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Mateus 21:27

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✍️ Por Alberto Adriano·4 de outubro de 2026·⏱️ 23 min de leitura·👁 33 acessos
Então responderam a Jesus: “Não sabemos.” E ele lhes disse: “Nem eu digo a vocês com que autoridade faço estas coisas.
No pátio do templo de Jerusalém, os chefes dos sacerdotes, de braços cruzados e rostos fechados, dão de ombros diante de Jesus, que os encara sereno; ao redor, a multidão de peregrinos observa em silêncio.

Estudo


Então responderam a Jesus: “Não sabemos.” E ele lhes disse: “Nem eu digo a vocês com que autoridade faço estas coisas.

1. Introdução

Depois de calcular as duas respostas, os chefes escolhem uma terceira, que a pergunta não previa: "não sabemos".

É a resposta de quem sabia, como a deliberação acabou de mostrar, e ela sai da boca dos homens cujo ofício era justamente saber distinguir um profeta verdadeiro de um falso.

Jesus responde com uma frase que parece simétrica e não é: eles disseram que não sabem; ele não diz que não sabe, diz que não vai dizer.

Termina assim o primeiro debate de Jesus no templo, sem resposta de nenhum dos dois lados, e com a pergunta sobre a autoridade ainda no ar.

2. Contexto Histórico e Cultural

"Não sei" diante de um tribunal judaico

No direito judaico, dizer "não sei" tinha consequências precisas, e a Mishná (a compilação da lei oral judaica, fechada por volta do ano 200) as descreve no tratado Sanhedrin (5:2). Ao interrogar testemunhas em casos capitais, os juízes faziam dois tipos de pergunta. As primeiras eram as essenciais: em que ano, em que mês, em que dia, a que hora, em que lugar. As outras eram as de detalhe, como a cor da roupa ou a forma de um objeto. A Mishná registra até um juiz, ben Zakkai, que perguntava pelo formato dos talos dos figos, para ver se as testemunhas se contradiziam.

A regra é esta: nas perguntas de detalhe, se uma testemunha diz "não sei", e até se duas dizem "não sabemos", o testemunho continua de pé. Ninguém é obrigado a lembrar tudo. Mas nas perguntas essenciais, se uma única testemunha diz "não sei", o testemunho é anulado na hora.

A pergunta de Jesus, para homens que tinham o encargo de julgar profetas, era uma pergunta essencial. A origem da missão de um pregador que tinha levado Jerusalém inteira ao Jordão não era detalhe. Pelo critério dos próprios tribunais que eles presidiam, um "não sabemos" naquele ponto desqualificava quem o dizia como testemunha e como juiz do caso.

"Não está claro": a abstenção dos jurados romanos

O direito romano tinha uma saída formal para o juiz que não conseguia decidir. Nos tribunais de júri da República, cada jurado recebia uma tabuinha e podia marcar A, de absolvo ("absolvo"), C, de condemno ("condeno"), ou N. L., de non liquet ("não está claro"). O voto N. L. não absolvia nem condenava: adiava.

Cícero, no discurso Em defesa de Cluêncio (66 a.C.), conta um julgamento em que vários jurados votaram "não está claro", e os elogia. Eram homens que conheciam a culpa do réu, mas suspeitavam de suborno no processo, e preferiram adiar a condenação "até que tudo ficasse esclarecido". Para Cícero, a abstenção era prudência, porque havia uma dúvida real a esclarecer.

Aulo Gélio (escritor romano do século II), nas Noites Áticas (XIV.2), conta de si mesmo que, nomeado juiz numa causa de dívida em que o credor não tinha provas e o devedor tinha péssima reputação, não conseguiu decidir. Consultou um filósofo, hesitou, e por fim jurou que o caso "não estava claro" para ele, e foi dispensado de julgar.

Os dois casos mostram o que o "não sei" de um juiz podia ser no mundo antigo: um juramento sério, feito por quem examinou e não chegou a uma conclusão. O "não sabemos" dos chefes tem a forma dessa abstenção e o conteúdo oposto. Eles não deixaram de chegar a uma conclusão; chegaram, e a esconderam.

