Ele respondeu: ‘Não quero’; mas depois, arrependido, foi.
1. Introdução
O primeiro filho responde ao pai com duas palavras secas — "não quero" — sem título, sem desculpa e sem explicação.
Depois, num tempo que o texto não mede e por um motivo que não conta, ele muda de ideia e vai.
O verbo traduzido por "arrependido" não é o da pregação de João e de Jesus ("arrependam-se"); é outro, que Mateus só usa mais duas vezes, e uma delas é para Judas.
A correção é feita sem uma palavra: o filho não volta para avisar o pai, simplesmente vai.
2. Contexto Histórico e Cultural
"Não quero", dito por um filho ao pai, não era só má educação no mundo de Jesus. Era o tipo de frase que a Lei e a sabedoria tratavam como ofensa grave. E os ouvintes, antes de saber o fim da história, provavelmente já tinham condenado esse filho.
A lei do filho rebelde e o que os rabinos fizeram com ela
Deuteronômio 21:18-21 prevê que o filho "contumaz e rebelde, que não obedece à voz do pai e da mãe", seja levado pelos dois aos anciãos da cidade e apedrejado. O peso dessa fórmula de obediência foi tratado no estudo de Gênesis 27:8. Para a parábola, conta o destino que a lei teve nas mãos dos mestres judeus, porque é o mundo jurídico dos ouvintes de Jesus.
A Mishná (a primeira compilação escrita da lei oral judaica, por volta do ano 200) dedica à lei o capítulo 8 do tratado Sanhedrin, e o capítulo é uma sucessão de restrições. O filho só pode ser condenado num intervalo de poucos meses depois de chegar à idade adulta. Só se tiver roubado do pai e comido, de uma vez, uma quantidade determinada de carne e bebido meia medida de vinho italiano. Não, se comeu em refeição de preceito religioso. Não, se o pai quer e a mãe não quer: os dois têm de pedir. Não, se um dos pais é aleijado, mudo, cego ou surdo, porque o texto bíblico diz que eles o "pegarão", "levarão", "dirão" e que ele "não ouve a nossa voz".
O resultado prático aparece no Talmude da Babilônia, no tratado Sanhedrin 71a: "Nunca houve filho rebelde e nunca haverá. Por que então a passagem foi escrita? Para que você a estude e receba recompensa." A mesma página traz a voz contrária, de Rabi Jônatan: "Eu vi um, e sentei-me sobre o seu túmulo."
Os dois lados dizem algo sobre a cena. A lei escrita mostra o quanto a recusa ao pai era grave no papel; a leitura rabínica mostra o quanto os mestres resistiram a executá-la. Entre a frase dura e a pena que quase nunca se aplicou ficava o espaço da vida comum: o filho que diz "não" e depois volta atrás. É exatamente o espaço da parábola.
Um "não" de filho, por escrito
Um papiro egípcio permite ouvir como soava a recusa de um filho, sem filtro de lei nem de moral. É o papiro de Oxirrinco 119, do século II ou III depois de Cristo, hoje na Biblioteca Bodleiana, em Oxford. Um menino chamado Teão escreve ao pai, também Teão, que viajou para Alexandria sem levá-lo:
"Teão a Teão, seu pai, saudações. Você fez muito bem em não me levar com você para a cidade! Se não me levar para Alexandria, não escrevo carta para você, não falo com você, não lhe digo adeus. E se você for para Alexandria, não pego na sua mão nem o cumprimento nunca mais. [...] Mande-me uma lira, eu imploro. Se não mandar, não como, não bebo. Pronto!"
A carta é engraçada, e é uma criança. Mas tem a gramática da recusa: a negação repetida, a ausência de qualquer título de respeito — o menino chama o pai só de "pai", na fórmula mais seca da saudação — e o pedido que vem no fim, no meio da birra. O papiro é egípcio e não prova costume da Judeia; mostra apenas que o "não quero" do primeiro filho é de uma família conhecida em toda casa: curto, sem título e sem a cortesia que se esperava de um filho.
Por que os ouvintes condenariam o primeiro filho
Numa cultura de honra, a palavra dita em resposta ao pai era um ato público dentro da casa. Recusar em voz alta era desonrar; ceder depois, em silêncio, não apagava a desonra da recusa. Quem ouvia a história até aqui tinha todos os motivos para achar que o primeiro filho era o mau. A pergunta do versículo 31 só funciona porque desmonta esse primeiro juízo: os chefes vão ter de admitir que o filho que desonrou com a boca honrou com o pé.
