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Mateus 14:35

✍️ Por Alberto Adriano·18 de agosto de 2026·⏱️ 50 min de leitura·👁 20 acessos
Quando os homens daquele lugar o reconheceram, espalharam a notícia por toda a região ao redor e lhe trouxeram todos os que estavam doentes.
Homens de túnica correndo por uma estrada de terra à beira do lago da Galileia levando um recado às aldeias vizinhas.

Estudo


Quando os homens daquele lugar o reconheceram, espalharam a notícia por toda a região ao redor e lhe trouxeram todos os que estavam doentes.

1. Introdução

Havia poucas horas, doze homens que conviviam com ele todos os dias olharam para a sua figura sobre a água e concluíram que era uma aparição.

Agora, uns desconhecidos numa praia o identificam de longe.

O verbo que o evangelista usa aqui não é o de ver. É o de reconhecer plenamente, saber de quem se trata — e é exatamente o que faltou dentro do barco.

O que se segue a esse reconhecimento é uma operação de logística. Alguém sai avisando a região inteira, e a região inteira responde carregando gente doente até a beira do lago.

Vale reparar, desde já, em três coisas que o versículo diz sem sublinhar. Quem reconhece são estranhos, e não os próximos. Quem espalha a notícia não é ele nem os discípulos, e sim moradores anônimos. E os doentes não vêm: são trazidos.

2. Contexto Histórico e Cultural

Uma faixa de terra cheia de gente

A cena acontece na planície de Genesaré, e a densidade populacional daquela margem é parte do que o versículo pressupõe.

Numa faixa de aproximadamente cinco quilômetros por dois, com solo excepcional e água farta, viviam e trabalhavam muitas famílias. Ao norte, a poucos quilômetros, ficava Cafarnaum, que era ao mesmo tempo aldeia de pescadores e posto de fronteira, com casa de coleta de impostos e um destacamento militar. Ao sul, à mesma distância, ficava Magdala, cujo nome grego, Taricheia, remete à indústria de salga de peixe. Em torno, aldeias pequenas espalhadas pelas encostas.

Josefo afirma que a Galileia tinha duzentas e quatro cidades e aldeias, e que a menor delas passava de quinze mil habitantes. Os números são reconhecidamente inflados — a arqueologia não sustenta populações desse porte nas aldeias escavadas —, e vale registrar isso em vez de repeti-los. O que o exagero preserva de verdadeiro é a impressão geral: era uma região movimentada, muito mais povoada do que a média da Palestina rural.

Como uma notícia andava

Convém reconstruir a operação descrita neste versículo, porque ela é feita de coisas que o texto não menciona por serem óbvias para quem lia.

Não havia escrita corrente. A alfabetização na Palestina do primeiro século era baixa — as estimativas mais aceitas ficam abaixo de dez por cento da população, e concentradas em escribas, sacerdotes e gente de negócios. Um aviso não se mandava por bilhete.

A notícia andava, então, pelos meios de sempre: alguém corria a pé, alguém montava, alguém contava num cruzamento, num poço, na porta de uma sinagoga, no mercado de peixe. E como as aldeias da planície ficavam a uma ou duas horas de caminhada umas das outras, uma notícia lançada de manhã cobria a região antes do fim do dia.

Havia ainda a estrada. A rota que ligava o Egito e a costa a Damasco passava pela margem noroeste do lago. Por ela circulavam mercadores, tropas e viajantes, e com eles circulavam as histórias.

Doença num mundo sem medicina

O versículo fala em "todos os que estavam doentes", e convém saber o que isso significava naquele mundo.

Não havia hospital, não havia diagnóstico no sentido moderno, e a medicina disponível se resumia a ervas, dietas, banhos, amuletos e ao trabalho de curandeiros locais. Médicos existiam nas cidades grandes e eram caros; o evangelho de Marcos registra, a respeito da mulher com fluxo de sangue, que ela gastara tudo o que tinha com muitos médicos e piorara.

A doença, além disso, não era apenas um problema de corpo. Ela tinha consequência social. Doenças de pele afastavam a pessoa do convívio e do culto; convulsões e distúrbios mentais eram lidos como possessão; e havia, difundida, a suspeita de que a doença fosse castigo por pecado — suspeita que os evangelhos registram na boca dos discípulos e que Jesus, em pelo menos um episódio, rejeita.

Some-se a isso a economia. Uma família camponesa vivia no limite. Um adulto acamado significava menos braços na colheita e mais uma boca; um doente crônico podia empurrar a família inteira para a mendicância.

Quando o texto diz que trouxeram todos os doentes, portanto, está descrevendo uma mobilização com peso material. Carregar gente em macas por quilômetros de estrada de terra é trabalho pesado, feito por quem tinha lavoura para cuidar.

Quem aparece e quem não aparece

O versículo diz "os homens daquele lugar". A palavra grega não é a genérica para seres humanos: é a específica para varões.

Isso corresponde ao funcionamento daquela sociedade. O espaço público — a estrada, o mercado, a negociação, o envio de recado — era território masculino. As mulheres circulavam, trabalhavam e se moviam, mas a representação da aldeia diante de um forasteiro cabia aos homens.

Vale registrar que o texto não faz disso um princípio nem o comenta. Descreve o que aconteceu, com o vocabulário do seu tempo. Mas o leitor moderno que não conhece o pano de fundo lê "os homens" como se fosse "as pessoas", e perde a informação.

O que já tinha acontecido naquela costa

Convém lembrar que Jesus não era desconhecido ali.

Mateus registra, no capítulo 4, que ele deixou Nazaré e foi morar em Cafarnaum, à beira do lago — a poucos quilômetros desta planície. No mesmo capítulo, diz que a fama dele correu por toda a Síria e que lhe traziam todos os que sofriam de males diversos.

Depois disso vieram os capítulos de milagres, e duas notas explícitas de divulgação: a notícia da ressurreição da filha do chefe da sinagoga correu por toda aquela terra, e os dois cegos curados espalharam a fama dele por toda a região.

Ou seja, o reconhecimento deste versículo não cai do céu. Ele tem história. O que o texto não diz é como aqueles homens especificamente o conheciam — se o tinham visto, se o tinham ouvido, ou se apenas o identificaram pela descrição que corria.

3. Análise Teológica do Versículo

"Quando os homens daquele lugar o reconheceram"

O verbo grego é epiginṓskō, e a escolha dele é o dado mais carregado deste versículo.

Trata-se de um composto: o verbo comum de conhecer, ginṓskō, acrescido do prefixo epí. Nos compostos gregos, esse prefixo costuma funcionar como intensificador, e é assim que os dicionários registram o sentido aqui: conhecer plenamente, reconhecer, identificar com certeza, saber de quem se trata.

Convém, porém, marcar um limite antes de construir qualquer coisa sobre isso. A distinção entre o verbo simples e o composto não é rígida no grego do Novo Testamento: há passagens em que os dois se alternam sem diferença perceptível, e a força do prefixo se enfraqueceu ao longo da história da língua. Quem monta uma teologia inteira sobre o epí está pedindo à palavra mais do que ela dá.

Dito isso, o uso do composto neste lugar é notável — não pela força do prefixo em si, mas pelo que o verbo faz na narrativa.

O reconhecimento invertido

Volte-se nove versículos.

No versículo 26, doze homens que conviviam com Jesus diariamente havia meses olham para uma figura caminhando sobre a água e concluem que é uma aparição. O verbo ali é de percepção — eles viram, e viram corretamente. O que falhou foi a identificação.

