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Mateus 22:43

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✍️ Por Alberto Adriano·21 de outubro de 2026·⏱️ 27 min de leitura·👁 14 acessos
Ele lhes disse: “Então, como é que Davi, falando pelo Espírito, o chama de ‘Senhor’? Pois ele diz:
Jesus de pé no pátio do templo citando um salmo de memória, com fariseus atentos e peregrinos ao redor

Estudo


Ele lhes disse: “Então, como é que Davi, falando pelo Espírito, o chama de ‘Senhor’? Pois ele diz:

1. Introdução

A objeção é construída com a resposta deles, não contra ela.

"Então" indica que o que vem é consequência do que acabou de ser dito: vocês disseram filho de Davi, logo responda-me isto.

O versículo afirma três coisas sobre o texto que vai citar — que é de Davi, que foi dito sob o Espírito, e que nele o Messias é chamado de Senhor. Cada uma dessas três afirmações é discutida, e a terceira é a que produz o impasse.

Num mundo em que a honra subia do descendente para o antepassado, um pai chamando o próprio descendente de "meu senhor" era uma inversão que não tinha explicação pronta.

2. Contexto Histórico e Cultural

Como um salmo recebia um autor

Mais de setenta salmos trazem, antes do primeiro verso, uma pequena linha com o nome de Davi. Em hebraico ela é le-David, duas palavras, e o problema está na primeira: a partícula le- é uma das mais elásticas da língua. Ela pode indicar autoria ("de Davi"), destinação ("para Davi"), assunto ("a respeito de Davi") ou pertencimento a uma coleção ("do repertório davídico"). O hebraico não distingue, e nenhuma vocalização ou acento resolve.

Isso não é descoberta moderna. Ellicott (Charles John Ellicott, bispo e comentarista inglês do século XIX), comentando este versículo, registra que o único modo de dar outro sentido à cena seria supor que o salmo foi escrito "não por Davi, mas a respeito dele" — e ele já conhecia essa possibilidade no século XIX. O que mudou depois foi o peso que ela ganhou.

Também não é invenção cristã nem tardia. A tradução grega do Antigo Testamento, feita entre os séculos III e I a.C., já traz as atribuições nos títulos dos salmos, e às vezes acrescenta informações que o hebraico não tem. Quando Jesus fala, a ligação entre Davi e o saltério tinha séculos de circulação escrita.

O que os textos de Qumran dizem de Davi como autor

O rolo dos Salmos achado na caverna 11 de Qumran, copiado no século I, termina com um texto em prosa que os editores chamaram de "Composições de Davi". Ele faz uma contabilidade: Davi escreveu três mil e seiscentos salmos, mais cânticos para cantar diante do altar no holocausto diário de cada um dos trezentos e sessenta e quatro dias do ano, mais cinquenta e dois para os sábados e trinta para as luas novas, as assembleias solenes e o Dia da Expiação. O total que o próprio texto soma é 4.050. E o que importa aqui é a cláusula final: todas essas composições, diz o rolo, Davi as falou por profecia que lhe foi dada de diante do Altíssimo.

Esse é um documento judaico, anterior ao Novo Testamento, que descreve exatamente o que Jesus pressupõe: Davi compondo não como poeta, mas como profeta, sob dádiva recebida. A mesma ideia aparece no Antigo Testamento tardio — 1 Crônicas 25:1 fala dos músicos do templo que "profetizavam" com harpas, saltérios e címbalos — e Flávio Josefo (historiador judeu do século I) trata Davi como quem recebia o espírito divino. Poucas semanas depois da cena, em Jerusalém, Pedro dirá a mesma coisa com três palavras: Davi "era profeta" (Atos 2:30).

A honra subia, nunca descia

O argumento que vem depende de uma regra social que o texto não enuncia porque ninguém precisava enunciá-la.