3. Análise Teológica do Versículo
“Ele respondeu: ‘Não quero’;”
O pai disse "filho". O filho não diz "pai", não diz "senhor", não diz nada antes da recusa. Duas palavras, e a segunda é o verbo da vontade.
Os comentaristas ingleses do século XIX foram duros com a frase. O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa) a chama de "rude, seca e desrespeitosa", própria de quem está fechado nos próprios prazeres; Jamieson, Fausset e Brown (trio de comentaristas britânicos do século XIX) apontam a falta de qualquer tentativa de se desculpar; Ellicott (Charles Ellicott, bispo anglicano do século XIX) vê nela a "temeridade grosseira" das classes que viviam em recusa aberta à Lei, os cobradores de impostos e as prostitutas do versículo 31.
Há outra leitura possível, que não anula essa. A resposta é grosseira, mas é verdadeira. O filho não quer, e diz que não quer. Não finge, não promete o que não pretende fazer, não inventa compromisso para escapar. No versículo seguinte, o contraste vai mostrar o valor disso. A primeira palavra do primeiro filho é feia, mas é a única palavra honesta da parábola no momento em que é dita.
“mas depois,”
Entre o "não" e a ida há um intervalo, e o texto não diz de quanto. Pode ter sido uma hora, pode ter sido o resto da manhã. O que o texto também não diz é o que aconteceu nesse intervalo. O pai não volta a insistir, não ameaça, não promete nada, não manda recado. Nenhum fato novo entra na história. O filho muda sozinho, por dentro, e a parábola guarda silêncio sobre o motivo.
“arrependido,”
A palavra portuguesa engana. Quem lê "arrependido" pensa na pregação de João Batista e de Jesus: "Arrependam-se, porque o Reino dos céus está próximo" (Mateus 3:2; 4:17). Mas o grego usa dois verbos diferentes, e Mateus os mantém separados.
O verbo da pregação é o que fala de mudança de mente e de rumo, e Mateus o usa para o chamado de João e de Jesus (Mateus 3:2; 4:17), para as cidades da Galileia que viram milagres e não mudaram (Mateus 11:20-21) e para Nínive, que mudou com a pregação de Jonas (Mateus 12:41). O verbo deste versículo é outro, que fala de mudar de ideia sobre algo, de voltar atrás com pesar (item 10). Mateus o usa só três vezes: aqui, no versículo 32, aplicado aos chefes, e em Mateus 27:3, para Judas.
A distinção clássica. Uma longa tradição de comentário viu nos dois verbos duas coisas diferentes. Vincent (Marvin Vincent, autor norte-americano de estudos de palavras do Novo Testamento, século XIX) resume: o verbo deste versículo exprime um cuidado que vem depois, um incômodo com as consequências, e se refere a atos isolados; o da pregação exprime o arrependimento que alcança a vida inteira. A Bíblia de Cambridge diz que o filho "mudou de ideia, sentiu pesar, mas não arrependimento", e Ellicott fala de "mudança de propósito com pesar, mais do que transformação do caráter". O exemplo que sustenta essa leitura é Judas: o mesmo verbo, e o desfecho é o desespero (Mateus 27:3-5).
O problema da distinção. Aplicada a este versículo, ela não funciona bem. O filho "apenas" mudou de ideia — e foi. O seu pesar produziu exatamente aquilo que João exigia do arrependimento: "Produzam, pois, frutos dignos de arrependimento" (Mateus 3:8). Se o critério é o fruto, o primeiro filho tem fruto. E Jesus, no versículo 31, o declara o que fez a vontade do pai. Não há como ler o verbo aqui como remorso estéril.
O caso de Judas também é menos simples do que a distinção sugere. O texto diz que ele devolveu as moedas e confessou: "Pequei, traí sangue inocente" (Mateus 27:4). Devolver e confessar são gestos de quem reconhece o mal feito. O que falta a Judas não está no verbo; está no que vem depois dele.
