Se alguém disser algo a vocês, respondam que o Senhor precisa deles; e logo os enviará.”
1. Introdução
Jesus antecipa a objeção do dono e dá aos discípulos uma frase para responder: "o Senhor precisa deles". O título é o centro do versículo, e não é óbvio quem ele designa — Jesus, Deus ou o próprio dono dos animais. A frase final, "e logo os enviará", também tem duas leituras: o dono mandará os animais sem demora, ou eles serão devolvidos. A ABC foi revista para não decidir por você, e o versículo mostra por que essa decisão não está no texto.
2. Contexto Histórico e Cultural
O que "senhor" significava na rua
Antes de ser título religioso, "senhor" era palavra de contrato. No grego falado no século I, kyrios ("senhor") designava, em primeiro lugar, quem tinha poder legal sobre alguma coisa: o dono de um escravo, de uma casa, de um campo, de um animal. Os papiros do Egito romano estão cheios desse uso. Nos contratos, a mulher que vendia ou alugava um bem aparecia "com o seu kyrios", o homem — marido, pai ou parente — que respondia legalmente por ela.
Um morador de aldeia que ouvisse "o kyrios precisa deles" teria, portanto, uma primeira leitura à mão: "o dono precisa deles". Lucas joga com isso. Em Lucas 19:33, quem pergunta aos discípulos por que estão soltando o jumentinho são "os seus donos" — no grego, os seus kyrioi, os seus senhores. E a resposta, no versículo seguinte, é: "o Senhor precisa dele". Os senhores do animal ouvem que há um Senhor acima deles.
No alto da escala, a mesma palavra servia para o imperador. Em Atos 25:26, o governador Festo, embaraçado com o caso de Paulo, diz que não tem nada de certo para escrever "ao senhor" — e o senhor é Nero. A palavra cobria do dono de um jumento ao dono do mundo.
"Marana tha": o título em aramaico
Jesus e os aldeões da Judeia falavam aramaico, e a palavra aramaica correspondente é mar ("senhor", "dono"), com a forma marana, "nosso senhor". Ela sobreviveu num lugar inesperado: no fim de uma carta escrita em grego para uma igreja grega. Paulo fecha 1 Coríntios com uma expressão que não traduz — Marana tha, "nosso Senhor, vem!" (1 Coríntios 16:22). Se uma comunidade de Corinto conhecia a fórmula em aramaico, ela vinha dos primeiros cristãos de língua aramaica, e eles chamavam Jesus de "Senhor" na sua própria língua.
Durante muito tempo se discutiu se o aramaico da Palestina usava "o Senhor", assim, sem complemento, para falar de Deus. Os manuscritos do mar Morto deram uma resposta parcial. Numa tradução aramaica do livro de Jó encontrada em Qumran (11QtgJob), Deus é chamado simplesmente de mara, "o Senhor". Joseph Fitzmyer (jesuíta norte-americano, especialista em aramaico do século XX) usou esse dado para argumentar que o título absoluto, aplicado a Deus, já existia no meio judeu de língua aramaica antes dos evangelhos. A conclusão é debatida, mas o dado está lá.
A frase do versículo, portanto, cabia em três registros ao mesmo tempo: o dono, o mestre respeitado, o próprio Deus.
Quem pede emprestado responde pelo animal
Se a frase final for promessa de devolução, o fundo é outro: o direito do empréstimo. A Lei de Moisés tratava disso. Quem pede emprestado um animal e ele se fere ou morre "sem que o dono esteja presente" tem de pagar (Êxodo 22:14); se o dono está junto, não paga.
A Mishná, no tratado Bava Metzia 8:1, aplica a regra com precisão de jurista. Se alguém pede emprestada uma vaca e, junto com ela, os serviços do dono, e a vaca morre, está isento, porque "o dono estava com ele". Se pediu primeiro a vaca e só depois o dono, responde pela perda. O empréstimo de animal era uma relação jurídica com riscos definidos: quem levava o bicho de outro levava a responsabilidade junto.