Naquela sociedade, a honra fluía numa direção só: do descendente para o antepassado. O filho devia ao pai respeito, obediência e sustento na velhice; o pai não devia nada equivalente ao filho. A posição de alguém na família se media pela distância em relação ao fundador da linha, e quanto mais antigo, mais honrado. Era por isso que "filho de Davi" era elogio: ligava alguém ao maior nome da história nacional.

Dentro dessa regra, "meu senhor" era o tratamento de quem está abaixo para quem está acima. Abraão é chamado assim pelos heteus; Judá se dirige a José desse modo sem saber quem é; Abigail o usa falando com Davi antes de ele ser rei. Nenhum desses casos é de pai para filho, e não há exemplo no Antigo Testamento de um antepassado chamando o seu descendente de "meu senhor".

É esse vazio que torna a pergunta de Jesus uma pergunta de verdade, e não um jogo de palavras. Ele não está apontando uma esquisitice de estilo. Está mostrando que a frase do salmo rompe uma hierarquia que organizava a família, a herança, a sucessão e o próprio sentido do título que eles acabaram de usar.

Discutir com dois textos

O formato do argumento era reconhecido. Nas escolas judaicas, uma tese sustentada por um texto se derrubava, ou pelo menos se abalava, com um segundo texto que não combinasse com ela — e o mérito ficava com quem conseguisse dizer como os dois podiam valer juntos. A pergunta não era "qual dos dois está certo", porque nenhum podia estar errado; era "como se lê isto de modo que os dois fiquem de pé".

Jesus faz exatamente isso. Aceita o primeiro texto, que é a promessa dinástica atrás do "filho de Davi", e apresenta o segundo, que é o salmo. E então para, sem oferecer a conciliação. Para quem discutia naquele formato, o silêncio final do capítulo não é falta de educação: é a derrota reconhecida, porque a tarefa do adversário era justamente harmonizar, e ele não harmonizou.

3. Análise Teológica do Versículo

"Ele lhes disse: 'Então, como é que Davi'"

A palavra decisiva da abertura é "então". Ela não introduz uma correção, introduz uma dedução: aceito o que vocês disseram, e é por aceitá-lo que eu pergunto o que pergunto. Se a resposta tivesse sido outra, a pergunta não existiria. Jesus não derruba a tese dos fariseus — ele se apoia nela para levantar o peso seguinte.

O "como" que vem a seguir não pede método. É a forma padrão da objeção tirada de um segundo texto: como pode ser X, se está escrito Y? Quem pergunta assim não espera uma explicação de procedimento; espera que o outro mostre de que modo as duas coisas cabem juntas. É a forma da pergunta, e não o seu conteúdo, que já põe os fariseus na posição de quem tem de conciliar.

"falando pelo Espírito"

Três palavras que carregam duas afirmações: que Davi é o autor do que vem, e que o que vem foi dito sob ação divina.

Comece pela segunda. O que exatamente "pelo Espírito" modifica é disputado entre os comentaristas, e a disputa não é de detalhe. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) insiste que a expressão qualifica o verbo "chama", não o título "Senhor": descreve o estado de Davi ao falar, e não a natureza do Messias de quem ele fala. Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX) lê no mesmo sentido — por inspiração do Espírito Santo, Davi falando como profeta. Bengel (Johann Albrecht Bengel, filólogo luterano alemão do século XVIII) tira a consequência curta: se foi dito no Espírito, então é verdadeiro. E Meyer (Heinrich Meyer, exegeta alemão do século XIX) registra uma leitura minoritária, segundo a qual o Espírito mencionado seria o de Jesus ao falar, e não o de Davi ao escrever — ele a considera possível e não a adota.

A diferença importa porque decide o que o argumento está pedindo. Na leitura de Gill e Barnes, Jesus pede que se leve a sério a frase de um profeta: não é opinião de rei antigo, é palavra recebida, e por isso não pode ser dispensada como figura poética. Essa é a leitura que o resto do versículo favorece, porque o que vem a seguir é a citação, introduzida como coisa que Davi "diz".

