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Mateus 21:39

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✍️ Por Alberto Adriano·4 de outubro de 2026·⏱️ 24 min de leitura·👁 25 acessos
E, agarrando-o, lançaram-no para fora da vinha e o mataram.
Dois lavradores arrastam um jovem pelos braços através do portão de uma vinha cercada de pedras, para o lado de fora, num caminho poeirento, enquanto outros observam do meio das videiras ao entardecer.

Estudo


E, agarrando-o, lançaram-no para fora da vinha e o mataram.

1. Introdução

O plano se cumpre em uma frase: agarram o filho, jogam-no para fora da vinha e o matam. Não há diálogo, nem resistência, nem descrição da morte.

Mateus conta nessa ordem — primeiro fora, depois a morte —, e Lucas também. Marcos conta ao contrário: mataram e jogaram o corpo fora. A diferença parece pequena e é antiga a leitura de que Mateus ajustou a história ao que aconteceu com Jesus, crucificado fora dos muros de Jerusalém.

O versículo põe ainda uma pergunta incômoda para a alegoria: se a vinha é Israel, o que significa o filho morrer "fora" dela?

2. Contexto Histórico e Cultural

Matar fora: a regra do lugar da execução

Na Lei de Israel, quem era condenado à morte por sentença da comunidade morria fora do espaço em que a comunidade vivia. O caso modelo é o do homem que amaldiçoou o nome de Deus: "Leve para fora do acampamento aquele que amaldiçoou; todos os que o ouviram ponham as mãos sobre a cabeça dele, e toda a comunidade o apedreje" (Levítico 24:14). E o texto registra a execução: "levaram para fora do acampamento aquele que tinha amaldiçoado, e o apedrejaram" (Levítico 24:23). O mesmo se faz com o homem que recolheu lenha no sábado (Números 15:35-36). Depois da conquista, o "fora do acampamento" vira "às portas" da cidade (Deuteronômio 17:5).

A razão não é dita, mas o conjunto das leis sugere duas. A morte, e o cadáver, tornavam impuro o lugar; e o condenado, ao ser levado para fora, era separado da comunidade antes de morrer. A expulsão vinha primeiro, como parte da pena.

A Mishná e o caminho até o lugar do apedrejamento

A Mishná, coletânea de leis judaicas redigida por volta do ano 200, consultada aqui no Sefaria, transforma a regra em procedimento. No tratado Sanhedrin 6:1, depois da sentença, o condenado "é levado para fora para ser apedrejado". O lugar do apedrejamento ficava fora do tribunal, "um pouco além dele", e a prova citada é justamente Levítico 24:14.

O caminho é descrito com cuidado. Um homem fica na porta do tribunal com panos na mão; outro, a cavalo, a uma distância de onde possa vê-lo. Se algum juiz disser "tenho um argumento para absolver", o primeiro agita os panos, e o cavaleiro corre para deter o cortejo. O próprio condenado pode pedir para voltar, "até quatro ou cinco vezes", se o que tiver a dizer tiver substância. E um arauto vai à frente, anunciando o nome do condenado, o crime, as testemunhas e convidando quem souber de algo em sua defesa a se apresentar.

A Mishná descreve um ideal jurídico, redigido mais de um século depois de Jesus, por mestres que já não tinham tribunal com poder de executar. Não serve como retrato do que aconteceu na Páscoa do ano 30. Serve para mostrar o que um ouvinte judeu entendia por "levar para fora": era o último trecho do caminho de um condenado, aquele em que ainda se procurava, ao menos em tese, um motivo para não matar. Na parábola não há arauto, nem panos, nem cavaleiro. Há só a expulsão e a morte.

Crucificar fora dos muros

Os romanos também executavam fora das cidades, e de preferência junto a estradas movimentadas: a crucificação era castigo e aviso, e precisava ser vista. Os evangelhos concordam que Jesus morreu fora de Jerusalém. João diz que ele "saiu, carregando a própria cruz, para o lugar chamado da Caveira" e que "o lugar onde Jesus foi crucificado ficava perto da cidade" (João 19:17, 20). Mateus registra a saída: "ao saírem, encontraram um homem de Cirene, chamado Simão" (Mateus 27:32).

