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Mateus 21:38

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✍️ Por Alberto Adriano·4 de outubro de 2026·⏱️ 24 min de leitura·👁 20 acessos
Mas, ao verem o filho, os lavradores disseram entre si: ‘Este é o herdeiro. Venham, vamos matá-lo e tomar a sua herança.’
Um grupo de lavradores de túnicas simples, reunidos entre as fileiras de videiras, olha desconfiado para um jovem bem vestido que se aproxima pela estrada, enquanto um deles aponta para ele e fala aos outros em voz baixa.

Estudo


Mas, ao verem o filho, os lavradores disseram entre si: ‘Este é o herdeiro. Venham, vamos matá-lo e tomar a sua herança.’

1. Introdução

O dono esperava que, ao verem o filho, os lavradores se envergonhassem. Eles o veem, sabem exatamente quem é — "este é o herdeiro" — e é por isso mesmo que decidem matá-lo.

A frase com que se combinam, "venham, vamos matá-lo", é palavra por palavra a dos irmãos de José na Bíblia grega. E o plano supõe uma conta: morto o herdeiro, a herança seria deles. A pergunta é se essa conta fazia sentido no direito da época ou se é o ponto em que a parábola deixa de ser realista.

O Textus Receptus diz que querem "apoderar-se" da herança; as edições críticas, que querem "tê-la". A diferença é pequena e diz algo sobre o que os lavradores pretendiam.

2. Contexto Histórico e Cultural

Matar o herdeiro dava direito à vinha?

Lido como notícia de fazenda, o plano dos lavradores parece loucura. O dono está vivo — acabou de mandar o filho —, e matar o herdeiro não transfere a ninguém a propriedade. Por isso os estudiosos se dividiram entre os que procuraram no direito da época uma lógica para o plano e os que viram nele o ponto em que a história deixa a realidade.

A regra da posse na Mishná

O direito judaico tinha uma instituição que parece feita para esta cena: a chazaqah ("firmeza", "posse firme", em hebraico), a presunção de propriedade de quem usa a terra por certo tempo sem ser contestado. Ela está no terceiro capítulo do tratado Bava Batra ("a última porta", sobre propriedade e vizinhança) da Mishná, a coletânea de leis judaicas redigida por volta do ano 200, consultada aqui no Sefaria.

A regra básica (Bava Batra 3:1): quem cultiva casas, cisternas, prensas de azeite, campos irrigados e coisas semelhantes por três anos seguidos, sem que o dono reclame, passa a ser presumido dono. Para campos de árvores, Rabi Ismael diz que três colheitas — a dos grãos, a das azeitonas, a dos figos — já valem por três anos.

O motivo do prazo é o que mais se aproxima da parábola. Em Bava Batra 3:2, Rabi Judá explica que os três anos existem para o caso de o dono estar longe, "na Espanha": em um ano alguém ocupa o campo, no ano seguinte a notícia chega ao dono, e no terceiro ele volta e leva o ocupante ao tribunal. A mesma mishná diz que a posse não corre se o dono está numa das três regiões da terra (Judeia, Transjordânia, Galileia) e o campo em outra. É o direito pensando exatamente no proprietário que "partiu para uma viagem" (Mateus 21:33).

A cláusula que exclui os lavradores

A mesma Mishná, porém, fecha a porta aos personagens da parábola. Bava Batra 3:3 diz que posse sem alegação de título não é posse: quem responde "estou aqui porque ninguém nunca me disse nada" não ganha a terra. E enumera quem nunca adquire por posse, por mais anos que passe: os artesãos com objetos de outros nas mãos, os sócios, os guardiões e os arisim — os meeiros, os que trabalham a terra alheia por uma parte da colheita. Os lavradores da parábola são exatamente isso.

Há uma exceção no fim do mesmo trecho, e foi nela que se apoiou a hipótese mais conhecida. Os bens de um prosélito (um não judeu convertido) que morre sem herdeiros ficam sem dono, e quem primeiro fecha a porta, levanta a cerca ou abre uma brecha nela adquire a propriedade na hora.

