Aproximando-se a época da colheita, enviou seus servos aos lavradores para receberem os seus frutos.
1. Introdução
A vinha está plantada, cercada e arrendada, e o dono está longe. Neste versículo ele faz o primeiro contato com os lavradores: chega a época da colheita, e ele manda buscar o que é seu. Três perguntas nascem daqui: quanto tempo se passou desde o plantio, o que exatamente o dono está pedindo — tudo ou uma parte — e quem são os servos que ele envia. Ainda não há violência nenhuma; é a cobrança comum de um contrato, e é justamente por ser comum que o que vem depois choca.
2. Contexto Histórico e Cultural
Quanto tempo uma vinha nova leva para pagar
O dono do versículo 33 não arrendou uma vinha pronta: ele a plantou. E vinha recém-plantada não dá colheita no ano seguinte. A videira leva alguns anos até produzir uvas em quantidade, e a Lei de Israel acrescentava a esse prazo natural um prazo religioso. Levítico 19:23-25 manda que, durante três anos, o fruto de uma árvore nova seja tratado como proibido; no quarto ano, todo o fruto é consagrado a Deus; só no quinto ano o dono pode comer e vender o que colhe.
Somadas as duas coisas, a primeira colheita que podia virar renda vinha, na melhor das hipóteses, quatro ou cinco anos depois do plantio. O Expositor's Greek Testament (comentário inglês ao texto grego, publicado entre 1897 e 1910) entende “a época” justamente assim: o momento em que se podia esperar que as videiras novas dessem fruto. Lucas 20:9 diz a mesma coisa com outras palavras — o dono viajou “por muito tempo”. A primeira cobrança, portanto, não é pressa. É a primeira oportunidade.
No calendário da terra, a vindima caía no fim do verão, entre agosto e setembro, e terminava antes da festa das Tendas. As uvas eram cortadas, levadas ao lagar que o próprio dono tinha cavado e pisadas ali. Era a semana em que o valor do ano inteiro aparecia de uma vez, num lugar só.
Três jeitos de pagar pela terra
A Mishná (a primeira compilação da lei oral judaica, redigida por volta do ano 200 depois de Cristo) conhece mais de um tipo de arrendatário, e a diferença entre eles explica o que estava em jogo numa cena como esta. No tratado Demai 6:1-2 aparecem dois. O primeiro é “aquele que recebe” o campo: ele trabalha e entrega ao dono uma fração da produção — metade, um terço, um quarto, conforme o acordo. O segundo é o chokher (o arrendatário de quantidade fixa): compromete-se com tantas medidas por ano, colha muito ou pouco. E a regra do primeiro caso diz que a divisão se faz “diante” do dono. A partilha não era feita longe dele.
Uma regra do tratado Bava Metzia mostra até onde ia o vínculo entre o pagamento e o campo: quem se comprometeu com dez medidas de trigo paga com o trigo daquele campo, não com o comprado no mercado (Bava Metzia 9:7). A terra arrendada continuava sendo do dono, e o fruto dela também, em parte ou em quantidade combinada.
Há um limite de data. A Mishná é cerca de dois séculos posterior à parábola. Usá-la aqui supõe que as formas de arrendamento não mudaram muito nesse intervalo — o que é provável numa economia agrícola, mas não é prova.
Os servos no meio da colheita
Uma carta latina mostra por que o dono não podia simplesmente esperar que o pagamento chegasse. Plínio, o Jovem (senador romano, escritor de cartas, morto por volta de 113 depois de Cristo), conta a um amigo, na carta 9.37, o problema que tinha com os arrendatários das suas terras. As dívidas de aluguel tinham crescido nos últimos cinco anos, apesar de grandes descontos; os arrendatários já não tentavam pagar, porque não acreditavam mais que conseguiriam, e “agarram e consomem o que nasce”.