A arqueologia é compatível com isso. Sob a Igreja do Santo Sepulcro, o local tradicional do Calvário, foram identificados uma antiga pedreira e túmulos escavados na rocha do tipo usado no século I. A lei judaica não permitia sepulturas dentro da cidade — a Mishná manda manter os túmulos a cinquenta côvados (uns vinte e cinco metros) dela (Bava Batra 2:9) —, e por isso a presença de túmulos indica que, na época, o lugar ficava fora dos muros. O traçado exato das muralhas de Jerusalém no ano 30 continua discutido; a autenticidade do local, também, embora seja a hipótese com mais apoio.

O sacrifício queimado fora do acampamento

Há um terceiro fundo, de outro tipo. Os animais oferecidos pelo pecado no Dia da Expiação não eram comidos: o sangue entrava no santuário, e o corpo era levado "para fora do acampamento" e queimado (Levítico 16:27). Foi a partir desse rito que a carta aos Hebreus leu a morte de Jesus "fora da porta" (Hebreus 13:11-12). Essa leitura é posterior a Mateus e não está na parábola; mostra apenas que, para um leitor judeu do século I, "fora" não era uma indicação neutra de lugar.

3. Análise Teológica do Versículo

“E, agarrando-o,”

O filho recebe o mesmo tratamento dos servos. O verbo com que os lavradores "agarraram" os servos no começo da parábola (Mateus 21:35) volta aqui, sem mudança. Toda a diferença de posição entre o filho e os servos, em que o dono apostou, não altera nada na mão de quem agarra.

Também não há resistência. O filho não fala, não argumenta, não foge. A parábola não o descreve como vítima heroica nem como vítima que suplica: ele simplesmente é tomado. Quem lê Mateus até o fim reconhece esse silêncio na prisão no Getsêmani, quando Jesus manda guardar a espada (Mateus 26:52), e diante do conselho e de Pilatos, onde "não respondeu nada" (Mateus 26:63; 27:12-14). A ligação é do leitor; a parábola só registra que não houve reação.

“lançaram-no para fora da vinha”

Aqui está a diferença entre os evangelhos. Mateus e Lucas (Lucas 20:15) contam assim: primeiro jogam o filho para fora, depois o matam. Marcos conta o contrário: "agarrando-o, mataram-no e o lançaram fora da vinha" (Marcos 12:8). Em Marcos, o que é lançado fora é o cadáver; em Mateus, é o filho ainda vivo.

Por que a ordem mudou? A pergunta pressupõe que Marcos foi escrito antes e serviu de fonte a Mateus, o que é a posição da maioria dos estudiosos, embora não unânime. Dentro dela, há três leituras.

Primeira leitura: Mateus ajustou a parábola à paixão. Jesus foi levado para fora de Jerusalém e crucificado ali (João 19:17; Mateus 27:32), e a nova ordem faz a história coincidir com o fato. É a explicação mais antiga e mais comum. Ellicott (Charles John Ellicott, bispo anglicano do século XIX) vê nas palavras "uma referência latente" à crucificação fora da cidade santa; a Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) diz que elas "lembram" a crucificação. A leitura tem o apoio do fato de Lucas fazer a mesma mudança.

Segunda leitura: Mateus tornou a história mais coerente com a lei. Na Lei de Israel, o condenado era levado para fora antes de morrer (Levítico 24:14). A ordem de Mateus é a de uma execução; a de Marcos, a de um assassinato seguido de descarte do corpo. Por essa leitura, Mateus não pensou primeiro no Gólgota, e sim na forma de uma morte "legal", o que combina com a ironia de toda a parábola: os lavradores matam com aparência de procedimento.

Terceira leitura: a concordância de Mateus e Lucas contra Marcos é um problema em si. Os estudiosos chamam de "concordâncias menores" esses pontos em que Mateus e Lucas, que segundo a hipótese mais aceita não se conheciam, mudam Marcos do mesmo jeito. Se os dois mudaram por conta própria, foi porque ambos pensavam na crucificação — e isso reforça a primeira leitura. Se a coincidência for grande demais para o acaso, então Lucas conhecia Mateus, como propõe a hipótese de Austin Farrer (teólogo inglês do século XX), ou ambos conheciam uma versão de Marcos diferente da nossa. O versículo, nesse caso, vira um argumento numa discussão muito maior do que ele.

