assim como o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos”.
1. Introdução
Jesus acaba de mandar que quem quiser ser o primeiro seja escravo dos outros. Aqui ele dá a razão, e a razão é ele mesmo: não veio para ser servido, veio para servir — e para entregar a vida como preço de libertação de muitos.
A palavra traduzida por "resgate" aparece duas vezes em todo o Novo Testamento, aqui e no lugar paralelo de Marcos 10:45, e no mundo grego era termo de negócio: a quantia que se pagava para tirar alguém da escravidão ou do cativeiro. Esta é também a única vez, fora da última refeição, em que Jesus diz para que serve a sua morte. E ele diz "por muitos", não "por todos" — uma escolha de palavra sobre a qual se discute há dezoito séculos.
2. Contexto Histórico e Cultural
Comprar a liberdade de um escravo: como isso era feito de verdade
O santuário de Apolo em Delfos, na Grécia central, guarda a maior coleção conhecida de documentos sobre alforria no mundo antigo: cerca de mil e trezentas inscrições gravadas nas paredes, do começo do século II antes de Cristo até por volta do ano 100 depois de Cristo. São todas do mesmo tipo, e a rotina que descrevem explica a palavra deste versículo melhor do que qualquer definição de dicionário.
O problema jurídico era este: um escravo que juntasse dinheiro não podia comprar a própria liberdade, porque não tinha capacidade de fechar contrato — não era parte, era objeto. A solução foi uma venda de fachada: o senhor vendia o escravo ao deus, e o deus, que não usava o direito de propriedade que adquiria, deixava a pessoa na posse de si mesma. As inscrições traem a fórmula seca: tal cidadão "vendeu a Apolo Pítio" tal pessoa, "pelo preço de" tantas minas de prata.
Os valores estão anotados um por um. Uma jovem chamada Meda sai por duas minas; uma mulher chamada Zopira, por sete. Uma mina eram cem dracmas, e a dracma equivalia mais ou menos ao denário, o salário de um dia de trabalho braçal que abre este capítulo em Mateus 20:2 — duas minas eram cerca de duzentos dias de jornada, e sete quase dois anos. E um detalhe desfaz qualquer idealização: boa parte das inscrições traz uma cláusula obrigando a pessoa liberta a permanecer com o antigo senhor até a morte dele. A libertação era paga e ainda assim podia ser parcial.
O outro uso corrente: tirar alguém do cativeiro
A mesma palavra servia para o resgate de prisioneiros de guerra, prática comum e regulada; no mundo judaico, comprar de volta os que tinham sido levados cativos era obrigação religiosa de peso. E a lei de Israel conhecia o preço de recompra de pessoas: Levítico 25:47-52 regula o caso do israelita que se vendeu a um estrangeiro — um parente pode comprá-lo de volta, e o valor é calculado, ano por ano, pelos que faltam até a libertação geral. A instituição do resgate feito pelo parente já foi examinada no estudo de Gênesis 48:16.
Uma morte contada como preço: o testemunho de 4 Macabeus
A ideia de que a morte de um justo podia ser aceita como pagamento pelos outros já circulava entre judeus que escreviam em grego. O documento mais claro é o Quarto Livro dos Macabeus, obra judaica em língua grega que narra o martírio do velho Eleazar e dos sete irmãos sob a perseguição de Antíoco IV.
Na oração que o livro põe na boca de Eleazar, em 4 Macabeus 6:28-29, ele pede a Deus que se contente com o castigo do povo, que faça do seu sangue a purificação deles e que aceite a sua vida em troca das deles. A palavra grega usada ali é antipsychon ("vida em lugar de vida"), e reaparece no fecho do livro, em 4 Macabeus 17:21-22, onde a morte dos mártires é descrita como antipsychon pelo pecado da nação.
O que esse texto estabelece é modesto e importante: a construção "a vida de um em lugar da vida de muitos" era formulável em grego, dentro do judaísmo, sem nenhuma influência cristã. Não se conclui daí que Mateus ou Jesus dependam de 4 Macabeus — a datação do livro é discutida e nada indica citação —, e sim que a frase deste versículo não era ininteligível para quem a ouviu.
