pede-se opinião, e a opinião dada ali passa a valer como posição definitiva. A resposta honesta e pouco usada é dizer que a pergunta, como foi posta, não tem resposta — e dizer por quê. Custa mais do que escolher um lado, e custa menos do que o lado escolhido.

Quando a Escritura sustenta as duas posições

A questão do tributo tinha base bíblica dos dois lados: Deuteronômio 17:15 para recusar, Jeremias 27 e 29:7 para submeter-se. Quem tinha o texto na mão não tinha a questão resolvida. A conclusão prática não é que a Escritura seja ambígua: é que encontrar um versículo favorável não é o mesmo que ter respondido, e que uma pergunta posta em termos de "sim ou não" pode ser a pergunta errada.

O que não dá para aplicar

Este versículo não contém posição sobre impostos, sobre obediência ao Estado nem sobre participação política. É uma pergunta, feita por adversários, que o texto declara mal-intencionada. Quem busca aqui doutrina sobre o dever civil está lendo a armadilha e não a resposta — e a resposta está quatro versículos adiante.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

De que imposto se trata?

Do tributo direto por pessoa que Roma cobrava das províncias, calculado sobre um registro de pessoas e bens. Não é a contribuição do templo, nem a taxa de circulação cobrada pelos publicanos nas estradas. A confusão entre as três desfaz a cena: só o primeiro tinha Roma como destinatária, e só ele levantava a questão de reconhecer senhorio.

Jesus pagava esse imposto?

Provavelmente não, e não por recusa: por geografia. Ele é galileu, e a Galileia era de Herodes Antipas; o imposto por cabeça cobrado diretamente por Roma era da Judeia. O texto não trata disso, e o dado importa porque mostra que a pergunta não é sobre o bolso dele. É um pedido de regra para terceiros.

Por que a pergunta não tinha resposta segura?

Porque as Escrituras sustentavam as duas posições e não havia autoridade capaz de encerrar a discussão. Deuteronômio 17:15 proíbe pôr um estrangeiro sobre Israel, e quem lia o registro romano como reconhecimento de senhorio tinha base para recusar. Jeremias 27 manda servir ao rei da Babilônia e chama a resistência de rebelião contra Deus, e Jeremias 29:7 manda orar pela paz da cidade estrangeira. As duas leituras eram defensáveis, e é essa indefinição que torna a pergunta utilizável como arma.

Por que eles pedem "o que achas" em vez de pedirem uma decisão?

Porque opinião tem dono. Uma decisão sobre a Lei se discute em termos técnicos, invoca precedentes, pertence a uma escola; o que alguém "acha" é dele, e pode ser repetido como declaração pessoal. A forma do pedido já visa a citação.

O "ou não" é acréscimo de Mateus?

Não. Os três evangelhos que trazem o episódio conservam o fecho binário: Marcos 12:14 traz a forma mais insistente, com o verbo repetido — "devemos dar, ou não devemos dar?" —, e Lucas 20:22 também termina com a alternativa. O detalhe pertencia à tradição, e não ao estilo de um evangelista.

A pergunta, em si, era desonesta?

A pergunta é boa; o motivo de quem a traz é que o texto condena. Era a questão religiosa mais séria da província naquele momento, e muita gente queria saber a resposta de verdade. O evangelho informa, no versículo 15, que esta não nasceu de dúvida: nasceu de reunião. É o único defeito que ele aponta nela.

Por que a resposta demora quatro versículos?

Porque ela não é dada no formato pedido. Jesus primeiro nomeia a intenção dos perguntadores, depois pede a moeda, depois faz uma pergunta e só então conclui. O percurso é longo porque a conclusão vai se apoiar numa admissão feita por eles próprios, e não numa opinião dele — o que desarma exatamente aquilo que a pergunta deste versículo procurava produzir.

9. Conexão com Outros Textos

A mesma fórmula, com as posições invertidas

Mateus 17:25 — "“Paga”, respondeu ele. Ao entrar em casa, Jesus foi o primeiro a falar: “O que você acha, Simão? De quem os reis da terra cobram tributos e impostos: dos seus próprios filhos ou dos outros?”"

É a única outra vez em que Mateus usa esta fórmula de pedido de juízo no singular, e o assunto é o mesmo. Lá Jesus pergunta sobre reis e impostos; aqui lhe perguntam.

As outras perguntas de licitude, na mesma boca

Mateus 12:10 — "Havia ali um homem com a mão atrofiada. E, para poderem acusá-lo, perguntaram a Jesus: 'É permitido curar no sábado?'"