Não é possível decidir entre as três, e elas não se excluem. O que se pode dizer com segurança é que a diferença existe, que vários copistas antigos a perceberam — alguns manuscritos de Mateus trazem a ordem de Marcos (item 10) — e que a ordem de Mateus é a que corresponde ao que os evangelhos contam da morte de Jesus.

A ordem de Marcos também tem o seu peso, e não deve ser lida como erro. Jogar o corpo para fora sem sepultura é um insulto além da morte; Marcos acentua a crueldade. Mateus acentua a exclusão. São duas maneiras de contar a mesma rejeição.

O que é "fora da vinha"?

Se a vinha da parábola é Israel, como em Isaías 5:7 ("a vinha do SENHOR dos Exércitos é a casa de Israel"), então o filho é posto para fora de Israel antes de morrer. O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) chega a ler aqui uma alusão à exclusão de Jesus da comunidade e à sua entrega aos estrangeiros para ser julgado; Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) lê a entrega "aos gentios".

Essa leitura precisa de um limite. O próprio Mateus deixa claro que Jesus morreu como judeu, executado com a inscrição "Este é Jesus, o Rei dos Judeus" sobre a cabeça (Mateus 27:37). O que foi posto "fora" foi o condenado, não o povo; e quem o pôs fora, na parábola, foram os lavradores, isto é, os que administravam a vinha. A alegoria diz que os chefes trataram o filho como estranho à vinha. Não diz que a vinha deixou de ser dele, nem que ele deixou de ser dela.

Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX) propõe outra identificação: a vinha seria Jerusalém, e "fora da vinha" seria fora da cidade. É mais modesta e encaixa melhor no fato, mas a parábola começou com Isaías 5, e ali a vinha é o povo.

“e o mataram.”

Duas palavras em grego, sem adjetivo, sem modo, sem lugar exato. A parábola, que gastou tempo com os servos — espancado, morto, apedrejado —, não descreve como o filho morre. A morte mais importante da história é a menos contada.

Também não há enterro, nem lamento, nem reação do dono. O versículo termina na morte, e a pergunta seguinte já é sobre o castigo (Mateus 21:40). A reviravolta, se vier, não está dentro da parábola.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Quem mata o filho, na parábola e fora dela

Na parábola, os mesmos homens agarram, expulsam e matam. Na paixão, segundo Mateus, a tarefa se divide. Os chefes dos sacerdotes e os anciãos combinam a prisão e a morte (Mateus 26:3-4), o conselho o condena (Mateus 26:66), entregam-no a Pilatos (Mateus 27:2), e são os soldados romanos que o levam para fora e o crucificam (Mateus 27:27-35). A parábola junta numa mão só o que a história distribui por várias.

Isso não é contradição; é a forma da parábola, que atribui o resultado a quem o quis. A distinção importa, porque a confusão entre as duas coisas alimentou durante séculos a acusação de que "os judeus" crucificaram Jesus. Quem crucificou foi Roma; quem o entregou foi um grupo de autoridades de Jerusalém; e quem a parábola põe no lugar dos lavradores são essas autoridades (Mateus 21:45).

O Gólgota

Mateus o chama de "lugar chamado Gólgota, que quer dizer Lugar da Caveira" (Mateus 27:33). O nome aramaico pode vir da forma do terreno, de um afloramento de rocha arredondado, ou do uso como lugar de execução; não há como decidir. Ficava fora dos muros e perto de uma estrada, já que Mateus menciona "os que passavam" e balançavam a cabeça (Mateus 27:39). A localização tradicional, sob a Igreja do Santo Sepulcro, vem do século IV, quando o imperador Constantino mandou construir ali a basílica.