Aqui, no versículo 35, gente da beira do lago que o evangelista não nomeia, não qualifica e não apresenta como discípulo de coisa nenhuma o identifica de imediato.

A distância entre as duas cenas é de algumas horas de narrativa.

Os próximos, no escuro, não souberam quem era. Os estranhos, à luz do dia, souberam.

Registro que Mateus não comenta o contraste. Não há uma frase ligando as duas cenas, nenhuma ironia explícita, nenhuma censura. Ele narra as duas e segue. A aproximação é do leitor — e é do leitor que tem o capítulo inteiro diante dos olhos, o que era exatamente a situação de quem ouvia o evangelho lido em voz alta numa assembleia.

Convém também não exagerar a moral da comparação. As circunstâncias são diferentes: uma coisa é reconhecer um homem que anda sobre a água numa noite de tempestade; outra é reconhecer um homem que desembarca de um barco de manhã. A situação do versículo 26 tinha dificuldades que esta não tem.

Mas o padrão existe, e não é isolado neste evangelho. É a isso que vale prestar atenção.

O mesmo verbo, negado, três capítulos adiante

Há uma ocorrência de epiginṓskō em Mateus que ilumina esta, e é preciso citá-la.

No capítulo 17, descendo do monte, os discípulos perguntam por que os escribas dizem que Elias deve vir primeiro. Jesus responde que Elias já veio — e acrescenta: e não o reconheceram. O verbo é este, no negativo.

O evangelista informa em seguida que os discípulos entenderam que ele falava de João Batista.

Ou seja: no mesmo evangelho, o verbo do reconhecimento aparece negado para descrever o fracasso de Israel diante do precursor — cuja morte foi narrada no começo deste mesmo capítulo 14.

O capítulo abre com um homem que não foi reconhecido e foi decapitado. Fecha com um homem que é reconhecido de longe por estranhos numa praia.

Apresento isso como leitura, e digo que é leitura. Mateus não faz a ligação, não usa o verbo no versículo 3 nem no 10, e a proximidade dos dois casos é do leitor. Mas o vocabulário é o mesmo, e o evangelista é conhecido por construir os seus capítulos com atenção.

O mesmo verbo na estrada de Emaús

Fora de Mateus, o uso mais famoso do verbo está em Lucas, no fim do evangelho.

Dois discípulos caminham horas ao lado de Jesus depois da ressurreição, conversam com ele, ouvem-no expor as Escrituras — e não o reconhecem. Lucas escreve que os olhos deles estavam retidos para que não o reconhecessem. O verbo é este.

Depois, à mesa, quando ele parte o pão, os olhos se abrem e eles o reconhecem. O verbo é o mesmo, agora afirmativo.

O padrão que se desenha em todo o material dos evangelhos é consistente e vale enunciar com cuidado: reconhecer Jesus, nessas narrativas, não é função de proximidade nem de tempo de convivência. Discípulos deixam de reconhecê-lo; Maria Madalena o toma por jardineiro; e desconhecidos o identificam de longe.

Não é possível saber se o padrão foi construído deliberadamente pelos evangelistas ou se é o resultado natural de narrar episódios diferentes. As duas leituras são defensáveis.

Os frutos, e o que o verbo pede

Vale acrescentar mais duas ocorrências do verbo em Mateus, porque elas mostram o que ele costuma exigir.

No sermão do monte, duas vezes: pelos frutos os conhecereis. É o mesmo verbo. E o que ele descreve ali é um reconhecimento por evidência — identifica-se a árvore pelo que ela produz, e não por declaração.

Aplique-se isso à cena. Aqueles homens não recebem revelação nenhuma. Não há voz do céu, não há anúncio, não há discurso. Eles identificam um homem que desembarca — provavelmente porque já o tinham visto, ou porque a descrição que corria pela região bastava.

Convém registrar o que o texto não diz aqui, porque é muito. Não diz como o reconheceram. Não diz o que pensavam a respeito dele. Não diz que criam em coisa alguma. Não os chama de discípulos, de crentes, de justos ou de nada. Chama-os de "os homens daquele lugar".

O reconhecimento registrado é de identidade, e não de fé. Eles sabem quem é. O que sabem além disso, o evangelista não informa.

"os homens daquele lugar"

A expressão grega é hoi ándres toû tópou ekeínou.

A palavra anḗr é a específica para varão adulto, e não a genérica ánthrōpos, que designa o ser humano de qualquer sexo. Mateus faz essa distinção em outros lugares — no relato da multiplicação dos pães, poucos versículos antes, ele conta "cerca de cinco mil homens, além de mulheres e crianças", e ali usa exatamente esta palavra.

Ou seja: o evangelista, neste capítulo, mostra que sabe distinguir os termos.

O que isso significa aqui é o funcionamento social da época, e não uma tese. O espaço público — a estrada, o mercado, o envio de um recado a outra aldeia, a representação da comunidade diante de um forasteiro — era território masculino. Registro o dado; o texto não o comenta e não o transforma em princípio.

Já a expressão "daquele lugar" faz outra coisa, e vale notar. Ela não nomeia ninguém.

Compare-se com o restante do capítulo. Herodes tem nome. Herodias tem nome. João Batista tem nome. Pedro tem nome. Aqui, os agentes de tudo o que vai acontecer nos dois versículos finais são "os homens daquele lugar" — anônimos, coletivos, identificados apenas pela geografia.

Não é acidente de estilo apenas: é assim que os evangelhos costumam tratar as multidões que se beneficiam dos milagres. Elas agem, movem, carregam, e não recebem nome.

"espalharam a notícia por toda a região ao redor"

O grego é apésteilan eis hólēn tḕn períchōron ekeínēn, e há aqui uma particularidade que as traduções escondem.

O verbo apostéllō significa enviar, despachar, mandar com uma missão. É a raiz da palavra apóstolo, que quer dizer literalmente "enviado".

Mas o verbo, aqui, está sem objeto direto. O texto diz "enviaram para toda aquela região circunvizinha" — e não diz enviaram o quê.

As traduções resolvem de modos diferentes. A Almeida escreve "mandaram por todas aquelas terras em redor". A Bíblia Livre escreve "deram aviso". A Tradução Brasileira escreve "enviaram mensageiros". A nossa própria versão escreve "espalharam a notícia". Todas acrescentam alguma coisa, porque em português a frase não fica de pé sem complemento.

Registro isso porque é um exemplo pequeno e claro de como toda tradução é interpretação. O grego permite as duas leituras — mandaram gente, ou mandaram recado —, e nenhuma tradução consegue preservar a indefinição.

Na prática, a diferença é pequena: em qualquer das leituras, alguém saiu daquela praia levando a informação para fora.

A palavra "região ao redor"

O termo períchōros é formado por perí, ao redor, e chṓra, terra, país. Designa o cinturão de terras em volta de um ponto.

Ele aparece em Mateus mais uma vez, logo no capítulo 3, para descrever quem ia ao encontro de João Batista: vinham de Jerusalém, de toda a Judeia e de toda a região ao redor do Jordão.

Vale reter o paralelo, porque as duas ocorrências do termo em Mateus emolduram o capítulo 14 de um modo curioso. No capítulo 3, a região inteira sai em direção a João. No capítulo 14, depois que João morre, a região inteira é convocada em direção a Jesus. O mesmo movimento de massa, o mesmo vocabulário, e um destinatário no lugar do outro.

