Mas, ao verem o filho, os lavradores disseram entre si: ‘Este é o herdeiro. Venham, vamos matá-lo e tomar a sua herança.’
1. Introdução
O dono esperava que, ao verem o filho, os lavradores se envergonhassem. Eles o veem, sabem exatamente quem é — "este é o herdeiro" — e é por isso mesmo que decidem matá-lo.
A frase com que se combinam, "venham, vamos matá-lo", é palavra por palavra a dos irmãos de José na Bíblia grega. E o plano supõe uma conta: morto o herdeiro, a herança seria deles. A pergunta é se essa conta fazia sentido no direito da época ou se é o ponto em que a parábola deixa de ser realista.
O Textus Receptus diz que querem "apoderar-se" da herança; as edições críticas, que querem "tê-la". A diferença é pequena e diz algo sobre o que os lavradores pretendiam.
2. Contexto Histórico e Cultural
Matar o herdeiro dava direito à vinha?
Lido como notícia de fazenda, o plano dos lavradores parece loucura. O dono está vivo — acabou de mandar o filho —, e matar o herdeiro não transfere a ninguém a propriedade. Por isso os estudiosos se dividiram entre os que procuraram no direito da época uma lógica para o plano e os que viram nele o ponto em que a história deixa a realidade.
A regra da posse na Mishná
O direito judaico tinha uma instituição que parece feita para esta cena: a chazaqah ("firmeza", "posse firme", em hebraico), a presunção de propriedade de quem usa a terra por certo tempo sem ser contestado. Ela está no terceiro capítulo do tratado Bava Batra ("a última porta", sobre propriedade e vizinhança) da Mishná, a coletânea de leis judaicas redigida por volta do ano 200, consultada aqui no Sefaria.
A regra básica (Bava Batra 3:1): quem cultiva casas, cisternas, prensas de azeite, campos irrigados e coisas semelhantes por três anos seguidos, sem que o dono reclame, passa a ser presumido dono. Para campos de árvores, Rabi Ismael diz que três colheitas — a dos grãos, a das azeitonas, a dos figos — já valem por três anos.
O motivo do prazo é o que mais se aproxima da parábola. Em Bava Batra 3:2, Rabi Judá explica que os três anos existem para o caso de o dono estar longe, "na Espanha": em um ano alguém ocupa o campo, no ano seguinte a notícia chega ao dono, e no terceiro ele volta e leva o ocupante ao tribunal. A mesma mishná diz que a posse não corre se o dono está numa das três regiões da terra (Judeia, Transjordânia, Galileia) e o campo em outra. É o direito pensando exatamente no proprietário que "partiu para uma viagem" (Mateus 21:33).
A cláusula que exclui os lavradores
A mesma Mishná, porém, fecha a porta aos personagens da parábola. Bava Batra 3:3 diz que posse sem alegação de título não é posse: quem responde "estou aqui porque ninguém nunca me disse nada" não ganha a terra. E enumera quem nunca adquire por posse, por mais anos que passe: os artesãos com objetos de outros nas mãos, os sócios, os guardiões e os arisim — os meeiros, os que trabalham a terra alheia por uma parte da colheita. Os lavradores da parábola são exatamente isso.
Há uma exceção no fim do mesmo trecho, e foi nela que se apoiou a hipótese mais conhecida. Os bens de um prosélito (um não judeu convertido) que morre sem herdeiros ficam sem dono, e quem primeiro fecha a porta, levanta a cerca ou abre uma brecha nela adquire a propriedade na hora.
A hipótese de Jeremias
Joachim Jeremias, em As parábolas de Jesus, apoiado num estudo de Ernst Bammel (estudioso alemão do direito judaico antigo) de 1959, propôs que os lavradores raciocinam a partir dessa ideia. A chegada do filho os faria supor que o dono tinha morrido e que o herdeiro vinha tomar posse. Matando-o, a vinha ficaria sem dono, e quem estava nela seria o primeiro a ocupá-la. O plano, então, seria criminoso, mas não absurdo.
