Eu asseguro a vocês: tudo o que vocês ligarem na terra terá sido ligado no céu, e tudo o que desligarem na terra terá sido desligado no céu.
1. Introdução
Logo depois do procedimento com o irmão que não ouve, Jesus repete a frase que dissera a Pedro em Mateus 16:19: o que for ligado na terra terá sido ligado no céu, e o que for desligado na terra terá sido desligado no céu.
A diferença está no plural. Lá, "você", só Pedro, e com as chaves. Aqui, "vocês", sem chaves e sem nome. E o contexto é outro: não uma confissão sobre quem Jesus é, e sim a decisão sobre um irmão que recusou ouvir três vezes.
2. Contexto Histórico e Cultural
O tribunal da terra e o tribunal do céu
O que se sabe sobre o par "ligar e desligar" no vocabulário dos mestres judeus, declarar proibido e permitido, pôr alguém sob exclusão e readmiti-lo, está exposto no estudo de Mateus 16:19. Este versículo acrescenta outra pergunta: como uma decisão tomada por pessoas na terra podia valer no céu? Os mestres judeus também discutiram isso.
O Talmude (a grande compilação de discussões rabínicas, fechada por volta do século VI) registra, em nome de um mestre do século III, que houve três coisas que o tribunal de baixo decidiu e o tribunal de cima confirmou: a leitura pública do livro de Ester na festa de Purim, o costume de cumprimentar as pessoas usando o nome de Deus, e a entrega do dízimo ao templo (Makkot 23b). A ideia de fundo é que uma decisão tomada corretamente pela autoridade religiosa da terra era ratificada no céu.
A Mishná (a coleção de leis judaicas organizada por volta do ano 200) conta um caso sobre o calendário. As festas dependiam do dia em que o tribunal declarava o começo do mês, a partir de testemunhas que viam a lua nova. Rabi Aquiba sustenta que a data fixada pelo tribunal vale mesmo que o tribunal tenha errado, porque a Lei diz "as festas que vocês proclamarão" (Mishná Rosh Hashaná 2:9). A tradição posterior desenvolveu a imagem de Deus e dos anjos esperando a decisão do tribunal terreno para saber quando cair a festa.
Esses textos são posteriores a Jesus, e nenhum deles cita Mateus. Mas mostram que a relação entre a decisão da comunidade na terra e a validade dela diante de Deus era uma questão viva no judaísmo, e que havia quem desse à decisão terrena uma autoridade que o céu acompanhava. O versículo fala a partir desse mundo.
3. Análise Teológica do Versículo
"Eu asseguro a vocês"
A fórmula solene liga o versículo ao anterior. Depois de dizer o que fazer com o irmão que não ouve nem a igreja, Jesus diz o que essa decisão vale.
"tudo o que vocês ligarem na terra"
O pronome está no plural. Em Mateus 16:19 a mesma autoridade foi prometida a Pedro, no singular, junto com as chaves. Aqui não há chaves e não há nome.
A quem Jesus está falando quando diz "vocês"? Há duas leituras.
Primeira leitura: aos Doze. O capítulo começa com "os discípulos" se aproximando de Jesus (Mateus 18:1), e em Mateus esse termo muitas vezes designa o grupo dos Doze. A autoridade dada a Pedro seria estendida aos outros apóstolos.
Segunda leitura: à comunidade. O versículo anterior mandou levar o caso "à igreja", e o seguinte fala de "dois de vocês" e de "dois ou três reunidos". O "vocês" seria a assembleia que acabou de ser mencionada, os que decidem juntos sobre o irmão.
Não é possível decidir, e o evangelho não separa com nitidez os Doze dos outros discípulos neste capítulo. Seja qual for a leitura, o plural impede que a autoridade de ligar e desligar seja lida, em Mateus, como coisa de um homem só.
Ligar e desligar depois de três tentativas
Em Mateus 16:19, o par de verbos pode significar ensinar o que é permitido ou admitir e excluir pessoas, e o contexto não decide. Aqui o contexto decide mais: o versículo vem logo depois de "que ele seja para você como o pagão e o cobrador de impostos". Ligar e desligar, neste lugar, é sobretudo decidir sobre o irmão: mantê-lo fora ou recebê-lo de volta.
E a ordem é importante. A frase não aparece no começo do procedimento, como um poder a ser usado; aparece no fim, depois da conversa a sós, das testemunhas e da igreja. A autoridade vem depois do processo inteiro, não no lugar dele.
