Mas o que acham? Um homem tinha dois filhos. Chegando ao primeiro, disse: ‘Filho, vá trabalhar hoje na minha vinha.’
1. Introdução
Jesus acaba de recusar uma resposta aos chefes dos sacerdotes e, na mesma fala, começa uma história: um pai, dois filhos e uma ordem de uma linha só.
O pai vai até o primeiro filho e o chama com a palavra grega mais afetuosa para "filho", não com a de quem dá ordem a um empregado.
A ordem é curta e tem prazo: trabalhar hoje, e na vinha que é dele.
Os homens que acabaram de dizer "não sabemos" sobre João Batista são convidados a dar uma opinião, e a opinião que derem vai julgá-los.
2. Contexto Histórico e Cultural
Quem ouviu a parábola sabia quem trabalhava numa vinha de família: a própria família. O assalariado entrava na colheita e nos picos de serviço; no resto do ano, a mão de obra era a casa — o pai, os filhos, às vezes as filhas, e os escravos de quem os tinha.
Os filhos como a mão de obra da casa
O Cântico dos Cânticos guarda uma frase que mostra isso de passagem. A moça explica por que está queimada de sol: "Os filhos da minha mãe se irritaram comigo e me puseram para guardar as vinhas; a minha própria vinha eu não guardei" (Cântico 1:6, tradução nossa). Os irmãos distribuem o serviço da vinha entre os de casa, e a irmã vai porque foi mandada. Ninguém fala de pagamento.
A Mishná (a primeira compilação escrita da lei oral judaica, por volta do ano 200) mostra a mesma lógica pelo lado jurídico. No tratado Bava Metzia 1:5, a regra sobre objetos achados diz que o que o filho ou a filha menores encontram pertence ao pai, assim como o que encontram o escravo, a serva e a esposa. O filho que ainda vivia sob o pai não tinha economia separada: o que ele achava, e o que o seu trabalho produzia, entrava na casa.
É esse o quadro que a parábola pressupõe. O filho não recebe proposta de diária. Recebe uma ordem, e a ordem não promete nada, porque o trabalho do filho na vinha do pai era trabalho para a própria casa.
Pai e filho no mesmo contrato
Um papiro achado em Oxirrinco, no Egito, mostra como isso funcionava no chão. É o papiro de Oxirrinco 1631, do ano 280 depois de Cristo. Três homens propõem ao dono de uma vinha na aldeia de Tânais renovar por mais um ano o contrato de cultivo — e dois deles são pai e filho, Aurélio Ctisto e o seu filho Aurélio Ptolomeu. Trabalham juntos, assinam juntos e recebem juntos, em dinheiro, trigo e vinho.
O mesmo papiro lista o serviço do ano: colher, juntar e carregar caniços, cortar lenha, transportar folhas, plantar mudas de videira, cavar. A vinha não pedia gente só na vindima. Pedia gente quase todo dia, e é por isso que a ordem "vá trabalhar hoje" não precisa dizer que tarefa é. Qualquer dia do ano havia o que fazer.
O limite da comparação precisa ficar claro: o papiro é egípcio, dois séculos e meio posterior a Jesus, e trata de trabalhadores contratados por um terceiro. Ele não descreve a Galileia. Mostra o que se pode afirmar com segurança: que pai e filho como equipe de trabalho de vinha eram coisa corrente no mundo de língua grega, e que o trabalho da vinha se espalhava pelo ano inteiro.
A vinha do pai é a herança dos filhos
Uma vinha não era bem que se comprasse e vendesse com facilidade. As videiras levavam anos para produzir, e a terra de família passava de pai para filho. O filho que trabalhava na vinha do pai trabalhava naquilo que um dia seria dele. A parábola de Lucas tem uma frase que diz isso em voz alta, na boca do pai ao filho mais velho: "tudo o que é meu é seu" (Lucas 15:31).
Isso muda o peso da recusa que vem no versículo seguinte. Dizer "não quero" a um patrão é recusar um serviço. Dizer "não quero" ao pai, sobre a vinha da família, é recusar a parte que cabe ao filho no sustento da própria casa.
3. Análise Teológica do Versículo
“Mas o que acham?”
