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Mateus 21:40

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✍️ Por Alberto Adriano·4 de outubro de 2026·⏱️ 24 min de leitura·👁 20 acessos
Portanto, quando vier o dono da vinha, o que fará àqueles lavradores?”
No pátio do templo de Jerusalém, Jesus, de pé, faz uma pergunta a um grupo de sacerdotes e anciãos de vestes ricas, que o escutam atentos e começam a abrir a boca para responder; ao fundo, uma multidão observa.

Estudo


Portanto, quando vier o dono da vinha, o que fará àqueles lavradores?”

1. Introdução

A história acabou de terminar com o filho morto e jogado para fora da vinha, e Jesus não tira a conclusão: faz uma pergunta. Quem responde são os chefes dos sacerdotes e os anciãos, os mesmos que tinham vindo pedir a ele contas da sua autoridade. É a técnica do profeta Natã diante de Davi: contar um caso como se fosse de outros, deixar que o ouvinte dê a sentença e só depois mostrar de quem se falava. O versículo também introduz uma expressão que Marcos e Lucas não têm nesse lugar — “quando vier o dono” —, que faz a parábola apontar para uma chegada ainda por acontecer. E troca o nome do personagem principal, que deixa de ser “proprietário” e passa a ser “dono”, com a palavra grega que também quer dizer “Senhor”.

2. Contexto Histórico e Cultural

O caso inventado que se leva ao juiz

Em Israel, o rei era também o último tribunal. Quem se sentia lesado podia ir até ele e expor o caso: é o que fazem as duas mulheres que disputam um bebê diante de Salomão (1 Reis 3:16-28), e é a função que Absalão promete exercer melhor que o pai, sentado à porta da cidade (2 Samuel 15:2-4). Esse costume abriu espaço para um tipo de história muito particular: o caso fictício, apresentado ao rei como se fosse real, para que ele julgasse sem saber que estava julgando a si mesmo.

O estudioso israelense Uriel Simon deu nome ao gênero num artigo de 1967 publicado na revista Biblica (“Bíblia”, periódico do Pontifício Instituto Bíblico de Roma): “parábola jurídica”. Entre os exemplos que ele reuniu estão quatro textos que funcionam do mesmo jeito.

O primeiro é o de Natã (2 Samuel 12:1-7). O profeta conta a Davi a história de um rico que, para servir um hóspede, toma a única cordeira de um pobre. Davi se enfurece e jura que o homem merece morrer e que pagará quatro vezes o valor. Natã responde: “Você é esse homem”.

O segundo é o da mulher de Tecoa (2 Samuel 14:1-20), mandada por Joabe com um caso inventado de dois irmãos, um morto pelo outro, para obter do rei uma decisão que depois se aplica a Absalão.

O terceiro é o do profeta disfarçado de soldado (1 Reis 20:35-43). Ele diz ao rei Acabe que deixou fugir um prisioneiro sob sua guarda; o rei responde que a pena é a que o próprio soldado aceitou ao receber o preso. O profeta tira o disfarce e mostra que o rei acabou de pronunciar a sentença contra si: Acabe tinha soltado Ben-Hadade. A frase do rei é a fórmula do gênero inteiro: “Assim será a sua sentença; você mesmo a decidiu”.

O quarto é o cântico da vinha de Isaías 5:1-7, o texto que está por trás da parábola dos lavradores. A canção pede aos moradores de Jerusalém que julguem entre o dono e a vinha, e só no versículo 7 revela que a vinha é Israel.

As condições para a armadilha funcionar

Simon observou que o gênero depende de um equilíbrio difícil. O caso tem de ser parecido o bastante com a situação real para que a sentença sirva depois; e diferente o bastante para que o ouvinte não se reconheça antes da hora. Se Natã tivesse falado de um rei que toma a mulher de um soldado, Davi teria percebido na primeira frase e se defendido. A cordeira do pobre é a distância certa.

Há uma segunda condição: o ouvinte precisa estar na posição de juiz. A parábola jurídica não é contada a qualquer pessoa, mas a quem tem autoridade para sentenciar. É isso que torna a sentença válida contra ele.