Os léxicos registram essa dúvida. Thayer (Joseph Henry Thayer, autor do léxico grego do Novo Testamento de referência do século XIX) observa que as distinções tantas vezes traçadas entre os dois verbos "dificilmente se sustentam pelo uso", embora reconheça que o da pregação é o termo "mais pleno e mais nobre", o único usado em ordens e em fórmulas de conversão. A versão grega do Antigo Testamento confirma a dúvida: ela usa os dois verbos também para Deus. No Salmo 110:4, "o SENHOR jurou e não se arrependerá" usa o verbo deste versículo; em Jonas 3:10, "Deus se arrependeu do mal que tinha dito que lhes faria" usa o verbo da pregação. Nenhum dos dois, aplicado a Deus, pode significar conversão de pecador. Os dois significam, ali, mudar de decisão.
O que se pode afirmar. Paulo é o único autor do Novo Testamento que usa os dois verbos lado a lado com a diferença marcada. Em 2 Coríntios 7:8-10, ele diz que não se arrepende de ter escrito uma carta dura, embora tenha chegado a se arrepender — o verbo deste versículo —, e que a tristeza segundo Deus produz "arrependimento", com o verbo da pregação, "para a salvação, do qual ninguém se arrepende", com o deste. Em Paulo, um é a virada de vida; o outro, o pesar que pode ou não acompanhá-la. É plausível que Mateus tenha a mesma percepção da diferença; o que não é possível é tirar dela que o primeiro filho só sentiu remorso. O que o texto afirma é que ele voltou atrás numa decisão concreta e cumpriu a ordem. O alcance da mudança — se foi conversão de vida ou só um dia de trabalho — a parábola não diz.
Por que Mateus escolheu este verbo? Há uma explicação que dá conta dos dois versículos de uma vez. A parábola trata de uma ordem concreta, para um dia; o verbo que significa "mudar de ideia sobre uma decisão" é o que cabe numa ordem desse tamanho. E, quando Jesus aplica a parábola aos chefes no versículo 32, mantém o mesmo verbo: eles não "mudaram de ideia" nem depois de ver. A acusação fica, assim, rebaixada ao mínimo. Jesus não os acusa de não terem passado pela grande conversão que João pregava; acusa-os de não terem feito sequer o que o filho grosseiro fez — reconsiderar uma resposta. É uma leitura, não uma certeza, mas ela explica por que o verbo de Mateus 21:29 e o de Mateus 21:32 são o mesmo e não são o de Mateus 3:2.
O problema da tradução. O leitor de português não consegue ver nada disso. A ABC traduz o verbo por "arrependido" aqui, por "arrependeram" no versículo 32 e por "tomado de remorso" em Mateus 27:3. As três palavras portuguesas escondem que o primeiro filho e Judas recebem, em Mateus, exatamente a mesma forma do mesmo verbo. A tradução latina da Igreja, a Vulgata, fez o caminho inverso e apagou a diferença do outro lado: usou "penitência" para os dois verbos gregos, aqui e na pregação de João.
“foi.”
A última palavra do versículo é o verbo de partir, e é tudo. O texto não diz que o filho trabalhou bem, nem o dia inteiro, nem que pediu desculpas. Diz que foi. Para a pergunta do versículo 31, isso basta: ir era o que o pai tinha pedido.
E o filho não volta para dizer ao pai que mudou de ideia. Não há segunda conversa. A recusa foi dita; a correção é só feita. Na parábola, o "não" do primeiro filho nunca é desdito com palavras — é desmentido pelos pés. É a imagem inversa do que o segundo filho vai fazer.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Pessoas
O primeiro filho. É o único personagem da parábola que muda. O texto lhe dá três ações — responder, mudar de ideia, ir — e nenhuma qualidade. Não é chamado de bom nem de mau. Jesus o fará representar, no versículo 31, os cobradores de impostos e as prostitutas, que disseram "não" a Deus com a vida e depois creram em João.
O pai. Neste versículo, está ausente. Recebe a recusa e não responde; não sabemos se soube que o filho foi. A parábola não lhe dá reação, nem de raiva nem de alegria — ao contrário do pai de Lucas 15, que corre ao encontro do filho que volta.
Os cobradores de impostos e as prostitutas. Não aparecem no versículo, mas são eles que a parábola descreve, segundo a aplicação que o próprio Jesus faz no versículo 32. Os cobradores trabalhavam para o fisco romano ou para os governantes locais, cobrando taxas sobre mercadorias e passagem, e eram tidos por colaboradores e ladrões. As prostitutas viviam fora de qualquer lugar honrado na sociedade. Os dois grupos eram, para a gente religiosa, o exemplo acabado de quem tinha dito "não" à Lei.