Contra esse fundo, "logo os enviará", lido como promessa de devolução, é a garantia que todo vizinho esperava ouvir: o animal volta, e volta logo.
Uma leitura jurídica proposta
J. Duncan M. Derrett (estudioso inglês de direito antigo e do Novo Testamento, do século XX), num artigo de 1971 sobre o "jumento do Domingo de Ramos", propôs ler a cena inteira com as regras da requisição: a frase seria a fórmula com que um rei, ou um mestre de autoridade, reclamava o uso de um animal, e o dono, ao reconhecê-la, cedia. A proposta tem mérito ao levar a sério a forma jurídica do episódio; o preço é supor que os ouvintes reconheceriam em Jesus um direito que nada no texto lhe atribui. É hipótese.
3. Análise Teológica do Versículo
"Se alguém disser algo a vocês"
Jesus conta com a objeção, mas não a dá por certa. A frase é condicional e vaga: "alguém", "algo". Marcos 11:3 especifica a pergunta ("Por que vocês estão fazendo isso?"), e Marcos 11:5 e Lucas 19:33 mostram que ela veio. Mateus não narra objeção nenhuma. Em Mateus 21:6 os discípulos vão, fazem e voltam, sem diálogo registrado. A frase preparada para a objeção fica, no relato dele, sem ocasião de ser dita — ou foi dita e não interessou ao evangelho contar.
A previsão, de qualquer modo, admite o óbvio: estranhos soltando um animal provocavam reação. Jesus não finge que não provocariam.
"respondam que o Senhor precisa deles"
Quem é "o Senhor"? A pergunta não é retórica, e há quatro respostas com defensores.
Primeira leitura: é Jesus, falando de si mesmo. É a posição que Ellicott (Charles John Ellicott, bispo e comentarista inglês do século XIX) considera mais provável, porque os evangelistas e os discípulos chamam Jesus de "o Senhor". Se for assim, o versículo traz algo raro em Mateus. Outros chamam Jesus de "Senhor" o tempo todo, no vocativo, pedindo ou rezando; Davi o chama assim no Salmo citado em Mateus 22:43. Mas Jesus designar a si mesmo, na terceira pessoa e sem complemento, como "o Senhor", é coisa que Mateus registra praticamente só aqui. E o contraste com a outra missão da última semana é revelador: em Mateus 26:18, a frase que os discípulos levam ao dono da sala é "o Mestre manda dizer". Para a sala da Páscoa, "o Mestre"; para os animais da entrada, "o Senhor".
Segunda leitura: é Deus. Ellicott também registra esta: "o Senhor", no ouvido de um judeu piedoso, era o modo de dizer o nome de Deus sem pronunciá-lo, e a tradução grega da Escritura usava a mesma palavra para isso. Os animais seriam pedidos para um serviço de Deus. A leitura combina com a citação profética que vem logo depois; o que ela não explica é por que o dono aceitaria uma afirmação tão grande vinda de dois estranhos.
Terceira leitura: é o dono. Vincent Taylor (exegeta metodista inglês do século XX), comentando o paralelo de Marcos, propôs que "o senhor" fosse o dono do animal, que estaria com Jesus ou à espera dele: "o dono precisa deles". A gramática de Mateus deixa uma porta aberta para isso, porque o pronome "deles" pode ser lido junto de "o senhor" — "o senhor deles precisa" (item 10). Mas a leitura exige um personagem que nenhum evangelho mostra.
Quarta leitura: é o tratamento de respeito, sem peso teológico. Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX) diz que a palavra não significa mais que "mestre", título dado por inferiores a superiores, e que o dono a entenderia como o nome de um rabi conhecido.