Registro como observação literária, marcando que Mateus não a assinala.

Há ainda um dado lexical que vale mencionar com cautela. Na versão grega do Antigo Testamento, esta mesma palavra é a que descreve a planície do Jordão onde ficavam Sodoma e Gomorra — a região circunvizinha que Ló escolheu por ser bem regada. A coincidência é apenas de vocabulário geográfico, e não autoriza leitura nenhuma: o termo é o corriqueiro para "arredores". Menciono porque quem consulta a concordância grega o encontra e pode se impressionar sem motivo.

A comparação com o versículo 13

Este capítulo tem duas cenas de multidão convocada, e a diferença entre elas é o ponto mais fino do versículo.

No versículo 13, Jesus se retira de barco para um lugar deserto. As multidões ouvem falar disso e o seguem a pé, saindo das cidades. Ninguém as chamou. Elas souberam e foram.

Aqui, no versículo 35, a multidão não se convoca. Ela é convocada. Terceiros identificam Jesus, terceiros mandam avisar, e terceiros carregam os doentes até ele.

A diferença de mecanismo é real e vale sublinhar. No primeiro caso, o movimento nasce de quem quer chegar. No segundo, nasce de quem quer levar.

E há uma diferença de composição junto com essa. A multidão do versículo 13 é feita de gente que anda; a deste versículo é feita, em boa parte, de gente que não anda — os doentes são o objeto do verbo, não o sujeito.

"e lhe trouxeram todos os que estavam doentes"

O verbo é prosphérō, e ele merece um parágrafo próprio.

É composto de prós, em direção a, e phérō, levar, carregar. O sentido básico é trazer alguma coisa até alguém, apresentar.

Mas o verbo tem um segundo campo de uso, e é forte: na versão grega do Antigo Testamento e na Carta aos Hebreus, é o termo técnico para oferecer sacrifício. Oferece-se um cordeiro, oferece-se um holocausto, oferece-se um dom no altar — sempre com este verbo.

Mateus usa a palavra nos dois sentidos, e vale percorrer as ocorrências.

No sentido cultual: no capítulo 5, se trouxeres a tua oferta ao altar; e no capítulo 8, quando o leproso curado deve apresentar a oferta que Moisés determinou. No capítulo 2, os magos oferecem os seus presentes.

No sentido comum: no capítulo 8, trouxeram-lhe muitos endemoninhados; no 9, trouxeram-lhe um paralítico deitado num leito, e depois um mudo endemoninhado; no 12, trouxeram-lhe um cego e mudo; no 17, o pai diz que trouxe o filho aos discípulos; no 19, trouxeram-lhe crianças.

O levantamento produz um dado que vale registrar com precisão: em Mateus, o que é "trazido" a Jesus, na esmagadora maioria das vezes, são pessoas doentes.

Convém marcar o limite antes de tirar consequências. Este é o verbo grego corrente para levar alguém até alguém, e não é preciso invocar o altar para explicá-lo. A leitura que vê nas curas de Mateus um vocabulário de oferta é possível e é sugestiva, mas não é demonstrável, e o próprio evangelista nunca a explicita.

O que se pode afirmar sem forçar é mais modesto: o verbo escolhido é o mesmo que se usa para apresentar uma oferta, e Mateus o emprega, no mesmo livro, para as duas coisas.

Quem carrega e quem é carregado

Aqui está um tema que este evangelho repete e que a leitura devocional costuma passar por cima.

Os doentes, neste versículo, são objeto direto. Não vêm: são trazidos. Não pedem: são apresentados.

O padrão se repete ao longo de Mateus. No capítulo 9, quatro homens trazem um paralítico deitado numa cama, e o texto diz que Jesus viu a fé deles — a dos carregadores, não a do carregado. No capítulo 8, o servo do centurião é curado sem jamais aparecer em cena; quem fala é o patrão. No capítulo 15, a filha da mulher cananeia é curada à distância, por causa da insistência da mãe. No capítulo 17, o pai carrega o filho epilético e argumenta por ele.

Vale enunciar o que isso mostra e o que não mostra.

Mostra que, em Mateus, o benefício de uma cura chega com frequência por meio de outra pessoa. Quem se moveu, quem insistiu, quem carregou, foi um terceiro.

Não mostra que a fé do doente seja irrelevante, porque há episódios em que ela é explicitamente central — a mulher com o fluxo de sangue ouve que a sua fé a salvou; os dois cegos são interrogados sobre o que creem.

O que o conjunto sustenta é uma afirmação de duas pontas: o evangelho registra curas em que a fé do beneficiado é o assunto e curas em que ela nem é mencionada, e não constrói regra a partir de nenhuma das duas séries.

Neste versículo, especificamente, a palavra fé não aparece.

"todos os que estavam doentes"

A expressão grega é pántas toùs kakōs échontas, e é um idiomatismo: literalmente, "todos os que estavam mal", ou "todos os que iam mal".

O grego não tem, aqui, uma palavra para doença. Tem um advérbio — mal — com o verbo ter. É a maneira corrente de dizer que alguém não está bem.

A expressão aparece em Mateus nos relatos-resumo: no capítulo 4, quando se diz que traziam a ele todos os que se sentiam mal; no capítulo 8, ao fim do dia em Cafarnaum; e aqui.

Vale notar a ausência de diagnóstico. Nos episódios individuais, Mateus especifica: lepra, paralisia, cegueira, mudez, febre, fluxo de sangue. Nos resumos, não especifica nada. A generalidade é característica do gênero — o resumo não conta casos, conta volume.

E vale notar o "todos". Não há triagem, não há critério, não há seleção. O que a frase descreve é uma região inteira entregando os seus doentes numa praia.

O que este versículo não tem

Convém fechar com uma ausência que só aparece na comparação.

Mateus tem dois resumos famosos da atividade de Jesus, quase idênticos entre si. No capítulo 4: percorria toda a Galileia, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do reino e curando toda enfermidade. No capítulo 9, praticamente a mesma frase, com os mesmos três verbos.

Ensinar, pregar, curar. É a tríade com que o evangelista descreve o trabalho.

Aqui, no fecho do capítulo 14, não há ensino e não há pregação. Há reconhecimento, há aviso, há transporte de doentes e — no versículo seguinte — há cura.

Um terço da tríade.

Não convém extrair disso uma tese sobre o que Jesus deixou de fazer: um resumo curto não é a negação do que os resumos longos afirmam, e o evangelista escreve aqui uma cena de passagem, não um retrato do ministério.

Mas o dado é do texto, e vale registrá-lo. O que aquela região quis dele, e conseguiu, foi a cura. Da palavra, o versículo não fala.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Os homens daquele lugar — moradores anônimos da planície de Genesaré; reconhecem Jesus, mandam avisar a região e trazem os doentes. Não são chamados de discípulos nem de crentes.

Jesus — acabou de desembarcar; é identificado antes de dizer ou fazer qualquer coisa.

Os discípulos — presentes, mas o versículo não os menciona; a iniciativa toda é dos moradores.

Os doentes — objeto do verbo, não sujeito: são trazidos por outros, e o texto não diz o que tinham.

A região ao redor — o cinturão de aldeias em torno da planície, entre Cafarnaum e Magdala, alcançável a pé em algumas horas.

O reconhecimento — o verbo é o de identificar plenamente, e é justamente o que faltou aos discípulos no versículo 26.

O aviso — enviado sem que o texto diga o que foi enviado: recado ou mensageiros, o grego não especifica.

