📖 Navegar na Bíblia:
‹

Mateus 21:35

›
✍️ Por Alberto Adriano·4 de outubro de 2026·⏱️ 23 min de leitura·👁 16 acessos
Mas os lavradores agarraram os servos dele: a um espancaram, a outro mataram, e a outro apedrejaram.
Numa vinha ao entardecer, lavradores agarram três servos que chegaram para cobrar a colheita; um é derrubado a pauladas, outro jaz imóvel no chão, e ao fundo um grupo ergue pedras contra o terceiro, perto do lagar de pedra.

Estudo


Mas os lavradores agarraram os servos dele: a um espancaram, a outro mataram, e a outro apedrejaram.

1. Introdução

Os servos chegam para receber os frutos e são eles que acabam recebidos — com pancada, morte e pedra. O versículo é curto, três verbos em sequência, e cada um sobe um degrau na violência. Por trás deles está uma tradição que Israel contava sobre si mesmo, a dos profetas maltratados e mortos, e é por ela que os ouvintes reconheceriam nos servos os mensageiros de Deus. Essa mesma frase, lida mais tarde contra “os judeus” em geral, tem uma história de uso que precisa ser contada junto com o texto.

2. Contexto Histórico e Cultural

Uma acusação que nasceu como confissão

Quando a comunidade judaica voltou do exílio na Babilônia e reconstruiu Jerusalém, os levitas conduziram uma longa oração de penitência, registrada em Neemias 9. Ela recita a história de Israel desde Abraão e, num ponto, diz a Deus: “eles foram desobedientes e se revoltaram contra ti; deram as costas à tua Lei e mataram os teus profetas, que os advertiam para que voltassem a ti” (Neemias 9:26). E termina com a frase que dá o tom do conjunto: “tu foste justo em tudo o que nos aconteceu; nós é que agimos mal” (Neemias 9:33).

Quem diz “mataram os profetas” ali não está acusando outro povo. Está confessando o pecado dos próprios pais, em primeira pessoa do plural, num ato público de culto. A morte dos profetas entrou na memória de Israel como autocrítica.

O esquema por trás da frase

Em 1967, o estudioso alemão Odil Hannes Steck publicou um livro sobre o que chamou de “o destino violento dos profetas” (Israel und das gewaltsame Geschick der Propheten, “Israel e o destino violento dos profetas”). A tese dele é que, a partir da teologia que organiza os livros de Deuteronômio a Reis, formou-se um modo fixo de contar a história de Israel em quatro tempos: o povo desobedece; Deus envia profetas para chamá-lo de volta; o povo rejeita os profetas e chega a matá-los; vem o castigo, e com ele um novo apelo ao arrependimento. Steck rastreou esse esquema em orações penitenciais, nos escritos judaicos posteriores e no Novo Testamento.

A parábola dos lavradores segue o desenho com precisão: envio, rejeição, morte, castigo (versículo 41). Os ouvintes de Jesus não precisavam de explicação. Conheciam a forma.

O que a Bíblia narra e o que a fórmula diz

Há uma distância entre a fórmula e os relatos. “Mataram os teus profetas” soa como regra; os livros históricos narram poucos casos. Jezabel mandou matar profetas do SENHOR no reino do Norte (1 Reis 18:4). Zacarias, filho do sacerdote Joiada, foi apedrejado por ordem do rei Joás no pátio do templo (2 Crônicas 24:20-22). Urias foi buscado no Egito e morto à espada pelo rei Jeoaquim (Jeremias 26:20-23). Espancados, há mais: Jeremias foi agredido por Pasur, sacerdote e chefe da guarda do templo, e posto no tronco (Jeremias 20:2); Micaías levou uma bofetada de outro profeta diante de dois reis (1 Reis 22:24). Os casos de Zacarias e Urias estão narrados no estudo de Mateus 14:10.

A lenda que cresceu

Entre o exílio e o tempo de Jesus, a lista cresceu. Um texto judaico escrito em grego no primeiro século, as Vidas dos Profetas (pequenas biografias de vinte e três profetas, com o lugar onde cada um foi sepultado), dá morte violenta a vários deles que a Bíblia não mata. Isaías foi serrado ao meio no reinado de Manassés. Jeremias foi apedrejado pelo próprio povo em Tafnes, no Egito. Ezequiel foi morto na Babilônia por um chefe dos exilados. Miqueias foi lançado de um penhasco. Amós foi espancado pelo sacerdote Amazias e morto pelo filho dele com um porrete. A morte de Isaías serrado aparece também no Martírio de Isaías, que hoje forma a primeira parte da Ascensão de Isaías, e é provavelmente o que a carta aos Hebreus tem em mente quando diz que houve quem fosse “serrado” (Hebreus 11:37).

