e o entregarão aos gentios para que zombem dele, o açoitem e o crucifiquem; mas no terceiro dia ele ressuscitará”.
1. Introdução
Aqui a palavra aparece pela primeira vez: crucificar.
Nos dois anúncios anteriores havia morte sem método — “ser morto”, “eles o matarão”. Este nomeia o instrumento, e nomeia também quem o usa: os gentios, que até agora não estavam em nenhuma das duas listas. O versículo traz uma segunda entrega, três atos em sequência — zombar, açoitar, crucificar — e um fecho em que, no texto grego que a ABC segue, o verbo muda de voz e ele deixa de ser objeto para ser sujeito.
2. Contexto Histórico e Cultural
O açoite romano: o que se sabe e o que não se sabe
O direito romano distinguia as pancadas pela condição de quem as recebia. Ulpiano (jurista romano do século III), num texto conservado no Digesto (“Digesta”, a compilação de direito romano mandada fazer por Justiniano no século VI), registra que o governador de província podia castigar com varas — fustes — ou mandar açoitar escravos com o chicote, flagella (Digesto 48.19.8.3). Vara para homem livre, chicote para escravo: a pena dizia o lugar social da pessoa antes de tocar nela.
Sobre o objeto em si, é preciso desapontar uma expectativa. As descrições populares do açoite romano — tiras de couro com pontas de osso ou de metal, com nome técnico e tudo — não têm base nas fontes antigas. O historiador Andrea Nicolotti reexaminou a documentação num estudo de 2017 e concluiu que quase tudo o que circula sobre a forma e o material do chicote usado naquele período é reconstrução moderna sem apoio em texto ou em achado arqueológico. O que as fontes garantem é o fato e a gravidade, não o desenho da peça.
Também não havia número: o açoite romano não tinha limite legal de golpes, e Josefo (historiador judeu do primeiro século) descreve vítimas “primeiro açoitadas” e depois crucificadas, como etapas de um mesmo procedimento. O que era a crucificação está no estudo de Mateus 16:24 e não se repete aqui.
O contraste com o açoite judaico
A diferença entre as duas instituições é o dado mais revelador deste versículo, e ela é de contabilidade.
Deuteronômio 25:2-3 manda que o culpado seja açoitado diante do juiz, segundo a gravidade da falta, e fixa um teto: quarenta golpes, não mais. A Mishná (a coleção de leis judaicas organizada por volta do ano 200) leva o teto a sério no tratado Makkot: os golpes são “quarenta menos um”, trinta e nove, divididos em três partes e aplicados com uma correia de couro de bezerro dobrada; antes da pena, médicos avaliam quanto o condenado suporta, e o número é reduzido se ele não puder receber todos; se o homem morre sob os golpes contados, o executor não responde, mas se acrescentou um golpe além da conta e o homem morreu, responde como homicida (Mishná Makkot 3:10-14).
Esse texto é posterior aos fatos e descreve um procedimento ideal, e é discutível quanto dele funcionava assim no primeiro século. Mas o desenho é inequívoco: teto, contagem, médico, responsabilidade pelo excesso. O açoite que este versículo anuncia não tem nenhuma dessas coisas — porque não é judaico. A passagem de uma jurisdição para a outra, que a frase descreve com o verbo “entregarão”, é também a passagem de um castigo com limite para um castigo sem limite.
Zombar de um condenado era prática, não improviso
A zombaria que Mateus 27:28-29 vai narrar — manto escarlate, coroa trançada, uma vara na mão como cetro, ajoelhamentos e a saudação “Salve, rei dos judeus” — tem paralelos documentados, e eles ajudam a entender por que o anúncio a lista como item separado.
Fílon de Alexandria (filósofo judeu do primeiro século) conta, em In Flaccum (“Contra Flaco”, escrito por volta do ano 40), o que uns rapazes fizeram em Alexandria com um louco chamado Carabas: levaram-no ao ginásio, puseram-lhe na cabeça uma folha de papiro como diadema, enrolaram-no num capacho no lugar do manto, deram-lhe um pedaço de papiro por cetro e se dispuseram em volta como guarda de rei, enquanto a multidão o saudava com o que diziam ser a palavra síria para “rei” — porque o alvo real da encenação era Agripa. Fílon registra que o governador Flaco não puniu ninguém (In Flaccum 36-40).