O versículo anterior terminou numa recusa: "Nem eu digo a vocês com que autoridade faço estas coisas." O "mas" que abre este versículo mostra que a conversa não acabou ali. Jesus se recusou a responder à pergunta deles, mas não se recusou a continuar falando. Ele troca a resposta direta por uma história.
E a quem ele pede opinião? Aos mesmos homens que, um instante antes, disseram "não sabemos" sobre João Batista. Eles tinham se declarado incapazes de julgar. Agora são chamados a julgar de novo, desta vez um caso de família, sem nome de profeta e sem multidão por perto. A pergunta sobre João eles puderam calcular; um caso de dois filhos parece não ter risco nenhum. É por isso que, no versículo 31, eles vão responder na hora.
“Um homem tinha dois filhos.”
A frase é a mesma, quase palavra por palavra, que abre a parábola do filho pródigo em Lucas 15:11: "Um homem tinha dois filhos." Nos dois casos há um filho que diz não ao pai e depois volta atrás, e outro que fica perto e não entra no que o pai quer. Jerônimo (padre da Igreja do século IV, tradutor da Bíblia latina) já aproximava as duas parábolas no seu comentário a Mateus.
As diferenças, porém, são grandes. Em Lucas, o filho mais novo sai de casa, gasta a herança e volta por fome; aqui, o primeiro filho não sai de lugar nenhum, só demora a obedecer. Em Lucas, o mais velho fica em casa trabalhando e se recusa a entrar na festa; aqui, o segundo filho promete trabalhar e não vai. E Lucas usa para "filhos" a palavra mais formal do grego, a do filho como herdeiro; Mateus usa a palavra do laço de nascimento (item 10). É provável que as duas histórias venham de um mesmo tipo de parábola sobre dois filhos, que circulava em versões diferentes; não é possível decidir se uma depende da outra. A parábola dos dois filhos, do jeito que está aqui, só existe em Mateus.
“Chegando ao primeiro, disse”
O pai vai até o filho. Não manda chamar, não convoca os dois para uma reunião, não dá a ordem em público. Fala com o primeiro, e depois, separadamente, com o segundo. São duas conversas a sós.
O detalhe tem consequência para o resto da história. Nada no texto indica que um filho ouviu a resposta do outro. Cada um responde por si, diante do pai, sem plateia — e por isso a resposta de cada um não pode ser explicada como pose diante do irmão. A leitura que vê no "Eu vou" do segundo filho uma comparação orgulhosa com o primeiro precisa supor que ele sabia da recusa, e o texto não diz isso.
"Primeiro" aqui é ordem de visita, não necessariamente ordem de nascimento. O texto não diz que é o primogênito, e a parábola não usa nenhum dos direitos do primogênito.
“‘Filho,”
O pai não diz o nome do filho nem dá ordem seca. Começa por um vocativo de afeto. Meyer (Heinrich Meyer, comentarista alemão do século XIX) observa que a palavra escolhida sugere o amor do pai; a Bíblia de Cambridge (série de comentários da universidade inglesa) tira a consequência: os dois são filhos, e o pai se importa com os dois.
Em todo o Evangelho de Mateus, essa forma de chamar alguém de "filho" só aparece mais uma vez, na boca de Jesus, para o paralítico que lhe trazem deitado numa cama: "Tenha bom ânimo, filho" (Mateus 9:2). Nos dois lugares, quem fala tem autoridade sobre quem ouve — Jesus perdoa pecados, o pai dá uma ordem —, e nos dois a autoridade chega vestida de ternura.
O contraste com o que vem depois é deliberado. O pai chama de "filho"; o segundo filho vai responder "senhor" (Mateus 21:30). O pai fala como pai; um dos filhos responde como empregado.
“vá trabalhar hoje”
São dois verbos, e o grego os separa mais do que o português: "vá" e "hoje trabalhe". Na pontuação do Textus Receptus (a edição grega que a ABC segue), há uma vírgula entre os dois, e o "hoje" cai na frente do segundo verbo, como quem diz: vá — e é hoje que você vai trabalhar.
