e os demais agarraram os servos dele, maltrataram-nos e os mataram.
1. Introdução
Até aqui a parábola tinha indiferença. Agora tem cadáveres.
"Os demais" é o terceiro grupo. Os primeiros não quiseram, os segundos foram trabalhar, e estes agarram os servos, maltratam e matam. A escalada é do texto, não do leitor: três reações ao mesmo convite, em ordem crescente, dentro de dois versículos.
E há uma desproporção que salta aos olhos. Matar o mensageiro de um convite de casamento não é reação a um convite — é outra coisa, que o convite apenas revelou. Ninguém mata por causa de um jantar.
2. Contexto Histórico e Cultural
Matar o arauto era crime de guerra. No direito internacional antigo, o mensageiro era inviolável. Heródoto registra o caso célebre dos arautos persas mortos em Esparta e em Atenas, e o remorso religioso que se seguiu — os gregos entenderam aquilo como mácula que exigia reparação. No Oriente Próximo, a correspondência diplomática trata o ultraje ao enviado como ato equivalente à declaração de hostilidades. Quem toca no mensageiro já não está recusando: está em guerra.
O caso bíblico mais próximo. Em 2 Samuel 10, Davi envia mensageiros para dar pêsames ao rei amonita; estes os humilham, rapando-lhes metade da barba e cortando-lhes as vestes pela metade. O resultado é a guerra, e o texto a apresenta como consequência natural. O paralelo é instrutivo porque lá os enviados nem foram mortos — bastou a humilhação para que a resposta militar fosse considerada legítima por todos os envolvidos.
A punição coletiva de cidades. As convenções do período admitiam que a resposta a um ultraje desse tipo recaísse sobre a comunidade do ofensor, e não apenas sobre o indivíduo. Isso explica, sem justificar, por que no versículo seguinte o rei não procura os culpados um a um: no código da época, a cidade responde pelos seus.
Os três verbos. A sequência grega — agarrar, maltratar, matar — descreve um linchamento, não uma execução. Não há julgamento, não há acusação, não há autoridade. É violência de multidão contra homens desarmados que levavam um recado.
O que era um linchamento naquele mundo. A violência coletiva sem processo era conhecida e temida: a própria legislação judaica previa o apedrejamento como pena judicial justamente para discipliná-la, exigindo testemunhas, advertência prévia e a mão dos acusadores primeiro. O que a parábola descreve não é isso — não há testemunho, não há sentença, não há ordem. É a forma de violência que a lei tentava substituir, e que ela não conseguiu eliminar: os Evangelhos registram tentativas de linchamento contra o próprio Jesus, em Nazaré e no templo.
Quem eram os escravos de uma casa real. Na administração helenística e herodiana, os douloi do rei não eram trabalhadores braçais: formavam um corpo de funcionários domésticos e administrativos, muitos deles com instrução, encarregados de correspondência, contabilidade e representação. Alguns tinham poder considerável. Matar servos assim não era agredir subalternos anônimos — era eliminar quadros da casa real, e qualquer ouvinte entenderia a gravidade administrativa, e não só moral, do ato.
O precedente que estava na memória recente. Josefo relata episódios do período em que emissários enviados por autoridades a aldeias da Judeia foram agredidos ou mortos, e descreve a resposta invariável: destacamentos militares, represálias sobre povoados inteiros, crucificações em massa. A geração que ouvia a parábola tinha visto isso acontecer. O versículo 7 não descreveria, para eles, uma hipótese extraordinária — descreveria o procedimento conhecido.
3. Análise Teológica do Versículo
"e os demais"
O texto divide os convidados em três, e esta é a terceira parte. A expressão não diz "alguns": diz o restante, o que sobrou depois dos que não quiseram e dos que foram trabalhar. A parábola, portanto, não está apresentando exceções — está completando um quadro.
Isso tem efeito sobre a leitura. Se fossem "alguns", os violentos seriam desvio dentro de um grupo normal. Sendo "os demais", eles são uma das três respostas possíveis ao mesmo convite, e a parábola as põe no mesmo plano. No versículo 8 o rei falará de todos com uma frase só.
"agarraram os servos dele"
O verbo grego é o de prender com as mãos, segurar à força. Não é capturar militarmente nem deter juridicamente: é agarrar.
E o possessivo não é decorativo. São "os servos dele", do rei. O texto insiste na propriedade justamente no momento da agressão, porque é isso que define o crime. Agredir um escravo alheio era, no direito antigo, dano ao patrimônio do dono; agredir o enviado de um rei era ofensa ao próprio rei. Os dois agravantes se somam numa frase de quatro palavras.