Dio Crisóstomo (orador grego do fim do primeiro século) descreve, no seu quarto discurso sobre a realeza, um costume persa a que chamava de festa dos Sáceas: tomava-se um preso já condenado à morte, punha-se no trono do rei, davam-lhe roupas reais e permissão de dar ordens e de banquetear-se por aqueles dias; depois o despiam, açoitavam e penduravam (Discurso 4.66-70).
As duas passagens exigem cautela: nenhuma é fonte da cena de Mateus, e a segunda descreve prática estrangeira relatada de segunda mão. O que elas mostram, e basta, é que coroar um homem para depois matá-lo era gesto reconhecível naquele mundo, com gramática própria — primeiro se dá a dignidade, depois se retira, e a retirada é a pena.
A cruz não era novidade em Jerusalém
Um detalhe que a pregação costuma deixar de fora: quem ouvia a palavra “crucificar” naquela estrada não a associava apenas a Roma.
Josefo relata que Alexandre Janeu, rei judeu da dinastia asmoneia, mandou crucificar oitocentos adversários internos, partidários dos fariseus que se tinham juntado ao exército de um inimigo seu (Antiguidades 13.380). Um comentário achado em Qumran, o Pesher de Naum, alude ao episódio: fala do “Leão da Ira” que “pendura homens vivos”, e o “vivos” parece marcar a diferença entre aquilo e a suspensão prevista na Lei. A interpretação desses textos é debatida em cada detalhe, mas o que eles documentam com segurança é que a palavra tinha lastro local — o versículo 19 não introduz um horror estrangeiro numa plateia inocente.
3. Análise Teológica do Versículo
“e o entregarão aos gentios”
O verbo é o mesmo do versículo anterior, e trocou de voz. Lá ele era passivo e sem agente — será entregue; aqui é ativo, e o sujeito são os que acabaram de condenar. A entrega virou uma cadeia de duas estações: alguém o põe nas mãos dos chefes dos sacerdotes, e estes o põem nas mãos dos gentios. O campo da palavra está no estudo de Mateus 17:22; o que é novo é a repetição com destinatários diferentes dentro de duas linhas.
E os gentios entram na série pela primeira vez. Mateus 16:21 nomeava três grupos judeus; Mateus 17:22 dizia “nas mãos dos homens”, sem recorte; aqui há um segundo destinatário, definido por não pertencer ao povo.
Duas leituras da segunda entrega são defensáveis, e não se excluem. Primeira leitura: é descrição de trâmite — um conselho que condena e não executa precisa passar o caso a quem executa. Segunda leitura: é uma linha que o evangelho está marcando, porque o mesmo Mateus registra em 10:5 a instrução de não tomar o caminho dos gentios e termina, em Mateus 28:19, com a ordem de fazer discípulos de todas as nações. O ponto em que ele passa de um lado ao outro é este: um homem entregue para fora.
Há um dado que sustenta a segunda leitura sem forçá-la. O verbo e o destinatário deste versículo reaparecem, juntos, em promessas feitas aos discípulos: em Mateus 10:18, eles serão levados diante de governadores e reis “a eles e aos gentios”; em Mateus 24:9, serão entregues para serem torturados e mortos. O itinerário que ele descreve para si é o mesmo que descreve para eles.
A palavra volta seis versículos depois, com outra função — “os governantes dos gentios os dominam” —, e essa ligação é tratada no estudo de Mateus 20:25.
“para que zombem dele, o açoitem e o crucifiquem”
São três atos, e só o terceiro mata.
Essa é a observação decisiva da frase. A zombaria não fere o corpo; o açoite fere e não mata; a cruz mata. Se o objetivo fosse a morte, os dois primeiros seriam supérfluos — e estão ali, no anúncio, com o mesmo peso gramatical do terceiro. O versículo não explica por que estão; ele apenas os lista, e a lista sobe do que atinge a posição da pessoa para o que atinge a carne e daí para o que encerra a vida.
