Quando os fariseus viram isso, perguntaram aos discípulos: "Por que o vosso Mestre come com publicanos e pecadores?"
1. Introdução
A cena da mesa tem um reverso: do lado de fora, alguém observa e se escandaliza. Os fariseus veem Jesus comendo com publicanos e pecadores e fazem a pergunta que abre este versículo — não a Jesus diretamente, mas aos seus discípulos: "Por que o vosso Mestre come com publicanos e pecadores?" É uma pergunta que soa como acusação.
O versículo capta, em poucas palavras, o choque entre duas visões de santidade. Para os fariseus, aproximar-se do impuro era comprometer-se com a impureza; a fidelidade a Deus se media pela distância dos pecadores. Para Jesus, a fidelidade a Deus se media pela disposição de buscá-los. A pergunta dos fariseus não é apenas hostil; ela revela uma teologia inteira — e é essa teologia que Jesus vai desmontar nos versículos seguintes.
2. Contexto Histórico e Cultural
Os fariseus eram um grupo religioso conhecido pela adesão rigorosa à Lei de Moisés e às tradições orais acrescentadas a ela. Viam-se como guardiões da pureza de Israel e tinham forte influência nas sinagogas. Boa parte da sua devoção girava em torno de separar-se do que consideravam contaminante — e comer com um impuro estava no topo dessa lista de perigos. Partilhar a mesa era um ato de comunhão, e comunhão com pecadores parecia, aos seus olhos, uma traição à santidade.
Há um detalhe revelador no modo como perguntam: dirigem-se aos discípulos, e não a Jesus. Pode ter sido estratégia — semear dúvida entre os seguidores, minar a autoridade do Mestre por via indireta. Pode ter sido também parte do costume do ensino rabínico, em que os discípulos deviam saber explicar e defender as atitudes do seu mestre. De um jeito ou de outro, a pergunta é feita para pressionar.
Vale lembrar quem eram os alvos do escândalo. "Publicanos" eram os cobradores de impostos, tidos por traidores a serviço de Roma e por exploradores. "Pecadores" era um rótulo elástico, que abarcava os que viviam fora dos limites traçados pela interpretação farisaica da Lei. Comer com essa gente, para os fariseus, não era compaixão — era cumplicidade.
3. Análise Teológica do Versículo
"E quando os fariseus viram isto"
Os fariseus eram conhecidos pela observância estrita da Lei e das tradições orais, e se posicionavam como guardiões da pureza de Israel. Ao observarem as atitudes de Jesus, agem como fiscais religiosos, atentos a tudo o que fugisse da sua interpretação da Lei. A cena se passa num ambiente de refeição, lugar comum de ensino e convívio na cultura judaica.
"perguntaram aos seus discípulos"
Os fariseus se dirigem aos discípulos, e não diretamente a Jesus, o que pode indicar uma tentativa de minar a autoridade do Mestre pelo lado dos seguidores, ou de semear dúvida entre eles. No ensino rabínico, esperava-se que os discípulos soubessem defender e explicar as atitudes do seu mestre.
"Por que o vosso Mestre come com publicanos e pecadores?"
Os cobradores de impostos eram desprezados por servirem aos ocupadores romanos e pela fama de extorsão. Os "pecadores" eram os vistos como vivendo fora da Lei, ou fora das regras de pureza dos fariseus. Comer com tais pessoas era sinal de aceitação e comunhão — algo escandaloso para quem fazia da separação uma bandeira. A pergunta expõe a tensão entre o ministério de Jesus, voltado à graça e ao alcance dos marginalizados, e o foco farisaico na pureza ritual e no afastamento.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Jesus — figura central do Novo Testamento, o Filho de Deus, que ensina e demonstra o Reino de Deus por suas ações e palavras.
Os fariseus — grupo religioso do judaísmo conhecido pela adesão estrita à Lei e às tradições; frequentemente questionavam as atitudes e o ensino de Jesus.
Os discípulos — seguidores de Jesus, que aprendiam com o seu ensino e observavam o seu ministério, e a quem a pergunta é dirigida.
Os publicanos — cobradores de impostos, tidos por pecadores e excluídos na sociedade judaica por servirem a Roma; vistos como traidores e corruptos.
Os pecadores — rótulo usado para os que eram considerados fora da lei moral e religiosa do tempo.
5. Pontos de Ensino
A missão aos marginalizados
Jesus se associa de propósito aos tidos por excluídos, para mostrar o amor e a graça de Deus por todas as pessoas, e não só pela elite religiosa.