O "tudo o que" continua no neutro, "as coisas que", e não "aqueles que". Mesmo num contexto sobre uma pessoa, a gramática fala de decisões, não diretamente de gente.
"terá sido ligado no céu"
A construção é a mesma de Mateus 16:19, que o estudo daquele versículo discute por inteiro: se o céu confirma o que a terra decidiu, ou se a terra reconhece o que o céu já decidiu. A tradução ABC mantém "terá sido", nos dois lugares.
Há uma diferença pequena: em Mateus 16:19 é "nos céus", no plural; aqui é "no céu", no singular. Não há sinal de que a troca tenha intenção.
O que o versículo não diz
Não diz que a comunidade acerta sempre. Não prevê o que acontece se ela errar. E não está sozinho: vem entre um procedimento que tenta de todos os modos evitar a exclusão e uma pergunta sobre perdão que termina em "setenta vezes sete". A autoridade de ligar está cercada, no próprio capítulo, pela obrigação de procurar e de perdoar.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
"Vocês"
Os discípulos a quem Jesus fala desde Mateus 18:1. Se são os Doze ou a comunidade reunida, o texto não define (item 3).
O irmão
Não é mencionado, mas é o assunto: o versículo vem logo depois da decisão sobre ele, no versículo 17.
Pedro
Também não é mencionado, e a ausência é notada. A mesma promessa lhe fora feita, no singular, em Mateus 16:19. Ele volta a falar no versículo 21.
5. Pontos de Ensino
A autoridade é dada no plural
O que foi dito a Pedro em Mateus 16:19 é dito aqui a todos os discípulos presentes.
Ligar e desligar, aqui, é decidir sobre o irmão
O contexto é o da disciplina: manter fora ou receber de volta.
A decisão vem depois do processo
A frase aparece no fim do procedimento de três passos, não no começo.
Desligar tem o mesmo peso que ligar
A frase dá à readmissão exatamente a mesma validade que dá ao afastamento.
6. Aspectos Filosóficos
O versículo põe a pergunta sobre a autoridade de um grupo: pode uma decisão tomada por pessoas ter validade além delas? Uma resposta diz que sim, quando a decisão segue um processo justo, e o capítulo acabou de descrever um. Outra diz que a decisão humana só vale quando coincide com uma verdade que não depende dela. A frase de Jesus não escolhe explicitamente entre as duas, e a forma verbal discutida em Mateus 16:19 é justamente o ponto em que elas se separam. O que o versículo deixa claro é que a autoridade é coletiva, e que ela vem no fim de um caminho, e não no começo.
7. Aplicações Práticas
Decida juntos, e só depois de tentar
Numa comunidade, a decisão de afastar alguém não pertence a uma pessoa e não vem antes das conversas. O versículo supõe o processo dos versículos 15 a 17 inteiro, e o põe nas mãos do grupo.
Não esqueça a metade que desliga
Comunidades costumam lembrar que podem afastar e esquecer que podem, com a mesma autoridade, receber de volta. O versículo dá aos dois atos o mesmo peso. A porta que foi fechada pode ser aberta pelos mesmos que a fecharam.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
O versículo diminui a autoridade dada a Pedro?
Depende de como se lê Mateus 16:19, e a discussão está naquele estudo. O que este versículo mostra, sem margem, é que Mateus registra a mesma promessa em dois lugares, uma vez no singular e outra no plural, e não explica a relação entre elas.
Por que aqui não há chaves?
O texto não explica. Uma leitura possível é que as chaves, a imagem do administrador da casa, pertencem à promessa pessoal a Pedro, e que o que se estende à comunidade é só a autoridade de decidir. Outra é que a imagem simplesmente não cabia no contexto da disciplina. Não é possível decidir.
9. Conexão com Outros Textos
A mesma frase no singular
Mateus 16:19 — "Darei a você as chaves do Reino dos céus; e tudo o que você ligar na terra terá sido ligado nos céus, e tudo o que você desligar na terra terá sido desligado nos céus."
Mesmos verbos, mesma construção. Lá, "você", chaves e "nos céus"; aqui, "vocês", sem chaves e "no céu".
Uma autoridade parecida, com outras palavras
João 20:23 — "Se vocês perdoarem os pecados de alguém, estarão perdoados; se não os perdoarem, não estarão perdoados."
Também no plural, dirigida aos discípulos reunidos depois da ressurreição.
Uma decisão de comunidade descrita por Paulo
1 Coríntios 5:4-5 — "Em nome do nosso Senhor Jesus, quando vocês estiverem reunidos e eu estiver com vocês em espírito, com o poder do nosso Senhor Jesus, entreguem esse homem a Satanás, para a destruição da carne, a fim de que o espírito seja salvo no dia do Senhor."