Simão de Cirene

Mateus só o menciona por causa da saída: foi "ao saírem" da cidade que os soldados o encontraram e o obrigaram a carregar a cruz (Mateus 27:32). É o personagem que marca, no relato da paixão, o momento em que Jesus passa para "fora". Cirene ficava no norte da África, no atual território da Líbia, e tinha grande comunidade judaica; Simão provavelmente era um peregrino da Páscoa.

5. Pontos de Ensino

1. Excluir vem antes de matar

Na ordem de Mateus, os lavradores primeiro tiram o filho do lugar a que ele pertence e só depois o matam. Antes da violência, a pessoa é declarada estranha. O versículo mostra uma sequência que se repete muito além da parábola: quem vai ser eliminado é primeiro posto "fora".

2. O filho não foi tratado melhor que os servos

O dono contava com uma diferença de tratamento que não houve. O mesmo agarrar dos servos serve para o filho. A parábola diz que, para quem decidiu ficar com a vinha, a dignidade do enviado não muda nada.

3. Os evangelhos não contam do mesmo jeito, e isso é informação

A ordem de Marcos e a de Mateus são diferentes, e a igreja antiga conservou as duas. A divergência mostra os evangelistas trabalhando: um acentua o insulto ao corpo, o outro a expulsão. Ler os dois lado a lado ensina mais do que forçá-los a dizer a mesma coisa.

4. A morte mais importante é a menos descrita

A parábola descreve com detalhe o que fazem com os servos e diz da morte do filho apenas "o mataram". O peso do versículo não está na cena, está em quem morre e em por quê. Mateus guardará a descrição para a paixão.

5. A vinha continua do dono

Os lavradores puseram o filho para fora e ficaram dentro. Mas a vinha não passou a ser deles: a pergunta seguinte é o que o dono fará quando vier. Estar dentro não é o mesmo que ter direito.

6. Aspectos Filosóficos

O lugar de fora: Jacob Taubes e o Messias excluído

O versículo põe uma ordem: primeiro a exclusão, depois a morte. Antes de matar o filho, os lavradores o declaram estranho à vinha. A pergunta filosófica que isso levanta é antiga e tem nome moderno: o que acontece com uma ordem — uma lei, uma comunidade, um Estado — quando aquele que ela expulsou e matou passa a ser, para alguns, o centro de tudo?

Jacob Taubes (1923-1987) pensou essa pergunta mais do que qualquer outro filósofo do século XX. Nascido em Viena, filho de um rabino e ele mesmo ordenado rabino, ensinou em Jerusalém, nos Estados Unidos e em Berlim. O seu primeiro livro, Escatologia ocidental (1947), lê a história do pensamento europeu como uma longa secularização da espera do fim. O último, A teologia política de Paulo, é a transcrição de quatro aulas dadas em Heidelberg em fevereiro de 1987, semanas antes de ele morrer de câncer, e publicada em 1993.

O crucificado contra o nomos

A tese de Taubes é que a mensagem de Paulo era política antes de ser doutrinária. Anunciar como Messias e Senhor um homem crucificado era desafiar duas ordens ao mesmo tempo: a de Roma, que o executou como rebelde, e a da Lei, segundo a qual "maldito é todo aquele que for pendurado no madeiro" (Deuteronômio 21:23, citado por Paulo em Gálatas 3:13). O nomos (em grego, "lei", "ordem estabelecida") pôs o crucificado para fora; Paulo faz desse expulso o fundamento de um povo novo.

Taubes chamou isso de inversão de valores, usando de propósito a linguagem de Nietzsche, que acusava Paulo de ter feito do fraco e do vencido o critério de tudo. Taubes concordava com a descrição e invertia o juízo: o que Nietzsche via como ressentimento, ele via como a crítica mais radical já feita a qualquer poder que se legitima pela força ou pela lei.

A leitura aplicada ao versículo

Lida com Taubes ao lado, a ordem de Mateus ganha peso. Os lavradores não apenas matam: excluem primeiro. A expulsão é o gesto da ordem que decide quem pertence e quem não pertence. Quem é posto "fora da vinha" fica sem a proteção que a vinha dá aos de dentro, e a morte vem como consequência dessa decisão.