O desafio do legalismo
A pergunta dos fariseus revela uma mente legalista, que valoriza a pureza ritual acima da compaixão. Somos chamados a colocar o amor e a graça acima da adesão rígida à tradição.
A verdadeira justiça
A justiça diante de Deus não está em separar-se dos pecadores, mas em aproximar-se deles para levar cura e transformação por meio de Cristo.
O papel do discipulado
Como discípulos, somos chamados a seguir o exemplo de Jesus, alcançando os marginalizados e partilhando a mensagem de esperança e restauração.
Um espelho para o coração
O texto nos leva a examinar as nossas próprias atitudes diante daqueles que a sociedade rotula como "pecadores", e a alinhá-las ao amor inclusivo de Jesus.
6. Aspectos Filosóficos
A pergunta dos fariseus esconde uma pressuposição filosófica: a de que a identidade de uma pessoa se define por associação. "Diga-me com quem você come, e eu direi quem você é." Nessa lógica, Jesus se rebaixa ao nível dos pecadores só por partilhar a mesa deles. Jesus rejeita essa premissa. Para ele, a companhia não contamina o médico que visita o doente; ao contrário, é a presença do médico que dá sentido à visita. O valor de um ato depende da sua intenção e da sua direção, não apenas da companhia em que ocorre.
Há ainda uma reflexão sobre o modo como julgamos. Os fariseus veem o gesto exterior — comer com pecadores — e concluem o pior. É o julgamento pela aparência, que dispensa entender a intenção. É justo reconhecer que a cautela deles não era pura maldade: nascia de um desejo sincero de fidelidade a Deus. O problema não era querer ser santo; era confundir santidade com afastamento. E essa confusão, o versículo sugere, pode transformar a devoção mais séria numa barreira contra as pessoas que Deus quer alcançar.
7. Aplicações Práticas
Cuidado com o julgamento pela aparência. Os fariseus viram um gesto e presumiram o pior. Antes de condenar uma atitude alheia, vale perguntar qual é a intenção que não estamos enxergando.
Não confunda santidade com distância. Ser fiel a Deus não significa evitar os pecadores, mas aproximar-se deles como Jesus fez — com amor e propósito.
Examine a sua "lista de indesejáveis". Todos temos, em silêncio, um grupo de pessoas de quem preferimos manter distância. O exemplo de Jesus pede que revisemos essa lista.
Esteja pronto para explicar o que faz. Os discípulos foram interpelados por causa das atitudes do Mestre. Seguir a Cristo às vezes exige dar conta, com serenidade, de escolhas que os outros não entendem.
Ponha a compaixão acima da regra. Onde a norma e a misericórdia parecem colidir, o coração de Jesus se inclina para a misericórdia. Que o nosso também se incline.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
1. Como a disposição de Jesus para comer com publicanos e pecadores desafia a nossa ideia de santidade e de separação do mundo?
Desafia a noção de que santidade é, sobretudo, afastamento. Jesus mostra que é possível estar entre os pecadores sem ser vencido por eles — e que a verdadeira santidade não foge das pessoas, mas as busca para curá-las.
2. De que modos podemos, como discípulos de hoje, seguir o exemplo de Jesus ao alcançar os marginalizados?
Aproximando-nos de quem a sociedade evita, sem esperar que se tornem "aceitáveis" primeiro; oferecendo relação em vez de julgamento; e estando presentes nos lugares e mesas de onde os "religiosos" costumam se ausentar.
3. Como as atitudes dos fariseus refletem uma mente legalista, e como evitar algo parecido em nós?
O legalismo aparece quando a regra vale mais que a pessoa, e a pureza pesa mais que a compaixão. Evitamos isso lembrando que Deus deseja misericórdia, e checando se a nossa fé produz amor ou apenas distância.
4. Que outros exemplos bíblicos mostram Jesus ou os seus alcançando os excluídos, e o que aprendemos com eles?
A samaritana no poço, Zaqueu em Jericó, a mulher pega em adultério, o encontro de Pedro com Cornélio. Em todos, o padrão se repete: a iniciativa parte da graça, e o encontro produz mudança.
5. Como aplicar o princípio da graça acima do legalismo no trato diário, sobretudo com quem não compartilha das nossas crenças?
Tratando cada pessoa primeiro como alguém a ser amado, e não como um erro a ser corrigido. A graça não abre mão da verdade, mas escolhe começar pelo acolhimento, que é onde a verdade encontra ouvidos.