A comunidade reunida decide, "em nome" de Jesus, sobre um membro. A meta final declarada ainda é a salvação dele.
2 Coríntios 2:6-7 — "Para esse homem basta a punição que lhe foi imposta pela maioria. Agora, ao contrário, vocês devem perdoá-lo e consolá-lo, para que ele não seja consumido por excessiva tristeza."
A mesma comunidade que afastou é chamada a receber de volta. É o "desligar" depois do "ligar".
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Eu asseguro a vocês: tudo o que vocês ligarem na terra terá sido ligado no céu, e tudo o que desligarem na terra terá sido desligado no céu.
Texto grego (Textus Receptus)
Ἀμὴν λέγω ὑμῖν, ὅσα ἐὰν δήσητε ἐπὶ τῆς γῆς, ἔσται δεδεμένα ἐν τῷ οὐρανῷ· καὶ ὅσα ἐὰν λύσητε ἐπὶ τῆς γῆς, ἔσται λελυμένα ἐν τῷ οὐρανῷ.
Transliteração
Amēn legō hymin, hosa ean dēsēte epi tēs gēs, estai dedemena en tō ouranō; kai hosa ean lysēte epi tēs gēs, estai lelymena en tō ouranō.
Uma nota textual
Os verbos são os mesmos no Textus Receptus e nos manuscritos antigos, que diferem só em detalhes como o artigo antes de "céu"; a tradução ABC usa "ligar" e "desligar", como em Mateus 16:19, para que o leitor veja que se trata do mesmo par.
Análise palavra por palavra
Ἀμὴν λέγω ὑμῖν — amēn legō hymin, "eu asseguro a vocês", literalmente "amém, digo a vocês". A fórmula solene de garantia. O "vocês" já está no plural.
ὅσα ἐὰν δήσητε — hosa ean dēsēte, "tudo o que vocês ligarem".
Hosa é o plural neutro de hosos, "quanto, tudo o que": "todas as coisas que". Em Mateus 16:19 o pronome era o singular neutro, ho, "o que". A troca acompanha a do sujeito: muitos que decidem, muitas coisas decididas.
Dēsēte é o aoristo do subjuntivo de deō, "amarrar, ligar", agora na segunda pessoa do plural. Com ean, forma a condição aberta: seja o que for que vocês liguem.
ἐπὶ τῆς γῆς — epi tēs gēs, "na terra". O par terra e céu organiza o versículo inteiro.
ἔσται δεδεμένα — estai dedemena, "terá sido ligado". Futuro do verbo ser com o particípio perfeito passivo de deō, agora no plural neutro, concordando com hosa. É exatamente a construção de Mateus 16:19, e o estudo daquele versículo explica a forma e a disputa sobre ela.
ἐν τῷ οὐρανῷ — en tō ouranō, "no céu". Singular, onde Mateus 16:19 tem o plural, en tois ouranois. Mateus alterna as duas formas em outros lugares sem diferença de sentido evidente, como no Pai Nosso, que tem "nos céus" em Mateus 6:9 e "no céu" em Mateus 6:10.
καὶ ὅσα ἐὰν λύσητε — kai hosa ean lysēte, "e tudo o que desligarem". Lyō, "soltar, desatar, desligar", no mesmo tempo e na mesma pessoa do verbo anterior.
ἔσται λελυμένα ἐν τῷ οὐρανῷ — estai lelymena en tō ouranō, "terá sido desligado no céu". A segunda metade repete a primeira palavra por palavra, com o verbo oposto. A simetria dá à readmissão o mesmo peso gramatical da exclusão.
11. Conclusão
Do que se viu, o versículo leva a três conclusões.
A autoridade de ligar e desligar, em Mateus, não é só de Pedro. A mesma frase, com os mesmos verbos e a mesma construção, é dita aqui no plural. Quem a lê em Mateus 16:19 tem de levar este versículo junto.
Neste lugar, ligar e desligar é decidir sobre o irmão. O versículo vem colado ao "que ele seja para você como o pagão e o cobrador de impostos", e a decisão que ele valida é a de manter fora ou receber de volta.
A autoridade chega no fim do caminho. Ela vem depois de três tentativas de ganhar o irmão, é exercida por muitos e vale igualmente para abrir e para fechar. O capítulo não a apresenta como poder solto, e sim como a última palavra de um processo feito para não precisar dela.