O livro dos Jubileus (reescrita judaica do Gênesis e do começo do Êxodo, do século II antes de Cristo) põe a ideia na boca do próprio Deus, falando a Moisés sobre o futuro: “enviarei a eles testemunhas, para dar testemunho contra eles, mas não ouvirão, e matarão as testemunhas” (Jubileus 1:12). O envio e a morte já estão juntos antes de Jesus.

A memória dos mestres

A tradição rabínica conservou a mesma autocrítica. O Talmude da Babilônia, no tratado Gittin 57b, conta que Nebuzaradã, o general babilônio que destruiu Jerusalém, encontrou no templo um sangue que fervia sem parar. Disseram-lhe que era o sangue de Zacarias, o profeta morto ali. Ele matou sábios, jovens e crianças sobre aquele sangue, e o sangue só se acalmou quando o próprio general gritou ao profeta que já tinha matado os melhores deles. Eichá Rabá (comentário rabínico às Lamentações) acrescenta que naquele dia Israel cometeu sete transgressões de uma vez: matou um sacerdote, um profeta e um juiz, derramou sangue inocente, profanou o Nome, contaminou o pátio — e era sábado e Dia da Expiação.

São textos posteriores a Jesus, e lendários. Mas mostram quem guardou essa memória e com que finalidade: mestres judeus, contando a seus alunos o pecado de seus próprios antepassados, para explicar a destruição do próprio templo.

3. Análise Teológica do Versículo

“Mas os lavradores agarraram os servos”

O verbo que a ABC traduz por “agarraram” é o mesmo que, no versículo anterior, dizia por que os servos tinham vindo: “para receberem os frutos”. Em grego é uma palavra só, que significa tanto receber quanto tomar. O dono mandou os servos tomar a colheita; os lavradores tomam os servos. Marcos 12:2-3 já tinha esse jogo, e Mateus o conserva. Em vez do fruto, a mão dos lavradores se fecha sobre os mensageiros.

Repare também no que Mateus não diz. Em Marcos 12:3 e em Lucas 20:10, o primeiro servo é espancado e mandado de volta “de mãos vazias”. A expressão marca a recusa de pagar, que é o assunto do contrato. Mateus a omite. Nele, a violência ocupa todo o espaço; o fruto nem é mencionado.

“a um espancaram”

O primeiro verbo é o mais brando dos três, e ainda assim é grave. A Lei de Israel conhecia a surra como pena de tribunal, com teto fixo de quarenta golpes (Deuteronômio 25:2-3). O próprio Jesus avisa os discípulos de que serão “açoitados nas sinagogas” (Mateus 10:17). Os lavradores não são tribunal nenhum: aplicam a pena por conta própria, a um homem que veio cobrar uma dívida.

Na diplomacia antiga, maltratar o enviado era o mesmo que ofender quem o enviou; o caso clássico, o de Hanum com os mensageiros de Davi, está no estudo de Gênesis 32:3. Aqui o ofendido é o dono, e a ofensa vem de quem ele deixou morar na sua terra.

“a outro mataram”

O segundo verbo não tem nenhum detalhe: nem como, nem onde. É a frase mais seca do versículo. E chega cedo. Em Lucas, nenhum servo morre: os três são espancados, humilhados e feridos, e a primeira morte é a do filho (Lucas 20:10-12, 15). Em Marcos, morre o terceiro servo (Marcos 12:5). Em Mateus, o assassinato já está na primeira leva.

Por que Mateus antecipa a morte? O texto não diz. Uma hipótese plausível, defendida por muitos comentaristas modernos, é que o evangelista escreve olhando para a experiência da sua própria comunidade. Mais adiante, Jesus diz aos escribas e fariseus: “eu envio a vocês profetas, sábios e escribas. A uns vocês matarão e crucificarão; a outros açoitarão nas suas sinagogas e perseguirão de cidade em cidade” (Mateus 23:34). É a mesma gradação, aplicada aos enviados de Jesus. Para quem lia Mateus no fim do primeiro século, a parábola não falava só do passado.