A hipótese de Jeremias

Joachim Jeremias, em As parábolas de Jesus, apoiado num estudo de Ernst Bammel (estudioso alemão do direito judaico antigo) de 1959, propôs que os lavradores raciocinam a partir dessa ideia. A chegada do filho os faria supor que o dono tinha morrido e que o herdeiro vinha tomar posse. Matando-o, a vinha ficaria sem dono, e quem estava nela seria o primeiro a ocupá-la. O plano, então, seria criminoso, mas não absurdo.

A hipótese tem o mérito de levar a sério o raciocínio dos personagens. Tem também três dificuldades, apontadas por estudos posteriores. O texto não diz que os lavradores pensaram que o dono morrera; o dono fala e manda, e eles sabem disso. A terra ocupada por um meeiro não vira terra sem dono, porque o meeiro é justamente quem não pode adquiri-la. E a exceção da Mishná trata de prosélitos sem herdeiros, não de proprietários com filho.

J. Duncan M. Derrett (estudioso inglês de direito antigo, já apresentado no estudo de Mateus 21:3) dedicou à parábola um artigo de 1963 em que também leu cada passo pelas regras de arrendamento da época. A tendência dessas leituras jurídicas é a mesma: dar aos lavradores uma lógica. O seu limite também: a parábola não precisa que o plano funcione, só que eles acreditem nele.

A outra saída: o absurdo é a mensagem

O Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) diz que o plano seria "impossível na vida real" e que esse é o sinal de que a história virou alegoria. Para essa leitura, a herança cobiçada não é a terra, é aquilo que os lavradores da alegoria administravam: o povo, o templo, a autoridade sobre a vinha de Deus. Não há prazo de três anos que dê isso a alguém. As duas leituras não se excluem por completo; o que se pode afirmar é que a Mishná conhecia o problema da terra ocupada na ausência do dono, e que a mesma Mishná negava esse caminho a quem estava na terra como arrendatário.

3. Análise Teológica do Versículo

“Mas, ao verem o filho,”

O versículo começa onde o anterior apostou. O dono contava com o efeito de verem o filho; Lucas chega a pôr isso na boca dele ("talvez, vendo-o, o respeitem", Lucas 20:13). Mateus usa o mesmo verbo de ver para os lavradores, e o efeito é o oposto do esperado. A visão não produz vergonha. Produz reconhecimento — e o reconhecimento produz um plano.

Não há intervalo entre ver e decidir. Os lavradores não conversam com o filho, não ouvem o que ele vem dizer, não perguntam nada. A decisão é tomada na chegada, sobre a identidade dele, e não sobre o que ele faz.

“os lavradores disseram entre si:”

É uma combinação de grupo, não um impulso de um só. O espelho entre esta deliberação e a dos chefes dos sacerdotes, que também "discutiam entre si" sobre João Batista, está no estudo de Mateus 21:25. Aqui basta o que a frase mostra da cena: ninguém entre os lavradores discorda. Não há voz contrária.

“‘Este é o herdeiro.’”

A identificação é correta. Eles não se enganam sobre quem chega. E esse é o ponto mais incômodo do versículo, porque a parábola põe na boca dos lavradores um conhecimento que outros textos do Novo Testamento negam aos que mataram Jesus.

Pedro, no templo, diz ao povo e aos chefes: "sei que vocês agiram por ignorância, como também os seus chefes" (Atos 3:17). Paulo escreve que, se os poderosos deste mundo tivessem conhecido a sabedoria de Deus, "não teriam crucificado o Senhor da glória" (1 Coríntios 2:8). Lucas põe na cruz a oração "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem" (Lucas 23:34). A parábola diz o contrário: eles sabem, e matam porque sabem.

Há três modos de ler essa tensão. Primeira leitura: a parábola fala dos chefes, e os outros textos falam do povo; Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) distingue os que "o conheciam, mas não ousavam confessá-lo" dos que agiram "com rancor". A distinção existe, mas Atos 3:17 inclui expressamente "os seus chefes". Segunda leitura: a parábola não descreve o que os chefes sabiam, descreve a lógica do que fizeram — quem elimina alguém por causa do lugar que ele ocupa age como quem sabe quem ele é, conheça ou não o título. Terceira leitura: a parábola é polêmica, e a polêmica aumenta a culpa do adversário; os textos de Atos, escritos para convencer, a diminuem. As três têm apoio, e não é possível decidir entre elas.

