📖 Navegar na Bíblia:
‹

Mateus 16:19

›
✍️ Por Alberto Adriano·2 de setembro de 2026·⏱️ 37 min de leitura·👁 42 acessos
Darei a você as chaves do Reino dos céus; e tudo o que você ligar na terra terá sido ligado nos céus, e tudo o que você desligar na terra terá sido desligado nos céus.”
Mão segurando uma grande chave antiga de madeira com pinos na ponta, diante de um portão de pedra fechado, sob luz de fim de tarde.

Estudo


Darei a você as chaves do Reino dos céus; e tudo o que você ligar na terra terá sido ligado nos céus, e tudo o que você desligar na terra terá sido desligado nos céus.”

1. Introdução

A promessa do versículo anterior continua, e agora ganha conteúdo.

Se o versículo 18 disse o que Simão passa a ser, este diz o que ele passa a poder. E o que ele passa a poder está descrito em duas imagens que precisam ser recuperadas, porque nenhuma das duas diz hoje o que dizia então.

Três pontos organizam a leitura.

O primeiro é as chaves. A imagem tem endereço certo no Antigo Testamento — um funcionário de palácio, com cargo administrativo e não sacerdotal, recebendo a chave da casa do rei. Isso muda a natureza do que está sendo entregue, e o item 9 mostra de onde vem.

O segundo é ligar e desligar. Os dois verbos formavam um par técnico no vocabulário dos mestres judeus, com dois usos distintos, e a escolha entre esses dois usos decide o que o versículo autoriza.

O terceiro é o tempo verbal, e é o mais estranho. O texto não diz "será ligado no céu": diz "terá sido ligado". A diferença parece pequena e é enorme — ela decide se o céu confirma a decisão da terra ou se a terra reconhece a decisão do céu. Há debate real sobre isso, e ele não está encerrado.

2. Contexto Histórico e Cultural

Como era uma chave naquele mundo

Convém começar pelo objeto, porque a imagem depende dele.

A chave antiga do Oriente Próximo não cabia no bolso. Era uma barra de madeira, às vezes com meio metro ou mais, com pinos salientes numa das pontas. A tranca ficava dentro da porta e era levantada por esses pinos. Chaves de metal existiam, menores, mas as de casa grande e de portão eram peças de carregar.

Por isso a linguagem antiga fala em pôr a chave sobre o ombro, como faz Isaías 22:22. Não é figura poética: era como se transportava o objeto, pendurado numa correia. E é por isso que a chave se via de longe — quem passava sabia quem era o encarregado.

Guarde esse detalhe. A chave era, ao mesmo tempo, ferramenta e insígnia.

O cargo de quem administrava a casa

Nas cortes de Israel e de Judá havia um cargo específico, designado por uma expressão que significa "o que está sobre a casa".

Não era um cargo religioso. O homem que o ocupava administrava o palácio, controlava o acesso ao rei, respondia pelo pessoal e pelos bens, e falava em nome do soberano quando este não estava presente. Aparece em 1 Reis 4:6, em 1 Reis 18:3, em 2 Reis 18:18 e em outros pontos. Escavações em Jerusalém e arredores encontraram selos de barro com títulos desse tipo, o que confirma a existência da função como cargo formal da administração.

É esse o cargo que a imagem da chave evoca. Não o do sacerdote, que oferecia sacrifícios; não o do profeta, que falava por Deus; não o do rei, que reinava. O do mordomo, que abria a porta.

A diferença é grande e costuma se perder. Quem recebe uma chave recebe administração, e administração pressupõe um dono ausente que confia e um dia volta.

As chaves do templo

Havia também chaves em uso religioso, e uma história antiga mostra o peso que tinham.

A tradição judaica registra que, na destruição de Jerusalém, os jovens sacerdotes subiram ao alto do santuário com as chaves nas mãos e as atiraram em direção ao céu, dizendo que não haviam sido bons administradores e devolviam o que lhes fora confiado. Uma mão teria saído e as recebido.

A cena aparece no Talmude e, em variante, num escrito judeu do fim do primeiro século. Não é registro histórico verificável — é narrativa. Mas mostra exatamente o que a imagem significava naquela cultura: chave é coisa emprestada, e há prestação de contas.

O que era ser excluído da comunidade

A segunda imagem do versículo — ligar e desligar — tem, entre outros usos, o de admitir e expulsar. Para medir o que isso significava, é preciso saber o que acontecia com o expulso.

O judaísmo do primeiro século conhecia graus de exclusão. Havia uma censura temporária, de alguns dias ou semanas, em que a pessoa ficava afastada do convívio, não podia ser contada no número mínimo para a oração pública e era evitada a certa distância. E havia a forma severa, por tempo indeterminado, que cortava a pessoa da comunidade.

Numa aldeia da Galileia ou num bairro de Jerusalém, isso não era uma questão de frequência ao culto. A sinagoga era o centro da vida social, do ensino das crianças, dos negócios, dos casamentos. Ser posto para fora dela significava perder fregueses, deixar de ter com quem casar os filhos, ver parentes atravessarem a rua. João 9:22 registra o medo dos pais do cego de nascença diante justamente dessa ameaça, e o registro mostra que a ameaça funcionava.

Por isso o poder de excluir e readmitir era poder de verdade. Não era gesto simbólico dentro de um prédio: mexia com o sustento e com a família de alguém.

Mestres que decidiam o permitido e o proibido

Havia ainda outra coisa que se decidia naquele mundo, e ela era permanente.

