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Mateus 21:4

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✍️ Por Alberto Adriano·4 de outubro de 2026·⏱️ 24 min de leitura·👁 12 acessos
Tudo isso aconteceu para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta:
Dois homens saindo a pé por uma estrada de terra em direção a um pequeno povoado de casas de pedra, numa encosta com oliveiras, enquanto um grupo os observa de longe.

Estudo


Tudo isso aconteceu para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta:

1. Introdução

A ordem foi dada, os dois discípulos ainda não saíram, e Mateus interrompe a cena para falar ao leitor. Antes de qualquer pessoa montar em qualquer animal, ele já diz o que aquilo significa: tudo isso aconteceu para cumprir uma palavra de profeta.

O versículo levanta quatro questões. Por que a explicação vem antes do fato, e não depois. De quem é o propósito do "para que" — de Deus, de Jesus ou de quem escreveu. Por que o profeta não tem nome, se a citação junta dois profetas. E o que significa a palavra "tudo", que a ABC restituiu hoje conforme o Textus Receptus e que liga este versículo a outros dois momentos do evangelho: o nascimento e a prisão.

2. Contexto Histórico e Cultural

Quando Mateus escreve "para que se cumprisse", ele não inventa a frase. Ela já existia na Bíblia que os judeus de língua grega liam, e existia com o mesmo verbo.

A fórmula nos livros dos Reis e das Crônicas

Em 1 Reis 2:27, Salomão afasta o sacerdote Abiatar do cargo, e o texto acrescenta o motivo: era "para cumprir a palavra que o SENHOR tinha dito a respeito da casa de Eli". A profecia estava em 1 Samuel 2:27-36, dita décadas antes, e a Septuaginta (a tradução grega da Bíblia hebraica, feita entre os séculos III e I a.C.) usa ali o mesmo verbo de Mateus, plēroō ("cumprir"). Em 2 Crônicas 36:21-22 e no começo de Esdras, o exílio dura setenta anos "para que se cumprisse a palavra do SENHOR pela boca de Jeremias", e o decreto de Ciro vem pelo mesmo motivo.

Os livros dos Reis são construídos sobre esse esquema. Um profeta fala; muitos capítulos depois, o texto registra que aconteceu "segundo a palavra do SENHOR". O caso mais extremo é o do altar de Betel: em 1 Reis 13:2 um homem de Deus anuncia que um rei chamado Josias queimará ali os ossos dos sacerdotes, e o cumprimento só é narrado em 2 Reis 23:16, cerca de três séculos depois na cronologia do próprio livro.

Há, porém, uma diferença que pesa. Em Reis e Crônicas a palavra cumprida foi dita como previsão: o profeta anunciou um fato futuro, e o fato veio. Em Mateus, boa parte dos textos "cumpridos" não era previsão quando foi escrita. Oseias 11:1 ("do Egito chamei o meu filho", citado em Mateus 2:15) fala do Êxodo, no passado. Mateus usa a moldura de Reis para outro tipo de leitura, e é por isso que a fórmula, para o leitor moderno, soa às vezes como se forçasse o texto antigo.

O profeta que não sabia: o comentário de Habacuque em Qumran

O modo de ler os profetas como se falassem do presente de quem lê já foi descrito em outros estudos deste site, com o nome que os manuscritos do mar Morto lhe dão. Um trecho específico desses manuscritos, porém, ilumina diretamente a expressão "o que fora dito pelo profeta". É a coluna VII do Comentário de Habacuque (o rolo conhecido como 1QpHab, achado na primeira caverna de Qumran em 1947).

Ali o comentarista afirma, em resumo, que Deus mandou Habacuque escrever o que viria sobre a última geração, mas não lhe deu a conhecer quando o tempo se completaria; e que o sentido das palavras dos profetas foi revelado depois ao Mestre de Justiça, o líder da comunidade. A ideia é clara: o profeta disse mais do que entendeu, e o sentido pleno pertence a quem vive o cumprimento.

É exatamente a pressuposição de Mateus 21:4. Zacarias não precisava saber de Jesus para que a palavra dele se "cumprisse" — o cumprimento é reconhecido de trás para a frente. A diferença entre Qumran e Mateus está no centro: em Qumran, o sentido gira em torno da comunidade e do seu mestre; em Mateus, em torno de uma pessoa e de cenas concretas da vida dela.