A hipótese tem o mérito de levar a sério o raciocínio dos personagens. Tem também três dificuldades, apontadas por estudos posteriores. O texto não diz que os lavradores pensaram que o dono morrera; o dono fala e manda, e eles sabem disso. A terra ocupada por um meeiro não vira terra sem dono, porque o meeiro é justamente quem não pode adquiri-la. E a exceção da Mishná trata de prosélitos sem herdeiros, não de proprietários com filho.
J. Duncan M. Derrett (estudioso inglês de direito antigo, já apresentado no estudo de Mateus 21:3) dedicou à parábola um artigo de 1963 em que também leu cada passo pelas regras de arrendamento da época. A tendência dessas leituras jurídicas é a mesma: dar aos lavradores uma lógica. O seu limite também: a parábola não precisa que o plano funcione, só que eles acreditem nele.
A outra saída: o absurdo é a mensagem
O Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) diz que o plano seria "impossível na vida real" e que esse é o sinal de que a história virou alegoria. Para essa leitura, a herança cobiçada não é a terra, é aquilo que os lavradores da alegoria administravam: o povo, o templo, a autoridade sobre a vinha de Deus. Não há prazo de três anos que dê isso a alguém. As duas leituras não se excluem por completo; o que se pode afirmar é que a Mishná conhecia o problema da terra ocupada na ausência do dono, e que a mesma Mishná negava esse caminho a quem estava na terra como arrendatário.
3. Análise Teológica do Versículo
“Mas, ao verem o filho,”
O versículo começa onde o anterior apostou. O dono contava com o efeito de verem o filho; Lucas chega a pôr isso na boca dele ("talvez, vendo-o, o respeitem", Lucas 20:13). Mateus usa o mesmo verbo de ver para os lavradores, e o efeito é o oposto do esperado. A visão não produz vergonha. Produz reconhecimento — e o reconhecimento produz um plano.
Não há intervalo entre ver e decidir. Os lavradores não conversam com o filho, não ouvem o que ele vem dizer, não perguntam nada. A decisão é tomada na chegada, sobre a identidade dele, e não sobre o que ele faz.
“os lavradores disseram entre si:”
É uma combinação de grupo, não um impulso de um só. O espelho entre esta deliberação e a dos chefes dos sacerdotes, que também "discutiam entre si" sobre João Batista, está no estudo de Mateus 21:25. Aqui basta o que a frase mostra da cena: ninguém entre os lavradores discorda. Não há voz contrária.
“‘Este é o herdeiro.’”
A identificação é correta. Eles não se enganam sobre quem chega. E esse é o ponto mais incômodo do versículo, porque a parábola põe na boca dos lavradores um conhecimento que outros textos do Novo Testamento negam aos que mataram Jesus.
Pedro, no templo, diz ao povo e aos chefes: "sei que vocês agiram por ignorância, como também os seus chefes" (Atos 3:17). Paulo escreve que, se os poderosos deste mundo tivessem conhecido a sabedoria de Deus, "não teriam crucificado o Senhor da glória" (1 Coríntios 2:8). Lucas põe na cruz a oração "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem" (Lucas 23:34). A parábola diz o contrário: eles sabem, e matam porque sabem.
Há três modos de ler essa tensão. Primeira leitura: a parábola fala dos chefes, e os outros textos falam do povo; Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) distingue os que "o conheciam, mas não ousavam confessá-lo" dos que agiram "com rancor". A distinção existe, mas Atos 3:17 inclui expressamente "os seus chefes". Segunda leitura: a parábola não descreve o que os chefes sabiam, descreve a lógica do que fizeram — quem elimina alguém por causa do lugar que ele ocupa age como quem sabe quem ele é, conheça ou não o título. Terceira leitura: a parábola é polêmica, e a polêmica aumenta a culpa do adversário; os textos de Atos, escritos para convencer, a diminuem. As três têm apoio, e não é possível decidir entre elas.
Essa frase foi lida por séculos como prova de que "os judeus", em bloco, mataram Jesus sabendo quem ele era. O texto não sustenta essa leitura: quem diz "este é o herdeiro" são os lavradores, e Mateus identifica neles os chefes dos sacerdotes e os fariseus (Mateus 21:45), não um povo.