9. Conexão com Outros Textos
E seus fariseus e escribas murmuravam contra os seus discípulos, dizendo: Por que comeis e bebeis com publicanos e pecadores? (Lucas 5:30)
O relato paralelo registra a mesma queixa, confirmando que a associação de Jesus com os marginalizados foi um ponto constante de atrito com os líderes religiosos.
Quando os escribas dos fariseus o viram comer com os publicanos e pecadores, disseram a seus discípulos: Por que é que ele come com os publicanos e os pecadores? (Marcos 2:16)
Marcos traz quase a mesma pergunta, mostrando o peso que esse episódio teve na memória dos primeiros cristãos.
Veio o Filho do homem, que come e bebe, e dizem: 'Eis aqui um homem comilão e beberrão, amigo de publicanos e pecadores!' Mas a sabedoria prova-se justa por meio de suas obras. (Mateus 11:19)
Jesus assume o rótulo que lhe atiravam — "amigo de publicanos e pecadores" — e o transforma em título de honra: era exatamente a sua missão.
Esta é uma palavra fiel e digna de toda aceitação: que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal. (1 Timóteo 1:15)
O que os fariseus criticavam era, no fundo, o próprio evangelho: Cristo veio pelos pecadores. Paulo, ex-fariseu, acabou reconhecendo-se um deles.
10. Original Grego e Análise
Texto em português: E os fariseus, vendo isto, disseram aos discípulos dele: Por que o seu Mestre come com os publicanos e pecadores?
Texto grego: καὶ ἰδόντες οἱ Φαρισαῖοι εἶπον τοῖς μαθηταῖς αὐτοῦ, Διατί μετὰ τῶν τελωνῶν καὶ ἁμαρτωλῶν ἐσθίει ὁ διδάσκαλος ὑμῶν;
Transliteração: kaì idóntes hoi Pharisaîoi eîpon toîs mathētaîs autoû, Diatí metà tôn telōnôn kaì hamartōlôn esthíei ho didáskalos hymôn?
Análise palavra por palavra:
idóntes (ἰδόντες) — "tendo visto": particípio que marca a observação. Os fariseus não participam da cena; eles a assistem de fora, na posição do fiscal.
hoi Pharisaîoi (οἱ Φαρισαῖοι) — "os fariseus": o nome liga-se provavelmente à ideia de "separados". A ironia é evidente: o grupo dos "separados" acusa Jesus justamente por não se separar.
toîs mathētaîs autoû (τοῖς μαθηταῖς αὐτοῦ) — "aos seus discípulos": a pergunta é feita aos seguidores, não a Jesus. O texto marca com precisão esse desvio, que sugere uma abordagem indireta e pressionadora.
Diatí (Διατί) — "por quê": a pergunta tem forma de interrogação, mas função de acusação. Não busca entender; busca condenar.
esthíei (ἐσθίει) — "come": no presente, indicando um hábito, e não um único episódio. O escândalo, para os fariseus, é que aquilo se repetia.
ho didáskalos hymôn (ὁ διδάσκαλος ὑμῶν) — "o vosso Mestre": chamam Jesus de "mestre", mas com distância — "o vosso", não "o nosso". A cortesia esconde a rejeição.
Nota teológica: o nome "fariseus", ligado à ideia de separação, torna a cena teologicamente aguda. Aqueles cuja identidade era separar-se do impuro não conseguem entender um Deus que se aproxima. A pergunta deles, "por que ele come com pecadores?", tem uma resposta que eles não esperavam: porque é exatamente para isso que ele veio. O que parecia contradição na conduta de Jesus era, na verdade, o coração da sua missão.
11. Conclusão
Mateus 9:11 registra o momento em que a graça encontra a sua primeira grande objeção. Os fariseus veem Jesus à mesa com pecadores e perguntam, escandalizados, por quê. A pergunta parece atacar um comportamento; na verdade, ataca uma missão inteira.
Vimos que por trás da crítica havia uma teologia sincera, porém torta: a ideia de que a santidade se protege pela distância. Jesus encarna outra santidade — a que se aproxima, toca e cura sem se contaminar. O grupo dos "separados" não soube reconhecer o Deus que se une aos perdidos.
O versículo nos deixa um espelho incômodo. É fácil, em nome da fé, transformar a devoção em muro e o zelo em desprezo. A pergunta dos fariseus continua ecoando — e a resposta de Jesus, que vem logo em seguida, continua desfazendo o engano: ele veio, sim, comer com pecadores, porque era a eles que veio buscar.