Agora a primeira afirmação, que é a mais difícil. Jesus argumenta sobre a premissa de que Davi escreveu o salmo. Essa premissa é compartilhada: ninguém na sala a contesta, e todo o peso da pergunta depende dela. Mas compartilhar uma premissa não é o mesmo que demonstrá-la, e os próprios comentaristas antigos viram isso. Meyer escreve que Jesus assume a suposição corrente e que isso, por si, não a prova. O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) vai adiante e sustenta que Jesus não reivindica formalmente a autoria davídica, e que o argumento funcionaria de todo modo — porque o que ele usa é o texto como a tradição o lia.

Aqui é preciso dizer o que a pesquisa moderna propõe, sem amaciar. A leitura hoje mais difundida entre os estudiosos é que o Salmo 110 é um oráculo de entronização: um profeta ou sacerdote da corte fala ao rei que está sendo coroado, e o "meu senhor" da frase é o rei vivo, não um Messias futuro. Se for assim, quem diz "meu senhor" não é Davi, e sim um funcionário do templo falando a um descendente de Davi — e o enigma se desfaz inteiro, junto com o argumento tal como está formulado. A proposta é séria, é majoritária em boa parte da academia e não pode ser descartada com um gesto.

O que se pode pôr do outro lado da balança são quatro dados, e nenhum deles é decisivo. Primeiro: a atribuição a Davi está no próprio título do salmo e é pré-cristã, pois a tradução grega já a traz. Segundo: a tradição judaica antiga não só atribuía o salmo a Davi como o lia em chave messiânica, e disso há vestígio nos textos rabínicos. Terceiro: os interlocutores de Jesus, que tinham todo o interesse em derrubar o argumento, não atacaram a premissa — não disseram "mas o salmo não é de Davi", nem "o senhor ali é Salomão". Isso não prova a autoria; prova que a autoria não estava em disputa naquele ambiente. Quarto: nos séculos seguintes a leitura judaica do salmo se desloca, e Davi deixa de ser o falante — o que pode ser desenvolvimento interno da interpretação ou reação ao uso cristão do texto, e não há como decidir entre as duas coisas.

O honesto é parar aqui. Não é possível determinar quem escreveu o Salmo 110. O que o versículo mostra é um argumento construído sobre uma premissa que os presentes aceitavam, e a força dele, na cena, vem desse acordo. Para quem lê hoje, isso deixa duas perguntas separadas: a histórica, sobre a autoria, que permanece aberta; e a do texto, sobre o que Jesus faz com a frase, que não depende da primeira.

"o chama de 'Senhor'?"

O centro do versículo. Não é um título que alguém dá a Jesus: é um título que o antepassado dá ao descendente, e é essa direção que não se encaixa.

Chamar alguém de "meu senhor" era reconhecer-se abaixo dele. Bengel põe o dedo nisso: a palavra expressa sujeição, e a alegria de Davi em ter o Cristo como seu Senhor é um bem maior do que a honra de ser antepassado dele. Barnes faz a ressalva necessária no sentido oposto: o título indica superioridade e não necessariamente divindade — reis, patrões e maridos eram chamados assim, e nada disso os tornava divinos.

As duas observações são compatíveis, e juntas delimitam o que o argumento consegue e o que não consegue. Ele consegue mostrar que a relação entre Davi e o Messias não é a relação normal entre antepassado e descendente, porque nela o mais antigo se põe abaixo do mais novo. Não consegue, só com isso, estabelecer que o Messias seja divino — essa conclusão exige outro passo, que a citação do versículo seguinte vai dar ao mostrar onde o tal senhor é convidado a sentar-se.

A pergunta sobre o que a palavra "Senhor" significa nas várias bocas do evangelho, e as quatro leituras possíveis quando ela aparece sem explicação, estão desenvolvidas no estudo de Mateus 21:3. O que este versículo acrescenta é o problema particular de haver dois senhores na mesma frase citada, e de um deles ser chamado assim por quem lhe deu origem.