“Venham, vamos matá-lo”
A frase é curta e conhecida. Na Bíblia grega, é exatamente a dos irmãos de José quando o veem chegar a Dotã (Gênesis 37:20) — as mesmas três palavras, na mesma ordem, e Marcos e Lucas também a trazem (a comparação está no item 10). A semelhança de enredo entre as duas cenas é antiga na leitura cristã; o que se acrescenta aqui é que a parábola não só lembra a cena: fala com as palavras dela.
É alusão deliberada ou coincidência? O "venham" é fórmula comum de convite, e "matemos" é o verbo mais simples para a ideia. Mas a combinação inteira, dita por um grupo que vê chegar o filho preferido de um pai, é difícil de atribuir ao acaso. Se a alusão é proposital, ela carrega a ironia do original: os irmãos de José querem matá-lo para ver "no que darão os seus sonhos", e o plano é o caminho pelo qual os sonhos se cumprem. A parábola seguirá o mesmo desenho três versículos depois, com a pedra rejeitada que vira pedra angular (Mateus 21:42).
“e tomar a sua herança.”
O que querem não é a vinha como terra; é o direito sobre ela. A palavra é "herança", não "vinha". Eles não pensam em roubar a colheita, que já guardavam para si: pensam em deixar de ser arrendatários.
Os evangelhos dizem isso de três modos. Marcos: "e a herança será nossa". Lucas: "para que a herança se torne nossa". Mateus, no Textus Receptus, usa um verbo de ocupação, de agarrar e reter — "apoderemo-nos"; nas edições críticas, um verbo mais simples, "tenhamos" (item 10). Nas duas formas de Mateus, os lavradores são o sujeito ativo: a herança não "será" deles por consequência, eles a tomam.
Lida como alegoria, a herança é o que os chefes administravam: o povo, o templo, a autoridade de ensinar. O Evangelho de João põe na boca do conselho um motivo parecido, sem parábola: "se o deixarmos assim, todos crerão nele, e virão os romanos e tomarão tanto o nosso lugar como a nossa nação" (João 11:48). Ali o medo é de perder; aqui, o desejo é de ficar com tudo. Os dois são modos de defender o mesmo lugar.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
O conselho que executa o plano
O que os lavradores combinam aqui acontece, fora da parábola, poucos dias depois. Mateus 26:3-4 descreve a reunião: "os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo se reuniram no palácio do sumo sacerdote, chamado Caifás, e decidiram prender Jesus à traição e matá-lo". A "herança" da alegoria — a administração do templo e da vinha de Deus — tinha, portanto, donos de carne e osso, com nome e parentela.
Mateus não diz que a reunião de Caifás cumpre a parábola. Quem lê os dois trechos seguidos faz a ligação, e a semelhança de verbos (combinar, prender, matar) a favorece.
Os irmãos em Dotã
A frase "venham, vamos matá-lo" leva o leitor para Dotã, ao norte de Siquém, onde dez filhos de Jacó veem chegar o irmão preferido (Gênesis 37:17-20). A diferença de elenco é instrutiva. Lá, o grupo não é unânime: Rúben propõe a cisterna para salvar José, e Judá propõe vendê-lo em vez de matá-lo. Na parábola, ninguém hesita.
Houve quem discordasse?
Na história real, sim, segundo os outros evangelhos. Lucas diz que José de Arimateia era membro do conselho e "não tinha concordado com a decisão e com o ato deles" (Lucas 23:51). João põe Nicodemos, também do conselho, a defender que ninguém fosse condenado sem ser ouvido (João 7:50-51). Mateus menciona José de Arimateia só como homem rico e discípulo que pediu o corpo (Mateus 27:57) e não diz que fosse do conselho. A parábola simplifica, como toda parábola; os relatos da paixão mostram que o grupo dos "lavradores" teve pelo menos uma voz contrária.
O herdeiro na lei de Israel
Pela lei de Números 27:8-11, a herança passava ao filho; na falta dele, à filha; depois aos irmãos do morto, aos tios e, por fim, ao parente mais próximo. Em nenhum ponto dessa lista entra quem trabalhava a terra. É por isso que, na lógica jurídica, matar o herdeiro não abria caminho para os lavradores: abria para o parente seguinte do dono.
5. Pontos de Ensino
1. O reconhecimento pode servir ao crime
Os lavradores sabem quem é o filho, e esse saber é o motivo da morte, não um freio. O versículo desfaz a ideia de que basta mostrar a verdade a alguém para que ele a acolha. Às vezes a verdade é exatamente o que ameaça o interesse de quem a vê.