O remédio que Plínio propõe é exatamente o arranjo que a parábola pressupõe: arrendar “não por dinheiro, mas por partes” e pôr alguns dos seus próprios homens como fiscais do trabalho e “guardas dos frutos”. Em contrato de partilha, quem não está presente na colheita não sabe o que colheu, e quem decide o tamanho da parte é quem segura a uva. Os servos que o dono envia no tempo da colheita não são portadores de cortesia. São os olhos dele sobre a divisão.
Plínio escreve da Itália, para propriedades de senador, e meio século depois da parábola. Serve como o que é: o testemunho de um proprietário sobre os dois riscos de quem arrenda à distância — o arrendatário que para de pagar e o que se apropria da safra. O retrato do proprietário ausente e os papiros que o documentam no Oriente estão no estudo de Mateus 21:33.
3. Análise Teológica do Versículo
“Aproximando-se a época da colheita”
Mateus abre o versículo com um verbo de aproximação, o mesmo que ele usou para Jesus chegando perto de Jerusalém no primeiro versículo deste capítulo, e o mesmo que resume toda a pregação do evangelho: “o Reino dos céus está próximo” (Mateus 3:2 e 4:17). Num relato comum de arrendamento, o verbo seria só cronológico. Num evangelho que usa a mesma palavra para o Reino e, adiante, para a hora da paixão (Mateus 26:45), quem ouve a parábola ouve também um aviso: o tempo de prestar contas chegou perto.
A palavra para “época” não é a do tempo que corre, e sim a do momento próprio de alguma coisa. Não se trata de “um dia qualquer depois de alguns anos”. É o dia em que a uva está madura e em que o pagamento passa a ser devido. Antes dele, o dono não tinha o que pedir. Depois dele, o lavrador que não paga está em falta.
Bengel (Johann Albrecht Bengel, comentarista luterano alemão do século XVIII, autor do Gnomon, “indicador”, um comentário breve ao Novo Testamento grego) tirou daqui uma consequência que vai além do texto: o dono espera o tempo do fruto, e isso explicaria por que o Messias não veio antes. É leitura teológica de quem já identificou o dono com Deus e a história de Israel com o tempo do arrendamento. O versículo não diz isso; ele diz apenas que o dono não cobrou fora de hora.
“enviou seus servos aos lavradores”
Em Marcos 12:2 e em Lucas 20:10, o dono manda um servo. Em Mateus, manda um grupo, já na primeira vez. A mudança é pequena e tem efeito: Mateus monta a parábola em blocos — um grupo, depois outro grupo maior, depois o filho — em vez da fila de mensageiros individuais de Marcos. O desenho dos envios fica mais simples e mais pesado.
Quem são esses servos? O texto não os identifica, e as leituras se dividem.
Primeira leitura: são os profetas. É a interpretação dominante desde os primeiros comentadores e a de Barnes, Gill e Ellicott, no século XIX. Ela tem apoio forte nas Escrituras de Israel, onde “meus servos, os profetas” é fórmula fixa (Jeremias 7:25; Amós 3:7; 2 Reis 17:13). Para um ouvinte judeu, um proprietário que manda “os seus servos” cobrar o fruto de uma vinha que, desde Isaías, representa Israel, dificilmente evocaria outra coisa.
Segunda leitura: são figuras diferentes dos trabalhadores comuns. Bengel separa os “servos”, que representariam enviados extraordinários de Deus, dos “trabalhadores”, os ministros ordinários; os primeiros, observa ele, costumam encontrar resistência de quem já ocupa a vinha. A distinção é dele, não do versículo — mas aponta para algo real: os servos não trabalham na vinha, vêm de fora dela.
Terceira leitura: dentro da história, são apenas o que eram na vida rural — os homens do dono, mandados para fiscalizar a partilha, como os “guardas dos frutos” que Plínio, o Jovem, punha nas suas terras. Nessa leitura, a parábola funciona primeiro como relato verossímil, e só depois como imagem.
As três não se excluem. Mas é preciso marcar o grau de certeza: a identificação dos servos com os profetas é provável e antiga; não está escrita no versículo.
