De manhã cedo, quando voltava para a cidade, teve fome.
1. Introdução
De manhã cedo, no caminho de volta de Betânia para o templo, Jesus sente fome. Em todo o evangelho, Mateus só registra a fome do próprio Jesus duas vezes: depois dos quarenta dias no deserto e aqui, com o mesmo verbo. Lá a fome vinha de um jejum; aqui vem de uma manhã comum, a caminho do trabalho. Desde os primeiros séculos houve quem achasse que ele não precisava de comida, e o versículo diz o contrário sem rodeios. O que ele faz com a fome fica para o versículo seguinte.
2. Contexto Histórico e Cultural
O pão da manhã
No mundo judaico do período, a primeira refeição de verdade não vinha ao acordar. Comia-se cedo um pedaço de pão, e a refeição principal da manhã ficava para algumas horas depois do nascer do sol. A lista rabínica que distribui as horas de comer conforme o tipo de gente está no estudo de Êxodo 16:12.
O pedaço de pão de antes do trabalho tinha nome e fama. Os mestres o chamavam de “pão da manhã”, e o Talmude, no tratado Bava Metzia 107b, enumera treze vantagens dele: protege do calor, do frio, dos ventos e dos maus espíritos, torna sábio o simples, faz vencer no tribunal, ajuda a aprender e a ensinar, faz com que a palavra da pessoa seja ouvida, mantém a carne sem suor excessivo, e assim por diante. Os mesmos rabinos dizem que pão com sal pela manhã e um bom jarro de água afastam dezenas de doenças.
A lista é exagerada de propósito, e diverte. Mas ela registra um costume e um valor: sair de casa sem comer nada era sair desprotegido. Quem lia “de manhã cedo… teve fome” reconhecia alguém que tinha começado o dia sem o pão da manhã.
No mundo grego e romano
O costume era parecido. Os gregos chamavam de akratisma (“o que se toma com vinho puro”) o primeiro bocado do dia, pão molhado em vinho sem água. Os romanos tinham o ientaculum (“desjejum”), coisa ligeira, comprada às vezes na rua: o poeta Marcial, num dos seus epigramas, manda os meninos se levantarem porque o padeiro já está vendendo o desjejum. Em todo o Mediterrâneo, a manhã começava com pouco e com pressa, e a refeição de verdade vinha mais tarde.
O caminho
De Betânia ao templo, o caminho subia a encosta leste do monte das Oliveiras, passava pelo alto e descia para o vale do Cedrom antes de subir de novo até as portas da cidade. Uma caminhada de menos de uma hora, mas com dois aclives. Quem saía em jejum chegava ao alto do monte com o estômago vazio.
A hora do ensino
A pressa de sair cedo tinha uma razão prática. O templo abria as portas ao amanhecer, com o primeiro sacrifício do dia, e era nas primeiras horas, antes do calor, que o pátio enchia. Lucas registra, sobre esses mesmos dias, que “todo o povo madrugava para ir ouvi-lo no templo” (Lucas 21:38). Quem queria encontrar a multidão tinha de chegar cedo — e quem dormia a três quilômetros tinha de sair antes de comer.
3. Análise Teológica do Versículo
“De manhã cedo”
É o começo do dia claro, antes que a vida da cidade esteja a pleno. A expressão e o seu uso em Mateus estão no estudo de Mateus 16:3. O que este versículo acrescenta é a sequência: o dia anterior terminou à noite, fora da cidade, e este começa no caminho de volta. Entre a saída e a volta não há nada no texto — nenhuma palavra, nenhuma cena, nenhuma refeição.
“quando voltava para a cidade”
O verbo é de volta, e a forma é de ação em curso: ele está a caminho, não chegou. O que vai acontecer no versículo seguinte acontece na estrada.
A volta tem peso porque a saída da véspera tinha sido um afastamento. Ele deixou as autoridades sem resposta e foi dormir fora; de manhã, volta para o mesmo templo e para as mesmas autoridades. Jerônimo (tradutor da Bíblia para o latim, século IV) lê a pressa da volta como zelo: ele voltava cedo à cidade para pregar. Mateus confirma o destino, sem comentar o motivo: o versículo 23 o mostra ensinando no templo.