A mesma palavra grega e o mesmo procedimento, que volta em Mateus 19:3: a pergunta sobre o que é permitido, feita com a finalidade declarada de acusar ou de testar.

O fecho binário nos outros evangelhos

Marcos 12:14 — "Mestre, sabemos que és verdadeiro e não te importas com ninguém, porque não olhas para a aparência das pessoas, mas ensinas o caminho de Deus conforme a verdade. É lícito dar tributo a César, ou não? Devemos dar, ou não devemos dar?"

Marcos duplica a alternativa, repetindo o verbo nas duas pontas. É a forma mais fechada das três.

Lucas 20:22 — "É lícito a nós dar tributo a César, ou não?"

Lucas acrescenta "a nós", que Mateus não tem — e com isso transforma a questão numa consulta sobre o dever dos próprios perguntadores.

O argumento das Escrituras contra pagar

Deuteronômio 17:15 — "Certamente porás sobre ti como rei aquele que o SENHOR, teu Deus, escolher; de entre os teus irmãos porás rei sobre ti; não poderás pôr sobre ti um estrangeiro, que não seja teu irmão."

O argumento das Escrituras a favor da submissão

Jeremias 27:12 — "E falei a Zedequias, rei de Judá, dizendo: Ponham o pescoço debaixo do jugo do rei da Babilônia, e sirvam a ele e ao seu povo, e vivam."

Jeremias 29:7 — "E busquem a paz da cidade para onde eu os levei cativos, e orem por ela ao SENHOR; porque, na paz dela, vocês terão paz."

Esdras 6:10 — "para que ofereçam sacrifícios de aroma agradável ao Deus do céu e orem pela vida do rei e dos seus filhos."

Orar e oferecer pelo rei estrangeiro era prática autorizada pelo próprio texto sagrado. Quem defendia o pagamento tinha onde se apoiar.

A resposta, quatro versículos adiante

Mateus 22:21 — "“De César”, responderam. Então ele lhes disse: “Deem, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.”"

Não é "sim" nem "não". É a recusa da escala única que a pergunta deste versículo pressupõe.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Dize-nos, pois: o que achas? É lícito pagar tributo a César, ou não?”

Texto grego (Textus Receptus)

Εἰπὲ οὖν ἡμῖν, τί σοι δοκεῖ; Ἔξεστιν δοῦναι κῆνσον Καίσαρι, ἢ οὔ;

Transliteração

eipe oun hēmin, ti soi dokei? exestin dounai kēnson Kaisari, ē ou?

Análise palavra por palavra

εἰπὲ (eipe) — "diga". Aoristo do imperativo de legō, segunda pessoa do singular. O grego distinguia dois imperativos: o presente manda manter ou repetir uma ação, o aoristo manda praticá-la uma vez, de modo pontual e completo. Eles usam o aoristo — não pedem que ele discorra sobre o assunto, pedem uma declaração fechada. É o imperativo de quem quer uma frase, não uma aula.

οὖν (oun) — "pois", "portanto". Partícula de conclusão, em segunda posição na frase. Ela não emenda nem transita: apresenta a ordem como consequência do que foi dito antes. Diante do elogio do versículo anterior, isso tem efeito de silogismo — dadas aquelas qualidades, a conclusão é que ele deve falar.

τί σοι δοκεῖ (ti soi dokei) — "o que te parece". Construção impessoal de dokeō, "parecer, ter aparência, ser de opinião" — o verbo da família que dá doxa, "opinião", e dogma, a decisão formulada. A fórmula pede um juízo, e não uma informação.

No Evangelho de Mateus a fórmula no singular aparece duas vezes: aqui e em Mateus 17:25, onde é Jesus quem a usa com Pedro, sobre o mesmo assunto. No plural, ela abre os argumentos por comparação de Mateus 18:12, 21:28 e 22:42. O exame dessa distribuição pertence ao estudo de Mateus 17:25.

ἔξεστι (exesti) — "é lícito". Verbo impessoal, formado de ek, "para fora de", mais o verbo ser: literalmente, algo como "está liberado", "há saída". É a palavra técnica das discussões sobre a Lei, e dela vem exousia, a autoridade — aquilo que é lícito a alguém, e por extensão o direito de exercê-lo.

O que a palavra pergunta importa: não se é bom, não se é prudente, não se é conveniente — se é permitido. E permissão não tem grau: um ato é autorizado ou é proibido.

δοῦναι (dounai) — "dar". Aoristo do infinitivo de didōmi, "dar, entregar, conceder". Este é o dado de vocabulário mais consequente do versículo, e a tradução portuguesa o apaga.