O "hoje" é a palavra que dá pressa à ordem. O pai não pede ajuda para a próxima estação nem marca data: o serviço é do dia que já começou. Mateus usa a palavra poucas vezes, e duas delas no Sermão do Monte: o pão "de cada dia" pedido "hoje" (Mateus 6:11), e a erva do campo que "hoje existe e amanhã é lançada no forno" (Mateus 6:30). Em Mateus, hoje é o tempo em que se vive; amanhã não está na mão de ninguém.
Dentro do debate em que a parábola foi contada, o "hoje" tem um alvo possível. No versículo 32, Jesus vai dizer que João veio aos chefes "pelo caminho da justiça" e eles não creram. O "hoje" da parábola corresponde, nessa leitura, ao tempo em que João pregava — um tempo que já passou para os ouvintes. É uma leitura plausível, que o versículo 32 sustenta, mas Jesus não faz a equivalência por extenso.
O verbo de trabalhar está numa forma que descreve atividade em andamento, não tarefa pontual: "esteja trabalhando", "passe o dia trabalhando". O pai não pede um serviço; pede o dia.
E a ordem não traz recompensa, nem prazo de pagamento, nem explicação. O pai não diz por que precisa, quanto trabalho há, nem o que acontece se o filho não for. Pede porque é pai.
“na minha vinha.’”
O "minha" está no Textus Receptus e no texto bizantino; as edições críticas modernas não o trazem e dizem só "na vinha" (item 10). A diferença parece pequena e não é: com o possessivo, a vinha deixa de ser um lugar de trabalho e passa a ser a propriedade do pai — e, portanto, a herança dos filhos (item 2). Quem recusa recusa a vinha da própria casa.
Na Bíblia hebraica, a vinha é uma das imagens de Israel. Isaías 5:7 diz com todas as letras que "a vinha do SENHOR dos Exércitos é a casa de Israel". Os ouvintes de Jesus, chefes do templo e anciãos do povo, conheciam a imagem, e a parábola seguinte, a dos lavradores, vai explorá-la por inteiro. Nesta, porém, a vinha fica no fundo: o que está em jogo é a resposta dos filhos, não a vinha.
O que o versículo não diz
A parábola não diz que o pai é Deus. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) e o Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) dizem que é, e a aplicação dos versículos 31 e 32, que fala da "vontade do pai" e de João, torna a leitura natural. Mas a história, como história, se sustenta sozinha: qualquer ouvinte entende um pai e dois filhos antes de entender qualquer alegoria. É por isso que ela funciona como armadilha. Os chefes julgam o caso de família e só depois descobrem de quem estavam falando.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Pessoas
O homem, pai de dois filhos. Não tem nome, idade nem ofício declarado. Tem uma vinha e autoridade para mandar nos filhos. Ao longo da parábola ele fala uma única frase, repetida duas vezes, e não reage a nenhuma das respostas. É um pai que pede e depois sai de cena.
Os dois filhos. O primeiro é quem o pai procura antes; o segundo, quem procura depois. O texto não os descreve, não diz a idade e não diz se um é mais velho. Cada um será definido inteiramente pela distância entre o que diz e o que faz (Mateus 21:29-30).
Os ouvintes. A parábola é contada aos chefes dos sacerdotes e aos anciãos do povo, os mesmos que perguntaram a Jesus com que autoridade ele agia (Mateus 21:23). No versículo 45, Mateus acrescenta os fariseus aos que ouviram as parábolas e "entenderam que era deles que ele falava".
Os que a parábola vai nomear. Os cobradores de impostos e as prostitutas, que Jesus traz para a cena no versículo 31, e João Batista, que ele nomeia no versículo 32. Nenhum deles está na história; todos estão na aplicação.
Lugares
O templo de Jerusalém. A conversa acontece no pátio do templo, onde Jesus ensinava quando foi interpelado (Mateus 21:23). É o mesmo dia do debate sobre a autoridade, sem mudança de cena.
A vinha. Lugar da história, não da conversa. É uma vinha de família, de propriedade do pai — o que o texto marca com o "minha".
Eventos
O debate sobre a autoridade. A parábola nasce dentro dele. Os chefes perguntaram de onde vinha a autoridade de Jesus; ele perguntou de onde vinha o batismo de João; eles disseram "não sabemos"; ele se recusou a responder. A parábola continua o mesmo assunto por outro caminho.