3. Análise Teológica do Versículo
"assim como o Filho do homem"
A frase abre com uma comparação, e isso define o tipo de argumento. Jesus não acrescenta uma segunda regra à ordem do versículo 27: apresenta um caso. Isso muda o peso da exigência anterior — "seja escravo" dito por alguém que se mantém acima é ordem de superior; dito por quem em seguida descreve a própria descida, é convite a acompanhar.
"não veio para ser servido, mas para servir"
Aqui há um detalhe que a tradução não pode mostrar e que muda a leitura do par de versículos. O grego tem duas palavras para serviço: a do serviço à mesa, usada no versículo 26 para o "servidor", e a da propriedade, usada no versículo 27 para o "escravo". Nesta frase Jesus usa a primeira, duas vezes — a mais branda. Ele não diz "vim para ser escravo": a palavra dura, que ele mandou os discípulos assumirem, não é a que aplica a si mesmo.
Isso é verificável, e não convém suavizá-lo em nenhuma das duas direções. Não significa que ele esteja se poupando: o que reivindica em seguida — entregar a vida — é mais do que qualquer escravidão exige. Mas também não é verdade que o versículo 28 repita o 27 com o sujeito trocado, e o evangelho não constrói a simetria perfeita que a pregação costuma montar aqui. Outro autor do Novo Testamento chega a usar a palavra dura para Jesus, em Filipenses 2:7; Mateus não escreve isso.
Há ainda um segundo ponto. A negação não pode significar que ele nunca tenha sido servido, porque o próprio Evangelho de Mateus registra duas vezes o contrário, com este mesmo verbo: anjos o servem em Mateus 4:11, e mulheres que o seguiram desde a Galileia estão junto da cruz, tendo vindo "para o servir", em Mateus 27:55. A negação é de finalidade, não de fato.
"e dar a sua vida em resgate por muitos"
O verbo é "dar", simples — não o de "entregar" que domina os anúncios da paixão, inclusive o dos versículos 18 e 19 deste capítulo. Naquelas frases ele é objeto de uma ação alheia; nesta, é o sujeito que dá, e o evangelho não harmoniza as duas descrições do mesmo acontecimento.
Esta é a única declaração de finalidade da própria morte que Jesus faz em Mateus fora da última refeição — e a única formulada na linguagem de preço. Os três anúncios da paixão, em Mateus 16:21, 17:22 e 20:18-19, dizem que ele vai morrer, com detalhes crescentes, e nunca dizem para quê. A outra declaração está em Mateus 26:28, sobre o cálice: sangue derramado "em favor de muitos, para o perdão dos pecados". Duas frases, e as duas dizem "muitos" — uma no vocabulário do mercado, outra no do altar.
E há o que o versículo não diz: a quem o preço é pago. A imagem, tomada ao pé da letra, exige um recebedor — nas inscrições de Delfos o dinheiro ia para o senhor, por intermédio do deus —, e o texto não nomeia nenhum. Essa lacuna gerou três respostas que atravessaram a história: Orígenes e Gregório de Nissa leram que o preço foi pago ao poder que detinha os cativos, isto é, ao diabo; Anselmo de Cantuária, no século XI, rejeitou que o diabo tivesse direito a receber e situou a dívida do lado de Deus, na ordem violada; Pedro Abelardo, contemporâneo dele, recusou as duas e leu a morte como ato de amor que transforma quem o contempla. Nenhuma das três pode invocar este versículo como prova: ele fornece a imagem e cala sobre o destinatário.
Da preposição traduzida por "por" — a do lugar de outro, a da troca — o estudo de Mateus 17:27 já trata no item 10. E a pergunta de Mateus 16:26, "o que o homem dará em troca de sua alma?", encontra aqui a sua contrapartida: lá ninguém tem com o que se resgatar; aqui outro paga.