"Pois ele diz:"

A fórmula de citação é mínima. Jesus não nomeia o salmo, não diz "está escrito", não indica capítulo nem coleção. Diz apenas "ele diz", no presente, e cita. O presente é significativo: o texto não é tratado como registro do que Davi disse um dia, e sim como fala em vigor. E a ausência de referência confirma o que o fundo cultural já sugeria — o auditório conhecia o verso de cor, e qualquer indicação a mais seria desnecessária.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Davi, agora como autor

No versículo anterior Davi era o antepassado; aqui é o escritor. A mudança de papel é o que permite o argumento: a mesma pessoa que dá a linhagem ao Messias fornece o texto que a questiona. Davi aparece em Mateus dezessete vezes, quase sempre como o nome da linhagem; este é o único lugar do evangelho em que ele é citado como autor de um texto, e o único em que se afirma algo sobre o modo como ele escreveu.

O Espírito

O Espírito entra na cena como agente de um ato antigo, não da cena presente. Não há manifestação, não há sinal, não há descida. A menção serve para dizer de que tipo de palavra se trata — aquela que vem de fora de quem a pronuncia. Em Mateus o Espírito aparece no batismo, na tentação, nos exorcismos, na promessa aos perseguidos e na advertência sobre a blasfêmia; aqui, e só aqui, aparece ligado à autoria de uma passagem da Escritura.

O salmo que ninguém nomeia

O texto que está sendo citado é o Salmo 110, que a tradição judaica e cristã atribui a Davi. Ele é curto, sete versos, e foi o trecho do Antigo Testamento mais usado pelos escritores do Novo — o primeiro verso aparece citado ou aludido em Mateus, Marcos, Lucas, Atos, Romanos, 1 Coríntios, Efésios, Colossenses, Hebreus e Apocalipse. Nesta cena ele é introduzido sem nome e sem referência.

Os fariseus, calados pela primeira vez

Entre o fim do versículo anterior e o fim do capítulo, o grupo não diz mais nada. A última palavra deles no evangelho foi "De Davi". Daqui em diante Mateus registra só o que eles não conseguiram fazer.

O lugar e a hora

Os pátios do templo, no mesmo dia. A citação é feita em voz alta, diante de peregrinos, num lugar onde o salmo era cantado pelos levitas.

5. Pontos de Ensino

Um argumento feito com a resposta do outro

Jesus não contradiz os fariseus; parte do que eles afirmaram. "Então" é a palavra inteira da lição: quem quer ser ouvido começa aceitando o que o outro disse de verdadeiro. Objeção que recusa a premissa do adversário produz briga; objeção construída sobre ela produz pensamento.

Premissa compartilhada não é premissa provada

O argumento funciona porque todos na sala aceitavam que Davi escreveu o salmo. Funcionar não é o mesmo que estar demonstrado, e os comentaristas antigos já faziam a distinção. Vale como critério geral: quando um raciocínio convence todo mundo numa sala, convém saber qual é o ponto que ninguém está examinando.

Palavra recebida se lê devagar

"Falando pelo Espírito" é um pedido de atenção: isto não é figura de linguagem de um poeta antigo. O que a cena cobra dos especialistas não é informação nova — é que levem a sério uma frase que eles cantavam havia a vida inteira. Texto decorado é texto que se deixou de ler.

O detalhe que não se encaixa é o que ensina

Tudo no salmo combinava com a expectativa deles, menos duas palavras: "meu senhor". Foi o único ponto fora do lugar, e é o ponto de onde sai a pergunta. Quem lê procurando confirmação passa por cima desses detalhes; quem lê procurando entender para neles.

A honra não anda só para trás

A cultura da cena media a dignidade de alguém pela antiguidade da linha de que vinha. A frase do salmo rompe isso. Não é pouco: é a afirmação de que a grandeza de uma pessoa pode não vir de onde ela vem.

