Eis o meu servo, a quem escolhi, o meu amado, em quem a minha alma se agrada. Porei sobre ele o meu Espírito, e ele anunciará a justiça às nações.
1. Introdução
Depois de curar as multidões e ordenar que não o tornassem conhecido (12:15-16), Mateus faz uma pausa e explica o porquê de tudo aquilo: "para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta Isaías" (12:17). O versículo 18 abre a mais longa citação do Antigo Testamento em todo o Evangelho de Mateus — os quatro versículos de Isaías 42:1-4, que a tradição chama de o primeiro "Cântico do Servo". E a citação começa por uma apresentação solene: "Eis o meu servo, a quem escolhi, o meu amado, em quem a minha alma se agrada."
Vale notar de imediato quem fala. Não é o Servo dirigindo-se a Deus, nem um narrador descrevendo de fora. É Deus quem fala, e fala sobre o seu Servo, em terceira pessoa: "meu servo", "meu amado", "porei sobre ele o meu Espírito". É uma apresentação divina, uma espécie de ato de posse e de escolha. Mateus toma essa fala e a aplica a Jesus, dizendo que o retrato do Servo manso, escolhido e cheio do Espírito se cumpre nele. Por trás dessa aplicação, porém, há uma pergunta antiga e honesta: quem era, originalmente, esse "servo" na boca de Isaías? Este estudo enfrenta a questão de frente, sem suavizar o que é debatido e sem inventar certezas que o texto não oferece.
2. Contexto Histórico e Cultural
Isaías 42 pertence à seção do livro (capítulos 40-55) escrita para consolar Israel no horizonte do exílio babilônico. É um tempo de derrota nacional: o templo em ruínas, o povo deportado, a pergunta angustiante de se Deus abandonara a sua aliança. Nesse cenário, surgem quatro poemas (42:1-4; 49:1-6; 50:4-9; 52:13-53:12) que apresentam uma figura misteriosa chamada "servo do SENHOR" (em hebraico, ebed YHWH), escolhida por Deus para uma missão que envolve justiça, luz às nações e, no cântico final, sofrimento redentor.
A palavra "servo" não era um insulto no mundo antigo. Aplicada a alguém diante de Deus, era um título de honra e confiança: Moisés é chamado "servo do SENHOR", assim como Davi e os profetas. Servir a Deus significava ser instrumento escolhido de sua vontade, não escravo humilhado. Por isso a apresentação de Isaías 42:1 soa como uma investidura: Deus aponta para alguém e diz "eis o meu servo", como um rei que apresenta o seu escolhido diante da corte.
No tempo de Mateus, judeus liam esses cânticos de vários modos. Havia leituras que identificavam o Servo com a própria nação de Israel — o que o texto de Isaías às vezes faz explicitamente (Isaías 41:8; 44:1: "tu, Israel, meu servo"). Havia leituras que viam nele uma figura individual futura. E havia a novidade cristã, para a qual o Servo escolhido, sobre quem repousa o Espírito e que traz justiça às nações, encontrava seu rosto em Jesus de Nazaré. Mateus escreve dentro desse debate vivo, e sua citação é uma tomada de posição interpretativa, não uma constatação neutra.
3. Análise Teológica do Versículo
"Eis o meu servo, a quem escolhi"
A frase é uma apresentação e uma eleição. Deus não descreve o Servo de longe: ele o escolhe, o toma para si, o designa para uma tarefa. Em Mateus, isso se lê como a confirmação de que Jesus não é um pretendente que se autoproclama, mas o enviado escolhido do Pai. A iniciativa é de Deus. O Servo existe porque foi chamado, não porque se ofereceu.
"o meu amado, em quem a minha alma se agrada"
Aqui o leitor atento dos Evangelhos ouve um eco inconfundível. No batismo de Jesus, a voz do céu declarou: "Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo" (Mt 3:17), e o mesmo se repete na transfiguração (Mt 17:5). As palavras "amado" e "em quem me agrado/comprazo" são praticamente as mesmas de Isaías 42:1. Mateus quer que percebamos: aquilo que a voz divina proclamou sobre Jesus no batismo é a linguagem do Servo de Isaías. A identidade de Filho amado e a vocação de Servo escolhido se sobrepõem. É importante frisar, de novo, o modo da fala: é Deus quem diz "meu amado", falando sobre o Servo — não uma oração dirigida a Deus, e sim a declaração do Pai a respeito daquele que escolheu.