Não é possível decidir, e talvez a frase funcione justamente por não decidir. O dono ouve "o senhor" e entende o que pode entender; o leitor do evangelho, que já leu Mateus 21:2 e vai ler Mateus 21:5, entende mais. Lucas 19:33-34 explora essa camada dupla com os "senhores" do jumentinho diante do "Senhor" que precisa dele (item 2).
"precisa deles"
Em Mateus, quem precisa é sempre o ser humano. O Pai "sabe do que vocês precisam" (Mateus 6:8, 6:32); "os que estão sãos não precisam de médico" (Mateus 9:12); a multidão no deserto "não precisa ir embora" (Mateus 14:16). A palavra é a da carência, do que falta. Aqui, pela primeira vez no evangelho, o sujeito da necessidade é "o Senhor".
Seja qual for a identidade do Senhor, a frase o põe em posição de quem depende. Não diz "o Senhor ordena", nem "o Senhor tem direito". Diz que lhe falta alguma coisa, e que a coisa é de outro. A entrada régia que vem a seguir começa com uma confissão de necessidade.
O tema volta no fim do evangelho com outra forma. Em Mateus 25:35-40 o Rei diz que teve fome e sede, e que quem deu de comer ao menor deu a ele. O Senhor que precisa não é invenção de um único versículo.
"e logo os enviará"
Até hoje, a ABC traduzia "e logo os devolverá". A tradução foi revista, porque o grego diz "enviará" e não diz quem envia, nem para onde. As duas leituras são antigas, e Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) já as apresentava lado a lado.
Primeira leitura: o dono enviará os animais. A frase não faz parte do recado ao dono; é Jesus falando aos discípulos, prevendo o resultado: digam isso, e ele logo os mandará. É a leitura de Meyer (Heinrich Meyer, exegeta alemão do século XIX) e do Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX), para quem o simples anúncio calaria qualquer recusa. Bengel (Johann Albrecht Bengel, filólogo luterano alemão do século XVIII), que lia o verbo no presente — "ele os envia" —, via nisso a certeza e a rapidez do que ia acontecer. A favor dela pesa a estrutura de Mateus, que separa a frase com uma partícula de transição (item 10) e não fala em volta.
Segunda leitura: os animais serão devolvidos. A frase faz parte do recado: o Senhor precisa deles e logo os mandará de volta. Seria a garantia de devolução que qualquer empréstimo pedia (item 2). A favor dela pesa o paralelo de Marcos: nas edições críticas, Marcos 11:3 traz "e logo o enviará de novo para cá", com uma palavra que só faz sentido como devolução. Mas essa palavra não está no Textus Receptus de Marcos, e não está em nenhum manuscrito de Mateus.
O verbo é o mesmo de Mateus 21:1. Na primeira leitura, os dois envios se respondem: Jesus envia os discípulos, o dono envia os animais, e a cena se fecha com um envio de cada lado. Na segunda, Jesus é o sujeito dos dois: envia os discípulos no começo e devolve os animais no fim.
Não é possível decidir. A tradução antiga escolhia a segunda leitura sem avisar; a atual deixa as duas abertas, como o grego as deixa.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Pessoas
Jesus. Continua a falar aos dois discípulos; o versículo completa a instrução começada em Mateus 21:2. É ele quem prevê a objeção e redige a resposta.
"Alguém". O personagem hipotético que pode questionar os discípulos. Mateus não diz quem seria. Marcos 11:5 fala em "alguns dos que estavam ali"; Lucas 19:33, nos donos do jumentinho.
"O Senhor". A figura cuja identidade está em disputa: Jesus, Deus, o dono dos animais ou um mestre respeitado (item 3).
Os donos. Nenhum evangelho lhes dá nome. A ideia de que fossem seguidores de Jesus é hipótese de comentaristas.
Os dois discípulos. Recebem, além da tarefa, a frase que justifica a tarefa. São mensageiros no sentido estrito: levam palavras que não são suas.
Eventos
A previsão da objeção. Jesus antecipa a reação natural de quem vê estranhos soltando o seu animal.