6. Aspectos Filosóficos

O que uma fonte polêmica prova

Este versículo faz uma afirmação histórica verificável em princípio e inverificável na prática: que Davi, falando sob o Espírito, chamou o Messias de Senhor — e, por trás dela, a de que os ouvintes aceitavam essa leitura do salmo. O segundo ponto é o que sustenta a cena. Se os fariseus tivessem outra leitura disponível, bastaria apresentá-la.

Como se estabelece o que um grupo pensava há dois mil anos, quando quase todas as fontes são posteriores e todas têm lado? O problema é filosófico antes de ser histórico, e o historiador do judaísmo antigo Peter Schäfer passou a carreira dentro dele.

Em Zwei Götter im Himmel ("Dois deuses no céu", 2017; em inglês, Two Gods in Heaven, 2020), Schäfer examina a ideia de uma segunda figura ao lado de Deus nos textos judaicos da Antiguidade. A conclusão dele é cautelosa: a figura que aparece em Daniel 7 se explica melhor como um ser angélico supremo — possivelmente Miguel — do que como um segundo deus, e as concepções de dois poderes no céu, embora reais e espalhadas por vários textos do Segundo Templo, não formavam a doutrina estabelecida que às vezes se lhes atribui. Em 2012 ele resumira a objeção de método ao criticar a tese de Daniel Boyarin: o fato de um texto rabínico citar uma passagem bíblica não significa que ele esteja respondendo a um debate sobre duas potências divinas; a passagem pode ter, no seu contexto, outra função inteiramente.

A regra que está em jogo

A questão por trás disso é uma das mais antigas da teoria do conhecimento histórico. Uma polêmica contra uma ideia é prova de que alguém a defendia? À primeira vista sim: ninguém ataca o que ninguém diz. Mas polemistas constroem adversários — exageram posições, juntam oponentes diferentes numa figura só, atacam a versão mais frágil de uma tese para derrubá-la melhor. E quando o único vestígio de uma posição é o ataque que ela recebeu, não há como separar o que foi defendido do que foi atribuído.

Essa dificuldade tem consequência direta para o leitor deste versículo. A afirmação "os judeus do primeiro século liam o Salmo 110 como texto messiânico" aparece em comentários como se fosse dado estabelecido, e a prova que se costuma oferecer são escritos rabínicos de séculos depois. Schäfer, e com ele boa parte dos historiadores do judaísmo, exige mais: um texto do século III não documenta o século I, e a mudança de leitura que se observa nos textos posteriores pode ser interna ao judaísmo, sem relação nenhuma com a controvérsia cristã.

A testemunha que o próprio texto oferece

Resta um dado, e ele é do tipo que a história aprecia: o silêncio do adversário. Mateus registra que ninguém contestou a premissa. Argumentos a partir do silêncio são frágeis, porque o silêncio tem muitas causas, e porque o texto que registra o silêncio é parte interessada. Mas é o que há, e é de um gênero diferente do dos escritos tardios: não é um rabino do século III falando do seu tempo, é um escrito do primeiro século dizendo o que não foi dito numa discussão.

Dois falantes numa frase

Há um segundo problema filosófico no versículo, e ele é de outra ordem. Se Davi fala "pelo Espírito", quem é o autor do que foi dito? A resposta tradicional é que são os dois, e isso levanta uma questão que vai muito além da teologia: um falante pode significar mais do que sabe que está dizendo? O autor de um texto é a autoridade final sobre o que ele quer dizer, ou o sentido pode exceder a intenção de quem escreveu?

A cena trabalha com a segunda hipótese sem a formular. Jesus não diz que Davi entendeu o alcance do que escreveu. Diz que Davi disse aquilo sob o Espírito, e extrai da frase uma consequência que o texto do salmo não enuncia. Se Davi tinha em mente o que Jesus extrai, o versículo não informa — e é prudente não afirmar que tinha.