A lei escrita não previa todos os casos, e a vida produzia perguntas novas todo dia. Pode-se fazer isto no sábado? Este alimento pode? Este contrato vale? Quem respondia eram os mestres, e a resposta deles tinha efeito prático imediato sobre o que as pessoas faziam.

Josefo (historiador judeu do primeiro século, que escreveu para leitores romanos depois da guerra) descreve os fariseus, no reinado da rainha Alexandra, como tendo poder de banir e de chamar de volta, de soltar e de prender — usando esse par de verbos para descrever autoridade administrativa concreta.

Ou seja: quando o versículo fala em ligar e desligar, ele fala numa linguagem que os ouvintes reconheciam de imediato. O que ela significava é assunto do item 3.

3. Análise Teológica do Versículo

"Darei a você as chaves do Reino dos céus"

A frase abre com um verbo no futuro. No momento em que é dita, nada foi entregue.

Esse detalhe evita um mal-entendido comum. O versículo não descreve uma cerimônia de posse; anuncia uma entrega que ainda vai acontecer. Quando ela aconteceu, o texto não diz — e quem quiser situá-la em Pentecostes, ou na cena de João 20:22, ou em outro momento, está preenchendo uma lacuna do texto por conta própria.

O destinatário continua no singular, como em todo o trecho iniciado no versículo 18. Isso é dado, e a discussão sobre o alcance dele já foi feita ali.

Sobre "chaves", o essencial está na origem da imagem, tratada no item 9: é o objeto de um administrador de palácio, não de um sacerdote e não de um rei. O que interessa aqui é a consequência: quem tem a chave não é o dono da casa. É quem responde por ela na ausência do dono.

A chave que fecha é a mesma que abre

Este é o ponto que a pregação corrente quase sempre omite.

Uma chave tem duas funções, e a segunda é tão real quanto a primeira. Quem pode abrir pode trancar. Uma autoridade de acesso é, por definição, também uma autoridade de recusa.

O próprio Mateus mostra o uso torto dessa autoridade, e mostra sem meias palavras. Em Mateus 23:13, a acusação contra os letrados e fariseus é exatamente esta: fecham o Reino dos céus diante dos homens, não entram e não deixam entrar quem está entrando. A mesma imagem, com o sinal invertido.

A comparação é instrutiva. Ela indica que "chaves do Reino" não é imagem vaga de poder espiritual: descreve controle de porta, e Mateus a usa duas vezes — uma para prometer e outra para acusar.

Vale a cautela. Que o texto reconheça a possibilidade de fechar não significa que a autorize como se fosse indiferente. O contexto de Mateus 23 é de condenação, e nada aqui sugere que trancar a porta seja um exercício legítimo da chave.

"e tudo o que você ligar na terra"

Aqui entra o par técnico, e é preciso saber o que ele significava.

Nos mestres judeus, ligar e desligar eram os verbos da decisão sobre a lei. Ligar era declarar proibido; desligar era declarar permitido. Uma escola liga o que a outra desliga — e as discussões preservadas na literatura rabínica estão cheias dessa fórmula. Não se tratava de amarrar nada: tratava-se de dizer o que se pode e o que não se pode.

Havia um segundo uso, ligado ao primeiro. Ligar era pôr alguém sob exclusão; desligar era levantar a exclusão e readmitir a pessoa. O item 2 mostra o que isso custava a quem sofria a medida.

Os dois usos são bem documentados, e o versículo não diz qual dos dois está em jogo. Daí uma disputa que atravessa séculos, e que não é acadêmica: dela depende se o que está sendo entregue é autoridade para ensinar ou autoridade para admitir e expulsar.

Qual dos dois usos está aqui

Há argumentos dos dois lados, e nenhum é decisivo.

A favor do sentido de ensino — declarar o permitido e o proibido — pesa a forma do objeto. O texto não diz "aquele que você ligar", mas "tudo o que você ligar", e a palavra usada é neutra: aponta para coisas, não para pessoas. Se o assunto fosse expulsar gente, o esperado seria o masculino. Pesa também o contexto imediato, que é uma confissão sobre quem Jesus é — matéria de doutrina, não de disciplina.

A favor do sentido de exclusão pesa Mateus 18:18. Ali a mesma frase reaparece, e o assunto em volta dela é inequívoco: como proceder com o irmão que peca, quem se chama para conversar, quando se leva o caso à comunidade e o que fazer se ele não ouvir. É disciplina do começo ao fim.

A saída mais provável, e que boa parte dos estudiosos adota, é que os dois sentidos estejam presentes — que a autoridade descrita cubra tanto o que se ensina quanto quem se admite, porque nas comunidades daquele tempo as duas coisas não se separavam. É plausível, e não é demonstrável.

O paralelo que muda o quadro

Mateus 18:18 merece ser olhado de frente, porque ele é o dado mais incômodo para quem lê este versículo como fundação de um cargo único.

Ali a mesma autoridade — as mesmas duas palavras, a mesma estrutura, o mesmo tempo verbal esquisito — é dada no plural, à comunidade reunida, sem nenhuma menção a Pedro. Não é uma promessa parecida: é a mesma promessa.

Mateus registra as duas e não as harmoniza. Não diz que a segunda deriva da primeira, não diz que a primeira é maior, não explica a relação.

Quem sustenta um primado tem de mostrar por que o singular daqui pesa mais que o plural de lá. Quem nega o primado tem de explicar por que a promessa foi feita primeiro a um homem só, e com as chaves, que Mateus 18 não menciona. As duas posições têm trabalho a fazer, e o texto não faz esse trabalho por nenhuma delas.

