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Mateus 18:33

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✍️ Por Alberto Adriano·19 de setembro de 2026·⏱️ 9 min de leitura·👁 20 acessos
Você também não devia ter tido misericórdia do seu companheiro de escravidão, assim como eu tive misericórdia de você?”
Um senhor sentado, com a mão estendida em pergunta, encara um servo de pé e calado diante dele; pela janela, ao fundo, vê-se a porta de uma prisão.

Estudo


Você também não devia ter tido misericórdia do seu companheiro de escravidão, assim como eu tive misericórdia de você?”

1. Introdução

O senhor termina a acusação com uma pergunta, e não com uma sentença: o escravo não devia ter feito com o colega o que o senhor fez com ele?

A pergunta tem a resposta embutida. Ela diz de onde vinha a obrigação do escravo — do perdão que ele recebeu — e para quem ela apontava: não para o senhor, mas para o colega.

2. Contexto Histórico e Cultural

Um sábio judeu já tinha feito a mesma pergunta

Cerca de dois séculos antes de Jesus, um mestre de Jerusalém chamado Jesus ben Sira escreveu um livro de conselhos que o neto dele traduziu para o grego pouco depois de 132 a.C. O livro é conhecido como Eclesiástico, ou Sirácida. Faz parte da Bíblia das igrejas católica e ortodoxa, e as igrejas protestantes o consideram um livro fora do cânon. Para o fundo histórico, isso não importa: é um texto judeu, lido na época de Jesus.

No capítulo 28, Ben Sira escreve (em tradução nossa, do grego):

"Perdoe ao seu próximo a injustiça que ele fez, e então, quando você orar, os seus pecados serão perdoados. Um homem guarda raiva contra outro homem, e pede ao Senhor que o cure? Não tem misericórdia de um homem igual a ele, e pede perdão pelos próprios pecados? Ele, que é carne, guarda rancor: quem vai obter o perdão dos pecados dele?" (Eclesiástico 28:2-5)

A semelhança com a parábola é grande. Ben Sira fala de alguém que não tem misericórdia "de um homem igual a ele" — o que a parábola chama de companheiro de escravidão. E a palavra grega que ele usa para "misericórdia" é da mesma família do verbo da pergunta do senhor. O argumento também é o mesmo: quem pede misericórdia para si e a nega a um igual está em contradição.

O que a parábola acrescenta

Ben Sira ordena primeiro o perdão ao próximo e promete depois o perdão de Deus. Na parábola, a ordem se inverte: o perdão do senhor vem antes, sem condição anunciada, e a misericórdia com o colega é cobrada como consequência dele. Ben Sira diz "perdoe, para ser perdoado". O senhor diz "você foi perdoado; não devia perdoar?".

Não é possível provar que Jesus conhecesse o livro de Ben Sira. É provável que a ideia circulasse no judaísmo da época, e a parábola a conta com outra ordem.

3. Análise Teológica do Versículo

"Você não devia"

A fala do senhor tem forma de pergunta, mas só admite uma resposta. O "não devia...?" é o jeito de dizer "você devia", deixando ao próprio escravo a tarefa de concordar.

A obrigação aparece aqui pela primeira vez na parábola. E ela não é para com o senhor. O senhor não diz "você me devia gratidão" nem "você devia ter pensado em mim". Diz que o escravo devia algo ao colega. O perdão recebido criou uma obrigação que aponta para o lado, e não para cima.

"ter tido misericórdia do seu companheiro de escravidão"

No versículo 27 a tradução diz "compaixão"; aqui diz "misericórdia", porque o grego troca de palavra. No versículo 27, o texto descreve o que o senhor sentiu com o verbo das entranhas, o da comoção por dentro. Aqui, na boca do próprio senhor, a palavra é "ter misericórdia": o verbo dos pedidos de socorro em Mateus, "tem misericórdia de nós" (Mateus 9:27, 17:15).

A mudança tem uma consequência. O que o senhor cobra do escravo tem nome conhecido de qualquer ouvinte: é a misericórdia que um necessitado pede e que qualquer um pode dar. A misericórdia como marca de quem é feliz no Reino está no estudo de Mateus 5:7.

"Do seu companheiro de escravidão": a palavra que atravessou a parábola volta aqui, pela última vez, na boca do senhor. O colega é chamado pelo que ele é em relação ao escravo — um igual.

"assim como eu tive misericórdia de você?"

A medida da obrigação é o que o escravo recebeu. O senhor não pede ao escravo que perdoe cem denários por serem poucos, nem por ser bonito perdoar. Pede que ele faça o que foi feito com ele.

O grego tem dois "também": "não devia também você ter misericórdia, como também eu tive de você?". A tradução guarda o primeiro. Os dois põem o senhor e o escravo lado a lado, fazendo a mesma coisa.

A pergunta não recebe resposta. O escravo não fala, e a parábola passa direto à sentença. A pergunta fica sem ninguém que a responda dentro da história.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

O senhor

Continua falando. Encerra a acusação com a única pergunta que faz em toda a parábola.

O escravo

Calado. Não responde.

O companheiro de escravidão

Ausente, na prisão. É dele que se fala, e é para ele que a obrigação aponta.

5. Pontos de Ensino

O perdão recebido cria uma obrigação

O senhor não perdoou para ser pago de volta. Mas o perdão deixou uma obrigação.

A obrigação aponta para o colega

O escravo não devia algo ao senhor; devia algo ao igual.

A medida é o que foi recebido

"Assim como eu": o modelo não é uma regra, é um ato que o escravo conheceu na própria pele.

O que se cobra é misericórdia

O senhor nomeia o que faltou com a palavra de quem pede socorro.