Por que "muitos" e não "todos"
A pergunta é antiga: a palavra limita o alcance da morte de Jesus a um grupo?
Primeira leitura: "muitos" quer dizer "não todos". É o sentido natural da palavra em português e em grego. Nessa chave o versículo delimita os beneficiários, e é um dos textos invocados em defesa de uma expiação de alcance restrito.
Segunda leitura: "muitos" é hebraísmo e quer dizer "a multidão", isto é, todos. Em hebraico e em aramaico, a expressão traduzida por "muitos" funciona frequentemente como coletivo — os muitos, a massa — em oposição a "um", e não em oposição a "todos". O argumento se apoia sobretudo em Isaías 53:11-12, onde o Servo justifica "muitos" e carrega o pecado de "muitos" num contexto em que o alcance não parece restringido, e onde a versão grega usa exatamente a palavra deste versículo.
Terceira leitura: os dois planos são distintos. A morte, como fato, vale para todos; os "muitos" são aqueles em quem ela produz efeito. Meyer (Heinrich Meyer, exegeta alemão do século XIX) formula assim, e é o modo mais comum de conciliar este versículo com 1 Timóteo 2:6, onde a mesma imagem aparece com a palavra "todos".
O que se pode afirmar com segurança é isto: a palavra diz que os beneficiados são muitos e contrapõe esse número a um. O que ela não faz é decidir o alcance. Quem lê "muitos" como restrição importa a oposição "muitos × todos", que o versículo não enuncia; quem lê "muitos" como "todos" importa um uso semítico que é real mas não obrigatório aqui. A disputa se decide com outros textos.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
O Filho do homem
É o título com que Jesus fala de si mesmo, e só ele o usa nos evangelhos; a expressão ganhou peso a partir de Daniel 7:13, em que alguém "como um filho de homem" recebe domínio eterno, e o estudo de Mateus 18:11 a examina no item 10. Aqui ela importa pelo contraste: o título vinha de uma cena de entronização, e a frase que ele encabeça é sobre servir à mesa e pagar um preço.
Os "muitos"
O versículo não os identifica: não diz se são os doze, se é Israel, se é a humanidade inteira. Essa indefinição é do texto, não da tradução — e é o restante do Novo Testamento, não Mateus, que começa a preencher o espaço, com "por todos" em 1 Timóteo 2:6 e com um "vós" dirigido a uma comunidade concreta em 1 Pedro 1:18.
Quem está presente
Os doze, no caminho para Jerusalém, depois do terceiro anúncio da morte e do pedido da mãe dos filhos de Zebedeu. A frase encerra a resposta à indignação dos dez.
A afirmação mais carregada que Mateus registra sobre o sentido da morte de Jesus não é feita num discurso formal nem diante de multidão: é feita para acalmar uma briga sobre lugares de honra. Matthew Henry (pastor inglês do século XVIII, autor do comentário devocional mais lido em língua inglesa) observou que raramente uma verdade de tal alcance foi dita de modo tão incidental.
O lugar paralelo
A mesma frase está em Marcos 10:45, praticamente palavra por palavra e no mesmo ponto da narrativa. Lucas conta a mesma discussão sobre precedência, mas na última refeição e sem esta frase: em Lucas 22:27 Jesus diz apenas que está no meio deles como quem serve, e a parte do resgate não aparece. Não é possível decidir se Lucas a conhecia e a omitiu, ou se trabalhava com outra forma do dito.
5. Pontos de Ensino
A ordem tem um precedente antes de ter uma razão
O versículo não justifica o mandamento anterior com um princípio geral sobre humildade. Justifica com um caso. Quem ensina este trecho como doutrina moral e deixa o exemplo de lado inverte a ordem do argumento: a exigência do versículo 27 depende inteiramente de quem a está dizendo.