Os ouvintes de Jesus eram juízes

Os que ouvem a parábola são “os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo” (Mateus 21:23), e no fim do capítulo aparecem também os fariseus (Mateus 21:45). Juntos, esses grupos formavam o conselho que governava Jerusalém em assuntos religiosos e julgava causas, o mesmo que vai julgar Jesus em Mateus 26:57-59. São, portanto, exatamente o tipo de ouvinte que a parábola jurídica pede: gente cujo ofício é dar sentenças.

E há uma inversão de papéis. Eles tinham chegado como interrogadores, perguntando com que autoridade Jesus agia. Duas parábolas depois, quem pergunta é Jesus, e eles estão respondendo.

3. Análise Teológica do Versículo

“Portanto”

A palavra liga a pergunta ao que acabou de ser contado. O dono mandou servos, depois mais servos, por fim o filho; todos foram maltratados, e o filho foi morto. A pergunta não pede uma opinião solta sobre lavradores em geral: pede a consequência daquela história. Com o “portanto”, a resposta já vem quase pronta. Depois do que se contou, só existe uma saída razoável — e o ouvinte sente que é ele quem a encontra.

“quando vier”

Aqui Mateus se afasta dos outros dois evangelhos de um jeito que muda a pergunta. Em Marcos 12:9 e em Lucas 20:15-16, a pergunta é só “o que fará o dono da vinha?”, e a vinda aparece na resposta, dada pelo próprio Jesus: “virá e destruirá os lavradores”. Mateus tira a vinda da resposta e a põe dentro da pergunta. O que era parte da conclusão passa a ser o pressuposto. Os ouvintes não precisam decidir se o dono vai aparecer; só o que ele vai fazer quando aparecer.

A expressão também cria um tempo que a parábola não tinha. Até aqui, o dono agiu sempre à distância: tinha partido em viagem (Mateus 21:33) e mandava os outros. Pela primeira vez se fala dele vindo em pessoa. E o versículo fala no futuro, de algo que ainda não aconteceu na história — a parábola termina em aberto, com o dono ainda a caminho.

A que vinda se refere? Há três leituras, e elas convivem desde cedo.

Primeira leitura: é a destruição de Jerusalém pelos romanos, no ano 70. Meyer (Heinrich August Wilhelm Meyer, exegeta alemão do século XIX) defende essa leitura e recusa expressamente a outra: para ele, “a vinda do dono” não é a segunda vinda de Cristo, mas o juízo histórico sobre os que governavam o templo. O comentário de Jamieson, Fausset e Brown (obra escocesa do século XIX) chama esse momento de “o acerto de contas” da nação.

Segunda leitura: é a vinda final. A construção grega desta frase é exatamente a de Mateus 25:31, “quando o Filho do homem vier na sua glória”, e Mateus tem uma série de parábolas em que um senhor ausente volta para acertar contas: o servo que diz “o meu senhor está demorando” (Mateus 24:48-50), os talentos (Mateus 25:19). Para o leitor de Mateus, “quando vier o senhor” soava como linguagem do fim.

Terceira leitura: dentro da parábola, a expressão não precisa significar nada além do que diz. Um dono que mandou emissários e não foi atendido acaba indo pessoalmente. A pergunta funciona na história antes de funcionar na alegoria, e é isso que permite aos ouvintes responder sem perceber nada.

As três não se excluem, e Mateus não escolhe. O que se pode afirmar é que, ao mover a vinda para a pergunta, ele a tornou o eixo do versículo.

“o dono da vinha”

No começo da parábola, o personagem era chamado de “proprietário de terras” (Mateus 21:33), uma palavra que descreve o patrão de uma casa e dos seus bens. Agora é “o dono da vinha”, e a palavra grega é outra: a mesma que se usa para “senhor” e, na Bíblia grega, para o próprio Deus. A troca é discreta, porque “dono da vinha” é expressão comum, e Mateus já a usou na parábola dos trabalhadores (Mateus 20:8). Mas, poucos versículos adiante, a mesma palavra aparece na citação do salmo — “isto foi feito pelo SENHOR” (Mateus 21:42). O dono da vinha e o SENHOR do salmo têm, em grego, o mesmo título.

A identificação nunca é dita. Os ouvintes estão sendo convidados a pensar num proprietário rural, e só depois o título revelará o que carregava.