“e a outro apedrejaram”

Meyer (Heinrich August Wilhelm Meyer, exegeta alemão do século XIX) e Bengel (Johann Albrecht Bengel, comentarista luterano alemão do século XVIII) leem o terceiro verbo como o ponto mais alto de uma escada: depois de matar, matar da forma mais atroz. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) fala em “clímax ascendente”. A leitura é boa, mas a pedra diz mais que intensidade.

Na Lei, a pedra era a pena de quem tentasse desviar o povo para outros deuses (Deuteronômio 13:6-10) e a do blasfemo (Levítico 24:16). Era uma morte pública e coletiva: a comunidade inteira atirava as pedras, e as testemunhas atiravam primeiro. Apedrejar um mensageiro, portanto, é tratá-lo como sedutor do povo ou blasfemo — como inimigo de Deus, e não como enviado dele. A violência se veste de lei. Foi assim com Zacarias, apedrejado “por ordem do rei” (2 Crônicas 24:21), e será assim com Estêvão, levado para fora da cidade e apedrejado depois de um julgamento (Atos 7:58).

E a pedra coletiva tem outro efeito: não há um culpado só. Quem espanca é um, quem mata é um; quem apedreja são todos. No terceiro verbo, os lavradores agem como grupo. A frase de Jesus sobre Jerusalém usa exatamente o mesmo verbo e põe a cidade inteira como sujeito: “que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados” (Mateus 23:37).

Três leituras dos três verbos

A pergunta é: os três verbos descrevem o quê?

Primeira leitura: descrevem o destino dos profetas de Israel. É a leitura alegórica, de longe a mais antiga e a mais comum. Alguns comentaristas foram além e distribuíram os verbos entre nomes: o Pulpit Commentary (“Comentário do Púlpito”, obra coletiva inglesa do século XIX) sugere Jeremias espancado, Isaías morto e Zacarias apedrejado; Gill fica com Jeremias ferido por Pasur, Micaías esbofeteado e Zacarias. A distribuição é conjectura. O texto não nomeia ninguém, e Isaías só morre na lenda judaica posterior.

Segunda leitura: descrevem a violência rural de verdade. Alguns intérpretes do fim do século XX, como William Herzog II (no livro Parables as Subversive Speech, “As parábolas como discurso subversivo”, 1994), leem os lavradores como camponeses que resistem à perda da terra para um grande proprietário. Nessa chave, a parábola mostra que a violência dos de baixo, por compreensível que seja, só produz mais violência e termina na destruição dos próprios revoltosos. A leitura dá peso à realidade social da Palestina, mas tem de ignorar o que o texto diz sobre o dono, que plantou a vinha com as próprias mãos e cobrou no tempo certo.

Terceira leitura: descrevem, em resumo, a história dos enviados até a comunidade de Mateus. É a hipótese do parágrafo sobre Mateus 23:34. Ela não exclui a primeira; apenas estende a lista dos servos.

Os três verbos e “os judeus”

Aqui o texto exige cuidado, porque a frase foi usada por séculos como acusação contra o povo judeu inteiro. A generalização já aparece cedo: numa das suas cartas, Paulo fala dos “judeus, que mataram o Senhor Jesus e os profetas” (1 Tessalonicenses 2:14-15). Nos séculos seguintes, a acusação cresceu até a de deicídio, e dali em diante a acusação de matar os profetas passou a ser lida como traço permanente de um povo.

Três dados do próprio texto pesam contra essa leitura. Primeiro, a memória dos profetas mortos nasceu como confissão de Israel sobre si mesmo, em oração. Segundo, na parábola os lavradores não são um povo, são os que receberam a administração da vinha — e o versículo 45 diz que quem se reconheceu neles foram os chefes dos sacerdotes e os fariseus. Terceiro, o próprio capítulo termina com a multidão judaica tendo Jesus por profeta e protegendo-o com a sua presença (versículo 46). Quem conta a parábola é um judeu, falando a autoridades judaicas, com uma tradição judaica de autocrítica. Ler os três verbos como acusação étnica é ler contra o texto, não com ele.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Os três servos

Não têm nome, nem fala, nem reação. Mateus diz só o que foi feito a cada um. São três na frase, mas a construção grega admite ler “a uns… a outros…” sobre um grupo maior; o essencial é a gradação.