O preço foi pago por quem não tinha com o que pagar
A imagem é de alforria, e a alforria tem uma característica que a pregação às vezes perde: quem sai livre não contribuiu com nada. Nas inscrições de Delfos o valor sai do bolso de terceiros, e o escravo, mesmo tendo juntado a quantia, não podia comprar-se sozinho por falta de capacidade jurídica. Aplicada a este versículo, a imagem exclui qualquer forma de pagamento parcelado pelo beneficiado.
"Por muitos" não é resposta pronta a nenhum dos lados
Quem usa este versículo para restringir o alcance da morte de Jesus, e quem o usa para universalizá-lo, estão os dois acrescentando algo. A palavra afirma que os beneficiados são muitos e que a vida entregue é uma; sobre o alcance, ela é silenciosa. O mesmo vale para o credor: a imagem do preço pede alguém que receba, e Mateus não informa quem.
6. Aspectos Filosóficos
Uma vida pode ser preço de outras?
O versículo põe um problema que não é religioso, e sim de lógica moral: a transferência. Uma dívida em dinheiro pode ser paga por terceiro sem nenhuma dificuldade conceitual — o credor recebe o valor e não lhe importa de quem. Mas responsabilidade não funciona assim: ninguém é honesto no lugar de outro, ninguém se arrepende por procuração. Quando se tenta transferir culpa, a operação parece perder o sentido junto com o objeto.
Há uma segunda objeção, mais moderna e igualmente séria. A filosofia moral distingue o que tem preço, e por isso pode ser substituído por um equivalente, daquilo que tem dignidade e por isso não tem equivalente nenhum — a formulação clássica é de Kant. Se a pessoa é exatamente aquilo que não tem preço, chamar uma vida de "resgate" seria aplicar a categoria errada, tratando como mercadoria o que por definição não é.
Rémi Brague: nenhum sistema produz o próprio fundamento
O filósofo francês Rémi Brague (nascido em 1947), historiador da filosofia medieval árabe e judaica, trabalhou um problema que ilumina este versículo por um ângulo inesperado: de onde vem a legitimidade de algo, quando ela não pode ser produzida por dentro.
Em As âncoras no céu (2011) ele parte de uma experiência mental. Imagine que a técnica tenha resolvido tudo e que a existência da geração seguinte passe a depender de alguém apertar um botão. A pergunta não é se a vida é agradável para quem já está vivo — é se ela é um bem tal que autorize chamar outros à existência. E essa pergunta, sustenta Brague, não tem resposta que se extraia de dentro da própria vida: afirmar que existir é melhor do que não existir é uma decisão que a ciência não fornece e que a experiência não demonstra. Daí o título — a âncora, se existe, está pendurada em cima, e não fincada embaixo.
Aplicada a este versículo, a tese encaixa com precisão. A imagem do resgate descreve um sistema de dívidas que não consegue se resolver por dentro: o escravo que juntou o dinheiro não podia comprar-se, porque lhe faltava a capacidade de ser parte no contrato — e foi exatamente por isso que se inventou a venda ao deus, como mostra o item 2. Quem está dentro da relação não tem como sair dela pelos próprios meios. O preço vem de fora, e é pago por quem não devia nada.
Uma ordem que não se sustenta em si mesma
Brague dedicou A lei de Deus (2005) à história da ideia de norma ancorada fora da comunidade que obedece, e o argumento central é que uma regra puramente autofundada — o grupo manda em si mesmo, por decisão do grupo — pode ser revogada pela mesma vontade que a instituiu, e portanto nunca obriga de verdade. A ordem do versículo 27 é desse tipo enquanto está sozinha: "seja escravo dos seus companheiros" é regra que o grupo poderia suspender amanhã, por acordo interno. O que esta frase faz é retirá-la do regime da decisão coletiva e ancorá-la num acontecimento. Um grupo pode revogar uma convenção; não pode revogar um fato.
O limite
Nada disso demonstra que a transferência de responsabilidade seja inteligível. A objeção de abertura continua de pé, e o versículo não a responde: afirma a coisa sem explicar o mecanismo. O que Brague oferece é a descrição de por que o fundamento teria de vir de fora — menos do que uma solução, e é o que há. Ele não escreve sobre este versículo, e atribuir a Mateus uma teoria da substituição seria pôr no texto o que dezoito séculos de discussão puseram nele depois.