Há ainda um detalhe que se perde em português. O dono manda “os seus servos” buscar “os seus frutos” — o mesmo possessivo duas vezes. Quem recebe os servos está recebendo o dono; quem os maltrata, maltrata o dono. Mateus já disse isso em outro lugar, sem parábola: “Quem recebe vocês, recebe a mim” (Mateus 10:40).
“para receberem os seus frutos”
Aqui está a maior diferença entre Mateus e os outros dois evangelhos neste versículo. Marcos e Lucas dizem que o servo foi buscar uma parte: “do fruto da vinha”, com a preposição que indica fração. É o arrendamento por partilha, descrito no item 2. Mateus não traz a preposição. O grego dele diz, literalmente, “receber os frutos dele”.
“Os frutos dele” pode significar duas coisas. Se “dele” se refere à vinha, são os frutos da vinha — a colheita. Se se refere ao dono, são os frutos que pertencem ao dono. Meyer (Heinrich August Wilhelm Meyer, exegeta alemão do século XIX) rejeita a primeira opção e lê “os seus frutos”, os que são do senhor. Em qualquer das duas, a fração desapareceu da frase.
A ABC segue Mateus: “os seus frutos”, sem parte nem quota.
Por que Mateus teria apagado a fração? Não há como saber com certeza, mas há uma hipótese plausível dentro do próprio evangelho. Em Mateus, “fruto” não é um tema qualquer: é a palavra com que João Batista exigia “frutos dignos de arrependimento” (Mateus 3:8) e com que Jesus disse que a árvore se conhece “pelos seus frutos” (Mateus 7:20). Aplicado a isso, “uma parte do fruto” soaria estranho: Deus não pede uma fração da vida. O fio do fruto ao longo do capítulo 21 já foi traçado no estudo de Mateus 21:19.
Há, por fim, o limite. O versículo não diz quanto o dono pediu, nem se o pedido era justo, nem o que os lavradores tinham colhido. Ele diz só que o dono mandou buscar, no tempo certo, o que considerava seu. Tudo o que se disser sobre a dureza ou a brandura do contrato é acréscimo do intérprete.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
O dono da vinha
No versículo anterior ele foi apresentado com o mesmo título do dono da parábola dos trabalhadores (Mateus 20:1): o chefe da casa, o proprietário. Aqui ele age à distância. Não aparece pessoalmente em nenhum momento da cobrança: manda gente. Só voltará a ser figura presente na pergunta do versículo 40, “quando vier o dono da vinha”.
Os servos
São escravos do dono, não empregados contratados. Na casa antiga, o escravo de confiança agia em nome do senhor: fazia compras, cobrava dívidas, administrava bens. O evangelho de Mateus está cheio deles — o servo que deve dez mil talentos (Mateus 18:23), o servo fiel que o senhor põe à frente dos empregados da casa (Mateus 24:45), os servos que recebem os talentos (Mateus 25:14). Aqui não têm nome nem número, e não falam. São só o braço do dono.
Os lavradores
São os arrendatários do versículo 33. Moram na terra, trabalham nela, e o seu sustento depende da parte da colheita que fica com eles. Diferentemente dos trabalhadores diaristas do capítulo 20, eles não esperam salário: esperam safra. E é exatamente na hora da safra que a cobrança chega.
Quem está ouvindo
A parábola não é contada aos discípulos. Os ouvintes são os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo que, no versículo 23, tinham perguntado a Jesus com que autoridade ele agia. O versículo 45 dirá que os chefes dos sacerdotes e os fariseus entenderam que a história falava deles. Quando o dono manda cobrar o fruto, quem escuta são os administradores do templo — gente acostumada a receber o que era devido a Deus.
O tempo
A cena da parábola acontece na vindima, fim do verão. A cena em que ela é contada acontece na primavera, dias antes da Páscoa. Não há uva madura em Jerusalém naquela semana. O tempo da colheita está só na história — ou, para quem lê a parábola como imagem, está no presente dos ouvintes.
5. Pontos de Ensino
A cobrança vem no tempo próprio. O dono não pede nada antes de a vinha poder dar. Os anos de espera fazem parte da história e tiram da cobrança qualquer aparência de pressa ou de ganância. Quem recebe algo para cuidar tem um prazo — e o prazo chega.