João Batista — o homem que, segundo o capítulo 17, "não reconheceram"; a sua morte abre este mesmo capítulo.

A estrada da costa — a rota internacional que passava por aquela margem e ajudava a notícia a correr.

5. Pontos de Ensino

Estranhos identificam quem os próximos não identificaram. No versículo 26 os discípulos viram e disseram "aparição"; aqui, desconhecidos sabem de quem se trata.

O verbo é o de reconhecer plenamente. É o mesmo que Mateus 17:12 usa, no negativo, para dizer que não reconheceram Elias.

Reconhecer não é função de convivência. Nos evangelhos, discípulos falham nisso e desconhecidos acertam.

O reconhecimento aqui é de identidade, não de fé. O texto não diz que aquela gente cria em coisa alguma.

Os agentes são anônimos. Herodes, Herodias, João e Pedro têm nome no capítulo; estes são "os homens daquele lugar".

O aviso é enviado sem objeto no grego. Toda tradução precisa acrescentar alguma coisa — recado, mensageiros, notícia.

Mudou o mecanismo da multidão. No versículo 13 ela se convoca sozinha; aqui é convocada por terceiros.

O doente é levado, não vai. É objeto do verbo — e o padrão se repete em Mateus 8, 9, 15 e 17.

O verbo de "trazer" é o de apresentar oferta. Mateus o usa para o altar e para os doentes; a aproximação é possível, não demonstrável.

Não há diagnóstico e não há triagem. "Todos os que estavam mal" é idiomatismo de resumo, sem especificar nada.

Falta a palavra. Os resumos dos capítulos 4 e 9 trazem ensinar, pregar e curar; aqui só a cura aparece.

6. Aspectos Filosóficos

Quem sabe quem é

O versículo abre com um verbo de reconhecimento, e é preciso começar por ele porque tudo o mais depende dele.

Poucas horas antes, na mesma noite, homens que dividiam a mesa com Jesus havia meses olharam para a sua figura e concluíram que estavam diante de uma aparição. A visão estava correta; a identificação, não.

Agora, gente que o evangelista não nomeia e não qualifica o identifica assim que ele põe o pé na areia.

Convém não moralizar a comparação, porque as condições eram diferentes: uma coisa é reconhecer alguém de madrugada, em meio a ondas, andando onde ninguém anda; outra é reconhecer alguém que desce de um barco de manhã. A dificuldade não é a mesma.

Mas fica de pé uma observação que não depende da moral: nas narrativas dos evangelhos, o reconhecimento não é proporcional à proximidade. Ele não se acumula com o tempo de convivência, não se garante pela intimidade e não se transfere de uma cena para outra. Discípulos falham nele; estranhos acertam; e o mesmo verbo aparece, três capítulos adiante, para dizer que Israel não reconheceu o precursor.

Há aí uma afirmação sobre a natureza do conhecimento que é incômoda e vale enunciar: saber quem alguém é não é o mesmo que conviver com ele.

A tarefa dos anônimos

Este capítulo é povoado de nomes próprios. Herodes, Herodias, a filha, João, Pedro. Cada um deles tem um papel definido e uma cena.

Os agentes dos dois últimos versículos não têm nome. São "os homens daquele lugar" — identificados apenas pela geografia, sem história, sem biografia, sem retorno posterior no evangelho.

E, no entanto, tudo o que acontece no fecho do capítulo depende deles. Eles reconhecem, eles avisam, eles carregam. Jesus, neste versículo, não faz nada: é reconhecido, é avisado a respeito, recebe.

Vale reter a estrutura, porque ela é comum nos evangelhos e raramente é notada. Os beneficiários dos milagres, quando são multidão, não recebem nome. Agem e desaparecem.

Não é desprezo do narrador. É o modo como as narrativas antigas tratam o coletivo. Mas produz um efeito que o leitor moderno pode aproveitar: uma parte considerável do que acontece nesses relatos é feita por gente cujo nome ninguém guardou.

Levar é uma forma de crer que o texto não nomeia

O doente, aqui, é objeto do verbo. Não caminha até: é trazido.

Isso se repete em Mateus com uma frequência que vale notar — o paralítico deitado na cama, o servo do centurião que nunca aparece em cena, a filha da mulher cananeia curada à distância, o menino epilético carregado pelo pai.

Num dos casos, o evangelista chega a ser explícito sobre o que estava em jogo: ao ver os carregadores do paralítico, diz que Jesus viu a fé deles. A fé registrada é a de quem carregou.

Aqui, porém, a palavra fé não aparece. Nem dos que trazem, nem dos que são trazidos.

Convém ser exato sobre o que isso permite dizer. Não permite afirmar que aquela gente tinha fé, porque o texto não afirma. Não permite afirmar que não tinha. O que permite afirmar é que houve um esforço material considerável — reconhecer, avisar a região, carregar pessoas doentes por estradas de terra — e que o evangelista registra o esforço sem lhe dar nome teológico.

Há uma sobriedade nisso que vale imitar. O texto conta o que foi feito, e não o que se passava no coração de quem fez.

Duas maneiras de uma multidão se formar

O capítulo tem duas cenas de ajuntamento, e a diferença entre elas é instrutiva.

Na primeira, no versículo 13, as multidões ouvem que ele se retirou e vão atrás a pé, saindo das cidades. Ninguém as chamou; elas souberam e foram.

Na segunda, aqui, ninguém vai por conta própria. Alguém identifica, alguém manda avisar, alguém carrega. A multidão é montada de fora.

A distinção importa porque as duas coisas costumam ser confundidas sob a mesma palavra. Uma multidão que se move sozinha e uma multidão que é convocada não são o mesmo fenômeno, ainda que produzam a mesma imagem — muita gente reunida no mesmo lugar.

E há uma diferença de composição junto com a de mecanismo. A primeira multidão é feita de gente que consegue andar. A segunda, em boa parte, de gente que não consegue — e que por isso depende inteiramente de alguém ter decidido carregá-la.

Uma notícia num mundo sem escrita corrente

O versículo descreve, em duas palavras gregas, uma operação de comunicação.

Convém reconstruir o que ela exigia. A alfabetização era baixa; a maior parte da população não lia nem escrevia. Não havia bilhete, não havia cartaz, não havia como registrar o aviso. Tudo dependia de alguém dizer a alguém.

Isso significa que a informação só andava com uma pessoa junto. Cada quilômetro percorrido pela notícia foi percorrido por pés.

Vale medir o que isso implica de confiança. Quem recebia o recado não tinha como conferir a fonte, e o que chegava à aldeia distante era a palavra de um vizinho. A rede que espalhou o aviso pela planície inteira era feita, inteiramente, de crédito mútuo entre pessoas que se conheciam.

É um lembrete útil para quem lê os evangelhos: a rapidez com que as notícias circulam nesses textos não é exagero narrativo. É o funcionamento normal de uma sociedade densa, pequena e falante.

O que aquela região pediu

Fecho com uma observação delicada, que exige cuidado para não virar acusação.

Mateus resume o trabalho de Jesus, duas vezes, com três verbos: ensinar, pregar, curar. É a fórmula do capítulo 4 e a do capítulo 9.

Neste versículo, dos três, aparece um. Não há ensino, não há pregação, não há discurso. Há identificação, aviso, transporte e — no versículo seguinte — cura.