A hipótese de uma "escola" de Mateus

Em 1954 o biblista sueco Krister Stendahl publicou The School of St. Matthew ("A escola de São Mateus"), em que comparou as citações com fórmula de Mateus às dos rolos de Qumran. A tese dele: o texto dessas citações não segue fielmente nenhuma versão conhecida — nem o hebraico, nem a Septuaginta — e mostra escolhas deliberadas de palavras, o que sugere um trabalho de escribas especializados, uma espécie de oficina de leitura das Escrituras dentro da comunidade de Mateus.

A hipótese é discutida, e muitos estudiosos acham que ela pede um grupo organizado demais para o que os dados mostram. O dado que ela explica, porém, é sólido, e a citação que este versículo introduz é um dos melhores exemplos: ela mistura dois profetas e mistura o hebraico com o grego, como o estudo de Mateus 21:5 mostra em detalhe.

3. Análise Teológica do Versículo

“Tudo isso”

Tudo o quê? Até aqui, nada de extraordinário aconteceu na cena. Jesus chegou a Betfagé, mandou dois discípulos buscar uma jumenta com a cria e lhes deu uma resposta pronta para o caso de alguém perguntar. Ninguém montou ainda. A multidão ainda não estendeu as capas. O versículo 7, em que os animais chegam e os discípulos o fazem sentar-se, vem três versículos depois.

O "tudo", portanto, cobre o que foi ordenado, não o que foi visto. Mateus declara cumprida uma cena que ainda está em preparação. É como se a ordem de Jesus já contivesse o acontecimento inteiro, e a execução fosse só o desdobramento dela.

Esse lugar da fórmula é raro no evangelho. Nas outras citações de cumprimento, Mateus primeiro conta o fato e depois o comenta: a família foge para o Egito, e só então vem "do Egito chamei o meu Filho" (Mateus 2:15); Jesus vai morar em Nazaré, e só então "ele será chamado Nazareno" (Mateus 2:23). Aqui a ordem se inverte.

E há um único outro caso com a mesma arquitetura, que é o primeiro de todos. Em Mateus 1:20-21 o anjo dá uma ordem a José; em Mateus 1:22 vem "tudo isso aconteceu para que se cumprisse"; em Mateus 1:24 José "fez o que o anjo do Senhor lhe tinha ordenado". Ordem, citação, execução. Em Mateus 21:2-6 a sequência é idêntica: Jesus ordena, Mateus cita, os discípulos "fizeram como Jesus lhes havia ordenado". As duas cenas abrem com as mesmas quatro palavras gregas, e em ambas a citação fica suspensa entre a palavra dada e a palavra obedecida.

O efeito sobre o leitor é preciso: ele sabe o sentido da cena antes dos personagens. Os discípulos vão buscar dois animais sem saber de Zacarias. Quem lê já sabe.

O "tudo" que a ABC restituiu

A palavra "tudo" estava ausente da versão anterior da ABC, e voltou porque está no Textus Receptus. O texto crítico moderno a omite neste versículo. A diferença parece mínima, mas não é: com ela, a frase de Mateus 21:4 fica igual, palavra por palavra no começo, a duas outras do evangelho — Mateus 1:22, no nascimento, e Mateus 26:56, na prisão de Jesus ("tudo isto aconteceu para que se cumprissem as Escrituras dos profetas").

Lidas juntas, as três marcam a entrada de Jesus no mundo, a entrada dele em Jerusalém e a entrega dele aos que o prendem. Sem o "tudo", o versículo continua dizendo a mesma coisa, mas o fio que o amarra aos outros dois fica mais fraco. Que o fio seja intencional é hipótese; que ele exista no Textus Receptus é fato verificável (o item 10 mostra os manuscritos).

“aconteceu”

A voz desta frase não é de nenhum personagem. Ninguém na estrada de Betfagé diz "isto aconteceu para cumprir Zacarias". Quem diz é Mateus, de fora da cena, e o tempo do verbo grego entrega o lugar de onde ele fala: não é o passado simples da narrativa, é o tempo que descreve um fato concluído cujo efeito continua (item 10). Mateus escreve olhando para trás, de um ponto em que a entrada em Jerusalém já é passado e já tem sentido conhecido.