O fruto é do dono. Os lavradores trabalham, e o trabalho é real; mas a terra, as videiras, a cerca, o lagar e a torre não são deles. Mateus apaga a palavra que reduzia o pedido a uma fração. O que se cobra é o que pertence ao dono.
O enviado representa quem o envia. “Os seus servos” buscam “os seus frutos”. A forma como os lavradores tratarem os servos será a forma como trataram o dono. A parábola prepara aqui o critério do julgamento que virá.
A primeira cobrança é pacífica. O dono não manda soldados nem juízes; manda servos. A pergunta que o versículo deixa aberta é se a autoridade sem força será obedecida.
“Fruto”, em Mateus, é conduta. Quem lê o evangelho inteiro já sabe que a árvore se conhece pelo fruto. A parábola põe essa ideia num contrato: o fruto não é só sinal de vida boa, é dívida com alguém.
A aplicação está nos ouvintes antes de estar no leitor. A história é dirigida aos responsáveis pelo templo. Ler os lavradores como “os outros” sem notar que eles eram, naquela hora, os que tinham autoridade religiosa é perder metade da força do texto.
6. Aspectos Filosóficos
De quem é a colheita
Toda sociedade que vive da terra precisa responder a uma pergunta antes de qualquer outra: quando a safra sai do chão, quanto dela fica com quem plantou e quanto vai para outra pessoa? O versículo é a hora exata em que essa pergunta deixa de ser teórica. O dono manda buscar os frutos, e os lavradores têm a uva na mão.
Ernest Gellner (filósofo e antropólogo nascido em Paris, criado em Praga, professor em Londres e Cambridge, morto em 1995) passou boa parte da vida tentando descrever essa pergunta. No livro Arado, espada e livro (1988, sobre a estrutura da história humana), ele propõe que as sociedades agrárias se organizam em torno de três atividades: produzir (o arado), coagir (a espada) e legitimar (o livro — a escrita, o saber religioso, a lei). O fato decisivo dessas sociedades, para ele, é o excedente armazenado. Quando a colheita pode ser guardada, alguém precisa protegê-la, e quem protege acaba por recolher. O excedente cria, ao mesmo tempo, a necessidade de defesa e a oportunidade de extração.
Em Nações e nacionalismo (1983), Gellner desenha a sociedade agrária como uma camada fina de governantes, guerreiros e letrados sobre uma multidão de comunidades camponesas. A camada de cima quer pouco dos de baixo: quer o tributo, a parte da safra, e paz suficiente para recebê-la. O resto da vida camponesa não lhe interessa.
O que o esquema mostra na parábola
Lido com essa lente, o versículo apresenta uma cena típica do mundo de Gellner — o proprietário que reclama a sua parte da produção alheia — com uma diferença que salta aos olhos. O dono não manda a espada. Manda servos desarmados. Ele cobra com a palavra e com o direito, isto é, com o “livro”, e adia a força até o fim da história (o versículo 41 é que fala em destruição).
Gellner diria que uma cobrança assim só funciona enquanto os produtores aceitam a legitimidade de quem cobra. Retirada a crença, sobra a força; sem a força, sobra o arrendatário com a uva na mão. É exatamente o que os versículos seguintes vão mostrar.
Onde a comparação para
A lente de Gellner também permite uma leitura que muitos intérpretes recentes fizeram: a de que os lavradores seriam camponeses espremidos por um proprietário rico, e a sua revolta seria compreensível. O esquema da extração agrária torna essa leitura possível. Mas o texto oferece dados contra ela: o dono plantou a vinha, cercou-a, cavou o lagar, construiu a torre, esperou anos e pediu no tempo certo. Não há na parábola nenhum sinal de cobrança abusiva.