7. Aplicações Práticas
A ordem difícil só se sustenta sobre o exemplo
Quem quiser aplicar o versículo 27 na vida real vai descobrir que a exigência não se sustenta sozinha: ninguém entrega a posse de si a um grupo de colegas por convencimento moral, porque é preço alto demais para ser pago por argumento. Este versículo é a única base que o texto oferece — alguém já fez isso antes, e mais do que isso.
A consequência prática é sobre a ordem do ensino. Começar pela exigência e deixar o exemplo para o fim produz uma moral sem fundamento, e quem tenta cumprir o versículo 27 pela força da vontade normalmente desiste ou finge.
A gratidão que vira dívida é o oposto do que a palavra diz
A imagem do resgate é de quitação, não de empréstimo. Isso tem efeito direto sobre uma forma corrente de religiosidade: a que trata a morte de Jesus como crédito a ser amortizado com serviço, esforço e culpa. Essa contabilidade inverte a imagem do versículo — quem foi resgatado não passa a dever ao resgatador, ele deixa de dever ao antigo dono. É a diferença entre gratidão e parcelamento, e ela é grande na prática.
Receber cuidado não contradiz servir
O próprio Mateus registra Jesus sendo servido por anjos e por mulheres, com o mesmo verbo que aqui aparece negado. A negação é de finalidade, não de fato — e disso sai uma aplicação incomum, útil sobretudo a quem trabalha cuidando de outros: aceitar ser servido não é falha de vocação. O que o versículo exclui é organizar a própria vida para ser servido.
Onde a aplicação para
Boa parte deste versículo não tem aplicação prática nenhuma, e forçá-la produz enchimento: a pergunta de a quem o preço foi pago não muda o dia de amanhã de ninguém, e o alcance de "muitos" é questão de doutrina, não de conduta. A frase é, antes de tudo, uma afirmação sobre o que aconteceu.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
A pergunta "a quem o resgate foi pago" está bem posta?
Talvez não, e isso raramente é dito. Numa comparação, não é obrigatório que todos os elementos tenham correspondente: quando se diz que alguém "é uma rocha", ninguém pergunta de que pedreira. Exigir um recebedor pode ser exigir da imagem mais do que ela oferece.
Contra essa saída pesa um fato: o Novo Testamento desenvolve a linguagem do resgate em várias direções e em nenhuma delas nomeia o destinatário. Isso é um dado, não um esquecimento a ser corrigido.
Jesus disse isso, ou a igreja formulou depois e pôs na boca dele?
A questão está em disputa entre estudiosos, e os dois lados têm argumento.
A favor de ser formulação posterior: a frase enuncia uma teologia da morte de Jesus que se desenvolve nas cartas de Paulo, e é o único lugar de Mateus, fora da última refeição, em que ela aparece — um dito isolado desse tipo pode ser resumo da pregação da comunidade posto na cena.
A favor de ser antiga: o vocabulário não é o de Paulo — ele usa palavras da mesma família, mas não esta —, e a frase está presa a uma cena de discussão por precedência, que não é o tipo de moldura que uma fórmula doutrinária escolheria. Some-se a isso que a ideia já era formulável em grego dentro do judaísmo, como mostra o item 2.
Não é possível decidir com os dados disponíveis. O que se pode afirmar é que a frase está nos dois evangelhos mais antigos, praticamente igual, e que nada nela pressupõe vocabulário cristão posterior.
Mateus liga a morte de Jesus ao Servo de Isaías?
Só em parte, e o dado é instrutivo. Mateus cita Isaías 53:4 em Mateus 8:17, mas aplica a frase às curas — "ele tomou sobre si as nossas fraquezas e carregou as nossas doenças" —, não à morte. Quando quer o Servo, cita a passagem de Isaías 42 em Mateus 12:18-21, sobre a mansidão e as nações, e também não fala de morte.