O cumprimento. Mateus 21:6 registra que os discípulos fizeram como Jesus mandou e Mateus 21:7, que trouxeram os dois animais. O que aconteceu na aldeia entre uma coisa e outra só os outros evangelhos contam.
O retorno dos animais. Nenhum evangelho narra o que aconteceu com a jumenta e o jumentinho depois da entrada em Jerusalém. A segunda leitura da frase final prevê a devolução; o texto não a registra.
5. Pontos de Ensino
Jesus conta com a resistência. A instrução não supõe que tudo correrá bem; prevê a pergunta do dono e dá a resposta antes. A cena não é ingênua sobre o que significa levar o que é dos outros.
A justificativa é uma necessidade, não um direito. A frase não invoca autoridade, lei ou ameaça. Invoca uma falta: "o Senhor precisa". Quem pede, nessa cena, pede a partir do que não tem.
A identidade do Senhor fica no ar, e é o leitor quem a completa. O dono ouviu um título que podia entender de vários modos. O leitor de Mateus, que sabe quem está no caminho, entende o título inteiro. O versículo fala em duas camadas ao mesmo tempo.
O texto não promete devolução, nem a exclui. A revisão da ABC é ela mesma uma lição de leitura: uma tradução pode decidir sem avisar, e o leitor só percebe quando compara com o original. "Enviará" é o que o grego diz; "devolverá" era interpretação.
O pedido é feito em nome de outro. Os discípulos não dizem "nós precisamos". O que os autoriza é o nome de quem os enviou. O padrão do enviado que fala em nome do que envia atravessa todo o Novo Testamento, e aparece aqui na sua forma mais simples.
6. Aspectos Filosóficos
"O Senhor precisa." Pode Deus — ou quem fala em nome dele — precisar de alguma coisa? A teologia clássica respondeu quase sempre que não: Deus é pleno, e nada lhe falta. Um pregador alemão do século XIV respondeu de outro jeito, e foi processado por isso.
Mestre Eckhart e o Deus que "tem de" vir
Mestre Eckhart (Eckhart de Hochheim, frade dominicano alemão, c. 1260-1328) foi professor em Paris e pregador na Renânia. Escreveu tratados em latim para os doutos e sermões em alemão para monjas e leigos, e foi nestes que disse as coisas que mais incomodaram. Em 1329, depois da sua morte, o papa João XXII condenou uma série de proposições extraídas dos seus escritos.
No pequeno tratado Do desprendimento, Eckhart afirma que o desprendimento — o estado da alma que se esvaziou de tudo o que não é Deus — "obriga Deus a vir" a ela. A frase é deliberadamente escandalosa. Deus, que não precisa de nada, é descrito como alguém que não pode deixar de se dar a quem abriu espaço. A necessidade, nessa imagem, não é carência de Deus; é a forma do amor dele quando encontra lugar vazio.
O "sem porquê"
Num dos seus sermões alemães mais conhecidos, Eckhart diz que, se alguém perguntasse à vida durante mil anos "por que você vive?", ela responderia apenas: "vivo porque vivo". A vida verdadeira, para ele, age "sem porquê" — não dá algo para receber outra coisa, não calcula, não exige motivo. É essa a postura que Eckhart pede à alma diante de Deus: entregar sem perguntar para quê.
E há uma terceira ideia, a do Gelassenheit ("deixar ir", em alemão — o desapego de quem solta o que tem), desenvolvida nas suas Conversas de instrução: quem quer receber Deus tem de deixar as coisas, e depois deixar a si mesmo.
O versículo lido com Eckhart
A frase que os discípulos levam não explica nada. Não diz para quê, não oferece pagamento, não mostra documento. Diz apenas: "o Senhor precisa deles". Se o dono entrega, entrega sem porquê — sem saber para que serviria a jumenta, sem saber se a teria de volta, se a frase final for lida como previsão e não como promessa.