O que disseram os antigos sobre esta resposta

Jerônimo (o tradutor da Vulgata, a Bíblia latina, no fim do século IV), no seu comentário a Mateus, resumiu a cena numa frase que o Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) retoma: eles sabiam, e não quiseram responder. A Vulgata traduz o "não sabemos" por nescimus, a palavra latina comum para a ignorância, e foi essa tradução que a leitura ocidental herdou.

3. Análise Teológica do Versículo

"Então responderam a Jesus"

O texto chama de resposta o que é uma recusa de responder. Depois da deliberação privada, os chefes voltam ao público e falam a Jesus. O leitor, que acabou de ouvir o cálculo, sabe o que vem por trás do que eles vão dizer; a multidão do pátio não sabe.

"Não sabemos."

Duas palavras, e o versículo anterior as tornou impossíveis de levar ao pé da letra. Os chefes tinham uma opinião sobre João, a de que o seu batismo era "dos homens", e só não a disseram por medo. Como ler, então, o "não sabemos"? Há quatro leituras, e elas dizem coisas diferentes sobre o que os chefes fizeram.

Primeira leitura: é uma mentira. Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX) é direto: "foi uma falsidade". Eles podiam dizer, e a resposta honesta seria "não vamos dizer". Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) diz que falaram contra a própria consciência. A favor: a deliberação mostra que tinham posição. Contra: "saber" é uma palavra forte, e eles podiam argumentar que não sabiam no sentido estrito, apenas achavam.

Segunda leitura: é uma meia verdade calculada. Os chefes não sabiam que João vinha do céu, porque não acreditavam nisso; e não podiam dizer que sabiam que ele vinha dos homens, porque isso teria custo. "Não sabemos" é a frase que não se pode provar falsa. É a mentira mais segura, porque tem a forma de uma modéstia. A favor: a escolha é coerente com o raciocínio do versículo 25, que pesou cada resposta pelo efeito. Contra: nenhuma, exceto que essa leitura não muda o juízo moral; só descreve a técnica.

Terceira leitura: é uma renúncia ao ofício. Ellicott (Charles Ellicott, bispo anglicano do século XIX) chama o "não sabemos" de "abdicação virtual". Gill desenvolve: os mesmos homens que, em outros momentos, se arrogavam o direito de julgar se um profeta era verdadeiro ou falso declaram agora não saber de onde vinha o maior profeta da geração. A comissão que veio examinar a autoridade de Jesus declara-se incompetente para examinar a de João. A favor: a pergunta deles no versículo 23 pressupunha que sabiam julgar autoridade. Contra: a leitura vale para o efeito público da frase, não para a intenção dos que a disseram.

Quarta leitura: é a preferência pela vergonha da ignorância à vergonha da verdade. Bengel (Johann Albrecht Bengel, comentarista luterano alemão do século XVIII) chama a resposta de "confissão forçada da mais vergonhosa ignorância", e nota que os orgulhosos às vezes preferem refugiar-se nela a render-se à verdade. Gill diz o mesmo: eles escolheram "a reprovação da ignorância". Para quem vivia de ser reconhecido como mestre, dizer "não sabemos" em público era humilhante. Mesmo assim, era menos caro que as outras duas respostas. A favor: explica por que uma elite instruída aceitou parecer ignorante diante do povo. Contra: supõe que a multidão percebeu a humilhação, o que o texto não registra.

As quatro leituras somam-se melhor do que se excluem. O que o texto permite afirmar é que o "não sabemos" foi escolhido, não constatado. A ignorância, aqui, não é um estado em que os chefes se encontravam; é uma posição que eles tomaram.

"E ele lhes disse"

Mateus escreve, literalmente, "disse-lhes também ele" (item 10). O "também" põe a resposta de Jesus em paralelo com a deles: os dois lados recusam. Mas a recusa de Jesus vem de outro lugar. Ele tinha posto uma condição no versículo 24, e o estudo daquele versículo mostrou como a recusa agora apenas cumpre o que foi combinado.