E há uma diferença de fundo. Para Gellner, a legitimidade do “livro” é uma construção social que serve à extração. Para a parábola, o direito do dono é anterior a qualquer construção: a vinha é dele porque ele a fez. A filosofia social pode iluminar a cena; não pode decidir se a reivindicação do dono é justa. Essa decisão a parábola deixa para os ouvintes, e eles a tomarão contra si mesmos no versículo 41.
7. Aplicações Práticas
Há um tempo de prestar contas. O versículo não fala de castigo; fala de prazo. A vinha teve anos para crescer, e o dono esperou. Mas houve um dia em que a espera acabou e a pergunta “onde está o fruto?” passou a ter resposta obrigatória. Vale para qualquer responsabilidade recebida: a paciência de quem confia não é licença para nunca entregar.
O que você administra não é seu. Os lavradores trabalham de verdade, e o trabalho deles merece a parte que fica com eles. Mas a vinha não passa a ser deles por terem cuidado dela. Quem administra algo — um cargo, um patrimônio, uma comunidade, um talento — é tentado a confundir cuidado com posse. O versículo separa as duas coisas.
Quem cobra em nome de outro merece ser ouvido pelo outro. Os servos chegam sem força nenhuma além do nome do dono. A forma como se recebe quem traz uma cobrança legítima, mesmo incômoda, diz mais sobre quem recebe do que sobre quem vem.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Se o dono é Deus, Deus cobra aluguel?
A imagem incomoda, e a incomodidade é parte dela. A parábola não diz que Deus vende a terra nem que lucra com ela; diz que quem recebeu algo de Deus deve devolver em fruto. A Lei de Israel já pensava assim: a terra é de Deus, e os israelitas são nela “estrangeiros e moradores” (Levítico 25:23). O dízimo e as primícias eram a forma ritual de reconhecer isso. A parábola só leva a ideia até a linguagem de contrato, que os ouvintes conheciam de perto.
Por que o dono não foi pessoalmente?
Dentro da história, porque estava viajando (versículo 33) e porque era assim que proprietários ausentes faziam. Fora dela, a pergunta tem peso: por que Deus fala por mensageiros e não diretamente? A parábola só dará a sua resposta no versículo 37, quando o dono mandar o filho. Até lá, ela mostra o custo do método — os mensageiros pagam com o corpo.
“Os frutos” são as boas obras?
A pergunta é antiga e foi lida, desde a Reforma, à luz da disputa entre fé e obras. O versículo não resolve isso. Em Mateus, o fruto é sempre a vida que corresponde ao que se recebeu: arrependimento real (Mateus 3:8), conduta que revela a árvore (Mateus 7:17). Não é um mérito acumulado para comprar alguma coisa; é a resposta devida a quem plantou. Fazer do versículo um argumento a favor de salvação pelas obras, ou contra ela, é pedir-lhe o que ele não trata.
O pedido era justo?
Leitores modernos, sensíveis à exploração de camponeses, perguntam se o dono não seria um latifundiário abusivo. A pergunta é legítima diante da realidade histórica; diante do texto, ela não encontra apoio. Nada no versículo indica cobrança excessiva, e Mateus nem fala em quota. O problema que a parábola levanta não é o tamanho do aluguel, e sim a recusa de qualquer aluguel.
Por que logo na primeira colheita?
Porque é a primeira em que há algo a cobrar. Não houve cobrança antes porque não havia fruto. A primeira colheita é, por isso, o primeiro teste da relação: até ali, os lavradores só receberam; a partir dali, também devem.
9. Conexão com Outros Textos
O mesmo envio nos outros evangelhos
Marcos 12:2 — “No tempo certo, enviou um servo aos lavradores, para receber deles uma parte do fruto da vinha.”
Tradução livre a partir do Textus Receptus. Um só servo, e a fração (“uma parte”) que Mateus não traz.
Lucas 20:10 — “No tempo certo, enviou um servo aos lavradores, para que lhe dessem do fruto da vinha.”
Também um servo e também uma parte. Lucas acrescenta, um versículo antes, que o dono viajou “por muito tempo”.
O fruto no tempo certo
Salmo 1:3 — “Ele é como árvore plantada junto a correntes de água, que dá o seu fruto no tempo certo.”