E o lado de quem pede é igualmente eckhartiano. O Senhor da frase não se apresenta como quem tem direito, e sim como quem tem necessidade. Eckhart diria que essa necessidade não diminui quem a confessa; mostra que ele escolheu depender de quem lhe abre espaço.
Há ainda um acaso de vocabulário que Eckhart teria apreciado. A Bíblia latina que ele lia chama a aldeia de Mateus 21:2 de castellum ("castelo", "povoado fortificado"). É a mesma palavra de Lucas 10:38 — "Jesus entrou num certo castellum, e uma mulher o recebeu" —, sobre a qual Eckhart pregou um dos seus sermões mais famosos, lendo o castelinho como o lugar mais íntimo da alma, onde Deus entra quando ela está livre. Eckhart não liga os dois textos; a coincidência é da Vulgata.
Onde a leitura para
Eckhart não comentou este versículo, e a sua mística é uma das leituras mais ousadas e mais contestadas da tradição cristã. A Igreja condenou proposições dele precisamente por fórmulas que pareciam fazer Deus depender da alma. O versículo não diz nada sobre o interior do dono nem sobre a natureza de Deus; diz que alguém precisou de dois animais e mandou pedi-los. O que Eckhart oferece é um modo de pensar o paradoxo que a frase contém — o Senhor que precisa — sem resolvê-lo à força para nenhum dos lados.
7. Aplicações Práticas
Admitir a necessidade não é fraqueza. A frase posta na boca dos discípulos não esconde que falta alguma coisa. Muita gente prefere invocar direito, cargo ou urgência a dizer simplesmente "eu preciso". O versículo mostra o pedido feito pela via mais exposta, e ele funciona.
Quem fala em nome de outro deve usar as palavras dele. Os discípulos não improvisam o argumento: levam a frase que receberam. Quem representa alguém — um chefe, uma instituição, uma igreja — tem a mesma obrigação: não aumentar nem diminuir o que lhe mandaram dizer.
Desconfiar de traduções que decidem por você. A troca de "devolverá" por "enviará" mostra que uma única palavra pode carregar uma interpretação inteira. Quem estuda a Bíblia a sério compara versões e pergunta, diante de uma frase clara demais, se o original é tão claro assim.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
O dono deixou mesmo levar os animais só por causa de uma frase?
Mateus não mostra o dono. Marcos 11:6 diz que os presentes deixaram ir, e Lucas 19:34-35, que os donos não insistiram depois da resposta. Por que uma frase bastou é algo que nenhum evangelho explica. Conhecimento prévio de Jesus, respeito por um rabi famoso ou um acerto anterior são hipóteses de comentaristas.
Os animais foram devolvidos?
O texto não diz. Se a frase final for promessa, a devolução era o compromisso; se for previsão sobre o dono, a frase nem trata disso. Nenhum evangelho volta aos animais depois da entrada.
Por que a ABC mudou "devolverá" para "enviará"?
Porque o verbo grego significa "enviar", e não "devolver", e não tem sujeito expresso. "Devolverá" escolhia uma das duas leituras possíveis — a de que Jesus mandaria os animais de volta — e a apresentava como se fosse o texto. "Enviará" mantém a ambiguidade do original.
Se "o Senhor" designava Jesus, o dono sabia quem ele era?
Não há como saber. A palavra podia soar ao dono como "o mestre", "o dono" ou até "Deus". O evangelho trabalha nessa margem: o que o dono entende e o que o leitor entende não precisam coincidir.
Os discípulos chegaram a usar a frase?
Em Mateus, não se sabe; o relato salta da ordem para a execução. Em Marcos e Lucas, sim, e ela produz efeito imediato.
9. Conexão com Outros Textos
A mesma frase nos outros evangelhos
Marcos 11:3 — "Se alguém perguntar a vocês: 'Por que estão fazendo isso?', digam: 'O Senhor precisa dele, e logo o enviará de novo para cá.'"