Essa frase foi lida por séculos como prova de que "os judeus", em bloco, mataram Jesus sabendo quem ele era. O texto não sustenta essa leitura: quem diz "este é o herdeiro" são os lavradores, e Mateus identifica neles os chefes dos sacerdotes e os fariseus (Mateus 21:45), não um povo.

“Venham, vamos matá-lo”

A frase é curta e conhecida. Na Bíblia grega, é exatamente a dos irmãos de José quando o veem chegar a Dotã (Gênesis 37:20) — as mesmas três palavras, na mesma ordem, e Marcos e Lucas também a trazem (a comparação está no item 10). A semelhança de enredo entre as duas cenas é antiga na leitura cristã; o que se acrescenta aqui é que a parábola não só lembra a cena: fala com as palavras dela.

É alusão deliberada ou coincidência? O "venham" é fórmula comum de convite, e "matemos" é o verbo mais simples para a ideia. Mas a combinação inteira, dita por um grupo que vê chegar o filho preferido de um pai, é difícil de atribuir ao acaso. Se a alusão é proposital, ela carrega a ironia do original: os irmãos de José querem matá-lo para ver "no que darão os seus sonhos", e o plano é o caminho pelo qual os sonhos se cumprem. A parábola seguirá o mesmo desenho três versículos depois, com a pedra rejeitada que vira pedra angular (Mateus 21:42).

“e tomar a sua herança.”

O que querem não é a vinha como terra; é o direito sobre ela. A palavra é "herança", não "vinha". Eles não pensam em roubar a colheita, que já guardavam para si: pensam em deixar de ser arrendatários.

Os evangelhos dizem isso de três modos. Marcos: "e a herança será nossa". Lucas: "para que a herança se torne nossa". Mateus, no Textus Receptus, usa um verbo de ocupação, de agarrar e reter — "apoderemo-nos"; nas edições críticas, um verbo mais simples, "tenhamos" (item 10). Nas duas formas de Mateus, os lavradores são o sujeito ativo: a herança não "será" deles por consequência, eles a tomam.

Lida como alegoria, a herança é o que os chefes administravam: o povo, o templo, a autoridade de ensinar. O Evangelho de João põe na boca do conselho um motivo parecido, sem parábola: "se o deixarmos assim, todos crerão nele, e virão os romanos e tomarão tanto o nosso lugar como a nossa nação" (João 11:48). Ali o medo é de perder; aqui, o desejo é de ficar com tudo. Os dois são modos de defender o mesmo lugar.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

O conselho que executa o plano

O que os lavradores combinam aqui acontece, fora da parábola, poucos dias depois. Mateus 26:3-4 descreve a reunião: "os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo se reuniram no palácio do sumo sacerdote, chamado Caifás, e decidiram prender Jesus à traição e matá-lo". A "herança" da alegoria — a administração do templo e da vinha de Deus — tinha, portanto, donos de carne e osso, com nome e parentela.

Mateus não diz que a reunião de Caifás cumpre a parábola. Quem lê os dois trechos seguidos faz a ligação, e a semelhança de verbos (combinar, prender, matar) a favorece.

Os irmãos em Dotã

A frase "venham, vamos matá-lo" leva o leitor para Dotã, ao norte de Siquém, onde dez filhos de Jacó veem chegar o irmão preferido (Gênesis 37:17-20). A diferença de elenco é instrutiva. Lá, o grupo não é unânime: Rúben propõe a cisterna para salvar José, e Judá propõe vendê-lo em vez de matá-lo. Na parábola, ninguém hesita.

Houve quem discordasse?

Na história real, sim, segundo os outros evangelhos. Lucas diz que José de Arimateia era membro do conselho e "não tinha concordado com a decisão e com o ato deles" (Lucas 23:51). João põe Nicodemos, também do conselho, a defender que ninguém fosse condenado sem ser ouvido (João 7:50-51). Mateus menciona José de Arimateia só como homem rico e discípulo que pediu o corpo (Mateus 27:57) e não diz que fosse do conselho. A parábola simplifica, como toda parábola; os relatos da paixão mostram que o grupo dos "lavradores" teve pelo menos uma voz contrária.

O herdeiro na lei de Israel

Pela lei de Números 27:8-11, a herança passava ao filho; na falta dele, à filha; depois aos irmãos do morto, aos tios e, por fim, ao parente mais próximo. Em nenhum ponto dessa lista entra quem trabalhava a terra. É por isso que, na lógica jurídica, matar o herdeiro não abria caminho para os lavradores: abria para o parente seguinte do dono.