2. O alvo é o lugar, não a pessoa
Os lavradores não têm nada contra o filho; ele nem chegou a falar. Matam o herdeiro porque ele ocupa um lugar que querem para si. A parábola descreve uma violência impessoal, a que elimina quem está no caminho de uma posição.
3. Quem administra quer ser dono
A tentação descrita é a de quem recebeu algo para cuidar e passa a tratá-lo como próprio. Os lavradores eram arrendatários; querem ser herdeiros. Lido como alegoria, o versículo atinge a autoridade religiosa que se esquece de que a vinha não é sua — e atinge qualquer liderança, de qualquer tempo, que confunde mandato com posse.
4. O cálculo dos lavradores é falso
Pela lei, a herança não passava a quem matasse o herdeiro, e o dono estava vivo. O plano só faz sentido para quem esqueceu que há um dono. A pergunta de Mateus 21:40 — "quando vier o dono da vinha" — é a resposta a esse esquecimento.
6. Aspectos Filosóficos
"É meu o que eu consigo tomar": Max Stirner e a herança dos lavradores
"Venham, vamos matá-lo e tomar a sua herança" é uma teoria da propriedade resumida em uma frase: pertence a alguém aquilo de que ele consegue se apoderar. O direito do dono e do filho não conta; conta quem está com a vinha nas mãos e tem força para ficar com ela. No século XIX, um filósofo alemão defendeu essa teoria a sério.
Max Stirner (pseudônimo de Johann Caspar Schmidt, 1806-1856) publicou em 1844 O Único e a sua propriedade (Der Einzige und sein Eigentum). O livro ataca todas as ideias que pretendem estar acima do indivíduo — Deus, o Estado, a humanidade, a moral, o direito — e as chama de "fantasmas": abstrações a que as pessoas se sujeitam como se fossem reais. Para Stirner, o direito de propriedade é um desses fantasmas. Ninguém me "concede" nada; o que é meu é o que está no meu poder. Quem sabe tomar uma coisa e defendê-la, a esse ela pertence.
A frase antiga dos ímpios
A ideia não nasceu com Stirner. O livro da Sabedoria, escrito em grego por um judeu de Alexandria no século I antes de Cristo, põe na boca dos ímpios um programa parecido: "que a nossa força seja a lei da justiça, porque o que é fraco se mostra inútil" (Sabedoria 2:11). Logo em seguida esses mesmos ímpios combinam eliminar o justo que se diz filho de Deus. A diferença é que a Sabedoria apresenta a ideia para condená-la; Stirner a apresenta como libertação.
O detalhe que desmente os lavradores
Lida com Stirner ao lado, a frase dos lavradores mostra uma contradição. Se eles fossem coerentes com a lógica da força, diriam "vamos ficar com a vinha". Não dizem isso. Dizem "vamos tomar a herança". Querem o título, a legitimidade, o nome de herdeiros — justamente o tipo de "fantasma" que Stirner mandava desprezar.
Os lavradores não acreditam que a força basta. Querem que o que tomaram pela força passe a ser deles por direito. O assassinato não é o fim do plano, é o meio de chegar a uma posição que outros tenham de reconhecer. Até o usurpador precisa da linguagem do herdeiro.
A crítica a Stirner
Karl Marx e Friedrich Engels dedicaram a Stirner centenas de páginas de A ideologia alemã (1845-1846), onde o chamam ironicamente de "São Max". A objeção principal deles serve também para a parábola: a propriedade não é uma relação entre uma pessoa e uma coisa, é uma relação entre pessoas. Ninguém é dono sozinho; é dono diante de outros que reconhecem ou contestam. O egoísta de Stirner parece livre de todos os laços, mas depende dos outros para que o "seu" seja seu.
A parábola diz a mesma coisa à sua maneira. Os lavradores podem matar o filho, mas não podem apagar o dono, e a pergunta que vem a seguir é: "quando vier o dono da vinha, o que fará àqueles lavradores?" (Mateus 21:40).
