Por último, enviou-lhes o seu filho, dizendo: ‘A meu filho respeitarão.’
1. Introdução
Depois de duas levas de servos espancados e mortos, o dono da vinha faz o que nenhum proprietário sensato faria: manda o próprio filho. E justifica a decisão numa frase curta, sem "talvez" e sem "amado", que os outros evangelhos têm: "A meu filho respeitarão."
O verbo dessa frase é o do respeito que nasce da vergonha, e a aposta do pai se apoia nele. A pergunta que o versículo deixa é se essa aposta é ingenuidade, esperança ou o modo de a parábola dizer quem está falando — porque quem conta a história, no templo, diante dos chefes dos sacerdotes, já anunciou três vezes a própria morte.
E existe uma versão desta mesma parábola fora da Bíblia, no Evangelho de Tomé, mais curta e sem quase nada do que faz dela uma alegoria. O que essa versão sugere sobre a forma mais antiga da história é discutido até hoje.
2. Contexto Histórico e Cultural
A outra versão: o Evangelho de Tomé
Em 1945, perto de Nag Hammadi, no Alto Egito, apareceu um jarro com treze livros de papiro em copta (a última fase da língua egípcia, escrita com letras gregas), copiados no século IV. O segundo traz 114 ditos atribuídos a Jesus, sem narrativa e sem paixão, sob o título de Evangelho de Tomé. Fragmentos gregos da mesma coleção, de por volta do ano 200, já tinham saído do lixão antigo de Oxirrinco — mas nenhum conserva esta parábola.
A parábola está no dito 65. Em tradução livre, a partir das edições do texto copta:
"Um homem [bom?] tinha uma vinha. Arrendou-a a lavradores, para que a trabalhassem e ele recebesse deles o fruto. Mandou o seu servo para que os lavradores lhe dessem o fruto da vinha. Eles agarraram o servo, bateram nele e por pouco não o mataram. O servo foi embora e contou ao seu senhor. O senhor disse: 'Talvez eles não o tenham reconhecido.' Mandou outro servo. Os lavradores bateram também nesse. Então o senhor mandou o seu filho. Disse: 'Talvez eles respeitem o meu filho.' Aqueles lavradores, como sabiam que ele era o herdeiro da vinha, agarraram-no e o mataram. Quem tem ouvidos, ouça."
O dito seguinte, o 66, vem solto: "Mostrem-me a pedra que os construtores rejeitaram: ela é a pedra angular."
O que falta em Tomé
Quase tudo é ausência. Não há cerca, lagar nem torre — os traços de Isaías 5 que transformam a vinha em Israel. Os servos são dois, e nenhum morre. O filho não é "amado" nem "único". Não há a pergunta aos ouvintes, nem o castigo, nem a vinha entregue a outros, e o Salmo 118 não está costurado à história. O resultado se sustenta sozinho, sem que o ouvinte precise saber quem é quem, e termina na morte.
Três leituras dessa ausência
A pergunta é se Tomé conserva uma forma mais antiga da parábola, anterior às camadas de alegoria, ou se é um resumo tardio dos evangelhos que já conhecemos.
Primeira leitura: Tomé está mais perto da forma oral. Joachim Jeremias (exegeta alemão do século XX, autor do estudo clássico sobre as parábolas de Jesus), nas edições revistas de As parábolas de Jesus publicadas depois da descoberta, viu no dito 65 a confirmação do que já supunha: os traços que transformam a história em alegoria da história de Israel foram acrescentados na transmissão. John Dominic Crossan (estudioso irlandês-americano do Jesus histórico) e Helmut Koester (historiador alemão-americano do cristianismo primitivo) foram mais longe e trataram Tomé como tradição independente dos evangelhos do Novo Testamento. Os três envios — servo, servo, filho — são o ritmo das histórias populares.