“teve fome”
Duas frases curtas em Mateus dizem que Jesus teve fome, e o verbo grego é o mesmo nas duas: depois do jejum de quarenta dias (Mateus 4:2) e aqui. Não há terceira. Em Mateus 12:1 quem tem fome são os discípulos, nas plantações; em Mateus 12:3, Davi e os companheiros; e em Mateus 25:35 o “tive fome” está na boca do Rei da parábola do julgamento, que fala da fome dos seus irmãos mais pequenos como se fosse dele.
A comparação entre as duas fomes mostra a diferença. No deserto, a fome é a consequência esperada de um jejum escolhido; ninguém se espanta. Aqui ela não tem causa declarada. Ele acabou de passar a noite numa aldeia, possivelmente na casa de amigos, e sai com fome.
Os comentaristas tentaram explicar. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) supõe que ele se levantou antes que os anfitriões estivessem de pé e saiu sem comer. Benson (Joseph Benson, comentarista metodista inglês do início do século XIX) diz o mesmo de modo mais simples: saiu cedo de Betânia sem comer nada. Ellicott (Charles Ellicott, bispo e comentarista inglês do século XIX) e o Pulpit Commentary (“Comentário do Púlpito”, obra coletiva inglesa do século XIX) propõem que ele tivesse passado a noite em oração, ao ar livre, ou saído sem quebrar o jejum, ocupado demais para pensar no corpo.
Todas as explicações são conjecturas, e todas dependem de como se lê o “passou a noite” do versículo anterior: em casa ou ao relento. Mateus não dá elemento para decidir. Registra a fome e não a explica.
Uma fome que incomodou os teólogos
A frase foi mais difícil para os primeiros cristãos do que parece hoje. Havia, nos séculos II e III, quem pensasse que o corpo de Jesus não precisava das coisas que um corpo comum precisa. Clemente de Alexandria (mestre cristão do fim do século II), que não era herege, chegou perto disso nos Stromata (“Tapeçarias”, uma obra de reflexões soltas), VI.9: o Senhor comia não por causa do corpo, que era mantido por uma força santa, mas para que os que estavam com ele não formassem outra opinião a seu respeito.
O versículo é um obstáculo a essa leitura. Ninguém sente fome para dar boa impressão a quem está em volta, e Mateus não diz que ele comeu: diz que ele teve fome, isto é, que sentiu a falta. A tradição que prevaleceu foi a de Jerônimo, que escreve que, dissipadas as sombras da noite e voltando para a cidade, o Senhor teve fome, “mostrando assim a realidade do seu corpo humano”.
Uma nota medieval, conhecida como a Glosa (comentário-padrão que circulava nas margens da Bíblia latina), deu mais um passo: ao deixar a carne sofrer o que é próprio da carne, ele anunciava de antemão a paixão. A fome de uma manhã comum vira, nessa leitura, a primeira dor da semana. É leitura devocional, que o texto não enuncia.
O que a frase não diz
Ela não faz da fome um símbolo. Não diz que ele tinha fome de fruto espiritual, de fé ou de justiça, como a leitura alegórica do episódio seguinte vai propor. Diz que ele teve fome, e para. A leitura que salta direto para o sentido figurado perde o dado mais simples do versículo: na semana em que tudo se decide, o evangelho reserva uma frase para o estômago vazio de Jesus.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Jesus
É o único sujeito do versículo. Os discípulos não são mencionados aqui, embora o versículo 20 mostre que estavam com ele. A frase fica inteira sobre uma pessoa e uma necessidade.
O caminho de Betânia a Jerusalém
A estrada que sai de Betânia, sobe a encosta leste do monte das Oliveiras e desce para o vale do Cedrom, diante das muralhas e do templo. Era a mesma pela qual ele tinha entrado na cidade na véspera, entre ramos e roupas estendidas. Agora a mesma estrada é percorrida sem multidão, de manhã cedo, por um homem com fome.