E João 20:23

Um terceiro texto entra na discussão, e é preciso ver em que medida ele é o mesmo.

Em João 20:23, depois da ressurreição, Jesus diz aos discípulos que os pecados que perdoarem estarão perdoados e os que retiverem estarão retidos. A estrutura é parecida: uma ação na terra, uma consequência declarada, um tempo verbal que gera a mesma discussão.

O vocabulário, porém, é outro. João não usa ligar e desligar; usa perdoar e reter, e o objeto é explicitamente pecados. Se os dois textos descrevem a mesma autoridade com palavras diferentes, ou duas autoridades relacionadas mas distintas, é discutido, e a resposta que se dá tem consequência direta sobre a prática da confissão sacramental.

Registre-se apenas o que é observável: o de João é dirigido a um grupo, não a um indivíduo; e o de Mateus não menciona pecados.

"terá sido ligado nos céus"

Agora a parte mais difícil do versículo, e a mais consequente.

Quase todas as traduções em português trazem "será ligado nos céus". O grego é mais estranho do que isso: a construção usada indica um estado já constituído no momento futuro de que se fala — algo como "terá sido ligado", ou "estará tendo sido ligado". O item 10 trata da forma; o que importa aqui é que a diferença não é de estilo.

Duas leituras disputam o sentido.

Na primeira, o céu ratifica a terra. A decisão é tomada aqui embaixo e o céu a endossa. É a leitura que a tradução comum produz, e é a que sustenta a ideia de que a comunidade dispõe de uma autoridade cujas decisões o céu acompanha.

Na segunda, a terra reconhece o que o céu já decidiu. O estado no céu é anterior; a decisão terrena, quando correta, apenas o declara. Nessa leitura, quem liga na terra não obriga o céu — descobre e anuncia o que já vale lá.

O que se argumenta de cada lado

A favor da segunda leitura está a força natural da forma verbal. Ela normalmente indica ação completada cujo resultado permanece, e projetá-la no futuro produz justamente o sentido de algo que já estará feito. Foi esse o argumento de Julius Mantey (gramático norte-americano do grego do Novo Testamento, século XX), que dele extraiu uma consequência polêmica: se o céu decide primeiro, a absolvição pronunciada por um sacerdote não constitui perdão, apenas o declara.

Contra a mesma leitura pesam duas objeções sérias. A primeira é que construções desse tipo são raras no grego do primeiro século e é discutido quanta força elas conservam — há quem as trate como futuro enfático, sem o valor de anterioridade. A segunda é que o grego de Mateus reflete padrões da língua semítica que estava por trás, e nessa língua a construção correspondente não carrega a mesma distinção.

Vale registrar uma observação honesta de Henry Cadbury (estudioso norte-americano do Novo Testamento, século XX), que chegou ao mesmo resultado gramatical de Mantey e recusou a conclusão maior: a questão da absolvição sacerdotal, disse ele, não se decide em pontos discutíveis de gramática grega. É uma advertência que serve aos dois lados.

Não é possível decidir. E as duas leituras deixam de pé algo que costuma escapar: o texto nunca diz quem liga no céu. A frase é passiva e não nomeia o agente — recurso comum nos textos judaicos para falar da ação de Deus sem pronunciar o nome dele. Em nenhuma das duas leituras um ser humano é o sujeito da ação celeste.

Os dois silêncios do versículo

Duas coisas o texto não diz, e as duas ausências são grandes.

A primeira: não diz o que se liga e o que se desliga. Nenhum exemplo, nenhuma matéria, nenhum limite de assunto. A fórmula "tudo o que" é generosa e vazia ao mesmo tempo, e todo conteúdo que se dá a ela vem de fora.

A segunda: não diz o que acontece se a decisão terrena estiver errada. Não há previsão de recurso, de correção, de instância superior. Quem lê a promessa como garantia de acerto está acrescentando uma cláusula que o versículo não tem — e a história da igreja, com suas decisões revogadas por concílios posteriores, mostra que a cláusula não existe mesmo.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Simão Pedro

O destinatário continua sendo o mesmo do versículo anterior, onde a pessoa dele foi apresentada. Aqui vale apenas o registro de que, nos primeiros capítulos de Atos, é ele quem abre as portas descritas por esta imagem: aos judeus no dia de Pentecostes, em Atos 2, e ao oficial romano Cornélio, em Atos 10.

Sebna, o mordomo deposto

A cena que está por trás da imagem das chaves tem dois personagens, e o primeiro raramente é mencionado.

Sebna era o administrador do palácio no tempo do rei Ezequias, em Jerusalém, provavelmente por volta do fim do século VIII a.C. Aparece em 2 Reis 18:18 e 18:37 entre os enviados que negociam com o oficial assírio diante da muralha, num momento em que a cidade estava cercada.

Isaías 22:15-19 registra a acusação contra ele: mandara cavar para si um túmulo em lugar alto, obra de quem se instalou no cargo como se fosse dono. A sentença é a perda do posto.

É um detalhe que importa para ler a imagem. A chave da casa de Davi não estava vaga: foi tirada de alguém.

Eliaquim, filho de Hilquias

É o sucessor de Sebna, e é ele quem recebe a chave em Isaías 22:20-22.

O texto descreve a posse com detalhes de cerimônia: a túnica, a faixa, o governo entregue nas mãos, e a chave posta sobre o ombro. Ele será "por pai" aos habitantes de Jerusalém — expressão de cuidado administrativo, não de paternidade.