O limite da aproximação
Stirner não pregava o assassinato, e a sua filosofia é mais sutil do que um elogio da força bruta: era sobretudo uma recusa de se sujeitar a ideias. A aproximação com os lavradores é leitura deste estudo, não algo que ele tenha escrito. O que ela permite é ver com clareza o que a parábola condena: não a ambição em geral, mas a convicção de que a vinha é de quem consegue ficar com ela.
7. Aplicações Práticas
Brigas de herança
Este é um dos poucos versículos da parábola com aplicação literal: ele fala de gente que quer uma herança e vê em alguém o obstáculo. Brigas de herança destroem famílias em qualquer época, e o raciocínio que as alimenta é quase sempre o dos lavradores — "se ele não estivesse aí, seria nosso". Raramente chega ao crime; muitas vezes chega ao rompimento definitivo, à mentira em cartório, ao parente que deixa de ser parente.
O versículo ajuda a nomear o momento em que isso começa: quando alguém deixa de ver o outro como irmão, filho ou sócio e passa a vê-lo como "o herdeiro" — a função que ele ocupa e que atrapalha.
Cuidar não é possuir
Quem administra o que é de outro — um síndico, um tesoureiro de igreja, o gerente de uma empresa familiar, um tutor — vive a tentação dos lavradores em escala pequena: depois de anos cuidando, começa a se sentir dono. A Mishná negava ao meeiro a posse da terra que cultivava justamente para impedir essa passagem. Lembrar que o que se cuida tem dono é a forma mais simples de não cair nela.
O grupo que ninguém freia
Os lavradores decidem juntos, e ninguém discorda. Decisões ruins de grupo costumam nascer assim: cada um supõe que outro vai objetar. Ser a voz contrária num grupo que combina algo errado é a aplicação mais concreta do versículo.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Por que os lavradores acham que o dono não vai reagir?
A parábola não diz. A explicação mais simples é a distância: o dono "partiu para uma viagem" e, até ali, só mandou outros. Quem nunca viu o dono agir em pessoa passa a agir como se ele não existisse. Na leitura teológica, é o retrato de quem toma a paciência de Deus por ausência — o mesmo engano que Eclesiastes 8:11 descreve: "porque a sentença contra a má obra não se executa logo, o coração dos homens se enche de vontade de fazer o mal".
O motivo da morte de Jesus foi mesmo disputa de posição?
Mateus dá pelo menos duas pistas além da parábola. Pilatos "sabia que por inveja o tinham entregado" (Mateus 27:18). E a acusação formal diante do conselho é de blasfêmia (Mateus 26:65). Os historiadores somam ainda o gesto contra o comércio do templo (Mateus 21:12-13) e o medo de agitação na Páscoa. A parábola escolhe um motivo — a herança, isto é, o lugar — e o põe no centro. Não é o relato completo das causas; é a leitura que Jesus faz delas.
A parábola diz o que acontece com o filho depois de morto?
Não. A história termina com o corpo fora da vinha (Mateus 21:39) e passa ao castigo dos lavradores. A reviravolta vem por outro caminho: a citação da pedra rejeitada que se torna pedra angular (Mateus 21:42). A ressurreição não está na parábola; está na moldura que Jesus põe em volta dela, e no anúncio dos três dias que Mateus já repetiu.
9. Conexão com Outros Textos
As outras duas versões
Marcos 12:7 — "Mas aqueles lavradores disseram entre si: Este é o herdeiro. Venham, vamos matá-lo, e a herança será nossa."
Lucas 20:14 — "Vendo-o, porém, os lavradores raciocinavam entre si, dizendo: Este é o herdeiro. Venham, vamos matá-lo, para que a herança se torne nossa."
As três versões têm as mesmas palavras centrais. Muda só o fim: em Marcos a herança "será" deles; em Lucas, "se tornará"; em Mateus, eles a tomam.
Os irmãos de José
Gênesis 37:20 — "Venham agora, vamos matá-lo e lançá-lo numa destas cisternas, e diremos que um animal selvagem o devorou; e veremos no que darão os seus sonhos."
Na Septuaginta, as palavras "venham, vamos matá-lo" são as mesmas dos lavradores. O paralelo de enredo entre as duas cenas está no estudo de Gênesis 37:20.