"maltrataram-nos"
O verbo é raro e forte: ultrajar, tratar com insolência, humilhar. O seu campo semântico é o da afronta pública, não o do dano físico simples — a palavra está na mesma família do termo que os gregos usavam para a soberba que ofende os deuses.
A escolha importa porque descreve a natureza do ato. Não se trata apenas de espancar: trata-se de humilhar. É o mesmo verbo que Mateus usará, no capítulo 20, para anunciar o que seria feito ao próprio Jesus — entregue aos gentios "para ser escarnecido, açoitado e crucificado".
"e os mataram"
O terceiro verbo encerra a escalada sem nenhuma palavra de transição. Agarraram, humilharam, mataram — três aoristos em sequência, sem conjunção que marque tempo entre eles. A gramática reproduz a velocidade do linchamento.
O texto não diz quantos nem quais. Não há nome, não há número, não há descrição. Essa economia é característica de Mateus, e produz um efeito que a descrição detalhada não produziria: os servos morrem como categoria, não como indivíduos, e o leitor fica sem rosto para lamentar.
A desproporção, que é o ponto
Nenhum convite explica um assassinato. Se o versículo 5 mostrava recusa compreensível — gente ocupada com o próprio sustento —, este mostra algo que nenhuma leitura razoável acomoda. Matar quem traz um convite de casamento é um ato sem motivo proporcional.
E é justamente aí que a parábola deixa de ser sobre banquetes. A violência desproporcional revela que o convite não era o verdadeiro problema: ele apenas tocou em algo que já estava armado. Os convidados não mataram por causa da festa; mataram porque o chamado do rei os obrigava a reconhecer uma autoridade que não queriam reconhecer, e matar o mensageiro era o modo mais direto de recusar o remetente.
O eco que o público ouviu
Minutos antes, no mesmo pátio, Jesus contara uma parábola em que servos enviados a uma vinha eram espancados e mortos, e os ouvintes — os principais sacerdotes e os fariseus — tinham entendido que ela falava deles. Agora a cena se repete em outra história.
A repetição é deliberada e muda o estatuto do episódio. Numa parábola, servos mortos podem ser detalhe de enredo; em duas seguidas, diante do mesmo público, é acusação. O texto não precisa dizer quem são os servos — o público já tinha demonstrado, no capítulo anterior, que sabia.
A leitura alegórica e o seu limite
Desde cedo os servos mortos foram identificados com os profetas, e a identificação tem apoio no próprio Mateus: o capítulo 23 dirá que Jerusalém mata os profetas e apedreja os enviados, usando o mesmo vocabulário. A leitura é natural e provavelmente correta no essencial.
Ela tropeça, porém, num detalhe de cronologia interna que raramente se nota. Dentro da história, tudo isto acontece no mesmo dia: o banquete está pronto, a carne foi abatida de manhã, os servos saíram há pouco. Não há séculos entre as remessas. Forçar a identificação com a sucessão histórica dos profetas obriga a tratar como longa duração o que o enredo apresenta como uma tarde.
A saída mais honesta é a que distingue os planos. A parábola é uma história coerente em si, com o seu próprio relógio; e ela evoca, para quem a ouve, um padrão histórico que não precisa caber dentro do enredo. Confundir os dois planos produz as leituras forçadas que fizeram da alegoria, durante séculos, um método desacreditado.
A questão que o versículo deixa para o seguinte
Há um problema de verossimilhança que a história nunca resolve, e vale nomeá-lo antes que ele apareça. Se os convidados moram na mesma cidade e o banquete está pronto, como é que o rei só vem a saber do assassinato depois — e como é que, depois de uma campanha militar com incêndio de cidade, a comida ainda está servida no versículo 10?
Os comentaristas notaram a dificuldade desde cedo. Uns a atribuem a dois materiais costurados; outros, ao fato de que parábolas não respondem a perguntas de enredo, do mesmo modo que ninguém pergunta como o pai do filho pródigo tinha um anel à mão. O que não se sustenta é tratar a incoerência como descuido do evangelista: ela é grande demais para ter passado despercebida a quem escreveu.
Por que "ultrajar" e não apenas "ferir"
A escolha do verbo merece um parágrafo próprio, porque ela é o que distingue esta cena de uma simples agressão. Hybris, no vocabulário grego, não é violência qualquer: é a violência que humilha, a que visa rebaixar o outro diante de testemunhas. Aristóteles, ao definir o termo na Retórica, insiste que o agressor age não para obter vantagem, mas pelo prazer de mostrar superioridade — e que é isso que a torna ofensa pública, e não dano privado.
