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Mateus 18:34

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✍️ Por Alberto Adriano·19 de setembro de 2026·⏱️ 9 min de leitura·👁 28 acessos
E, irado, o seu senhor o entregou aos torturadores, até que pagasse tudo o que lhe devia.
Dois guardas conduzem um homem de mãos acorrentadas por um corredor de pedra escuro, enquanto, ao fundo, um senhor de manto se afasta de costas.

Estudo


E, irado, o seu senhor o entregou aos torturadores, até que pagasse tudo o que lhe devia.

1. Introdução

O senhor que tinha tido compaixão fica irado e entrega o escravo aos torturadores, até que pague tudo o que lhe devia.

A dívida perdoada volta inteira. E dez mil talentos não se pagam em vida nenhuma, muito menos na prisão e sob tortura. O "até que" do versículo não tem um fim que se possa alcançar. O texto não diz mais do que isso, e não diz menos.

2. Contexto Histórico e Cultural

Torturar para cobrar

A tortura de devedores não é exagero da parábola. Fontes do mesmo século descrevem cobradores que torturavam para arrancar pagamento.

Filo de Alexandria (filósofo judeu do Egito, contemporâneo de Jesus), na obra Leis Especiais (livro III, 159-162), conta o caso de um cobrador de impostos da sua terra. Quando alguns devedores pobres fugiram, com medo da cobrança, ele prendeu as mulheres, os filhos, os pais e outros parentes deles e os torturou de todos os modos, para que revelassem onde estavam os fugitivos ou pagassem por eles. Segundo Filo, alguns morreram. O relato é de um adversário do cobrador e pode carregar nas tintas; mas Filo o conta como coisa sabida, e não como exceção incrível.

O devedor levado ao carrasco

Tito Lívio (historiador romano do tempo de Augusto), na sua história de Roma (livro II, 23), narra uma cena dos primeiros tempos da república. Um velho soldado aparece no fórum em farrapos. Durante a guerra, a fazenda dele fora saqueada; para pagar os impostos, tomou emprestado; os juros comeram tudo, e o credor o levou "não para a escravidão, mas para o cárcere de trabalho e para o carrasco". Diante do povo, o homem mostra as costas marcadas de chicotadas recentes.

A cena se passa séculos antes de Jesus, e Lívio a escreve com intenção política. O que ela mostra é o que um leitor romano do século I achava plausível: o devedor nas mãos do credor, preso e espancado.

O "torturador" como função

No mundo grego, a tortura era parte do processo judicial. Em Atenas, o depoimento de um escravo só valia em juízo se fosse tomado sob tortura, e o procedimento tinha nome próprio. Em Roma, a regra era parecida. Havia, portanto, gente cujo ofício era torturar. A palavra da parábola nomeia esse ofício. Não é uma palavra do vocabulário religioso: é do vocabulário da cadeia.

3. Análise Teológica do Versículo

"E, irado"

O mesmo senhor que teve compaixão no versículo 27 agora se ira. A parábola não põe uma emoção contra a outra, nem explica a passagem de uma para outra. Mostra as duas no mesmo personagem, provocadas por coisas diferentes: a súplica de um devedor, e a crueldade desse devedor com um colega.

A ira vem depois de ouvir os fatos (Mateus 18:31) e de dizer por que (Mateus 18:32-33). Não é explosão sem motivo.

"o senhor o entregou aos torturadores"

No versículo 25, a primeira sentença era a venda: o escravo, a mulher e os filhos iriam para o mercado para cobrir parte da dívida. Aquela sentença foi suspensa. Esta é outra, e mais dura. Ninguém é vendido; o escravo é entregue a quem o fará sofrer.

A mulher e os filhos não aparecem. A sentença recai só sobre ele.

Quem são os torturadores? O texto não diz nada além da palavra. Na história, são os funcionários da cadeia do rei, gente cujo ofício era castigar presos. Ao longo da história da interpretação, houve quem visse neles os demônios, ou os agentes de um castigo depois da morte, e quem lesse o "até que" como pena temporária de purificação. Nenhuma dessas leituras está no versículo. A parábola nomeia agentes de uma cadeia, e não descreve lugar nenhum. Transformá-los num lugar é pedir ao detalhe o que ele não diz.