A cidade
Jerusalém, de novo sem nome: “a cidade”. Em Mateus, desde a entrada, ela é o lugar para onde ele vai de dia e de onde sai à noite.
Quando
Na sequência de Mateus, é a manhã seguinte à entrada em Jerusalém. A tradição cristã, que segue a ordem de Marcos, chama esse dia de segunda-feira santa. Mateus não numera os dias da semana; marca só a passagem de uma noite.
O mesmo episódio nos outros evangelhos
Marcos tem a mesma manhã e a mesma fome: “No dia seguinte, quando saíram de Betânia, ele teve fome” (Marcos 11:12). Marcos põe a saída no plural — eles saíram —, e Mateus só fala dele. A diferença maior entre os dois está na ordem dos acontecimentos ao redor da figueira, que o estudo de Mateus 21:19 compara. Lucas e João não registram a fome desta manhã.
5. Pontos de Ensino
1. O corpo de Jesus tinha necessidades reais
O versículo não argumenta isso; simplesmente o registra. A fé cristã ortodoxa afirmou desde cedo que Jesus foi plenamente humano, e frases como esta são a base concreta dessa afirmação. Não é fome simbólica nem encenada: é a de quem saiu sem comer.
2. A fome não interrompe o caminho
Ele está voltando para um dia de confronto, e a fome não o faz parar nem voltar. O versículo põe lado a lado a necessidade e a direção, e a direção continua.
3. O evangelho não tem vergonha de um detalhe pequeno
Numa semana em que se decide a vida de Jesus, Mateus gasta uma frase com o estômago dele. Um texto que quisesse apenas engrandecer o herói teria cortado a frase. Este a conservou.
6. Aspectos Filosóficos
Fome escolhida e fome sofrida
O versículo põe diante do leitor a forma mais simples de dependência que existe: a do corpo que precisa comer. E, comparado com Mateus 4:2, levanta uma questão que poucos pensaram com tanta seriedade quanto Mohandas Karamchand Gandhi (1869-1948), o advogado indiano que liderou a luta pela independência da Índia pela via da não violência, e a quem os seus deram o título de Mahatma (“grande alma”, em sânscrito).
O jejum como instrumento
Gandhi jejuou muitas vezes em público, algumas por semanas. Em 1924 jejuou vinte e um dias pela reconciliação entre hindus e muçulmanos; em 1932, preso, jejuou contra a criação de eleitorados separados para os chamados intocáveis; em janeiro de 1948, dias antes de ser assassinado, jejuou para que cessassem os massacres em Délhi. Para ele, o jejum era ao mesmo tempo oração, penitência e pressão moral — e a mais perigosa das armas da resistência sem violência, porque podia virar chantagem. Por isso cercou o seu uso de condições: só por causa justa, só depois de esgotados os outros meios, nunca para obter vantagem pessoal.
O jejum também era, para ele, disciplina da vida comum. Entre os votos que os moradores dos seus ashrams (“comunidades de vida espiritual”) assumiam estava o do controle do paladar: comer para sustentar o corpo, não para dar prazer à língua. A Autobiografia — que ele subtitulou “a história das minhas experiências com a verdade” — conta com minúcia quase cômica as suas experiências com dieta.
A fome que ninguém escolhe
Gandhi, porém, sabia que a fome dele era de outra espécie que a dos que o seguiam. Em 1931, falando a operários na Inglaterra, disse algo que o seu jornal, Young India, registrou: é fácil falar de Deus sentado aqui depois de um bom café da manhã, à espera de um almoço melhor; mas como falar de Deus aos milhões que passam sem duas refeições por dia? Para eles, Deus só pode aparecer como pão e manteiga.
A frase tem duas pontas. Uma é uma crítica a quem prega de barriga cheia. A outra é uma tese sobre a fome: ela não é uma experiência espiritual entre outras, e sim uma condição que fecha o acesso a tudo o mais. O faminto não precisa de discurso sobre a fome; precisa de comida. Gandhi chamou os pobres da Índia de Daridranarayan (“Deus na forma do pobre”), expressão que tomou de outros e tornou popular.