Aplicada aqui, a definição explica a estranheza do episódio. Os convidados não ganham nada matando os servos; não há roubo, não há disputa de terra, não há vingança por dano anterior. O que a cena descreve é exatamente o que o conceito grego nomeia: violência cuja finalidade é a afirmação de quem a pratica.
E dá à sequência dos três verbos a sua lógica interna. Agarrar é dominar o corpo; ultrajar é rebaixar a pessoa; matar é suprimi-la. Cada passo torna o seguinte mais fácil, e é por isso que a ordem importa — a humilhação é a dobradiça entre a captura e o assassinato.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Os demais — Terceiro grupo de convidados, depois dos que não quiseram e dos que foram trabalhar. Não são nomeados nem contados.
Os servos — Da segunda remessa, enviados com a mensagem detalhada do versículo 4. Morrem sem que o texto diga quantos eram.
O rei — Ainda ausente da cena. Saberá do ocorrido no versículo 7, e a frase que abre aquele versículo indica que soube por terceiros.
A inviolabilidade do mensageiro — Princípio reconhecido em todo o Oriente antigo e no mundo grego: o enviado representa quem o envia e não pode ser tocado. Violá-lo equivalia a declarar hostilidades.
A hybris — Conceito grego que nomeia a violência cuja finalidade é humilhar, e não obter vantagem. Aristóteles a define na Retórica como ofensa pública, praticada pelo prazer de mostrar superioridade. É a palavra que o versículo usa, e ela não tem equivalente exato em português.
5. Pontos de Ensino
A violência costuma ser desproporcional ao pretexto. Ninguém mata por um convite. Quando a reação é maior que a causa aparente, a causa aparente não era a verdadeira — e isso vale para discussões domésticas tanto quanto para parábolas.
Atacar o mensageiro é recusar o remetente. Os convidados não tinham acesso ao rei; tinham acesso aos servos. A agressão foi dirigida a quem estava ao alcance, não a quem era o alvo. É o padrão de quase toda violência por procuração.
A indiferença e o assassinato cabem no mesmo veredito. No versículo 8 o rei dirá de todos a mesma coisa. Isso não iguala os atos moralmente — iguala o resultado. Para quem preparou a festa, o salão vazio é o mesmo, tenha sido esvaziado por descuido ou por sangue.
Quem fala em nome de outro assume o risco do outro. Os servos não tinham interesse próprio no banquete. Morreram carregando uma mensagem que não era deles. É uma das observações mais duras do versículo, e o texto não a suaviza.
A multidão dispensa quem decida. Não há no versículo nenhum líder, nenhuma deliberação, nenhuma ordem. A violência coletiva funciona assim: ninguém a convoca e todos participam, e depois não há a quem atribuí-la. É o que a lei antiga tentava disciplinar ao exigir testemunhas e acusadores identificados antes de qualquer execução.
Humilhar vem antes de matar. A ordem dos verbos não é acidental. Primeiro se agarra, depois se ultraja, por fim se mata. A humilhação é o passo que transforma a pessoa em coisa, e sem ele o terceiro verbo seria mais difícil. Quem presta atenção no primeiro movimento ainda pode interromper o terceiro.
6. Aspectos Filosóficos
Por que a violência precisa de um alvo que não é o verdadeiro?
O crítico Meir Sternberg, estudando como as narrativas bíblicas distribuem informação, observou que elas raramente explicam a motivação dos personagens, e que esse silêncio não é lacuna — é método. O texto bíblico prefere mostrar o ato e deixar o leitor construir o motivo, porque a construção obriga quem lê a se expor: o motivo que você atribui ao personagem diz algo sobre você.
Aplicado a este versículo, o princípio é desconfortável. O texto não informa por que os convidados mataram. Quem lê precisa inventar uma razão, e as razões disponíveis são todas insuficientes — ninguém mata por um convite. A insuficiência é o resultado pretendido: ela força o reconhecimento de que a violência não precisava de razão proporcional, apenas de ocasião.
Daí decorre o que o versículo ensina sem dizer. A agressão não nasceu do convite; o convite apenas ofereceu um alvo ao alcance. O rei estava longe e era intocável; os servos estavam na porta e eram desarmados. A violência escolheu o possível, não o responsável.
Fica a pergunta que nenhuma leitura resolve. Se os convidados agiram sem motivo proporcional, são mais culpados ou menos? Menos, se a desproporção indica descontrole; mais, se indica que a ofensa ao rei já estava decidida e só esperava um pretexto. A parábola não arbitra, e o rei, no versículo seguinte, agirá como se a segunda hipótese fosse a verdadeira.