A vinha cobiçada, a herança e a morte
1 Reis 21:3 — "Nabote respondeu a Acabe: O SENHOR me livre de lhe dar a herança de meus pais."
1 Reis 21:15 — "Quando Jezabel soube que Nabote tinha sido apedrejado e estava morto, disse a Acabe: Levante-se e tome posse da vinha de Nabote, o jezreelita, que ele se recusou a vender a você, porque Nabote já não vive; está morto."
O paralelo mais próximo de toda a Bíblia hebraica: uma vinha, a palavra "herança", um homem morto para que outro fique com ela. Na Septuaginta, Jezabel diz a Acabe literalmente "herde a vinha", porque o dono "não está vivo" — a lógica exata dos lavradores. E Nabote também foi levado "para fora da cidade" antes de morrer (1 Reis 21:13). Não há sinal de que Jesus aluda a esta história; a coincidência de elementos é grande o bastante para que o leitor a sinta.
O justo que se diz filho de Deus
Sabedoria 2:12, 18, 20 — "Armemos ciladas ao justo, porque ele nos incomoda e se opõe às nossas obras (...). Se o justo é filho de Deus, Deus o socorrerá e o livrará das mãos dos seus adversários. (...) Condenemo-lo a uma morte vergonhosa."
Um grupo que combina, em primeira pessoa do plural, eliminar quem se apresenta como filho de Deus. A tradição cristã leu este capítulo como profecia da paixão desde muito cedo; o texto fala do justo em geral.
O Filho herdeiro
Hebreus 1:1-2 — "Muitas vezes e de muitos modos, Deus falou outrora aos pais pelos profetas; nestes últimos dias nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas."
Salmo 2:8 — "Peça-me, e eu darei a você as nações como herança, e os confins da terra como sua propriedade."
Hebreus organiza a história como a parábola — profetas primeiro, o Filho no fim — e dá ao Filho o título que os lavradores reconheceram nele. O Salmo 2, que chama o rei de "meu filho" no versículo anterior, liga filiação e herança.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Mas, ao verem o filho, os lavradores disseram entre si: ‘Este é o herdeiro. Venham, vamos matá-lo e tomar a sua herança.’
Texto grego (Textus Receptus)
Οἱ δὲ γεωργοὶ ἰδόντες τὸν υἱὸν εἶπον ἐν ἑαυτοῖς, Οὗτός ἐστιν ὁ κληρονόμος· δεῦτε, ἀποκτείνωμεν αὐτόν, καὶ κατάσχωμεν τὴν κληρονομίαν αὐτοῦ.
Transliteração
Hoi de geōrgoi idontes ton huion eipon en heautois, Houtos estin ho klēronomos; deute, apokteinōmen auton, kai kataschōmen tēn klēronomian autou.
Uma nota sobre o texto
O Textus Receptus ("texto recebido", a edição grega do século XVI que a ABC segue) traz kataschōmen, "apoderemo-nos", "ocupemos". As edições críticas trazem schōmen, "tenhamos", do verbo comum echō, "ter". A forma crítica é apoiada pelos manuscritos mais antigos; a do Textus Receptus está na maioria dos manuscritos medievais. Os editores críticos supõem que um copista trocou o verbo simples por outro mais expressivo — a regra de que a versão mais difícil, ou mais pobre, costuma ser a original. A diferença de sentido é real, embora pequena: "tenhamos" diz o resultado; "apoderemo-nos" diz o ato de agarrar. A ABC, com "tomar", acompanha o Textus Receptus. Conferido no interlinear do Bible Hub, que segue o texto crítico, e na edição de Scrivener publicada pelo eBible.
Análise palavra por palavra
Οἱ δὲ γεωργοὶ — hoi de geōrgoi, "mas os lavradores". Geōrgos é composto de gē, "terra", e ergon, "trabalho": o que trabalha a terra. De onde vem o nome Jorge. O de marca o contraste com a esperança do versículo anterior.
ἰδόντες τὸν υἱὸν — idontes ton huion, "tendo visto o filho". Particípio aoristo de horaō, "ver". Na Septuaginta de Gênesis 37:18, os irmãos de José também "o viram de longe" (proeidon, da mesma raiz) antes de combinar a morte.