O grego tinha verbos próprios para pagar: teleō, "cumprir, levar a termo", que é o de quitar uma obrigação e aparece em Mateus 17:24, na pergunta sobre o imposto do templo. Nenhum deles está aqui. Eles escolheram o verbo de dar, que não pressupõe dívida: dá-se o que não se deve.

A escolha carrega, portanto, uma descrição do imposto. Não é quitação de débito, é entrega de algo a quem não tem título sobre ele — e essa é precisamente a leitura que fazia da cobrança um escândalo religioso. O aoristo do infinitivo vê o ato como um todo, sem duração nem repetição: não "estar pagando ano após ano", mas "dar". E este verbo volta no versículo 21, com um prefixo que lhe muda o sentido: é ali que está o eixo de toda a resposta.

κῆνσον (kēnson) — "tributo". Acusativo de kēnsos, que é a palavra latina census transcrita em letras gregas: o recenseamento e, por extensão, o imposto calculado sobre ele. A presença de um termo latino no meio de uma frase grega mostra de onde vinha a cobrança. No Novo Testamento a palavra aparece em quatro lugares — Mateus 17:25, este versículo, Mateus 22:19 e Marcos 12:14 —, sempre ligada a reis e ao imperador.

Καίσαρι (Kaisari) — "a César". Dativo de destinatário, sem artigo, tratado como nome próprio, embora a palavra já funcionasse como título nas províncias.

ἢ οὔ (ē ou) — "ou não". A conjunção ē é a disjuntiva, "ou"; ou é a negação, escrita com acento por estar no fim da frase. O acréscimo transforma a pergunta numa questão de dupla alternativa, com as duas opções explicitamente enunciadas.

Dois pontos sobre essa forma. O primeiro: a negação escolhida é ou, e não mē. O grego usava mē em perguntas que já esperavam resposta negativa, e ou quando a questão é de fato — de modo que a pergunta, formalmente, não pende para nenhum dos lados. É um binário neutro, e é essa neutralidade aparente que a torna eficaz: ela não denuncia a intenção de quem pergunta. O segundo: o fecho não é invenção de Mateus, porque Marcos e Lucas também o conservam nos lugares paralelos.

Variantes

Há uma diferença, e ela é de forma verbal. O Textus Receptus e o texto bizantino majoritário trazem eipe, que é o imperativo aoristo normal; as edições críticas trazem eipon, uma forma do mesmo imperativo construída com terminação de primeiro aoristo sobre a raiz do segundo. É uma forma tardia, do grego popular do período, e os editores críticos a preferem pela regra de que a leitura mais difícil costuma ser a original — um copista tenderia a corrigir eipon para a forma regular, não o contrário. O sentido é idêntico nas duas: "diga". Nenhuma outra diferença de consequência existe no versículo.

O material de comparação está nos paralelos: Marcos 12:14 repete o verbo na segunda alternativa e Lucas 20:22 introduz o "a nós", transformando a consulta sobre o dever em geral numa consulta sobre o dever dos próprios perguntadores.

11. Conclusão

Do que foi examinado saem quatro conclusões.

A primeira é que a pergunta não é sobre o bolso de quem responde. O imposto por cabeça cobrado diretamente por Roma era da Judeia, e o perguntado é galileu. Daí decorre que não havia saída pessoal: qualquer resposta seria uma regra para terceiros, dita por um estranho no templo deles, diante deles. É o que se pede a um juiz — e foi juiz que o elogio do versículo anterior o declarou.

A segunda é que a forma da pergunta faz metade do trabalho da armadilha. O imperativo é o do ato único, a fórmula pede opinião e não decisão, o verbo de licitude só admite dois valores, e o "ou não" enuncia e esgota as alternativas. Conclui-se que não era preciso um assunto difícil para prender alguém: bastaria essa forma. O assunto difícil é que torna as duas respostas caras.

A terceira é sobre um verbo que a tradução esconde. Eles não dizem "pagar", dizem "dar", e dar não pressupõe dívida: a escolha descreve o imposto como entrega a quem não tem título sobre o dinheiro, que era a leitura dos que recusavam a cobrança. A pergunta não é neutra no vocabulário, mesmo sendo formalmente neutra na construção.

A quarta é que a armadilha repousa sobre uma afirmação que ninguém enuncia: a de que o devido a César e o devido a Deus estão na mesma balança, de modo que atender a um seja negar o outro. Sem ela, nenhuma das duas respostas condena quem a der. Conclui-se que a pergunta deste versículo não tem resposta correta entre as duas que oferece — e que o caminho que resta não é escolher melhor, é recusar a peça silenciosa. É o que acontece quatro versículos adiante, e é por isso que a resposta não chega na forma de um sim nem de um não.

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Mateus 22:17

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