Mateus 9:10

Mateus 9:10


Estando Jesus em casa, foram comer com ele e seus discípulos muitos publicanos e "pecadores".

1. Introdução

Uma refeição pode dizer mais sobre uma pessoa do que qualquer discurso. Com quem alguém escolhe sentar à mesa revela seus valores, suas prioridades e o tipo de comunidade que deseja construir. Em Mateus 9:10, Jesus está à mesa na casa de Mateus, rodeado de publicanos e "pecadores" — e essa escolha não passou despercebida.

O versículo é curto, mas a cena que ele descreve é carregada de significado. Em uma cultura em que a refeição compartilhada era um ato de aceitação social e religiosa, Jesus sentou-se com os excluídos. Não como um gesto de tolerância condescendente, mas como uma declaração sobre quem ele é e qual é a natureza do Reino de Deus. Este estudo examina o peso cultural da mesa no mundo antigo, a identidade dos que foram comer com Jesus, e o que essa cena revela sobre a missão de Cristo e sobre a comunidade que seus seguidores são chamados a construir.


2. Contexto Histórico e Cultural

A refeição compartilhada no mundo judaico do século I não era apenas um ato social — era um ato de comunhão com significado religioso. Comer com alguém significava aceitar essa pessoa, reconhecê-la como parte da mesma comunidade. Por isso, a escolha de com quem se sentava à mesa era uma declaração de pertencimento e valores. Os fariseus, em particular, tinham regras rígidas sobre isso: não se devia comer com quem era considerado impuro, pecador ou fora da observância da Lei.

Os publicanos — cobradores de impostos a serviço de Roma — eram uma das categorias mais desprezadas da sociedade judaica. Além da associação com o poder ocupante, eram vistos como pessoas que enriqueciam à custa do próprio povo por meio de cobranças abusivas. A impureza atribuída a eles era tanto moral quanto religiosa: ao lidar constantemente com gentios e dinheiro romano, tornavam-se inaptos para a participação plena na vida da sinagoga.

O termo "pecadores", por sua vez, não se referia apenas a quem cometia crimes graves. Na linguagem dos fariseus, designava qualquer pessoa que não observasse rigorosamente as normas da pureza ritual e da Lei oral — pastores, artesãos, comerciantes ambulantes. Era uma categoria ampla, usada para traçar uma linha entre os "corretos" e os demais.

A casa que serve de cenário para a refeição é, segundo os relatos paralelos em Marcos e Lucas, a própria casa de Mateus. Recém-chamado ao discipulado, Mateus organiza um banquete e convida seus pares — os amigos e colegas que compartilhavam do mesmo mundo. É nesse ambiente que Jesus está presente, e é essa presença que vai provocar a reação registrada nos versículos seguintes.


3. Análise Teológica do Versículo

Estando Jesus em casa

Este evento ocorre logo após Jesus chamar Mateus, um cobrador de impostos, a segui-lo. Os cobradores eram frequentemente desprezados pelos judeus por colaborar com as autoridades romanas e por sua reputação de extorsão. A disposição de Mateus em receber Jesus em sua casa é sinal de uma transformação radical e de uma aceitação genuína do chamado de Cristo. O cenário de uma refeição é significativo na cultura judaica: simboliza companheirismo e aceitação. Jesus à mesa de Mateus indica sua missão de alcançar os marginalizados pela sociedade.

Foram comer com ele muitos publicanos e "pecadores"

A presença de muitos publicanos e pecadores evidencia o caráter inclusivo do ministério de Jesus. Essas pessoas eram frequentemente excluídas pela elite religiosa, mas se sentiam atraídas por Jesus. A reunião demonstra o impacto da conversão de Mateus, que convida seus pares para encontrar Jesus. Reflete também o cumprimento da missão de Jesus de buscar e salvar o que estava perdido, conforme anunciado em Isaías 61:1, onde o Messias é descrito como aquele que traz boas novas aos pobres e liberdade aos cativos.

E seus discípulos

Compartilhar uma refeição no antigo Oriente Próximo era um sinal de aceitação e comunidade. Ao comer com publicanos e pecadores, Jesus rompe barreiras sociais e religiosas, enfatizando sua mensagem de graça e redenção. Esse ato antecipa a abrangência do Evangelho, posteriormente estendido aos gentios. Também prefigura o banquete escatológico descrito em Isaías 25:6, em que todas as nações se reúnem na presença de Deus. As ações de Jesus desafiam as normas religiosas vigentes e revelam o Reino de Deus como aberto a todos os que se arrependem e creem.


