📖 Navegar na Bíblia:
‹

Mateus 18:30

›
✍️ Por Alberto Adriano·19 de setembro de 2026·⏱️ 9 min de leitura·👁 20 acessos
Mas ele não quis. Em vez disso, foi e o jogou na prisão, até que pagasse a dívida.
Um guarda conduz um servo de mãos amarradas para a porta escura de uma cadeia de tijolos de barro, enquanto outro homem, de costas, se afasta pela rua.

Estudo


Mas ele não quis. Em vez disso, foi e o jogou na prisão, até que pagasse a dívida.

1. Introdução

O escravo recusa o prazo e manda o colega para a prisão até que pague.

O rei, com ele, tinha feito o contrário: soltou-o. E a prisão cria um problema que o versículo não resolve: preso, o devedor não trabalha, e sem trabalhar não paga. A dívida pagável do versículo anterior fica, de repente, sem caminho para ser paga.

2. Contexto Histórico e Cultural

A prisão por dívida no Egito dos Ptolomeus

O que o escravo faz tinha procedimento conhecido no mundo em que o evangelho circulou. Os papiros do Egito, onde o clima seco conservou milhares de contratos, mostram como se prendia um devedor.

Muitos contratos de empréstimo do período ptolemaico (a dinastia grega que governou o Egito de 305 a 30 a.C.) traziam uma cláusula de execução: se o devedor não pagasse no prazo, o credor podia cobrar "da pessoa dele e de todos os seus bens", como se já houvesse sentença. A pessoa do devedor respondia pela dívida junto com o patrimônio.

Quem executava era um funcionário público, o praktōr ("cobrador", o executor das dívidas). Havia um cobrador para as dívidas com o Estado e outro para as dívidas entre particulares, chamado praktōr xenikōn, algo como "cobrador das causas particulares". Ele podia prender o devedor e mantê-lo no praktoreion, a cadeia ligada ao seu escritório, até que alguém pagasse.

O rei limita a prisão, e não por piedade

Em 118 a.C., o rei Ptolomeu VIII e as duas rainhas Cleópatras publicaram um grande decreto de anistia, conservado num papiro achado em Tebtúnis, no Fayum (o papiro Tebtúnis 5). Entre outras medidas, ele protegia os camponeses das terras do rei e os que trabalhavam na coleta de impostos contra a execução sobre a pessoa por dívidas particulares.

O motivo era prático. Um camponês preso não planta, e o Estado precisava da safra. A regra reconhecia o que a parábola deixa ver: a cadeia tira do devedor o único meio que ele tinha de pagar.

O édito de Tibério Júlio Alexandre

A prática sobreviveu à conquista romana. Em 6 de julho do ano 68, o prefeito romano do Egito, Tibério Júlio Alexandre (um judeu de Alexandria, sobrinho do filósofo Filo, que abandonou a religião dos pais), publicou um édito contra vários abusos da administração. O texto foi gravado na entrada do templo de Hibis, no oásis de Kharga, e é um dos mais longos éditos de governador que chegaram até nós.

Um dos abusos era exatamente este: homens livres presos por dívidas particulares. O prefeito manda que a cobrança seja feita "sobre os bens, e não sobre os corpos", e diz seguir nisso a vontade do imperador Augusto. A cadeia pública fica para os criminosos; os devedores do Estado vão para o praktoreion.

Que a regra tenha de ser repetida quase um século depois de Augusto mostra que a prisão por dívida continuava a acontecer. É provável que o ouvinte da parábola a conhecesse de perto.

Uma palavra que passou para os evangelhos

Lucas conhece esse funcionário pelo nome. No paralelo de Mateus 5:25, Lucas 12:58 fala do juiz que entrega o devedor ao praktōr, e do praktōr que o lança na prisão. É o título egípcio, usado sem explicação.

3. Análise Teológica do Versículo

"Mas ele não quis"

O texto não diz que ele não podia esperar. Diz que não quis. A recusa é de vontade, e o verbo grego descreve uma vontade que persiste: ele não queria, e continuou não querendo enquanto o outro suplicava.