A comparação com os outros dois evangelhos mostra o que é escolha de Mateus. Marcos 10:34 tem quatro verbos: zombarão, açoitarão, cuspirão e matarão. Lucas 18:32-33 tem cinco: zombarão, insultarão, cuspirão, açoitarão e matarão. Mateus tem três, e a diferença é dupla: ele tira o escarro e põe a cruz. O escarro não desapareceu do seu evangelho — ele o narra duas vezes, em Mateus 26:67 e em Mateus 27:30. Só não o anuncia.
A ordem anunciada também não é a ordem narrada. Aqui se zomba, depois se açoita, depois se crucifica; em Mateus 27:26-31 Pilatos manda açoitar primeiro, os soldados zombam depois e a crucificação vem por último. Duas leituras: a lista do anúncio é um elenco do que será feito, não um roteiro cronológico; ou Mateus escreve a narrativa com o material que tem e não a ajusta ao anúncio. O texto não permite decidir, e a segunda possibilidade não deve ser escondida.
“o crucifiquem”
Esta é a estreia do verbo. Em todo o evangelho de Mateus, a palavra “crucificar” aparece aqui pela primeira vez — e, a partir daqui, aparece mais de uma dezena de vezes, até a boca do anjo no sepulcro vazio, em Mateus 28:5, falando de “Jesus, que foi crucificado”.
O substantivo veio antes do verbo, e veio como exigência. Em Mateus 10:38 e em Mateus 16:24, Jesus fala da cruz que o discípulo deve tomar; em nenhum dos dois lugares diz que ele próprio será crucificado. Quer dizer: no evangelho de Mateus, a palavra entra como condição do seguimento e só depois vira previsão sobre quem a pediu.
Nos dois anúncios anteriores havia morte sem método: o primeiro dizia “ser morto”, o segundo “eles o matarão”. Nem Marcos nem Lucas dizem como, neste ponto: os dois escrevem “o matarão”. Mateus é o único dos três que, no terceiro anúncio, nomeia o instrumento.
O que a palavra acrescenta não é gravidade — morrer já era o pior. É estatuto. Na hierarquia romana das execuções, a cruz classificava o condenado, no próprio ato, como gente sem posição. Anunciar a cruz, e não só a morte, é anunciar o lugar social em que ele será posto ao morrer.
“mas no terceiro dia ele ressuscitará”
A conjunção corta a frase em duas, e o que vem depois dela inverte a gramática de tudo o que veio antes.
Desde o meio do versículo 18, ele é objeto: será entregue, será condenado, será entregue outra vez, dele zombarão, o açoitarão, o crucificarão. Seis verbos, e em nenhum ele age. No último, age — e aqui é preciso ser exato sobre o texto, porque o achado depende dele. O Textus Receptus (a edição grega impressa no século XVI que a ABC segue) e o texto bizantino trazem, no fim deste versículo, um verbo de voz média: ele se levantará. Os dois anúncios anteriores, nas mesmas edições, traziam voz passiva. Westcott-Hort e Nestle trazem a passiva também aqui, e nelas a inversão não existe.
Na ABC, portanto, o terceiro anúncio é o único dos três em que o verbo final tem Jesus por sujeito. A análise das formas está no item 10; a consequência para a leitura é que a frase que mais o reduz a objeto termina devolvendo-lhe o papel de sujeito, e a devolução acontece no ponto em que a morte já aconteceu. A contagem judaica do “terceiro dia” está explicada no estudo de Mateus 16:21.