Quer dizer: o evangelho usa Isaías com abundância e nunca o usa para explicar a cruz. Este versículo é o ponto em que o vocabulário de Isaías 53 mais se aproxima, e mesmo aqui sem citação. A leitura de Mateus 20:28 à luz do Servo sofredor é antiga, coerente e amplamente aceita — e é leitura, não algo que Mateus enuncie.
9. Conexão com Outros Textos
A ordem que este versículo justifica
Mateus 20:27 — "e quem quiser ser o primeiro entre vocês seja seu escravo;"
A exigência, e o "assim como" que abre esta frase é o que a sustenta.
O outro lugar em que Mateus diz para que serve a morte
Mateus 26:28 — "Isto é o meu sangue, o sangue do novo testamento, que é derramado em favor de muitos, para o perdão dos pecados."
A segunda das duas declarações, e a única com o efeito nomeado. As duas dizem "muitos"; esta troca a imagem do mercado pela do sacrifício e usa, no grego, uma preposição mais branda.
O lugar paralelo
Marcos 10:45 — "Pois o Filho do Homem também não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos."
Praticamente idêntico. São os dois únicos lugares do Novo Testamento em que a palavra do resgate aparece.
O cântico do Servo
Isaías 53:12 — "porque derramou a sua alma até a morte e foi contado com os transgressores. Contudo, levou sobre si os pecados de muitos e intercedeu pelos transgressores."
A fonte provável do "muitos", que aparece duas vezes no cântico, em Isaías 53:11 e 53:12: a versão grega do Antigo Testamento usa aqui a mesma palavra deste versículo. Mateus não cita a passagem.
A mesma imagem com "todos"
1 Timóteo 2:6 — "que se deu a si mesmo em resgate por todos — testemunho que se deve dar em seus tempos;"
O grego usa aqui uma palavra composta, formada sobre a deste versículo, e troca "muitos" por "todos". É o texto que a leitura inclusiva invoca, e é de outro autor.
O preço que não é em prata
1 Pedro 1:18-19 — "sabendo que fostes resgatados das vossas práticas vãs (…) não por coisas corruptíveis, como o ouro ou a prata, mas pelo sangue precioso de Cristo, como de um cordeiro sem defeito e imaculado,"
A carta nega expressamente o metal que as inscrições de Delfos contam em minas — e conserva a estrutura do negócio.
O preço de recompra de uma pessoa na Lei
Levítico 25:51 — "Se ainda faltarem muitos anos, conforme eles restituirá do dinheiro pelo qual foi comprado o preço da sua redenção."
O lugar da Lei em que se nomeia o valor de tirar um ser humano da escravidão, e a versão grega usa aqui a palavra deste versículo.
A pergunta que fica sem resposta e é respondida aqui
Mateus 16:26 — "De que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou o que o homem dará em troca de sua alma?"
Lá a pergunta não tem resposta possível: nada que o homem possua chega ao preço. Aqui o preço aparece, e não é dele.
O verbo negado, nos dois lugares em que o evangelho o afirma
Mateus 4:11 — "Então o diabo o deixou; e eis que anjos se aproximaram e o serviram."
Mateus 27:55 — "Estavam ali muitas mulheres, observando de longe; elas haviam seguido Jesus desde a Galileia, para o servir."
O mesmo verbo de "ser servido", nas duas cenas em que Mateus registra que ele foi servido — uma no começo do ministério, outra na cruz.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
assim como o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos”.
Texto grego (Textus Receptus)
ὥσπερ ὁ υἱὸς τοῦ ἀνθρώπου οὐκ ἦλθε διακονηθῆναι, ἀλλὰ διακονῆσαι, καὶ δοῦναι τὴν ψυχὴν αὐτοῦ λύτρον ἀντὶ πολλῶν.
Transliteração
hōsper ho huios tou anthrōpou ouk ēlthe diakonēthēnai, alla diakonēsai, kai dounai tēn psychēn autou lytron anti pollōn.