O que essa distinção faz com o versículo
Pela régua de Gandhi, as duas fomes de Jesus em Mateus não são a mesma. A de Mateus 4:2 é a fome escolhida: quarenta dias de jejum no deserto, deliberados, com propósito, ao modo do asceta. A de Mateus 21:18 é a outra: ninguém a escolheu, ela apareceu numa manhã comum, a caminho do trabalho, como aparece para qualquer pessoa que saiu de casa sem comer.
Isso muda o lugar de Jesus no versículo. No deserto ele está na posição de Gandhi, o que jejua; nesta manhã, está na posição dos milhões de que Gandhi falava, os que sentem fome sem ter decidido senti-la. O evangelho registra as duas, e a segunda é a mais comum e a menos comentada.
O limite da aproximação
Não se deve forçar. Uma manhã sem desjejum não é a fome crônica dos pobres da Índia, e Jesus voltava de uma aldeia onde, ao que tudo indica, não lhe faltaria comida. A distância entre as duas fomes é real e precisa ser dita.
O que a comparação mostra é outra coisa. A tradição cristã falou muito da fome voluntária — jejum, abstinência, renúncia — e muito pouco da fome involuntária como experiência do próprio Jesus. O versículo é um dos poucos lugares em que essa segunda fome aparece.
7. Aplicações Práticas
Não espiritualizar o que é do corpo
Há uma tendência, em ambientes religiosos, de tratar cansaço, fome e sono como falhas de quem não está à altura da missão. O versículo não faz isso com Jesus. Ele teve fome numa manhã de trabalho importante, e o texto registra o fato sem crítica e sem elogio. Para quem vive sob pressão, a aplicação é simples: sentir as necessidades do corpo não é sinal de fé fraca nem de entrega insuficiente.
Sair cedo cobra um preço
Quem começa o dia antes dos outros — para chegar ao trabalho, para encontrar as pessoas onde elas estão — às vezes começa sem o que precisa. O versículo não aconselha nada, mas mostra o custo dessa escolha num homem que a fez. Saber que o custo existe ajuda a planejar: levar o pão, como os mestres judeus recomendavam, é prudência, não falta de fervor.
Lembrar da fome alheia a partir da própria
Uma manhã sem comer é pouca coisa. Mas é a porta mais comum pela qual quem tem comida entende, por algumas horas, quem não tem. A fome passageira de Jesus nesta estrada não é a fome crônica dos pobres; pode, no entanto, servir a quem a lê como lembrete de que a fome de outros não passa às dez da manhã.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Se ele passou a noite com amigos, por que saiu com fome?
O texto não responde. As explicações dos comentaristas estão no item 3, e todas são suposições. A pergunta só tem força para quem já decidiu que ele dormiu numa casa; quem lê o “passou a noite” como acampamento no monte não vê problema nenhum. Ela mostra quanto da leitura de um versículo depende do que se supõe sobre o anterior.
Os discípulos também tinham fome?
Mateus não diz. O verbo está no singular, e a frase fala só de Jesus. Marcos põe a saída no plural, mas a fome continua só dele (Marcos 11:12). Se os outros estavam em jejum, nenhum evangelho achou que valesse dizer.
A fome aqui é símbolo?
A leitura alegórica do episódio da figueira, desde os primeiros comentários, fez da fome de Jesus o desejo de encontrar fruto em Israel ou na alma humana. Essa leitura pertence à interpretação do versículo seguinte. No versículo 18, isolado, nada indica sentido figurado: o verbo é o de Mateus 4:2, que é fome de corpo.
Ele sabia que a figueira não tinha fruto?
A pergunta é antiga e incômoda: se ele sabia, a fome serviu de pretexto para uma lição; se não sabia, o conhecimento dele tinha limites. Ela pertence à cena da figueira. O que se pode dizer a partir deste versículo é só que a fome vem antes da árvore, e não depois dela: ele não procurou a figueira para ensinar alguma coisa; procurou porque estava com fome.
Por que Mateus registra uma coisa tão trivial?