Não convém transformar isso em censura àquela gente. Eram pessoas com doentes em casa, numa sociedade sem medicina, onde um adulto acamado podia arrastar a família para a miséria. Procurar cura era a coisa razoável a fazer, e o texto não os repreende por isso — nem sugere que deveriam ter pedido outra coisa.

O que vale registrar é apenas a assimetria, e deixá-la registrada. Ele foi reconhecido, e o que se pediu ao reconhecido foi o que se conseguia usar. É um dado sobre como as pessoas se relacionam com o que reconhecem, e o evangelista o anota sem comentar.

7. Aplicações Práticas

Conviver não é o mesmo que conhecer

Poucas horas antes desta cena, homens que comiam com Jesus todos os dias olharam para ele e disseram "é uma aparição". Aqui, desconhecidos numa praia o identificam assim que ele desce do barco. O verbo que o evangelista escolhe é o de reconhecer plenamente, e é exatamente o que faltou dentro do barco.

Convém não moralizar a comparação, porque as condições eram diferentes — reconhecer alguém de madrugada em meio a ondas é mais difícil do que reconhecê-lo de manhã na areia. O que fica de pé é outra coisa, e não depende da moral: nesses relatos, reconhecer não é proporcional à convivência.

Vale aplicar isso às suas relações antigas. O tempo ao lado de alguém acumula informação, hábito e previsão, e nada disso é conhecimento garantido. Muita gente descobre, depois de vinte anos, que sabia a rotina do outro e não sabia quem ele era. O antídoto não é desconfiar; é continuar perguntando, mesmo quando parece que já não há o que perguntar.

Quem leva o doente faz metade do trabalho

Neste versículo, os doentes são objeto do verbo. Não vão: são trazidos. O mesmo acontece com o paralítico do capítulo 9, com o servo do centurião, com a filha da mulher cananeia e com o menino epilético — em Mateus, o benefício de uma cura chega, com frequência, pela iniciativa de outra pessoa.

Num desses casos, o evangelista é explícito: ao ver os que carregavam o paralítico, Jesus viu a fé deles. A fé registrada é a dos carregadores. Aqui, porém, a palavra fé não aparece — nem dos que trazem, nem dos trazidos. O texto conta o que foi feito e não diz o que se passava por dentro.

Pense em quem, na sua vida, depende de ser levado: um parente idoso, um amigo em depressão, alguém que perdeu a capacidade de pedir ajuda. Quem está muito mal, em geral, não organiza a própria travessia. Se você espera que a pessoa peça, é provável que ela não peça — e a parte que cabe a você é a parte de carregar, que é trabalhosa, silenciosa e não rende reconhecimento nenhum.

Multidão que vem e multidão que é trazida

O capítulo tem dois ajuntamentos. No versículo 13, as multidões ouvem falar e vão atrás a pé, por conta própria. Aqui, ninguém vai sozinho: alguém identifica, alguém manda avisar, alguém carrega. A multidão é montada de fora.

As duas produzem a mesma imagem — muita gente no mesmo lugar — e não são o mesmo fenômeno. E há uma diferença de composição junto com a de mecanismo: a primeira é feita de gente que anda, a segunda em boa parte de gente que não anda.

Vale usar isso como critério ao avaliar qualquer reunião de pessoas, dentro ou fora da igreja. Um público que se formou sozinho e um público que foi convocado dizem coisas diferentes sobre o que está acontecendo. Confundir os dois é o erro mais comum de quem mede resultado por número de presentes.

Faça a conta do que uma notícia custava

O versículo descreve, em duas palavras gregas, uma operação inteira de comunicação. Numa sociedade em que menos de um décimo da população lia, não havia bilhete, cartaz nem registro: cada quilômetro percorrido pela notícia foi percorrido por pés.

Isso implica confiança. Quem recebia o recado na aldeia vizinha não tinha como conferir a fonte, e o que chegava era a palavra de um conhecido. A rede que cobriu a planície inteira num dia era feita, do começo ao fim, de crédito mútuo entre pessoas que se viam.

Compare com o custo atual de espalhar qualquer coisa, que é zero, e com o crédito atual, que também é quase zero. Quando espalhar deixa de custar esforço, deixa de significar convicção — e é por isso que hoje se repassa tanta coisa em que ninguém acredita de fato. Vale adotar uma regra simples: só repasse o que você estaria disposto a caminhar duas horas para contar.

Os que fazem o essencial costumam ficar sem nome

Este capítulo é cheio de nomes próprios: Herodes, Herodias, a filha que dança, João Batista, Pedro. Os agentes dos dois últimos versículos não têm nenhum. São "os homens daquele lugar", identificados só pela geografia.

E tudo o que acontece no fecho do capítulo depende deles. Eles reconhecem, avisam e carregam. Jesus, neste versículo, não faz nada — é reconhecido, é avisado a respeito, recebe.

Olhe para as coisas que funcionam ao seu redor e procure os anônimos. Quase toda operação que dá certo tem um punhado de pessoas cujo nome não aparece em lugar nenhum e sem as quais nada andaria. Nomeá-las, quando possível, é justiça barata e rara. E, se você for uma delas, vale saber de antemão: o registro histórico vai guardar o resultado, e não você.

Sobre pedir o que se consegue usar

Mateus resume o trabalho de Jesus com três verbos, duas vezes: ensinar, pregar, curar. Neste fecho de capítulo aparece um. Há reconhecimento, aviso, transporte e cura — não há ensino nem pregação.

Não convém fazer disso uma censura àquela gente. Eram famílias com doentes em casa, num mundo sem medicina, onde um adulto acamado podia empurrar todos para a miséria. Procurar cura era o razoável, e o texto não os repreende nem sugere que deveriam ter pedido outra coisa.

Mas a assimetria fica registrada, e vale como exame pessoal. Diante do que você reconhece como importante, o que você costuma pedir? Em geral se pede a parte que resolve o problema de hoje, e essa é a parte legítima. Só é bom saber que se está pedindo um terço, e que o restante continua ali, à disposição, sem que ninguém tenha vindo buscar.

Reconhecer alguém não é ainda uma posição sobre ele

O texto diz que aqueles homens o reconheceram. Não diz que criam em coisa alguma, não os chama de discípulos, não informa o que pensavam a respeito dele. O reconhecimento registrado é de identidade, e nada além disso.

Vale marcar essa fronteira, porque é comum lê-la para além do que ela é — como se identificar Jesus já implicasse fé. O texto não permite. Herodes também sabia de quem se tratava, e a conclusão dele foi outra.

A distinção serve para o seu próprio inventário. Saber quem alguém é, saber o que ele faz, saber que ele tem razão — são três coisas, e a terceira não decorre das duas primeiras. Muita insatisfação com a própria vida religiosa vem de confundir informação bem guardada com convicção, e depois se cobrar por não sentir o que nunca se decidiu.

Aja quando a informação chega, não quando ela é confirmada

Aqueles homens não pediram credencial. Reconheceram, mandaram avisar e começaram a carregar gente — tudo isso no intervalo entre um barco encostar e o dia avançar. O texto não registra reunião, deliberação nem verificação.

Convém observar que o evangelista não elogia essa pressa, do mesmo modo que não a critica. Ele apenas conta. E o resultado, no versículo seguinte, é registrado sem que se diga se a atitude deles foi correta.