Isso combina com o que diz o Evangelho de João sobre a mesma cena: os discípulos "a princípio não entenderam isso", e só depois que Jesus foi glorificado "lembraram-se de que essas coisas estavam escritas a respeito dele" (João 12:16). João confirma de modo explícito o que o tempo verbal de Mateus deixa implícito: a leitura profética da entrada é lembrança, não percepção do momento.

“para que se cumprisse”

O "para que" indica propósito. A pergunta é: propósito de quem? Os comentaristas se dividem em três leituras, e cada uma tem apoio no texto.

Primeira leitura: o propósito é de Jesus. Ele sabia o texto de Zacarias e escolheu encená-lo, do mesmo modo que os profetas de Israel faziam gestos que eram mensagens. O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) e Benson (Joseph Benson, comentarista metodista inglês do início do século XIX) leem assim, e Ellicott (Charles John Ellicott, bispo e comentarista inglês do século XIX) resume: o propósito estava na mente do Mestre, não na dos discípulos. A favor dessa leitura está o próprio desenho da cena — a ordem detalhada, os dois animais, a resposta preparada —, que não parece improviso. Contra ela, o fato de que Mateus não diz em lugar nenhum que Jesus pensou em Zacarias.

Segunda leitura: o propósito é de Deus, e os atores não precisavam sabê-lo. É o modo de ler de 1 Reis 2:27: Salomão afastou Abiatar por razões políticas, e o texto diz que foi "para cumprir" uma palavra antiga. O rei não estava pensando em profecia nenhuma. Nessa leitura, o "para que" mostra a mão de Deus por trás de um ato humano, sem afirmar nada sobre a consciência de quem agiu.

Terceira leitura: o "para que" é o modo de Mateus dizer que a correspondência é real, vista depois. O Expositor's Greek Testament ("O Testamento Grego do Expositor", comentário britânico editado por William Robertson Nicoll no fim do século XIX) faz uma observação aguda: a correspondência entre a cena e Zacarias tem mais força como argumento justamente se Jesus não a armou de propósito. Um gesto encenado para cumprir uma profecia não prova nada; uma coincidência que ninguém planejou é que impressiona.

Não é possível decidir entre elas, e elas não se excluem por completo. O que o texto permite afirmar é pouco e firme: Mateus vê intenção, não acaso; e não diz de quem é a mente em que a intenção estava.

“o que fora dito pelo profeta”

O profeta não tem nome. E a citação que segue reúne dois: a primeira linha é de Isaías 62:11, o resto é de Zacarias 9:9. Mateus junta duas fontes debaixo de um só "o profeta", no singular.

O silêncio sobre o nome não é distração. Quando Mateus quer nomear, nomeia: "o profeta Isaías" em Mateus 4:14, 8:17 e 12:17; "o profeta Jeremias" em Mateus 2:17. Em Mateus 13:35 ele chama de "o profeta" o autor de um salmo, o Salmo 78. "O profeta", em Mateus, funciona como categoria — a voz da Escritura de Israel —, e não só como identificação de um autor.

Os copistas e tradutores antigos sentiram a dificuldade. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) registra que a versão etíope acrescenta "Isaías" ao versículo, porque a primeira linha da citação é de Isaías. E em Mateus 27:9 o problema aparece de forma muito mais aguda: o evangelho atribui a Jeremias um texto que está em Zacarias 11:12-13. Aqui, ao menos, Mateus evita o problema não dando nome nenhum.

Um último detalhe da expressão. Em Mateus 1:22 e Mateus 2:15, a fórmula diz quem falou de fato: "o que o Senhor dissera por meio do profeta". Aqui o Senhor não aparece; só o profeta. O sentido não muda — para Mateus, a palavra profética é sempre palavra de Deus —, mas a fórmula deste versículo é a mais curta que o evangelho usa para uma citação longa.