Porque a cena seguinte precisa dela: sem a fome, não haveria razão para se aproximar da figueira. Mas a frase poderia ter sido mais discreta — “procurando o que comer”, por exemplo. Mateus escolheu o verbo seco e direto, o mesmo do deserto. Talvez por economia narrativa, talvez para manter, até o fim, o retrato de um homem com corpo. O texto não diz qual das duas.
9. Conexão com Outros Textos
A outra fome de Jesus em Mateus
Mateus 4:2 — “E, depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites, teve fome.”
As duas únicas frases do evangelho com a fome do próprio Jesus terminam com o mesmo verbo. Uma no começo da vida pública, outra no começo da última semana.
A mesma manhã em Marcos
Marcos 11:12 — “No dia seguinte, quando saíram de Betânia, ele teve fome.”
Marcos dá o ponto de partida que Mateus omite neste versículo: Betânia.
O povo que madrugava
Lucas 21:37-38 — “Durante o dia, Jesus ensinava no templo; e, saindo à noite, pernoitava no monte chamado das Oliveiras. E todo o povo madrugava para ir ouvi-lo no templo.”
A razão mais provável da pressa da manhã: a multidão chegava cedo.
A fome dos discípulos
Mateus 12:1 — “Naquela época, Jesus passou pelas plantações num sábado. Seus discípulos, com fome, começaram a colher espigas e a comer.”
A única outra cena de fome no caminho, em Mateus. Lá quem tem fome são os discípulos, e a comida está à mão.
O Rei que diz “tive fome”
Mateus 25:35 — “Pois eu tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber; fui forasteiro, e vocês me acolheram;”
Dias depois desta manhã, ainda na mesma semana, Jesus fala da fome em primeira pessoa — mas é a fome dos outros que ele assume como sua.
A outra comida
João 4:31-34 — “Enquanto isso, os discípulos lhe pediam: ‘Mestre, coma alguma coisa.’ Ele respondeu: ‘Eu tenho para comer uma comida que vocês não conhecem.’ [...] ‘A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou.’”
João conta uma cena em que Jesus deixa a fome para depois por causa do trabalho. Mateus 21:18 é o contrário: a fome não é adiada nem transformada em metáfora.
A sede na cruz
João 19:28 — “Depois disso, sabendo Jesus que tudo já estava consumado, para que se cumprisse a Escritura, disse: ‘Tenho sede.’”
A última necessidade do corpo registrada nos evangelhos, no fim da mesma semana.
A outra manhã marcada com a mesma palavra
Mateus 27:1 — “Ao amanhecer, todos os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo se reuniram em conselho contra Jesus, para o condenarem à morte.”
No grego que a ABC segue, “ao amanhecer” e “de manhã cedo” são a mesma palavra.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
De manhã cedo, quando voltava para a cidade, teve fome.
Texto grego
Πρωΐας δὲ ἐπανάγων εἰς τὴν πόλιν, ἐπείνασε.
Transliteração
Prōias de epanagōn eis tēn polin, epeinase.
Aqui o Textus Receptus (“texto recebido”, a edição grega que a ABC segue) e as edições críticas modernas divergem em duas palavras. O Textus Receptus traz prōias, “de manhã”, um substantivo; as edições críticas trazem prōi, o advérbio “cedo, de manhã”. E o Textus Receptus traz epanagōn, particípio presente, “voltando”; as edições críticas, epanagagōn, particípio aoristo, “tendo voltado” ou “ao voltar”. A conferência foi feita no Textus Receptus de Scrivener (1894) e no de Stephanus (1550), e no texto grego do eBible; os dois Textus Receptus coincidem. O sentido geral não muda, mas os detalhes, sim, como se vê abaixo.
Análise palavra por palavra
Πρωΐας — prōias, “de manhã, pela manhã”. Genitivo de prōia, “a manhã”, substantivo feminino derivado do advérbio prōi. O genitivo, sem preposição, indica o tempo dentro do qual algo acontece: “durante a manhã”, “na manhã”.