Falta registrar um limite. A pregação costuma tratar esse fecho como amortecedor que torna o resto suportável, e o texto não faz isso: ele não diz que a zombaria, o açoite e a cruz ficam menores por causa do terceiro dia. Diz que virão, e que depois haverá outra coisa. A conjunção é adversativa, não consoladora — e nas três vezes em que essa segunda metade foi dita, nenhum dos ouvintes reagiu a ela.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Os gentios
A palavra grega traduzida por “gentios” é a mesma que, em outros contextos, significa “as nações” e “os povos”. Não designa uma etnia: designa quem está fora de Israel. Na cena concreta que Mateus vai narrar, esses gentios têm rostos e funções — o governador romano, que em Mateus 27:2 recebe o preso; e os soldados da tropa dele, que em Mateus 27:27 o levam ao pretório e fazem a encenação da coroação.
Quem açoita e quem crucifica
O versículo atribui os três atos ao mesmo sujeito, os gentios. A narrativa de Mateus repartirá: quem manda açoitar é Pilatos, em Mateus 27:26; quem zomba são os soldados, em Mateus 27:27-31; e quem crucifica são eles também, em Mateus 27:35. Ao pé da cruz, porém, a zombaria volta e os que zombam são outros — os que passam, os chefes dos sacerdotes com os escribas e os anciãos, e até os dois ladrões, em Mateus 27:39-44.
Alexandre Janeu
Rei e sumo sacerdote judeu, da dinastia asmoneia, reinou de 103 a 76 a.C. Aparece neste estudo por um motivo só: foi ele quem, segundo Josefo, usou a crucificação contra oitocentos adversários internos, cerca de um século antes desta cena. É o dado que impede tratar a palavra como importação recente.
O terceiro dia
É o único elemento deste versículo que já estava nos dois anúncios anteriores, com a mesma fórmula. Tudo o mais aqui é acréscimo.
5. Pontos de Ensino
A cruz é dita ao discípulo antes de ser dita ao mestre
Em Mateus a palavra aparece primeiro como exigência — tome a sua cruz — e só aqui como previsão sobre ele. A ordem inverte o hábito devocional de ler a cruz do discípulo como imitação da dele. No evangelho, o leitor ouve primeiro o pedido e só depois descobre o que estava sendo pedido.
O que se anuncia ao mestre é o que se prometeu aos enviados
Açoite, entrega a governantes e cruz não aparecem em Mateus só aqui: aparecem também no que ele diz que farão aos que ele manda. O destino anunciado neste versículo não é excepcional dentro do evangelho — é o mesmo que já estava na descrição do ofício de quem o segue.
Um anúncio que dá o método é diferente de um que dá o resultado
Dizer “vou morrer” e dizer “vou ser crucificado” são atos de fala diferentes. O segundo entrega ao ouvinte a imagem completa e não lhe permite manter a notícia no abstrato. É o que o terceiro anúncio faz, e é por isso que ele é o último: depois dele não sobra nada de importante para acrescentar.
6. Aspectos Filosóficos
O versículo anuncia três coisas e só uma delas mata. Por que as outras duas estão no anúncio? Se o objetivo é a morte, zombar e açoitar não acrescentam nada ao resultado; e, ainda assim, a frase as lista com o mesmo peso da cruz. O problema filosófico é o da violência que não serve para o seu próprio fim — a parte da crueldade que não é instrumento de nada.
Jean Améry (1912-1978) escreveu o texto mais exigente que existe sobre essa parte. Nascido em Viena como Hans Mayer, classificado como judeu pelas leis raciais, entrou na resistência belga, foi preso pela Gestapo em 1943 e torturado no forte de Breendonk antes de ser deportado para Auschwitz. Vinte anos depois publicou Jenseits von Schuld und Sühne (“Além do crime e do castigo”, 1966), cujo capítulo central se chama “A tortura”.
Três teses dele servem a este versículo.
A primeira é a do primeiro golpe. Améry sustenta que o dano decisivo não é a dor, e sim o que o primeiro golpe informa: que ninguém vem. Ele chamou de confiança no mundo a certeza tácita de que o outro respeitará o meu corpo e de que, se eu for atacado, haverá socorro. Essa confiança não é uma crença que se examina; é o chão de onde a pessoa vive. O primeiro golpe a retira, e com ela retira mais do que retiraria a dor.