"Nem eu digo a vocês"

Aqui está a assimetria que o versículo constrói com cuidado. Os chefes disseram "não sabemos". Jesus não responde "nem eu sei". Responde "nem eu digo". Matthew Poole (comentarista puritano inglês do século XVII) põe o ponto numa frase: não "não posso dizer", mas "não digo". A recusa dos chefes se apresenta como incapacidade; a de Jesus se apresenta como decisão. Quem recusa dizer está declarando que sabe.

Há uma ironia nisso. A versão inglesa clássica, a do rei Jaime (1611), traduziu a resposta dos chefes por "não podemos dizer", e com isso pôs nos dois lados o mesmo verbo "dizer". O Pulpit Commentary observa que a tradução cria um eco falso. No grego, os chefes falam de saber, Jesus fala de dizer: um lado alega não ter o conhecimento, o outro tem e o retém.

E a recusa é dirigida: "a vocês". Bengel nota o peso do pronome: a vocês, que não perguntam para aprender. O Expositor's Greek Testament ("Testamento Grego do Expositor", comentário inglês do início do século XX) diz que Jesus não tinha medo de responder, mas achou que não valia a pena dar uma resposta a oportunistas. A recusa não é para todos. É para quem já mostrou que não usaria a resposta para decidir nada, mas só para medir o seu custo.

"com que autoridade faço estas coisas"

A frase repete pela terceira vez as palavras da pergunta inicial do versículo 23. A pergunta fica sem resposta direta, mas não sem resposta. No versículo seguinte, Jesus começa: "Mas o que acham?", e conta duas parábolas. A segunda fala de um dono de vinha que, depois dos servos, envia por último "o seu filho" (Mateus 21:37). Quem ouviu a pergunta "quem lhe deu tal autoridade?" ouve, poucos minutos depois, a história de um filho enviado pelo pai.

Jesus cumpre a palavra: não diz a eles com que autoridade age. Mas mostra. A recusa de dizer em linguagem de tribunal abre espaço para dizer em linguagem de parábola, a forma que, segundo Mateus 13:13, revela a quem quer ouvir e esconde de quem não quer. Os chefes vão entender que as parábolas falavam deles (Mateus 21:45). Não há sinal de que tenham entendido que falavam também de quem as contava, embora a última delas o diga com todas as letras.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

O fim do primeiro debate no templo

O versículo fecha a discussão sobre a autoridade, aberta em Mateus 21:23. Os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo não saem de cena: continuam ali para ouvir as duas parábolas seguintes e só se retiram, com os fariseus, depois de Mateus 21:46. Mas a troca de perguntas termina aqui, sem vencedor declarado e com a multidão como testemunha.

A plateia

Tudo acontece em público, num pátio do templo durante a semana da Páscoa. A multidão que tinha João por profeta ouviu os seus chefes religiosos dizerem que não sabiam de onde ele vinha. O texto não registra a reação dela. Mas os chefes, que tinham calculado o efeito de cada resposta, escolheram esta como a menos danosa diante daquela gente.

A cena nos outros evangelhos

Marcos 11:33 traz a mesma resposta em discurso direto, "não sabemos", e introduz a fala de Jesus com "respondendo, disse". Lucas 20:7 conta a resposta dos chefes de forma indireta, "responderam que não sabiam de onde era", e com isso a frase perde a força de uma declaração em primeira pessoa. Mateus mantém o discurso direto e acrescenta, na fala de Jesus, o "também ele", que põe as duas recusas lado a lado.

5. Pontos de Ensino

"Não sei" pode ser uma escolha

O versículo mostra que a ignorância nem sempre é ausência de conhecimento. Os chefes sabiam o que pensavam e preferiram declarar que não sabiam. A frase mais humilde da língua pode ser usada para fugir da responsabilidade de dizer o que se pensa.

Quem tem o dever de julgar não pode se refugiar na dúvida fingida

Um leigo pode honestamente não ter opinião sobre um profeta. Os chefes eram os responsáveis por examinar quem falava em nome de Deus. O "não sabemos", na boca deles, não era modéstia: era o abandono da tarefa que justificava a sua posição.