“o que fará”

No cântico da vinha, o dono também pergunta “o que fará”. Em Isaías 5:4, “que mais se podia fazer à minha vinha que eu não tenha feito?”; em Isaías 5:5, “agora vou dizer a vocês o que farei à minha vinha”. Na tradução grega de Isaías, a pergunta tem a mesma forma da de Mateus 21:40. Mas há uma diferença decisiva: em Isaías, o dono faz a pergunta e ele mesmo responde, anunciando o castigo. Em Mateus, a pergunta é devolvida aos ouvintes, e o castigo terá de sair da boca deles.

Isaías também havia chamado os moradores de Jerusalém para julgar (Isaías 5:3), mas não esperou o veredito. Jesus espera.

Por que perguntar, se ele sabia a resposta? Jerônimo (tradutor da Bíblia para o latim e comentarista, morto em 420) respondeu de modo direto, no seu comentário a Mateus: o Senhor pergunta não porque ignore a resposta, mas para que sejam condenados pela própria resposta. A frase se tornou a leitura padrão. Ela descreve bem o efeito, mas atribui uma intenção que o texto não declara. Outra leitura é possível: uma pergunta deixa ao ouvinte a chance de reconhecer o que fez antes de ser acusado. Davi, diante de Natã, aproveitou essa chance (2 Samuel 12:13). Os ouvintes de Jesus, em Mateus 21:45, entendem — e procuram prendê-lo.

“àqueles lavradores”

A pergunta não diz “aos lavradores”, como Marcos, nem “a eles”, como Lucas: diz “àqueles lavradores”. O demonstrativo de distância empurra os culpados para longe. São “aqueles”, gente de outra história, não quem está escutando.

É o detalhe que faz a armadilha funcionar. A parábola jurídica depende de o ouvinte julgar alguém que ele acha que não é ele. O “àqueles” lhe dá essa segurança na mesma frase em que pede a sentença.

A segunda resposta do dia

Esta não é a primeira vez, naquela manhã, que os chefes dos sacerdotes respondem a uma pergunta de Jesus sobre uma parábola. Na dos dois filhos, perguntados sobre qual fez a vontade do pai, eles disseram “o primeiro” (Mateus 21:31), e a resposta foi usada contra eles. Pouco antes, diante da pergunta sobre João Batista, tinham preferido dizer “não sabemos” (Mateus 21:27). Agora respondem outra vez, com franqueza — o que mostra que não perceberam que a segunda parábola tinha a mesma forma da primeira.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Jesus

Está no templo, ensinando, desde Mateus 21:23. Fala diante de uma multidão que o tem por profeta (Mateus 21:46), e é essa multidão que impede, por enquanto, que o prendam. A pergunta deste versículo é a última coisa que ele diz antes de citar o salmo.

Os ouvintes

Os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo. Os primeiros eram a cúpula do sacerdócio, ligada às poucas famílias que se revezavam no posto de sumo sacerdote; os segundos, chefes das famílias leigas de prestígio em Jerusalém. No versículo 45, Mateus menciona também os fariseus entre os que ouviram. São eles que vão responder no versículo seguinte.

O dono da vinha

Personagem da parábola. Plantou, cercou e equipou a vinha, arrendou-a e viajou. Até aqui agiu por intermediários; neste versículo, pela primeira vez, imagina-se a sua chegada em pessoa. Não tem nome. A tradição cristã o identificou com Deus desde o início, e o próprio Mateus prepara essa leitura com o título que lhe dá.

Os lavradores

Os arrendatários que receberam a vinha para cultivar, com a obrigação de entregar ao dono a parte dele na colheita. Espancaram, apedrejaram e mataram os servos, e por fim mataram o herdeiro. São “aqueles lavradores”: o versículo fala deles na terceira pessoa, como se estivessem em outro lugar.

Natã e Davi

Natã foi profeta na corte de Davi, por volta do século X a.C. É ele quem anuncia a Davi a promessa da dinastia (2 Samuel 7) e quem o confronta depois do adultério com Bate-Seba e da morte de Urias (2 Samuel 12). Mais tarde, apoia a sucessão de Salomão (1 Reis 1). Na tradição judaica e cristã, a cena da cordeira ficou como o modelo do profeta que diz a verdade ao rei.