A segunda é a redução ao corpo. Sob tortura, escreve Améry, a pessoa é só carne e nada mais. Tudo o que ela é — nome, ofício, história, planos — deixa de operar, e o que resta é um corpo nas mãos de outro. É exatamente isso que a sequência do versículo faz, e faz por etapas: a zombaria trata a posição da pessoa como brinquedo, o açoite trata o corpo dela como matéria, a cruz a expõe nua à beira da estrada.
A terceira é a mais incômoda, e explica por que zombar e açoitar não são excesso. Améry recusa a ideia de que a tortura fosse abuso de gente descontrolada dentro de um sistema com outros objetivos: para ele, era a essência daquele regime, não o seu desvio. Transposto para este versículo: a zombaria e o açoite não são o transbordamento de uma violência que tinha a morte por alvo. Eles são o alvo, tanto quanto a morte — porque o que se quer não é apenas que ele morra, é que ele seja reduzido antes de morrer.
O limite, e ele é grande
Aqui a comparação precisa parar, e é preciso dizer por quê.
Améry escreveu sobre Breendonk e sobre Auschwitz, e tratar a paixão de Jesus como caso da mesma série seria desonesto com os dois lados: são fatos de escala, de época e de natureza distintas, e ele não estava escrevendo teologia. Mais grave: Améry construiu a sua obra recusando explicitamente qualquer consolo, qualquer resgate de sentido e qualquer reconciliação — ele defendia o ressentimento como posição moral legítima da vítima contra o esquecimento, e tirou a própria vida em 1978. Um pensador assim não subscreveria a segunda metade deste versículo. Usá-lo para iluminar a primeira metade e depois fingir que ele assinaria a segunda seria usá-lo mal.
O que a leitura dele fornece é isto, e já é muito: um argumento sério para não tratar “zombem dele, o açoitem” como enfeite retórico do anúncio da morte. Se Améry estiver certo, esses dois verbos não são a moldura do terceiro. São o conteúdo.
7. Aplicações Práticas
Humilhar não é um grau leve de violência
A leitura corrente hierarquiza: matar é grave, bater é menos, rir do outro é pouco. O versículo põe os três na mesma frase e na mesma construção. Isso tem aplicação direta em ambientes onde a agressão física é impensável e a humilhação é rotina — trabalho, escola, família, redes. Chamar a zombaria de coisa pequena é uma decisão sobre o que se vai tolerar, e o versículo não a autoriza.
A repartição de tarefas não divide a responsabilidade
Ninguém, na cena que o versículo anuncia, faz tudo. Uns condenam, outros recebem, outros açoitam, outros pregam. Cada um pode dizer que a sua parte era pequena, e nenhum estaria mentindo sobre o próprio gesto. É o modo mais comum de um dano grande ser produzido por pessoas que não se consideram responsáveis por ele — e é útil reconhecer o formato antes de estar dentro dele.
Não usar o fim bom para apressar o luto de alguém
O versículo termina em ressurreição, e essa é a parte que a pregação apressa. Dizer a quem está no meio do sofrimento que no terceiro dia tudo se resolve é usar o fecho do versículo contra o corpo dele. O próprio texto não faz isso: ele diz os três verbos por inteiro antes de dizer o quarto, e nenhum dos que ouviram reagiu ao quarto.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Os soldados que zombaram estavam cumprindo ordem ou improvisando?
O evangelho não diz, e a resposta honesta é que não se sabe. Mateus 27:27-31 apresenta a cena como iniciativa da tropa, depois do açoite mandado por Pilatos. Os paralelos antigos — a encenação de Alexandria e o costume persa descritos no item 2 — mostram que coroar um condenado antes de matá-lo era um gesto com forma conhecida, o que torna plausível que não fosse invenção daqueles homens naquele dia. Plausível não é demonstrado: nenhuma fonte registra a zombaria como etapa prevista do procedimento romano de execução.
Se o conselho condenou, por que a execução é dos gentios?