Os lavradores

Agem juntos do começo ao fim. Não há um líder nem uma voz discordante. O versículo os apresenta como bloco, e o terceiro verbo, que é um ato coletivo, fecha essa imagem.

Os profetas que os comentaristas associaram aos servos

Jeremias, profeta de Anatote, ativo nas últimas décadas do reino de Judá, foi espancado mais de uma vez. A primeira agressão narrada é de Pasur, filho de Imer, sacerdote e encarregado da guarda do templo (Jeremias 20:1-2): quem bateu no profeta foi um homem do templo. Segundo as Vidas dos Profetas, morreu apedrejado em Tafnes, cidade da fronteira oriental do Egito para onde tinha sido levado à força (Jeremias 43:7).

Micaías, filho de Inlá, profeta do reino do Norte no tempo do rei Acabe, contradisse quatrocentos profetas da corte e levou uma bofetada de um deles, Zedequias, diante de Acabe e de Josafá (1 Reis 22:24). Depois foi preso a pão e água.

Zacarias, filho do sacerdote Joiada, foi apedrejado no pátio do templo por ordem do rei Joás — o mesmo rei que Joiada tinha salvado e posto no trono. Morreu pedindo que o SENHOR visse e cobrasse (2 Crônicas 24:22).

Isaías, que a Bíblia não mata, morreu serrado segundo a lenda judaica do primeiro século.

O lugar

A vinha. Não há tribunal, nem testemunhas, nem autoridade superior por perto. Tudo acontece no território que o dono confiou aos lavradores — exatamente o espaço em que deveriam agir em nome dele.

5. Pontos de Ensino

A rejeição começa pelo mensageiro. Os lavradores ainda não disseram nada contra o dono. Atacam quem veio em nome dele. A parábola mostra que recusar uma palavra incômoda raramente começa pelo argumento; começa por desqualificar quem a traz.

A violência sobe por degraus. Bater, matar, apedrejar. Cada passo torna o seguinte mais fácil. O versículo não descreve três decisões separadas, e sim uma escalada.

A violência pode se vestir de justiça. O apedrejamento era pena da Lei. Quem apedreja um mensageiro trata a si mesmo como tribunal e ao outro como criminoso. A forma legal não torna o ato justo.

A memória dos profetas mortos é, antes de tudo, autocrítica. Israel a conservou como confissão dos próprios pecados. Usá-la para acusar os outros inverte o seu sentido.

Os enviados de Deus pagam o preço do envio. Mateus não esconde o custo de levar a palavra de Deus a quem não quer ouvi-la: os servos sofrem antes que o dono aja.

6. Aspectos Filosóficos

O uso da memória do mal

Este versículo é uma memória de violência — e uma memória que foi usada de modos opostos. Nas orações de Israel, serviu para o povo reconhecer o próprio pecado. Em boa parte da história cristã, serviu para apontar o pecado de outro povo. A pergunta filosófica que ele levanta é esta: o que se deve fazer com a lembrança de um mal?

Tzvetan Todorov (filósofo e historiador das ideias nascido na Bulgária, radicado na França, morto em 2017) dedicou a essa pergunta dois livros curtos. Em Os abusos da memória (1995), ele distingue duas formas de lembrar. A memória literal guarda o acontecimento fechado em si mesmo: o mal foi aquele, cometido por aqueles, contra aqueles, e não leva a nada além disso — ou leva só ao ressentimento contra os culpados e seus descendentes. A memória exemplar toma o acontecimento como modelo para compreender outros: o mal que aconteceu ali pode acontecer de novo, em outro lugar, com outros autores — inclusive comigo. A primeira transforma o passado em identidade e acusação; a segunda o transforma em princípio de ação no presente.

Em Memória do mal, tentação do bem (2000), Todorov acrescenta um perigo. Quem lembra o mal cometido pelos outros é tentado a se pôr, automaticamente, do lado do bem. A lembrança vira álibi: se eles foram os carrascos, eu sou dos que choram as vítimas. E justamente essa certeza de estar do lado certo, diz Todorov, é o que permite repetir o mal sem perceber.

O que o esquema mostra na tradição dos profetas mortos

Aplicada ao versículo, a distinção ajuda a ver por que a mesma frase pôde ter efeitos tão diferentes. Neemias 9 é memória exemplar: o povo lembra a morte dos profetas para se reconhecer capaz do mesmo pecado. A leitura que fez dos três verbos uma marca permanente “dos judeus” é memória literal, e da pior espécie: fixa o mal num grupo e absolve quem lembra.