O que os outros evangelhos não fazem

Marcos 11 e Lucas 19 contam a mesma entrada sem citar profeta nenhum. Só Mateus e João trazem Zacarias — João depois que Jesus monta, Mateus antes de os discípulos saírem. A cena existia na tradição sem a citação, e a ligação com Zacarias é apresentada pelo próprio texto como leitura de evangelista.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Mateus, o evangelista

É a única pessoa que fala neste versículo, e fala de fora da cena. O evangelho que leva o seu nome não identifica o autor no próprio texto; a atribuição ao cobrador de impostos chamado Mateus (Mateus 9:9) vem da tradição da Igreja antiga, a partir de Pápias, no começo do século II, e é discutida pelos estudiosos modernos. O que o texto mostra com segurança é alguém que conhecia as Escrituras de Israel em hebraico e em grego e as citava com método.

"O profeta": Isaías e Zacarias

A citação junta dois livros. A primeira linha vem de Isaías 62:11, na parte final do livro de Isaías, que muitos estudiosos datam do período depois do exílio na Babilônia, quando Jerusalém estava sendo repovoada. O restante vem de Zacarias 9:9. Zacarias foi profeta em Jerusalém no fim do século VI a.C., na reconstrução do templo; os capítulos 9 a 14 do livro, porém, são de estilo e assunto diferentes dos oito primeiros, e há debate antigo sobre a data deles, como o estudo de Mateus 21:5 expõe.

Jerusalém e a semana da Páscoa

A cena se passa na subida para a cidade, dias antes da Páscoa, quando Jerusalém se enchia de peregrinos. Desde Mateus 16:21 Jesus vinha anunciando que precisava ir a Jerusalém e sofrer ali. A citação deste versículo é a primeira fórmula de cumprimento desde Mateus 13:35, e depois dela o evangelho só voltará a falar em cumprimento na paixão: no jardim (Mateus 26:54-56) e no caso das trinta moedas (Mateus 27:9).

5. Pontos de Ensino

O sentido chega antes do fato, mas é visto depois dele

Mateus põe a explicação antes da execução da ordem. O leitor sabe o que a cena significa enquanto os participantes ainda não sabem. A ordem do texto não é a ordem da compreensão: os discípulos só entenderam depois, e o evangelista escreve a partir desse depois.

Três vezes "tudo isso"

No Textus Receptus, a mesma abertura marca o nascimento (Mateus 1:22), a entrada em Jerusalém (Mateus 21:4) e a prisão (Mateus 26:56). Quem lê Mateus atento a essa frase encontra três portas no evangelho: a chegada ao mundo, a chegada à cidade e a entrega.

"Cumprir" em Mateus não é sempre "prever"

A fórmula vem dos livros dos Reis, onde o profeta anuncia e o fato confirma. Mateus a aplica também a textos que não eram previsões. Ler as citações de cumprimento como se todas fossem predições com data e endereço é atribuir a Mateus um método que ele não declara.

6. Aspectos Filosóficos

"Tudo isso aconteceu para que se cumprisse" é uma frase sobre o tempo. Ela afirma que um acontecimento do presente explica um texto do passado, e que o texto do passado explica o acontecimento do presente. Que tipo de pensamento faz essa ligação, e o que ele pressupõe sobre a história?

Northrop Frye e a tipologia

O crítico literário canadense Northrop Frye (1912-1991), um dos maiores teóricos da literatura do século XX, dedicou à Bíblia o livro The Great Code ("O Grande Código", 1982), cujo título vem de uma frase de William Blake: o Antigo e o Novo Testamento são o grande código da arte. Frye não escreveu como teólogo; escreveu como leitor de estrutura, interessado em saber como a Bíblia organiza o próprio sentido.

A resposta dele passa pela tipologia (a leitura em que um fato ou uma figura do passado, o "tipo", encontra o seu correspondente num fato posterior, o "antítipo"). Para Frye, a tipologia é uma figura de linguagem que se move no tempo. A metáfora comum liga duas coisas presentes ao mesmo tempo — "o rei é um leão". A tipologia liga duas coisas separadas por séculos — o rei que viria montado num jumento e o homem que entra em Jerusalém montado num jumento. E é a figura que organiza a Bíblia cristã inteira: tudo o que acontece no Novo Testamento é apresentado como realização de algo do Antigo.