João Batista. É a ocasião do "depois". Na aplicação do versículo 32, é a pregação dele que faz os cobradores e as prostitutas reconsiderarem.
Judas. Fora da parábola, é o outro personagem de Mateus a quem o evangelho aplica o mesmo verbo deste versículo (Mateus 27:3). O paralelo é do vocabulário, não da história: o primeiro filho volta atrás e vai à vinha; Judas volta atrás, devolve o dinheiro e se mata.
Eventos
A recusa. Acontece diante do pai, a sós.
A mudança de ideia. Acontece fora de cena, sem testemunha, sem causa narrada e sem tempo marcado.
A ida à vinha. É o único fato que o texto registra depois da recusa, e o que decide a pergunta do versículo 31.
5. Pontos de Ensino
A primeira resposta não é a última
O versículo não apaga o "não quero"; registra-o por inteiro. Mas não deixa que ele seja a palavra final. Entre a recusa e o juízo há um "depois", e o que conta é o que acontece nele.
A recusa honesta vale mais do que a promessa vazia
O primeiro filho foi grosseiro, mas não mentiu. A parábola só vai mostrar isso no versículo seguinte, por contraste; aqui está a metade dele: a franqueza do "não" deixou o caminho livre para uma mudança verdadeira. Quem diz o que pensa pode mudar de ideia; quem finge concordar nem chega a ter uma ideia para mudar.
A mudança não depende de pressão de fora
O pai não insiste. Nenhum fato novo entra na história. O filho reconsidera sozinho. O texto não explica a mudança, e por isso não a condiciona a nada: ela é possível sem ameaça, sem argumento e sem castigo.
Corrige-se fazendo, não falando
O filho não volta para desdizer o "não". Simplesmente vai. A parábola mede a obediência pelos pés, não pelas desculpas.
Mudar de ideia já é muito
O verbo de "arrependido" é modesto: é o de quem volta atrás numa decisão. E é com esse mesmo verbo que Jesus vai medir os chefes no versículo 32 — eles não fizeram nem isso. A exigência da parábola não é heroica. É reconsiderar quando se vê o que precisa ser visto.
O pecador declarado tem caminho que o religioso satisfeito não tem
Quem disse "não" sabe que disse. Quem disse "sim" e não foi pode passar a vida convencido de ter obedecido. A parábola, ao pôr o filho grosseiro como o que fez a vontade do pai, inverte a hierarquia que os ouvintes traziam: o que dá o "não" em voz alta está mais perto da vinha do que o que dá o "sim" de boca.
6. Aspectos Filosóficos
O filho diz "não quero" e, pouco depois, vai. Qual das duas coisas era a vontade dele? Se a vontade é o que a pessoa declara, ele não queria ir e foi contra a própria vontade. Se a vontade é o que a pessoa faz, o "não quero" era falso desde o começo. Nenhuma das duas respostas é satisfatória, e o versículo deixa o problema aberto: a vontade de alguém pode ser maior do que aquilo que ele diz querer.
Maurice Blondel e as duas vontades
Maurice Blondel (1861-1949), filósofo católico francês, defendeu em 1893 uma tese de doutorado chamada A Ação que causou escândalo na Sorbonne: queria mostrar, só com os meios da filosofia, que a ação humana aponta para além de si mesma. A obra abre com uma pergunta seca — "Sim ou não, a vida humana tem um sentido, e o homem tem um destino?" — e responde examinando o que acontece cada vez que alguém age.
O ponto de partida é uma distinção. Blondel chama de "vontade querente" o impulso profundo e anterior que move a pessoa, aquilo que ela quer ao querer qualquer coisa; e de "vontade querida" os objetos concretos que ela escolhe a cada momento — este trabalho, esta recusa, este prazer. As duas nunca coincidem. O que a pessoa escolhe nunca esgota o que ela, no fundo, quer; há sempre um desnível entre o querer e o querido, e é esse desnível que empurra a vida para adiante.
Aplicada ao versículo, a distinção dá nome ao que o texto mostra sem explicar. "Não quero" é uma vontade querida: um objeto escolhido naquele instante — não ir. A ida, depois, revela uma vontade querente que o "não" não alcançava. O filho não mentiu ao dizer que não queria; disse o que, naquele instante, ele queria. Mas aquilo não era tudo o que ele queria. A mudança de ideia é o momento em que o querer de fundo corrige o querido de superfície.