O mais notável é que o próprio Evangelho de Mateus descreve a tentação do bem antes de Todorov. Dois capítulos adiante, Jesus critica quem constrói os túmulos dos profetas e diz: “Se tivéssemos vivido nos dias dos nossos pais, não teríamos sido cúmplices deles no sangue dos profetas” (Mateus 23:30). Honrar os profetas mortos e declarar-se incapaz de matá-los é, para Jesus, o sinal de que se está pronto para fazer o mesmo. É a mesma estrutura que Todorov descreve: o culto da memória como garantia de inocência.

Onde a comparação para

Todorov escrevia sobre os crimes do século XX — os campos nazistas, o gulag soviético — e com preocupação política, não religiosa. Ele não diz nada sobre profetas nem sobre Deus. E a parábola tem algo que o seu esquema não tem: um dono que vai agir, um julgamento que virá (versículo 41). Para Todorov, a memória é tarefa humana e não garante justiça nenhuma; para a parábola, a justiça vem de fora dos lavradores. A distinção entre memória literal e exemplar serve para ler a história do uso deste versículo; não serve para decidir o que ele significa como palavra sobre Deus.

7. Aplicações Práticas

Observe como você trata quem traz uma cobrança justa. Os lavradores não discutiram a dívida; atacaram os cobradores. A reação mais comum diante de uma verdade incômoda continua sendo essa: desacreditar, afastar, calar quem a diz. Antes de responder a uma crítica, vale perguntar se você está respondendo ao que foi dito ou atacando quem disse.

A escalada começa pequena. Ninguém começa apedrejando. Começa com a primeira grosseria, a primeira exclusão, o primeiro “esse aí não merece ser ouvido”. O versículo põe os três graus lado a lado para que se veja que são o mesmo caminho.

Use a memória do mal contra você mesmo primeiro. Quando ler sobre os que perseguiram os profetas, a pergunta útil não é “quem eram eles?”, e sim “onde eu estaria?”. Foi assim que Israel rezou essa memória em Neemias 9, e é essa a advertência de Jesus em Mateus 23:30.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Os lavradores não temiam a reação do dono?

O versículo não mostra nenhum cálculo da parte deles. A lógica que os move só será dita em voz alta quando o filho chegar (versículo 38). Até aqui, a parábola deixa o leitor diante de uma conduta que parece suicida — e a pergunta do versículo 40 vai obrigar os ouvintes a dizer qual é a consequência.

Por que a parábola descreve tanta violência se é uma história inventada?

Porque a história inventada carrega uma história real. Os ouvintes conheciam os casos de profetas maltratados, e Mateus conhecia os casos de discípulos açoitados e mortos. Uma parábola sem violência não serviria para a acusação que ela quer fazer.

Por que acusar os chefes dos sacerdotes, se eles não tinham matado profeta nenhum?

Porque a parábola não julga só o passado. Ela liga os ouvintes à linha dos que receberam a vinha antes deles, e Jesus fará isso explicitamente dois capítulos adiante, ao dizer que quem honra os túmulos dos profetas se declara “filho dos que assassinaram os profetas” (Mateus 23:31). E a pergunta sobre João Batista, poucos versículos antes, já tinha mostrado o que aqueles homens fizeram com o último profeta enviado: não creram nele (Mateus 21:32). A acusação não diz que eles mataram os servos de ontem; diz que estão do lado de quem os matou, e que o filho está diante deles.

9. Conexão com Outros Textos

A mesma cena nos outros evangelhos

Marcos 12:3-5 — “Mas eles o agarraram, espancaram-no e o mandaram embora de mãos vazias. De novo lhes enviou outro servo; e a este apedrejaram, feriram na cabeça e o mandaram embora humilhado. E enviou ainda outro, e a este mataram; e muitos outros, espancando uns e matando outros.”

Tradução livre a partir do Textus Receptus. Em Marcos, um servo por vez, e a morte só no terceiro.

Lucas 20:10-12 — “Mas os lavradores o espancaram e o mandaram embora de mãos vazias… a este também espancaram, insultaram e mandaram embora de mãos vazias… e a este feriram e lançaram fora.”

Tradução livre. Em Lucas, nenhum servo morre. A primeira morte é a do filho.