7. Aplicações Práticas
Há um lugar da vida comum em que este versículo acerta em cheio: o portador de más notícias.
O funcionário que comunica a decisão que não tomou. O filho que transmite o recado de um pai. Quem avisa, quem cobra, quem informa o prazo — e recebe a raiva destinada a outro.
A parábola mostra o mecanismo inteiro sem comentá-lo: o rei estava fora de alcance, os servos estavam na porta. A violência foi para onde podia ir.
Duas coisas se aproveitam disso, e vão em direções opostas.
Para quem recebe o recado: a pergunta útil é se a irritação é com a mensagem ou com quem a trouxe. Elas quase nunca coincidem, e confundi-las garante que o problema real fique intocado.
Para quem leva o recado: convém saber de antemão que a raiva alheia vai passar por você, e que isso não é sinal de que você errou. Os servos do rei não fizeram nada além de repetir o que lhes foi mandado dizer.
E há o caso inverso, menos falado: quando a raiva é sua e o alvo é quem está perto.
O chefe é intocável, e quem ouve o desaforo é quem trabalha com você. A decisão veio de cima, e quem leva é o atendente do balcão. A injustiça é grande e difusa, e quem paga é o motorista que freou na sua frente.
A parábola não dá sermão sobre isso — apenas mostra o mecanismo funcionando com clareza terrível. O rei estava longe e era intocável. Os servos estavam na porta e eram desarmados. A violência não escolheu o responsável; escolheu o possível.
O exame útil é um só, e cabe numa pergunta: a pessoa em quem estou descarregando isto tem alguma coisa a ver com a causa? Quase sempre a resposta é não, e quase sempre ela só aparece depois.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Por que matar alguém por causa de um convite?
Não se mata por isso, e é esse o ponto. A desproporção indica que o convite não era o problema: ele apenas obrigava a reconhecer uma autoridade que já não se queria reconhecer. Matar o mensageiro foi o modo mais direto de recusar o remetente.
Os três grupos de convidados são leituras de pessoas diferentes?
São três reações ao mesmo chamado: a recusa sem motivo, o descuido ocupado e a violência. O texto não diz que são classes distintas de gente — diz "os demais", isto é, o restante do mesmo conjunto. No versículo 8 o rei os tratará com um veredito só.
Por que o rei não estava lá?
Porque reis não entregam convites. A distância é o que torna os servos necessários e, ao mesmo tempo, vulneráveis: eles carregam a autoridade de quem não está presente para protegê-los. É a condição de todo mensageiro.
Isso é a mesma coisa que a parábola dos lavradores?
A estrutura se repete — servos enviados, agredidos e mortos — e o público é o mesmo que, minutos antes, entendera que a outra parábola falava dele. A diferença está no que os servos vão fazer: na dos lavradores, cobrar o que é devido; aqui, oferecer o que é de graça. Recusar uma cobrança tem lógica; matar quem traz um presente, não.
A punição do versículo seguinte é proporcional?
Pelas convenções da época, a resposta militar ao ultraje de mensageiros era considerada legítima, e recaía sobre a comunidade do ofensor. Isso explica o que o rei fará, sem resolver o problema teológico que surge quando se lê o rei como figura de Deus — questão que pertence ao versículo 7.
Se tudo acontece no mesmo dia, como cabe aí a história dos profetas?
Não cabe, e é esse o limite da leitura alegórica. Dentro do enredo, a carne foi abatida de manhã e os servos saíram há pouco: são horas, não séculos. A saída honesta é distinguir os planos — a parábola tem o seu próprio relógio, e evoca um padrão histórico que não precisa caber dentro dele. Confundir os dois é o que tornou a alegoria, com razão, um método desacreditado.
Os servos do rei eram gente simples?
Provavelmente não. Na administração herodiana e helenística, os escravos de casa real formavam um corpo de funcionários com instrução, encarregados de correspondência e representação. Alguns tinham poder considerável. Matá-los não era agredir anônimos: era eliminar quadros da casa reinante.
Por que o texto não diz quantos servos morreram?
Porque Mateus corta tudo o que não move a história. O efeito, porém, não é neutro: sem número e sem nome, os servos morrem como categoria, e o leitor fica sem rosto para lamentar. É economia narrativa com consequência emocional.
9. Conexão com Outros Textos
Os servos agredidos na parábola anterior, diante do mesmo público
Mateus 21:35 — "Mas os lavradores agarraram os seus servos; a um espancaram, a outro mataram e a outro apedrejaram."