Segunda leitura: Tomé depende dos evangelhos e encurta. Klyne Snodgrass (estudioso norte-americano das parábolas, autor de uma monografia sobre esta, de 1983) e, antes dele, Wolfgang Schrage (exegeta alemão, 1964) apontaram dois indícios. O "talvez" do senhor ("talvez eles respeitem o meu filho") só existe, nos evangelhos, em Lucas 20:13. E o dito da pedra vem imediatamente depois da parábola, na mesma ordem de Marcos e Lucas — o que seria coincidência difícil se as duas tradições não se tocassem. Para essa leitura, Tomé tirou da história o que a prendia a Israel, porque a sua coleção não se interessa pela história de Israel.
Terceira leitura: Tomé tem uma alegoria própria. O texto copta tem um buraco no começo, justamente no adjetivo do dono. As letras que sobram nas bordas admitem "bom" e admitem também "credor", "agiota" — as duas palavras são quase iguais em grego. Se o dono era agiota, a história deixa de ser sobre o dono paciente e passa a ser sobre o proprietário ausente que vive de renda, e o dito 64, logo antes, termina dizendo que "comerciantes e negociantes não entrarão nos lugares do meu Pai". John Kloppenborg (estudioso canadense, autor do maior estudo sobre o fundo social desta parábola) registra as duas reconstruções. E o "talvez eles não o tenham reconhecido", que só Tomé tem, pode ser jogo com o tema do conhecimento, central nessa coleção.
Não há consenso. O que se pode afirmar com segurança é menos do que cada lado gostaria: Tomé prova que a parábola circulou numa forma que funciona sem alegoria; não prova que essa forma seja a primeira. E a cópia que temos é do século IV — a data em que a coleção foi composta é disputada, entre meados do século I e meados do II.
Por que um pai contaria com respeito
Num mundo em que a honra da casa era patrimônio público, o filho era a presença do pai. Tocar nele era ofender o pai diante de todos, e o que segurava as pessoas não era tanto a lei quanto a vergonha de fazer isso à vista da aldeia. Bater nos servos era um prejuízo para o dono; o filho é o próprio dono em outra pessoa. A ideia de que o enviado vale como quem o envia, que a lei rabínica formulou e que Jesus aplica aos discípulos, já foi tratada no estudo de Mateus 10:40.
3. Análise Teológica do Versículo
“Por último,”
A palavra fecha uma série. Primeiro foram servos; depois, mais servos do que antes; agora, o último recurso. Depois do filho não há mais ninguém a mandar, e a pergunta seguinte da parábola já não é sobre envio, é sobre o que o dono vai fazer (Mateus 21:40).
A tradição cristã leu a série como a história de Israel resumida: os servos são os profetas, e o filho vem depois de todos. Mateus não faz a equação, mas a deixa a um passo do leitor.
“enviou-lhes o seu filho,”
O verbo é o mesmo usado para os servos. O filho entra na mesma linha de enviados: não chega como dono, chega como mais um mensageiro, ainda que o último e o de mais peso. Isso combina com o modo como Mateus fala de Jesus em outros lugares — "aquele que me enviou" (Mateus 10:40), "não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel" (Mateus 15:24).
O que Mateus não diz é tão significativo quanto o que diz. Marcos escreve "tinha ainda um, o filho amado" (Marcos 12:6). Lucas faz o dono hesitar em voz alta: "Que farei? Mandarei o meu filho amado" (Lucas 20:13). Mateus corta as duas coisas: não diz que era o único, não diz que era amado.
Por que o corte? Há três leituras. Primeira: é só o hábito de Mateus, que encurta as cenas de Marcos quase sempre. Segunda: o leitor de Mateus já ouviu duas vezes a voz que chama Jesus de "meu Filho amado" (Mateus 3:17 e 17:5) e não precisa ouvir de novo; a palavra seria redundante. Terceira: Mateus tira o tom afetivo para deixar o tom jurídico — o que importa no versículo seguinte é que o filho é o herdeiro, e é por isso que o matam. As três são possíveis, e o texto não permite decidir.
Que o filho enviado seja a resposta indireta de Jesus à pergunta sobre a sua autoridade está desenvolvido no estudo de Mateus 21:27. O que este versículo acrescenta é a medida: em nenhum outro lugar de Mateus Jesus chega tão perto de se chamar "o Filho" diante dos chefes dos sacerdotes — até a pergunta direta do sumo sacerdote, em Mateus 26:63.