7. Aplicações Práticas

Discordar a partir do que o outro disse

A palavra "então" é um método. Antes de apresentar a objeção, Jesus toma como ponto de partida a afirmação do interlocutor. Em qualquer discussão que importe — com um sócio, com um filho adulto, numa reunião em que você é minoria — a objeção que começa por "aceito o que você disse, e é por isso que pergunto" tem chance de ser ouvida; a que começa por "você está errado" não tem.

Reler o que você sabe de cor

Os fariseus cantavam aquele salmo e nunca tinham parado nas duas palavras que o tornam estranho. Isso acontece com qualquer texto repetido: oração, contrato, música de infância, a história que a família conta sobre si mesma. O exercício é simples e dá trabalho — ler devagar o que você já sabe, procurando o que não encaixa.

Saber qual é a sua premissa

O argumento inteiro depende de um ponto que ninguém na sala examinou. Vale para as próprias convicções: identificar qual é a afirmação que você nunca testou, porque todos em volta a aceitam, costuma ser mais útil do que acumular argumentos em cima dela.

Honra que não vem da origem

A cena rompe a regra de que a dignidade de alguém se mede pela linha de que ele vem. Em sociedades organizadas por sobrenome, por diploma, por bairro ou por tempo de casa, essa é uma afirmação prática: há grandeza que não se explica pela procedência, e tratá-la como se explicasse é o erro que os fariseus cometeram diante do próprio texto que recitavam.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Se o Salmo 110 não for de Davi, o argumento de Jesus desmorona?

Depende do que se exija dele. Como demonstração histórica, sim: o raciocínio pressupõe Davi falando, e sem isso não há inversão de hierarquia nenhuma. Como argumento dentro da cena, não: Jesus discute com interlocutores que aceitam a premissa e cobra deles a consequência do que eles próprios sustentam. O Pulpit Commentary sustenta que Jesus não reivindica formalmente a autoria e que o argumento se mantém de todo modo; Meyer, no outro extremo, admite que a suposição é a corrente da época e que isso não a prova. Não há consenso, e este estudo não o fabrica.

Por que os fariseus não disseram simplesmente "mas o salmo não é de Davi"?

Porque, pelo que se consegue reconstruir, essa não era uma objeção disponível no ambiente deles. A atribuição vinha no título do salmo, estava na tradução grega e era parte do modo como o saltério circulava. Negá-la exigiria um instrumental de crítica textual que só se formou muito depois. É a explicação mais plausível, e não é verificável.

"Pelo Espírito" significa que Davi sabia de quem estava falando?

O versículo não diz isso. Diz que ele falou sob o Espírito, o que é uma afirmação sobre a origem das palavras, não sobre o que o autor compreendia delas. A distinção é antiga e tem defensores dos dois lados: alguns comentaristas supõem consciência plena do profeta, outros sustentam que o profeta diz mais do que alcança. O texto é neutro nesse ponto.

Qual é a diferença entre esta citação e as outras citações de Jesus em Mateus?

Mateus costuma introduzir a Escritura com "está escrito" ou com a fórmula do cumprimento profético. Aqui a introdução é "ele diz", no presente, com um ser humano como sujeito do verbo. A autoridade é invocada pelo nome de quem falou, não pela condição de texto sagrado — e isso é adequado ao argumento, que depende precisamente de quem é o falante.

Por que a pergunta não é respondida de imediato?

Porque ela ainda não está completa. O versículo levanta a estranheza e introduz a citação; a citação vem a seguir, e só depois dela a pergunta é reformulada na forma que exige resposta. A estrutura é de três tempos — objeção, prova, cobrança — e é a mesma de qualquer disputa escolar daquele mundo.

9. Conexão com Outros Textos

O salmo que será citado

Salmo 110:1 — "Oráculo do SENHOR ao meu senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés."

Tradução do hebraico. A primeira palavra, que a ABC do versículo seguinte verte por "Disse", é um termo técnico dos profetas, usado para abrir uma declaração recebida.