Uma nota de manuscrito
O versículo é estável: as edições críticas e o Textus Receptus (o texto grego impresso a partir do século XVI, base das traduções protestantes clássicas e da tradução desta obra) coincidem palavra por palavra, salvo a grafia de "veio".
Há, porém, uma curiosidade logo depois dele: o Códice Bezae (manuscrito bilíngue grego e latino do século V) e o Códice Beratinus acrescentam, após o versículo 28, um trecho que nenhuma edição grega impressa traz, com uma cena de convite a jantar parecida com Lucas 14:8-10. O acréscimo é da tradição latina antiga e não pertence a Mateus, mas revela como copistas antigos leram o trecho: como sendo sobre precedência em banquete.
Análise palavra por palavra
ὥσπερ ... οὐκ ἦλθε — hōsper ... ouk ēlthe, "assim como ... não veio".
Hōsper é partícula comparativa, forma enfática de "como", que liga esta frase à ordem do versículo 27 e estabelece a medida entre as duas; Mateus a usa dez vezes, quase sempre em comparações de ensino. O título "Filho do homem" está no estudo de Mateus 18:11, item 10.
Ēlthe é aoristo do indicativo de erchomai, "vir", e apresenta a vinda como fato completo. A construção "veio para", com infinitivo de finalidade, é o molde com que Jesus resume a própria missão em Mateus, examinado no mesmo estudo. O que é próprio deste versículo é a negação antes do infinitivo: ela nega a finalidade, não o fato.
διακονηθῆναι ... διακονῆσαι — diakonēthēnai ... diakonēsai, "ser servido ... servir".
O mesmo verbo duas vezes, no mesmo tempo, em vozes opostas: primeiro o infinitivo aoristo passivo, depois o aoristo ativo. O grego produz o contraste trocando a terminação, e as duas formas ficam lado a lado, separadas pelo "mas".
O verbo é diakoneō, do mesmo campo da palavra "servidor" do versículo 26: o serviço prestado, com a mesa por cenário original. Não é o verbo formado sobre a palavra "escravo" do versículo 27, que existe em grego e que Jesus não usa aqui. Em Mateus ele aparece cinco vezes, e duas delas registram Jesus sendo servido: pelos anjos em Mateus 4:11 e pelas mulheres que o seguiram desde a Galileia, em Mateus 27:55.
καὶ δοῦναι τὴν ψυχὴν αὐτοῦ — kai dounai tēn psychēn autou, "e dar a sua vida".
Infinitivo aoristo de didōmi, "dar", coordenado ao anterior: os dois dependem do mesmo "veio para", e servir e dar a vida são, na sintaxe, uma finalidade só em duas partes. O verbo é o simples, e não o composto paradidōmi, "entregar", que domina os anúncios da paixão. Psychē é a palavra examinada no estudo de Mateus 16:26, item 10.
λύτρον — lytron, "resgate".
Esta é a palavra do versículo, e o primeiro dado sobre ela é a raridade: lytron aparece duas vezes em todo o Novo Testamento — aqui e em Marcos 10:45, que é o lugar paralelo. Não há uma terceira ocorrência em nenhum evangelho, carta ou apocalipse.
A formação explica o sentido. A raiz é o verbo lyō, "desatar, soltar" — o mesmo do "ligar e desligar" de Mateus 16:19 e Mateus 18:18 —, e a terminação -tron forma, em grego, nomes de instrumento ou de meio. Lytron é literalmente "aquilo com que se solta", e daí "o preço pelo qual alguém é solto": não é a soltura nem o soltador, é o meio de pagamento.
No grego comum o termo pertence ao vocabulário de negócios, com dois empregos principais: o preço pago para libertar um escravo e o pago para resgatar um prisioneiro, ambos mostrados no item 2. Na versão grega do Antigo Testamento é usado, quase sempre no plural lytra, para o valor de recompra — Êxodo 21:30 e 30:12, Números 35:31-32, e Levítico 25:24, 26, 51 e 52, onde nomeia o valor de recompra de uma terra e de uma pessoa. Do lado hebraico traduz sobretudo kofer, "preço de compensação", e os termos da família de ga'al, o resgate feito pelo parente, examinado no estudo de Gênesis 48:16.