O lugar e o dia

O pátio do templo de Jerusalém. Mateus não nomeia o dia da semana; conta que é a manhã seguinte à entrada na cidade e à expulsão dos vendilhões (Mateus 21:18-23). A tradição cristã, seguindo a cronologia de Marcos, situa esse dia de debates na terça-feira da última semana.

5. Pontos de Ensino

1. Uma pergunta pode ser mais eficaz que uma acusação

Se Jesus tivesse dito “vocês são os lavradores”, os ouvintes teriam se defendido antes de pensar. A pergunta os faz pensar antes de se defender. O método é antigo na Bíblia e funciona porque usa o próprio senso de justiça de quem ouve.

2. Quem julga os outros já tem o critério com que será julgado

Os ouvintes sabem muito bem o que é justo quando o caso é alheio. O problema não é falta de critério moral; é a dificuldade de aplicá-lo a si mesmo. O versículo põe em cena o que Mateus 7:2 enuncia: o juízo com que se julga volta para quem julgou.

3. A conta não é cobrada no meio da história

O dono mandou servos e mais servos e, por fim, o filho, sem reagir com força a nenhum dos maus-tratos. A pergunta “quando vier” só aparece depois de esgotadas as tentativas. A paciência do dono é longa, mas não é indiferença: há um momento em que ele vem.

4. O texto antigo ilumina o novo

Quem conhecia Isaías 5 reconhecia o cenário desde a primeira frase da parábola: a vinha, a cerca, o lagar, a torre, a pergunta “o que fará?”. Jesus fala a especialistas usando um texto que eles sabiam de cor, e a diferença em relação a Isaías é justamente o que ele quer que percebam: aqui a pergunta é feita a eles.

5. Entender não é o mesmo que mudar

Davi, desmascarado, reconhece o pecado. Os ouvintes de Jesus também entendem de quem se falava (Mateus 21:45), e o resultado é o contrário: procuram prendê-lo. A técnica de Natã produz clareza; o que se faz com ela fica com quem ouve.

6. Aspectos Filosóficos

“Isto é uma história”

A pergunta de Jesus só obtém uma resposta sincera porque os ouvintes acham que estão falando de uma história. Se soubessem desde o início que eram os lavradores, a mesma pergunta teria outro sentido e outra resposta. O que muda não é o conteúdo da pergunta; é a moldura dentro da qual ela é ouvida.

Quem pensou com mais precisão sobre esse tipo de moldura foi o antropólogo e pensador inglês Gregory Bateson (1904-1980), que transitou entre a antropologia, a psiquiatria, a biologia e a teoria da comunicação.

A mordida que não é mordida

Em 1952, observando macacos no zoológico de São Francisco, Bateson viu dois animais brincando de briga. Mordiam-se, mas a mordida era de brincadeira — e os dois sabiam disso. Daí saiu o ensaio “Uma teoria da brincadeira e da fantasia” (1955), recolhido depois em Passos para uma ecologia da mente (1972).

O problema que ele viu ali é lógico. Para que a brincadeira funcione, cada animal precisa transmitir, junto com a mordida, uma segunda mensagem sobre a primeira: “isto é brincadeira”. Bateson resumiu o paradoxo assim: a mordidela de brincadeira indica a mordida, mas não indica aquilo que a mordida indicaria. Ela é e não é uma mordida. Sem a mensagem sobre a mensagem — o que ele chamou de metacomunicação —, a brincadeira vira briga.

A essa mensagem que diz como as outras devem ser entendidas Bateson deu o nome de moldura (em inglês, frame). Como a moldura de um quadro, ela separa o que está dentro, que deve ser lido de um jeito, do que está fora, que segue a lógica comum. E ele notou que a moldura é frágil: basta um sinal para que o que estava dentro seja reinterpretado como estando fora.

A parábola jurídica como quebra de moldura

A técnica de Natã e de Jesus pode ser descrita nesses termos. Primeiro, estabelece-se a moldura: “isto é um caso de outros”. Dentro dela, o ouvinte fala com franqueza, porque a sentença parece não ter consequência para ele. Depois, a moldura é retirada — por Natã, com “você é esse homem”; por Jesus, com o salmo e com a frase de Mateus 21:43. E a sentença dada dentro da moldura passa a valer fora dela.