Davi como profeta, em outras bocas

Atos 2:29-30 — "Irmãos, é-me permitido dizer-lhes com franqueza a respeito do patriarca Davi: ele morreu e foi sepultado, e o seu túmulo está entre nós até hoje. Sendo, pois, profeta e sabendo que Deus lhe havia prometido com juramento que faria um dos seus descendentes sentar-se no seu trono…"

Tradução livre a partir do Textus Receptus. Pedro usa a mesma premissa de Jesus, na mesma cidade, poucas semanas depois, e desenvolve o argumento até o fim — o que Mateus 22 deixa em suspenso.

1 Crônicas 25:1 — "Davi e os chefes do serviço separaram para o ministério os filhos de Asafe, de Hemã e de Jedutum, para profetizarem com harpas, com saltérios e com címbalos."

Tradução da Bíblia hebraica. Música de templo descrita como profecia — o fundo em que uma frase cantada pode ser tratada como palavra recebida.

"Meu senhor" nos lábios de quem está abaixo

Gênesis 23:6 — "Ouve-nos, meu senhor: tu és príncipe de Deus entre nós; sepulta o teu morto na melhor das nossas sepulturas; nenhum de nós te impedirá a sua sepultura, para nela sepultares o teu morto."

Os heteus a Abraão. O mesmo tratamento, na direção esperada: de quem reconhece superioridade para quem a tem.

1 Samuel 25:28 — "Perdoa, te peço, a transgressão da tua serva, porque o SENHOR certamente fará ao meu senhor uma casa firme, pois o meu senhor combate as batalhas do SENHOR."

Tradução da Bíblia hebraica. Abigail a Davi, antes de ele ser rei. O título cabe a quem ainda não reina, e por isso o problema do capítulo não é de protocolo.

A fórmula de citação em Mateus

Mateus 4:4 — "Mas Jesus respondeu: 'Está escrito: Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus.'"

A introdução habitual, impessoal. Aqui, em Mateus 22:43, o sujeito do verbo é Davi, e o verbo está no presente.

Onde o Espírito e a Escritura aparecem juntos no Novo Testamento

2 Pedro 1:21 — "Porque a profecia nunca veio por vontade humana, mas os santos homens de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo."

Tradução livre a partir do Textus Receptus. A formulação mais explícita do Novo Testamento sobre o que "falando pelo Espírito" quer dizer.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Ele lhes disse: “Então, como é que Davi, falando pelo Espírito, o chama de ‘Senhor’? Pois ele diz:

Texto grego (Textus Receptus)

λέγει αὐτοῖς, Πῶς οὖν Δαβὶδ ἐν πνεύματι Κύριον αὐτὸν καλεῖ, λέγων,

Transliteração

legei autois, Pōs oun Dabid en pneumati Kyrion auton kalei, legōn,

Análise palavra por palavra

λέγει αὐτοῖς (legei autois) — "diz-lhes", presente histórico, como no verbo da resposta deles no versículo anterior. Os dois presentes põem pergunta e resposta no mesmo plano temporal, e o efeito é de diálogo em curso.

Πῶς (Pōs) — advérbio interrogativo, "como, de que modo". Em grego, como em português, ele serve tanto para pedir o modo de uma ação quanto para registrar que algo não se explica. O segundo uso é o daqui, e é o mesmo do "como você entrou aqui" de Mateus 22:12.

οὖν (oun) — partícula de inferência, "então, portanto". É a palavra que amarra a pergunta à resposta recebida. Não é aditiva nem adversativa: marca consequência. O grego a põe em segunda posição, como faz com as partículas dessa classe, e o português a desloca para o começo.

Δαβὶδ (Dabid) — nominativo, sujeito de "chama". O nome é indeclinável em grego, transliterado do hebraico David. A grafia com beta é bizantina e está no Textus Receptus; os manuscritos antigos trazem Δαυίδ, com upsilon.