“dizendo: ‘A meu filho respeitarão.’”
O dono diz isso depois de saber que servos dele foram espancados, mortos e apedrejados. Como história de fazendeiro, a decisão é absurda; nenhum proprietário mandaria o herdeiro, sozinho, a homens que já mataram. A pergunta é o que fazer com esse absurdo.
Primeira leitura: é a fala de Deus em linguagem humana. John Gill (teólogo batista inglês do século XVIII) pergunta se o Pai não sabia o que ia acontecer e responde que sabia; a frase exprime o que os lavradores deviam fazer, não o que o dono esperava. O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) diz que Deus "age muitas vezes com os homens como se tivesse esperança". A solução salva a presciência divina; o preço é tirar da frase a expectativa que ela exprime.
Segunda leitura: é esperança verdadeira, e a parábola quer que ela pareça excessiva. O dono paciente que insiste além do razoável é o retrato de um Deus que "não desiste", e o exagero é proposital. Essa leitura lê a frase como está e combina com a escalada dos envios; deixa sem resposta o problema que a primeira tentou resolver.
Terceira leitura: o absurdo é o recurso da parábola. As parábolas de Jesus costumam ter um ponto em que a história deixa de ser verossímil — o pagamento igual aos trabalhadores da última hora (Mateus 20:9), a dívida de dez mil talentos (Mateus 18:24). É ali que o ouvinte tropeça e presta atenção. Aqui o tropeço é o pai que manda o filho para a morte sem saber.
Essa última leitura revela uma distância que Mateus deixa à vista. O dono da história não sabe o que vai acontecer; quem conta a história sabe. Jesus já anunciou três vezes que seria morto em Jerusalém pelos chefes dos sacerdotes (Mateus 16:21, 17:22-23, 20:18-19). A frase "a meu filho respeitarão" é dita, portanto, por um personagem ingênuo, dentro de uma história narrada por alguém que não é ingênuo. É difícil não ouvir ironia nisso; é uma leitura, e o texto não a sublinha.
Mateus escreve sem o "talvez" de Lucas. Lá o dono hesita; aqui ele afirma, no futuro, como coisa certa. A confiança fica maior, e por isso a queda também.
Resta o que o verbo pressupõe. O pai não diz "amarão o meu filho" nem "obedecerão ao meu filho". Diz uma palavra que, em grego, nasce da vergonha: o respeito de quem se constrange diante de alguém (o termo está analisado no item 10). Ele não conta com bondade dos lavradores; conta com o freio mínimo de quem ainda se envergonha. O versículo seguinte mostrará que nem esse freio existia.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
O dono da vinha
Mateus o chama de "proprietário" no começo da parábola (Mateus 21:33) e de "dono da vinha" no fim (Mateus 21:40). Nunca recebe nome nem traço pessoal além das decisões que toma: plantar, arrendar, viajar, mandar cobrar, mandar de novo, mandar o filho. A leitura tradicional, quase unânime, vê nele Deus. A parábola favorece essa leitura ao começar com as palavras de Isaías 5, em que a vinha é do SENHOR; mas a identificação é feita pelo ouvinte, não pelo texto.
O filho
Aparece neste versículo e morre dois versículos depois. Não fala e não faz nada além de chegar. Tudo o que se sabe dele é a relação: é filho e, por isso, herdeiro (Mateus 21:38). A parábola não usa nome nem título — nem "Filho de Deus", nem "Filho do homem". O que o liga a Jesus é a soma do lugar, da hora e dos anúncios anteriores da paixão.
Os lavradores
São arrendatários, gente que trabalha a terra de outro em troca de parte da colheita. Mateus diz no fim do capítulo quem se reconheceu neles: "os chefes dos sacerdotes e os fariseus" (Mateus 21:45). Não o povo — o povo, no versículo seguinte, é o que os impede de prender Jesus.