Uma parte da mesma passagem quase nunca é citada, e o item 9 volta a ela: o pregão que se fixa em lugar firme acaba cedendo, e a carga que estava pendurada nele cai junto. A promessa feita a Eliaquim vem com prazo dentro dela.

A cena de Mateus 18

O outro texto que traz as mesmas palavras está num contexto bem diferente e vale descrevê-lo.

Em Mateus 18:15-17, Jesus dá um procedimento para o caso de ofensa entre irmãos: primeiro a conversa em particular, depois com uma ou duas testemunhas, depois diante da comunidade reunida. Só então, se a pessoa não ouvir, vem o afastamento. A frase sobre ligar e desligar aparece logo em seguida, no versículo 18.

É um procedimento gradual, feito para evitar a exclusão e não para promovê-la. Quem usa Mateus 16:19 para fundamentar disciplina eclesiástica precisa levar junto essa moldura.

"Reino dos céus"

A expressão é característica de Mateus, que a emprega dezenas de vezes onde Marcos e Lucas escrevem "Reino de Deus". A razão provável é a reverência judaica que evitava pronunciar o nome divino.

O ponto a reter aqui é que a expressão não designa o céu como destino dos mortos. Designa o governo de Deus, e as chaves são desse governo — não do portão de entrada do além, imagem que este versículo nunca usa.

5. Pontos de Ensino

Chave é objeto de administrador

A imagem escolhida não é a do trono nem a do altar. É a do mordomo.

Isso estabelece a natureza do que é dado: administração de bem alheio, exercida na ausência do dono, com prestação de contas pressuposta. Quem entende a autoridade descrita aqui como posse entendeu outra coisa.

A diferença aparece na prática. O dono decide o que quer; o administrador decide conforme a vontade de quem o pôs ali — e é justamente essa distinção que a segunda leitura do tempo verbal, no item 3, leva a sério.

Autoridade de porta, não de conteúdo

Chave dá acesso; não fabrica o que está do outro lado.

Quem tem a chave da casa não é dono dos móveis. A autoridade descrita é de admitir, recusar, decidir o que vale — e nada disso cria o Reino de que se fala. Ele existe antes da chave e independe de quem a segura.

A recusa também é uso da chave

Toda autoridade de abrir é autoridade de fechar, e o próprio Mateus registra o abuso em Mateus 23:13.

Isso impõe uma pergunta a qualquer comunidade que reivindique esta promessa: as portas que ela guarda estão abertas ou trancadas? A acusação mais dura do evangelho nesta matéria não é contra quem admite gente demais.

A mesma autoridade aparece no plural

Mateus 18:18 entrega o mesmo poder à comunidade reunida.

Disso decorre um limite prático que independe da posição que se tenha na disputa histórica: nenhuma leitura deste versículo pode terminar num indivíduo isolado decidindo sozinho, porque o próprio evangelho põe a mesma autoridade num grupo.

O texto não diz o conteúdo

Nem uma matéria é nomeada. Nenhum exemplo do que se liga, nenhum exemplo do que se desliga.

É um dado sobre a natureza da promessa: ela descreve um poder, não uma lista. Todo uso concreto que se fizer dela terá de justificar o conteúdo por outros caminhos — e quem apresenta o conteúdo como se viesse deste versículo está atribuindo a ele o que ele não traz.

6. Aspectos Filosóficos

De onde vem o que obriga

O versículo entrega autoridade e não explica o que a torna eficaz. É a pergunta política mais antiga que existe: por que alguém obedece a alguém?

Hannah Arendt (filósofa alemã naturalizada norte-americana, 1906-1975) dedicou a essa pergunta o ensaio "Que é autoridade?", reunido em Entre o Passado e o Futuro (1961). Ela começa dizendo que o título correto seria outro: que foi a autoridade — porque, na avaliação dela, o fenômeno desapareceu do mundo moderno.

A distinção que organiza tudo

O argumento dela começa separando três coisas que a linguagem corrente confunde.

Autoridade não é violência. Ela exige obediência, mas exclui o uso da força — e onde a força é empregada, diz Arendt, é porque a autoridade já falhou. Um pai que precisa bater perdeu a autoridade que tinha; um governo que só se sustenta com tropas na rua está confessando que não tem nenhuma.

Autoridade também não é argumento. Persuadir supõe igualdade entre quem fala e quem ouve, e funciona por razões que o outro pode aceitar ou recusar. Onde se argumenta, escreve ela, a autoridade fica suspensa — porque quem discute não está obedecendo, está avaliando.

Sobra um terceiro modo, que é o dela. Autoridade é a obediência em que quem obedece conserva a liberdade e reconhece a hierarquia como legítima, sem ser forçado e sem precisar ser convencido de novo a cada vez.

A fundação

Arendt localiza a experiência que deu origem ao conceito, e ela é romana.

A palavra latina auctoritas ("autoridade") vem de augere, que significa aumentar, acrescentar. Quem tem autoridade, na concepção romana, aumenta alguma coisa — e o que ele aumenta é a fundação da cidade. O ato inicial, a fundação de Roma, era o acontecimento sagrado ao qual toda decisão posterior devia se ligar. O senado tinha autoridade; o povo tinha poder. E a autoridade do senado consistia em prolongar o começo, não em substituí-lo.

Daí a tríade que ela descreve como romana: religião, autoridade e tradição. Religião, na leitura etimológica que ela adota, é estar religado ao começo. Tradição é a transmissão desse começo de geração em geração. Autoridade é o que decorre das duas. As três se sustentam juntas ou caem juntas.