O que Bateson ajuda a ver é que essa passagem não é um truque barato. A sentença era verdadeira desde o começo; o que a moldura fez foi suspender a defesa de quem a pronunciou. A brincadeira, dizia ele, permite explorar comportamentos sem as consequências habituais. A parábola permite ao ouvinte pensar sobre a própria conduta sem as resistências habituais — até o momento em que a moldura cai.

O limite da comparação

Bateson falava de brincadeira, de fantasia, de terapia e de arte; não comentou parábolas bíblicas, e a aplicação é nossa. Há também uma diferença importante. Na brincadeira dos macacos, os dois participantes conhecem a moldura. Na parábola jurídica, só quem conta a conhece. O ouvinte acredita que está numa moldura que, na verdade, é provisória. Por isso a técnica pode ser sentida como armadilha, e por isso ela só se justifica moralmente quando a sentença obtida é justa. É o caso de Natã, e é o que Mateus supõe no caso de Jesus.

Bateson descreveu ainda outra situação, que ficou mais famosa: a do “duplo vínculo” (1956), em que alguém recebe mensagens contraditórias, em níveis diferentes, sem poder sair da relação. Os chefes dos sacerdotes tinham conhecido algo parecido minutos antes, diante da pergunta sobre João Batista, quando qualquer resposta os comprometia e eles escaparam com um “não sabemos”. Aqui não há duplo vínculo: há uma pergunta simples, com uma resposta óbvia. O risco não está na pergunta; está na moldura dentro da qual ela foi aceita.

7. Aplicações Práticas

Desconfie da facilidade com que você condena “aqueles”

A resposta dos ouvintes veio rápida e veemente porque o culpado parecia estar longe. Quando você se pega indignado com a conduta de alguém de outra história, de outra família ou de outro partido, a pergunta que o versículo sugere é simples: se o caso fosse contado com outros nomes, eu me reconheceria nele?

Use perguntas para corrigir, não só acusações

Quem precisa confrontar alguém — um filho, um colega, um amigo — pode aprender com o método. Uma acusação direta costuma provocar defesa imediata. Um caso análogo, contado com honestidade, às vezes deixa a pessoa chegar sozinha à conclusão. O cuidado é o que a própria técnica exige: o caso precisa ser justo, e não uma armadilha para humilhar.

Ouça a pergunta antes da sentença

Davi teve, entre a história e o “você é esse homem”, um momento em que poderia ter percebido sozinho. A pergunta abre esse intervalo. Diante de uma crítica que chega em forma de pergunta, responda primeiro a ela, e não ao que se imagina que está por trás dela.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Os ouvintes não perceberam aonde a história ia?

É estranho, e os comentaristas notam a estranheza. A parábola começa com a linguagem de Isaías 5, que todos conheciam como canção contra Jerusalém, e vem logo depois de outra parábola usada contra eles. Há duas explicações. Uma: perceberam, mas responderam mesmo assim, porque a resposta era óbvia e recusá-la seria admitir a acusação. Outra: estavam tão convencidos de não serem os lavradores — eles eram, a seus próprios olhos, os servos fiéis da vinha — que a identificação não lhes ocorreu. O texto não decide. Mateus 21:45 diz só que, depois, “entenderam”.

Por que Mateus faz a pergunta com “quando vier”, se Marcos e Lucas não fazem?

Não há resposta segura. É plausível que a expressão reflita o interesse de Mateus pela vinda futura do Senhor, muito mais desenvolvido no seu evangelho que nos outros, como mostram os capítulos 24 e 25. Também é possível que seja só uma forma mais natural de contar: se a pergunta é sobre o que o dono fará, o “quando vier” explica onde ele estava até ali.

O dono que vem é Deus ou é o próprio Jesus?

Dentro da parábola, o filho já morreu, e quem vem é o pai. Ler o dono como Deus é a leitura mais coerente com a história. Mas Mateus fala muitas vezes da vinda do Filho do homem como juiz (Mateus 16:27; 25:31), e a tradição cristã leu os dois papéis como unidos. O versículo, em si, não faz essa ligação.