Não é possível não querer
Blondel gasta as primeiras partes do livro desmontando duas atitudes que se apresentam como neutras. O diletante, que prova de tudo sem se prender a nada, acha que escapa da escolha; o pessimista, que declara não querer nada, acha que escapa da vontade. Blondel responde que os dois estão querendo: um quer não se comprometer; o outro quer o nada. Não há posição fora da vontade. Recusar é uma forma de querer.
Isso ilumina o "não quero" de outro modo. A recusa do filho não é ausência de vontade; é uma vontade com objeto. E uma vontade com objeto pode ser comparada com outra, pesada, corrigida. Quem recusa já está dentro do jogo da escolha. O versículo seguinte vai mostrar o contrário: um "sim" que talvez não tenha vontade nenhuma por trás.
A ação como lugar da verdade
Para Blondel, é na ação, e não no discurso, que a pessoa descobre o que realmente quer. As ideias e as palavras podem ficar suspensas; a ação compromete. A ação é o lugar onde a vontade se mostra a si mesma. O primeiro filho só descobre o que queria quando vai à vinha — e a parábola só o julga por isso.
O limite
Blondel pensava num movimento muito maior que o de um dia de trabalho: a vontade, para ele, só se satisfaz diante de Deus, e toda a obra conduz à pergunta sobre a abertura ao sobrenatural. A parábola não vai tão longe. Ela registra um filho que diz não e depois vai, e não explica o que se passou dentro dele. O que Blondel oferece é uma maneira de levar a sério as duas coisas ao mesmo tempo — que o "não quero" foi sincero e que a ida foi mais verdadeira do que ele.
7. Aplicações Práticas
Não julgar ninguém pela primeira resposta
O pai ouviu um "não" e não desistiu do filho; o filho foi. Pais, professores, chefes e amigos ouvem recusas o tempo todo. A parábola não diz que toda recusa vira obediência, mas mostra que a primeira resposta pode não ser a última — e que quem trata o "não" de alguém como sentença definitiva pode estar julgando antes do tempo.
Voltar atrás sem cerimônia
Muita gente não corrige uma decisão errada porque teria de admitir que errou. O filho não faz discurso: vai. Há situações em que o melhor pedido de desculpas é fazer, sem anúncio, o que se tinha recusado.
A honestidade da recusa
Dizer "não" com franqueza pode ser mais útil, para quem pede e para quem recusa, do que dizer "sim" para se livrar da conversa. Quem recusa às claras pelo menos sabe onde está — e pode mudar. Grosseria não é virtude; mas a franqueza que a acompanhou, neste caso, deixou o caminho aberto.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
1. O primeiro filho é o modelo da parábola?
Não exatamente. Ele é o melhor dos dois, mas a parábola não tem um filho que diz "sim" e vai. O modelo ausente é óbvio, e muitos leitores notaram a falta. Jesus não conta a história do filho perfeito porque não é sobre ele que os chefes precisam ser julgados. A pergunta do versículo 31 é comparativa: "qual dos dois?". O primeiro filho não é elogiado pela grosseria; é preferido porque, dos dois, foi o único que foi.
2. Por que os cobradores de impostos e as prostitutas aparecem como um filho, e não como um estranho?
Porque, para a parábola, eles continuam sendo da casa. O primeiro filho disse "não" ao pai, mas não deixou de ser filho, e o pai não o trocou por um empregado. Os cobradores e as prostitutas eram judeus, filhos da mesma aliança que os chefes do templo, ainda que vivessem em recusa aberta à Lei. A gente religiosa os tratava como de fora; a parábola os põe dentro de casa, na mesma condição dos ouvintes. A diferença entre eles não é de pertença — é de resposta.
3. Mudar de ideia por cálculo vale como obediência?
A parábola não pergunta. Ela não conta o motivo da mudança, e por isso não distingue o filho que voltou por amor do que voltou por medo de perder a herança. O juízo do versículo 31 é sobre o que ele fez, não sobre o que sentiu. Quem quer saber dos motivos tem de buscar em outro lugar — por exemplo, na aplicação do versículo 32, onde o que move os cobradores e as prostitutas é terem crido em João.
4. Por que a recusa grosseira não é punida?
Porque a parábola não tem castigo para ninguém. O pai não reage nem à recusa do primeiro nem à promessa vazia do segundo. O único juízo é o dos ouvintes, no versículo 31 — e eles julgam pelo que cada filho fez. A grosseria fica registrada e não pesa na sentença. É um dos pontos em que a história mais contraria o que os ouvintes esperavam de um pai.