A tradição dos profetas mortos

Neemias 9:26 — “Mas eles foram desobedientes e se revoltaram contra ti; deram as costas à tua Lei e mataram os teus profetas, que os advertiam para que voltassem a ti.”

A confissão do povo, em oração pública, depois do exílio.

2 Crônicas 24:21 — “Mas conspiraram contra ele e, por ordem do rei, o apedrejaram no pátio do templo do SENHOR.”

Zacarias, filho de Joiada. A Septuaginta usa a mesma forma verbal de Mateus 21:35 (item 10).

Jeremias 20:2 — “Pasur bateu no profeta Jeremias e o pôs no tronco que ficava na porta superior de Benjamim, na casa do SENHOR.”

O espancamento de um profeta por um sacerdote, dentro do templo.

1 Reis 22:24 — “Então Zedequias, filho de Quenaaná, aproximou-se e deu uma bofetada no rosto de Micaías.”

Os mesmos verbos em Mateus

Mateus 22:6 — “e os demais agarraram os servos dele, maltrataram-nos e os mataram.”

A parábola gêmea, a do banquete de casamento. Os convidados fazem com os servos do rei o que os lavradores fazem com os servos do dono.

Mateus 23:34 — “Por isso, eu envio a vocês profetas, sábios e escribas. A uns vocês matarão e crucificarão; a outros açoitarão nas suas sinagogas e perseguirão de cidade em cidade.”

A mesma gradação, agora sobre os enviados de Jesus.

Mateus 23:37 — “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados!”

Os dois últimos verbos do versículo 35, na mesma ordem.

Mateus 5:12 — “Alegrem-se e exultem, porque é grande a sua recompensa nos céus; pois assim perseguiram os profetas que viveram antes de vocês.”

O primeiro lugar de Mateus em que o destino dos profetas é posto ao lado do destino dos discípulos.

O uso posterior

Atos 7:52 — “Qual dos profetas os pais de vocês não perseguiram? Mataram os que anunciavam de antemão a vinda do Justo.”

Tradução livre. Estêvão usa a tradição diante do conselho — e é apedrejado logo depois.

1 Tessalonicenses 2:14-15 — “…dos judeus, que mataram o Senhor Jesus e os profetas, e também nos perseguiram.”

Tradução livre. A generalização mais antiga do tema, escrita por um judeu sobre adversários judeus da Judeia — e o ponto de partida de uma longa história de uso contra o povo inteiro.

Hebreus 11:37 — “Foram apedrejados, serrados ao meio, mortos ao fio da espada.”

Tradução livre. O “serrados” vem da lenda da morte de Isaías.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Mas os lavradores agarraram os servos dele: a um espancaram, a outro mataram, e a outro apedrejaram.

Texto grego (Textus Receptus)

Καὶ λαβόντες οἱ γεωργοὶ τοὺς δούλους αὐτοῦ, ὃν μὲν ἔδειραν, ὃν δὲ ἀπέκτειναν, ὃν δὲ ἐλιθοβόλησαν.

Transliteração

Kai labontes hoi geōrgoi tous doulous autou, hon men edeiran, hon de apekteinan, hon de elithobolēsan.

Uma nota sobre o texto

O Textus Receptus (“texto recebido”, a edição grega do século XVI que a ABC segue) e as edições críticas trazem aqui as mesmas palavras. Conferido no interlinear do Bible Hub e na edição de Scrivener publicada pelo eBible. A diferença de texto está no paralelo de Marcos: o Textus Receptus de Marcos 12:4 diz que o segundo servo foi apedrejado (lithobolēsantes), e as edições críticas não trazem essa palavra ali. Em Mateus, o apedrejamento está em todas as edições.

Análise palavra por palavra

Καὶ λαβόντες — kai labontes, “e, tendo tomado”. Particípio aoristo ativo, nominativo masculino plural, de lambanō, “tomar, receber, pegar”. É o mesmo verbo do infinitivo labein no fim de Mateus 21:34, “para receber os frutos”. O grego não precisa de duas palavras para “receber” e “agarrar”; o contexto decide. O particípio aqui é de ação prévia: primeiro pegaram os servos, depois fizeram o que os três verbos dizem. A ABC verte kai por “mas”, interpretando o contraste.

οἱ γεωργοὶ — hoi geōrgoi, “os lavradores”, sujeito expresso. Os lavradores eram o objeto do envio no versículo anterior; agora são o sujeito de tudo.