5. Pontos de Ensino

1. O reconhecimento pode servir ao crime

Os lavradores sabem quem é o filho, e esse saber é o motivo da morte, não um freio. O versículo desfaz a ideia de que basta mostrar a verdade a alguém para que ele a acolha. Às vezes a verdade é exatamente o que ameaça o interesse de quem a vê.

2. O alvo é o lugar, não a pessoa

Os lavradores não têm nada contra o filho; ele nem chegou a falar. Matam o herdeiro porque ele ocupa um lugar que querem para si. A parábola descreve uma violência impessoal, a que elimina quem está no caminho de uma posição.

3. Quem administra quer ser dono

A tentação descrita é a de quem recebeu algo para cuidar e passa a tratá-lo como próprio. Os lavradores eram arrendatários; querem ser herdeiros. Lido como alegoria, o versículo atinge a autoridade religiosa que se esquece de que a vinha não é sua — e atinge qualquer liderança, de qualquer tempo, que confunde mandato com posse.

4. O cálculo dos lavradores é falso

Pela lei, a herança não passava a quem matasse o herdeiro, e o dono estava vivo. O plano só faz sentido para quem esqueceu que há um dono. A pergunta de Mateus 21:40 — "quando vier o dono da vinha" — é a resposta a esse esquecimento.

6. Aspectos Filosóficos

"É meu o que eu consigo tomar": Max Stirner e a herança dos lavradores

"Venham, vamos matá-lo e tomar a sua herança" é uma teoria da propriedade resumida em uma frase: pertence a alguém aquilo de que ele consegue se apoderar. O direito do dono e do filho não conta; conta quem está com a vinha nas mãos e tem força para ficar com ela. No século XIX, um filósofo alemão defendeu essa teoria a sério.

Max Stirner (pseudônimo de Johann Caspar Schmidt, 1806-1856) publicou em 1844 O Único e a sua propriedade (Der Einzige und sein Eigentum). O livro ataca todas as ideias que pretendem estar acima do indivíduo — Deus, o Estado, a humanidade, a moral, o direito — e as chama de "fantasmas": abstrações a que as pessoas se sujeitam como se fossem reais. Para Stirner, o direito de propriedade é um desses fantasmas. Ninguém me "concede" nada; o que é meu é o que está no meu poder. Quem sabe tomar uma coisa e defendê-la, a esse ela pertence.

A frase antiga dos ímpios

A ideia não nasceu com Stirner. O livro da Sabedoria, escrito em grego por um judeu de Alexandria no século I antes de Cristo, põe na boca dos ímpios um programa parecido: "que a nossa força seja a lei da justiça, porque o que é fraco se mostra inútil" (Sabedoria 2:11). Logo em seguida esses mesmos ímpios combinam eliminar o justo que se diz filho de Deus. A diferença é que a Sabedoria apresenta a ideia para condená-la; Stirner a apresenta como libertação.

O detalhe que desmente os lavradores

Lida com Stirner ao lado, a frase dos lavradores mostra uma contradição. Se eles fossem coerentes com a lógica da força, diriam "vamos ficar com a vinha". Não dizem isso. Dizem "vamos tomar a herança". Querem o título, a legitimidade, o nome de herdeiros — justamente o tipo de "fantasma" que Stirner mandava desprezar.

Os lavradores não acreditam que a força basta. Querem que o que tomaram pela força passe a ser deles por direito. O assassinato não é o fim do plano, é o meio de chegar a uma posição que outros tenham de reconhecer. Até o usurpador precisa da linguagem do herdeiro.

A crítica a Stirner

Karl Marx e Friedrich Engels dedicaram a Stirner centenas de páginas de A ideologia alemã (1845-1846), onde o chamam ironicamente de "São Max". A objeção principal deles serve também para a parábola: a propriedade não é uma relação entre uma pessoa e uma coisa, é uma relação entre pessoas. Ninguém é dono sozinho; é dono diante de outros que reconhecem ou contestam. O egoísta de Stirner parece livre de todos os laços, mas depende dos outros para que o "seu" seja seu.