A primeira de três parábolas. Seguem-se, sem interrupção, a dos lavradores maus (Mateus 21:33-44) e a da festa de casamento (Mateus 22:1-14), todas dirigidas às autoridades de Jerusalém. A dos dois filhos é só de Mateus.
5. Pontos de Ensino
Quem recusa julgar acaba julgado pela própria sentença
Os chefes acabaram de dizer "não sabemos" para não se comprometer com João. A parábola os coloca de novo na cadeira de juiz, agora sem perceber o risco. A recusa de opinar sobre um caso real não os livra de opinar sobre um caso imaginário — e o caso imaginário era o real disfarçado.
O chamado vem de um pai, não de um patrão
O pai não contrata, não negocia e não promete pagamento. Chama de "filho". O que ele pede é parte da vida da casa, e não uma troca. Isso põe a obediência em outro registro: não é cumprimento de contrato, é resposta a um vínculo.
A ordem tem data
"Hoje" não é detalhe. O pai não pede disposição geral para trabalhar um dia; pede o dia de hoje. Uma resposta que adia já é uma forma de recusa, e a parábola inteira vai girar em torno de quem foi naquele dia.
O trabalho é na vinha que um dia será dos filhos
O "minha" do pai não afasta os filhos da vinha; inclui. Quem trabalha ali trabalha no que vai herdar. A recusa, por isso, não é só desobediência: é desinteresse pelo que é seu.
A história vem antes da aplicação
Jesus conta um caso que qualquer pessoa entende sem conhecer teologia nenhuma — um pai, dois filhos, uma vinha. Só depois diz de quem estava falando. O ouvinte forma o juízo antes de saber que ele próprio está no caso, e por isso não tem como se defender do juízo que formou.
6. Aspectos Filosóficos
O pai poderia ter dito "você aí" ou "trabalhador". Disse "filho". Antes de pedir qualquer coisa, ele diz quem a pessoa é para ele. A pergunta filosófica que a frase levanta é esta: uma ordem dirigida a alguém por quem ele é vale o mesmo que uma ordem dirigida a uma função?
Julián Marías: a pessoa é "alguém", não "algo"
Julián Marías (1914-2005), filósofo espanhol, discípulo de Ortega y Gasset, passou a vida tentando pensar a pessoa sem reduzi-la a coisa. Na Antropologia metafísica (1970) e depois em Pessoa (1996), ele sustenta que o ser humano não responde à pergunta "o que é?" — a pergunta que se faz a uma pedra, a um animal, a uma máquina —, mas à pergunta "quem é?". Uma coisa se descreve por propriedades; uma pessoa é "alguém", e só se deixa alcançar quando é tratada como alguém.
O vocativo do versículo é um caso exemplar dessa diferença. "Trabalhador, vá à vinha" trata o ouvinte pelo que ele faz; qualquer outro trabalhador serviria. "Filho, vá à vinha" trata o ouvinte por quem ele é, e ninguém mais pode ocupar o lugar. A ordem é a mesma; o destinatário não é. Por isso a recusa de um filho não se resolve contratando outro: a parábola mostra o pai indo ao segundo filho, não à praça.
A vida como orientação para o futuro
Marías tinha uma palavra para o traço da vida humana de estar sempre voltada para adiante: a vida é futuriza (palavra que ele criou em espanhol: "voltada para o futuro"). Não vivemos no presente como num ponto parado; vivemos projetados, antecipando o que vamos fazer. Ao mesmo tempo, estamos sempre "instalados" — num corpo, numa idade, numa família, num lugar — e é a partir dessa instalação que nos projetamos. Ele chamou isso de instalação "vetorial": estar em algum lugar já com uma direção.
O "hoje" do pai cai exatamente nesse cruzamento. O filho está instalado numa casa que tem uma vinha, e a vinha é o futuro dele, a herança. O pai pede que o filho ponha o dia de hoje a serviço desse futuro. A ordem não é arbitrária na estrutura da vida do filho: é um convite para que ele viva para onde a própria casa aponta.