"porei sobre ele o meu Espírito"
A capacitação do Servo não vem de força própria, mas do Espírito de Deus derramado sobre ele. No batismo, novamente, "o Espírito de Deus desce como pomba" e repousa sobre Jesus (Mt 3:16). Em Mateus, a citação de Isaías 42 ilumina precisamente a controvérsia anterior do capítulo: os fariseus atribuíam os exorcismos de Jesus a Belzebu (que virá em 12:24), mas o texto profético afirma que é o Espírito de Deus que está sobre o Servo. A obra de Jesus é obra do Espírito, não de poder demoníaco.
"e ele anunciará a justiça às nações"
Esta é talvez a linha mais surpreendente. A palavra traduzida por "justiça" corresponde ao hebraico mishpat, que significa juízo, direito, a ordem correta das coisas segundo Deus; o grego de Mateus usa krisis, "juízo". E o destinatário são "as nações", os gentios — os povos de fora de Israel. Já no primeiro versículo da citação, portanto, Mateus planta a bandeira do alcance universal da missão do Servo. O Messias manso, que não grita nas ruas, é ao mesmo tempo aquele que leva o juízo justo de Deus para além das fronteiras de Israel. O Evangelho, que terminará com a ordem de fazer discípulos "de todas as nações" (Mt 28:19), já tem aqui, no meio do relato, o seu anúncio profético.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Deus (o SENHOR) — o locutor do versículo. É ele quem apresenta, escolhe, ama e capacita o Servo. Toda a frase é fala divina em terceira pessoa sobre o escolhido; entender isso evita o erro de ler o texto como oração ou como autodescrição do Servo.
O Servo — a figura central, apresentada mas não nomeada. Em Isaías, sua identidade é objeto de debate (Israel? um profeta? o Messias?). Para Mateus, o Servo é Jesus, sobre quem o Espírito desceu e a quem o Pai chamou "amado".
Jesus — aquele a quem Mateus aplica a profecia. As curas em massa (12:15), a recusa do alarde (12:16) e o poder no Espírito (contra a acusação de Belzebu, 12:24) formam o retrato que, segundo o evangelista, cumpre Isaías 42.
Isaías, o profeta — a voz citada. Mateus o nomeia expressamente (12:17), atribuindo a ele o Cântico do Servo. É o elo que liga a cena do Evangelho ao antigo poema do exílio.
As nações (os gentios) — os destinatários finais do juízo/justiça do Servo. Sua menção logo no primeiro versículo antecipa o horizonte universal do Evangelho, que culminará na Grande Comissão.
O evento — não uma ação nova, mas a chave interpretativa que Mateus insere: a citação de Isaías 42:1-4 (12:18-21) que explica todo o comportamento de Jesus nos versículos anteriores.
5. Pontos de Ensino
A escolha parte de Deus — "a quem escolhi". O Servo é constituído pela eleição divina, não pela ambição própria. Ensina que a verdadeira vocação nasce do chamado de Deus, e que a autoridade legítima é recebida, não arrancada.
Amor e missão andam juntos — o mesmo Servo é "amado" e "escolhido" para uma tarefa. O afeto do Pai e o envio à obra não se opõem: ser amado por Deus inclui ser enviado por ele. O amor divino não é ocioso; ele comissiona.
O Espírito capacita — "porei sobre ele o meu Espírito". A obra do Servo não se sustenta em recursos humanos, e sim na presença do Espírito de Deus. Ensina que o serviço que dura é o que se faz na dependência de Deus, não na força da carne.
A justiça tem endereço universal — "anunciará a justiça às nações". Desde o início, a missão do Servo transborda as fronteiras de um só povo. Ensina que o propósito de Deus sempre teve em vista todos os povos, e que a exclusão dos "de fora" contradiz o desenho profético.
Grandeza sem estardalhaço — este Servo escolhido e amado é o mesmo que, nos versículos seguintes, "não vai brigar nem gritar" (12:19). Ensina que poder e mansidão não se excluem: a maior autoridade pode vestir-se de discrição.