τοὺς δούλους αὐτοῦ — tous doulous autou, “os servos dele”. O possessivo repete o de Mateus 21:34. A ABC mantém o possessivo: eram do dono.

ὃν μὲν… ὃν δὲ… ὃν δὲ — hon men… hon de… hon de, “a um… a outro… a outro”. O pronome relativo hos, no acusativo singular, usado com as partículas men e de, funciona em grego como pronome de distribuição: “este… aquele… aquele outro”. É construção clássica, rara no Novo Testamento. Marcos 12:5 usa o artigo no plural para o mesmo efeito (tous men… tous de, “a uns… a outros”). O singular de Mateus individualiza cada maus-trato.

ἔδειραν — edeiran, aoristo do indicativo ativo, terceira pessoa do plural, de derō. O sentido original do verbo é “esfolar, tirar a pele”. Na Ilíada (1.459), a mesma forma, edeiran, descreve os gregos esfolando os animais do sacrifício. Já no grego clássico passa a significar “bater, surrar”, e é o único sentido no Novo Testamento. Bengel observa que o verbo cobre os dois casos, porque toda surra fere a pele. Ocorre quinze vezes no Novo Testamento e só esta vez em Mateus. Nos outros livros, é o verbo dos guardas que batem em Jesus (Lucas 22:63; João 18:23) e do conselho que manda bater nos apóstolos (Atos 5:40). Para os discípulos açoitados, Mateus usa outro verbo, mastigoō, “açoitar com chicote” (Mateus 10:17; 23:34).

ἀπέκτειναν — apekteinan, aoristo de apokteinō, “matar”. É o verbo comum de matar, sem indicação de modo. Em Mateus, é o verbo dos anúncios da paixão (Mateus 16:21; 17:23) e da acusação contra Jerusalém, “que matas os profetas” (Mateus 23:37). Volta nesta mesma parábola para o filho: “vamos matá-lo” e “o mataram” (Mateus 21:38-39).

ἐλιθοβόλησαν — elithobolēsan, aoristo de lithoboleō, “apedrejar”, composto de lithos, “pedra”, e ballō, “atirar”: atirar pedras. Nas edições críticas, o verbo aparece sete vezes no Novo Testamento: aqui, em Mateus 23:37, em Lucas 13:34, duas vezes no apedrejamento de Estêvão (Atos 7:58-59), em Atos 14:5 e em Hebreus 12:20. A Septuaginta usa esse verbo para traduzir os dois verbos hebraicos de apedrejar, cuja diferença está no estudo de Êxodo 8:26.

Em 2 Crônicas 24:21, a Septuaginta conta a morte de Zacarias, filho de Joiada, com exatamente a mesma forma: elithobolēsan auton, “apedrejaram-no”, no pátio da casa do Senhor. Um leitor de Mateus que conhecesse as Escrituras em grego encontrava no fim deste versículo a palavra daquele episódio.

Os três aoristos em sequência, sem conjunção entre eles, dão ao versículo o ritmo de um registro: aconteceu isto, isto e isto.

11. Conclusão

Os servos vieram buscar a colheita e foram tomados no lugar dela. Conclui-se que, na parábola, a recusa de dar o fruto e a violência contra os mensageiros são o mesmo ato: quem não quer pagar ao dono precisa calar quem fala por ele.

Conclui-se também que os três verbos não descrevem um acesso de raiva, e sim um caminho. O último deles, a pedra, tem forma de sentença legal e é obra de todos — a violência que chega ao fim já se apresenta como justiça.

E conclui-se, por fim, que esta memória pertence primeiro a quem a guardou. Israel a recitou como confissão; Jesus a dirigiu às autoridades que o ouviam; Mateus a estendeu aos enviados do seu tempo. Em nenhum desses usos ela serve de sentença sobre um povo inteiro. Serve de espelho para quem tem a vinha nas mãos.

Comentários

Seja o primeiro a comentar.

Deixe um comentário

Mateus 21:35

Seu comentário passa por moderação antes de aparecer.

A Bíblia Comentada
© A Bíblia Comentada 2026. Design by Top Level
📖 Versículos comentados
Bíblia2.888 / 31.102 9,29%
Antigo Testamento2.114 / 23.145 9,13%
Novo Testamento774 / 7.957 9,73%