A parábola diz a mesma coisa à sua maneira. Os lavradores podem matar o filho, mas não podem apagar o dono, e a pergunta que vem a seguir é: "quando vier o dono da vinha, o que fará àqueles lavradores?" (Mateus 21:40).

O limite da aproximação

Stirner não pregava o assassinato, e a sua filosofia é mais sutil do que um elogio da força bruta: era sobretudo uma recusa de se sujeitar a ideias. A aproximação com os lavradores é leitura deste estudo, não algo que ele tenha escrito. O que ela permite é ver com clareza o que a parábola condena: não a ambição em geral, mas a convicção de que a vinha é de quem consegue ficar com ela.

7. Aplicações Práticas

Brigas de herança

Este é um dos poucos versículos da parábola com aplicação literal: ele fala de gente que quer uma herança e vê em alguém o obstáculo. Brigas de herança destroem famílias em qualquer época, e o raciocínio que as alimenta é quase sempre o dos lavradores — "se ele não estivesse aí, seria nosso". Raramente chega ao crime; muitas vezes chega ao rompimento definitivo, à mentira em cartório, ao parente que deixa de ser parente.

O versículo ajuda a nomear o momento em que isso começa: quando alguém deixa de ver o outro como irmão, filho ou sócio e passa a vê-lo como "o herdeiro" — a função que ele ocupa e que atrapalha.

Cuidar não é possuir

Quem administra o que é de outro — um síndico, um tesoureiro de igreja, o gerente de uma empresa familiar, um tutor — vive a tentação dos lavradores em escala pequena: depois de anos cuidando, começa a se sentir dono. A Mishná negava ao meeiro a posse da terra que cultivava justamente para impedir essa passagem. Lembrar que o que se cuida tem dono é a forma mais simples de não cair nela.

O grupo que ninguém freia

Os lavradores decidem juntos, e ninguém discorda. Decisões ruins de grupo costumam nascer assim: cada um supõe que outro vai objetar. Ser a voz contrária num grupo que combina algo errado é a aplicação mais concreta do versículo.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que os lavradores acham que o dono não vai reagir?

A parábola não diz. A explicação mais simples é a distância: o dono "partiu para uma viagem" e, até ali, só mandou outros. Quem nunca viu o dono agir em pessoa passa a agir como se ele não existisse. Na leitura teológica, é o retrato de quem toma a paciência de Deus por ausência — o mesmo engano que Eclesiastes 8:11 descreve: "porque a sentença contra a má obra não se executa logo, o coração dos homens se enche de vontade de fazer o mal".

O motivo da morte de Jesus foi mesmo disputa de posição?

Mateus dá pelo menos duas pistas além da parábola. Pilatos "sabia que por inveja o tinham entregado" (Mateus 27:18). E a acusação formal diante do conselho é de blasfêmia (Mateus 26:65). Os historiadores somam ainda o gesto contra o comércio do templo (Mateus 21:12-13) e o medo de agitação na Páscoa. A parábola escolhe um motivo — a herança, isto é, o lugar — e o põe no centro. Não é o relato completo das causas; é a leitura que Jesus faz delas.

A parábola diz o que acontece com o filho depois de morto?

Não. A história termina com o corpo fora da vinha (Mateus 21:39) e passa ao castigo dos lavradores. A reviravolta vem por outro caminho: a citação da pedra rejeitada que se torna pedra angular (Mateus 21:42). A ressurreição não está na parábola; está na moldura que Jesus põe em volta dela, e no anúncio dos três dias que Mateus já repetiu.

9. Conexão com Outros Textos

As outras duas versões

Marcos 12:7 — "Mas aqueles lavradores disseram entre si: Este é o herdeiro. Venham, vamos matá-lo, e a herança será nossa."

Lucas 20:14 — "Vendo-o, porém, os lavradores raciocinavam entre si, dizendo: Este é o herdeiro. Venham, vamos matá-lo, para que a herança se torne nossa."

As três versões têm as mesmas palavras centrais. Muda só o fim: em Marcos a herança "será" deles; em Lucas, "se tornará"; em Mateus, eles a tomam.

Os irmãos de José

Gênesis 37:20 — "Venham agora, vamos matá-lo e lançá-lo numa destas cisternas, e diremos que um animal selvagem o devorou; e veremos no que darão os seus sonhos."