6. Aspectos Filosóficos
O versículo levanta uma questão que a filosofia da religião conhece bem: a da identidade coletiva versus a identidade individual. Em Isaías, o "servo" às vezes é claramente a nação de Israel, chamada a ser luz entre os povos; outras vezes parece uma pessoa distinta que atua em favor de Israel. Essa oscilação não é necessariamente um defeito do texto. Ela reflete um modo antigo de pensar em que um indivíduo pode representar e concentrar em si o destino de todo um povo — o que os estudiosos chamam de "personalidade corporativa". O Servo pode ser, ao mesmo tempo, Israel idealizado e alguém que encarna a vocação de Israel quando a nação falha nela. Filosoficamente, é a ideia de que o particular pode condensar o universal.
Há também a questão do juízo que se anuncia às nações. "Justiça" (mishpat) aqui não é primeiro condenação, mas o restabelecimento da ordem correta, o direito que endireita o que está torto. Anunciá-lo "às nações" propõe uma pretensão de universalidade: existe uma justiça válida para todos os povos, não apenas os costumes de cada tribo. Isso dialoga com o velho debate entre relativismo e universalismo moral. O texto profético aposta que há uma retidão que vem de Deus e vale para toda a humanidade — uma aposta que a filosofia jamais deixou de discutir.
Por fim, convém nomear o desconforto interpretativo com honestidade, sem sensacionalismo. A identidade do Servo em Isaías é genuinamente incerta no plano histórico. Ler o poema como profecia direta e exclusiva de Jesus é a interpretação cristã, teologicamente coerente e antiga, mas não é a única leitura possível do hebraico original, e a erudição reconhece isso. Afirmar que "Isaías previu literalmente e apenas Jesus" promete mais do que o texto, isolado, entrega; negar qualquer conexão com Jesus ignora a leitura que Mateus e a Igreja fizeram desde o início. A postura honesta guarda as gradações: no plano histórico, identidade debatida; no plano da fé cristã e da intenção de Mateus, aplicação clara a Jesus.
7. Aplicações Práticas
A primeira aplicação nasce da palavra "escolhi". Numa cultura que exalta a autopromoção, o Servo é apresentado como alguém escolhido por Deus, não como alguém que se impôs. Isso convida a repensar de onde tiramos nosso valor e nossa vocação. Descansar em ser chamado e amado por Deus — antes de qualquer conquista — liberta da ansiedade de provar o próprio valor. A missão flui da identidade recebida, não o contrário.
A segunda toca a dependência do Espírito. O Servo age porque Deus põe sobre ele o seu Espírito. Muitas vezes tentamos servir, ajudar e transformar realidades apenas com nossa energia, e nos esgotamos. O versículo lembra que a obra que importa se faz na presença e no poder de Deus. Buscar essa dependência — na oração, na entrega — é mais frutífero do que multiplicar esforços na força própria.
A terceira brota de "às nações". A justiça do Servo não conhece muros étnicos. Isso interpela toda tendência de restringir o cuidado, o respeito e o Evangelho a "gente como nós". O horizonte de Deus é universal: inclui o estrangeiro, o diferente, o de fora. Viver isso significa recusar o sectarismo e alargar o círculo de quem tratamos com justiça e misericórdia — porque o Servo veio anunciar o direito de Deus a todos os povos.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
1. O que significa Mateus 12:18?
É o primeiro versículo de uma longa citação de Isaías 42:1-4 que Mateus aplica a Jesus. Nela, Deus apresenta o seu "servo" escolhido e amado, sobre quem põe o seu Espírito e que anunciará a justiça às nações. Mateus usa esse retrato para explicar o comportamento de Jesus: um Messias manso, cheio do Espírito, cuja missão alcança até os gentios.
2. Quem está falando no versículo?
Deus (o SENHOR). Toda a frase é fala divina em terceira pessoa sobre o Servo: "meu servo", "meu amado", "porei sobre ele o meu Espírito". Não é o Servo orando a Deus nem uma descrição neutra de fora — é o próprio Deus apresentando e escolhendo o seu enviado, como um rei que aponta para o seu ungido.
3. Quem é o "servo" em Isaías 42?
Esta é uma das perguntas mais debatidas do Antigo Testamento, e a honestidade pede reconhecê-lo. Há três grandes leituras: (a) o Servo é o próprio Israel, chamado a ser luz das nações — o que Isaías afirma em outros trechos (41:8; 44:1); (b) é uma figura individual, talvez um profeta ou o próprio Isaías; (c) é uma figura messiânica futura. O texto oscila entre o coletivo e o individual, e não resolve a questão de forma fechada. O grau de certeza histórica sobre a identidade original é baixo.