E Arendt observa que a igreja cristã herdou essa estrutura inteira. Depois da queda do império, foi ela que passou a ocupar o lugar de instituição que liga o presente a um começo — com um acontecimento fundador próprio, um testemunho de quem esteve lá, e uma cadeia de transmissão encarregada de manter a ligação viva.

Onde os dois se encontram

A frase deste versículo se encaixa nessa descrição com um ajuste notável.

O que é dado ali não é força: nada no texto fala de armas, de tribunais, de meios de coagir. E não é argumento: não se diz que Pedro deverá convencer ninguém. É uma terceira coisa — algo que vem de fora de quem a recebe e que se sustenta por referência a quem a deu.

Isso é exatamente a estrutura da autoridade derivada que Arendt descreve. Ela não se explica por quem a exerce; explica-se por uma origem.

E a distinção dela ilumina a disputa do tempo verbal, tratada no item 3, sem resolvê-la. As duas leituras podem ser reformuladas nos termos de Arendt: numa, quem liga na terra aumenta a fundação, acrescenta a ela; noutra, apenas a declara, sem acrescentar nada. A primeira é mais próxima do sentido romano de auctoritas, e vale notar que é também a leitura que a tradição institucional preferiu.

Onde a aproximação não vale

Três limites, e o primeiro é o mais importante.

Arendt não está comentando este versículo nem escrevendo teologia. Ela descreve uma experiência política romana e faz um diagnóstico do mundo moderno. Usar a análise dela para interpretar Mateus é operação de comentarista, não leitura do texto — e o risco embutido é grande: importar para dentro do versículo a ideia de governo, que ele não traz. O texto entrega chaves e não descreve nenhum aparato para forçar seja quem for.

O segundo limite é que a tese central de Arendt é contestada. Que a autoridade tenha simplesmente desaparecido do mundo moderno é afirmação forte, e há quem sustente que ela apenas mudou de forma. O ensaio é um diagnóstico, não um dado.

O terceiro é o mais fundo. A análise de Arendt é inteiramente horizontal: trata de relações entre pessoas, de instituições humanas, de um começo situado no tempo. O versículo afirma uma relação entre a terra e o céu, e a frase mais estranha dele — a do tempo verbal — é justamente sobre a direção dessa relação. Para isso Arendt não tem categoria nenhuma, e forçá-la a ter seria fazê-la dizer o que ela não disse.

O que sobra

Sobra a pergunta que o versículo instala e que Arendt ajuda a formular com precisão.

Uma autoridade que se funda numa origem tem um problema permanente: a origem fica cada vez mais longe, e a cadeia que liga a ela fica cada vez mais comprida. Quanto mais elos, mais o elo mais recente precisa afirmar que ainda é o mesmo começo.

O versículo cria esse problema e não o resolve. Diz que as chaves serão dadas, e não diz o que acontece com elas depois — quem as guarda, como se transmitem, o que ocorre se forem usadas mal. Todas as respostas históricas a essas perguntas foram construídas depois, e é sobre elas, e não sobre a frase, que a discussão de fato se trava.

7. Aplicações Práticas

Chave existe para abrir

A aplicação mais direta vem da comparação que o próprio Mateus faz.

Em Mateus 23:13 a acusação é de trancar a porta e ficar na frente dela. É a única vez em que o evangelho comenta o uso da imagem, e o comentário é de condenação — dirigido, aliás, a gente séria, estudiosa e convicta de estar protegendo algo importante.

Na prática, isso dá um critério a quem tem qualquer forma de guarda de acesso: um pastor, um professor, quem seleciona pessoas, quem decide quem entra e quem não entra. A pergunta é simples e desconfortável: das duas funções da chave, qual eu uso mais? Quem só sabe justificar recusas está usando metade do objeto.

Autoridade emprestada não vira propriedade

Chave é bem de terceiro. Quem a recebe não passa a ser dono da casa.

A confusão entre as duas coisas é comum e não é religiosa: o funcionário que trata o cargo como patrimônio, o síndico que age como se o prédio fosse dele, o coordenador que confunde a função com a pessoa. O sinal de alerta é sempre o mesmo — a decisão deixa de ser justificada pelo interesse da casa e passa a ser justificada pela posição de quem decide.

A imagem antiga trazia um lembrete embutido: a chave se carregava à vista, e todo mundo sabia de quem era a casa.

Decidir por outros exige critério anterior à decisão

Seja qual for a leitura do tempo verbal, nenhuma delas descreve alguém inventando a regra na hora.

Numa, a decisão terrena é acompanhada; noutra, ela reconhece algo que já vale. As duas pressupõem uma referência fora de quem decide — e é isso que separa autoridade de arbítrio.

Vale para quem julga qualquer coisa em nome de um grupo: se o critério não pode ser enunciado antes do caso, e de preferência por escrito, o que se está exercendo não é autoridade.

Excluir e readmitir

Este é o uso mais delicado da promessa, e convém dizer o que o texto oferece e o que não oferece.

Oferece a linguagem: ligar e desligar incluem admitir e afastar. Não oferece procedimento nenhum — o procedimento está em Mateus 18:15-17, é gradual, começa em conversa reservada e existe para evitar o afastamento, não para chegar a ele.

E há a metade esquecida do par. Desligar é readmitir, e uma comunidade que sabe excluir e não sabe reabrir a porta está usando um verbo só. Se a autoridade fosse apenas de excluir, o versículo teria sido escrito com um verbo apenas.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que "chaves" no plural?