O que a tipologia pressupõe

O ponto mais forte de Frye está no que ele diz sobre a direção do pensamento. A explicação causal, a da ciência e a da história comum, olha para trás: este fato aconteceu por causa daquele. A tipologia olha para a frente: aquele fato aconteceu em vista deste. Ela pressupõe que a história tem sentido e direção, que os acontecimentos não são só encadeados, mas orientados para um ponto. Por isso, para Frye, a tipologia é menos um método de leitura do que uma teoria da história — e uma teoria ligada à esperança, porque o sentido de cada momento está sempre um pouco à frente dele.

Mateus 21:4 é tipologia em estado puro, e a fórmula "para que" é o traço gramatical dessa teoria. O "para que" de Mateus não diz "por causa de Zacarias os discípulos foram buscar a jumenta". Diz que a cena e o texto de Zacarias estão orientados um para o outro.

O círculo dos dois espelhos

Frye também apontou o problema, e com franqueza. Se o Novo Testamento se prova verdadeiro porque cumpre o Antigo, e o Antigo ganha o seu sentido verdadeiro porque é cumprido no Novo, os dois se sustentam um ao outro, como dois espelhos frente a frente — cada um reflete o outro, e nenhum dos dois reflete diretamente o mundo de fora. Para Frye, isso não destrói a Bíblia: mostra que ela funciona como uma obra fechada sobre si mesma, que precisa ser lida por dentro antes de ser julgada por fora.

Aplicado a este versículo, o círculo fica visível. Quem já crê que Jesus é o rei de Zacarias vê na entrada em Jerusalém a confirmação. Quem não crê vê um evangelista lendo Zacarias à luz do que já cria. A cena não decide a questão por si mesma; ela só tem força dentro do círculo.

O limite da leitura de Frye

Frye trata a Bíblia como estrutura literária e deixa de lado a pergunta histórica — se Jesus de fato entrou montado num jumento, e se fez isso de propósito. Para Mateus, essa pergunta não é indiferente: ele afirma que aconteceu. O que a leitura de Frye oferece ao versículo é a descrição exata do que Mateus faz: não registra uma coincidência, afirma que o tempo tem forma. Se a afirmação é verdadeira, é questão de fé; que é isso que o texto afirma, é questão de leitura.

7. Aplicações Práticas

Cuidado com o "para que" aplicado à própria vida

É comum ouvir alguém explicar um acontecimento pessoal com a fórmula de Mateus: "isso aconteceu para que…". O versículo não autoriza esse uso como método geral. Mateus aplica a fórmula a cenas da vida de Jesus, ligadas a textos determinados, e mesmo assim só reconhece o sentido depois que tudo passou. Quem atribui propósito divino a um fato da semana passada está fazendo algo que nem os discípulos fizeram na hora — e corre o risco de chamar de vontade de Deus o que é só a própria interpretação.

Entender depois não é falha

Os discípulos buscaram a jumenta sem saber de Zacarias, e só entenderam a cena anos depois. O texto não os censura por isso. Há coisas que só ganham sentido com distância, e a pressa em entender tudo enquanto acontece não aparece no evangelho como virtude.

Conferir o que se cita

Mateus cita dois profetas sob um nome só, e o leitor do evangelho é convidado, por isso mesmo, a abrir Isaías e Zacarias e ler o que eles dizem. Quem lê a Bíblia citada de segunda mão perde exatamente o que este versículo pede: a comparação entre o texto antigo e a cena nova.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Jesus conhecia o texto de Zacarias?

Quase certamente sim: era texto profético conhecido, e a tradição judaica posterior o leu como profecia do Messias. Saber o texto, porém, não é o mesmo que encená-lo de propósito, e o evangelho não informa o que Jesus tinha em mente ao mandar buscar os animais.

Se a citação foi acrescentada pelo evangelista, a cena é inventada?

Não decorre uma coisa da outra. Marcos e Lucas contam a mesma entrada sem nenhuma citação, o que indica que a cena circulava antes e independentemente da leitura profética. A acusação mais forte — a de que Mateus teria criado o segundo animal a partir do texto de Zacarias — é examinada no estudo de Mateus 21:5.

Uma profecia "cumprida" por alguém que a conhece vale como prova?

É a objeção mais séria, e ela foi feita desde a Antiguidade. Se Jesus montou um jumento porque leu Zacarias, a coincidência não demonstra nada. A resposta depende do que se espera da fórmula: como prova de previsão, ela é fraca; como afirmação de que o gesto de Jesus tem o sentido que Zacarias descreve — um rei sem armas —, ela não perde força se o gesto foi deliberado. Ao contrário: nesse caso, Jesus estaria escolhendo o tipo de rei que queria ser.