Na Septuaginta, as palavras "venham, vamos matá-lo" são as mesmas dos lavradores. O paralelo de enredo entre as duas cenas está no estudo de Gênesis 37:20.

A vinha cobiçada, a herança e a morte

1 Reis 21:3 — "Nabote respondeu a Acabe: O SENHOR me livre de lhe dar a herança de meus pais."

1 Reis 21:15 — "Quando Jezabel soube que Nabote tinha sido apedrejado e estava morto, disse a Acabe: Levante-se e tome posse da vinha de Nabote, o jezreelita, que ele se recusou a vender a você, porque Nabote já não vive; está morto."

O paralelo mais próximo de toda a Bíblia hebraica: uma vinha, a palavra "herança", um homem morto para que outro fique com ela. Na Septuaginta, Jezabel diz a Acabe literalmente "herde a vinha", porque o dono "não está vivo" — a lógica exata dos lavradores. E Nabote também foi levado "para fora da cidade" antes de morrer (1 Reis 21:13). Não há sinal de que Jesus aluda a esta história; a coincidência de elementos é grande o bastante para que o leitor a sinta.

O justo que se diz filho de Deus

Sabedoria 2:12, 18, 20 — "Armemos ciladas ao justo, porque ele nos incomoda e se opõe às nossas obras (...). Se o justo é filho de Deus, Deus o socorrerá e o livrará das mãos dos seus adversários. (...) Condenemo-lo a uma morte vergonhosa."

Um grupo que combina, em primeira pessoa do plural, eliminar quem se apresenta como filho de Deus. A tradição cristã leu este capítulo como profecia da paixão desde muito cedo; o texto fala do justo em geral.

O Filho herdeiro

Hebreus 1:1-2 — "Muitas vezes e de muitos modos, Deus falou outrora aos pais pelos profetas; nestes últimos dias nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas."

Salmo 2:8 — "Peça-me, e eu darei a você as nações como herança, e os confins da terra como sua propriedade."

Hebreus organiza a história como a parábola — profetas primeiro, o Filho no fim — e dá ao Filho o título que os lavradores reconheceram nele. O Salmo 2, que chama o rei de "meu filho" no versículo anterior, liga filiação e herança.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Mas, ao verem o filho, os lavradores disseram entre si: ‘Este é o herdeiro. Venham, vamos matá-lo e tomar a sua herança.’

Texto grego (Textus Receptus)

Οἱ δὲ γεωργοὶ ἰδόντες τὸν υἱὸν εἶπον ἐν ἑαυτοῖς, Οὗτός ἐστιν ὁ κληρονόμος· δεῦτε, ἀποκτείνωμεν αὐτόν, καὶ κατάσχωμεν τὴν κληρονομίαν αὐτοῦ.

Transliteração

Hoi de geōrgoi idontes ton huion eipon en heautois, Houtos estin ho klēronomos; deute, apokteinōmen auton, kai kataschōmen tēn klēronomian autou.

Uma nota sobre o texto

O Textus Receptus ("texto recebido", a edição grega do século XVI que a ABC segue) traz kataschōmen, "apoderemo-nos", "ocupemos". As edições críticas trazem schōmen, "tenhamos", do verbo comum echō, "ter". A forma crítica é apoiada pelos manuscritos mais antigos; a do Textus Receptus está na maioria dos manuscritos medievais. Os editores críticos supõem que um copista trocou o verbo simples por outro mais expressivo — a regra de que a versão mais difícil, ou mais pobre, costuma ser a original. A diferença de sentido é real, embora pequena: "tenhamos" diz o resultado; "apoderemo-nos" diz o ato de agarrar. A ABC, com "tomar", acompanha o Textus Receptus. Conferido no interlinear do Bible Hub, que segue o texto crítico, e na edição de Scrivener publicada pelo eBible.

Análise palavra por palavra

Οἱ δὲ γεωργοὶ — hoi de geōrgoi, "mas os lavradores". Geōrgos é composto de gē, "terra", e ergon, "trabalho": o que trabalha a terra. De onde vem o nome Jorge. O de marca o contraste com a esperança do versículo anterior.

ἰδόντες τὸν υἱὸν — idontes ton huion, "tendo visto o filho". Particípio aoristo de horaō, "ver". Na Septuaginta de Gênesis 37:18, os irmãos de José também "o viram de longe" (proeidon, da mesma raiz) antes de combinar a morte.