O mesmo verbo de ultraje, anunciado sobre o próprio Jesus
Mateus 20:19 — "e o entregarão aos gentios para ser escarnecido, açoitado e crucificado."
Os mensageiros humilhados e a guerra que se seguiu
2 Samuel 10:4 — "Então Hanum deteve os servos de Davi, rapou-lhes metade da barba, cortou-lhes as vestes pela metade, até as nádegas, e os despediu."
O padrão profético, dito sem parábola
2 Crônicas 36:16 — "Mas eles zombavam dos mensageiros de Deus, desprezavam as suas palavras e escarneciam dos seus profetas, até que o furor do SENHOR subiu contra o seu povo, e não houve mais remédio."
O versículo reúne, na mesma frase, a zombaria, o desprezo e a ira que se segue — a sequência exata dos versículos 5, 6 e 7 desta parábola.
O lamento que fecha o bloco, um capítulo adiante
Mateus 23:37 — "Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados!"
A tentativa de linchamento contra o próprio Jesus
Lucas 4:29 — "Levantaram-se, expulsaram-no da cidade e o levaram até o topo do monte sobre o qual a cidade estava construída, para atirá-lo precipício abaixo."
O mesmo tipo de violência coletiva sem processo, e contra quem trazia uma mensagem.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
e os demais agarraram os servos dele, maltrataram-nos e os mataram.
Texto grego (Textus Receptus)
οἱ δὲ λοιποὶ κρατήσαντες τοὺς δούλους αὐτοῦ ὕβρισαν καὶ ἀπέκτειναν.
Transliteração
hoi de loipoi kratēsantes tous doulous autou hybrisan kai apekteinan.
Análise palavra por palavra
οἱ δὲ λοιποί (hoi de loipoi) — "e os demais", "os restantes". Loipos designa o que sobra de um conjunto já parcialmente descrito. Não é "alguns": é o resto. A palavra fecha a divisão em três que o versículo 5 abriu.
κρατήσαντες (kratēsantes) — particípio aoristo de krateō, "segurar com força", "agarrar". O verbo tem a raiz de kratos, poder, domínio. É o mesmo verbo que Mateus usa para a prisão de Jesus no Getsêmani e para as tentativas de prendê-lo no templo, inclusive no versículo que antecede esta parábola. Aqui descreve captura física, sem autoridade legal por trás.
τοὺς δούλους αὐτοῦ (tous doulous autou) — "os servos dele". O possessivo é o agravante: a ofensa recai sobre o dono. Em direito antigo, dano a escravo alheio era dano ao patrimônio do senhor; tratando-se de rei, era ofensa pública.
ὕβρισαν (hybrisan) — aoristo de hybrizō, da mesma família de hybris. O campo semântico não é o do dano físico, e sim o da afronta: ultrajar, tratar com insolência, humilhar publicamente. Na cultura grega, hybris designa a soberba que ultrapassa a medida devida aos homens e aos deuses, e que atrai punição. A ABC verte "maltrataram", que é correto e perde a carga de humilhação deliberada.
καὶ ἀπέκτειναν (kai apekteinan) — "e os mataram". Aoristo de apokteinō, "matar", "dar morte". É o verbo usado em Mateus para a morte dos profetas e para a morte de Jesus. Os três aoristos em sequência, sem marcador temporal entre eles, comprimem a ação: a gramática não dá ao leitor o intervalo que a cena não teve.
Variantes
O versículo é estável na tradição manuscrita. Parte dos testemunhos inverte a ordem dos dois últimos verbos ou acrescenta objeto explícito a hybrisan, harmonizações menores que não alteram o sentido. O Textus Receptus, seguido pela ABC, traz a forma mais concisa.
11. Conclusão
Três verbos e nenhum motivo.
Agarraram, humilharam, mataram — em aoristo, sem conjunção de tempo entre eles, como quem descreve um linchamento e não uma execução. Não há julgamento, não há acusação, não há autoridade. Há homens desarmados segurados por uma multidão.
E o texto não explica. É um silêncio que obriga: quem lê precisa inventar uma razão, e nenhuma serve. Ninguém mata por um convite de casamento. A desproporção é o argumento — ela mostra que o convite não era o problema, apenas a ocasião.
O que estava ao alcance eram os servos. O rei estava longe e era intocável. A violência foi para onde podia ir, que é o que a violência sempre faz.
No pátio do templo, diante de homens que dias antes tinham entendido perfeitamente uma parábola sobre servos mortos numa vinha, a história não precisava de explicação. O versículo seguinte trará a resposta do rei, e ela será militar.