O texto não explica, e vale registrar as leituras propostas.

Uma é que o plural apenas acompanhe a imagem: um administrador de casa grande carregava mais de uma chave, porque havia mais de uma porta. Outra é que o plural aponte para os acessos distintos que Atos narra — o primeiro a judeus, o segundo a não judeus. Uma terceira é que se trate de forma idiomática, sem intenção de contar portas.

Nenhuma se pode confirmar. A segunda é sedutora e tem contra si o fato de ser reconstruída a partir de Atos, e não do texto.

Este versículo institui a confissão a um sacerdote?

A pergunta é legítima porque a prática se apoia, em parte, aqui e em João 20:23.

O que se pode observar do texto é modesto. Mateus 16:19 não menciona pecados, não menciona confissão, não menciona ninguém ouvindo ninguém. A palavra "pecados" aparece em João 20:23, e ali a fala é dirigida a um grupo.

A defesa da prática não se apoia apenas nestes versículos: apoia-se também no desenvolvimento posterior e na leitura que a tradição fez do conjunto. A recusa dela, do mesmo modo, se apoia em outros textos. O versículo sozinho não fecha a questão em nenhuma das direções.

Se a decisão da terra estiver errada, o céu confirma o erro?

O texto não prevê o caso, e essa ausência é significativa.

Na leitura em que o céu ratifica a terra, a pergunta fica sem resposta e o problema é real. Na leitura em que a terra reconhece o céu, o problema se dissolve — uma decisão errada simplesmente não corresponde a nada e não obriga ninguém.

É um dos poucos pontos em que a segunda leitura leva vantagem prática. Isso não a torna correta, mas ajuda a entender por que ela é atraente para quem desconfia de decisões humanas irreversíveis.

A promessa foi cumprida em algum momento identificável?

O verbo está no futuro e o texto não marca a data.

Os candidatos apontados são o dia de Pentecostes, em Atos 2, e a cena de João 20:22, em que Jesus sopra sobre os discípulos. Nenhum dos dois textos cita chaves nem retoma esta promessa.

Permanece em aberto. Quem afirma um momento específico está juntando textos por conta própria, o que é legítimo desde que se diga que é isso que se está fazendo.

Se ligar e desligar era vocabulário dos mestres judeus, isso significa que a comunidade cristã ia legislar?

A pergunta é boa e a resposta depende de qual sentido do par se adote.

No sentido de declarar o permitido e o proibido, a resposta tende ao sim, e o encontro de Atos 15 mostra a comunidade fazendo exatamente isso: decidindo o que se exigiria dos não judeus. No sentido de admitir e afastar, a resposta é outra, e o que está descrito é disciplina, não legislação.

Vale notar que em Atos 15 quem pronuncia a decisão é Tiago, e a fórmula usada envolve os apóstolos, os anciãos e toda a comunidade. Se aquilo é o cumprimento desta promessa, o cumprimento foi coletivo.

9. Conexão com Outros Textos

A origem da imagem das chaves

Isaías 22:20-21 — "Naquele dia chamarei o meu servo Eliaquim, filho de Hilquias; vesti-lo-ei com a sua túnica, cingi-lo-ei com o seu cinto, e nas suas mãos entregarei o governo; e ele será por pai aos habitantes de Jerusalém e à casa de Judá."

A cerimônia de posse de um funcionário de palácio. Roupa, cinto, governo entregue nas mãos — nada de altar, nada de sacrifício, nada de sacerdócio. O cargo é administrativo.

Isaías 22:22 — "Porei a chave da casa de Davi sobre o seu ombro; ele abrirá, e ninguém fechará; fechará, e ninguém abrirá."

É deste versículo que a imagem de Mateus vem, e a correspondência é próxima demais para ser acaso: a chave, a casa do rei, e a autoridade formulada como par de opostos — abrir e fechar. Note-se que ali a autoridade é irrecorrível dentro da casa, mas quem põe a chave sobre o ombro é outro.

Isaías 22:25 — "Naquele dia, diz o SENHOR dos Exércitos, o prego fixado em lugar firme cederá; será cortado e cairá, e a carga que estava sobre ele se despedaçará."

A metade da passagem que quase nunca é citada. A mesma profecia que instala Eliaquim anuncia a queda dele — provavelmente porque ele encheu o cargo de parentes, como o versículo 24 sugere. Quem usa Isaías 22 para falar de um cargo que dura precisa ler até o fim.

Quem tem a chave, segundo o Apocalipse

Apocalipse 3:7 — "Isto diz o santo, o verdadeiro, aquele que tem a chave de Davi, que abre e ninguém fecha, e fecha e ninguém abre."

A citação quase literal de Isaías 22:22, aplicada a Cristo. É o texto mais importante desta lista, e por uma razão simples: o Novo Testamento usa a imagem da chave para o próprio Jesus, e não apenas para quem a recebe dele.

Apocalipse 3:8 — "Eis que pus diante de você uma porta aberta, que ninguém pode fechar."

Apocalipse 9:1 e 20:1 — "e foi-lhe dada a chave do poço do abismo"; "e vi descer do céu um anjo, que tinha a chave do abismo."

Nos dois casos a chave é dada a quem a usa. O padrão do livro inteiro é este: chave é objeto entregue, nunca objeto possuído por direito próprio.

A chave usada ao contrário

Lucas 11:52 — "Ai de vocês, intérpretes da lei! Porque tomaram a chave da ciência; vocês mesmos não entraram, e impediram os que estavam entrando."