Vocação e ocupação
Marías, como o mestre, distinguia a vocação — o chamado a ser determinada pessoa — das ocupações que alguém exerce. Uma ocupação se troca; uma vocação, não, porque está ligada a quem se é. O pai do versículo não oferece emprego; chama um filho a fazer o que um filho da casa faz. É por isso que a resposta de cada filho, nos versículos seguintes, vai revelar não a disposição para o trabalho, mas a relação de cada um com quem chamou.
O limite da comparação
Marías escreveu como filósofo cristão e via no cristianismo a revelação mais alta da condição pessoal. Mas a leitura acima não depende disso, e o versículo não faz teoria da pessoa. O que se pode afirmar é mais modesto: o texto escolheu o vocativo de afeto quando tinha à mão o de comando, e essa escolha coloca a ordem no plano do "quem" e não do "quê". O que Marías oferece é a linguagem para dizer por que isso importa — e para entender por que, no versículo 30, a resposta "senhor" soa fora do lugar.
7. Aplicações Práticas
Quando o pedido vem com o nome do vínculo
O pai chama de "filho" antes de pedir. Em casa, no trabalho, numa comunidade, a forma como se chama alguém antes de pedir algo muda o que o pedido é. "Preciso de você" e "preciso de alguém" não são a mesma frase. Quem pede pode lembrar disso; quem é chamado pode perceber que, quando o pedido vem pelo vínculo, a resposta também fala do vínculo, e não só da tarefa.
O "hoje" não se transfere
A ordem tem data. Há pedidos que só existem no dia em que são feitos: a visita ao doente, a ajuda na mudança, a conversa difícil, o trabalho que a família precisa naquela semana. Aceitar "em princípio" e deixar para depois é, na prática, não ir. O versículo não faz disso uma regra geral sobre urgência; ele só mostra que o pedido do pai era para aquele dia.
O trabalho no que é nosso
A vinha é do pai e será dos filhos. Muita gente trabalha com dedicação no que é dos outros — o emprego, o cliente — e com descaso no que é seu: a casa, a família, a comunidade a que pertence. A parábola põe o trabalho justamente no lugar em que não há patrão cobrando nem salário no fim do dia.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
1. Por que o pai não explica para que precisa do filho na vinha?
Porque a parábola não está interessada no serviço, e sim na resposta. Se o pai justificasse a ordem — a colheita atrasada, a chuva que vem —, a recusa do primeiro filho poderia ser lida como discordância sobre a necessidade, e a promessa do segundo, como concordância com o argumento. Sem justificativa, sobra só a relação: o pai pediu, e cada filho responde ao pai. É a mesma secura de Mateus 20:4, onde o dono promete "o que for justo" sem dizer quanto.
2. O "primeiro" filho é o mais velho?
O texto não diz. "Primeiro" e "segundo" são a ordem em que o pai os procura. Nenhum direito de primogenitura entra na história, e a parábola não depende de quem nasceu antes. Quem ouvia, no entanto, tinha na memória as histórias bíblicas em que o mais novo passa à frente do mais velho, e é provável que esperasse alguma inversão desse tipo — que de fato vem, mas entre o que cada filho diz e o que faz.
3. Por que Jesus conta uma parábola logo depois de dizer que não vai responder?
Porque a recusa foi à pergunta sobre a autoridade dele, não ao debate. Os chefes não quiseram dizer de onde vinha João; Jesus não diz de onde vem a sua autoridade. Mas a parábola mostra o que a resposta deles revelava: que eles eram como quem diz sim e não vai. A história faz o que a resposta direta não podia fazer sem virar acusação aberta — leva os ouvintes a se condenar com a própria boca.
9. Conexão com Outros Textos
A outra parábola que começa igual
Lucas 15:11-12 — "Disse ainda: Um homem tinha dois filhos. O mais novo deles disse ao pai: Pai, dê-me a parte dos bens que me cabe."
Tradução livre a partir do Textus Receptus. A mesma abertura, com a palavra grega do filho herdeiro. E o filho de Lucas, ao contrário do segundo filho de Mateus, chama o pai de "Pai".
Lucas 15:31 — "Ele lhe disse: Filho, você está sempre comigo, e tudo o que é meu é seu."
O mesmo vocativo afetuoso de Mateus 21:28, dito ao filho que se recusa a entrar. E a frase que explica por que a vinha "minha" do pai é também dos filhos.