Essa precisão importa para a história da leitura desta parábola. Durante séculos, pregadores cristãos fizeram dos lavradores "os judeus", em bloco, e do castigo do dono uma sentença contra um povo inteiro. Mateus não diz isso aqui: os lavradores são os que governam a vinha, não a vinha. O Reino "tirado" e "dado a um povo" é assunto de Mateus 21:43.
Os ouvintes e o lugar
A conversa começou no pátio do templo, com "os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo" (Mateus 21:23), que perguntaram com que autoridade Jesus agia, poucos dias antes da Páscoa. Ouvem uma história sobre quem tem direito à vinha, contada a quem a administrava.
5. Pontos de Ensino
1. A paciência do dono tem um fim, e o fim é uma pessoa
A série de envios não termina com uma ameaça nem com um prazo: termina com o filho. A parábola diz que o último gesto do dono não foi mais força, foi mais exposição. Isso inverte o que se esperaria de um proprietário lesado, e é o centro do retrato de Deus que a parábola oferece. O castigo vem depois, mas não antes do filho.
2. Enviar alguém é se expor por meio dele
Mandar servos já custou ao dono. Mandar o filho é arriscar a si mesmo, porque o filho é a presença do pai. A teologia cristã construiu muito sobre esta ideia — Deus que se expõe no Filho —, e o versículo é um dos seus apoios mais diretos. Mas a parábola fala de exposição, não de sacrifício: o filho é mandado para cobrar, não para morrer.
3. Respeito não se impõe
O dono conta com o respeito e não tem como produzi-lo. Ele pode mandar, mas não pode fazer os lavradores se envergonharem. Toda autoridade que depende do reconhecimento de quem a recebe vive esse limite, e a autoridade de Jesus, posta em dúvida dois versículos antes da parábola (Mateus 21:23), também.
4. As versões diferentes não desfazem a história
Marcos, Mateus, Lucas e Tomé divergem em quantos servos, se o filho é amado, se o dono hesita. O núcleo — servos maltratados, o filho mandado por último, o filho morto pelos que querem a herança — é o mesmo nas quatro. É isso o que a tradição conservou com mais firmeza.
6. Aspectos Filosóficos
Ver alguém como alguém: Edith Stein e o problema da empatia
A frase do dono contém uma teoria sobre as pessoas: basta que vejam o filho para que o respeitem. Ver e respeitar seriam um só movimento. A parábola desmente isso no versículo seguinte, e a filosofia do século XX tem uma autora que pensou exatamente a distância entre os dois.
Edith Stein (filósofa alemã, 1891-1942) nasceu numa família judia de Breslau, foi aluna e assistente de Edmund Husserl (fundador da fenomenologia, o método filosófico que descreve como as coisas se apresentam à consciência) e defendeu em 1916 a tese publicada no ano seguinte como Sobre o problema da empatia (Zum Problem der Einfühlung). A pergunta do livro é simples de enunciar e difícil de responder: como a experiência de outra pessoa chega até mim?
O que a empatia dá, e o que não dá
O exemplo de Stein é cotidiano. Um amigo me conta que perdeu o irmão, e eu percebo a dor dele. Não sinto a dor no lugar dele — ela continua sendo dele, e eu não a vivo em primeira mão. Mas também não a deduzo por raciocínio, como quem conclui que há fogo porque vê fumaça. Eu a percebo nele, como dele. A esse ato ela chama empatia (em alemão Einfühlung, "sentir-se dentro").
Stein separa esse ato de outros com que costuma ser confundido. Empatia não é simpatia: posso perceber a alegria de alguém e não me alegrar com ela. E não é projeção, como queria Theodor Lipps (psicólogo alemão do fim do século XIX), para quem eu entenderia os outros imitando-os por dentro. A empatia me dá o outro como outro: um centro de vida que não sou eu.
A empatia é uma forma de conhecimento. Ela me põe diante de uma pessoa. O que eu faço diante dela — respeitar, amar, desprezar, usar — é outro ato, e esse ato é livre.