O paralelo negativo, e ele é duro: a chave existe, está nas mãos certas, e o uso que se faz dela é o de barrar.

Abrir portas, na linguagem dos apóstolos

Atos 14:27 — "e contaram tudo quanto Deus fizera com eles, e como abrira aos gentios a porta da fé."

Repare em quem abre. Não são os apóstolos: é Deus, e eles relatam.

1 Coríntios 16:9 — "porque uma porta grande e eficaz se me abriu, e há muitos adversários."

Colossenses 4:3 — "orando também ao mesmo tempo por nós, para que Deus nos abra uma porta à palavra."

Paulo, que teve tanto quanto qualquer um a autoridade de que este versículo trata, fala de portas que se abrem para ele — e pede que se ore por isso. Nunca fala em abri-las.

Quem fecha sem recurso

Jó 12:14 — "Eis que ele derruba, e não se pode reedificar; encerra o homem, e não se lhe pode abrir."

A mesma fórmula de Isaías 22:22, aplicada diretamente a Deus. É o pano de fundo que impede tratar a autoridade deste versículo como absoluta: a formulação "abre e ninguém fecha" já tinha dono.

Os dois textos irmãos

Mateus 18:18 — "Eu asseguro a vocês: tudo o que vocês ligarem na terra terá sido ligado no céu, e tudo o que desligarem na terra terá sido desligado no céu."

João 20:23 — "Àqueles a quem perdoarem os pecados, lhes são perdoados; e àqueles a quem os retiverem, lhes são retidos."

Os dois estão tratados no item 3, que discute a relação entre eles. Ficam aqui pelo texto.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Darei a você as chaves do Reino dos céus; e tudo o que você ligar na terra terá sido ligado nos céus, e tudo o que você desligar na terra terá sido desligado nos céus.”

Texto grego

δώσω σοι τὰς κλεῖδας τῆς βασιλείας τῶν οὐρανῶν, καὶ ὃ ἐὰν δήσῃς ἐπὶ τῆς γῆς ἔσται δεδεμένον ἐν τοῖς οὐρανοῖς, καὶ ὃ ἐὰν λύσῃς ἐπὶ τῆς γῆς ἔσται λελυμένον ἐν τοῖς οὐρανοῖς.

Transliteração

dōsō soi tas kleidas tēs basileias tōn ouranōn, kai ho ean dēsēs epi tēs gēs estai dedemenon en tois ouranois, kai ho ean lysēs epi tēs gēs estai lelymenon en tois ouranois.

Análise palavra por palavra

δώσω σοι — dōsō soi, "darei a você". Futuro de didōmi ("dar"), com o pronome no singular.

O verbo é o comum de dar, e o tempo é o que interessa: nada está sendo entregue no momento da fala. O pronome está no singular, como em todo o trecho iniciado no versículo 18.

τὰς κλεῖδας — tas kleidas, "as chaves". Plural de kleis.

Há um detalhe de origem que vale a pena. Kleis não vem do verbo de abrir: vem de kleiō, que significa fechar, trancar. Em grego, a chave é literalmente "a coisa de trancar", e o sentido de abrir é o secundário.

Isso não decide nada sozinho — as línguas guardam origens que os falantes já não sentem —, mas registra que a associação entre chave e fechamento é primária na palavra, e não uma invenção de comentarista.

No Novo Testamento a palavra aparece seis vezes: aqui; em Lucas 11:52, a chave da ciência; e quatro vezes no Apocalipse — em Apocalipse 1:18, as chaves da morte e do Hades; em Apocalipse 3:7, a chave de Davi; em Apocalipse 9:1 e Apocalipse 20:1, a chave do abismo. Em todas as ocorrências desse livro a chave é recebida de alguém ou pertence a Cristo; em nenhuma ela é conquistada.

τῆς βασιλείας τῶν οὐρανῶν — tēs basileias tōn ouranōn, "do Reino dos céus".

Basileia não significa território: significa reinado, o exercício do governo. Um rei tem basileia onde manda, e a palavra descreve a ação de reinar antes de descrever o lugar.

"Céus" está no plural, e o plural não é enfeite. O hebraico shamayim ("céus") tem forma plural, e o grego dos textos judaicos a acompanha. A ambiguidade da palavra — céu físico e céu como sede de Deus — foi tratada no versículo 1 deste capítulo e não se reabre aqui.

ὃ ἐὰν δήσῃς — ho ean dēsēs, "tudo o que você ligar".

O pronome ho é neutro: designa coisa, não pessoa. Se o texto quisesse dizer "aquele que você ligar", a forma seria masculina. É um argumento gramatical real na discussão sobre o sentido do par de verbos, e o item 3 mostra o que se faz com ele.

Ean com o modo subjuntivo forma a condição indefinida: seja o que for, em qualquer caso. A fórmula é aberta de propósito.

δήσῃς — dēsēs, "você ligar". De deō, amarrar, prender.

O verbo é concreto e Mateus o usa nesse sentido em outros lugares: em Mateus 14:3, João Batista é preso e amarrado; em Mateus 21:2, o jumento está amarrado; em Mateus 27:2, Jesus é amarrado e levado a Pilatos.

O uso figurado, no vocabulário dos mestres judeus, corresponde ao hebraico asar ("prender", "proibir"). É esse uso que está em jogo aqui.

λύσῃς — lysēs, "você desligar". De lyō, desatar, soltar, libertar.

O oposto exato do anterior no sentido físico — em Mateus 21:2, é o verbo de desamarrar o jumento.