O erro de nome em Mateus 27:9 compromete as outras citações?

Não as compromete, mas impede de tratá-las como infalíveis em cada detalhe. Mateus 27:9 atribui a Jeremias um texto que está em Zacarias; as explicações propostas (uma lembrança de Jeremias 32, o costume de citar por um nome principal) são discutidas e nenhuma é consenso. O próprio Mateus 21:4, ao não dar nome nenhum, mostra uma prudência que ali faltou.

9. Conexão com Outros Textos

As três vezes de "tudo isso"

Mateus 1:22 — "Tudo isso aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor tinha dito pelo profeta:"

A mesma abertura, no nascimento. E com a mesma posição: entre a ordem do anjo e a obediência de José.

Mateus 1:24 — "Quando José despertou do sono, fez o que o anjo do Senhor lhe tinha ordenado e recebeu sua esposa;"

A execução que fecha a primeira moldura, como Mateus 21:6 fecha a segunda.

Mateus 26:56 — "Mas tudo isto aconteceu para que se cumprissem as Escrituras dos profetas". Então todos os discípulos o abandonaram e fugiram.

A terceira ocorrência, na prisão. Aqui não há profeta nomeado nem citação: são "as Escrituras" inteiras.

A fórmula antes de Mateus

1 Reis 2:27 — "Assim Salomão afastou Abiatar do sacerdócio do SENHOR, para cumprir a palavra que o SENHOR tinha dito em Siló a respeito da casa de Eli."

O ato político de um rei lido como cumprimento de uma palavra antiga — sem que o rei pensasse nela.

2 Crônicas 36:21 — "para que se cumprisse a palavra do SENHOR pela boca de Jeremias, até que a terra tivesse desfrutado os seus sábados."

O exílio inteiro explicado pela fórmula.

O sentido reconhecido depois

João 12:16 — "Os seus discípulos não entenderam isso a princípio; mas, quando Jesus foi glorificado, lembraram-se de que essas coisas estavam escritas a respeito dele, e de que assim lhe tinham feito."

O testemunho mais claro de que a leitura profética da entrada foi feita olhando para trás.

"O profeta" sem nome, e com nome errado

Mateus 13:35 — "para se cumprir o que foi dito pelo profeta: 'Abrirei a minha boca em parábolas; anunciarei coisas escondidas desde a fundação do mundo.'"

"O profeta", aqui, é o autor do Salmo 78.

Mateus 27:9 — "Cumpriu-se então o que fora dito pelo profeta Jeremias: 'Tomaram as trinta moedas de prata, o preço daquele que foi avaliado, a quem alguns dos filhos de Israel avaliaram,'"

O texto está em Zacarias 11:12-13. É o outro lugar em que Mateus cita Zacarias, e o único em que o nome do profeta não corresponde ao livro.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Tudo isso aconteceu para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta:

Texto grego (Textus Receptus)

Τοῦτο δὲ ὅλον γέγονεν, ἵνα πληρωθῇ τὸ ῥηθὲν διὰ τοῦ προφήτου, λέγοντος,

Transliteração

Touto de holon gegonen, hina plērōthē to rhēthen dia tou prophētou, legontos,

Análise palavra por palavra

Τοῦτο δὲ — touto de, "isto, porém". Pronome demonstrativo neutro singular e a partícula de, que marca passagem para outra coisa. O neutro não se refere a nenhuma palavra anterior: aponta para a cena inteira. A ABC não traduz o de, como é costume em português, porque aqui ele só sinaliza que a narrativa parou e outra voz entrou.

ὅλον — holon, "inteiro, todo". Adjetivo neutro, concordando com touto: literalmente "isto todo", "isto inteiro".