Porque condenar e executar eram competências separadas na província, e o versículo anterior atribui a primeira a um grupo e este atribui a segunda a outro. A precisão dessa repartição é o que distingue o terceiro anúncio dos dois primeiros, em que o ato de matar não tinha sujeito definido.
Os discípulos entenderam a palavra “crucificar”?
Como palavra, certamente: era um método de execução que aquela geração tinha visto funcionar. O que o evangelho mostra é outra coisa — que entender o significado de um termo e admitir que ele se aplica a alguém são operações diferentes. Um versículo depois, a mãe de dois deles pede tronos.
9. Conexão com Outros Textos
O anúncio anterior, no ponto correspondente
Mateus 17:23 — “Eles o matarão, e no terceiro dia ele será ressuscitado.” E os discípulos ficaram muito tristes.
Morte sem método, sem gentios, e o verbo final na voz passiva. O mesmo vale para o primeiro anúncio, em Mateus 16:21.
E o quarto anúncio, que vem depois
Mateus 26:2 — “Vocês sabem que daqui a dois dias é a Páscoa, e o Filho do homem será entregue para ser crucificado”.
A última vez que ele anuncia a própria morte em Mateus, e a única em que “entregue” e “crucificado” ficam na mesma oração, sem nada entre os dois. Do que este versículo trouxe de novo, é isso que sobra no anúncio final: a entrega e a cruz, colados.
Os paralelos, que não têm a cruz
Marcos 10:34 — “E zombarão dele, e o açoitarão, e cuspirão nele, e o matarão; e, no terceiro dia, ressuscitará.”
Lucas 18:32-33 — “Porque será entregue aos gentios, e escarnecido, e insultado, e cuspido; e, depois de o açoitarem, o matarão; e, ao terceiro dia, ressuscitará.”
Os dois têm o escarro, que Mateus não anuncia; nenhum dos dois tem a palavra “crucificar”. Lucas tem a entrega aos gentios; Marcos, não.
O escarro que Mateus narra e não anuncia
Mateus 26:67 — “Então cuspiram-lhe no rosto e lhe deram socos. Outros lhe davam bofetadas”
Duas vezes na narrativa, com Mateus 27:30; nenhuma no anúncio.
O cumprimento dos três verbos
Mateus 27:26 — “Então soltou-lhes Barrabás; e, tendo mandado açoitar Jesus, entregou-o para ser crucificado.”
Mateus 27:29 — “Teceram uma coroa de espinhos e a colocaram sobre a sua cabeça, e puseram-lhe uma vara na mão direita. Ajoelhando-se diante dele, zombavam: ‘Salve, rei dos judeus!’”
Mateus 27:31 — “Depois de tanto zombarem, tiraram-lhe o manto, vestiram-lhe as próprias roupas e o levaram para crucificar.”
Os três atos, na ordem em que Mateus os narra: açoite, zombaria, cruz.
O mesmo itinerário prometido aos discípulos
Mateus 10:18 — “E, por minha causa, vocês serão levados diante de governadores e reis, para lhes servir de testemunho, a eles e aos gentios.”
Mateus 23:34 — “Por isso, eu envio a vocês profetas, sábios e escribas. A uns vocês matarão e crucificarão; a outros açoitarão nas suas sinagogas e perseguirão de cidade em cidade.”
Crucificar, açoitar e ser levado a governantes aparecem também como o que será feito aos enviados.
A cruz pedida antes de ser anunciada
Mateus 16:24 — “Então Jesus disse aos seus discípulos: ‘Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me.’”
Com Mateus 10:38, são as duas vezes em que a cruz aparece antes deste versículo — e nas duas ela é do discípulo.
O texto que fazia do pendurado um maldito
Deuteronômio 21:22-23 — “Se um homem cometer um crime digno de morte e for morto, e você o pendurar num madeiro, o corpo dele não ficará no madeiro durante a noite; você o sepultará no mesmo dia, porque é maldito de Deus aquele que é pendurado; e não contaminará a terra que o SENHOR seu Deus lhe dá por herança.”
Gálatas 3:13 — “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: maldito todo aquele que for pendurado num madeiro.”