Ainda assim há uma lição prática, e é sobre janelas. Certas oportunidades duram o tempo de uma passagem — alguém está na cidade hoje, a vaga fecha na sexta, a pessoa ainda está viva. Deliberar tem valor, e há situações em que o custo de deliberar é perder inteiramente a coisa sobre a qual se delibera. Vale aprender a distinguir as duas.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

O que significa exatamente o verbo "reconheceram"?

O grego traz um composto do verbo comum de conhecer, com um prefixo que costuma intensificar: reconhecer plenamente, identificar com certeza, saber de quem se trata. Convém marcar um limite, porém: no grego do Novo Testamento a distinção entre o verbo simples e o composto não é rígida, e os dois às vezes se alternam sem diferença perceptível. O peso da observação não está na força do prefixo, e sim no que o verbo faz na narrativa.

Por que esse verbo é importante aqui?

Porque é justamente o que faltou nove versículos antes. No versículo 26, discípulos que conviviam com Jesus havia meses olharam para ele e disseram "é uma aparição" — viram corretamente e identificaram errado. Aqui, desconhecidos numa praia o identificam de imediato. Mateus não comenta o contraste; a aproximação é do leitor.

Isso quer dizer que os discípulos eram piores do que aquela gente?

Não é o que o texto diz, e convém não moralizar. As circunstâncias eram diferentes: reconhecer alguém de madrugada, em meio a ondas, andando sobre a água, é mais difícil do que reconhecê-lo de manhã, descendo de um barco. O que fica de pé, sem depender de julgamento moral, é que nesses relatos o reconhecimento não é proporcional à convivência.

O mesmo verbo aparece em outro lugar de Mateus?

Sim, e a ocorrência é notável. No capítulo 17, Jesus diz que Elias já veio e "não o reconheceram" — o verbo é este, no negativo —, e o evangelista informa que os discípulos entenderam que ele falava de João Batista. O capítulo 14 abre com a morte desse homem que não foi reconhecido e fecha com um homem reconhecido de longe por estranhos. Mateus não faz a ligação; registro como leitura.

Como aqueles homens sabiam quem ele era?

O texto não diz. É plausível que já o tivessem visto: Mateus registra, no capítulo 4, que Jesus foi morar em Cafarnaum, a poucos quilômetros dali, e que a fama dele correu por toda a região; e há duas notas explícitas de divulgação nos capítulos seguintes. Mas a identificação específica destes homens não é explicada, e qualquer reconstrução é hipótese.

O reconhecimento deles é um ato de fé?

O texto não permite afirmar isso. Eles reconhecem a identidade; o evangelista não os chama de discípulos nem de crentes, não diz o que pensavam a respeito dele e não usa a palavra fé em nenhum momento do versículo. Vale lembrar que, no começo do mesmo capítulo, Herodes também sabe de quem se trata — e a conclusão dele é outra.

Por que o texto diz "os homens" e não "as pessoas"?

Porque o grego usa a palavra específica para varão adulto, e não a genérica para ser humano. Mateus mostra que sabe distinguir os dois termos: poucos versículos antes, ao contar a multidão alimentada, ele diz "cinco mil homens, além de mulheres e crianças". A escolha aqui reflete o funcionamento social da época, em que o espaço público e a representação da aldeia diante de um forasteiro cabiam aos homens. O texto registra o dado e não o comenta.

Eles enviaram o quê, exatamente?

O grego não diz. O verbo está sem objeto direto: "enviaram para toda aquela região circunvizinha". As traduções precisam completar, e completam de modos diferentes — mandaram, deram aviso, enviaram mensageiros, espalharam a notícia. É um exemplo pequeno e claro de que toda tradução é interpretação. Na prática a diferença é mínima: alguém saiu levando a informação.

Como uma notícia se espalhava tão rápido?

A pé, e por conversa. A alfabetização era baixa — as estimativas mais aceitas ficam abaixo de dez por cento —, de modo que não havia bilhete nem registro escrito. A planície de Genesaré era pequena e densamente povoada, com aldeias a uma ou duas horas de caminhada umas das outras, e pela margem passava a estrada internacional que ligava a costa a Damasco. Uma notícia lançada de manhã cobria a região antes do fim do dia.

Que diferença há entre esta multidão e a do versículo 13?

O mecanismo. No versículo 13, as multidões ouvem falar e vão atrás por conta própria, a pé, saindo das cidades. Aqui, ninguém vai sozinho: terceiros identificam, terceiros avisam e terceiros carregam. E há uma diferença de composição junto com a de mecanismo — a primeira multidão é feita de gente que anda, e esta, em boa parte, de gente que não anda.

O verbo "trouxeram" tem alguma carga especial?

Tem um segundo campo de uso que vale conhecer: na versão grega do Antigo Testamento e na Carta aos Hebreus, é o termo técnico para oferecer sacrifício. Mateus o usa nos dois sentidos — para a oferta no altar e para as pessoas levadas a Jesus. A leitura que vê aí um vocabulário de oferta é possível e sugestiva, mas não é demonstrável: este é também o verbo grego corrente para levar alguém até alguém.

Por que os doentes não vão sozinhos?

Porque muitos não podiam, e porque este é um padrão que Mateus repete. O paralítico é levado numa cama, o servo do centurião nunca aparece em cena, a filha da mulher cananeia é curada à distância, o menino epilético é carregado pelo pai. Num desses casos o evangelista chega a dizer que Jesus viu "a fé deles" — a dos carregadores. Aqui, porém, a palavra fé não aparece.

De que doenças se trata?

O texto não especifica. A expressão grega é um idiomatismo — "todos os que estavam mal" —, sem uma palavra para doença. Nos episódios individuais Mateus é preciso (lepra, paralisia, cegueira, febre); nos resumos, como este, não é. A generalidade é característica do gênero: o resumo não conta casos, conta volume. E não há triagem nem critério: o texto diz "todos".

Falta alguma coisa neste versículo em comparação com outros resumos?

Falta a palavra. Mateus resume o trabalho de Jesus duas vezes com três verbos — ensinando, pregando e curando —, nos capítulos 4 e 9. Aqui há reconhecimento, aviso, transporte de doentes e, no versículo seguinte, cura. Não há ensino nem pregação. Não convém transformar isso em censura: aquela gente tinha doentes em casa, num mundo sem medicina, e procurar cura era o razoável. Mas o dado é do texto e vale registrá-lo.

9. Conexão com Outros Textos

Mateus 14:26Quando os discípulos o viram andar sobre o mar, apavoraram-se, dizendo: É um fantasma! E gritaram de medo.

O contraponto direto: ali os próximos veem e não identificam; aqui os estranhos identificam de imediato.

Mateus 17:12Digo-vos, porém, que Elias já veio, mas não o reconheceram. Em vez disso fizeram dele tudo o que quiseram. Assim também o Filho do homem sofrerá por meio deles.

O mesmo verbo grego, no negativo, aplicado a João Batista — cuja morte abre este capítulo.

Mateus 7:16Vós os conhecereis pelos seus frutos. Por acaso se colhem uvas dos espinheiros, ou figos dos cardos?

O mesmo verbo no sermão do monte: reconhecimento por evidência, e não por declaração.

Lucas 24:16Mas seus olhos foram retidos, para que não o reconhecessem.

O verbo negado na estrada de Emaús, com discípulos que caminham horas ao lado dele.

Lucas 24:31E os olhos deles se abriram, e o reconheceram, e ele lhes desapareceu.

O mesmo verbo, afirmativo, quando o reconhecimento enfim acontece — e não pelo olhar, mas por um gesto à mesa.