Recusar a resposta não é o mesmo que não ter resposta

Jesus não finge não saber. Ele declara que não vai dizer. A honestidade dele está na forma da recusa: não esconde que tem algo a dizer, nem por que não o diz.

A verdade pode chegar por outro caminho

A recusa de Jesus não encerra a conversa. A resposta que não vem em forma de declaração vem em forma de parábola. Quem não quis responder a uma pergunta direta recebe uma história, e a história diz o que a declaração teria dito.

6. Aspectos Filosóficos

A ignorância pode ser fabricada?

Estamos acostumados a pensar na ignorância como um vazio: o que ainda não se sabe, o que falta aprender. O "não sabemos" dos chefes mostra outra coisa. Ali a ignorância não é um ponto de partida, é um produto. Foi construída numa deliberação, escolhida entre outras respostas e apresentada em público com uma função precisa: evitar um custo. O versículo levanta uma pergunta que a filosofia do conhecimento demorou a fazer: quem fabrica ignorância, como, e com que interesse?

Robert Proctor e o estudo da ignorância

Robert N. Proctor (historiador da ciência norte-americano, nascido em 1954, professor da Universidade Stanford) propôs, nos anos 1990, uma palavra nova para essa pergunta: agnotologia, do grego agnōsis, "não saber", o estudo da produção cultural da ignorância. O livro que deu forma ao campo foi uma coletânea organizada por ele e por Londa Schiebinger, publicada em 2008 com o título Agnotologia: a produção e a desconstrução da ignorância.

Proctor distingue três tipos de ignorância. A primeira é a ignorância como estado original: o que ainda não se sabe, e que a pesquisa vai preencher. A segunda é a ignorância como território perdido ou deixado de lado: o que uma cultura escolhe não estudar, porque olha para outras coisas. A terceira é a que lhe interessa mais, a ignorância como estratégia: a que alguém produz de propósito, para proteger um interesse.

O caso que ele estudou por mais tempo é o da indústria do tabaco. Em Holocausto dourado (2011), Proctor analisou milhares de documentos internos das empresas, tornados públicos em processos judiciais nos Estados Unidos. Eles mostram que os fabricantes sabiam, desde os anos 1950, da ligação entre o cigarro e o câncer, e que a estratégia escolhida não foi negar abertamente, mas produzir dúvida. Um memorando de 1969 de uma das empresas resume o método: "a dúvida é o nosso produto", porque é o melhor meio de competir com o conjunto de fatos que existe na mente do público. Não era preciso provar que o cigarro era inofensivo. Bastava manter a questão "em aberto", financiar estudos que pedissem mais estudos, repetir que "a ciência ainda não sabe".

O que isso ilumina em Mateus 21:27

O "não sabemos" dos chefes é ignorância do terceiro tipo, em escala pequena e com uma diferença. Eles não fabricam dúvida na cabeça do povo; o povo continua a ter João por profeta. Fabricam dúvida sobre si mesmos: apresentam-se como quem não tem posição, quando tinham uma. A função é a mesma que Proctor descreve. Uma afirmação clara, "do céu" ou "dos homens", poderia ser contestada e teria consequências. Uma suspensão de juízo não pode ser refutada, porque não afirma nada.

A leitura de Proctor também ajuda a ver por que a estratégia funciona. A ignorância declarada tem prestígio moral: soa como cautela, como humildade, como rigor. É difícil acusar alguém de não saber. Os chefes usam a forma de uma virtude para fazer o trabalho de uma evasão. E o texto, ao abrir a deliberação privada no versículo 25, faz o que Proctor faz com os memorandos internos: mostra ao leitor o documento que a plateia não viu, em que a "dúvida" aparece como decisão tomada.

Há ainda o outro lado da cena, que o conceito ajuda a separar. A recusa de Jesus não é ignorância nenhuma, nem real nem fabricada. Ele não diz "não sei" nem "a questão está em aberto". Diz "não vou dizer". Proctor descreve a estratégia de quem esconde o saber sob a aparência de dúvida; Jesus faz o contrário, e deixa visível que sabe e que retém.