A parábola não diz o que vem depois. Mas Mateus a encerra, três versículos adiante, com a pedra que os construtores rejeitaram e que se tornou a principal (Mateus 21:42). O rejeitado vira fundamento — é exatamente o movimento que Taubes descreve em Paulo. E a carta aos Hebreus o transforma em convite: sair "até ele, fora do acampamento". O lugar de fora, onde a ordem joga os que exclui, passa a ser o lugar de reunião.

O que Taubes recusava

A leitura de Taubes tem uma consequência que importa para a história desta parábola. Ele insistia que Paulo era um pensador judeu, falando de dentro de Israel, e que a sua teologia política não era uma vitória do cristianismo sobre o judaísmo. Lia com atenção Romanos 9-11, em que Paulo diz que os israelitas que não creram são "inimigos por causa de vocês", mas "amados por causa dos pais", e que "os dons e o chamado de Deus são irrevogáveis" (Romanos 11:28-29).

Isso corta uma leitura muito difundida deste versículo: a de que, ao pôr o filho "fora da vinha", Israel teria se posto a si mesmo fora de Deus. Para Taubes, o expulso não funda um povo contra Israel, e sim um povo que inclui os de fora sem anular os de dentro. Se isso é o que Mateus pensava, é discutido — o assunto do Reino "dado a um povo" pertence a Mateus 21:43. Mas a leitura mostra que "fora da vinha" não obriga ninguém a concluir que a vinha foi condenada.

O limite

Taubes escreveu sobre Paulo, não sobre esta parábola, e Paulo não a cita. A ponte entre o versículo e a sua filosofia é leitura deste estudo. O que ela oferece é a pergunta certa: o que significa, para uma comunidade, ter posto para fora aquele que depois reconhece como a sua pedra principal?

7. Aplicações Práticas

Primeiro se põe fora

A sequência do versículo — expulsar, depois agredir — é reconhecível na vida comum. Antes de alguém ser maltratado num grupo, ele costuma ser declarado de fora: "não é dos nossos", "nunca foi daqui", "não tem nada a ver com a família". Na escola, no trabalho, numa igreja, a exclusão verbal prepara a violência, porque tira da pessoa a proteção que se dá aos de dentro.

A aplicação é perceber o primeiro passo. É mais fácil impedir uma exclusão do que desfazer o que vem depois dela.

Quem fica dentro não ganhou

Os lavradores ficaram com a vinha nas mãos e sem direito sobre ela. Em disputas de qualquer tipo, ter conseguido pôr o outro para fora não resolve a pergunta de quem tinha razão. A parábola deixa essa pergunta para o dono.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Qual das duas ordens Jesus contou?

Não há como saber. Se a parábola remonta a Jesus, ele a contou antes da crucificação, e uma ordem tão ajustada ao Gólgota pareceria escolha posterior — o que favorece Marcos como forma mais próxima da original. Mas também é possível que a ordem "fora, depois morte" fosse simplesmente a forma natural de contar uma execução, e que Marcos a tenha invertido para acentuar o insulto ao corpo. Tomé, que não diz nada sobre lançar fora (o filho é só agarrado e morto), não ajuda a decidir.

Os primeiros leitores de Mateus pensariam no Gólgota?

Provavelmente. O evangelho foi escrito décadas depois da crucificação, para comunidades que conheciam o relato da paixão, em que Jesus sai da cidade (Mateus 27:32). Um leitor que chega ao capítulo 27 com a parábola na memória faz a ligação sem esforço. Se Mateus pretendia que ela fosse feita, o texto não o diz.

A parábola culpa os romanos?

Não os menciona. Os únicos agentes da morte são os lavradores. Isso é coerente com a função da parábola, que é acusar quem a ouve e não fazer história. Mas, lida como relato histórico, ela deixa de fora quem efetivamente executou Jesus, e essa omissão, somada à identificação dos lavradores com "os judeus", produziu muito do uso antijudaico do texto. A leitura atenta corrige as duas coisas: os lavradores são as autoridades que se reconheceram neles, e a execução foi romana.

Por que o dono não faz nada no momento da morte?