4. Pessoas, Lugares e Eventos

1. Jesus Figura central do Novo Testamento, o Filho de Deus, que veio buscar e salvar o que estava perdido.

2. Mateus Também conhecido como Levi, ex-cobrador de impostos e um dos doze apóstolos de Jesus. Sua casa é o cenário deste evento.

3. Os Publicanos Cobradores de impostos frequentemente desprezados pelos judeus por sua colaboração com as autoridades romanas e por sua reputação de desonestidade.

4. Os "Pecadores" Termo usado para descrever aqueles considerados moral ou ritualmente impuros pelos líderes religiosos da época. A palavra aparece entre aspas no texto porque reflete o julgamento alheio, não necessariamente a condição real dessas pessoas diante de Deus.

5. Os Discípulos Seguidores de Jesus que aprendiam com seus ensinamentos e seu exemplo — e que agora observavam, à mesa, como o Mestre se comportava com os excluídos.


5. Pontos de Ensino

O amor inclusivo de Jesus A disposição de Jesus em sentar-se à mesa com publicanos e pecadores demonstra seu amor inclusivo e sua missão de alcançar os perdidos. Os seguidores de Cristo são chamados a estender amor e graça àqueles que a sociedade marginaliza.

Romper barreiras sociais Jesus rompeu barreiras sociais e religiosas ao se associar com pessoas consideradas párias. Como seguidores de Cristo, é preciso questionar as normas que excluem ou julgam os outros de forma injusta.

O chamado ao arrependimento A presença de Jesus entre os pecadores não era uma aprovação do pecado, mas um convite ao arrependimento e à transformação. O Evangelho é levado às pessoas onde elas estão — não depois que elas se tornaram "dignas" de recebê-lo.

Comunidade e companheirismo A reunião na casa de Mateus mostra a importância da comunidade na vida cristã. Construir relações que favoreçam o crescimento espiritual e o apoio mútuo é parte essencial do discipulado.

Testemunhar por meio dos relacionamentos Jesus usou refeições e interações pessoais como oportunidades de ministério. É possível testemunhar aos outros por meio de relacionamentos genuínos, compartilhando o amor de Cristo nos ambientes cotidianos.


6. Aspectos Filosóficos

A cena de Mateus 9:10 é, em termos filosóficos, uma ruptura. Jesus não apenas cruza uma fronteira social — ele demonstra que a fronteira em si é ilegítima.

O filósofo Emmanuel Levinas desenvolveu uma ética centrada no "rosto do outro": o encontro com o outro, especialmente com o outro vulnerável e marginalizado, é o lugar onde a responsabilidade ética nasce. Para Levinas, a ética não começa em princípios abstratos, mas no reconhecimento concreto de que o outro existe e me exige uma resposta. Jesus, ao sentar-se à mesa com os publicanos e pecadores, age precisamente dessa forma: ele responde ao rosto do outro sem filtrar por critérios de pureza ou status.

Há também uma dimensão política no ato de Jesus. Michel Foucault analisou como as sociedades constroem categorias de exclusão — o louco, o criminoso, o impuro — para definir e proteger as fronteiras do "normal". Os publicanos e pecadores do século I eram uma dessas categorias: sua exclusão não era apenas moral, era estrutural, mantida por práticas religiosas e sociais. Jesus ignora essa estrutura. Ao comer com os excluídos, ele não apenas acolhe indivíduos — desafia o sistema de classificação que os excluiu.

Do ponto de vista da filosofia do símbolo, a refeição compartilhada é um dos atos humanos mais carregados de significado. Paul Ricoeur, ao analisar os símbolos primordiais, destacou que comer junto é um dos gestos fundamentais pelos quais os seres humanos comunicam pertencimento. Ao compartilhar a mesa com os excluídos, Jesus não apenas os aceita individualmente — os inclui na comunidade do Reino. A mesa de Jesus é uma antecipação concreta daquilo que a teologia chama de banquete escatológico: a refeição final em que as divisões humanas são superadas.