O erro do dono, na linguagem de Stein
Lido assim, o dono confunde os dois atos. Ele supõe que, ao verem o filho como filho, os lavradores serão levados ao respeito. O versículo 38 mostra o contrário com uma precisão quase de laboratório: os lavradores veem o filho e o reconhecem corretamente — "este é o herdeiro". O conhecimento está completo. É justamente por saberem quem ele é que o matam.
Não foi falta de percepção, foi resposta. O reconhecimento, que o dono esperava que produzisse vergonha, produziu cálculo. Na linguagem de Stein, a empatia funcionou; o que falhou foi o ato seguinte, que nenhuma percepção garante.
Stein não escreveu sobre esta parábola; a aproximação é leitura. O que ela oferece é um vocabulário para dizer com exatidão o que a parábola mostra: que conhecer alguém não obriga ninguém a honrá-lo.
Um apelo à vergonha
Stein foi batizada católica em 1922 e entrou para o Carmelo em 1933. Em abril daquele ano escreveu ao papa Pio XI pedindo uma palavra pública contra a perseguição dos judeus na Alemanha, e lembrou que o governo que a promovia se dizia cristão. A carta, guardada nos arquivos do Vaticano, só foi publicada em 2003. Ela foi presa num convento da Holanda em 1942 e morta em Auschwitz, como judia, em agosto daquele ano.
A carta contava, como o dono, com o constrangimento de quem tinha poder diante do que se fazia em seu nome. O paralelo é leitura, não dado.
7. Aplicações Práticas
O versículo descreve uma decisão de Deus dentro de uma parábola; as aplicações diretas à vida comum são poucas.
O risco de quem manda o que tem de mais caro
Pais que intervêm num conflito mandando um filho, chefes que mandam o seu melhor funcionário para resolver uma crise com quem já foi violento — a parábola descreve o custo dessa decisão sem a recomendar. Ela não diz "faça como o dono". Diz o que aconteceu com quem fez.
Esperar o mínimo
O dono não esperava amor, esperava vergonha. Há situações em que o máximo que se pode esperar dos outros é esse freio mínimo, e a parábola é honesta ao mostrar que às vezes nem ele existe. Contar com isso, quando os sinais anteriores dizem o contrário, não é virtude: é a parte da história que termina mal.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Se o dono é Deus, Deus não sabia o que ia acontecer?
A parábola não responde, porque não é tratado de teologia; o dono é personagem de história e fala como personagem. O problema só aparece quando se faz a equação dono = Deus ponto por ponto. Quem a faz herda a pergunta, e as respostas da tradição (a fala "à maneira humana", o "deviam respeitar") são soluções de fora do texto. Uma saída mais modesta é aceitar que a parábola não foi feita para responder isso.
A morte do filho, na parábola, é sacrifício?
Não. Na história o filho é mandado para cobrar a parte do dono, e a morte dele é crime, punido em seguida. A parábola não diz que a morte serve para alguma coisa. A leitura da morte de Jesus como resgate está em Mateus 20:28 e 26:28, não aqui. Juntar as duas é legítimo como teologia, mas é obra do leitor.
Os ouvintes podiam entender "filho" como título de Messias?
É discutido. O Salmo 2:7 ("Você é meu filho") e 2 Samuel 7:14 ("eu serei para ele pai, e ele será para mim filho") já eram lidos como textos sobre o rei esperado em alguns grupos do século I. Mas a parábola não usa título nenhum, e o "filho" de uma história de fazenda é, antes de tudo, o filho do fazendeiro.
Por que o dono não vai ele mesmo?
Porque a parábola o pôs longe — "partiu para uma viagem" (Mateus 21:33). Proprietários ausentes que administravam a terra por meio de agentes eram comuns, e a história depende disso. Na leitura teológica, a ausência é o espaço de liberdade dos lavradores: o dono não está à vista, e é por isso que eles podem fazer o que fazem. O dono só "vem" depois do filho (Mateus 21:40).
9. Conexão com Outros Textos
As outras duas versões do mesmo versículo
Marcos 12:6 — "Tinha ainda um, o filho amado; mandou-o por último a eles, dizendo: Respeitarão o meu filho."