Porque está longe, e a parábola precisa que esteja. A ausência do dono é o que permite aos lavradores agir, e a sua vinda é o que vai julgá-los (Mateus 21:40). Teologicamente, o silêncio do dono diante da morte do filho é o mesmo silêncio que Mateus registra na cruz, com o grito "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?" (Mateus 27:46). A parábola não resolve esse silêncio; o resto do evangelho tenta.

9. Conexão com Outros Textos

As outras duas versões

Marcos 12:8 — "E, agarrando-o, mataram-no e o lançaram fora da vinha."

Lucas 20:15 — "E, lançando-o para fora da vinha, o mataram."

Marcos: matar, depois lançar fora. Lucas e Mateus: lançar fora, depois matar. A divergência é o centro deste versículo.

A saída da cidade, nos relatos da paixão

João 19:17 — "Carregando ele mesmo a sua cruz, saiu para o lugar chamado da Caveira, que em hebraico se diz Gólgota."

Mateus 27:32-33 — "Ao saírem, encontraram um homem de Cirene, chamado Simão, e o obrigaram a carregar a cruz de Jesus. E, chegando a um lugar chamado Gólgota, que quer dizer Lugar da Caveira,"

O "fora" da parábola tem correspondência exata no relato da morte. João o diz com o verbo "sair"; Mateus, com o encontro de Simão a caminho.

O corpo queimado fora do acampamento

Hebreus 13:11 — "Porque os corpos dos animais cujo sangue é trazido para o santuário pelo sumo sacerdote, como oferta pelo pecado, são queimados fora do acampamento."

O versículo que prepara o "fora da porta" de Hebreus 13:12, já citado no estudo de Mateus 21:17. Hebreus faz da localização da morte uma teologia; a parábola só registra o lugar.

A execução fora, na Lei

Levítico 24:23 — "Moisés falou aos israelitas, e eles levaram para fora do acampamento aquele que tinha amaldiçoado e o apedrejaram. Os israelitas fizeram como o SENHOR tinha ordenado a Moisés."

O modelo da execução legal: o condenado é levado para fora e morto pela comunidade. Os lavradores imitam a forma sem nenhum processo.

José, também agarrado e lançado

Gênesis 37:24 — "e o pegaram e o lançaram na cisterna; mas a cisterna estava vazia, não havia água nela."

Na Septuaginta, "o pegaram" é exatamente o "agarrando-o" de Mateus. Os irmãos fazem com José o que combinaram (Gênesis 37:20), mas sem matá-lo; o filho da parábola não tem um Rúben.

Os outros lançados para fora da cidade

1 Reis 21:13 — "Então os dois homens perversos vieram, sentaram-se diante dele e testemunharam contra Nabote diante do povo, dizendo: Nabote amaldiçoou a Deus e ao rei. E o levaram para fora da cidade e o apedrejaram, e ele morreu."

Atos 7:58 — "e, lançando-o fora da cidade, o apedrejavam."

Nabote morre por causa de uma vinha (o paralelo está no estudo de Mateus 21:38); Estêvão, o primeiro mártir cristão, com o mesmo verbo de "lançar fora" deste versículo.

A pedra rejeitada

Mateus 21:42 — Disse-lhes Jesus: “Vocês nunca leram nas Escrituras: ‘A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular; isto foi feito pelo SENHOR, e é maravilhoso aos nossos olhos’?

A parábola termina no filho morto fora da vinha; a citação que Jesus acrescenta muda o fim. O que foi posto fora vira a pedra principal.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

E, agarrando-o, lançaram-no para fora da vinha e o mataram.

Texto grego (Textus Receptus)

Καὶ λαβόντες αὐτὸν ἐξέβαλον ἔξω τοῦ ἀμπελῶνος καὶ ἀπέκτειναν.

Transliteração

Kai labontes auton exebalon exō tou ampelōnos kai apekteinan.

Uma nota sobre o texto

O Textus Receptus ("texto recebido", a edição grega do século XVI que a ABC segue) e as edições críticas trazem exatamente as mesmas palavras, na mesma ordem. Conferido no interlinear do Bible Hub e na edição de Scrivener publicada pelo eBible.