A lei e a leitura que Paulo faz dela. É o pano de fundo judaico da palavra que este versículo estreia, e é ele que explica por que a cruz era, para aquele público, um problema religioso além de um horror político.
O servo escarnecido e açoitado
Isaías 50:6 — “Entreguei as minhas costas aos que me batiam e as minhas faces aos que me arrancavam a barba; não escondi o meu rosto dos que me cobriam de escarros.”
Salmo 22:7 — “Todos os que me veem zombam de mim; torcem os lábios e movem a cabeça.”
Os dois textos do Antigo Testamento em que golpes, escarro e zombaria aparecem juntos. Mateus não os cita neste versículo; a ligação foi feita pela igreja desde os primeiros séculos, e é leitura — não citação.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
e o entregarão aos gentios para que zombem dele, o açoitem e o crucifiquem; mas no terceiro dia ele ressuscitará”.
Texto grego
καὶ παραδώσουσιν αὐτὸν τοῖς ἔθνεσιν εἰς τὸ ἐμπαῖξαι καὶ μαστιγῶσαι καὶ σταυρῶσαι· καὶ τῇ τρίτῃ ἡμέρᾳ ἀναστήσεται.
Transliteração
kai paradōsousin auton tois ethnesin eis to empaixai kai mastigōsai kai staurōsai; kai tē tritē hēmera anastēsetai.
A variante do verbo final, e o que ela faz
Esta é a diferença textual importante do versículo. O Textus Receptus (a edição grega impressa no século XVI que a ABC segue), o texto bizantino e a edição da Igreja Ortodoxa Grega trazem anastēsetai, futuro médio de anistēmi: “ele se levantará”. Westcott-Hort, Nestle 1904 e Tischendorf trazem egerthēsetai, futuro passivo de egeirō: “ele será levantado”.
A escolha tem duas consequências. A primeira é de voz: numa leitura ele é o sujeito que se levanta, na outra é o objeto de uma ação de que não se nomeia o agente — e o resto do Novo Testamento afirma as duas coisas, ora dizendo que Deus o ressuscitou, ora que ele ressuscitou. A segunda é interna a esta série de três anúncios: Mateus 16:21 traz egerthēnai e Mateus 17:23 traz egerthēsetai, as duas formas passivas. Quem segue o Textus Receptus tem, portanto, dois anúncios no passivo e o terceiro no médio; quem segue as edições críticas tem os três no passivo. A inversão de voz no fim da série existe num texto e não existe no outro.
Um eco que só o Textus Receptus conserva
Os três versículos deste bloco trazem três verbos compostos com a mesma preposição, ana, “para cima”: anabainōn no versículo 17 (“subindo”), anabainomen no versículo 18 (“subimos”) e anastēsetai aqui (“se levantará”). Subir, subir, levantar-se. Com a forma passiva das edições críticas, egerthēsetai, o terceiro membro desaparece e a série fica com dois. É um eco possível no texto que a ABC adotou, e não é demonstrável que tenha sido construído.
Análise palavra por palavra
καὶ παραδώσουσιν — kai paradōsousin, “e entregarão”. Futuro ativo, terceira pessoa do plural, de paradidōmi. O verbo, o seu campo de sentido e a discussão sobre quem entrega estão no estudo de Mateus 17:22, item 10. Duas notas próprias deste versículo: a forma é ativa, e não passiva como no versículo 18; e o sujeito não é expresso por pronome — está na terminação e só pode ser recuperado do versículo anterior, onde são os chefes dos sacerdotes e os escribas.
αὐτὸν τοῖς ἔθνεσιν — auton tois ethnesin, “ele, aos gentios”. Ethnos é povo, nação, gente reunida; no plural, no grego dos judeus, passou a designar os povos que não são Israel, e é daí que vem a tradução “gentios” (do latim gentes, “as nações”). Da mesma palavra vem “étnico”. Mateus a usa em torno de quinze vezes, e o mesmo capítulo 20 a repete no versículo 25.