εἶπον ἐν ἑαυτοῖς — eipon en heautois, "disseram entre si" — ou "dentro de si". A preposição en admite as duas coisas: conversa do grupo ou pensamento de cada um. Marcos usa pros heautous, "uns aos outros", inequivocamente conversa; Lucas, dielogizonto, "raciocinavam". A escolha de Mateus deixa a deliberação mais interior.
Οὗτός ἐστιν ὁ κληρονόμος — houtos estin ho klēronomos, "este é o herdeiro". Klēronomos junta klēros, "sorte, lote" — a parte de terra que se tirava por sorteio — e nemō, "distribuir, ter a sua parte". O herdeiro é o que recebe o lote. É a única vez que a palavra aparece em Mateus.
Na Septuaginta, o verbo da mesma família marca a pergunta que abre a história de Abraão: "um servo nascido na minha casa será o meu herdeiro", diz Abrão; e Deus responde: "esse não será o seu herdeiro; mas aquele que sair das suas entranhas" (Gênesis 15:3-4). Servo e filho, e só o filho herda: é o mesmo par da parábola. Em Mateus o verbo aparece nas promessas — os mansos "herdarão a terra" (Mateus 5:5), quem deixa tudo "herdará a vida eterna" (Mateus 19:29).
δεῦτε — deute, "venham". Advérbio usado como imperativo plural (o singular é deuro, "vem cá"). Convite ao grupo para uma ação conjunta.
ἀποκτείνωμεν αὐτόν — apokteinōmen auton, "matemo-lo", "vamos matá-lo". Subjuntivo aoristo de apokteinō, "matar", na primeira pessoa do plural: a forma da exortação a si mesmos.
As três palavras deute apokteinōmen auton são, letra por letra, as da Septuaginta em Gênesis 37:20: nyn oun deute apokteinōmen auton, "agora, pois, venham, vamos matá-lo". Mateus, Marcos (Marcos 12:7) e Lucas (Lucas 20:14) as conservam idênticas — o único trecho da parábola em que os três evangelhos concordam palavra por palavra com o grego do Gênesis. A Septuaginta usa a mesma fórmula, deute com um verbo no plural, em Gênesis 37:27 ("venham, vamos vendê-lo aos ismaelitas"), na proposta de Judá.
καὶ κατάσχωμεν — kai kataschōmen, "e apoderemo-nos". Subjuntivo aoristo de katechō, de kata, "para baixo, completamente", e echō, "ter": segurar firme, reter, ocupar. É o verbo de "ocupar o último lugar" em Lucas 14:9 e de "reter o que é bom" em 1 Tessalonicenses 5:21. Com a herança por objeto, é a ocupação de quem se instala e não sai.
τὴν κληρονομίαν αὐτοῦ — tēn klēronomian autou, "a herança dele". O substantivo da mesma raiz de klēronomos. Na Septuaginta é a palavra da terra prometida como "herança" de Israel, e também a de 1 Reis 21:3, na recusa de Nabote: "a herança de meus pais". O pronome "dele" é o centro do crime: não é herança nenhuma que eles querem, é a dele.
11. Conclusão
Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.
A primeira é que a falha do plano do dono não foi de informação. Os lavradores sabiam quem era o filho, e foi por saberem que o mataram. O versículo fecha a porta à ideia confortável de que a rejeição de Jesus nasceu só de engano; na parábola, nasce de interesse. Os outros textos do Novo Testamento que falam em ignorância continuam de pé, e a tensão entre eles e a parábola não se resolve — mas a parábola não deixa que ela seja resolvida só por um lado.
A segunda é que a cobiça dos lavradores não é por coisa, é por posição. Querem a herança, não a uva; querem o título, não só a terra. O direito da época não lhes dava esse caminho, e a parábola não precisa que dê: o crime é descrito como erro de cálculo, porque o dono continua vivo.
A terceira é que, ao falar com as palavras dos irmãos de José, os lavradores entram numa história cujo fim os ouvintes conheciam. O plano de eliminar o filho para impedir o que ele representa já foi feito uma vez, e foi o caminho por onde aquilo que se queria impedir aconteceu. O versículo não anuncia a reviravolta; deixa que a lembrança dela fique no ar até a pedra rejeitada.