A parábola não oferece nenhuma razão: nem pressa, nem necessidade, nem desconfiança da promessa. A falta de motivo deixa a recusa sozinha diante do leitor.

"Em vez disso, foi e o jogou na prisão"

"Foi": ele se afasta, ou vai tratar do caso. A parábola pula o procedimento. Um escravo não tinha cadeia própria; para prender alguém por dívida, precisava do aparelho público descrito no item 2. O texto encurta tudo num verbo só, "jogou".

A comparação com o rei é inevitável. O rei podia vender o devedor com mulher e filhos (Mateus 18:25), e acabou por soltá-lo (Mateus 18:27). O escravo, que acabara de ser solto, prende. O verbo da libertação que ele recebeu é o avesso do verbo que ele aplica.

"até que pagasse a dívida"

A prisão não é pena, é pressão. Ela não substitui o pagamento; espera por ele. Quem pagaria era, em geral, a família ou os amigos do preso, que se cotizavam para tirá-lo de lá.

Aqui a lógica da prisão entra em choque com o pedido do versículo anterior. O companheiro pediu tempo para pagar. O escravo lhe dá tempo, de certo modo — o tempo da cadeia —, mas um tempo que não serve para trabalhar. A promessa que era possível ficou impossível pela própria forma da cobrança.

A expressão "até que pagasse" volta, quase igual, no versículo 34. A prisão até o último centavo já tinha aparecido no Sermão da Montanha, no estudo de Mateus 5:26.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Aquele escravo

Recusa o prazo e manda prender o colega.

O companheiro de escravidão

Vai para a prisão. Não diz mais nada na parábola.

A prisão

O texto não diz qual. No mundo da época, a prisão por dívida era cumprida numa cadeia pública, ligada ao funcionário que executava as cobranças.

Evento

A recusa e a prisão. É o fim da cena entre os dois escravos.

5. Pontos de Ensino

A recusa é de vontade

O escravo não quis. Nenhuma razão é dada.

O solto prende

Quem foi libertado da dívida e da venda manda o colega para a cadeia.

A prisão impede o pagamento que exige

Preso, o devedor não trabalha. A cobrança se torna o obstáculo ao que ela cobra.

6. Aspectos Filosóficos

A cena levanta uma pergunta antiga do direito: o corpo de uma pessoa pode responder por uma dívida em dinheiro? O mundo antigo respondia que sim, com limites que os governantes iam impondo. O édito de 68 formulou a resposta contrária numa frase: cobra-se dos bens, não dos corpos. O direito moderno ficou com ela. A Constituição brasileira de 1988 proíbe a prisão civil por dívida (artigo 5º, inciso LXVII), com a exceção de quem deixa de pagar pensão alimentícia por vontade própria. Separar a pessoa do patrimônio foi uma conquista lenta — e a parábola mostra o que acontecia antes dela.

7. Aplicações Práticas

Não cobrar de um jeito que impede o pagamento

Há cobranças que tornam o pagamento mais difícil: expor o devedor, cortar a relação que lhe permitiria se reerguer, tirar dele o trabalho ou a reputação de que depende. O versículo mostra esse erro em estado puro. Quem quer receber, e não só punir, deixa ao outro o meio de pagar.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Quem pagaria a dívida do preso?

O texto não diz. No costume da época, seriam a família ou os amigos. Os companheiros de escravidão, no versículo seguinte, veem tudo, e não se diz que tenham tentado pagar. Vão ao senhor.

O escravo imaginou que o senhor ficaria sabendo?

O texto não diz. Ele age como se a cena com o rei estivesse encerrada e nada do que fizesse depois chegasse até lá. O versículo seguinte mostra que chegou.

9. Conexão com Outros Textos

O rei tinha soltado o escravo

Mateus 18:27 — "O senhor daquele escravo teve compaixão dele, soltou-o e lhe perdoou a dívida."

A mesma expressão, aplicada a ele

Mateus 18:34 — "E, irado, o seu senhor o entregou aos torturadores, até que pagasse tudo o que lhe devia."