εἰς τὸ ἐμπαῖξαι — eis to empaixai, “para zombarem”. A construção é a de finalidade: a preposição eis mais o artigo neutro mais o infinitivo, que em grego indica o propósito ou o resultado de uma ação. Ela cobre os três infinitivos seguintes, que por isso dependem todos da mesma entrega.
Empaizō é composto de en (“em”) e paizō (“brincar”), e paizō vem de pais, “criança” — literalmente, “brincar com alguém”. Da mesma raiz vêm “pedagogia” e “pediatria”. A palavra não descreve insulto verbal apenas: descreve fazer do outro um brinquedo. É o mesmo verbo que Mateus 27:29 e 27:31 usarão para a cena do manto e da coroa, e é o que aparece em Mateus 2:16 para o que Herodes sentiu ter sofrido dos magos.
καὶ μαστιγῶσαι — kai mastigōsai, “e açoitarem”. Aoristo infinitivo ativo de mastigoō, derivado de mastix, o chicote. A palavra é rara em Mateus: aparece aqui, em Mateus 10:17 e em Mateus 23:34, e nesses dois outros lugares o açoitado é o discípulo, nas sinagogas.
καὶ σταυρῶσαι — kai staurōsai, “e crucificarem”. Aoristo infinitivo ativo de stauroō, derivado de stauros, que em grego clássico é a estaca fincada, o poste. É a primeira ocorrência deste verbo em Mateus, e o evangelho o usará depois cerca de dez vezes, a última em Mateus 28:5, no particípio perfeito passivo — “Jesus, que foi crucificado”, com a forma que marca um estado que permanece.
καὶ τῇ τρίτῃ ἡμέρᾳ — kai tē tritē hēmera, “e no terceiro dia”. Construção no caso que indica o momento, e não a duração: “no terceiro dia”, não “durante três dias”. A fórmula é idêntica nos três anúncios, e o modo judaico de contar os dias está no estudo de Mateus 16:21.
ἀναστήσεται — anastēsetai, “se levantará”. Futuro médio de anistēmi, composto de ana (“para cima”) e histēmi (“pôr de pé”). A voz média, em grego, põe o sujeito ao mesmo tempo como quem age e como quem é afetado pela ação — nem exatamente ativa, nem exatamente passiva. Dela vem o substantivo anastasis, “ressurreição”, literalmente “o levantar-se”, que Mateus usa quatro vezes no capítulo 22, na discussão com os saduceus. O mesmo verbo serve em Mateus a contextos comuns, sem relação com a morte: em Mateus 9:9 o próprio Mateus “se levantou” e o seguiu. É a palavra de quem fica de pé.
11. Conclusão
Cinco conclusões se tiram deste versículo.
A primeira é que ele completa a série. A informação que faltava aos dois anúncios anteriores era o método e o executor, e é isso que entra aqui: a cruz e os que estão fora do povo. Os três anúncios de Mateus, lidos juntos, não repetem a mesma notícia com mais ênfase — acrescentam peças, e esta é a última.
A segunda é que Mateus é o único dos três evangelhos que nomeia a crucificação neste ponto. Marcos e Lucas escrevem “o matarão”. A palavra que a tradição cristã associa ao anúncio da paixão está, no terceiro anúncio, em um só dos textos.
A terceira é sobre o que a lista de três verbos faz. Só o último mata. Zombar e açoitar não contribuem para a morte, e estão no anúncio com o mesmo peso dela. Isso desautoriza tratar a degradação como acessório do que aconteceu: ela foi anunciada como parte do que ia acontecer.
A quarta é que o dano foi produzido por repartição. Um grupo condena, outro recebe, outro executa, e nenhum faz tudo — o que não reduz em nada o que foi feito.
A quinta depende da edição grega, e é preciso dizê-lo. No texto que a ABC segue, a frase que mais reduz Jesus a objeto — seis verbos em que ele nada faz — termina num verbo em que ele é sujeito. Nas edições críticas essa inversão não existe. É achado de um texto, não de todos, e vale o que vale a decisão de seguir esse texto.