O limite da aproximação

Proctor não comenta este texto, e a leitura acima aplica as suas categorias à cena. A diferença de escala é enorme: ele estuda campanhas organizadas que custaram milhões de vidas; o versículo registra uma frase de um grupo encurralado num debate. E a agnotologia nasceu para analisar a ciência e a indústria modernas, com documentos, orçamentos e assessorias. O que a aproximação mostra é que o mecanismo básico, declarar não saber para não ter de responder pelo que se sabe, é muito mais antigo que a indústria.

7. Aplicações Práticas

Desconfie do "não sei" que chega depois de um cálculo

Numa reunião, numa investigação, numa conversa difícil, preste atenção em quem diz "não sei" exatamente na pergunta em que a resposta teria custo. A ignorância declarada pode ser verdadeira. Mas quando ela aparece só onde a verdade seria cara, é provável que seja uma escolha.

Quando você não quer responder, diga que não quer

Jesus mostra uma forma honesta de recusa: "não vou dizer". Ela não engana ninguém sobre o que você sabe nem sobre por que se cala. É mais difícil do que fingir não saber, porque deixa você exposto à pergunta "por quê?". Mas não corrompe a palavra "saber".

Se o seu papel é decidir, não se esconda na dúvida

Quem tem a responsabilidade de julgar, num conselho, numa empresa, numa família ou numa igreja, não pode usar o "não sei" para escapar de uma decisão incômoda. A dúvida verdadeira se examina e se resolve, ou se declara com os seus motivos. A dúvida de conveniência só adia a conta.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Jesus não foi incoerente ao recusar resposta, se ele mesmo pede franqueza?

Não, pela forma da recusa. Ele não disse algo falso nem fingiu não saber. Recusou-se a dar uma informação a quem tinha acabado de recusar a dele, e disse claramente que estava recusando. A franqueza que ele exigia, "seja o falar de vocês: sim, sim; não, não" (Mateus 5:37), é a de não dizer o contrário do que se pensa, não a de dizer tudo a todos.

Por que Jesus não aproveitou para declarar quem era diante do povo?

O texto não diz. Pode-se pensar em duas razões. Uma é a do próprio acordo: ele tinha condicionado a resposta, e quebrar a condição seria dar razão a quem a ignorou. Outra é o risco: diante da autoridade competente para julgar falsos profetas, uma declaração direta era a acusação pronta. É plausível que as duas pesassem. De todo modo, a resposta vem logo depois, sob a forma de parábola.

A multidão percebeu que os chefes estavam fingindo?

Mateus não registra a reação do povo. O que se pode dizer é que os chefes, que conheciam aquele público, apostaram que "não sabemos" lhes custaria menos que as outras respostas. Se a aposta deu certo, o texto não conta.

Existe uma ignorância honesta sobre a origem de um profeta?

Existe, e a Bíblia a prevê: a regra de Deuteronômio 18:21-22 manda esperar para ver se a palavra se cumpre, o que supõe um tempo em que não se sabe. O conselho de Gamaliel ao mesmo conselho de Jerusalém, anos depois (Atos 5:38-39), é uma suspensão de juízo honesta desse tipo. A diferença para os chefes de Mateus 21:27 está no que vem antes da frase: Gamaliel não tinha decidido; eles tinham.

9. Conexão com Outros Textos

A mesma resposta nos outros evangelhos

Marcos 11:33 — "E, respondendo, disseram a Jesus: Não sabemos. E Jesus, respondendo, lhes disse: Nem eu digo a vocês com que autoridade faço estas coisas."

Tradução livre a partir do Textus Receptus.

Lucas 20:7-8 — "E responderam que não sabiam de onde era. Então Jesus lhes disse: Nem eu digo a vocês com que autoridade faço estas coisas."

Tradução livre. Lucas narra a resposta dos chefes de modo indireto e tira dela a força da primeira pessoa.