4. Então Isaías estava profetizando sobre Jesus?
Essa é a leitura cristã, e é a leitura de Mateus. Para os primeiros cristãos, o retrato do Servo escolhido, cheio do Espírito, manso e portador de justiça às nações encontrava seu cumprimento pleno em Jesus. É uma interpretação teológica coerente e antiga. Mas é honesto dizer que ela não é a única leitura possível do hebraico original: no plano estritamente histórico, a identidade do Servo permanece debatida. O que tem alta certeza é que Mateus aplica o texto a Jesus intencionalmente; o que tem certeza menor é a identidade que Isaías tinha em mente séculos antes.
5. Por que Mateus cita justamente este texto aqui?
Porque ele explica o comportamento de Jesus nos versículos anteriores. Jesus curou multidões mas proibiu o alarde (12:15-16). Por quê? Mateus responde: porque ele é o Servo de Isaías, que não grita nas ruas (12:19) e cuja força vem do Espírito, não do espetáculo. A citação transforma o silêncio de Jesus em cumprimento profético, não em enigma.
6. Qual a ligação com o batismo de Jesus?
É direta. No batismo, a voz do céu disse: "Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo" (Mt 3:17), com o Espírito descendo sobre ele. As palavras "amado" e "em quem me agrado", mais o Espírito posto sobre o Servo, são a linguagem de Isaías 42:1. Mateus liga as duas cenas: o que a voz divina declarou no batismo é a vocação do Servo. Filho amado e Servo escolhido são a mesma pessoa.
7. O que significa "anunciará a justiça às nações"?
"Justiça" traduz o hebraico mishpat (juízo, direito, a ordem correta segundo Deus) e o grego krisis (juízo). "Nações" são os gentios, os povos fora de Israel. A frase anuncia que a missão do Servo tem alcance universal desde o início: ele leva o direito de Deus para além de Israel. É a semente do que se tornará explícito no fim do Evangelho: "fazei discípulos de todas as nações" (28:19).
8. Por que o "servo" às vezes é Israel e às vezes um indivíduo?
Porque Isaías usa a figura de modo flexível. Em alguns trechos, "servo" é claramente a nação (41:8). Nos Cânticos, a figura ganha traços individuais e chega a agir em favor de Israel (49:5-6), o que dificilmente seria Israel salvando a si mesmo. Muitos estudiosos falam de uma "personalidade corporativa": um indivíduo que representa e encarna a vocação de todo o povo. A leitura cristã vê nisso o espaço para uma pessoa — Jesus — cumprir a vocação que Israel não cumpriu plenamente.
9. Qual o grau de certeza de tudo isso?
Convém ser franco e distinguir os planos. Que Mateus aplica Isaías 42 a Jesus: certeza alta, está escrito no texto. Que Jesus, no batismo, foi identificado com a linguagem do Servo: certeza alta, os termos coincidem. Já a identidade original do Servo na mente de Isaías: certeza baixa, é debate aberto entre Israel corporativo, um profeta e uma figura messiânica. O leitor honesto afirma o que o texto afirma e reconhece como incerto o que permanece incerto, sem sensacionalismo.
10. Quais são as principais lições de Mateus 12:18?
Que o Servo é escolhido e amado por Deus, e não um autoproclamado; que sua obra se faz no poder do Espírito, não no alarde; que sua missão de justiça alcança todas as nações desde o princípio; e que, para Mateus, esse Servo tem o rosto de Jesus, o mesmo que a voz do batismo chamou "Filho amado". Grandeza que se escolhe pela mansidão e se estende a todos os povos.
9. Conexão com Outros Textos
"Eis aqui o meu servo, a quem sustenho, o meu eleito, em quem se compraz a minha alma; pus sobre ele o meu Espírito, e ele trará justiça aos gentios." (Isaías 42:1)
A fonte direta da citação. Comparar as duas versões mostra como Mateus segue de perto o poema de Isaías, adaptando-o ao grego. O paralelo evidencia que o evangelista lê a cena de Jesus através da lente do primeiro Cântico do Servo — e que o alcance "aos gentios" já está na profecia original.