9. Conexão com Outros Textos
O mesmo verbo, nos outros dois lugares de Mateus
Mateus 21:32 — "Pois João veio a vocês pelo caminho da justiça, e vocês não creram nele; mas os cobradores de impostos e as prostitutas creram. Vocês, porém, vendo isso, não se arrependeram depois para nele crer."
A aplicação da parábola repete as duas palavras do primeiro filho — "depois" e "arrependido" — e as nega. É o primeiro filho ao contrário.
Mateus 27:3-4 — "Então Judas, que o havia traído, ao ver que Jesus fora condenado, tomado de remorso, devolveu as trinta moedas de prata aos chefes dos sacerdotes e aos anciãos, dizendo: 'Pequei, traí sangue inocente.'"
"Tomado de remorso" traduz a mesma forma grega que, no nosso versículo, a ABC traduz por "arrependido". E Judas a vive diante dos mesmos chefes dos sacerdotes e anciãos que ouvem a parábola.
O verbo da pregação
Mateus 3:8 — "Produzam, pois, frutos dignos de arrependimento."
O critério de João é o fruto. Por esse critério, o primeiro filho, que só "mudou de ideia", tem o que João pedia.
Os dois verbos juntos
2 Coríntios 7:8-10 — "Porque, ainda que eu os tenha entristecido com a carta, não me arrependo; embora tenha me arrependido [...]. Pois a tristeza segundo Deus produz arrependimento para a salvação, do qual ninguém se arrepende."
Tradução livre a partir do Textus Receptus. Os dois verbos na mesma frase, com a diferença marcada pelo próprio Paulo.
O "não quero" e o "depois" em outras cenas
Mateus 26:39 — "Indo um pouco mais adiante, prostrou-se com o rosto em terra e orou: 'Meu Pai, se é possível, passa de mim este cálice; contudo, não seja como eu quero, mas sim como Tu queres'."
O outro filho de Mateus que diz ao pai uma vontade diferente da dele — e a submete na mesma frase.
Mateus 25:11-12 — "Depois, chegaram também as outras virgens, dizendo: 'Senhor, Senhor, abre a porta para nós!' Mas ele respondeu: 'Eu digo a verdade a vocês: não conheço vocês.'"
O mesmo "depois" do primeiro filho, mas tarde demais. Na vinha, o "depois" ainda cabia no dia; na festa, a porta já estava fechada. Mateus não diz até quando o "depois" vale; mostra que ele pode acabar.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Ele respondeu: ‘Não quero’; mas depois, arrependido, foi.
Texto grego (Textus Receptus, Scrivener 1894)
Ὁ δὲ ἀποκριθεὶς εἶπεν, Οὐ θέλω· ὕστερον δὲ μεταμεληθείς, ἀπῆλθε.
Transliteração
Ho de apokritheis eipen, Ou thelō; hysteron de metamelētheis, apēlthe.
Diferenças entre as edições
A maior não é deste versículo sozinho: em parte dos manuscritos, e nas edições de Westcott e Hort, a resposta "não quero… depois foi" passa para o segundo filho, e o primeiro é o que diz "eu vou" e não vai — a questão inteira está no estudo de Mateus 21:31. Dentro do texto que a ABC segue, há só uma diferença menor: a edição de Tischendorf não traz o segundo de ("mas"), e lê "depois, arrependido, foi", sem a partícula de contraste. O Textus Receptus, o texto bizantino e a maioria das edições críticas a trazem.
Análise palavra por palavra
Ὁ δὲ — ho de, "e ele". O artigo seguido da partícula de funciona como pronome e marca a troca de quem fala: agora é o filho.
ἀποκριθεὶς εἶπεν — apokritheis eipen, "respondendo, disse". Particípio aoristo de apokrinomai, "responder", mais o aoristo de legō. A dupla "respondendo, disse" é um jeito de falar herdado do hebraico e do aramaico, frequente nos evangelhos; o português a reduz a "respondeu".