A diferença em relação ao advérbio é pequena no sentido e grande na rede de ligações. O advérbio prōi é o de Mateus 16:3 (“e de manhã”) e de Mateus 20:1 (“de madrugada”), e o estudo de Mateus 16:3 o liga a este versículo — ligação que vale para o texto crítico. No Textus Receptus, a palavra deste versículo é outra, e o seu par em Mateus é Mateus 27:1, prōias de genomenēs, “ao amanhecer”, a manhã do conselho que condena Jesus. O substantivo aparece ainda em João 21:4, na manhã em que o ressuscitado está na praia.
δὲ — de, “e, então”. Partícula de ligação que abre uma cena nova sem marcar contraste forte. A ABC não a traduz, e faz bem: o começo da frase pelo tempo já marca a passagem.
ἐπανάγων — epanagōn, “voltando”. Particípio presente de epanagō, verbo formado de três peças: epi, “sobre, de novo”, ana, “para cima”, e agō, “conduzir, ir”. No uso intransitivo, como aqui, significa “voltar, retornar”.
O verbo é raro no Novo Testamento. Fora deste versículo, aparece só em Lucas 5:3-4, num sentido marítimo: Jesus pede a Simão que “afaste o barco um pouco da terra” e depois que “avance para o fundo”. O sentido de base é o de levar para o alto ou para fora; aqui, o de quem sobe de volta. O ana, “para cima”, combina com a geografia: Jerusalém está no alto, e o caminho de Betânia passava pelo alto do monte.
O particípio presente do Textus Receptus põe a fome no meio do caminho: ela acontece enquanto ele volta. O aoristo das edições críticas pode ser lido do mesmo modo, mas admite também que ele já estivesse chegando. A ABC, com “quando voltava”, segue o Textus Receptus.
εἰς τὴν πόλιν — eis tēn polin, “para a cidade”. A mesma palavra do versículo anterior, agora com a preposição de direção. A saída e a volta usam “a cidade” sem nome, e a simetria é exata: exō tēs poleōs, “para fora da cidade”, à noite; eis tēn polin, “para dentro da cidade”, de manhã.
ἐπείνασε — epeinase, “teve fome”. Aoristo de peinaō, “ter fome”, terceira pessoa do singular. As edições críticas escrevem epeinasen, com um “n” final que o grego acrescenta ou omite conforme a palavra seguinte e o costume do copista; é a mesma forma.
O aoristo aqui tem valor de começo: não descreve um estado contínuo, e sim o momento em que a fome se fez sentir — “sentiu fome”, “ficou com fome”. É exatamente a forma de Mateus 4:2, no fim do jejum do deserto. O mesmo verbo serve para Davi e os companheiros em Mateus 12:3, para os discípulos no plural em Mateus 12:1 e para o Rei da parábola, em primeira pessoa, em Mateus 25:35 e 25:42.
No grego comum, peinaō é a fome física, e é dela que o Novo Testamento tira o sentido figurado: “bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça” (Mateus 5:6). O sentido figurado exige complemento — fome “de” alguma coisa. Aqui o verbo está sozinho, sem complemento, e por isso só pode ser lido no sentido próprio.
11. Conclusão
Com base no que foi dito, conclui-se primeiro que o versículo afirma uma necessidade e não lhe dá sentido. Jesus teve fome, e Mateus não diz por quê, nem o que ela significa, nem como foi saciada. Quem quiser um símbolo terá de trazê-lo de fora, e o verbo sem complemento resiste a isso.
Conclui-se, em segundo lugar, que esta é a fome que ninguém escolheu. A outra vez em que Mateus registra a fome de Jesus, ela vinha no fim de um jejum deliberado. Esta vem numa manhã de trabalho, depois de uma noite fora da cidade, como vem para qualquer um que saiu sem comer. O evangelho guarda as duas, e a segunda põe Jesus na condição mais comum que existe.
Por fim, conclui-se que a frase tem uma função na sequência e um peso próprio. Ela prepara a cena seguinte, que não aconteceria sem ela. Mas ela também segura, numa semana de multidões, discursos e confrontos, um dado que os primeiros cristãos tiveram dificuldade de aceitar: o homem que acabara de ser aclamado como Filho de Davi precisava de pão na manhã seguinte.