"E eis que uma voz dos céus dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo." (Mateus 3:17)
O elo interno mais forte. As palavras "amado" e "em quem me comprazo" repetem a linguagem de Isaías 42:1, e o Espírito desce sobre Jesus como o Servo recebe o Espírito de Deus. Mostra que a identidade de Filho amado e a vocação de Servo se sobrepõem na cristologia de Mateus.
"Também disse: Pouco é o seres meu servo, para restaurares as tribos de Jacó... também te dei para luz dos gentios, para seres a minha salvação até à extremidade da terra." (Isaías 49:6)
Outro Cântico do Servo que ilumina a identidade debatida. Aqui o Servo age em favor de Israel ("restaurar as tribos de Jacó"), o que sugere alguém distinto da nação, e reafirma o horizonte universal: "luz dos gentios". Ajuda a entender por que a figura oscila entre coletivo e individual.
"Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações... ensinando-as a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado." (Mateus 28:19-20)
O desfecho do Evangelho. O que em 12:18 é anúncio profético — "justiça às nações" — torna-se, no fim, mandato missionário explícito. Mostra que o alcance universal do Servo não era detalhe marginal, mas o arco que Mateus traça do meio ao fim do seu livro.
10. Original Grego e Análise
Texto em português (nossa tradução do Textus Receptus): "Eis o meu servo, a quem escolhi, o meu amado, em quem a minha alma se agrada. Porei sobre ele o meu Espírito, e ele anunciará a justiça às nações."
Texto grego (Textus Receptus): Ἰδού, ὁ παῖς μου ὃν ᾑρέτισα· ὁ ἀγαπητός μου εἰς ὃν εὐδόκησεν ἡ ψυχή μου· θήσω τὸ πνεῦμά μου ἐπ' αὐτόν, καὶ κρίσιν τοῖς ἔθνεσιν ἀπαγγελεῖ.
Transliteração: "Idoú, ho paîs mou hòn hērétisa; ho agapētós mou eis hòn eudókēsen hē psychḗ mou; thḗsō tò pneûmá mou ep' autón, kaì krísin toîs éthnesin apangeleî."
Palavra a palavra
"pais" (παῖς) — significa tanto "servo/criado" quanto "filho/menino". A ambiguidade é preciosa: o grego permite ouvir, na mesma palavra, o Servo escolhido e o Filho amado. Ela traduz o hebraico ebed ("servo") de Isaías, mas carrega o eco de filiação que o batismo tornou explícito. Não é forçar o texto notar essa dupla ressonância — está na própria palavra.
"hēretisa" (ᾑρέτισα) — aoristo de hairetizō, "escolher, eleger, tomar para si". Marca a iniciativa divina: o Servo foi escolhido por Deus. O tempo aoristo aponta para um ato decidido, uma eleição efetuada. É a base de toda a apresentação: antes de qualquer feito do Servo, está a escolha de Deus.
"agapētos" (ἀγαπητός) — "amado, querido". É exatamente o termo usado pela voz celeste no batismo (Mt 3:17) e na transfiguração (17:5). A coincidência é deliberada: Mateus liga o Servo de Isaías ao Filho amado. O amor de Deus pelo Servo não é sentimento vago, mas a marca de sua identidade.
"eudokēsen" (εὐδόκησεν) — aoristo de eudokeō, "comprazer-se, ter prazer em, aprovar com satisfação". É a mesma raiz do "em quem me comprazo" do batismo. Descreve o beneplácito de Deus, sua aprovação afetuosa. A "alma" (psychē) de Deus se agrada no Servo — linguagem antropomórfica intensa para dizer que ele é o objeto do prazer divino.
"psychē" (ψυχή) — "alma, vida, o eu interior". Aplicada a Deus ("a minha alma"), é uma expressão hebraica de todo o ser: Deus, no mais íntimo de si, se agrada no Servo. Não implica que Deus tenha uma "alma" como a humana; é modo de falar da plenitude de seu afeto e aprovação.
"pneuma" (πνεῦμα) — "espírito, sopro, vento". Aqui, "o meu Espírito", o Espírito de Deus posto sobre o Servo. Ecoa a descida do Espírito no batismo (Mt 3:16) e responde de antemão à acusação de que Jesus agiria por poder demoníaco (12:24): a força do Servo é o Espírito de Deus, não outra coisa.