O outro "filho" de Mateus
Mateus 9:2 — "E eis que lhe trouxeram um paralítico, deitado numa cama. Vendo Jesus a fé deles, disse ao paralítico: Tenha bom ânimo, filho; os seus pecados estão perdoados."
A única outra vez em Mateus em que alguém é chamado assim. Lá, o vocativo antecede um perdão; aqui, uma ordem.
O "hoje" em Mateus
Mateus 6:11 — "O pão nosso de cada dia dá-nos hoje."
Mateus 6:34 — "Portanto, não fiquem ansiosos pelo dia de amanhã, porque o amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu próprio mal."
Em Mateus, o dia é a unidade da vida diante de Deus: o pão é pedido para hoje, a preocupação é deixada para amanhã. A ordem do pai segue a mesma medida — o trabalho é pedido para hoje.
Hebreus 3:13 — "Mas exortem-se uns aos outros todos os dias, enquanto se diz 'hoje', para que nenhum de vocês se endureça pelo engano do pecado."
Tradução livre a partir do Textus Receptus. A carta lê o "hoje" do Salmo 95:7 como o tempo aberto da resposta. É o uso cristão mais explícito da palavra como prazo de decisão.
A vinha
Isaías 5:7 — "Porque a vinha do SENHOR dos Exércitos é a casa de Israel, e os homens de Judá são a planta das suas delícias; esperou juízo, e eis opressão; justiça, e eis clamor."
Tradução nossa do hebraico. A identificação que a parábola seguinte vai explorar. Nesta, a vinha fica em segundo plano.
Mateus 20:2 — "Ele fez um acordo com os trabalhadores de um denário pelo dia e os enviou para a sua vinha."
A outra vinha de Mateus, com pagamento combinado e gente de fora. A palavra "vinha" e o seu sentido estão no estudo de Mateus 20:1.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Mas o que acham? Um homem tinha dois filhos. Chegando ao primeiro, disse: ‘Filho, vá trabalhar hoje na minha vinha.’
Texto grego (Textus Receptus, Scrivener 1894)
Τί δὲ ὑμῖν δοκεῖ; Ἄνθρωπος εἶχε τέκνα δύο, καὶ προσελθὼν τῷ πρώτῳ εἶπε, Τέκνον, ὕπαγε, σήμερον ἐργάζου ἐν τῷ ἀμπελῶνί μου.
Transliteração
Ti de hymin dokei? Anthrōpos eiche tekna dyo, kai proselthōn tō prōtō eipe, Teknon, hypage, sēmeron ergazou en tō ampelōni mou.
Diferenças entre as edições
São três, e a primeira afeta o sentido.
O Textus Receptus (a edição grega impressa no século XVI que a ABC segue) e o texto bizantino terminam com mou, "minha": "na minha vinha". As edições críticas modernas — Westcott e Hort, Nestle, a SBL — não trazem o pronome e dizem apenas "na vinha". Com o possessivo, a vinha é explicitamente propriedade do pai, e o pedido passa a ser trabalho na casa; sem ele, o leitor tem de deduzir isso do contexto. A ABC segue o Textus Receptus.
As edições críticas também não têm o kai, "e", antes de "chegando": abrem uma frase nova depois de "dois filhos". E a pontuação muda: o Textus Receptus põe vírgula depois de hypage ("vá, hoje trabalhe"), o que dá ao "hoje" um peso próprio; as edições críticas leem tudo de uma vez ("vá hoje trabalhar"). A pontuação não está nos manuscritos antigos — é decisão dos editores.
Análise palavra por palavra
Τί δὲ ὑμῖν δοκεῖ; — ti de hymin dokei?, "mas o que parece a vocês?". De é a partícula que liga e contrasta ao mesmo tempo; aqui, prende a pergunta à recusa do versículo 27. A fórmula ti hymin dokei, com o verbo dokeō ("parecer, julgar"), aparece também em Mateus 17:25 e 18:12, e é nesses estudos que ela está analisada.
Ἄνθρωπος — anthrōpos, "homem", ser humano. Sem artigo e sem nome: um homem qualquer. Algumas edições gregas posteriores acrescentam tis, "um certo homem", como em Lucas 15:11; o Textus Receptus não traz.