É a palavra que a ABC restituiu. O Textus Receptus a traz, com a maioria dos manuscritos bizantinos (a tradição de cópia que predominou na Igreja de língua grega e serviu de base às edições impressas do século XVI). As edições críticas modernas a omitem neste versículo, seguindo manuscritos mais antigos que não a têm. A forma longa iguala o começo de Mateus 21:4 ao de Mateus 1:22 e de Mateus 26:56, onde Τοῦτο δὲ ὅλον γέγονεν está em todas as edições. Por isso mesmo há duas explicações possíveis para a variante, e não é possível decidir entre elas: ou o holon é original e foi perdido por alguns copistas, ou é um acréscimo de copistas que conheciam as outras duas frases e completaram esta por elas. A regra de crítica textual de que o copista tende a igualar passagens parecidas favorece a segunda; o peso numérico dos manuscritos favorece a primeira.

γέγονεν — gegonen, "aconteceu", "tem acontecido". Perfeito do indicativo ativo de ginomai, "tornar-se, acontecer". O perfeito grego descreve uma ação concluída cujo resultado permanece no presente de quem fala.

Dentro de uma narrativa contada em aoristo (o passado simples do grego), o perfeito chama a atenção. Gramáticos discutem se ele tem aqui todo o peso do perfeito ou se funciona como simples passado, uso que o grego da época já admitia. Mesmo na leitura fraca, a forma é a mesma das outras duas fórmulas com "tudo isso" e marca a frase como comentário de quem escreve, não como parte da cena.

ἵνα — hina, "para que". Conjunção que introduz o subjuntivo de finalidade. Há debate antigo sobre se, nas fórmulas de cumprimento, o hina indica propósito ("a fim de que") ou apenas resultado ("de modo que"). O grego da época admite os dois usos. A leitura de propósito é a mais natural e a mais seguida; a de resultado foi proposta justamente para evitar a ideia de que os fatos foram produzidos para caber no texto.

πληρωθῇ — plērōthē, "fosse cumprido". Aoristo do subjuntivo passivo de plēroō. A imagem de "encher", que está na raiz do verbo, foi desenvolvida no estudo de Mateus 13:35. Aqui cabe só o dado da distribuição: Mateus usa o verbo cerca de dezesseis vezes, mais do que qualquer outro evangelho, e quase sempre neste sentido de Escritura que se cumpre.

τὸ ῥηθὲν — to rhēthen, "o que foi dito". Artigo neutro e particípio aoristo passivo de um verbo de dizer. A palavra profética aparece como coisa dita uma vez, no passado, e que permanecia à espera.

διὰ τοῦ προφήτου — dia tou prophētou, "por meio do profeta". Preposição de instrumento com genitivo.

Falta aqui o que Mateus 1:22 e Mateus 2:15 têm: hypo tou Kyriou, "pelo Senhor", que indica o autor da palavra antes do instrumento. A fórmula de Mateus 21:4 é a forma curta, a mesma de Mateus 13:35 — e de Mateus 4:14 e 8:17, onde porém o profeta é nomeado. O singular "do profeta" cobre dois livros — Isaías e Zacarias —, e o artigo definido não indica nenhum dos dois.

λέγοντος — legontos, "que diz", "dizendo". Particípio presente ativo de legō, no genitivo, concordando com "profeta". O tempo presente faz o profeta falar agora: a fórmula não diz "que disse", e sim "que diz". A tradução por dois-pontos, usada pela ABC, é a solução corrente em português.

11. Conclusão

Com base no que foi visto, o versículo leva a três conclusões.

A primeira: Mateus 21:4 é comentário, não cena. Ninguém na estrada de Betfagé pronuncia essa frase; é o evangelista quem a pronuncia, de um ponto posterior, e o texto deixa isso marcado no lugar da frase e no tempo do verbo. A ligação entre a entrada em Jerusalém e Zacarias é uma leitura feita depois, e o próprio Novo Testamento, em João 12:16, diz que foi assim.

A segunda: o lugar da fórmula diz mais do que a fórmula. Posta entre a ordem de Jesus e a obediência dos discípulos, como em Mateus 1:22 entre a ordem do anjo e a obediência de José, ela faz do cumprimento algo que já está contido na palavra dada. Na lógica de Mateus, o que Jesus manda já é o acontecimento; a execução apenas o mostra.

A terceira: o versículo afirma intenção sem dizer de quem. Deus, Jesus e o evangelista são três respostas possíveis, cada uma com apoio, e o texto não escolhe. O que ele não admite é a quarta resposta — o acaso. Para Mateus, a cena tem forma, e essa forma vem de antes dela.

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