A forma das edições críticas, com "de novo", que só pode significar devolução. O Textus Receptus de Marcos não tem essa palavra: "e logo o enviará para cá".
Lucas 19:33-34 — "Enquanto desamarravam o jumentinho, os seus donos lhes perguntaram: 'Por que vocês estão desamarrando o jumentinho?' Eles responderam: 'O Senhor precisa dele.'"
Os "donos" e "o Senhor" são, no grego, a mesma palavra no plural e no singular. Lucas não traz nenhuma frase sobre envio ou devolução.
O outro recado da última semana
Mateus 26:18 — "Ele respondeu: 'Vão à cidade, à casa de certo homem, e digam-lhe: O Mestre manda dizer: Meu tempo está próximo; é na sua casa que vou celebrar a Páscoa com os meus discípulos.'"
A mesma estrutura — enviados, dono sem nome, frase pronta —, com "o Mestre" no lugar de "o Senhor".
O vocabulário da necessidade em Mateus
Mateus 6:8 — "Portanto, não sejam semelhantes a eles, pois o seu Pai sabe do que vocês precisam antes que lhe peçam."
Mateus 9:12 — "Mas Jesus, ouvindo isto, disse-lhes: Os que estão sãos não precisam de médico, mas sim os que estão doentes."
Em todo o resto do evangelho, quem precisa é o ser humano. Mateus 21:3 é a exceção.
O Rei que precisou
Mateus 25:37 — "Então os justos lhe perguntarão: 'Senhor, quando foi que Te vimos com fome e Te demos de comer, ou com sede e Te demos de beber?'"
Mateus 25:40 — "E o Rei lhes responderá: 'Eu digo a verdade a vocês: sempre que fizeram isso a um destes meus irmãos mais humildes, foi a mim que fizeram.'"
O "Senhor" e o "Rei" que tiveram necessidade, e os que deram sem saber a quem davam.
O título na boca dos primeiros cristãos
1 Coríntios 16:22 — "Se alguém não ama o Senhor, seja maldito. Maranata!"
O "nosso Senhor" em aramaico, preservado sem tradução numa carta grega.
Filipenses 2:11 — "e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai."
A confissão que, poucas décadas depois, faria de "o Senhor" o título de Jesus por excelência.
O empréstimo na Lei
Êxodo 22:14 — "Se um homem pedir emprestado ao seu próximo um animal, e ele se ferir ou morrer sem que o dono esteja presente, terá de restituí-lo."
O fundo legal da leitura que vê na frase final uma promessa de devolução.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Se alguém disser algo a vocês, respondam que o Senhor precisa deles; e logo os enviará.”
Texto grego (Textus Receptus)
Καὶ ἐάν τις ὑμῖν εἴπῃ τι, ἐρεῖτε ὅτι Ὁ Κύριος αὐτῶν χρείαν ἔχει· εὐθέως δὲ ἀποστελεῖ αὐτούς.
Transliteração
Kai ean tis hymin eipē ti, ereite hoti Ho Kyrios autōn chreian echei; eutheōs de apostelei autous.
Análise palavra por palavra
Καὶ ἐάν τις ὑμῖν εἴπῃ τι — kai ean tis hymin eipē ti, "e se alguém disser algo a vocês". Ean com o subjuntivo aoristo eipē forma a condição eventual: pode acontecer ou não. Tis e ti são os indefinidos "alguém" e "algo", lado a lado. Marcos põe ali a pergunta concreta; Mateus a deixa sem conteúdo.
ἐρεῖτε — ereite, "direis", "vocês dirão". Futuro do indicativo do verbo "dizer". O futuro na segunda pessoa funciona aqui como ordem, do mesmo modo que nos mandamentos ("não matarás"). A ABC traduz pelo imperativo, "respondam", que é o sentido.