εἶχε — eiche, "tinha". Imperfeito de echō, "ter". O imperfeito descreve um estado que dura, o fundo da cena: o homem tinha dois filhos, sempre teve.
τέκνα δύο — tekna dyo, "dois filhos". Tekna é o plural de teknon, a palavra do filho pelo laço de nascimento (ligada ao verbo que significa "gerar"), sem distinguir idade nem sexo. Lucas 15:11 usa huious, a palavra do filho como herdeiro e portador do nome da família. Mateus escolheu a mais doméstica das duas.
καὶ προσελθὼν — kai proselthōn, "e, tendo-se aproximado". Particípio aoristo de proserchomai, "ir até, aproximar-se". O verbo põe o pai em movimento: ele vai até o filho.
τῷ πρώτῳ — tō prōtō, "ao primeiro". Dativo de prōtos, "primeiro". É ordinal de sequência; não é a palavra técnica de primogênito (prōtotokos), que o texto não usa.
Τέκνον — teknon, "filho!". No neutro, o vocativo tem a mesma forma do nominativo; é o contexto que mostra que se trata de chamamento. Como chamamento, a palavra aparece oito vezes no Novo Testamento: aqui; Mateus 9:2 e Marcos 2:5, para o paralítico; Lucas 2:48, Maria a Jesus; Lucas 15:31, o pai ao filho mais velho; Lucas 16:25, Abraão ao rico; e 1 Timóteo 1:18 e 2 Timóteo 2:1, Paulo a Timóteo. Em todas, quem chama tem autoridade e fala com afeto.
ὕπαγε — hypage, "vá". Imperativo presente de hypagō, verbo formado de hypo ("sob") e agō ("conduzir"), que no grego do período significa simplesmente "ir, ir-se, partir". Em Mateus é o verbo das ordens curtas de Jesus — "Vá embora, Satanás" (Mateus 4:10), "pegue o que é seu e vá" (Mateus 20:14). É imperativo de despacho: quem o recebe deve sair dali.
σήμερον — sēmeron, "hoje". Advérbio formado sobre a palavra antiga para "dia". Aparece oito vezes em Mateus; nas do Sermão do Monte (Mateus 6:11 e 6:30) é o dia como medida da vida, e nas do fim do evangelho é o "até hoje" de quem escreve.
ἐργάζου — ergazou, "trabalhe". Imperativo presente de ergazomai, verbo que só tem forma média — a voz grega em que a ação recai sobre o próprio sujeito ou é feita no seu interesse. O presente indica ação contínua: "fique trabalhando", "passe o dia trabalhando". A palavra é da família de ergon, "obra", e de ergatēs, "trabalhador". Em Mateus ela só aparece quatro vezes: "vocês que praticam a iniquidade" (Mateus 7:23), aqui, o servo que "negociou" com os talentos (Mateus 25:16) e a "boa obra" da mulher do perfume (Mateus 26:10).
ἐν τῷ ἀμπελῶνί μου — en tō ampelōni mou, "na minha vinha". Ampelōn, o terreno de videiras, no dativo depois de en, "em". Mou é o genitivo do pronome "eu": "de mim", "minha". O acento que aparece em ampelōni no Textus Receptus é o acento extra que a palavra recebe quando vem seguida de um pronome curto que se apoia nela. É a palavra cuja presença divide as edições.
11. Conclusão
Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.
A primeira é sobre o debate. Jesus não abandonou a conversa quando se recusou a responder; mudou de terreno. Os homens que se declararam incapazes de julgar João são postos diante de um caso que parece inofensivo, e a parábola funciona porque o juízo vem antes da descoberta de que o caso é deles.
A segunda é sobre a natureza do pedido. O pai fala como pai: vai até o filho, chama-o pelo vínculo, pede trabalho na vinha que é da casa e não oferece nada em troca. O que se pede, portanto, não é cumprimento de contrato. É a resposta de um filho a um pai — e é isso que as duas respostas seguintes vão medir.
A terceira é sobre o tempo. A ordem vale para hoje. Nada no versículo admite a obediência adiada, e é por isso que a parábola só pode ser decidida pelo que cada filho fez naquele dia, e não pelo que disse que faria.