Lucas 20:13 — "Disse então o dono da vinha: Que farei? Mandarei o meu filho amado; talvez, vendo-o, o respeitem."
Marcos acrescenta o "um" e o "amado"; Lucas faz o dono pensar em voz alta e hesitar. Mateus é o mais seco dos três e o único sem nenhum dos dois traços.
O Filho amado, na voz do céu
Mateus 3:17 — "E eis que uma voz dos céus dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me agrado."
O "amado" que Mateus tira da parábola já foi dito duas vezes no evangelho, aqui e em Mateus 17:5, pela voz do Pai. Quem leu Mateus até este ponto completa sozinho a frase.
O enviado e quem o envia
Mateus 10:40 — "Quem recebe vocês, recebe a mim; e quem me recebe, recebe aquele que me enviou."
O princípio que sustenta a aposta do dono, dito por Jesus a respeito dos discípulos e de si mesmo: o modo como se trata o enviado é o modo como se trata quem enviou.
Deus que envia o Filho
Gálatas 4:4 — "Mas, quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei."
A linguagem do envio do Filho passou da parábola para a fórmula de fé: o mesmo verbo, sem a vinha e sem os lavradores. O que era história virou afirmação.
Os profetas mortos em Jerusalém
Mateus 23:37 — "Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes quis reunir os teus filhos, como a galinha reúne os seus pintinhos debaixo das asas, mas não quiseste!"
Dois capítulos depois, o mesmo esquema sai da parábola e vira lamento direto, com os mesmos verbos: matar, apedrejar, enviar.
O filho mandado aos irmãos
Gênesis 37:13 — "E Israel disse a José: 'Seus irmãos estão apascentando as ovelhas em Siquém, não é? Venha, vou enviá-lo até eles.' E ele respondeu: 'Aqui estou.'"
O paralelo entre o filho enviado da parábola e José enviado aos irmãos, com a ressalva de que a ligação é leitura cristã posterior, está desenvolvido no estudo de Gênesis 37:13. Na Septuaginta (a tradução grega da Bíblia hebraica, feita antes de Cristo), o verbo e a preposição de Jacó são os mesmos de Mateus: "enviar a eles".
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Por último, enviou-lhes o seu filho, dizendo: ‘A meu filho respeitarão.’
Texto grego (Textus Receptus)
Ὕστερον δὲ ἀπέστειλε πρὸς αὐτοὺς τὸν υἱὸν αὐτοῦ, λέγων, Ἐντραπήσονται τὸν υἱόν μου.
Transliteração
Hysteron de apesteile pros autous ton huion autou, legōn, Entrapēsontai ton huion mou.
Uma nota sobre o texto
O Textus Receptus ("texto recebido", a edição grega do século XVI que a ABC segue) e as edições críticas trazem as mesmas palavras. A única diferença é de grafia: apesteile no Textus Receptus, apesteilen nas edições críticas, com a letra final que o grego acrescenta diante de vogal ou em fim de frase. Conferido no interlinear do Bible Hub e na edição de Scrivener publicada pelo eBible.
Análise palavra por palavra
Ὕστερον — hysteron, "por último", "depois". Advérbio, do adjetivo hysteros, "o que vem depois". Indica posição na sequência, sem o peso de "fim dos tempos" que tem eschaton, a palavra de Marcos 12:6.
A mesma palavra aparece três vezes neste trecho de Mateus, e as três ocorrências conversam. Em Mateus 21:29, o primeiro filho diz "não quero" e "depois" (hysteron) se arrepende e vai. Em Mateus 21:32, os chefes viram a conversão dos cobradores de impostos e nem "depois" (hysteron) se arrependeram. Aqui, o dono manda o filho "por último" (hysteron). Que a repetição seja intencional não é demonstrável; mas ela está no texto, e o português a apaga com três palavras diferentes.
δὲ — de, partícula de ligação, "e", "mas". Marca a passagem para o último passo da série.