Οὐ θέλω — ou thelō, "não quero". Ou é a negação de fato, a que nega uma afirmação, não uma possibilidade. Thelō, no presente, primeira pessoa: "eu quero". É o verbo comum da vontade e do desejo, e dele vem thelēma, "vontade", a palavra do versículo 31 ("qual dos dois fez a vontade do pai?"). Mateus usa a mesma negação com o mesmo verbo em duas cenas que fazem eco a esta: os convidados do banquete que "não quiseram vir" (Mateus 22:3) e Jerusalém, a quem Jesus diz "vocês não quiseram" (Mateus 23:37).
ὕστερον — hysteron, "depois", "mais tarde". Advérbio formado do comparativo hysteros, "posterior", "último". Aparece sete vezes em Mateus: a fome depois do jejum (Mateus 4:2), aqui, a aplicação do versículo 32, o filho enviado "por último" na parábola seguinte (Mateus 21:37), a mulher que morre "por último" (Mateus 22:27), as virgens que chegam "depois" (Mateus 25:11) e as testemunhas que vêm "por fim" (Mateus 26:60). Em quase todas, marca o último elemento de uma sequência.
δὲ — de, "mas". A mesma partícula do começo, agora com valor de contraste: opõe o "depois" ao "não quero".
μεταμεληθείς — metamelētheis, "tendo mudado de ideia", "arrependido". Particípio aoristo passivo de metamelomai, verbo que só tem formas médias e passivas, com sentido ativo.
A palavra é formada de meta, que indica mudança ou sequência, e da raiz de melei, "importa", "dá cuidado" — a expressão grega para "isso me preocupa" é, literalmente, "isso me é cuidado". Metamelomai é, ao pé da letra, "passar a ter cuidado depois": dar-se conta, mais tarde, de que aquilo importava, e voltar atrás com pesar. O verbo da pregação, metanoeō, é formado de meta com noeō, "perceber", "pensar": "mudar de mente". Um parte do cuidado, do pesar; o outro, do entendimento.
No Novo Testamento, metamelomai aparece seis vezes, em cinco versículos: Mateus 21:29, 21:32 e 27:3, duas vezes em 2 Coríntios 7:8 e em Hebreus 7:21. O adjetivo negativo, ametamelētos, "de que não se volta atrás", "irrevogável", aparece em Romanos 11:29 ("os dons e o chamado de Deus são irrevogáveis") e em 2 Coríntios 7:10. Na versão grega do Antigo Testamento, o verbo traduz várias vezes o hebraico nacham, "mudar de ideia, ter pesar", como em Êxodo 13:17 ("para que o povo não se arrependa ao ver guerra") e no Salmo 110:4.
A forma é o particípio aoristo: a mudança é apresentada como um fato concluído, anterior à ida. Primeiro mudou; depois foi. É exatamente a mesma forma, metamelētheis, que Mateus aplica a Judas em Mateus 27:3.
A Vulgata, a tradução latina da Igreja, verte "paenitentia motus abiit", "movido de penitência, foi", e usa a mesma "penitência" para traduzir metanoeō na pregação de João — o latim não distingue os dois verbos.
ἀπῆλθε — apēlthe, "foi", "partiu". Aoristo de aperchomai, de apo ("de", "para longe de") e erchomai ("ir"): sair de onde se está. O verbo não diz "foi trabalhar", diz "partiu" — saiu dali para cumprir a ordem. É o mesmo verbo que fecha o versículo seguinte, ali negado: "e não foi". Os dois filhos terminam com a mesma palavra, um no sim e outro no não.
11. Conclusão
Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.
A primeira é que a parábola separa a palavra do ato e dá a decisão ao ato. O "não quero" fica registrado sem atenuante e não é apagado por nenhuma desculpa; mesmo assim, não decide o caso. O que decide é a ida.
A segunda é que a mudança exigida é pequena no vocabulário e grande nas consequências. Mateus escolheu o verbo de quem reconsidera uma decisão, não o da grande conversão pregada por João. Disso decorre a força da aplicação do versículo 32: os chefes não são acusados de falhar no máximo, e sim de não terem feito o mínimo que o filho grosseiro fez — voltar atrás depois de ver.
A terceira é que o verbo, sozinho, não diz se houve conversão de vida ou apenas um dia de obediência. O mesmo verbo serve ao filho que vai à vinha e a Judas que vai ao templo devolver o dinheiro. O que os distingue é o que cada um fez com a reconsideração, e é por isso que a tradução que escolhe "arrependido" para um e "remorso" para o outro decide no lugar do leitor algo que o texto deixou para ser lido nos atos.