Marcos 6:54-55Quando eles saíram do barco, logo as pessoas o reconheceram. Então gente de toda a região em redor veio correndo, e começaram a trazer em camas os doentes, aonde quer que ouviam que ele estava.

O relato paralelo, com um detalhe que Mateus não tem: as camas, e o movimento que segue Jesus de lugar em lugar.

Mateus 14:13Depois de Jesus ouvir, retirou-se dali num barco, a um lugar deserto, sozinho; mas assim que as multidões ouviram acerca disso, seguiram-no a pé das cidades.

A outra multidão do capítulo — que se convoca sozinha, ao contrário desta.

Mateus 4:24Sua fama corria por toda a Síria, e traziam-lhe todos que sofriam de algum mal, tendo diversas enfermidades e tormentos, e os endemoninhados, epiléticos, e paralíticos; e ele os curava.

O mesmo verbo de trazer e a mesma expressão idiomática para os doentes, num resumo anterior.

Mateus 9:2E eis que lhe trouxeram um paralítico, deitado em um leito. Quando Jesus viu a fé deles, disse ao paralítico: Tem bom ânimo, filho! Teus pecados são perdoados.

O caso em que o evangelista nomeia o que aqui não nomeia: a fé é a dos que carregam.

Mateus 8:16Quando chegou o anoitecer, trouxeram-lhe muitos endemoninhados. Ele expulsou-lhes os espíritos com a palavra, e curou todos os que estavam doentes,

Outro resumo com o mesmo par de verbos: trazer e curar.

Mateus 9:35Jesus percorria todas as cidades e aldeias, ensinando em suas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino, e curando toda enfermidade e toda doença.

A tríade completa do ministério — ensinar, pregar, curar —, da qual este versículo traz apenas a última parte.

Mateus 3:5Então vinham até ele moradores de Jerusalém, de toda a Judeia, e de toda a região próxima do Jordão;

A outra ocorrência em Mateus da palavra "região ao redor": lá a região sai atrás de João; aqui é convocada em direção a Jesus.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Quando os homens daquele lugar o reconheceram, espalharam a notícia por toda a região ao redor e lhe trouxeram todos os que estavam doentes.

Texto grego

καὶ ἐπιγνόντες αὐτὸν οἱ ἄνδρες τοῦ τόπου ἐκείνου ἀπέστειλαν εἰς ὅλην τὴν περίχωρον ἐκείνην, καὶ προσήνεγκαν αὐτῷ πάντας τοὺς κακῶς ἔχοντας·

Transliteração

kaì epignóntes autòn hoi ándres toû tópou ekeínou apésteilan eis hólēn tḕn períchōron ekeínēn, kaì prosḗnenkan autō pántas toùs kakōs échontas.

Palavra por palavra

ἐπιγνόντες (epignóntes) — "reconhecendo"

Particípio aoristo ativo, nominativo plural, do verbo epiginṓskō.

O aoristo indica ação pontual e anterior à do verbo principal: primeiro reconheceram, depois enviaram.

O verbo é composto de epí mais ginṓskō, conhecer. Nos compostos gregos, esse prefixo costuma funcionar como intensificador, e os dicionários registram para o composto o sentido de reconhecer, identificar com certeza, conhecer plenamente.

Convém, porém, marcar o limite antes de construir qualquer coisa sobre o prefixo. No grego do Novo Testamento a distinção entre o verbo simples e o composto não é rígida; há passagens em que os dois se alternam sem diferença perceptível, e a força dos prefixos se desgastou ao longo da história da língua. É discutido, caso a caso, quanto peso atribuir a essa diferença.

O que dispensa a discussão sobre o prefixo é o uso do verbo na narrativa. Ele é o termo do reconhecimento nos evangelhos: aparece negado em Mateus 17, quando se diz que não reconheceram Elias; negado em Lucas 24, quando os discípulos de Emaús caminham horas sem saber com quem estão; e afirmativo poucos versículos adiante, quando enfim o reconhecem. E aparece duas vezes no sermão do monte, na fórmula sobre conhecer as árvores pelos frutos.

αὐτὸν (autòn) — "o"

Pronome pessoal no acusativo, objeto direto do particípio.

Vale notar a posição: o pronome vem imediatamente depois do particípio, antes mesmo do sujeito. Em grego, essa antecipação costuma indicar destaque. Literalmente, a ordem é "e reconhecendo-o, os homens daquele lugar...".

Não convém extrair doutrina da ordem das palavras, que em grego é flexível. Registro porque o desenho da frase põe o reconhecido antes de quem reconhece.

οἱ ἄνδρες (hoi ándres) — "os homens"

Nominativo plural de anḗr, com artigo. Sujeito da frase.

A palavra designa especificamente o varão adulto, em oposição a ánthrōpos, que é o termo genérico para ser humano.

Mateus distingue os dois no mesmo capítulo: ao contar a multidão alimentada, escreve que os que comeram eram cerca de cinco mil ándres, além de mulheres e crianças.

Aqui, portanto, a escolha é consciente do idioma: quem reconhece, envia e traz são os varões da localidade — o que corresponde ao funcionamento do espaço público naquela sociedade. O texto registra e não comenta.

τοῦ τόπου ἐκείνου (toû tópou ekeínou) — "daquele lugar"

Genitivo, com o demonstrativo. Tópos é lugar, sítio, localidade — a palavra de onde vem o nosso "topografia".

O demonstrativo ekeînos é o de terceira pessoa: aquele, o de lá. Ele se repete na frase seguinte, aplicado à região.

Vale notar que a expressão não nomeia ninguém. No capítulo, Herodes, Herodias, João e Pedro têm nome; os agentes deste versículo são identificados apenas pela geografia.

ἀπέστειλαν (apésteilan) — "espalharam a notícia"

Aoristo indicativo ativo, terceira do plural, do verbo apostéllō: enviar, despachar, mandar com uma missão. É a raiz de apóstolos, o enviado.

A particularidade da frase é que o verbo está sem objeto direto. O grego diz apenas "enviaram para toda aquela região circunvizinha", sem dizer o que foi enviado.

As traduções completam de modos diferentes, e cada uma escolhe: mandaram, deram aviso, enviaram mensageiros, espalharam a notícia. Todas acrescentam algo, porque em português a frase não se sustenta sem complemento.

Registro como amostra clara de que traduzir é decidir. O grego permite tanto "mandaram gente" quanto "mandaram recado", e a indefinição não é preservável em português. A diferença prática é pequena.

εἰς ὅλην τὴν περίχωρον ἐκείνην (eis hólēn tḕn períchōron ekeínēn) — "por toda a região ao redor"

Preposição de direção com acusativo, o adjetivo hólos (inteiro, todo) e o substantivo períchōros.

Este último é formado por perí, ao redor, e chṓra, terra, território. Designa o cinturão de terras em volta de um ponto — os arredores.

Em Mateus a palavra reaparece uma vez, no capítulo 3, para descrever quem saía ao encontro de João Batista: de Jerusalém, de toda a Judeia e de toda a região ao redor do Jordão.

Vale reter que o adjetivo "toda" é enfático e não é obrigatório: o autor podia ter escrito apenas "para a região circunvizinha". A frase insiste na cobertura completa.

προσήνεγκαν (prosḗnenkan) — "trouxeram"

Aoristo indicativo ativo, terceira do plural, do verbo prosphérō: composto de prós, em direção a, e phérō, levar, carregar.