Há, porém, um uso de lyō em Mateus que ilumina a discussão do versículo. Em Mateus 5:19, quem desligar um dos menores mandamentos e assim ensinar os homens será chamado o menor no Reino dos céus. Ali o verbo significa anular, revogar, tirar a força de um mandamento — que é exatamente o sentido técnico de "declarar permitido".

Ou seja: o próprio Mateus já usou o verbo no sentido de decisão sobre a lei, cinco capítulos antes. É um dado a favor da leitura que vê aqui autoridade de ensino, e ele raramente é lembrado.

ἔσται δεδεμένον — estai dedemenon, "terá sido ligado". Futuro do verbo ser, seguido do particípio perfeito passivo de deō.

Esta é a forma mais discutida do versículo, e é preciso explicá-la sem jargão.

O perfeito grego não é o nosso passado. Ele descreve uma ação que se completou e cujo resultado permanece de pé. Dizer que uma porta "está fechada" no perfeito grego é dizer que alguém a fechou e que ela continua assim.

Combinar esse perfeito com o futuro do verbo ser produz algo que o português alcança com dificuldade: um estado que, no momento futuro de que se fala, já estará constituído. Daí a tradução "terá sido ligado", que a maioria das versões em português evita por soar pesada, preferindo "será ligado".

A troca não é inocente. "Será ligado" põe a ação do céu depois da ação da terra; "terá sido ligado" a põe antes. É toda a disputa apresentada no item 3.

Registre-se o que a gramática permite dizer com segurança e o que não permite. Que a forma é perfeita e não simples, é fato. Que o perfeito grego carrega, normalmente, anterioridade com resultado permanente, também é fato. Que essa força se conserve numa construção rara como esta, no grego do primeiro século e num texto que reflete padrões da língua semítica de fundo, é discutido — e é aí que os estudiosos se dividem.

ἐν τοῖς οὐρανοῖς — en tois ouranois, "nos céus".

O detalhe decisivo é o que a frase não tem: sujeito. A construção é passiva e não nomeia quem liga no céu.

Essa é uma característica bem conhecida dos textos judaicos daquele período. Para falar da ação de Deus sem pronunciar o nome dele, usava-se a voz passiva — "será dado", "será perdoado", "terá sido ligado". Mateus faz isso com frequência, e as bem-aventuranças do capítulo 5 estão cheias de exemplos.

A consequência para este versículo é direta e vale mais do que parece: em nenhuma das leituras possíveis um ser humano é o sujeito da ação celeste. O que se discute é a ordem entre as duas ações, não quem executa a segunda.

ἔσται λελυμένον — estai lelymenon, "terá sido desligado".

A construção repete exatamente a anterior, com o verbo oposto. A simetria é rigorosa: mesma forma, mesma estrutura, mesma ausência de sujeito.

Essa repetição integral tem efeito próprio. Ela impede que se leia o versículo como concessão de um poder de excluir com uma nota de rodapé sobre readmissão: os dois lados do par têm exatamente o mesmo peso gramatical.

11. Conclusão

Do versículo decorrem quatro conclusões, e nenhuma delas encerra a disputa que ele criou.

A primeira é sobre a natureza do que se entrega. A imagem escolhida é a do administrador de palácio, não a do sacerdote e não a do rei — e administração supõe bem alheio, dono ausente e contas a prestar. Disso decorre que qualquer leitura que transforme a promessa em posse já saiu do texto, e que a passagem de Isaías que está por trás dela traz, no fim, a queda do próprio homem que recebeu a chave.

A segunda é sobre as duas funções do objeto. Chave abre e fecha, e o único comentário que o evangelho faz sobre o uso dessa autoridade é uma condenação de quem só a usava para trancar. Isso dá um critério para avaliar qualquer comunidade que reivindique a promessa, e o critério é desfavorável a quem se orgulha das próprias recusas.

A terceira é sobre o alcance. A mesma autoridade, com as mesmas palavras e a mesma construção estranha, é dada em Mateus 18:18 à comunidade reunida, sem menção a ninguém em particular. Mateus registra as duas coisas e não as concilia — o que deixa trabalho para os dois lados da disputa histórica e impede que qualquer leitura termine num indivíduo decidindo sozinho.

A quarta é sobre o tempo verbal, e é a que menos se resolve. O texto diz "terá sido ligado", e não "será ligado". Se o céu confirma a terra ou se a terra reconhece o céu, é questão real, com argumentos de peso dos dois lados e sem consenso — e é honesto observar, com Cadbury, que nenhuma prática religiosa deveria depender de um ponto discutível de gramática grega. O que as duas leituras compartilham já é considerável: a frase é passiva, não nomeia agente, e em nenhuma hipótese põe um ser humano no comando do que acontece no céu.

Permanece em aberto o conteúdo. O versículo não diz o que se liga nem o que se desliga, não dá exemplo, não fixa matéria e não prevê o que fazer com o erro. Toda aplicação concreta — de qualquer tradição — é acréscimo argumentado, e reconhecer isso não desqualifica os acréscimos: apenas impede que se apresentem como se estivessem escritos aqui.

Comentários

Seja o primeiro a comentar.

Deixe um comentário

Mateus 16:19

Seu comentário passa por moderação antes de aparecer.

A Bíblia Comentada
© A Bíblia Comentada 2026. Design by Top Level
📖 Versículos comentados
Bíblia2.888 / 31.102 9,29%
Antigo Testamento2.114 / 23.145 9,13%
Novo Testamento774 / 7.957 9,73%