Outros "não sabemos" de conveniência

João 9:20-22 — "Os pais responderam: Sabemos que este é o nosso filho e que nasceu cego; mas como agora vê, não sabemos; ou quem lhe abriu os olhos, nós não sabemos. Perguntem a ele... Os pais disseram isso porque tinham medo dos judeus."

Tradução livre. O mesmo par do versículo: medo e "não sabemos". Aqui o próprio evangelho explica que a ignorância declarada era medo.

João 9:29 — "Sabemos que Deus falou a Moisés; mas este, não sabemos de onde é."

Tradução livre. Os fariseus aplicam a Jesus a mesma pergunta que Jesus fez sobre João, "de onde?", e respondem com o mesmo "não sabemos".

A ignorância fabricada no fim do evangelho

Mateus 28:12-15 — "Reunindo-se com os anciãos, e depois de decidirem em conjunto, deram muito dinheiro aos soldados, dizendo: 'Digam que os discípulos dele vieram de noite e o roubaram enquanto vocês dormiam. E, se isso chegar aos ouvidos do governador, nós o convenceremos e deixaremos vocês livres de preocupação.' Eles pegaram o dinheiro e fizeram como haviam sido instruídos. E essa história se espalhou entre os judeus até o dia de hoje."

Os mesmos chefes e anciãos, outra deliberação em conjunto, e uma versão pública decidida pelo efeito. Em Mateus 21:27 eles fabricam a própria ignorância; em Mateus 28:12-15, uma explicação para os outros.

A recusa de Jesus em outros momentos

João 18:20-21 — "Jesus lhe respondeu: Eu falei abertamente ao mundo; sempre ensinei na sinagoga e no templo, onde todos os judeus se reúnem, e nada disse em segredo. Por que você me interroga? Pergunte aos que me ouviram o que eu lhes disse."

Tradução livre. Diante do sumo sacerdote, Jesus de novo devolve a pergunta: a resposta já estava dada em público.

Mateus 7:6 — "Não deem o que é santo aos cães, nem joguem as suas pérolas diante dos porcos, para que não as pisem com as patas e, virando-se, despedacem vocês."

O princípio da recusa: há respostas que não se dão a quem só as usaria para atacar.

A resposta que vem por parábola

Mateus 21:37 — "Por último, enviou-lhes o seu filho, dizendo: 'A meu filho respeitarão.'"

Dez versículos depois do "nem eu digo", a história do filho enviado pelo dono da vinha responde, em figura, à pergunta "quem lhe deu tal autoridade?".

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Então responderam a Jesus: “Não sabemos.” E ele lhes disse: “Nem eu digo a vocês com que autoridade faço estas coisas.

Texto grego (Textus Receptus)

Καὶ ἀποκριθέντες τῷ Ἰησοῦ εἶπον, Οὐκ οἴδαμεν. Ἔφη αὐτοῖς καὶ αὐτός, Οὐδὲ ἐγὼ λέγω ὑμῖν ἐν ποίᾳ ἐξουσίᾳ ταῦτα ποιῶ.

Transliteração

Kai apokrithentes tō Iēsou eipon, Ouk oidamen. Ephē autois kai autos, Oude egō legō hymin en poia exousia tauta poiō.

Uma nota sobre o texto

O Textus Receptus ("texto recebido", a edição grega do século XVI que a ABC segue) e as edições críticas trazem as mesmas palavras. A única diferença é de grafia do verbo "disseram": eipon no Textus Receptus, eipan nas edições críticas, duas formas correntes do mesmo aoristo no grego da época. Conferido no Bible Hub (textos paralelos: Scrivener 1894, Stephanus 1550, SBL, Tischendorf) e na edição de Scrivener publicada pelo eBible.

Análise palavra por palavra

Καὶ ἀποκριθέντες τῷ Ἰησοῦ εἶπον — kai apokrithentes tō Iēsou eipon, "e, respondendo a Jesus, disseram". A fórmula "respondendo, disseram" é a mesma que abriu a fala de Jesus no versículo 24, agora no plural e com os chefes por sujeito. O dativo tō Iēsou, "a Jesus", marca o destinatário: depois da conversa entre si, eles se voltam para ele.