Por fim, a cena levanta uma questão filosófica sobre a natureza da graça. A graça, entendida como favor imerecido, subverte a lógica do mérito que organiza as sociedades humanas. Nessa lógica, o acesso aos bens — inclusive o bem da comunidade com Deus — é proporcional ao mérito acumulado. Jesus inverte essa lógica: ele vai primeiro aos que menos merecem, segundo os critérios humanos, e faz disso a demonstração mais clara de quem é Deus.


7. Aplicações Práticas

Examinar com quem nos sentamos à mesa A mesa de Jesus era aberta aos excluídos. A pergunta que este versículo faz ao leitor contemporâneo é direta: com quem você está disposto a comer? A mesa — física ou metafórica — é um revelador de valores. Abrir espaço para quem é diferente, para quem carrega histórias difíceis ou reputações complicadas, é uma das formas mais concretas de reproduzir o comportamento de Jesus.

Usar os ambientes cotidianos como espaços de ministério Jesus não esperou uma solenidade religiosa para agir. Ele ministrou à mesa, em conversas informais, em ambientes de convivência comum. Refeições, reuniões sociais e encontros casuais são oportunidades reais de testemunho — não por meio de discursos, mas por meio de presença genuína e interesse pelo outro.

Não confundir inclusão com aprovação Jesus sentou-se com os pecadores, mas não ignorou o pecado. Sua presença era um convite à transformação, não uma chancela para continuar como estava. Na prática, isso significa acolher as pessoas sem condicionar a relação à perfeição moral, mas também sem abrir mão da verdade que liberta.

Transformar a própria conversão em missão Mateus, recém-convertido, imediatamente convidou seus pares para encontrar Jesus. A conversão autêntica gera o desejo de que outros experimentem o mesmo. A pergunta prática é: quem são os "publicanos" da sua rede de relacionamentos — as pessoas que você conhece e que precisam de um convite para se aproximar de Jesus?

Desafiar estruturas de exclusão dentro da Igreja A crítica dos fariseus, registrada nos versículos seguintes, vinha de dentro da comunidade religiosa. A Igreja contemporânea também pode desenvolver suas próprias categorias de exclusão — pessoas que são recebidas com mais dificuldade por causa da aparência, do histórico ou do comportamento. Este versículo é um convite a revisar essas fronteiras à luz do exemplo de Jesus.


8. Perguntas e Respostas Reflexivas sobre o Versículo

1. Como a interação de Jesus com publicanos e pecadores desafia a nossa visão sobre nos associarmos com pessoas diferentes de nós?

Ela desafia diretamente a tendência humana de construir comunidade apenas entre iguais. A refeição de Jesus com os excluídos não foi um gesto de tolerância — foi uma declaração de pertencimento. Isso interpela o crente sobre a composição dos seus relacionamentos: se o círculo de convivência é formado exclusivamente por pessoas que já compartilham a mesma fé, os mesmos valores e o mesmo estilo de vida, algo da missão de Jesus está sendo ignorado. A presença entre os diferentes não é um risco à fé — é uma das expressões mais concretas dela.

2. De que formas é possível romper barreiras sociais e religiosas nas nossas comunidades para alcançar quem se sente marginalizado?

O ponto de partida é a atenção: perceber quem está sendo deixado de fora. Nas igrejas, isso pode significar observar quem entra e não volta, quem participa mas não pertence, quem é acolhido nos cultos mas não nos espaços informais. Romper barreiras começa com atos simples — uma conversa, um convite para almoçar, a disposição de ouvir sem julgar. A transformação estrutural vem depois, mas começa sempre em relações concretas.

3. Como equilibrar o amor e a graça com o encorajamento ao arrependimento e à transformação?

Jesus nunca separou os dois. Ele acolhia as pessoas onde estavam e, ao mesmo tempo, as chamava a algo melhor. O equilíbrio prático está na sequência: primeiro o relacionamento, depois a palavra. Uma pessoa que se sente genuinamente acolhida está muito mais disposta a ouvir uma palavra de verdade do que alguém que foi primeiro julgado. O amor abre o coração; a verdade, recebida dentro de um relacionamento de confiança, pode transformá-lo.