εἶπον ἐν ἑαυτοῖς — eipon en heautois, "disseram entre si" — ou "dentro de si". A preposição en admite as duas coisas: conversa do grupo ou pensamento de cada um. Marcos usa pros heautous, "uns aos outros", inequivocamente conversa; Lucas, dielogizonto, "raciocinavam". A escolha de Mateus deixa a deliberação mais interior.

Οὗτός ἐστιν ὁ κληρονόμος — houtos estin ho klēronomos, "este é o herdeiro". Klēronomos junta klēros, "sorte, lote" — a parte de terra que se tirava por sorteio — e nemō, "distribuir, ter a sua parte". O herdeiro é o que recebe o lote. É a única vez que a palavra aparece em Mateus.

Na Septuaginta, o verbo da mesma família marca a pergunta que abre a história de Abraão: "um servo nascido na minha casa será o meu herdeiro", diz Abrão; e Deus responde: "esse não será o seu herdeiro; mas aquele que sair das suas entranhas" (Gênesis 15:3-4). Servo e filho, e só o filho herda: é o mesmo par da parábola. Em Mateus o verbo aparece nas promessas — os mansos "herdarão a terra" (Mateus 5:5), quem deixa tudo "herdará a vida eterna" (Mateus 19:29).

δεῦτε — deute, "venham". Advérbio usado como imperativo plural (o singular é deuro, "vem cá"). Convite ao grupo para uma ação conjunta.

ἀποκτείνωμεν αὐτόν — apokteinōmen auton, "matemo-lo", "vamos matá-lo". Subjuntivo aoristo de apokteinō, "matar", na primeira pessoa do plural: a forma da exortação a si mesmos.

As três palavras deute apokteinōmen auton são, letra por letra, as da Septuaginta em Gênesis 37:20: nyn oun deute apokteinōmen auton, "agora, pois, venham, vamos matá-lo". Mateus, Marcos (Marcos 12:7) e Lucas (Lucas 20:14) as conservam idênticas — o único trecho da parábola em que os três evangelhos concordam palavra por palavra com o grego do Gênesis. A Septuaginta usa a mesma fórmula, deute com um verbo no plural, em Gênesis 37:27 ("venham, vamos vendê-lo aos ismaelitas"), na proposta de Judá.

καὶ κατάσχωμεν — kai kataschōmen, "e apoderemo-nos". Subjuntivo aoristo de katechō, de kata, "para baixo, completamente", e echō, "ter": segurar firme, reter, ocupar. É o verbo de "ocupar o último lugar" em Lucas 14:9 e de "reter o que é bom" em 1 Tessalonicenses 5:21. Com a herança por objeto, é a ocupação de quem se instala e não sai.

τὴν κληρονομίαν αὐτοῦ — tēn klēronomian autou, "a herança dele". O substantivo da mesma raiz de klēronomos. Na Septuaginta é a palavra da terra prometida como "herança" de Israel, e também a de 1 Reis 21:3, na recusa de Nabote: "a herança de meus pais". O pronome "dele" é o centro do crime: não é herança nenhuma que eles querem, é a dele.

11. Conclusão

Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.

A primeira é que a falha do plano do dono não foi de informação. Os lavradores sabiam quem era o filho, e foi por saberem que o mataram. O versículo fecha a porta à ideia confortável de que a rejeição de Jesus nasceu só de engano; na parábola, nasce de interesse. Os outros textos do Novo Testamento que falam em ignorância continuam de pé, e a tensão entre eles e a parábola não se resolve — mas a parábola não deixa que ela seja resolvida só por um lado.

A segunda é que a cobiça dos lavradores não é por coisa, é por posição. Querem a herança, não a uva; querem o título, não só a terra. O direito da época não lhes dava esse caminho, e a parábola não precisa que dê: o crime é descrito como erro de cálculo, porque o dono continua vivo.

A terceira é que, ao falar com as palavras dos irmãos de José, os lavradores entram numa história cujo fim os ouvintes conheciam. O plano de eliminar o filho para impedir o que ele representa já foi feito uma vez, e foi o caminho por onde aquilo que se queria impedir aconteceu. O versículo não anuncia a reviravolta; deixa que a lembrança dela fique no ar até a pedra rejeitada.

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