"até que pagasse tudo o que lhe devia"

O "tudo" volta. Foi a palavra da promessa do escravo: "eu lhe pagarei tudo" (Mateus 18:26). O senhor, agora, o toma pela palavra. A promessa que ele fez para ganhar tempo vira a medida da sentença.

E o "até que" é o mesmo que o escravo aplicou ao colega: "o jogou na prisão, até que pagasse a dívida" (Mateus 18:30). O escravo recebe a regra que usou. Com uma diferença que torna a regra implacável: o colega devia cem denários, que se pagam; ele deve dez mil talentos, que não se pagam.

A pena é condicionada a um pagamento impossível. Dentro da lógica da parábola, ela não tem fim que se possa atingir. O texto não diz "para sempre". Também não diz que ela termina. Diz "até que pagasse tudo", e deixa o leitor fazer a conta.

O versículo é duro. Suavizá-lo — dizendo que o escravo acabaria saindo — não tem apoio no texto. Ampliá-lo — descrevendo o que os torturadores faziam, ou quanto tempo duraria — também não.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

O senhor

O rei da parábola. Compassivo no versículo 27, irado aqui. Julga sem tribunal de fora.

O escravo

O devedor dos dez mil talentos. A dívida perdoada volta a pesar sobre ele, inteira. Não diz nada.

Os torturadores

Os agentes a quem o senhor entrega o escravo. O texto não os descreve. Na história, pertencem à cadeia do rei.

Evento

A sentença final da parábola. É o último acontecimento da história; o versículo seguinte já é a aplicação.

5. Pontos de Ensino

A compaixão e a ira convivem no mesmo senhor

O texto não escolhe entre elas. Cada uma tem seu motivo.

O perdão foi desfeito

A dívida perdoada voltou inteira. É a consequência que a parábola descreve para quem recebeu perdão e o negou.

O escravo recebe a própria medida

Ele exigiu "até que pagasse" e é tratado "até que pague". Prometeu "tudo" e lhe cobram "tudo".

A pena não tem fim alcançável

A condição para sair é pagar o impagável. O texto não vai além disso.

6. Aspectos Filosóficos

A sentença do senhor devolve ao escravo a regra que ele aplicou: cobrança integral, prisão até o pagamento. A questão que isso levanta é a do castigo medido pela régua do próprio culpado. Há nisso uma forma de justiça que dispensa lei de fora — o condenado é julgado pelo critério que ele mesmo escolheu para julgar o outro. Mas a mesma régua, aplicada a uma dívida sem medida, produz uma pena sem fim. A parábola não resolve essa tensão entre a justiça do espelho e a desproporção do resultado. Deixa as duas lado a lado.

7. Aplicações Práticas

A régua que se usa com os outros

O escravo escolheu a regra da cobrança integral para o colega, e a mesma regra foi usada com ele. O versículo pede que quem cobra se pergunte que medida está usando — e se aceitaria ser medido por ela.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

O que aconteceu com o companheiro preso?

O texto não diz. A parábola termina sem soltá-lo. O senhor castiga o escravo, mas não se conta que a dívida de cem denários tenha sido perdoada, nem que o colega tenha saído da prisão. A história se fecha sobre o escravo e deixa o outro onde estava.

Por que o escravo não suplica de novo?

O texto não diz. Diante do rei, da primeira vez, ele caiu no chão e pediu. Diante da sentença, a parábola não registra palavra nenhuma dele.

9. Conexão com Outros Textos

A promessa que virou medida

Mateus 18:26 — "Então o escravo caiu e se prostrou diante dele, dizendo: 'Senhor, tenha paciência comigo e eu lhe pagarei tudo.'"

A regra que o escravo aplicou

Mateus 18:30 — "Mas ele não quis. Em vez disso, foi e o jogou na prisão, até que pagasse a dívida."