É justo obter uma confissão por meio de uma história?

A pergunta é antiga e séria. A parábola jurídica esconde do ouvinte, por um momento, que ele é parte do caso. A favor dela pesa o fato de que nada é extraído à força: o ouvinte diz o que pensa, livremente, sobre uma situação que ele mesmo considera clara. A sentença é dele. O que a técnica faz é impedir que ele use dois pesos — um para os outros, outro para si.

9. Conexão com Outros Textos

O profeta que obtém a sentença do rei

2 Samuel 12:5-7 — “Davi ficou furioso contra aquele homem e disse a Natã: ‘Tão certo como vive o SENHOR, o homem que fez isso merece a morte! Pela cordeira pagará quatro vezes, porque fez tal coisa e não teve compaixão.’ Então Natã disse a Davi: ‘Você é esse homem.’”

O modelo mais conhecido do gênero. A sentença de Davi é mais dura que a da Lei, que mandava pagar o roubo, e não morrer por ele: o ouvinte indignado exagera, como farão os ouvintes de Jesus.

1 Reis 20:40 — “O rei de Israel lhe disse: ‘Essa é a sua sentença; você mesmo a decidiu.’”

A frase que o rei diz ao soldado fictício e que se volta, na mesma hora, contra ele.

2 Samuel 14:13 — “Por que, então, o rei pensou uma coisa assim contra o povo de Deus? Pois, ao dar esta sentença, o rei se declara culpado, por não trazer de volta aquele que ele baniu.”

A mulher de Tecoa explicita o mecanismo: a sentença dada sobre o caso inventado torna o rei réu.

A vinha que pede julgamento

Isaías 5:3 — “E agora, moradores de Jerusalém e homens de Judá, julguem entre mim e a minha vinha.”

Isaías 5:5 — “Agora vou dizer a vocês o que farei à minha vinha: tirarei a sua cerca, e ela será devastada; derrubarei o seu muro, e ela será pisoteada.”

Os ouvintes são chamados a julgar, mas é o dono quem anuncia o que fará — e o castigo cai sobre a própria vinha.

O mesmo dono em outra parábola

Mateus 20:8 — “Ao anoitecer, o dono da vinha disse ao seu administrador: ‘Chame os trabalhadores e pague o salário deles, começando pelos últimos até os primeiros.’”

A mesma expressão, “o dono da vinha”, na parábola anterior sobre uma vinha.

O senhor que viaja e volta

Mateus 25:14 — “Pois é como um homem que, ao viajar para fora do país, chamou seus servos e confiou a eles os seus bens.”

Mateus 25:19 — “Muito tempo depois, o senhor daqueles servos voltou e foi acertar as contas com eles.”

O mesmo par de partir em viagem e voltar para acertar contas, agora com servos e talentos.

Mateus 25:31 — “Quando o Filho do homem vier na sua glória, com todos os anjos, então ele se sentará no seu trono glorioso.”

A mesma construção de “quando vier”, aplicada ao juízo final.

Os outros evangelhos

Marcos 12:9 — “Que fará, então, o dono da vinha? Virá, destruirá os lavradores e dará a vinha a outros.”

Lucas 20:15 — “E, lançando-o para fora da vinha, o mataram. Que lhes fará, então, o dono da vinha?”

Nos dois, a vinda está na resposta, não na pergunta.

Julgar e ser julgado

Mateus 7:2 — “Porque com o juízo com que julgam, vocês serão julgados; e com a medida com que medem, também serão medidos.”

Lucas 19:22 — “Ele lhe disse: ‘Servo mau, pela sua própria boca eu o julgarei.’”

O princípio que a pergunta põe em funcionamento, dito em forma de regra e em forma de cena.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Portanto, quando vier o dono da vinha, o que fará àqueles lavradores?”

Texto grego (Textus Receptus)

Ὅταν οὖν ἔλθῃ ὁ κύριος τοῦ ἀμπελῶνος, τί ποιήσει τοῖς γεωργοῖς ἐκείνοις;

Transliteração

Hotan oun elthē ho kyrios tou ampelōnos, ti poiēsei tois geōrgois ekeinois?