ὅτι — hoti, "que". Aqui não introduz uma explicação: abre a fala direta, como dois-pontos e aspas. É o que os gramáticos chamam de hoti de citação. O grego antigo não tinha aspas, e por isso a pergunta decisiva do versículo é onde a fala citada termina — se em "precisa deles" ou só no fim da frase.
Ὁ Κύριος — Ho Kyrios, "o Senhor". Substantivo com artigo, no nominativo. O artigo dá ao título o sentido absoluto: não "um senhor", mas "o Senhor". O campo da palavra, do dono do animal ao imperador e a Deus, está no item 2.
αὐτῶν — autōn, "deles". Pronome no genitivo plural. A sua posição, entre "o Senhor" e "necessidade", permite duas construções. Ligado a "necessidade", dá "tem necessidade deles", porque a expressão "ter necessidade" pede em grego o genitivo da coisa necessária; é a leitura de quase todas as traduções. Ligado a "o Senhor", dá "o senhor deles", isto é, "o dono deles" — a construção em que se apoia a leitura de Vincent Taylor. Marcos e Lucas têm o pronome no singular, no mesmo lugar, com a mesma ambiguidade.
O plural masculino tem uma explicação simples. A jumenta é feminina e o jumentinho é masculino; quando os dois são retomados juntos, o grego usa o masculino.
χρείαν ἔχει — chreian echei, "tem necessidade", "precisa". Chreia é a necessidade, a carência; com echō, "ter", forma a expressão comum de "precisar". É a mesma de Mateus 14:16, onde a multidão "não tem necessidade" de ir embora, e de Mateus 9:12, o médico de que os sãos não precisam.
εὐθέως δὲ — eutheōs de, "e logo". O advérbio do imediato, o mesmo de Mateus 21:2, seguido da partícula de.
A partícula pesa. Marcos liga a frase com kai, "e", que a mantém colada à anterior, dentro da fala. Mateus usa de, que marca passagem e certo contraste — algo como "e então". Não é prova, mas é indício de que, em Mateus, "logo os enviará" é um novo enunciado, de Jesus para os discípulos, e não a continuação do recado ao dono.
ἀποστελεῖ — apostelei, "enviará". Futuro do indicativo de apostellō, terceira pessoa do singular, sem sujeito expresso. É a forma do Textus Receptus e das edições críticas. O texto bizantino majoritário lê apostellei, presente, "envia" — uma letra de diferença no grego —, e era essa a forma que Bengel lia.
O sujeito é a questão do versículo. A gramática oferece dois candidatos: o "alguém" da condição, que é quem objeta e, portanto, o dono; e "o Senhor", o substantivo mais próximo. O verbo não decide entre eles. E o verbo não diz "de volta": isso só aparece em Marcos 11:3, e só nas edições críticas, com a palavra palin ("de novo").
αὐτούς — autous, "os", "eles". Pronome no acusativo masculino plural: os dois animais, pela mesma regra do autōn anterior.
11. Conclusão
Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.
A primeira: o título "o Senhor" foi escolhido para funcionar em mais de um nível. Para o dono da aldeia, podia significar o mestre, o patrão ou o próprio Deus; para o leitor de Mateus, que sabe quem está no caminho e vai ler a profecia seguinte, significa mais. O evangelho não força o dono a entender o que só o leitor pode entender.
A segunda: a frase põe o Senhor na posição de quem precisa. Não há ordem, direito ou ameaça; há uma necessidade confessada diante de quem pode supri-la. A cena régia que começa no versículo seguinte tem esse ponto de partida.
A terceira: o fim do versículo não diz quem envia os animais nem para onde. Ou o dono os manda sem demora, e a frase é previsão; ou eles serão devolvidos, e a frase é promessa. O grego de Mateus pende levemente para a primeira, o de Marcos crítico para a segunda, e nenhum dos dois encerra a questão. A tradução que decidia foi corrigida para deixar a dúvida onde o texto a deixa.