A ordem, porém, não é a mesma em todos os manuscritos. Segundo os estudos do texto do Códice de Beza (manuscrito grego e latino do século V, chamado de "D" pelos especialistas, conhecido pelas suas leituras próprias), ele traz em Mateus a ordem de Marcos: primeiro "mataram", depois "lançaram fora da vinha". A explicação mais comum é que um copista harmonizou Mateus com Marcos, como os copistas desse manuscrito fazem com frequência. Há quem leia a ordem do Códice de Beza como intencional, por acentuar que o filho, já morto, é excluído de vez. Em qualquer caso, a leitura isolada não abala o texto comum de Mateus, apoiado pela grande maioria dos manuscritos.

Análise palavra por palavra

Καὶ λαβόντες αὐτὸν — kai labontes auton, "e, tendo-o agarrado". Particípio aoristo de lambanō, "tomar, receber, agarrar". É o mesmo particípio usado para os servos em Mateus 21:35, onde o duplo sentido de "receber" e "tomar" é explorado. Na Septuaginta de Gênesis 37:24, a frase dos irmãos de José é idêntica: labontes auton erripsan eis ton lakkon, "agarrando-o, lançaram-no na cisterna". Ali o verbo de lançar é outro (rhiptō), mas a abertura é a mesma, palavra por palavra.

ἐξέβαλον — exebalon, "lançaram fora", "expulsaram". Aoristo de ekballō, de ek, "para fora", e ballō, "lançar". O campo semântico da palavra está no estudo de Mateus 17:19. O que muda aqui é o objeto: em Mateus, o verbo serve quase sempre para expulsar demônios (Mateus 8:16, 12:28) e, no templo, para expulsar os que vendiam (Mateus 21:12). No versículo, o expulso é o filho. O verbo que Jesus usou contra os vendedores do templo volta-se contra ele.

ἔξω τοῦ ἀμπελῶνος — exō tou ampelōnos, "para fora da vinha". Exō, "fora", com o genitivo do lugar de que se sai. A combinação "lançar" + "fora de" é a de Atos 7:58 (ekbalontes exō tēs poleōs, "lançando-o fora da cidade", de Estêvão) e a de Lucas 4:29, quando os moradores de Nazaré "o lançaram fora da cidade" para precipitá-lo do monte. Hebreus 13:12 usa exō tēs pylēs, "fora da porta". Ampelōn, "vinha", vem de ampelos, "videira"; é a mesma palavra de Isaías 5 na Septuaginta.

καὶ ἀπέκτειναν — kai apekteinan, "e mataram". Aoristo de apokteinō, "matar". É o verbo que os lavradores usaram no plano do versículo anterior (apokteinōmen, "vamos matá-lo") e o mesmo de Mateus 21:35, para um dos servos. O plano é executado com a mesma palavra com que foi combinado, e o filho morre com o verbo dos servos.

O verbo fica sem objeto expresso: em grego, "e mataram", sem "o". O pronome é subentendido do auton do começo. O português precisa dele; o grego termina a frase, e a cena, no verbo.

11. Conclusão

Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.

A primeira é que a ordem das ações em Mateus diz alguma coisa. Pôr o filho para fora antes de matá-lo é a forma de uma execução, e é a forma da morte de Jesus, conduzido para fora de Jerusalém. A leitura de que Mateus ajustou a parábola à crucificação é a mais provável, não a única; Marcos, com a ordem inversa, conta outra crueldade, e os dois relatos convivem no cânon sem que um anule o outro.

A segunda é que "fora da vinha" não autoriza a conclusão de que a vinha foi condenada. O que a parábola mostra é a decisão de um grupo de administradores de tratar o filho como estranho ao que era dele. Mateus identifica esse grupo, e o próprio evangelho insiste em que o morto era "o Rei dos Judeus". A leitura que fez deste versículo uma sentença contra Israel diz mais do que o texto.

A terceira é que a morte do filho é o ponto mais baixo da parábola e o menos descrito. O versículo não consola nem explica; termina no verbo "mataram". O que muda o sentido dessa morte não está nele — está na pedra rejeitada que Jesus põe logo depois, e no relato que Mateus guarda para o capítulo 27.

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