4. Que passos práticos podem ser dados para criar uma comunidade acolhedora e inclusiva na igreja ou no grupo pequeno?

Alguns passos concretos: revisar a linguagem usada nos cultos e eventos para que não seja excludente para quem está chegando; criar espaços informais de convivência — refeições, encontros descontraídos — onde o relacionamento possa acontecer sem a pressão de um contexto formal; treinar líderes e membros para perceber e acolher os novos; e, sobretudo, cultivar uma cultura em que o histórico de vida de ninguém seja condição para pertencer.

5. Como usar as interações cotidianas — refeições, encontros sociais — como oportunidades de compartilhar o Evangelho e demonstrar o amor de Cristo?

A refeição de Jesus com os publicanos não começou com um sermão. Começou com presença. A lição prática é que o Evangelho é comunicado primeiro pela qualidade do relacionamento — pelo interesse genuíno no outro, pela escuta atenta, pela disposição de estar presente sem agenda oculta. Quando a confiança é estabelecida, a palavra sobre Jesus ganha credibilidade. As pessoas não precisam de um testemunhador — precisam de alguém que realmente se importe com elas.


9. Conexão com Outros Textos

Lucas 5:29-32

O relato paralelo em Lucas apresenta contexto adicional sobre a missão de Jesus de chamar os pecadores ao arrependimento:

"Então Levi lhe deu um grande banquete em sua casa, e uma grande multidão de publicanos e de outros estavam à mesa com eles. Os fariseus e os escribas murmuravam contra os discípulos de Jesus, dizendo: 'Por que vocês comem e bebem com publicanos e pecadores?' Jesus respondeu: 'Não são os sãos que precisam de médico, mas os enfermos. Eu não vim chamar justos, mas pecadores ao arrependimento.'" (Lucas 5:29-32)


Marcos 2:15-17

Outro relato paralelo que enfatiza o papel de Jesus como médico dos espiritualmente enfermos:

"Enquanto Jesus estava à mesa na casa de Levi, muitos publicanos e pecadores se reclinaram com ele e seus discípulos, pois havia muitos que o seguiam. Quando os escribas que eram fariseus o viram comer com pecadores e publicanos, perguntaram aos seus discípulos: 'Por que ele come com publicanos e pecadores?' Ao ouvir isso, Jesus lhes disse: 'Não são os sãos que precisam de médico, mas os enfermos. Eu não vim chamar justos, mas pecadores.'" (Marcos 2:15-17)


Romanos 5:8

Paulo destaca o amor de Deus pelos pecadores, mostrando que Cristo morreu por nós enquanto ainda éramos pecadores:

"Mas Deus demonstra o seu amor por nós pelo fato de Cristo ter morrido por nós quando ainda éramos pecadores." (Romanos 5:8)


1 Timóteo 1:15

Paulo se refere a si mesmo como o maior dos pecadores, sublinhando a graça disponível a todos por meio de Cristo:

"Esta é uma palavra fiel e digna de toda aceitação: Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais sou o maior." (1 Timóteo 1:15)


Lucas 15:1-7

A parábola da ovelha perdida ilustra a alegria de Jesus ao trazer os pecadores de volta a Deus:

"Qual de vocês, tendo cem ovelhas e perdendo uma delas, não deixa as noventa e nove no campo e vai atrás da ovelha perdida até encontrá-la? Quando a encontra, cheio de alegria a coloca nos ombros e volta para casa. Então chama os amigos e vizinhos e lhes diz: 'Alegrem-se comigo, pois encontrei minha ovelha perdida.'" (Lucas 15:4-6)


10. Original Grego e Análise

Versículo em português: "Estando Jesus em casa, foram comer com ele e seus discípulos muitos publicanos e 'pecadores'." (Mateus 9:10)

Texto em grego: Καὶ ἐγένετο αὐτοῦ ἀνακειμένου ἐν τῇ οἰκίᾳ, καὶ ἰδοὺ πολλοὶ τελῶναι καὶ ἁμαρτωλοὶ ἐλθόντες συνανέκειντο τῷ Ἰησοῦ καὶ τοῖς μαθηταῖς αὐτοῦ.

Transliteração: Kai egeneto autou anakeimenου en tē oikia, kai idou polloi telōnai kai hamartōloi elthontes synanekeinto tō Iēsou kai tois mathētais autou.


Análise palavra por palavra:

ἐγένετο (egeneto) Aoristo de γίνομαι (ginomai), "acontecer", "ocorrer". Mateus usa essa construção narrativa para introduzir um novo episódio. O aoristo marca o evento como um fato concreto e histórico.