A Septuaginta (a tradução grega do Antigo Testamento) usa aqui as mesmas duas palavras de Mateus 21:34, “fruto” e “tempo próprio”. O justo do salmo é a árvore que paga no prazo.
Levítico 19:23-25 — “Quando vocês entrarem na terra e plantarem qualquer árvore frutífera, considerem o fruto dela como proibido: durante três anos… No quarto ano, todo o seu fruto será consagrado… No quinto ano vocês poderão comer o seu fruto.”
O prazo religioso que se soma ao prazo natural antes da primeira colheita.
O fruto em Mateus
Mateus 3:8 — “Produzam, pois, frutos dignos de arrependimento.”
Mateus 7:20 — “Portanto, vocês os reconhecerão pelos seus frutos.”
As duas frases que fazem de “fruto” uma palavra moral antes de a parábola fazer dele uma dívida.
Mateus 21:43 — “Portanto eu digo a vocês que o Reino de Deus será tirado de vocês e será dado a um povo que produza os seus frutos.”
A aplicação que o próprio Jesus faz. O verbo é “produzir”: o que se cobra é o que se deveria ter feito.
Os servos de Deus
Jeremias 26:5 — “…ouvindo as palavras dos meus servos, os profetas, que eu envio a vocês, insistentemente, e vocês não ouviram.”
Amós 3:7 — “Certamente o Senhor DEUS não fará coisa alguma sem revelar o seu segredo aos seus servos, os profetas.”
A fórmula que permite ao ouvinte ligar “os seus servos” da parábola aos profetas.
Outras parábolas de cobrança
Mateus 25:19 — “Muito tempo depois, o senhor daqueles servos voltou e foi acertar as contas com eles.”
A mesma estrutura: ausência longa, depois a hora das contas. Lá é o senhor que volta; aqui, ele ainda manda outros.
Mateus 9:38 — “Portanto, roguem ao Senhor da colheita que envie trabalhadores para a sua colheita.”
Deus como “Senhor da colheita”, que manda gente para o tempo da safra. Lá os enviados vão colher; aqui vão cobrar.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Aproximando-se a época da colheita, enviou seus servos aos lavradores para receberem os seus frutos.
Texto grego (Textus Receptus)
Ὅτε δὲ ἤγγισεν ὁ καιρὸς τῶν καρπῶν, ἀπέστειλε τοὺς δούλους αὐτοῦ πρὸς τοὺς γεωργούς, λαβεῖν τοὺς καρποὺς αὐτοῦ.
Transliteração
Hote de ēngisen ho kairos tōn karpōn, apesteile tous doulous autou pros tous geōrgous, labein tous karpous autou.
Uma nota sobre o texto
O Textus Receptus (“texto recebido”, a edição grega do século XVI que a ABC segue) e as edições críticas trazem as mesmas palavras. A única diferença é de grafia: o Textus Receptus de Scrivener escreve apesteile, sem o n final; o interlinear do Bible Hub, apesteilen. Esse n é a letra que o grego acrescenta ou tira conforme a palavra seguinte, sem mudar nada no sentido. Conferido no interlinear do Bible Hub e na edição de Scrivener publicada pelo eBible.
Análise palavra por palavra
Ὅτε δὲ — hote de, “e quando”. Hote é conjunção de tempo; de é a partícula que liga a frase à anterior marcando avanço da história. A ABC converte a oração temporal em gerúndio, “aproximando-se”, o que é tradução de sentido.
ἤγγισεν — ēngisen, aoristo do indicativo ativo, terceira pessoa do singular, de engizō, “aproximar-se, chegar perto”. O verbo vem de engys, “perto”. Mateus o usa poucas vezes, e em lugares marcados. Abre este capítulo (Mateus 21:1, os discípulos que “se aproximaram” de Jerusalém) e está na fórmula do Reino “próximo” (Mateus 3:2; 4:17; 10:7), ali no perfeito, ēngiken, “aproximou-se e está perto”. O perfeito volta em Mateus 26:45-46, na hora da paixão. Aqui, no aoristo, o verbo só registra que o momento chegou; o eco com os outros usos é de quem lê o evangelho inteiro.