ἀπέστειλε — apesteile, "enviou". Aoristo (o tempo grego da ação vista como um todo) de apostellō, "enviar com uma missão", de onde vem apostolos, "apóstolo", "enviado". É o mesmo verbo usado para os servos em Mateus 21:34 e 21:36.
πρὸς αὐτοὺς — pros autous, "a eles", "até eles". A mesma expressão da Septuaginta em Gênesis 37:13, quando Jacó manda José aos irmãos: apostelō se pros autous, "vou enviá-lo até eles".
τὸν υἱὸν αὐτοῦ — ton huion autou, "o seu filho". Huios é a palavra comum para filho. Sem adjetivo, ao contrário de Marcos 12:6 e Lucas 20:13, que acrescentam agapētos, "amado" — o mesmo adjetivo da Septuaginta em Gênesis 22:2 e da voz do céu em Mateus 3:17.
λέγων — legōn, "dizendo". Particípio presente de legō, "dizer". A frase seguinte não é dita a ninguém; é o pensamento do dono posto em voz alta, como em Lucas 20:13 ("Que farei?").
Ἐντραπήσονται — entrapēsontai, "respeitarão". Futuro de entrepō, numa forma passiva que funciona com sentido de voz média (a ação que o sujeito faz e que o afeta).
A palavra é composta de en, "em, para dentro", e trepō, "voltar, virar". Na forma ativa, entrepō é "fazer alguém se voltar para si mesmo", isto é, envergonhar: Paulo escreve "não escrevo isto para envergonhar vocês" em 1 Coríntios 4:14. Na forma média, é voltar-se para alguém com constrangimento, e daí "respeitar", "ter consideração". O substantivo da mesma raiz, entropē, é "vergonha" (1 Coríntios 6:5).
O respeito que o verbo nomeia, portanto, é o de quem se constrange diante de alguém. Não é afeto e não é obediência.
Na Septuaginta, o uso mais conhecido está em Êxodo 10:3, quando Moisés pergunta ao faraó: "Até quando você se recusará a se humilhar diante de mim?" — e o verbo grego é este, entrapēnai. O faraó é o modelo de quem não se constrange diante do enviado de Deus. Em Sabedoria 2:10, o verbo aparece na boca dos ímpios que combinam oprimir o justo: "não respeitemos os cabelos brancos do velho". É o mesmo freio, recusado em voz alta.
No Novo Testamento, o juiz da parábola de Lucas é descrito como quem "não temia a Deus nem respeitava homem algum" (Lucas 18:2 e 18:4) — o mesmo verbo. E Hebreus 12:9 o usa para o respeito devido aos pais que nos corrigiam.
τὸν υἱόν μου — ton huion mou, "o meu filho". O verbo entrepomai leva objeto direto, "respeitar alguém". O possessivo de primeira pessoa faz a ligação: o respeito pedido ao filho é, na verdade, o respeito ao pai.
11. Conclusão
Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.
A primeira é que a parábola atinge aqui o seu ponto mais improvável de propósito. Um dono que, depois de servos mortos, manda o filho sozinho não é retrato de fazendeiro; é retrato de uma paciência que passou da conta. Mateus conta isso de forma mais seca do que Marcos e Lucas, sem "amado" e sem "talvez", e a secura deixa a decisão mais nua: o dono tem certeza, e a certeza é o que vai ser desmentida.
A segunda é que o que o dono esperava era pouco. O verbo da frase não pede amor nem obediência; pede o constrangimento mínimo diante do filho de alguém. O que a parábola mostra em seguida é a ausência até desse mínimo — e o versículo já prepara essa queda ao pôr a expectativa no nível mais baixo possível.
A terceira é que o versículo deixa visível a distância entre quem vive a história e quem a conta. O dono não sabe; Jesus, que já anunciou a própria morte, sabe. A ingenuidade é do personagem, não de quem conta. As versões de Marcos, Lucas e Tomé mudam detalhes, mas nenhuma muda isto: o filho é o último a ser mandado, e o último a ser recusado.