ἀνακειμένου (anakeimenου) Particípio presente de ἀνάκειμαι (anakeimai), "estar reclinado à mesa". No mundo greco-romano do século I, as refeições formais eram feitas em posição reclinada sobre divãs ou esteiras. O verbo descreve uma refeição elaborada — não um lanche rápido, mas um banquete. Jesus estava plenamente presente, não de passagem.

ἐν τῇ οἰκίᾳ (en tē oikia) "Na casa". O artigo definido indica uma casa específica — identificada pelos relatos paralelos como a casa de Mateus. A casa é o espaço doméstico, privado, de pertencimento. Jesus estava no centro desse espaço.

ἰδοὺ (idou) "Eis que", "e então", "veja". Partícula de atenção que Mateus usa para destacar algo surpreendente ou significativo. O que está prestes a ser descrito — a chegada dos publicanos e pecadores — é apresentado como algo notável.

πολλοὶ τελῶναι (polloi telōnai) "Muitos publicanos". O adjetivo πολλοί (polloi) enfatiza o número: não foi um ou dois, mas uma reunião expressiva. τελώνης (telōnēs) é o termo técnico para o cobrador de impostos que trabalhava a serviço das autoridades romanas, e carregava forte conotação negativa no vocabulário judaico.

καὶ ἁμαρτωλοί (kai hamartōloi) "E pecadores". ἁμαρτωλός (hamartōlos) vem de ἁμαρτία (hamartia), "pecado", "erro", "desvio do alvo". No uso farisaico, o termo era aplicado amplamente a quem não observava a Lei oral com rigor. As aspas que algumas traduções colocam em "pecadores" capturam bem o sentido: é a designação que os religiosos usavam para categorizar e excluir.

ἐλθόντες (elthontes) Particípio aoristo de ἔρχομαι (erchomai), "vir". Eles vieram — por iniciativa própria. Ninguém os obrigou. A presença de Jesus atraía os excluídos de forma espontânea. Isso diz muito sobre o tipo de ambiente que Jesus criava ao seu redor.

συνανέκειντο (synanekeinto) Imperfeito de συνανάκειμαι (synanakeimai), "recostar-se à mesa junto com". O prefixo σύν (syn) indica companhia — "junto com". O imperfeito descreve uma ação em andamento: eles estavam à mesa juntos, num estado de comunhão que se prolongava. Não foi um encontro relâmpago — foi uma refeição compartilhada.

τῷ Ἰησοῦ καὶ τοῖς μαθηταῖς αὐτοῦ (tō Iēsou kai tois mathētais autou) "Com Jesus e seus discípulos". Os dois grupos — os excluídos e os discípulos — estavam à mesma mesa, com Jesus ao centro. Essa imagem é uma miniatura do que o Reino de Deus representa: a reunião dos diferentes em torno de Cristo.


11. Conclusão

Mateus 9:10 descreve uma cena que, por sua aparente simplicidade, carrega um dos gestos mais radicais do ministério de Jesus: ele sentou-se à mesa com os excluídos. Em uma cultura em que a refeição compartilhada era um ato de pertencimento social e religioso, essa escolha era uma declaração — sobre quem Jesus é, sobre para quem ele veio e sobre como é o Reino que ele anunciava.

A análise do grego revela a profundidade da cena. O verbo συνανέκειντο (synanekeinto) descreve uma comunhão prolongada à mesa — não uma visita rápida, mas presença real. A partícula ἰδοὺ (idou) destaca a chegada dos publicanos e pecadores como algo digno de atenção. E o verbo ἐλθόντες (elthontes) — "eles vieram" — mostra que Jesus não precisou insistir: sua presença atraía os que o mundo havia descartado.

A mesa de Jesus é, neste versículo, uma imagem do Evangelho. Ela não exige pureza prévia para sentar-se. Ela não reserva lugares apenas para os respeitáveis. Ela é ampla o suficiente para acolher todos que respondem ao chamado — e estreita o suficiente para que ninguém saia sem ser transformado pela presença de Cristo.

Para a Igreja de hoje, o desafio é o mesmo que enfrentaram os discípulos naquela tarde em Cafarnaum: estar à mesa com Jesus significa estar à mesa com quem ele convida. E ele sempre convida os que o mundo prefere ignorar.

A Bíblia Comentada