O sentido básico é trazer até, apresentar. E há um segundo campo de uso que vale conhecer: na versão grega do Antigo Testamento e sobretudo na Carta aos Hebreus, este é o termo técnico para oferecer sacrifício.

Mateus emprega o verbo nos dois sentidos. No sentido cultual, quando fala da oferta levada ao altar e da oferta que o leproso curado deve apresentar. No sentido comum, para as pessoas levadas a Jesus — os endemoninhados, o paralítico, o mudo, o cego, o menino epilético, as crianças.

A leitura que vê aí um vocabulário de oferta aplicado aos doentes é possível e sugestiva. Não é demonstrável, porém, e o próprio evangelista nunca a explicita: este é também o verbo corrente para levar alguém até alguém.

Há ainda um detalhe que merece registro cauteloso. A raiz do verbo, phérō, é a mesma que aparece no versículo 11 deste capítulo, quando a cabeça de João Batista é trazida num prato. É o verbo simples ali, e o composto aqui.

Marco o limite com clareza: phérō é o verbo mais comum do grego para levar e trazer, e a coincidência de raiz não prova intenção alguma. Registro porque quem lê o capítulo inteiro no original percebe a repetição, e porque o que é trazido nas duas pontas do capítulo — uma cabeça e uma multidão de doentes — não pode ser mais diferente.

πάντας τοὺς κακῶς ἔχοντας (pántas toùs kakōs échontas) — "todos os que estavam doentes"

Acusativo plural: o adjetivo pâs (todo), o artigo e um particípio presente do verbo ter, com o advérbio kakōs, mal.

Literalmente: "todos os que têm mal", ou "todos os que vão mal". O grego não usa aqui um substantivo para doença. É idiomatismo corrente, e a nossa língua tem construção parecida em "vai mal", "passa mal".

A expressão aparece em Mateus justamente nos relatos-resumo: no capítulo 4, no capítulo 8 e aqui. Nos episódios individuais, o evangelista especifica o mal; nos resumos, não especifica nada.

O advérbio kakōs vem de kakós, mau — a mesma raiz que aparece em palavras portuguesas como "cacofonia", som ruim.

Vale reter o "todos": não há triagem, não há critério, não há seleção. A frase descreve uma região entregando os seus doentes.

Nota — o versículo não tem verbo de fala nem de fé

Convém fechar apontando o que não está na frase grega.

Não há verbo de dizer. Ninguém fala neste versículo — nem os homens, nem Jesus, nem os discípulos. Toda a ação é de reconhecer, enviar e trazer.

Não há a palavra fé, nem qualquer termo do seu campo — nem crer, nem confiar, nem esperar.

Não há nome próprio, com uma única exceção implícita: o pronome que se refere a Jesus.

Não há indicação de tempo. Não sabemos se tudo isso levou uma manhã ou vários dias.

E não há reação de Jesus. Ele é reconhecido, é avisado a respeito, recebe os que lhe trazem — e o versículo termina sem que ele tenha feito ou dito coisa alguma. O verbo dele só virá no versículo seguinte, e mesmo ali, em voz passiva, aplicado aos que tocaram.

11. Conclusão

Este versículo tem três movimentos, e o mais interessante deles é o primeiro, porque desmente o que a leitura corrente supõe sobre o assunto.

O primeiro movimento é o reconhecimento. Gente que o evangelista não nomeia, não qualifica e não apresenta como seguidora de nada identifica Jesus assim que ele desembarca. O verbo empregado é o de saber de quem se trata — e é precisamente o que faltou dentro do barco, nove versículos antes, quando homens que dividiam a mesa com ele havia meses concluíram, ao vê-lo, que estavam diante de uma aparição. A comparação não deve ser moralizada, porque as condições diferiam bastante: uma noite de tempestade não é uma manhã de praia. Fica de pé, porém, uma observação que independe de julgamento e que atravessa todos os evangelhos: nesses relatos, o reconhecimento não é proporcional ao tempo de convivência. Discípulos falham nele em Emaús, Maria Madalena o toma por jardineiro, e a mesma palavra aparece três capítulos adiante, negada, para dizer que Israel não reconheceu o precursor — cuja morte, aliás, abriu este capítulo.

Convém, ainda assim, ser exato sobre o alcance desse reconhecimento. Ele é de identidade, e nada além disso. O texto não os chama de crentes, não informa o que pensavam a respeito dele e não usa a palavra fé em nenhum momento. Saber quem alguém é não implica uma posição sobre ele — e o próprio capítulo oferece a prova, porque Herodes também sabia de quem se tratava, e tirou disso outra conclusão.

O segundo movimento é o aviso, e ele guarda uma curiosidade que as traduções necessariamente escondem: o verbo grego está sem objeto. Diz-se que enviaram para toda aquela região circunvizinha, sem dizer o que enviaram. Cada tradução preenche à sua maneira — mandaram, deram aviso, enviaram mensageiros, espalharam a notícia —, e nenhuma consegue preservar a indefinição. É um exemplo pequeno e útil de que traduzir é sempre decidir. Quanto à operação em si, vale reconstruir o que ela custava: numa sociedade em que menos de um décimo da população lia, cada quilômetro percorrido pela notícia foi percorrido por pés, e o que chegava à aldeia vizinha era a palavra de um conhecido. A rede que cobriu a planície inteira num dia era feita, do começo ao fim, de crédito mútuo entre pessoas que se viam.

O terceiro movimento é o transporte, e é onde está o dado social mais pesado. Os doentes são objeto do verbo. Não caminham até: são trazidos, apresentados. O padrão se repete em Mateus com frequência — o paralítico deitado na cama, o servo que nunca aparece em cena, a filha curada à distância, o menino carregado pelo pai —, e num desses casos o evangelista chega a nomear o que aqui não nomeia, ao dizer que Jesus viu a fé dos que carregavam. Aqui não há nome teológico para o esforço. Há apenas o esforço, que era considerável: carregar gente doente por estradas de terra, em pleno período de trabalho agrícola, custa jornadas que ninguém tinha de sobra.

Vale reparar também no que mudou de escala em relação ao começo do capítulo. No versículo 13, as multidões ouvem falar e vão atrás por conta própria; a multidão se convoca. Aqui, ninguém vai sozinho: terceiros identificam, terceiros avisam, terceiros carregam. E, junto com o mecanismo, muda a composição — a primeira multidão é feita de gente que anda, e esta, em boa parte, de gente que não anda.

Resta o que o versículo não tem, e a lista é instrutiva. Não há verbo de fala: ninguém diz nada, nem Jesus, nem os discípulos, nem os moradores. Não há nome próprio. Não há indicação de quanto tempo aquilo levou. Não há diagnóstico — a expressão grega é um idiomatismo sem substantivo para doença, "todos os que estavam mal", e é a fórmula que Mateus reserva aos resumos. E não há triagem: o texto diz "todos".

Falta uma ausência maior, que só aparece na comparação. Mateus resume o trabalho de Jesus duas vezes, nos capítulos 4 e 9, com os mesmos três verbos: ensinando, pregando e curando. Neste fecho de capítulo, dos três, sobra um. Não convém fazer disso uma censura àquela gente, que tinha doentes em casa num mundo sem medicina e para quem procurar cura era o razoável — o texto não os repreende nem sugere que deveriam ter pedido outra coisa. Mas o dado é do texto e merece ficar registrado: ele foi reconhecido, e o que se pediu ao reconhecido foi a parte que se conseguia usar.

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Mateus 14:35

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