"krisin" (κρίσιν) — "juízo, justiça, decisão judicial, direito". Traduz o hebraico mishpat, que é a ordem correta das coisas segundo Deus, o direito que endireita o torto. Não é primariamente condenação, mas o estabelecimento da justiça divina. É o conteúdo do anúncio do Servo às nações.
"ethnesin" (ἔθνεσιν) — dativo plural de ethnos, "nações, povos, gentios". Designa os povos de fora de Israel. Sua presença logo no primeiro versículo da citação planta o tema universal: o Servo leva a justiça de Deus a todos os povos, não só ao seu.
"apangelei" (ἀπαγγελεῖ) — futuro de apangellō, "anunciar, proclamar, relatar". O Servo anunciará — a justiça é proclamada, tornada pública às nações. O tempo futuro dá à frase um tom de missão que se desdobra no tempo, cumprida ao longo do ministério e além dele.
Nota textual e teológica
No plano textual, a citação de Mateus é estável: Textus Receptus e edições críticas concordam quanto ao sentido, sem variantes que alterem o conteúdo. Vale notar que a forma de Mateus não segue exatamente nem o hebraico massorético nem a Septuaginta grega palavra por palavra — o evangelista parece oferecer uma tradução própria, ajustada ao seu propósito, o que é comum nas citações do Antigo Testamento no Novo. Isso é dado reconhecido e não abala o texto; apenas mostra que Mateus lê Isaías com liberdade interpretativa, destacando o que serve ao seu retrato de Jesus.
No plano interpretativo, entra a questão mais delicada, e a honestidade pede gradações. A identidade original do Servo em Isaías 42 é genuinamente debatida. Três leituras principais convivem na erudição: (1) o Servo é Israel, a nação eleita chamada a ser luz das nações — apoio no próprio Isaías (41:8; 44:1; 49:3); (2) é uma figura individual do tempo do profeta ou logo depois; (3) é uma figura messiânica futura. O texto oscila entre o coletivo e o individual, e boa parte dos estudiosos fala de "personalidade corporativa" para descrever essa flexibilidade — um indivíduo que concentra em si o destino do povo. Grau de certeza sobre a identidade histórica original: baixo; é debate legítimo e aberto.
A leitura cristã — e de Mateus — aplica o Servo a Jesus, e o faz com bases fortes dentro de sua lógica: o eco do batismo (o "amado" e o "em quem me comprazo"), o Espírito sobre ele, a mansidão sem alarde, o alcance às nações. Que Mateus faz essa aplicação intencionalmente tem certeza alta — está escrito no texto. Que essa aplicação é a única leitura possível do hebraico original tem certeza baixa — não é o que a evidência histórica isolada permite afirmar. O equilíbrio honesto, sem sensacionalismo, é este: no plano da fé cristã e da intenção do evangelista, o Servo é Jesus, e a leitura é coerente e antiga; no plano da crítica histórica do texto de Isaías, a identidade permanece uma questão em aberto, que ninguém deve fingir ter resolvido de modo definitivo.
11. Conclusão
Mateus 12:18 abre a maior citação do Antigo Testamento no primeiro Evangelho apresentando o Servo do SENHOR. É Deus quem fala, e fala sobre o seu escolhido: "meu servo", "meu amado", aquele sobre quem porá o seu Espírito e que anunciará a justiça às nações. Para Mateus, esse retrato tem um rosto — o de Jesus, o mesmo que a voz do batismo chamou "Filho amado, em quem me comprazo". O silêncio que Jesus impôs nas curas, longe de ser enigma, é o comportamento do Servo manso que Isaías anunciara; e sua missão, desde este primeiro verso, já mira todos os povos.
Fica também o convite à leitura honesta. Quem era o Servo na boca de Isaías — Israel, um profeta, o Messias? A pergunta é antiga e não se fecha no plano histórico; o texto oscila entre o coletivo e o individual, e a erudição guarda essa incerteza. O que se pode afirmar com segurança é o que Mateus quis mostrar: que em Jesus se cumpre o perfil do Servo escolhido, cheio do Espírito, cuja grandeza se veste de mansidão e cuja justiça não conhece fronteiras. Diante desse Servo, a pergunta que resta não é apenas de identificação histórica, mas de reconhecimento: aceitamos como nosso o juízo de Deus que ele anuncia — e o estendemos, como ele, a todas as nações?