Análise palavra por palavra

Ὅταν — hotan, “quando”. Formada de hote (“quando”) e da partícula an, que dá à frase um tom de eventualidade. Introduz um acontecimento futuro tido como certo quanto ao fato, mas indefinido quanto ao momento: não “se vier”, e sim “quando vier, seja quando for”.

οὖν — oun, “portanto”, “então”. Partícula de consequência: o que vem a seguir decorre do que foi dito. No grego ela fica em segundo lugar na frase; o português a põe à frente.

ἔλθῃ — elthē, “vier”. Aoristo do subjuntivo de erchomai, “vir”. O subjuntivo é exigido pelo hotan; o aoristo apresenta a chegada como um ponto, um evento único, e não como processo. É o mesmo verbo do “Bendito o que vem” da entrada em Jerusalém (Mateus 21:9), e a mesma forma, com o mesmo hotan, de Mateus 25:31 (“quando o Filho do homem vier”).

ὁ κύριος — ho kyrios, “o dono”, “o senhor”. Substantivo que designa quem tem autoridade sobre algo ou alguém: o proprietário de um bem, o senhor de um escravo, o patrão. Na Septuaginta, a tradução grega do Antigo Testamento, é a palavra que substitui o nome divino, YHWH. Em Mateus 21:33 o mesmo personagem foi chamado de oikodespotēs, “dono da casa”, “patrão”; a troca para kyrios aqui acompanha o uso de Marcos e Lucas neste ponto, e deixa o título disponível para o duplo sentido.

τοῦ ἀμπελῶνος — tou ampelōnos, “da vinha”. Genitivo de ampelōn, a vinha como terreno plantado, derivado de ampelos, a videira. A expressão inteira, ho kyrios tou ampelōnos, aparece de forma idêntica em Mateus 20:8, na parábola dos trabalhadores, em Marcos 12:9 e em Lucas 20:13 e 20:15.

τί — ti, “o que”. Pronome interrogativo neutro.

ποιήσει — poiēsei, “fará”. Futuro do indicativo de poieō, “fazer”. A tradução grega de Isaías usa o mesmo verbo na mesma construção em Isaías 5:4 e 5:5: ti poiēsō tō ampelōni mou, “o que farei à minha vinha”. Lá o verbo está na primeira pessoa e o objeto é a vinha; aqui, na terceira pessoa, e o objeto são os lavradores.

τοῖς γεωργοῖς — tois geōrgois, “aos lavradores”. Dativo plural de geōrgos, composto de gē (“terra”) e ergon (“trabalho”): quem trabalha a terra. Na parábola o termo tem sentido jurídico preciso: não é o dono nem o diarista, é o arrendatário, que cultiva terra alheia mediante contrato. Em Mateus a palavra só aparece nesta parábola (Mateus 21:33-41).

ἐκείνοις — ekeinois, “àqueles”. Dativo plural de ekeinos, o demonstrativo que aponta para o que está longe, em oposição a houtos, “este”, que aponta para o que está perto. Marcos não traz demonstrativo nenhum; Lucas usa o pronome simples “a eles”. Mateus escolhe a forma que afasta.

O texto do versículo é o mesmo no Textus Receptus e nas edições críticas modernas; não há variante que mude o sentido.

11. Conclusão

Com base no que o versículo mostra, conclui-se primeiro que a parábola dos lavradores não termina com uma conclusão de Jesus, mas com um julgamento entregue aos ouvintes. É a forma da parábola jurídica, e ela só funciona porque quem ouve está na posição de juiz e acredita julgar outros.

Conclui-se também que Mateus deu à pergunta um horizonte que os outros evangelhos guardam para a resposta. Ao dizer “quando vier o dono”, ele faz da chegada do dono algo pressuposto e ainda futuro, e a deixa aberta às três leituras — o juízo sobre Jerusalém, o juízo final, a simples lógica da história — sem escolher entre elas.

Por fim, o versículo prepara uma revelação sem fazê-la. O dono recebe um título que também é o de Deus, e os lavradores são postos à distância com um “aqueles”. O ouvinte é conduzido a dar uma sentença justa sobre gente que lhe parece alheia. O que o versículo deixa para o seguinte é saber se ele vai reconhecer, na própria sentença, o seu nome.

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