A família da palavra é ampla no Novo Testamento, ainda que o substantivo simples seja raro: o composto antilytron aparece uma única vez, em 1 Timóteo 2:6; o verbo lytroō em Lucas 24:21, Tito 2:14 e 1 Pedro 1:18; e apolytrōsis, "libertação mediante pagamento", cerca de dez vezes, sobretudo em Paulo. A raiz produziu uma família inteira de termos cristãos, e o substantivo puro só aparece nesta frase e no seu paralelo.
Há ainda um detalhe de caso que muda a leitura. Lytron está no acusativo, exatamente como "a sua vida", e sem preposição entre os dois — em grego isso é aposição, e as duas expressões nomeiam a mesma coisa. Não está escrito "dar a sua vida para conseguir um resgate", nem "dar a sua vida junto com um resgate": está escrito que a vida é o resgate. Nada é pago além dela, e ela não é meio de obter o pagamento.
ἀντὶ πολλῶν — anti pollōn, "por muitos".
Anti é a preposição da substituição e da troca — "em lugar de", "em troca de" —, e o seu campo semântico está desenvolvido no estudo de Mateus 17:27, item 10. Pollōn é o genitivo plural masculino de polys, "muito", exigido pela preposição, na forma do plural substantivado: "de muitos", isto é, de muitas pessoas.
Dois dados de comparação. A versão grega de Isaías 53:11-12 usa esta mesma palavra, nas duas frases em que o Servo justifica muitos e carrega o pecado de muitos. E em Mateus 26:28 ela reaparece no genitivo plural, mas governada por peri, "a respeito de, em favor de", mais branda do que a da substituição: o evangelho usa "muitos" nas duas declarações e troca a preposição.
Quanto ao alcance, a palavra grega não decide nada por si. O hebraico e o aramaico usam o termo correspondente, rabbim, com valor frequentemente coletivo — "os muitos", a multidão, em oposição a um —, e é esse uso que sustenta a leitura inclusiva; o estudioso alemão Joachim Jeremias, que aparece no estudo de Mateus 16:28 por outro assunto, dedicou a esta frase um trabalho inteiro defendendo essa posição. Mas o grego de Mateus não é hebraico.
11. Conclusão
Do que foi examinado decorrem quatro conclusões.
A frase é uma declaração de finalidade, e é a única do gênero fora da última refeição. Os anúncios da paixão dizem o que vai acontecer; este versículo diz para quê. Mateus faz isso duas vezes, aqui e no cálice — uma no vocabulário do mercado, outra no do sacrifício — e nas duas com a mesma palavra para os beneficiados.
A palavra escolhida é de negócio, e o negócio era conhecido. Mil e trezentas inscrições em Delfos registram o preço em prata pelo qual pessoas deixaram de pertencer a alguém. Quem ouviu a frase tinha o valor de mercado na cabeça — e tinha também o fato de que o libertado nunca paga.
O texto não diz a quem se paga, e a lacuna é dele. Toda doutrina que nomeie o destinatário completa o quadro com material de fora. As três respostas clássicas têm defensores respeitáveis desde o século III, e nenhuma pode alegar que o versículo a enuncia.
"Muitos" contrapõe-se a "um", não a "todos". A oposição que a frase constrói é entre uma vida e várias pessoas. Usá-la para restringir o alcance da morte de Jesus, ou para estendê-lo a toda a humanidade, é nos dois casos trazer de fora uma pergunta que o versículo não faz.
Fica ainda a assimetria que o grego produz e a tradução não mostra: aos discípulos foi ordenada a palavra mais dura, "escravo", e Jesus aplica a si mesmo a mais branda. Ele não se iguala a eles na condição — vai além, no que entrega. A simetria que a pregação costuma montar aqui não está no texto.