ἐν πνεύματι (en pneumati) — "em espírito", dativo com a preposição en. Sem artigo. A construção é a mesma de "em espírito" em outros lugares do Novo Testamento, e admite ser lida como instrumento ("pelo Espírito"), como esfera ("no Espírito", em estado de inspiração) ou como referência à faculdade interior do próprio Davi. A ausência de artigo não decide: o grego dispensa artigo depois de preposição com frequência, e há casos claros em que pneuma sem artigo designa o Espírito de Deus. As três leituras têm defensores; a primeira é a tradicional e a que a ABC adota.

Κύριον (Kyrion) — acusativo de kyrios, "senhor". A palavra cobre, no grego do período, desde o tratamento de cortesia até o nome divino: na tradução grega do Antigo Testamento ela está no lugar do nome de Deus. Essa amplitude e as suas consequências estão tratadas no estudo de Mateus 21:3. Aqui a função sintática é de predicado do objeto: chama-o de Senhor.

αὐτὸν (auton) — acusativo, objeto de "chama": "o chama". O referente é "o Cristo" do versículo anterior.

A ordem dessas duas palavras varia entre as edições. O Textus Receptus, tanto o de Estéfano como o de Scrivener, traz Κύριον αὐτὸν καλεῖ, com o título antes do pronome; as edições críticas modernas trazem καλεῖ αὐτὸν κύριον, com o verbo primeiro; Tischendorf traz uma terceira ordem. Nenhuma altera o sentido. A ordem do Textus Receptus põe o título em primeiro lugar na frase, o que em grego o realça — e é a palavra que carrega a pergunta.

καλεῖ (kalei) — presente do indicativo ativo de kaleō, "chamar, nomear". O presente, outra vez, e não o aoristo: não "chamou" numa ocasião antiga, mas "chama", como quem fala agora. O texto escrito é tratado como fala em vigor, e a escolha do tempo é o que o indica.

λέγων (legōn) — particípio presente, "dizendo", introduzindo a citação que vem no versículo seguinte. É o mesmo particípio que introduziu a fala de Jesus em Mateus 22:42, agora com Davi como sujeito implícito.

Variantes

Além da ordem de Κύριον αὐτὸν e da grafia do nome de Davi, a tradição é estável. Os paralelos divergem num ponto de interesse: Marcos 12:36 traz "no Espírito Santo", com o adjetivo, e Lucas 20:42 traz "no livro dos Salmos", sem menção do Espírito. Mateus fica entre os dois — nomeia o Espírito sem qualificá-lo e não indica a fonte escrita. Se a fórmula de Marcos é um esclarecimento posterior ou se Mateus a abreviou, não é possível decidir com os dados disponíveis.

11. Conclusão

O versículo deixa três coisas estabelecidas.

A primeira é a forma do argumento. Ele é dedutivo e cortês: parte do que o adversário afirmou, não do que ele deixou de afirmar. Isso tem uma consequência que vale para a leitura de todo o trecho — o que vem a seguir não é refutação da tese davídica, e quem lê o capítulo como ataque ao título "Filho de Davi" lê contra a palavra "então".

A segunda é que a cena se sustenta sobre um acordo histórico que hoje não se pode mais pressupor. Que Davi escreveu o Salmo 110 era evidente para quem estava na sala e não é evidente para quem lê agora. Disso não decorre que o argumento seja inválido, e sim que ele muda de natureza: na cena, é cobrança de coerência; para o leitor moderno, é a exibição de uma tensão real dentro da expectativa messiânica, que existe no texto do salmo independentemente de quem o escreveu.

A terceira é a inversão que o versículo introduz e não resolve. Um antepassado chama o descendente de "meu senhor", e nenhuma regra daquela sociedade previa isso. A estranheza não está na doutrina dos fariseus nem na pergunta de Jesus: está na frase do salmo, que estava ali havia séculos sendo cantada sem que ninguém perguntasse o que significava.

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