Οὐκ οἴδαμεν — ouk oidamen, "não sabemos". Oida é um verbo peculiar: tem forma de perfeito, o tempo grego que descreve o estado resultante de uma ação passada, mas sentido de presente. Literalmente é "eu vi", e daí "eu sei", porque sei o que vi. Descreve o saber como posse, como estado estável, e não como processo de aprender, que o grego exprime com ginōskō, "chegar a conhecer". "Não sabemos", com oida, nega que esse conhecimento esteja em posse deles: não é "ainda estamos examinando", é "não temos a resposta".

A palavra tem peso no capítulo. Os mesmos grupos, poucos dias depois, vão abrir uma pergunta capciosa com a fórmula oposta: "Mestre, sabemos que és verdadeiro" (Mateus 22:16), com o mesmo verbo. Quando lhes convém, eles sabem.

Ἔφη αὐτοῖς — ephē autois, "disse-lhes". Ephē é o imperfeito de phēmi, "dizer, afirmar", um verbo mais solene que legō, usado com frequência para introduzir uma declaração breve e decisiva. Marcos 11:33 tem aqui "respondendo, diz"; Mateus troca pela forma mais seca.

καὶ αὐτός — kai autos, "também ele". O pronome autos no nominativo, com kai, dá ênfase: "ele, por sua vez". É o que estabelece o paralelo entre a recusa dos chefes e a de Jesus, e não está em Marcos nem em Lucas.

Οὐδὲ ἐγὼ — oude egō, "nem eu". Oude é a negação de acréscimo, "também não, nem". Egō, "eu", desnecessário em grego porque o verbo já marca a pessoa, aparece para ênfase. Retoma o kagō, "eu também", que Jesus usou duas vezes no versículo 24: "eu também perguntarei", "eu também direi". O "eu também" da promessa vira "nem eu" da recusa.

λέγω ὑμῖν — legō hymin, "digo a vocês". Aqui está o centro gramatical da assimetria. Os chefes usaram oida, verbo de saber; Jesus usa legō, verbo de dizer. E o tempo também mudou. No versículo 24, a promessa estava no futuro, erō, "direi". Agora a recusa está no presente, legō: "não digo", agora, nesta conversa. A promessa futura condicionada não se cumpriu porque a condição não se cumpriu, e o presente marca a decisão tomada naquele momento.

ἐν ποίᾳ ἐξουσίᾳ ταῦτα ποιῶ — en poia exousia tauta poiō, "com que autoridade faço estas coisas". As palavras da pergunta inicial dos chefes, pela terceira vez no trecho. A análise de poia e de exousia está no estudo de Mateus 21:23. O verbo poiō, no presente, mantém a ação em curso: Jesus continua a fazer o que fazia, sem a licença que lhe pediram.

11. Conclusão

Com base no que foi visto, o versículo leva a três conclusões.

A primeira: o "não sabemos" dos chefes não é um fato sobre o que eles sabiam, é uma decisão sobre o que diriam. A deliberação dos versículos anteriores tira da frase qualquer aparência de dúvida honesta, e o critério dos próprios tribunais judaicos a tornava desqualificante numa pergunta essencial. Conclui-se que Mateus apresenta a ignorância dos chefes como uma posição tomada, e que é por essa posição, e não por um erro de juízo, que o evangelho os julga.

A segunda: a recusa de Jesus tem forma diferente da deles, e a diferença é moral. Ele não alega incapacidade, declara a decisão de não dizer, e com isso deixa visível que sabe. Segue-se que o texto distingue duas maneiras de não responder: a que mente sobre o próprio saber e a que o retém às claras. Só a primeira corrompe a palavra.

A terceira: o impasse não encerra a pergunta, muda a forma da resposta. O que Jesus recusa dizer em declaração ele mostra logo depois em parábola, com um filho enviado por último pelo dono da vinha. Daqui se conclui que, para Mateus, a autoridade de Jesus não é revelada a quem a exige como credencial, mas fica exposta a quem ouve a história até o fim.

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