ὁ καιρὸς τῶν καρπῶν — ho kairos tōn karpōn, “o tempo dos frutos”. Kairos é o tempo oportuno, o momento próprio de algo, diferente de chronos, a duração que corre; a distinção está no estudo de Mateus 16:3. O genitivo plural tōn karpōn define de que momento se trata: a ocasião das uvas. Marcos 12:2 e Lucas 20:10 dizem apenas “no tempo”, tō kairō e en kairō; Mateus é o único que nomeia os frutos já na indicação de tempo. Em Mateus 21:41 a palavra volta no plural, “nas épocas de colheita”.
ἀπέστειλε — apesteile, aoristo de apostellō, “enviar com uma missão”. É o verbo de onde vem apostolos, “enviado”, “apóstolo”. Ele estrutura a parábola inteira: volta em Mateus 21:36 (“enviou outros servos”) e em 21:37 (“enviou-lhes o seu filho”). Três envios, o mesmo verbo.
τοὺς δούλους αὐτοῦ — tous doulous autou, “os seus servos”. Doulos é o escravo, a pessoa que pertence a um senhor. A diferença entre doulos, o lavrador arrendatário (geōrgos) e o trabalhador contratado está no estudo de Mateus 20:1. Com o artigo e o possessivo, o grego diz “os servos dele”, não “alguns servos”: são os que pertencem ao dono e agem por ele.
πρὸς τοὺς γεωργούς — pros tous geōrgous, “aos lavradores”. Pros com acusativo indica direção a pessoas. Geōrgos é composto de gē, “terra”, e da raiz de ergon, “trabalho”: quem trabalha a terra. É a origem de “Jorge” e de “geórgicas”.
λαβεῖν — labein, infinitivo aoristo de lambanō, “tomar, receber”. O infinitivo indica finalidade: “para receber”. Marcos 12:2 usa uma oração com hina (“a fim de que receba”); Lucas 20:10, outro verbo (“para que lhe dessem”). O lambanō de Mateus é o mesmo verbo que reaparece no versículo seguinte, com outro sujeito.
τοὺς καρποὺς αὐτοῦ — tous karpous autou, “os frutos dele”. Acusativo plural de karpos, “fruto”, com o artigo e o pronome. Duas observações.
A primeira é a falta de uma preposição. Marcos 12:2 diz apo tou karpou, “do fruto”, e Lucas 20:10 também usa apo. Em grego, apo com genitivo, depois de verbo de receber ou dar, indica fração: uma parte de. Mateus não a tem, e o objeto passa a ser “os frutos”, sem restrição.
A segunda é a ambiguidade de autou. Como “vinha” (ampelōn) é palavra masculina em grego, o pronome pode remeter a ela (“os frutos da vinha”) ou ao dono (“os frutos dele, do dono”). Meyer prefere a segunda, por ser o dono o sujeito da frase. O paralelismo com tous doulous autou, poucas palavras antes, reforça essa leitura: os servos dele, os frutos dele.
A ABC verte “os seus frutos”, sem a quota que Marcos e Lucas mencionam.
11. Conclusão
O versículo mostra uma relação que ainda não foi rompida. O dono esperou o tempo que a vinha precisava, cobrou no momento em que a cobrança era devida e cobrou sem força, mandando os seus próprios homens. Conclui-se que, quando a violência vier, não terá sido provocada por exigência fora de hora nem por ameaça.
Conclui-se também que o centro da parábola não é o trabalho dos lavradores, e sim a quem pertence o resultado dele. Mateus, ao tirar a palavra que limitava o pedido a uma parte, deixa a cobrança mais ampla e mais pessoal: o que se pede é o fruto que é do dono.
E conclui-se, por fim, que os servos já carregam o peso do dono. Tudo o que for feito a eles terá sido feito a quem os mandou. O versículo seguinte põe isso à prova.