A prisão por dívida no Sermão da Montanha

Mateus 5:25-26 — "Entre em acordo depressa com o seu adversário, enquanto está com ele no caminho, para que o adversário não o entregue ao juiz, e o juiz ao oficial, e você seja lançado na prisão. Em verdade digo a você: de modo nenhum sairá dali enquanto não pagar o último centavo."

O cobrador que lança na prisão

Lucas 12:58 — "Pois quando fores com teu adversário à autoridade, procura te livrares dele no caminho, para que ele não venha a te levar ao juiz, e o juiz te entregue ao oficial de justiça, e o oficial de justiça te lance na prisão."

A lei que proibia tratar o irmão empobrecido como escravo

Levítico 25:39 — "E quando teu irmão empobrecer, estando contigo, e se vender a ti, não lhe farás servir como servo."

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Mas ele não quis. Em vez disso, foi e o jogou na prisão, até que pagasse a dívida.

Texto grego (Textus Receptus)

ὁ δὲ οὐκ ἤθελεν, ἀλλ’ ἀπελθὼν ἔβαλεν αὐτὸν εἰς φυλακὴν, ἕως οὗ ἀποδῷ τὸ ὀφειλόμενον.

Transliteração

ho de ouk ēthelen, all' apelthōn ebalen auton eis phylakēn, heōs hou apodō to opheilomenon.

Análise palavra por palavra

ὁ δὲ οὐκ ἤθελεν — ho de ouk ēthelen, "mas ele não queria".

Ho de, "mas ele", é o modo grego de mudar o sujeito para quem acabou de ouvir. Ēthelen é o imperfeito de thelō, "querer". O imperfeito descreve uma disposição que dura: não um "não" dito uma vez, mas uma recusa mantida.

ἀλλ’ — all', "mas, ao contrário".

Alla, com a vogal final cortada diante de outra vogal. É a adversativa forte do grego: depois de uma negação, introduz o que se fez em lugar do que se negou.

ἀπελθὼν — apelthōn, "tendo ido embora".

Particípio aoristo de aperchomai, "afastar-se, ir". O verbo sugere que ele deixa o lugar da súplica.

ἔβαλεν αὐτὸν εἰς φυλακὴν — ebalen auton eis phylakēn, "lançou-o na prisão".

Ebalen, aoristo de ballō, "lançar, jogar". É o mesmo verbo de Mateus 5:25, "você seja lançado na prisão". Phylakē vem de phylassō, "guardar, vigiar": é o lugar onde alguém é guardado, e também o turno de guarda da noite, a "vigília" de Mateus 14:25. A palavra diz o que a prisão por dívida era: custódia, não castigo.

ἕως οὗ ἀποδῷ — heōs hou apodō, "até que pague".

Heōs hou, "até o momento em que", com o subjuntivo aoristo de apodidōmi. A construção põe o fim da prisão num acontecimento futuro e incerto: ninguém sabe quando, nem se, ele pagará. A mesma construção volta no versículo 34.

τὸ ὀφειλόμενον — to opheilomenon, "o que é devido".

Particípio presente passivo de opheilō, no neutro, com artigo: "a coisa devida". O valor exato, sem acréscimo.

11. Conclusão

O versículo leva a duas conclusões.

O escravo faz com o colega o contrário do que o rei fez com ele. O rei, que podia vender, soltou. O escravo, que tinha sido solto, prende. A parábola não precisa comentar a inversão.

A cobrança do escravo trabalha contra o próprio pagamento. O companheiro pediu tempo para pagar, e recebe um tempo que não serve para isso. O que está em jogo já não é receber: é não abrir mão.

Comentários

Seja o primeiro a comentar.

Deixe um comentário

Mateus 18:30

Seu comentário passa por moderação antes de aparecer.

A Bíblia Comentada
© A Bíblia Comentada 2026. Design by Top Level
📖 Versículos comentados
Bíblia2.888 / 31.102 9,29%
Antigo Testamento2.114 / 23.145 9,13%
Novo Testamento774 / 7.957 9,73%