Outro rei que se enfurece numa parábola

Mateus 22:7 — "Ao saber disso, o rei ficou furioso. Enviou os seus exércitos, destruiu aqueles assassinos e incendiou a cidade deles."

A medida devolvida

Mateus 7:2 — "Porque com o juízo com que julgam, vocês serão julgados; e com a medida com que medem, também serão medidos."

O juízo sem misericórdia

Tiago 2:13 — "porque o julgamento será sem misericórdia sobre quem não agiu com misericórdia; mas a misericórdia triunfa sobre o julgamento."

10. Original Grego e Análise

Texto em português

E, irado, o seu senhor o entregou aos torturadores, até que pagasse tudo o que lhe devia.

Texto grego (Textus Receptus)

καὶ ὀργισθεὶς ὁ κύριος αὐτοῦ παρέδωκεν αὐτὸν τοῖς βασανισταῖς, ἕως οὗ ἀποδῷ πᾶν τὸ ὀφειλόμενον αὐτῷ.

Transliteração

kai orgistheis ho kyrios autou paredōken auton tois basanistais, heōs hou apodō pan to opheilomenon autō.

Análise palavra por palavra

καὶ ὀργισθεὶς — kai orgistheis, "e, irado".

Particípio aoristo passivo de orgizō, "irar", que na voz passiva significa "irar-se, ficar com raiva". O aoristo marca a entrada no estado: ele ficou irado. É o verbo de Mateus 5:22, "qualquer um que se irar contra seu irmão", e do rei da parábola do banquete, que "ficou furioso" (Mateus 22:7). A ABC traduz "irado", que é o sentido do grego.

ὁ κύριος αὐτοῦ — ho kyrios autou, "o senhor dele".

παρέδωκεν αὐτὸν — paredōken auton, "entregou-o".

Aoristo de paradidōmi, "entregar nas mãos de alguém". É o verbo técnico de entregar um preso a uma autoridade, o mesmo de Mateus 5:25, "o adversário o entregue ao juiz, e o juiz ao oficial".

τοῖς βασανισταῖς — tois basanistais, "aos torturadores".

Basanistēs é o substantivo de agente de basanizō, "torturar, atormentar": "aquele que tortura". No Novo Testamento, a palavra só aparece aqui. A origem da família, que vem da pedra usada para testar o ouro, está no estudo de Mateus 14:24. No grego da época, o basanistēs era quem aplicava a tortura num interrogatório ou numa prisão. Não é palavra de linguagem religiosa.

ἕως οὗ ἀποδῷ — heōs hou apodō, "até que pague".

A mesma construção do versículo 30: "até o momento em que", com o subjuntivo aoristo de apodidōmi, "pagar". O fim da pena depende de um acontecimento que pode não acontecer.

πᾶν τὸ ὀφειλόμενον αὐτῷ — pan to opheilomenon autō, "tudo o que lhe era devido".

Pan, "tudo", retoma o panta da promessa do versículo 26 e o pasan, "toda", do versículo 32. To opheilomenon, "o que é devido", é a expressão do versículo 30. Autō, "a ele", ao senhor: a dívida volta a ser uma dívida com o rei. A tradução portuguesa não traz esse "a ele".

11. Conclusão

O versículo leva a três conclusões.

Na parábola, o perdão recebido pode ser perdido. A dívida que tinha sido perdoada volta, inteira, sobre quem se recusou a perdoar. A parábola não diz isso como teoria; mostra acontecendo.

O escravo é tratado pela regra que ele mesmo aplicou. "Tudo" era a palavra da sua promessa; "até que pagasse" era a sua sentença para o colega. Nada da pena vem de fora dele.

A pena não tem saída que se possa alcançar. Dez mil talentos não se pagam. O versículo não descreve a pena além disso, e não autoriza nem a suavizá-la nem a enfeitá-la. O que ele quer dizer para quem ouve, Jesus dirá no versículo seguinte.

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