6. Aspectos Filosóficos

A pergunta do senhor levanta a questão de saber se um presente pode obrigar. O senso comum costuma responder que o presente obriga, quando obriga, em direção a quem deu: gratidão, retribuição, lealdade. O senhor não pede nada disso para si. A obrigação que ele descreve corre para um terceiro — o colega que nada tinha a ver com o perdão. Nessa ideia, quem recebe um bem que não podia pagar não quita a dívida devolvendo, e sim passando adiante o que recebeu.

7. Aplicações Práticas

Passar adiante a paciência que se recebeu

A aplicação é direta. Quem já teve um prazo estendido, um erro relevado, uma segunda chance, tem diante de quem lhe pede a mesma coisa uma obrigação que não depende de simpatia. O versículo mede essa obrigação pelo que foi recebido, e não pelo mérito de quem pede.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

O escravo teria alguma obrigação se não tivesse sido perdoado?

O texto não diz. O argumento do senhor se apoia no "assim como eu": a obrigação nasce do perdão recebido. Se o escravo teria de ter misericórdia do colega mesmo sem ter sido perdoado, é outra pergunta, que a parábola não faz.

Por que o senhor pergunta, em vez de simplesmente condenar?

A parábola não explica. O efeito da pergunta, porém, é visível: ela obriga o escravo — e quem ouve a história — a dar a resposta que ninguém dá em voz alta.

9. Conexão com Outros Textos

A misericórdia como bem-aventurança

Mateus 5:7 — "Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia."

Misericórdia acima do rito

Mateus 9:13 — "Vão, porém, e aprendam o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifício. Porque eu não vim chamar justos, mas sim pecadores ao arrependimento."

O mesmo "vocês deviam", ligado à misericórdia

Mateus 23:23 — "Ai de vocês, escribas e fariseus, hipócritas! Porque dão o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, mas desprezam o que é mais importante na Lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Vocês deviam praticar estas coisas, sem descuidar daquelas."

A misericórdia com a medida da de Deus

Lucas 6:36 — "Sede misericordiosos, como também o vosso Pai é misericordioso."

Efésios 4:32 — "Em vez disso, sede benignos uns com os outros, misericordiosos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus vos perdoou em Cristo."

O "também nós devemos"

1 João 4:11 — "Amados, se Deus assim nos amou, também nós devemos amar uns aos outros."

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Você também não devia ter tido misericórdia do seu companheiro de escravidão, assim como eu tive misericórdia de você?”

Texto grego (Textus Receptus)

οὐκ ἔδει καὶ σὲ ἐλεῆσαι τὸν σύνδουλόν σου, ὡς καὶ ἐγώ σε ἠλέησα;

Transliteração

ouk edei kai se eleēsai ton syndoulon sou, hōs kai egō se ēleēsa?

Análise palavra por palavra

οὐκ ἔδει — ouk edei, "não era preciso?", "não devia?".

Edei é o imperfeito de dei, verbo impessoal que indica necessidade ou obrigação: "é preciso". Com ouk numa pergunta, o grego espera a resposta "sim".

Em português, "devia" soa parente de "dívida". No grego não é: a dívida da parábola é opheilō, e a obrigação aqui é dei, o verbo da necessidade. É o dei de Mateus 16:21, "era necessário que ele fosse a Jerusalém", e o edei de Mateus 23:23, "vocês deviam praticar estas coisas" — ali também ligado à misericórdia.

καὶ σὲ — kai se, "também você".

Kai aqui não é "e", mas "também". Se, "você", no acusativo, sujeito do infinitivo. A tradução portuguesa não traz esse "também".

ἐλεῆσαι — eleēsai, "ter misericórdia".

Infinitivo aoristo de eleeō, "ter misericórdia, ter pena e agir por isso". Da mesma família são eleos, "misericórdia", e eleēmōn, "misericordioso" (Mateus 5:7). É o verbo do grito eleēson, "tem misericórdia", dos cegos e dos pais aflitos em Mateus (Mateus 9:27, 15:22, 17:15).

No versículo 27, a comoção do senhor foi descrita com outro verbo, splanchnizomai, cujo sentido está no estudo de Mateus 14:14. A ABC traduz o versículo 27 por "compaixão" e este por "misericórdia", e assim a troca de verbo fica visível.

τὸν σύνδουλόν σου — ton syndoulon sou, "o seu companheiro de escravidão".

A quarta e última ocorrência de syndoulos na parábola, agora com "seu": o senhor lembra ao escravo de quem se trata.

ὡς καὶ ἐγώ — hōs kai egō, "como também eu".

Hōs, "como, assim como": a comparação. Kai egō, "também eu", com o pronome expresso, o que em grego dá ênfase. Os dois kai da frase se respondem: também você, como também eu.

σε ἠλέησα — se ēleēsa, "tive misericórdia de você".

Aoristo de eleeō: um ato concluído, o perdão do versículo 27. O mesmo verbo nas duas metades da frase: o que se pedia do escravo é o que o senhor fez.

11. Conclusão

O versículo leva a três conclusões.

O perdão que o escravo recebeu não o deixou sem obrigações. Não lhe cobrava pagamento, mas lhe cobrava um modo de agir. O senhor não perdoou para ser pago de volta, e mesmo assim o perdão teve consequência.

A obrigação não aponta para quem perdoou, e sim para os outros. O senhor não reclama gratidão. Reclama misericórdia com o colega. O que o escravo devia ao senhor, ele devia pagar ao igual.

A medida da misericórdia devida é a misericórdia recebida. Não se trata de perdoar pouco por ser pouco. Trata-se de fazer "assim como" foi feito — e o escravo sabia exatamente como tinha sido.

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